Sessão nº 9
A simbologia e os significados na Bíblia (3)

 

Preâmbulo

Como cristãos em permanente construção, temos de estar preparados para um olhar poético sobre a Bíblia. A revelação de Deus pelos autores sagrados, pelos profetas e fundamentalmente por Jesus de Nazaré precisa desse olhar poético, revelação por imagens, para captarmos o que é fundamental. Caso contrário, ficamos com uma experiência de fé infantil. As imagens que captámos na catequese de infância têm de ser desenvolvidas. Não podem acompanhar-nos, sem mais, ao longo de toda a nossa vida. Desenvolvemos todas as dimensões da nossa vida, e bem, no plano biológico, intelectual, profissional, cultural, etc. e a parte respeitante à Fé fica na etapa dos 10 anos.  Não crescemos nem em sabedoria, nem em estatura e sobretudo em graça. Temos de nos abeirar das escrituras, da celebração, da comunidade, como que deixando-nos a crescer na mediação do Espírito.

            A Bíblia é uma biblioteca escrita ao longo de mais de 1300 anos – seculo XI a. C. /século II d. C. Atravessam todos os livros da Bíblia povos, culturas, poderes civis, militares e religiosos diversos, etc… Além disso, o AT foi originariamente escrito em hebraico/aramaico. Temos de ser capazes de perceber o significado de alguns significantes. Também o lado das imagens simbólicas de culturas marcadas pelo saber disponível há 2000/3000 anos. Sem isso, não conseguimos ler a Bíblia.

É, por isso, muito importante “TRADUZIR” a letra para o significado último. Fica mais fácil perceber a Bíblia e, principalmente, o AT.

O que significa mar na Bíblia?

Percebamos, antes de tudo, que à época não se conhecia quase nada do mundo científico. Não se sabia que a terra era redonda, girava à volta do Sol. Que o mar tinha fundo. Não se sabia o que existia debaixo das águas do mar. Nunca ninguém lá tinha ido para contar. Sabia-se, sim, que quem caía ao mar, ou voltava morto, ou não mais voltava. Sabia-se, por observação direta, que havia um espaço para cima – o firmamento – e um espaço para baixo que não se via e, portanto, não se conhecia. Na Bíblia, nunca se fala em fundo do mar, mas em “abismo das águas”. E é, pois, no “abismo das águas”, que habita a morte/o mal. É esse o significado associado a mar na Bíblia. Nada tem a ver com o oceano. Há, ainda hoje, línguas nativas nos vários continentes em que a palavra mar tem dois significados – oceano e morte/mal.

Nos Evangelhos, Jesus e o mar são inimigos. O mar sempre a “fazer-se” a Jesus e Jesus sempre a “desafiar” o mar. O caminhar de Jesus sobre as águas não é magia nem poderes sobrenaturais das sandálias. Significa que a morte e o mal não o vencem. Não o “puxam” /” arrastam” para o domínio da morte. Jesus é mais forte que o mal e a morte. Se percebermos bem isto, fica tudo mais fácil de perceber:

– Porque diz primeiro aos apóstolos e depois a todos os discípulos, que serão “pescadores de homens” – deverão resgatá-los (todos os homens) do mal e da morte;

– A passagem do mar dos Juncos, também conhecida por passagem do mar Vermelho – descrita no Êxodo. Obviamente que não se trata de duas paredes de H2O – uma de cada lado – que se abrem, mas remete-nos para a simbólica do resgate do mal e da morte, uma cortina que é rasgada para um povo que Deus nunca abandonou. Talvez as imagens hollywoodescas que vemos no cinema ainda atrapalhem mais;

– Agora, também fica mais fácil perceber como termina o livro do Apocalipse, relatando a Criação ao chegar ao seu culminar de plenitude: Apocalipse 21, 1 – “Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia.”

 

Algumas referências a mar na Bíblia:   

Nada tem a ver com a etimologia da palavra. Vimos isso atrás. Tudo tem a ver com a simbólica do tempo (1 000 a. C/100 d.C.).  

Mas, antes da interpretação dum texto bíblico, localizemos passagens bíblicas onde esta palavra – mar – aparece (apenas uma amostra – depois, onde encontrarem já sabem como fazer/perceber):

 

Êxodo 14, 15-16 -Disse então o Senhor a Moisés: “Por que estás clamando por mim? Diz aos israe­litas que sigam em frente. Ergue a tua vara e es­tende a mão sobre o mar, e as águas se dividirão para que os israelitas atravessem o mar em terra seca.

Êxodo 14, 22-.23 – …e os israelitas atravessaram pelo meio do mar em terra seca, tendo uma parede de água à direita e outra à esquerda. Os egípcios perseguiram-nos, e todos os cavalos, carros de guerra e cavaleiros do faraó foram atrás deles até o meio do mar.Êxodo 14, 26 – Mas os israelitas atravessaram o mar pisando terra seca, tendo uma parede de água à direita e outra à esquerda.

Êxodo 14, 27-28 – Moisés estendeu a mão sobre o mar, e, ao raiar do dia, o mar voltou ao seu lugar. Enquanto os egípcios fugiam, foram de encontro às águas, e o Senhor lançou-os ao mar. As águas volta­ram e cobriram os carros de guerra e os seus cavaleiros, todo o exército do faraó que havia perseguido os israelitas mar adentro. Nin­guém sobreviveu.

Êxodo 15, 1 – Então Moisés e os israelitas entoa­ram este cântico ao Senhor: “Cantarei ao Senhor, pois triunfou gloriosamente. Lançou ao mar o cavalo e o seu cavaleiro.

Jonas 1, 4 – O Senhor, porém, fez soprar um forte vento sobre o mar, e caiu uma tempestade tão violenta que o barco ameaçava despedaçar-se. Enquanto isso, Jonas, que tinha descido ao porão e se deitara, dormia profundamen­te.

Jonas 1, 11-12 -Visto que o mar estava cada vez mais agitado, eles perguntaram-lhe: “O que devemos fazer contigo, para que o mar se acalme?” Respondeu ele: “Agarrem-me e atirem-me ao mar, e ele se acalmará. Pois eu sei que é por minha causa que esta violenta tempestade caiu sobre nós”.

Isaías 50, 2 – Quando eu vim, por que não encontrei ninguém? Quando eu chamei, por que ninguém respondeu? Será que meu braço era curto demais para resgatá-los? Será que me falta a força para redimi-los?
Com uma simples repreensão eu seco o mar, transformo rios em deserto; os seus peixes apodrecem por falta de água e morrem de sede.

Isaías 51, 15 – Pois eu sou o Senhor, o teu Deus, que agito o mar para que ondas rujam; Senhor dos Exércitos é o meu nome.

Jeremias 31, 35 – Assim diz o Senhor, aquele que designou o sol para brilhar de dia, que decretou que a lua
e as estrelas brilhem de noite, que agita o mar para que as suas ondas rujam; o seu nome é o Senhor dos Exércitos:

Jeremias 51, 42 – O mar levantar-se-á sobre a Babilonia; as suas ondas agitadas a cobrirão.

Marcos 4, 39 – E Ele, levantando-se, repreendeu severamente o vento e disse ao mar: «Cala-te! Fica quieto». O vento amainou e fez-se grande bonança

Marcos 4, 41 – Sentiram um grande temor e diziam uns aos outros: «Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?».

Mateus 8, 24 – E eis que surgiu uma grande agitação no mar, de tal modo que as ondas encobriam o barco. Ele, porém, dormia.

Mateus 8, 27 – Os homens admiraram-se, dizendo: «Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?».

Mateus 13, 47 – «O reino dos céus é também semelhante a uma rede que, lançada ao mar, juntou todo o género de peixes»

Mateus 17, 27 – …Mas, para que não sejamos para eles motivo de escândalo, vai ao mar, lança o anzol e apanha o primeiro peixe que vier; ao abrir-lhe a boca, encontrarás uma moeda. Toma-a e dá-lhes por mim e por ti».

Lucas 21, 25 – «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, sobre a terra, angústia sobre os povos, com perplexidade perante o bramido do mar e das ondas, ….

Apocalipse 21, 1 – “Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia.”

 

Um comentário alargado sobre o mar em Mt 14, 22-33 em que Jesus caminha sobre as águas do mar

22E imediatamente obrigou os discípulos a entrar no barco e a ir à sua frente para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23Depois de despedir as multidões, subiu ao monte a sós para rezar. Ao cair da tarde, Ele estava ali sozinho. 24Entretanto, o barco já estava a muitos estádios da terra, atormentado pelas ondas, pois o vento era contrário. 25Pela quarta vigília da noite foi ter com eles, caminhando sobre o mar. 26Mas os discípulos, ao vê-lo caminhar sobre o mar, ficaram muito perturbados, dizendo que era um fantasma, e, com medo, começaram a gritar. 27Imediatamente lhes falou Jesus, dizendo: «Tende coragem, sou Eu; não tenhais medo!». 28Pedro, respondendo-lhe, disse: «Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas». 29Ele disse: «Vem». E, descendo do barco, Pedro começou a caminhar sobre as águas e foi ter com Jesus. 30Mas, ao ver o vento forte, teve medo, começou a afundar-se e gritou, dizendo: «Senhor, salva-me». 31Imediatamente Jesus lhe estendeu a mão, agarrou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». 32E, depois de eles subirem para o barco, o vento amainou. 33E os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele, dizendo: «És verdadeiramente Filho de Deus!».

Desdobremos o comentário deste trecho em 4 cenas (voltamos aqui a falar na simbólica das imagens – é importante que acompanhem os comentários com os olhos que não vendo, veem).

 

Cena 1. – Versículos 22/23

É a única vez em todo o evangelho de Mateus, que aparece o verbo “obrigar”, usado por Jesus. Depois dum relato anterior (ver versículos anteriores de Mateus) – a divisão/partilha/” multiplicação” dos pães – a ideia de sucesso apoderou-se dos discípulos. Tu és o Messias, és o Maior! O desejo humano de poder/glória a sobrepor-se ao desejo da humildade/partilha/Amor de Deus. E Jesus vê-se obrigado a despedir os apóstolos com veemência. Estava a manifestar-se mais uma fragilidade humana, a vir ao de cima.

 Jesus procura o discernimento para lidar com esta nova “arrogância” do humano. E foi ao alto do monte, a sós, para falar com o Pai. Aos apóstolos mandou-os atravessar o lago….

 

Cena 2. – Versículos 24/27

Jesus caminhando sobre as águas não é um fenómeno mágico, é uma simbólica trazida ao relato pelo evangelista Mateus. Não estamos numa cena de Hollywood, mas num espaço de mediação entre Deus e os homens trazido pelas escrituras. Jesus aparece-nos vitorioso sobre o mal e a morte. Não poderia nunca deixar os seus, pois como o Pai, o Filho é amor incondicional.  É importante percebermos que o Jesus, o gerador do “sucesso”, o “Maior” de há pouco tempo, agora não é reconhecido. Será um fantasma? São os nossos altos e baixos. Vivemos um êxtase e depois uma depressão. Mas é com isso e por isso que se cresce.

Seguem- se 3 momentos importantes:

            – um segredo – Tende confiança;

            – uma revelação – Sou Eu;

            – um mandamento – Não tenhais medo

Afinal o mesmo que um pai ou mãe diz ao ouvido dum filho, no berço, quando o medo se apodera da criança.

Uma nota:

Em hebraico o verbo ser e estar é representado pela mesma palavra. Hoje, também no inglês e outras línguas. Portanto, dizer Sou Eu é o mesmo que dizer Estou Eu ou Eu estou….

 

Cena 3. – Versículos 28/31

Pedro, respondendo-Lhe, disse: «Senhor, se és Tu, … Onde já ouvimos isto? Se Tu és/se és Tu…. 

Para quem não se lembra, está no início da vida pública de Jesus… tentações diabólicas…

Mas, então, Pedro não tinha estado com Jesus pouco tempo atrás?

É efémera a nossa Fé, a nossa confiança… temos de fazer caminho…  E Jesus até aceita o desafio, põe-Se a jeito de Pedro porque o conhece e não o quer perder. E, como quem diz, “vou-te fazer a vontade”, diz “Vem”. E logo a simbólica da morte o começa a “tragar” – vai afundar-se – (está clara a imagem do caminhar de Pedro sobre as águas do mar? Está claro que não há aqui nenhum oceano?). E, como um Pai, Jesus estende-lhe a mão, puxa-o do poder do mal e da morte e diz-lhe – “Homem de pouca Fé, porque duvidaste?” Se a tua Fé fosse como um grão de mostarda…” … É significativo que encontremos em todo o Evangelho, 6 vezes esta conversa de Jesus com os seus: “Homem/Homens de pouca Fé”. Ao contrário, e, curiosamente ou talvez não, encontramos nos Evangelhos 3 vezes referido: “Grande é a tua Fé”. E sempre dirigida a pagãos e não a judeus, os seus.  A dimensão da conversão é maior quando a limpeza de coração também é maior. É bom que pensemos nisto, quando pensamos ser os maiores lá na paróquia.

 

Cena 4. – Versículos 32/34

Já no barco, os que estavam no barco ajoelharam-se diante dele, dizendo: «És verdadeiramente Filho de Deus!»”.

Novamente o entusiasmo. Depois do entusiasmo anterior…. Um novo entusiasmo. Depois de Jesus ter dividido/partilhado/” multiplicado” os pães… um novo entusiasmo – “«És verdadeiramente Filho de Deus!»”.

Depois, nova queda…. novo entusiasmo…. depois, nova queda …. Até ao Pentecostes.

E como estou eu? E tu?

Sem falsos moralismos, abandonemos a nossa arrogância. Aceitemos um banho de humildade sobre o como lemos a Bíblia e o como entendemos o que nos quer dizer. Também, o como é o nosso viver cristão. No caso particular desta sessão, não confundamos mar com oceano. 

OBS: Reflexão baseada em propostas do P. Rui Santiago, CSSR

(Continua)