{"id":12570,"date":"2023-10-16T11:27:07","date_gmt":"2023-10-16T10:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=12570"},"modified":"2023-10-16T11:31:00","modified_gmt":"2023-10-16T10:31:00","slug":"entrevista-a-cristina-inoges-sanz-o-sinodo-e-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=12570","title":{"rendered":"Entrevista a Cristina Inog\u00e9s Sanz &#8211; O S\u00ednodo e as mulheres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cristina Inog\u00e9s Sanz, uma das primeiras mulheres a votar num S\u00ednodo dos Bispos. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es teol\u00f3gicas que impe\u00e7am&#8221; ordena\u00e7\u00e3o de\u00a0mulheres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08 out. 2023 &#8211; Entrevista ao Observador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pela primeira vez, leigos, incluindo mulheres, votam no S\u00ednodo dos Bispos. A te\u00f3loga espanhola Cristina Inog\u00e9s Sanz, uma delas, antecipa ao Observador o que espera da reuni\u00e3o magna da Igreja Cat\u00f3lica.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a esta quarta-feira no Vaticano a 16.\u00aa Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos \u2014 o organismo composto por bispos de todo o mundo que se re\u00fane periodicamente para auxiliar o Papa no governo da Igreja Cat\u00f3lica a n\u00edvel global. Mas este ser\u00e1 um s\u00ednodo diferente. Em entrevista ao Observador, a te\u00f3loga espanhola Cristina Inog\u00e9s Sanz, uma das intelectuais envolvidas na prepara\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o magna da Igreja global, n\u00e3o hesita em classific\u00e1-lo como \u201co acontecimento eclesial mais importante desde o Conc\u00edlio Vaticano II\u201d. Pela primeira vez na hist\u00f3ria do S\u00ednodo dos Bispos, o direito de voto foi alargado aos leigos \u2014 e, de modo mais not\u00e1vel, \u00e0s mulheres. Inog\u00e9s Sanz ser\u00e1 uma das 54 mulheres a entrar para a hist\u00f3ria como tendo votado na assembleia geral de um S\u00ednodo dos Bispos \u2014 que se debru\u00e7a, precisamente, sobre o pr\u00f3prio conceito de \u201csinodalidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com origem nas palavras gregas \u201c<em>syn<\/em>\u201d (juntos) e \u201c<em>hodos<\/em>\u201d (caminho), a palavra \u201cs\u00ednodo\u201d \u00e9 um conceito cl\u00e1ssico da Igreja Cat\u00f3lica que se pode traduzir como \u201ccaminhar juntos\u201d \u2014 e a \u201csinodalidade\u201d \u00e9 considerada essencial na pr\u00f3pria natureza da Igreja Cat\u00f3lica. A Igreja \u00e9 um conjunto de pessoas que fazem caminho em conjunto, explica a te\u00f3loga na entrevista ao Observador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte inferior do formul\u00e1rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O S\u00ednodo dos Bispos, como organismo formal, foi criado pelo Papa Paulo VI depois do Conc\u00edlio Vaticano II, com o objetivo de prolongar no tempo o esp\u00edrito daquela d\u00e9cada de 1960 e de recuperar o modo de proceder da Igreja dos primeiros s\u00e9culos: as decis\u00f5es tomadas em conjunto, por uma comunidade que caminha em conjunto. Ao\u00a0<a href=\"http:\/\/secretariat.synod.va\/content\/synod\/en\/synodal_assemblies.html\">longo dos \u00faltimos quase 60 anos<\/a>, j\u00e1 houve 15 assembleias gerais ordin\u00e1rias, tr\u00eas assembleias extraordin\u00e1rias e onze assembleias especiais, todas elas sobre temas diferentes, incluindo a fam\u00edlia, a evangeliza\u00e7\u00e3o, os jovens ou at\u00e9 a Amaz\u00f3nia. Mas todas elas tiveram um aspeto comum: consistiram, na pr\u00e1tica, numa reuni\u00e3o de bispos em Roma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este s\u00ednodo, por\u00e9m, \u00e9 diferente: o tema que est\u00e1 em cima da mesa desta vez \u00e9 a pr\u00f3pria sinodalidade. Por isso, tamb\u00e9m o modelo \u00e9 diferente. Em bom rigor, o S\u00ednodo sobre a Sinodalidade come\u00e7ou em 2021 e, desde ent\u00e3o, tem vindo a realizar-se em diferentes fases, a n\u00edvel paroquial, diocesano, nacional, continental e universal \u2014 com a organiza\u00e7\u00e3o do evento a promover os debates nos v\u00e1rios n\u00edveis, para que fossem os pr\u00f3prios fi\u00e9is a diagnosticar os principais problemas da Igreja atual. Os contributos recolhidos ao longo dos \u00faltimos dois anos v\u00e3o agora estar em cima da mesa numa assembleia geral na qual n\u00e3o v\u00e3o participar apenas bispos, mas tamb\u00e9m v\u00e1rios leigos escolhidos pelo Papa Francisco. \u00c9 o caso da te\u00f3loga Cristina Inog\u00e9s Sanz, que fez parte da comiss\u00e3o metodol\u00f3gica que preparou o s\u00ednodo e que agora, por convite direto do Papa Francisco, vai poder discutir e votar, de igual para igual, com os bispos de todo o mundo \u2014 Portugal ser\u00e1 representado pelo presidente e pelo vice-presidente da Confer\u00eancia Episcopal, os bispos Jos\u00e9 Ornelas e Virg\u00edlio Antunes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa entrevista ao Observador, Cristina Inog\u00e9s Sanz, formada em Teologia pela Faculdade Protestante de Madrid e autora de v\u00e1rios livros de teologia, detalha por que raz\u00e3o considera este o mais importante acontecimento da Igreja Cat\u00f3lica desde o Conc\u00edlio Vaticano II, recorda o seu trabalho na prepara\u00e7\u00e3o do s\u00ednodo e explica como os grandes temas da Igreja contempor\u00e2nea \u2014 o lugar do laicado, o papel das mulheres ou a rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o mundo moderno \u2014 v\u00e3o estar em cima da mesa durante o s\u00ednodo. A te\u00f3loga reconhece que sente uma \u201cgrande responsabilidade\u201d por ser uma das primeiras mulheres da hist\u00f3ria a votar num S\u00ednodo dos Bispos e diz que as mulheres devem poder aceder \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, mas deixa um alerta: isso s\u00f3 faz sentido quando o pr\u00f3prio modelo do sacerd\u00f3cio atual, j\u00e1 esgotado, mudar radicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristina Inog\u00e9s Sanz considera tamb\u00e9m que j\u00e1 existem \u201cmais crist\u00e3os fora da Igreja a tornar realidade o Reino de Deus na sociedade do que dentro\u201d \u2014 e diz que a Igreja tem de saber sair das quatro paredes em que ainda se procura fechar, para aprender a dialogar com o mundo. Mais: no entender da te\u00f3loga, s\u00e3o precisas mais mulheres como formadoras dos semin\u00e1rios, para que os padres n\u00e3o continuem a ser formados num ambiente \u201cde onde toda a quest\u00e3o afetivo-sexual desapareceu\u201d, que os torna incapazes de \u201cenfrentar as pr\u00f3prias crises\u201d e de entender as crises dos outros, desprovendo-os de \u201cintelig\u00eancia emocional\u201d. Em outubro do pr\u00f3ximo ano, quando estiver conclu\u00edda a \u00faltima reuni\u00e3o deste s\u00ednodo, n\u00e3o haver\u00e1 uma reforma radical da Igreja, avisa Cristina Inog\u00e9s Sanz. Pelo contr\u00e1rio: o pr\u00f3prio modelo deste s\u00ednodo (que implica que as decis\u00f5es sejam tomadas com a participa\u00e7\u00e3o de todos e n\u00e3o apenas pelos cl\u00e9rigos) dever\u00e1 ser a grande revolu\u00e7\u00e3o que cada diocese e par\u00f3quia do mundo precisar\u00e1 de implementar no futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cH\u00e1 vozes que nunca foram escutadas ao longo dos dois mil anos de hist\u00f3ria da Igreja\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Talvez fa\u00e7a sentido come\u00e7ar pelo mais b\u00e1sico: o que \u00e9 o S\u00ednodo dos Bispos?<\/strong><br \/>\nUm s\u00ednodo \u00e9, ou foi, at\u00e9 agora, uma reuni\u00e3o de bispos em que se tratavam temas decididos previamente para ajudar o Papa no governo da Igreja. Digo que foi at\u00e9 agora uma reuni\u00e3o de bispos porque, neste s\u00ednodo, isto mudou. Pela primeira vez, 25% dos participantes \u2014 \u00e9 muito, \u00e9 um quarto \u2014 n\u00e3o v\u00e3o ser bispos. Provavelmente, porque estamos a encaminhar-nos, devagar mas de modo constante, para aquilo que um s\u00ednodo devia ser: um s\u00ednodo do povo de Deus, e n\u00e3o apenas dos bispos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um \u201ccaminhar juntos\u201d, \u00e9 da\u00ed que vem a palavra.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim. \u00c9 a imagem de caminhar juntos \u2014 e caminhar em conjunto todo o povo de Deus, n\u00e3o apenas uma parte do povo de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desde os anos 60, do Conc\u00edlio Vaticano II, tem havido v\u00e1rios s\u00ednodos, todos eles dedicados a temas diferentes. Os bispos re\u00fanem-se um m\u00eas em Roma, fazem um documento e depois o Papa faz uma exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Mas, como estava a dizer, este s\u00ednodo vai ser diferente \u2014 ou j\u00e1 est\u00e1 a ser diferente. Em que medida? Al\u00e9m do facto de 25% n\u00e3o serem bispos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o primeiro momento, foi um s\u00ednodo absolutamente distinto, porque todo o povo de Deus estava convidado a participar. Ou seja, n\u00e3o foi algo que se decidiu ao longo do tempo ou que se mudou. Desde o princ\u00edpio, convidou-se e deu-se todas as facilidades poss\u00edveis para que todo o povo de Deus participasse. Isto \u00e9 algo que nunca tinha acontecido na hist\u00f3ria dos s\u00ednodos. Isto j\u00e1 lhe d\u00e1 um car\u00e1cter de novidade, de grande novidade. Mas tamb\u00e9m lhe deu um car\u00e1cter de um certo risco \u2014 ou, pelo menos, foi isso que algumas pessoas viram \u2014, ao dar a palavra a todo o povo de Deus. Mas, realmente, \u00e9 assim que tem de ser. Ou seja, se na Igreja entendemos que a Igreja somos todos os batizados, a voz de todos tem de chegar. E h\u00e1 vozes que nunca foram escutadas ao longo dos dois mil anos de hist\u00f3ria da Igreja. Falou-se por eles, disseram-se realmente coisas importantes, mas nunca se deixou que essas pessoas explicassem, falassem, se dessem a conhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quer dar alguns exemplos concretos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, aos pobres, a Igreja falou sempre. Mas nunca ouviu os pobres. A Igreja disse grandes coisas e a Doutrina Social da Igreja \u00e9 riqu\u00edssima. Costumo dizer que, se muitos partidos pol\u00edticos a conhecessem, ficariam assombrados com o conte\u00fado revolucion\u00e1rio que a Doutrina Social da Igreja tem. Mas, agora, temos outro tipo de pessoas: por exemplo, os migrantes. \u00c9 muito raro o pa\u00eds europeu que n\u00e3o tem migrantes. E tamb\u00e9m n\u00e3o os ouvimos. Falamos sobre eles, mas n\u00e3o falamos com eles nem deixamos que a sua voz nos chegue. E as mulheres\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de falar dessa quest\u00e3o, a que gostaria de voltar mais \u00e0 frente, tinha outra pergunta: qual \u00e9 o objetivo principal do S\u00ednodo? Fazer um diagn\u00f3stico, um raio-x do que \u00e9 a Igreja contempor\u00e2nea? Produzir resultados concretos \u2014 ou o pr\u00f3prio modelo \u00e9 j\u00e1 uma mudan\u00e7a da forma de estar da Igreja?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio modelo. H\u00e1 muitas pessoas que, mesmo depois de dois anos, ainda dizem: \u201cQuando chegar o s\u00ednodo.\u201d N\u00e3o: o s\u00ednodo j\u00e1 est\u00e1 em marcha. O S\u00ednodo da Sinodalidade est\u00e1 a permitir-nos, com a estrutura deste s\u00ednodo, estar j\u00e1 em movimento sinodal. N\u00e3o \u00e9 tanto mudar por mudar, mas creio que o objetivo principal do s\u00ednodo \u2014 mesmo que pare\u00e7a uma coisa estranha no s\u00e9culo XXI \u2014 \u00e9 escutar-nos e conhecer-nos. Na Igreja, que tem o simbolismo maravilhoso de uma barca, vivemos como se f\u00f4ssemos um submarino. Cada um estava num compartimento estanque, com a porta fechada. Os cardeais, os bispos, os sacerdotes, os di\u00e1conos, a vida religiosa, os leigos\u2026 N\u00e3o havia uma fluidez na comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o nos conhecemos. Realmente, n\u00e3o nos conhecemos. Por isso, o primeiro objetivo deste s\u00ednodo \u00e9 p\u00f4r-nos a caminhar juntos, que \u00e9 uma met\u00e1fora. \u00c9 o significado de \u201cs\u00ednodo\u201d, mas creio que vai muito mais al\u00e9m: porque n\u00e3o \u00e9 caminhar juntos, mas caminhar juntos para nos escutarmos e nos conhecermos. Esse \u00e9 o objetivo primordial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m disso, espera tamb\u00e9m que o s\u00ednodo produza \u2014 talvez na forma de um documento do Papa \u2014 uma reforma de grande escala na Igreja? Creio que j\u00e1 a ouvi dizer ou escrever que este \u00e9 o acontecimento eclesial mais importante desde o Conc\u00edlio Vaticano II. Como \u00e9 que isso se traduzir\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 certo. \u00c9 o acontecimento eclesial mais importante desde o Conc\u00edlio Vaticano II, porque na verdade \u00e9 viver outra fase de aplica\u00e7\u00e3o do Vaticano II. O Vaticano II est\u00e1, praticamente, sem se desenvolver. Este s\u00ednodo, o que est\u00e1 a fazer \u00e9 recuperar em grande parte a eclesiologia do Vaticano II para permitir-nos p\u00f4-lo em funcionamento. As grandes mudan\u00e7as, n\u00e3o sei exatamente. Sei apenas dizer que em outubro de 2024 n\u00e3o vamos ter uma Igreja sinodal. Estaremos a fazer uma Igreja sinodal. As grandes mudan\u00e7as de que a Igreja necessita n\u00e3o podem acontecer da noite para o dia. \u00c9 um processo em que tudo est\u00e1, de alguma forma, entrela\u00e7ado \u2014 e, algumas vezes, enredado. Desenredar um novelo leva o seu tempo, se n\u00e3o, podemos romper o fio. S\u00e3o quest\u00f5es que est\u00e3o todas demasiado entrela\u00e7adas. Por exemplo, h\u00e1 quest\u00f5es que as pessoas acreditam que se o Papa confirmar com um decreto ficam solucionadas. Mas at\u00e9 chegar a isso \u00e9 preciso um processo, desde educar a pr\u00f3pria comunidade para que veja que as mudan\u00e7as n\u00e3o pressup\u00f5em a rutura de nada, at\u00e9 mudar de cima a baixo a forma\u00e7\u00e3o dos semin\u00e1rios, at\u00e9 se pensar de que modelo do minist\u00e9rio sacerdotal a Igreja e a sociedade precisam. S\u00e3o mudan\u00e7as em cadeia, mas que n\u00e3o se podem fazer todas do dia para a noite. O que acontece \u00e9 que a sabedoria do laicado, da ampla base do povo de Deus, intui que \u00e9 preciso mudar. Por isso, surgiu o mesmo praticamente em todas as partes do mundo em que se trabalhou o s\u00ednodo. Mas as pessoas olham para o final do processo: n\u00e3o t\u00eam ferramentas para ver que passos \u00e9 preciso ir dando no processo para que o processo seja seguro, para que a mudan\u00e7a seja segura. Isso \u00e9 o que vai custar mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Diria, por exemplo, que se os pr\u00f3ximos s\u00ednodos tiverem este modelo, se nas par\u00f3quias, dioceses e movimentos, esta forma de tomar decis\u00f5es em conjunto \u2014 com os leigos, al\u00e9m do clero \u2014 passar a ser um modelo mais comum nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias da Igreja, j\u00e1 \u00e9 uma vit\u00f3ria deste s\u00ednodo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de agora, o laicado tem de tomar consci\u00eancia de que descobriu v\u00e1rias coisas durante o processo sinodal que est\u00e1 em curso. Descobriu que sabe pensar, que tem boas ideias, que sabe expressar essas ideias e que ganhamos muito em escutar-nos uns aos outros. A partir de agora, o que \u00e9 preciso fazer \u00e9 pegar nas s\u00ednteses de cada diocese e come\u00e7ar a p\u00f4-las em funcionamento. Haver\u00e1 dioceses que poder\u00e3o ir mais r\u00e1pidas, outras mais lentas. Mas temos de entender que \u00e9 de extrema import\u00e2ncia colocar em funcionamento as s\u00ednteses das dioceses, porque este s\u00ednodo \u2014 e Francisco, em geral, no seu pontificado \u2014 deu aos bispos, em cada diocese, muita autonomia. Neste momento, os bispos t\u00eam mais autonomia do que alguma vez na hist\u00f3ria. Por isso, neste momento, n\u00e3o h\u00e1 uma medida comum para todas as dioceses do mundo. Podem ir, cada uma, \u00e0 sua velocidade. Mas \u00e9 necess\u00e1rio descobrir que a s\u00edntese diocesana \u00e9 aquilo que h\u00e1 que p\u00f4r em marcha \u2014 porque esse \u00e9, na realidade, o grande triunfo do s\u00ednodo. N\u00e3o \u00e9 o documento final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A professora Cristina faz parte da comiss\u00e3o metodol\u00f3gica do s\u00ednodo\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2026bem, agora na verdade as comiss\u00f5es j\u00e1 acabaram a sua miss\u00e3o. Neste momento, sou membro da assembleia, com direito a voto, por decis\u00e3o de Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que trabalho desenvolveu na comiss\u00e3o? E como surgiu o convite?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essa pergunta, na verdade, ainda n\u00e3o sei responder! N\u00e3o sei porque me escolheram para estar na comiss\u00e3o metodol\u00f3gica. Digo-o de verdade. Se no final do s\u00ednodo me inteirar, di-lo-ei, mas neste momento n\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas quem a contactou para fazer parte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou-me um e-mail do Secretariado do S\u00ednodo, que simplesmente dizia: \u201cPor favor leia o anexo desta mensagem e diga-nos que o recebeu.\u201d Inicialmente, pensei que era uma brincadeira de algu\u00e9m. N\u00e3o estava \u00e0 espera! E muito menos ao abrir o documento e ver o convite. Mas assim foi. N\u00e3o sei, ainda, quem pensou no meu nome. A comiss\u00e3o metodol\u00f3gica foi a primeira a come\u00e7ar a trabalhar, em maio de 2021, para elaborar o primeiro documento, que se usou na fase diocesana. Foi complicado, no in\u00edcio, porque n\u00e3o t\u00ednhamos refer\u00eancias. Nos outros s\u00ednodos, n\u00e3o sab\u00edamos como tinha funcionado, se havia comiss\u00f5es. Era como ter uma tela em branca e as tintas para a pintar, mas n\u00e3o sab\u00edamos. Foi muito enriquecedor: na comiss\u00e3o onde eu estava, e praticamente em todas, havia pessoas dos cinco continentes. Isso permitiu-me abrir muito a mente. Pensamos que conhecemos muitas pessoas, que estamos muito bem relacionados e comunicados \u2014 mas, realmente, eu n\u00e3o sabia o que se passava na Igreja na Austr\u00e1lia, por exemplo. N\u00e3o conhecia as peculiaridades da Igreja em Singapura. Essas quest\u00f5es foram muito interessantes, porque t\u00ednhamos de fazer um documento que servisse para todo o mundo. N\u00e3o havia \u201cvers\u00e3o ocidental\u201d, \u201cvers\u00e3o do sul\u201d\u2026 Era um documento para todo o mundo. Isso permitiu, embora a princ\u00edpio tenha sido um pouco complicado, fazer um documento amplo e com uma vis\u00e3o muito global.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E depois foi acompanhando as v\u00e1rias fases com a comiss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na comiss\u00e3o estivemos a trabalhar praticamente at\u00e9 15 dias antes, quando fech\u00e1mos o documento, para dar tempo para traduzir e rever. Mais tarde, quando j\u00e1 se tinha recolhido toda a informa\u00e7\u00e3o da fase diocesana, a partir da informa\u00e7\u00e3o recolhida, come\u00e7\u00e1mos a elaborar o documento da fase continental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCheg\u00e1mos a um limite. A Igreja j\u00e1 n\u00e3o pode continuar a ser como \u00e9\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostava agora de entrar nos temas do s\u00ednodo. Entre 2021 e 2022, durante a fase diocesana e nacional, houve grupos de discuss\u00e3o nas par\u00f3quias e nas dioceses, os leigos puderam debater o que pensam sobre a Igreja e cada pa\u00eds fez o seu documento. Aqui em Portugal, o\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.conferenciaepiscopal.pt\/v1\/sinodo-2021-2023-relatorio-de-portugal\/\"><strong>documento da Confer\u00eancia Episcopal<\/strong><\/a><strong>\u00a0foi at\u00e9 muito criticado por alguns setores. Nesse documento, surgiram\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2022\/08\/26\/catolicos-portugueses-alertam-para-igreja-estagnada-pouco-transparente-e-preocupada-com-a-imagem\/\"><strong>algumas quest\u00f5es<\/strong><\/a><strong>: o facto de a Igreja negligenciar os jovens, ser pouco inclusiva, discriminar quem n\u00e3o vive de acordo com a moral cat\u00f3lica, ser demasiado hier\u00e1rquica, pouco dispon\u00edvel para escutar, incapaz de discutir abertamente o celibato e a ordena\u00e7\u00e3o das mulheres, ter processos de escolha das lideran\u00e7as pouco transparentes e pouco inclusivos e n\u00e3o se adaptar aos tempos modernos. \u00c9 um documento longo, com muitos dos problemas que a sociedade contempor\u00e2nea aponta \u00e0 Igreja. Foram estes tamb\u00e9m os problemas identificados no resto do mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim. Foi muito surpreendente. Pens\u00e1vamos, por exemplo, que na Indon\u00e9sia haveria aldeias, pequenos n\u00facleos de habitantes, em que se a pessoa mais velha dissesse que n\u00e3o se participava, n\u00e3o haveria participa\u00e7\u00e3o. Assum\u00edamos que era uma condicionante cultural. Ach\u00e1vamos que em \u00c1frica seria muito dif\u00edcil a participa\u00e7\u00e3o das mulheres devido \u00e0 realidade cultural dos pa\u00edses. Descobrimos, curiosamente, que t\u00ednhamos preconceitos e rapidamente percebemos que n\u00e3o era assim. \u00c9 certo, por exemplo, que em \u00c1frica a participa\u00e7\u00e3o das mulheres foi mais alta nos n\u00facleos onde havia miss\u00f5es que protegiam as mulheres. Contudo, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres em \u00c1frica foi muito forte. Praticamente em todo o mundo, a maioria dos participantes do s\u00ednodo foram mulheres. Mas \u00e9 certo que os temas foram praticamente iguais. Podia variar um pouco a ordem \u2014 uns temas apareciam antes, outros depois \u2014, mas eram praticamente os mesmos. Por isso, estamos plenamente convencidos de que \u00e9 um s\u00ednodo onde o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 a falar constantemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, est\u00e1 a marcar linhas e como que a abrir \u2014 n\u00e3o vou dizer portas, porque \u00e9 nossa responsabilidade abri-las \u2014, mas est\u00e1 a empurrar um pouco a porta. Para que as pessoas estejam presentes. Por exemplo, as comunidades LGBTI: todos pens\u00e1vamos que n\u00e3o iam participar. Mas participaram diretamente. Eu colaboro muito com a pastoral LGBTI no meu pa\u00eds, e tamb\u00e9m em Portugal, com o Movimento Sopro. Sobretudo no meu pa\u00eds, quando come\u00e7ou o s\u00ednodo, recebi muitos e-mails a perguntar-me se eu poderia fazer chegar as suas participa\u00e7\u00f5es \u00e0 Secretaria do S\u00ednodo. Perguntei diretamente \u00e0 Secretaria e disseram-me: t\u00eam de participar eles pr\u00f3prios, porque \u00e9 a melhor maneira de se fazerem vis\u00edveis. Para que n\u00e3o tenham d\u00favidas, que participem pelas tr\u00eas vias: enviem \u00e0 sua diocese, \u00e0 confer\u00eancia episcopal e \u00e0 Secretaria do S\u00ednodo, porque por algum s\u00edtio v\u00e3o entrar. E de facto entraram \u2014 porque \u00e9 algo que est\u00e1 recolhido no documento continental e no\u00a0<em>Instrumentum Laboris<\/em>\u00a0do pr\u00f3ximo m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Portanto, na assembleia geral que vai ter lugar agora em outubro, estes ser\u00e3o os grandes temas? Estes temas que achamos, \u00e0s vezes, que s\u00e3o tabu na Igreja?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel que sejam grandes temas, mas \u00e9 preciso entender que n\u00e3o est\u00e3o enumerados como temas. Por exemplo, toda esta realidade da inclus\u00e3o, das mulheres, dos pobres, dos migrantes, tudo isso faz parte do que \u00e9, na realidade, a comunh\u00e3o eclesial. Ou seja, n\u00e3o vamos abord\u00e1-los como o problema das comunidades LGBTI \u2014 falaremos delas, mas t\u00eam de fazer parte da ess\u00eancia. E a ess\u00eancia est\u00e1 na comunh\u00e3o. Ou a realidade dos abusos: \u00e9 um problema que afeta a comunh\u00e3o da Igreja. Precisamos de abord\u00e1-lo a partir do aspeto da comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A quest\u00e3o dos abusos marcou a Igreja nos \u00faltimos anos. O Papa Francisco n\u00e3o tem hesitado em apontar as culpas ao problema do clericalismo. Este s\u00ednodo, chamando os leigos para a discuss\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de contribuir para erradicar este problema que conduz ao abuso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falamos de abusos, vem-nos \u00e0 cabe\u00e7a aquilo que vemos constantemente, que s\u00e3o os abusos sexuais. Mas o problema dos abusos tem uma raiz que \u00e9 o abuso de poder. E o abuso de poder nasce com o clericalismo. Ou seja, h\u00e1 que explicar um pouco a hist\u00f3ria. Porqu\u00ea um S\u00ednodo da Sinodalidade? Realmente, n\u00e3o estamos a inventar nada. Estamos a recuperar uma parte da Igreja que se encontra na Igreja do primeiro s\u00e9culo. A Igreja nasceu sinodal e laical. O laical perdeu-se muito r\u00e1pido, no final do s\u00e9culo I e durante o s\u00e9culo II, quando se sacralizou a figura do bispo e do presb\u00edtero. A\u00ed, o laicado ficou de fora. Mas a Igreja foi sinodal at\u00e9 \u00e0 Idade M\u00e9dia, at\u00e9 cerca do s\u00e9culo XII. Quando se perde essa sinodalidade, aparece o clericalismo. E hoje sofremos as consequ\u00eancias desse clericalismo, que nasceu nesse momento. Uma parte dessas consequ\u00eancias \u00e9 ter-se dotado a figura do clero de uma sacralidade inexistente, pelo que se sentiram com poder suficiente para manipular consci\u00eancias, manipular espiritualmente, e para aquilo a que cheg\u00e1mos agora. O s\u00ednodo \u00e9 uma forma de afrontar o clericalismo, mas \u00e9 preciso cuidado: o clericalismo tamb\u00e9m existe entre os leigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Papa Francisco tem dito, at\u00e9, que \u00e9 pior ainda nos leigos do que no clero. Mas podemos dizer que este s\u00ednodo sobre a sinodalidade surge tamb\u00e9m como resposta a uma Igreja crescentemente centrada no poder do clero?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surge porque, digamos, cheg\u00e1mos a um limite. A Igreja j\u00e1 n\u00e3o pode continuar a ser como \u00e9, porque j\u00e1 n\u00e3o tem lugar na sociedade mostrando-se como foi at\u00e9 agora \u2014 reconhecendo que a Igreja fez muitas coisas boas e faz muitas coisas boas. Mas tamb\u00e9m fez coisas que n\u00e3o est\u00e3o bem e que \u00e9 preciso modificar. N\u00e3o \u00e9 adaptar-se ao mundo, n\u00e3o \u00e9 renunciar a nada: \u00e9, simplesmente, ter a intelig\u00eancia de saber estar no momento em que se est\u00e1. Esse \u00e9 um processo que, noutros momentos da hist\u00f3ria, a Igreja tamb\u00e9m viveu. A mudan\u00e7a do Renascimento: quando a Igreja se enfrenta, porque n\u00e3o o quis ouvir antes, com a realidade da Reforma de Lutero, a mudan\u00e7a que a Igreja faz a\u00ed \u00e9 uma mudan\u00e7a total, praticamente. Mas isto aconteceu no s\u00e9culo XVI. Estamos no s\u00e9culo XXI. \u00c9 preciso mudan\u00e7as, porque a sociedade n\u00e3o \u00e9 a mesma nem a pr\u00f3pria Igreja est\u00e1 no mundo em que estava no s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar o cap\u00edtulo da quest\u00e3o dos abusos: sei que acompanhou a realidade em Portugal nos \u00faltimos dois, tr\u00eas anos. Como \u00e9 que interpretou o modo como os bispos portugueses lidaram com as consequ\u00eancias do relat\u00f3rio publicado em fevereiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a entre os bispos do mundo no momento de reagir \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es. \u00c9 um padr\u00e3o fixo que, mesmo que passem muitos anos entre a investiga\u00e7\u00e3o num pa\u00eds e noutro, no final a forma de comportamento \u00e9 sempre a mesma. N\u00e3o consigo compreender totalmente porqu\u00ea. Entendo que os primeiros pa\u00edses, as primeiras confer\u00eancias episcopais \u2014 Irlanda, Estados Unidos, com o caso de Boston, que foi paradigm\u00e1tico \u2014, n\u00e3o tenham sabido como reagir perante aquilo. Mas quando se come\u00e7ou a ver que n\u00e3o era algo s\u00f3 da Irlanda ou s\u00f3 de Boston, que era preciso pensar que aquilo se passava em todo o mundo, fizemos o mesmo que t\u00ednhamos feito na Reforma: n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o aos sinais que chegavam e esperar que em cada pa\u00eds estalasse o esc\u00e2ndalo dos abusos. Na verdade, os bispos portugueses n\u00e3o reagiram de maneira diferente dos bispos de outros pa\u00edses, ou como v\u00e3o reagir os espanh\u00f3is quando tivermos o relat\u00f3rio. \u00c9 um comportamento muito parecido em todos os lugares. E quando parece que se avan\u00e7a um passo, chegam not\u00edcias como as do caso Rupnik, e a pouca credibilidade que t\u00ednhamos conseguido sofre um retrocesso tremendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estava a falar concretamente daquelas declara\u00e7\u00f5es dos bispos portugueses depois do relat\u00f3rio, que foram algo hesitantes, apontando a falta de elementos para investigar. Sente que h\u00e1 uma certa relut\u00e2ncia em aceitar o resultado destas investiga\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bispos, muitas vezes \u2014 e quero acreditar que o fazem inconscientemente \u2014, mais do que proteger as v\u00edtimas, do que p\u00f4r-se abertamente ao servi\u00e7o das v\u00edtimas, do que tentar na medida do poss\u00edvel reparar as v\u00edtimas, parece que se protegem das v\u00edtimas. Ou seja, \u00e9 como se sentissem atacados pelas v\u00edtimas. Mas as v\u00edtimas n\u00e3o atacam a Igreja nem desacreditam a Igreja: a Igreja desacredita-se sozinha com a rea\u00e7\u00e3o que tem quando as v\u00edtimas falam ou quando se descobrem novos casos. Segui atrav\u00e9s da televis\u00e3o a confer\u00eancia de imprensa onde se apresentaram os casos e impactou-me muito, e imagino que a toda a gente, porque foi a primeira vez que se escutou a voz das v\u00edtimas. Pela primeira vez, teve-se a consci\u00eancia de que eram pessoas e n\u00e3o n\u00fameros ou percentagens. Isso muda muito a maneira de perceber. Para mim, foi precisamente por isso que foi mais incompreens\u00edvel talvez a rea\u00e7\u00e3o dos bispos de Portugal. Tinha de ter tocado muito mais a fibra do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o colocarem-se na defensiva, mas sentirem-se muito tocados pela dor que as v\u00edtimas expressaram. Mas repito: o comportamento \u00e9 muito parecido a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cN\u00e3o vivamos o voto das mulheres com excessiva euforia, a hist\u00f3ria da Igreja diz-nos que o p\u00eandulo vai de um lado para o outro\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um dos problemas apontados no relat\u00f3rio portugu\u00eas do s\u00ednodo \u2014 e que imagino que surja noutros \u2014 tem a ver com a forma\u00e7\u00e3o dos agentes pastorais, sobretudo dos padres. H\u00e1 uma frase no relat\u00f3rio que diz que os sacerdotes apresentam \u201cuma forma\u00e7\u00e3o insuficiente para lidar com os problemas humanos da vida contempor\u00e2nea\u201d. Por exemplo, com as pessoas LGBTI, que j\u00e1 mencionou. Este parece ser um problema vital, a ideia de que a Igreja Cat\u00f3lica de hoje parece n\u00e3o ter propostas e respostas para o mundo contempor\u00e2neo. Como \u00e9 que espera que estas quest\u00f5es sejam abordadas na assembleia do s\u00ednodo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um dos temas mais importantes. Na verdade, tudo est\u00e1 relacionado. As casas constroem-se com cimento e, neste caso, o cimento \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o dos seminaristas, a forma\u00e7\u00e3o dos semin\u00e1rios. Voltamos ao mesmo tema. H\u00e1 muitas pessoas que, quando se fala dos semin\u00e1rios conciliares, pensam que \u00e9 do Conc\u00edlio Vaticano II. N\u00e3o! \u00c9 do Conc\u00edlio de Trento. Isso j\u00e1 cria uma marca. Em Portugal h\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o maravilhosa, que conhe\u00e7o, que \u00e9 o semin\u00e1rio de Braga, onde h\u00e1 mulheres entre os formadores. N\u00e3o \u00e9 o habitual. N\u00e3o sei se em Portugal h\u00e1 mais, mas em Espanha n\u00e3o. Um jovem entra num ambiente onde \u00e9 formado sem um olho e sem um ouvido, porque n\u00e3o pode ver atrav\u00e9s da vis\u00e3o de uma mulher nem pode escutar a voz e a reflex\u00e3o de uma mulher \u2014 e isso j\u00e1 condiciona muito a sua forma\u00e7\u00e3o para o mundo em que vai desenvolver-se. Que, queira ou n\u00e3o, \u00e9 um mundo tremendamente feminino, porque 80% da Igreja neste momento \u00e9 formada por mulheres. Isto por um lado. E, por outro, forma-se numa realidade de onde toda a quest\u00e3o afetivo-sexual desapareceu. N\u00e3o existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, n\u00e3o sabem nem como enfrentar as pr\u00f3prias crises, que qualquer ser humano vai viver na vida, porque lhes falta vocabul\u00e1rio para expressar o que acontece com eles, e n\u00e3o est\u00e3o formados para entender que essas coisas podem acontecer com os outros. S\u00e3o formados muito mais a partir de uma moral estrita do que de uma antropologia onde caberia a explica\u00e7\u00e3o de tudo isso. Naturalmente, n\u00e3o t\u00eam as ferramentas m\u00ednimas em intelig\u00eancia emocional \u2014 que \u00e9 o que lhes permitiria entender-se a si pr\u00f3prios e entender os outros. Introduzir isto num ambiente em que, apesar de 25% n\u00e3o serem bispos, 75% s\u00e3o bispos \u2014 que sabem muito claramente o que querem nos seus semin\u00e1rios, e a quem s\u00f3 preocupa o n\u00famero \u2014 vai ser complicado. Mas creio que, falando com serenidade, \u00e9 poss\u00edvel expor a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A professora Cristina ser\u00e1 uma das leigas a ter direito de voto. Portanto, vai fazer hist\u00f3ria: vai participar no primeiro s\u00ednodo em que os leigos t\u00eam direito de voto e\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2023\/04\/26\/pela-primeira-vez-as-mulheres-vao-poder-votar-no-sinodo-dos-bispos\/\"><strong>o primeiro em que as mulheres t\u00eam direito de voto<\/strong><\/a><strong>. Sente que \u00e9 um primeiro passo para as mulheres terem mais peso nos lugares de decis\u00e3o dentro da Igreja? Ou teme que se fique por aqui?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste momento, sinto uma grande responsabilidade, o que j\u00e1 \u00e9 muito. Precisamente porque creio que estaremos muito sob o foco, pelo facto de haver 54 mulheres, pela primeira vez, a votar no S\u00ednodo dos Bispos. Sinto essa responsabilidade. Muitas pessoas dizem-me: \u201cSim, chegaram a\u00ed, mas chegaram porque algu\u00e9m vos levou.\u201d Neste caso, Francisco. \u00c9 verdade, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a estrutura atual da Igreja teria impedido o acesso por vias mais naturais ou normais. Por isso, tento fazer uma leitura pela positiva, pensando que Francisco tem a convic\u00e7\u00e3o \u2014 mas tamb\u00e9m a sensibilidade e a coragem, porque o ambiente em que ele vive n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil nem c\u00f3modo \u2014 de destrancar a porta, pela parte que lhe toca. Abrir essa porta \u00e9 um gesto que indica humildade, reconhecendo que existe essa porta e abrindo-a. Porque houve muitas mulheres que, ao longo da hist\u00f3ria, tentaram abrir essa porta e algumas delas perderam a vida a tent\u00e1-lo. Podia ter sido de outra maneira? Sim. Mas cheg\u00e1mos atrav\u00e9s dessa porta que foi aberta a partir do lado onde estava a chave. E h\u00e1 que agradecer o gesto. Agora, estou consciente de que \u00e9 um momento hist\u00f3rico, de que est\u00e1 a acontecer uma mudan\u00e7a. Mas n\u00e3o vivamos isto com excessiva euforia, porque a hist\u00f3ria da Igreja diz-nos que o p\u00eandulo vai de um lado para o outro. H\u00e1 que estar preparado. Estamos no processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esta quest\u00e3o leva a uma subsequente: na sua opini\u00e3o, o caminho deve passar por admitir a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, no clero? Noutras igrejas, como a anglicana, parece funcionar. \u00c9 algo que gostaria de ver acontecer?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou partid\u00e1ria do sacerd\u00f3cio feminino. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es teol\u00f3gicas que o impe\u00e7am. A partir do batismo, todos somos Cristos, portanto n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a alguma entre um homem e uma mulher para serem sacerdotes. Mas eu estudei numa faculdade protestante, onde vi a realidade das mulheres pastoras nessas igrejas. N\u00e3o \u00e9 que a Igreja n\u00e3o esteja preparada \u2014 o laicado, as comunidades n\u00e3o teriam qualquer problema. Mas creio que, para que as mulheres acedam, em condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de seguran\u00e7a \u2014 refiro-me sobretudo \u00e0 seguran\u00e7a psicol\u00f3gica \u2014, o minist\u00e9rio sacerdotal tem de mudar muito em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 atualmente. Ou seja, estamos a formar seminaristas num modelo ministerial que est\u00e1 esgotado, que n\u00e3o serve, mas continuamos a form\u00e1-los, porque n\u00e3o queremos enfrentar a realidade de que \u00e9 necess\u00e1rio mudar. Pensamos que estamos numa crise, que vai passar e que tudo voltar\u00e1 a uma certa normalidade. N\u00e3o, n\u00e3o vamos voltar a uma certa normalidade conhecida. O modelo ministerial tem de mudar. Que sentido tem, enquanto este modelo ministerial n\u00e3o muda, ordenar mulheres que a \u00fanica coisa que v\u00e3o fazer \u00e9 aumentar a agonia de uma forma de Igreja que j\u00e1 deu de si tudo o que podia dar? O que \u00e9 mais importante neste momento \u00e9 que se reconhe\u00e7a o diaconado feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitas mulheres que s\u00e3o di\u00e1conos \u2014 di\u00e1conos sem papel, n\u00e3o t\u00eam um documento que as acredita, mas s\u00e3o di\u00e1conos. E, curiosamente, s\u00e3o di\u00e1conos num grau muito mais real no que o diaconado implica do que o diaconado permanente dos homens, que normalmente se centra em estar \u00e0 volta do altar. Uma parte muito pequena do trabalho do di\u00e1cono est\u00e1 no altar, mas o resto est\u00e1 longe do altar. Os homens que s\u00e3o ordenados no diaconado permanente, pelo menos no meu pa\u00eds, s\u00e3o uma esp\u00e9cie de ac\u00f3litos mais importantes da par\u00f3quia, da catedral, do que seja. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico trabalho. Por isso, creio que, neste momento, seria mais importante centrar a figura das mulheres, reconhecendo que implica realmente o diaconado, que \u00e9 o que elas fazem \u2014 antes de querermos passar diretamente ao sacerd\u00f3cio feminino, sobretudo sem modificar um modelo de minist\u00e9rio sacerdotal esgotado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas que modifica\u00e7\u00f5es considera que s\u00e3o necess\u00e1rias no minist\u00e9rio sacerdotal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O minist\u00e9rio sacerdotal que vivemos \u00e9 um modelo que foi dando resposta a pequenas necessidades. Neste momento, o minist\u00e9rio sacerdotal j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um minist\u00e9rio para viver nas paredes das igrejas. Neste momento, embora muitas pessoas n\u00e3o acreditem, h\u00e1 mais crist\u00e3os fora da Igreja a tornar realidade o Reino de Deus na sociedade do que dentro. Muitos mais. Pelas raz\u00f5es que sejam, decidiram n\u00e3o abandonar a Igreja, mas viver de outra maneira o seu cristianismo. Os sacerdotes continuam num modelo em que eles s\u00e3o quem representa o \u00fanico modelo de ser. Um modelo muito sacralizado. Sacerdotes que n\u00e3o t\u00eam muitos conhecimentos em mat\u00e9rias que, digamos, ultrapassam a teologia \u2014 e das quais a teologia tem de aprender. Sacerdotes que vivem o seu sacerd\u00f3cio como pessoas com uma sacralidade desmesurada, como se fossem os \u00fanicos garantes: que se n\u00e3o for em torno deles, a comunidade n\u00e3o existe. Este modelo n\u00e3o tem validade hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para qu\u00ea ordenar as mulheres num modelo que, hoje, n\u00e3o serve? Era preciso, primeiro, assegurar a realidade das mulheres di\u00e1conos \u2014 que j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 apenas di\u00e1conos naqueles a que cham\u00e1vamos pa\u00edses de miss\u00e3o, mas sim nos nossos pr\u00f3prios pa\u00edses. Creio que isso \u00e9 muito mais importante do que dar esse passo, que tamb\u00e9m n\u00e3o resolveria o problema. H\u00e1 cinco anos, escrevi um livro que se chama\u00a0<a href=\"https:\/\/www.wook.pt\/livro\/no-quiero-ser-sacerdote-maria-cristina-inoges-sanz\/28893580\"><em>N\u00e3o Quero Ser Sacerdote<\/em><\/a>, em que explico porque \u00e9 que eu n\u00e3o quero ser \u2014 porque n\u00e3o tenho essa voca\u00e7\u00e3o \u2014, mas que apoio as mulheres que querem s\u00ea-lo. Para minha surpresa, muitas te\u00f3logas espanholas e hispano-americanas escreveram-me a dizer que tamb\u00e9m n\u00e3o queriam ser sacerdotes neste modelo de Igreja. Portanto, \u00e9 preciso mudar o modelo de Igreja \u2014 porque, provavelmente, n\u00e3o ser\u00e1 assim t\u00e3o necess\u00e1ria essa figura. Antes, para chegar a certos lugares de governo da Igreja, era necess\u00e1rio ser ordenado. Mas Francisco, na\u00a0<em>Praedicate Evangelium<\/em>, rompeu com isso. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o sacramento da Ordem para o governo da Igreja. Por isso, j\u00e1 nem toda a gente tem de ser ordenada para chegar a certos lugares. \u00c9 preciso mudar o modelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 quem argumente contra a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres como forma de resolver a quest\u00e3o da igualdade entre homens e mulheres porque diz que isso significaria apenas mais uma forma de clericalismo, mas incluindo as mulheres no clero. A falta de igualdade entre homens e mulheres na Igreja era tamb\u00e9m um aspeto apontado no relat\u00f3rio do s\u00ednodo. Parece-lhe que a melhor forma de resolver esse problema passa, primeiro, pelo combate ao clericalismo? Por permitir que os leigos tenham a dizer na Igreja?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim. Sobretudo porque se, atualmente, as mulheres pudessem aceder ao sacerd\u00f3cio, ao minist\u00e9rio, por muito boas inten\u00e7\u00f5es que tivessem, o clericalismo \u00e9 t\u00e3o forte que se sobreporia. Em vez de uma solu\u00e7\u00e3o, o problema tornar-se-ia muito mais forte \u2014 mesmo que n\u00e3o o quis\u00e9ssemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Papa j\u00e1 por duas vezes criou comiss\u00f5es para estudar o diaconado feminino. Acredita que vai ver um passo nesse sentido ainda no seu tempo de vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira comiss\u00e3o acabou num empate, por isso n\u00e3o serviu. A segunda n\u00e3o se re\u00fane. Creio que \u00e9 preciso romper com uma ideia que temos na cabe\u00e7a. O trabalho dessas comiss\u00f5es era o de analisar profundamente como era o diaconado feminino na origem da Igreja, para saber se havia f\u00f3rmulas. Mas creio que isso \u00e9 um erro, porque a Igreja do s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 a Igreja do s\u00e9culo I. Mesmo havendo um modelo, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para o reproduzir. \u00c9 outro tipo de diaconado que hoje faz falta. Se n\u00e3o h\u00e1 uma f\u00f3rmula, se n\u00e3o se encontra uma f\u00f3rmula na origem, n\u00e3o h\u00e1 problema. H\u00e1 que procurar modelos que sejam necess\u00e1rios hoje, que sirvam hoje. E n\u00e3o recuperar modelos que, noutro tempo, possam ter funcionado \u2014 mas que hoje n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cH\u00e1 um setor da Igreja que vive \u00e0 imagem da Igreja da Cristandade\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>T\u00eam-se sentido na Igreja Cat\u00f3lica algumas ondas de choque entre sensibilidades mais progressistas e mais conservadoras, \u00e0 falta de melhor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>termo. Nestes temas de que estamos a falar, elas parece que se notam de modo especial \u2014 h\u00e1 quem resista \u00e0 ideia de que h\u00e1 um problema com os abusos sexuais e, de modo mais abrangente, quem veja formas de di\u00e1logo com o mundo contempor\u00e2neo como obras do dem\u00f3nio. Acha que estas tens\u00f5es tamb\u00e9m se v\u00e3o verificar na assembleia do s\u00ednodo? J\u00e1 leu o\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/press.vatican.va\/content\/salastampa\/it\/bollettino\/pubblico\/2023\/07\/07\/0500\/01109.html\"><strong>elenco de participantes<\/strong><\/a><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que o Papa Francisco, uma vez mais, deu provas da sua perspic\u00e1cia, da sua vis\u00e3o. Na lista dos participantes que ele escolheu, h\u00e1 de tudo. Absolutamente todas as formas de pensar, todas as formas de entender a Igreja, todas as maneiras de abordar as quest\u00f5es. Creio que isso vai ser uma riqueza, se realmente formos capazes de nos libertar dos nossos preconceitos iniciais. Queiramos ou n\u00e3o, vamos olhar-nos \u00e0 lupa. H\u00e1 muitas pessoas que conhecemos por entrevistas, por t\u00edtulos de jornal, mas n\u00e3o fal\u00e1mos com elas \u2014 e isso muda. O cara-a-cara muda. Ent\u00e3o, creio que isso vai ser, evidentemente, uma riqueza. Vai ser uma riqueza que n\u00e3o vai ser f\u00e1cil chegar a descobrir. Por exemplo, h\u00e1 pessoas que veem o mundo, neste momento, como um ataque constante \u00e0 Igreja, ao Catolicismo, ao Cristianismo em geral. E usam sempre o mesmo argumento, que j\u00e1 serve neste momento como escudo: que a Agenda 2030 [da ONU] ataca diretamente a Igreja, ou o Cristianismo. Primeiro, vamos ver o que diz a Agenda 2030, vamos ler a Agenda 2030. A Agenda 2030 tem quest\u00f5es que s\u00e3o muito discut\u00edveis e que podem ser vistas a partir de perspetivas muito diferentes. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que tem quest\u00f5es em que, se a Igreja se soubesse p\u00f4r em di\u00e1logo \u2014 n\u00e3o duas ou tr\u00eas pessoas, que possam estar muito capacitadas para o di\u00e1logo, mas se estiv\u00e9ssemos todos formados para saber dialogar \u2014, poder\u00edamos mostrar que a Igreja, o Cristianismo, j\u00e1 se ocupa desses temas desde que o mundo \u00e9 mundo e desde que o Cristianismo apareceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 preciso estar conscientes de uma realidade: quer gostemos, quer n\u00e3o gostemos, o cen\u00e1rio onde vamos ter de viver como crist\u00e3os e como crist\u00e3os cat\u00f3licos foi desenhado pela Agenda 2030. Por isso, temos de aprender a viver a\u00ed. E \u00e9 a\u00ed que temos de mostrar ao mundo que n\u00e3o somos nem reprimidos nem repressores. Que n\u00e3o somos atacantes por sistema, mas estamos abertos ao di\u00e1logo e a construir uma sociedade melhor. Portanto, estou certa de que isto vai surgir na assembleia de alguma forma \u2014 e levar\u00e1 \u00e0s suas tens\u00f5es. Porque tamb\u00e9m \u00e9 certo que nem todos os crist\u00e3os do mundo vivem nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 evidente. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que isso tem de nos fazer entender as possibilidades que podemos ter se deixarmos de lado os preconceitos e as quest\u00f5es que acreditamos,\u00a0<em>a priori<\/em>, serem inamov\u00edveis e intoc\u00e1veis. Francisco tem repetido que a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo fixo, mas que a tradi\u00e7\u00e3o se move com a vida. \u00c9 necess\u00e1rio come\u00e7ar a distinguir que uma coisa \u00e9 o cimento da tradi\u00e7\u00e3o e outra as formas com as quais mostr\u00e1mos essa tradi\u00e7\u00e3o e que agora est\u00e3o antiquadas. Mas isso n\u00e3o significa que o n\u00facleo, o cimento, mude. S\u00f3 as formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda h\u00e1 pouco tempo o Papa Francisco disse isso\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2023\/08\/28\/papa-francisco-aos-jesuitas-portugueses-a-doutrina-da-igreja-evolui-e-voltar-atras-e-inutil\/\"><strong>no encontro com os jesu\u00edtas em Lisboa<\/strong><\/a><strong>\u00a0\u2014 a ideia de que a doutrina muda. Isso parece ser uma mensagem muito clara para alguns setores da Igreja que idealizam, de certa forma, o passado. Idealizam uma Igreja do passado. Preocupa-a esta tens\u00e3o, esta polariza\u00e7\u00e3o entre setores mais radicais, quase ideol\u00f3gicos, e uma maioria que talvez fique indiferente a grande parte das discuss\u00f5es?<\/strong><br \/>\n\u00c9 certo que h\u00e1 um setor da Igreja que vive \u00e0 imagem da Igreja da Cristandade. Ou seja, as grandes maiorias, os grandes eventos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O imp\u00e9rio crist\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perigo est\u00e1, sobretudo, em viver certas quest\u00f5es como se fossem um evento. O evento dura o que duram os fogos de artif\u00edcio \u2014 ou seja, nada. O evento acaba. Os processos \u00e9 que v\u00e3o marcando. Para muitas pessoas que t\u00eam essa mentalidade do evento, dos tempos passados \u2014 e o que vou dizer n\u00e3o o digo como cr\u00edtica ou de forma negativa \u2014, t\u00eam uma vis\u00e3o muito religiosa do Cristianismo e da Igreja. Portanto, tudo tem normas, tudo tem leis. Se estamos dentro da norma e da lei, est\u00e1 tudo bem. Mas se questionamos algo, rompe-se alguma coisa debaixo dos p\u00e9s. E h\u00e1 outras pessoas para quem a lei tem a sua import\u00e2ncia, mas h\u00e1 uma lei muito mais acima da lei criada por n\u00f3s, que \u00e9 o Evangelho. O Evangelho \u00e9 dinamismo, \u00e9 vida, \u00e9 mudan\u00e7a e \u00e9 transforma\u00e7\u00e3o. Isso, para algumas pessoas que t\u00eam a chave religiosa muito enraizada, pode causar um certo medo, que \u00e9 muito humano. N\u00e3o o critico, porque \u00e9 muito humano. Mas \u00e9 certo que entre essas pessoas de mente muito religiosa e outras de mente mais de Evangelho, por assim dizer, neste momento, o que h\u00e1 \u00e9 uma indiferen\u00e7a absoluta. E isso, queiramos ou n\u00e3o, afeta as duas vis\u00f5es. Porque, no fundo, custa-nos muito aceitar que j\u00e1 n\u00e3o temos nenhum peso na sociedade, que n\u00e3o somos relevantes, que continuamos muitas vezes a dedicar muito dinheiro a ter uma presen\u00e7a que n\u00e3o se compra \u2014 e, se tiv\u00e9ssemos a convic\u00e7\u00e3o do testemunho, o testemunho \u00e9 gr\u00e1tis. O testemunho muda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A prop\u00f3sito dessa quest\u00e3o das regras e leis, li um artigo seu no Sete Margens em que perguntava no t\u00edtulo: onde est\u00e3o as associa\u00e7\u00f5es pr\u00f3-vida na quest\u00e3o dos abusos. Isso parece uma cr\u00edtica a uma certa forma de estar dos movimentos que ficam obcecados com a quest\u00e3o do aborto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Centrava o artigo, sobretudo, na quest\u00e3o dos abusos \u2014 e do abandono que, em princ\u00edpio, as v\u00edtimas vivem. Penso sempre que este tipo de movimentos, que s\u00e3o muito respeit\u00e1veis, se ocupam muito do princ\u00edpio da vida e do final da vida, mas quanto ao que acontece entre esses dois momentos, \u00e9 como se ningu\u00e9m se quisesse meter. \u00c9 como se tudo fosse branco ou preto. O aborto em si \u00e9 mau \u2014 sejamos crentes ou n\u00e3o. \u00c9 mau, tem muitas consequ\u00eancias para a mulher, f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Isso \u00e9 claro, sejamos crentes ou n\u00e3o. A eutan\u00e1sia, como forma de nos desfazermos de um problema que, aparentemente, n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo que \u00e9 mau. Mas nem tudo \u00e9 branco nem tudo \u00e9 preto. Muitas vezes, \u00e9 preciso ver as circunst\u00e2ncias das pessoas. N\u00e3o para considerar bom o aborto ou a eutan\u00e1sia. Quero dizer que \u00e9 preciso compreender o contexto em que acontecem essas realidades. Mas, sobretudo, o que eu perguntava no artigo era: o que acontece se ningu\u00e9m se preocupa com o que se passa entre o nascimento e a morte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As migra\u00e7\u00f5es, a pobreza\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, podemos aplicar isto a tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma \u00faltima pergunta: a Jornada Mundial da Juventude, pelo menos em Portugal, foi interpretada como um grande evento impulsionador de um novo \u00e2nimo para a Igreja. A dificuldade em fazer caminho com os jovens \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o apontada no relat\u00f3rio do s\u00ednodo \u2014 e imagino que seja um tema na assembleia. Que li\u00e7\u00f5es \u00e9 que a Igreja pode tirar de um acontecimento como a JMJ?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio do s\u00ednodo, houve um problema. No S\u00ednodo dos Jovens [de 2018], uma das conclus\u00f5es era a de que os jovens queriam uma Igreja mais participativa. Chegamos a este s\u00ednodo, que deu a possibilidade [de participa\u00e7\u00e3o] a toda a gente e n\u00e3o apareceram os jovens. N\u00e3o havia jovens. Em Espanha, detetou-se isso e houve um grupo de pessoas, que trabalham num programa que se chama \u201ciMisi\u00f3n\u201d, uma miss\u00e3o digital, que pediu permiss\u00e3o \u00e0 Secretaria do S\u00ednodo para adaptar o material \u00e0 internet, para o mundo digital em que eles trabalhavam. A\u00ed surgiu a surpresa: participaram mais de 200 mil jovens. Onde est\u00e3o os jovens? Onde vivem os jovens? No mundo digital. Ent\u00e3o, vamos procur\u00e1-los ao mundo digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A JMJ est\u00e1 muito bem, mas, por exemplo, agora que est\u00e3o a recome\u00e7ar as aulas, sobretudo no hemisf\u00e9rio norte, vemos muitas vezes que surgem perguntas: o que fazer para atrair os jovens? Quando vejo essas perguntas, assalta-me uma d\u00favida: onde est\u00e1 a \u201cjuventude do Papa\u201d? Se n\u00e3o est\u00e3o agora, estavam h\u00e1 um m\u00eas. Onde est\u00e3o agora? Estes eventos s\u00e3o importantes, n\u00e3o digo que n\u00e3o o sejam. Mas, se n\u00e3o h\u00e1 uma continuidade depois, volta a ser um evento que dura o que dura o fogo-de-artif\u00edcio. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas que se possam questionar muitas realidades, mas, por exemplo, ningu\u00e9m parece pensar que, para muitos jovens de determinados pa\u00edses, \u00e9 imposs\u00edvel conseguir um visto de sa\u00edda. \u00c9 algo que condiciona a presen\u00e7a de jovens de determinados pa\u00edses. Por exemplo, isso mesmo o fez notar, quando acabou a JMJ, o arcebispo de Rabat, em Marrocos, que disse: \u201cEu n\u00e3o fui, porque os meus jovens n\u00e3o puderam ir. Eu tinha facilidade para sair, mas os meus jovens n\u00e3o podiam sair, por isso eu n\u00e3o fui.\u201d E isto acontece em muitos outros pa\u00edses em que, por exemplo, s\u00e3o precisos vistos para entrar na Europa ou nos Estados Unidos, onde seja. Estas realidades marcam. A JMJ \u00e9 muito boa se n\u00e3o se ficar por um evento. E, sobretudo, ainda que pare\u00e7a apenas uma quest\u00e3o de imagem, se a JMJ \u00e9 o encontro mundial dos jovens, nas grandes celebra\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem estar os bispos a ocupar os primeiros lugares. Os bispos t\u00eam de estar com os seus jovens. N\u00e3o digo que um bispo de 73 anos durma num saco-cama. N\u00e3o pe\u00e7o isso. Mas pe\u00e7o que, durante a celebra\u00e7\u00e3o, esteja com os seus jovens \u2014 e n\u00e3o que esteja \u00e0 frente, com regalias. Temos de nos acostumar. No final, parece que \u00e9 um encontro estranho para ser sobre jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Entrevista-a-Cristina-Inoges-Sanz-O-Sinodo-e-as-mulheres.pdf\">Entrevista a Cristina Inog\u00e9s Sanz &#8211; O S\u00ednodo e as mulheres<\/a> (PDF)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina Inog\u00e9s Sanz, uma das primeiras mulheres a votar num S\u00ednodo dos Bispos. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es teol\u00f3gicas que impe\u00e7am&#8221; ordena\u00e7\u00e3o de\u00a0mulheres<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12571,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[88,68],"tags":[],"class_list":["post-12570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sinodo-2021-2024-2028","category-ultimas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=12570"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12577,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/12570\/revisions\/12577"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/12571"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=12570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=12570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=12570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}