{"id":12578,"date":"2023-10-16T11:35:07","date_gmt":"2023-10-16T10:35:07","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=12578"},"modified":"2023-10-16T11:35:07","modified_gmt":"2023-10-16T10:35:07","slug":"timothy-radcliffe-op","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=12578","title":{"rendered":"Timothy Radcliffe, OP"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Deus constr\u00f3i a sua casa em lugares que o mundo despreza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Timothy Radcliffe, OP<br \/>\n<em>In\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/it\/vaticano\/news\/2023-10\/testi-meditazioni-padre-radcliffe-ritiro-sacrofano-sinodo.html\">Vatican News<\/a><\/em><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o.: Rui Jorge Martins<br \/>\nPublicado em\u00a003.10.2023<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegamos a este S\u00ednodo com esperan\u00e7as contrastantes. Mas isso n\u00e3o deve ser um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel. Estamos unidos na esperan\u00e7a pela Eucaristia, uma esperan\u00e7a que abra\u00e7a e transcende tudo aquilo que desejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia h\u00e1 uma outra fonte de tens\u00e3o. A nossa conce\u00e7\u00e3o da Igreja como casa \u00e9 por vezes contrastante. Cada criatura viva precisa de uma casa para poder prosperar. Os peixes precisam de \u00e1gua e os p\u00e1ssaros de ninhos. Sem uma casa, n\u00e3o podemos viver. As diversas culturas t\u00eam conce\u00e7\u00f5es diferentes do que \u00e9 a casa. O \u201cInstrumentum Laboris\u201d [Documento de Trabalho para o S\u00ednodo] diz-nos que \u00aba \u00c1sia ofereceu a imagem da pessoa que descal\u00e7a os sapatos para atravessar a soleira da porta, como sinal de humildade para estar preparada para encontrar o outro e Deus; a Oce\u00e2nia prop\u00f4s a imagem do barco; a \u00c1frica insistiu na imagem da Igreja como fam\u00edlia de Deus, capaz de oferecer perten\u00e7a e acolhimento a todos os seus membros, em toda a sua variedade\u00bb (B 1,2). Mas todas estas imagens mostram que precisamos de um lugar em que possamos ser aceites e ao mesmo tempo desafiados. Em casa somos afirmados por aquilo que somos e somos convidados a ser mais. A casa \u00e9 o lugar em que somos conhecidos e amados, onde estamos em seguran\u00e7a, mas \u00e9 tamb\u00e9m o lugar em que somos desafiados a empreender a aventura da f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos de renovar a Igreja entendida como casa comum se queremos falar a um mundo que sofre de uma crise devida \u00e0 falta de casa. Estamos a consumir a nossa pequena casa planet\u00e1ria. H\u00e1 mais de 350 milh\u00f5es de migrantes em movimento, em fuga de guerras e viol\u00eancias. Milhares de pessoas morrem ao atravessar os mares para tentar encontrar uma casa. Nenhum de n\u00f3s pode sentir-se completamente em casa se n\u00e3o estiver nela. Tamb\u00e9m nos pa\u00edses ricos, milh\u00f5es de pessoas dormem na rua. Os jovens, muitas vezes, n\u00e3o podem permitir-se uma casa. Em todo o lado h\u00e1 uma terr\u00edvel aus\u00eancia de casa espiritual. O individualismo impulsionado, a desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, as desigualdades cada vez mais profundas fazem com que estejamos aflitos por um maremoto de solid\u00f5es. Os suic\u00eddios est\u00e3o a aumentar porque sem uma casa, f\u00edsica e espiritual, n\u00e3o se pode viver. Amar \u00e9 voltar para casa de algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que nos ensina a cena da Transfigura\u00e7\u00e3o [de Jesus] em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa casa, seja na Igreja seja no nosso mundo deserdado? Jesus convida o seu c\u00edrculo mais \u00edntimo de amigos a separar-se dele e a desfrutar deste momento de intimidade. Tamb\u00e9m eles estar\u00e3o com Ele no Gets\u00e9mani. Este \u00e9 o c\u00edrculo mais \u00edntimo daqueles com quem Jesus se sente mais \u00e0 vontade. No cimo do monte concede-lhes a vis\u00e3o da sua gl\u00f3ria. Pedro quer agarrar-se a este momento. \u00abRabi, \u00e9 belo para n\u00f3s estarmos aqui; fa\u00e7amos tr\u00eas tendas, uma para ti, uma para Mois\u00e9s e uma para Elias\u00bb. Chegou e quer que este momento \u00edntimo dure.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas escutam a voz do Pai. \u00abEscutai-o!\u00bb. T\u00eam de descer do monte e caminhar rumo a Jerusal\u00e9m, sem saber o que os espera. Dispersar-se-\u00e3o e enviados aos confins da Terra para serem testemunhas da nossa morada definitiva, o Reino. Vemos, ent\u00e3o, duas conce\u00e7\u00f5es de casa: o c\u00edrculo restrito com Jesus no cimo do monte e o chamamento \u00e0 nossa casa definitiva, o Reino, a que todos pertenceremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De maneira semelhante, diferentes conce\u00e7\u00f5es da Igreja como casa dividem-nos hoje. Para alguns, esta \u00e9 definida pelas suas antigas tradi\u00e7\u00f5es e devo\u00e7\u00f5es, pelas suas estruturas e pela sua linguagem herdadas, pela Igreja em que crescemos e que amamos. \u00c9 uma Igreja que nos d\u00e1 uma clara identidade crist\u00e3. Para outros, a Igreja atual n\u00e3o parece ser uma casa segura. \u00c9 experimentada como exclusiva, marginalizando muitas pessoas, as mulheres, os divorciados, os recasados. Para alguns \u00e9 excessivamente ocidental, excessivamente euroc\u00eantrica. O \u201cInstrumentum Laboris\u201d cita tamb\u00e9m os homossexuais e as pessoas que vivem em casamentos polig\u00e2micos. Desejam uma Igreja renovada em que possam sentir-se plenamente em casa, reconhecidos, afirmados e seguros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns, a ideia de um acolhimento universal, em que todos sejam aceites independentemente de quem sejamos, \u00e9 sentida como destrutiva da identidade da Igreja. Como numa can\u00e7\u00e3o inglesa do s\u00e9culo XIX, \u00abse todos s\u00e3o algu\u00e9m, ent\u00e3o ningu\u00e9m \u00e9 ningu\u00e9m\u00bb; s\u00e3o pessoas para quem a identidade requer fronteiras. Para outros, pelo contr\u00e1rio, a abertura \u00e9 o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da identidade da Igreja. O papa Francisco afirmou: \u00abA Igreja \u00e9 chamada a ser a casa do Pai, com as portas sempre escancaradas\u2026 onde h\u00e1 lugar para todos, para cada um com os seus problemas, para ir ao encontro de quem sente a necessidade de retomar o seu caminho de f\u00e9\u00bb <em>(Evangelium gaudium, 47).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta tens\u00e3o esteve sempre no centro da nossa f\u00e9, desde que Abra\u00e3o deixou Ur. No Antigo Testamento h\u00e1 duas coisas em perene tens\u00e3o entre elas: a ideia da elei\u00e7\u00e3o, do povo escolhido por Deus, do povo com quem Deus habita. Esta \u00e9 uma identidade que \u00e9 salvaguardada. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o universalismo, a abertura a todas as na\u00e7\u00f5es, uma identidade ainda a descobrir. A identidade crist\u00e3 \u00e9 ao mesmo tempo conhecida e desconhecida, dada e a procurar. S. Jo\u00e3o diz: \u00abCar\u00edssimos, a partir de agora somos filhos de Deus, mas aquilo que seremos n\u00e3o foi ainda revelado. Sabemos, no entanto, que quando Ele se manifestar, n\u00f3s seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele \u00e9\u00bb (1 Jo\u00e3o 3, 1-2). Sabemos que somos, e, todavia, n\u00e3o sabemos quem seremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns de n\u00f3s, a identidade crist\u00e3 \u00e9 sobretudo dada, a Igreja que conhecemos e amamos. Para outros, a identidade crist\u00e3 \u00e9 sempre provis\u00f3ria, em caminho rumo ao Reino, no qual cair\u00e3o todos os muros. Ambas s\u00e3o necess\u00e1rias! Se sublinhamos apenas que a nossa identidade \u00e9 dada \u2013 isto \u00e9 o que significa ser cat\u00f3licos \u2013, arriscamos tornarmo-nos uma seita. Se sublinhamos apenas a aventura rumo a uma identidade ainda por descobrir, arriscamos tornarmo-nos um vago movimento crist\u00e3o. Mas a Igreja \u00e9 sinal e sacramento da unidade de toda a humanidade em Cristo ao ser ambas as coisas. Habitamos a montanha e saboreamos j\u00e1 a gl\u00f3ria. Mas caminhamos rumo a Jerusal\u00e9m, o primeiro S\u00ednodo da Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como viver esta necess\u00e1ria tens\u00e3o? Toda a teologia nasce da tens\u00e3o que dobra o arco para lan\u00e7ar a flecha. Esta tens\u00e3o est\u00e1 no centro do Evangelho de S. Jo\u00e3o. Deus faz a sua casa em n\u00f3s: \u00abSe algu\u00e9m me ama, observar\u00e1 a minha palavra, e o meu Pai am\u00e1-lo-\u00e1, e n\u00f3s viremos a ele e habitaremos junto a ele\u00bb (14, 23). Mas Jesus promete-nos tamb\u00e9m a nossa casa em Deus: \u00abNa casa de meu Pai h\u00e1 muitas moradas. Se assim n\u00e3o fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar?\u00bb (14, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pensamos na Igreja como uma casa, alguns de n\u00f3s pensamos sobretudo em Deus que vem a nossa casa, e outros em n\u00f3s que vamos para casa em Deus. Ambas as coisas s\u00e3o verdadeiras. Devemos entrar em sintonia com quem pensa diversamente. Temos no cora\u00e7\u00e3o o c\u00edrculo restrito no cimo do monte, mas descemos e caminhamos rumo a Jerusal\u00e9m, vagabundos e sem casa. \u00abEscutai-o.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, em primeiro, Deus fa a sua casa connosco. O Verbo faz-se carne num judeu palestinense do primeiro s\u00e9culo, que cresceu nos usos e costumes do seu povo. O Verbo faz-se carne em cada uma das nossas culturas. Nas pinturas italinas da Anuncia\u00e7\u00e3o, vemos belas casas de m\u00e1rmore. com janelas abertas para oliveiras e jardins de rosas e l\u00edrios. Os pintores holandeses e flamengos mostram Maria com um forno quente, bem envolvida para manter o frio \u00e0 dist\u00e2ncia. Qualquer que seja a vossa casa, Deus vem habitar nela. Durante trinta anos de sil\u00eancio, Deus habitou em Nazar\u00e9: um insignificante lugar secund\u00e1rio. Nataniel exclamou, desgostoso: \u00abPoder\u00e1 talvez sair alguma coisa de bom de Nazar\u00e9?\u00bb (Jo\u00e3o 1, 46). Filipe responde, simplesmente: \u00abVem e v\u00ea\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as nossas casas s\u00e3o Nazar\u00e9, onde Deus habita. S. Charles de Foucauld afirmou: \u00abDeixai que Nazar\u00e9 seja o vosso modelo, em toda a sua simplicidade e abertura\u2026 A vida de Nazar\u00e9 pode ser vivida em qualquer lugar. Vive-a onde \u00e9 mais \u00fatil para o teu pr\u00f3ximo\u00bb. Onde quer que estejamos e o que quer que fa\u00e7amos, Deus vem encontrar-nos: \u00abOlha que Eu estou \u00e0 porta e bato: se algu\u00e9m ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo\u00bb (3, 20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, fa\u00e7amos tesouro dos lugares em que encontr\u00e1mos o Emanuel. \u00abDeus connosco.\u00bb Amemos as liturgias em que entrevimos a beleza divina, as igrejas da nossa inf\u00e2ncia, as devo\u00e7\u00f5es populares. Eu amo a grande abadia beneditina da minha escola, onde pela primeira vez percecionei as portas do C\u00e9u abertas. Cada um de n\u00f3s tem o seu monte Tabor, no qual entreviu a gl\u00f3ria. Precisamos disso. Neste sentido, quando as liturgias s\u00e3o mudadas ou as igrejas demolidas, as pessoas experimentam uma grande dor, como se a sua casa na Igreja tivesse sido destru\u00edda. Como Pedro, queremos permanecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada Igreja local \u00e9 uma casa para Deus. A nossa M\u00e3e Maria apareceu na Inglaterra em Walsingham, o grande santu\u00e1rio medieval, em Lourdes, em Guadalupe no M\u00e9xico, em Czestochowa na Pol\u00f3nia, em La Vang no Vietname, em Donglu na China. N\u00e3o h\u00e1 uma competi\u00e7\u00e3o mariana. Em Inglaterra dizemos: \u00abA boa not\u00edcia \u00e9 que Deus te ama. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que ama tamb\u00e9m todos os outros\u00bb. Santo Agostinho dizia: \u00abDeus ama cada um de n\u00f3s como se houvesse apenas um\u00bb. Na bas\u00edlica de Nossa Senhora de \u00c1frica, na Arg\u00e9lia, h\u00e1 esta inscri\u00e7\u00e3o: \u00abPriez pour nous et pour les musulmans\u00bb, \u00abOrai por n\u00f3s e pelos mu\u00e7ulmanos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas vezes os sacerdotes encaram o caminho sinodal mais dif\u00edcil de abra\u00e7ar. N\u00f3s, sacerdotes, curamos destes lugares de culto e neles celebramos as liturgias. Os sacerdotes t\u00eam necessidade de um forte sentido de identidade, de um \u201cesprit de corps\u201d. Mas quem seremos nesta Igreja libertada do clericalismo? Como pode o clero abra\u00e7ar uma identidade que n\u00e3o seja clerical? Este \u00e9 um grande desafio para uma Igreja renovada. Acolhamos sem medo uma nova compreens\u00e3o fraterna do sacerd\u00f3cio ministerial! Talvez possamos descobrir como esta perda de identidade seja, na realidade, uma parte intr\u00ednseca da nossa identidade sacerdotal. \u00c9 uma voca\u00e7\u00e3o que vai para al\u00e9m de toda a identidade, porque \u00abaquilo que seremos ainda n\u00e3o foi revelado\u00bb (1 Jo\u00e3o 3, 2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus constr\u00f3i a sua casa em lugares que o mundo despreza. O nosso irm\u00e3o dominicano Frei Betto descreve como Deus se tornou a sua casa numa pris\u00e3o no Brasil. Alguns dominicanos foram aprisionados por causa da sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura (1964-1985) Betto escreve: \u00abO dia de Natal, festa do regresso de Deus a casa, a alegria \u00e9 incontida. A noite de Natal na pris\u00e3o\u2026 Agora todo o c\u00e1rcere canta, como se o nosso canto, feliz e livre, tivesse de ressoar em todo o mundo. As mulheres cantam nas suas sec\u00e7\u00f5es, e n\u00f3s aplaudimos\u2026 Aqui todos sabem que \u00e9 Natal, que algu\u00e9m est\u00e1 a renascer. E com o nosso canto testemunhamos que tamb\u00e9m n\u00f3s somos renascidos para lutar por um mundo sem l\u00e1grimas, \u00f3dio e opress\u00e3o. \u00c9 impressionante ver estes jovens de rostos comprimidos contra as grades e cantar o seu amor. Inesquec\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 um espet\u00e1culo para os nossos ju\u00edzes, ou para o Minist\u00e9rio P\u00fablico, ou para a pol\u00edcia que nos prendeu. Encarariam como intoler\u00e1vel a beleza desta noite. Os torturadores temem um sorriso, ainda que fr\u00e1gil\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim entrevemos a beleza do Senhor no nosso monte Tabor, onde, como Pedro, queremos plantar as nossas tendas. Muito bem! Mas \u00abescutai-o!\u00bb. Desfrutamos desse momento e depois descemos da montanha e caminhamos rumo a Jerusal\u00e9m. Devemos tornar-nos, em certo sentido, sem-abrigo. \u00abAs raposas t\u00eam tocas e as aves do c\u00e9u t\u00eam ninhos, mas o Filho do Homem n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a\u00bb (Lucas 9, 58). Caminhamos para Jerusal\u00e9m, a cidade santa onde reside o nome de Deus. Mas ali Jesus morre fora dos muros para o bem de todos aqueles que vivem fora dos muros, como Deus se revelou ao seu povo no deserto fora do acampamento. James Alison escreve: \u00abDeus est\u00e1 no meio de n\u00f3s como um enxotado\u00bb. \u00abPor isso, tamb\u00e9m Jesus, para santificar o povo com o seu pr\u00f3prio sangue, padeceu fora das portas. Sa\u00edamos, ent\u00e3o, ao seu encontro fora do acampamento, suportando a sua humilha\u00e7\u00e3o\u00bb (Hebreus 13, 12-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O arcebispo Carlos Aspiroz da Costa escrevia \u00e0 Fam\u00edlia Dominicana quando era Mestre: \u00abFora do campo, entre todos aqueles \u201coutros\u201d relegados para um lugar fora do campo, \u00e9 onde encontramos Deus. A itiner\u00e2ncia exige sair das institui\u00e7\u00f5es, das perce\u00e7\u00f5es e das cren\u00e7as culturalmente condicionadas, porque \u00e9 \u201cfora do campo\u201d que encontramos um Deus que n\u00e3o pode ser controlado. \u00c9 \u201cfora do campo\u201d que encontramos o Outro que \u00e9 diferente e descobrimos quem somos e o que devemos fazer\u00bb. \u00c9 saindo que chegaremos a uma casa na qual \u00abn\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego; n\u00e3o h\u00e1 escravo nem livre; n\u00e3o h\u00e1 homem e mulher, porque todos sois um s\u00f3 em Cristo Jesus\u00bb (G\u00e1latas 3, 28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 80, ao refletir na resposta da Igreja \u00e0 SIDA, visitei um hospital de Londres. O m\u00e9dico disse-me que havia um jovem que procurava um sacerdote de nome Timothy. Pela provid\u00eancia de Deus, consegui ungi-lo pouco antes de morrer. Pediu para ser sepultado na catedral de Westminster, o centro do catolicismo na Inglaterra. Estava rodeado de pessoas comuns que vinham \u00e0 quela missa ferial, al\u00e9m de doentes de SIDA, enfermeiros, m\u00e9dicos e amigos homossexuais. Aquele que tinha estado na periferia, por causa da sua doen\u00e7a, por causa da sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, e sobretudo porque tinha morrido, estava no centro. Estava rodeado por aqueles para os quais a Igreja era uma casa e por aqueles que normalmente nunca entrariam numa igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nossa vida nutre-se de tradi\u00e7\u00f5es e devo\u00e7\u00f5es amadas. Se se perdem, ficamos magoados. Mas devemos tamb\u00e9m recordar todos aqueles que n\u00e3o se sentem ainda em casa na Igreja: as mulheres que se sentem n\u00e3o reconhecidas num patriarcado de velhos homens brancos como eu! Pessoas que sentem que a Igreja \u00e9 excessivamente ocidental, excessivamente latina, excessivamente colonial. Devemos caminhar rumo a uma Igreja em que n\u00e3o continuem a estar \u00e0s margens, mas no centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Thomas Merton se torna cat\u00f3lico descobre \u201cDeus, esse centro que est\u00e1 em todo o lado e cuja circunfer\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 em lado nenhum, enquanto me encontra\u00bb. Renovar a Igreja, por isso, \u00e9 como fazer p\u00e3o. Juntamos as bordas da massa ao centro e alargamos o centro at\u00e9 \u00e0s bordas, enchendo tudo de oxig\u00e9nio. Faz-se o p\u00e3o invertendo a distin\u00e7\u00e3o entre as bordas e o centro, fazendo o p\u00e3o de Deus, cujo centro est\u00e1 em todo o lado e cuja circunfer\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 em lado nenhum, assim nos encontrando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma \u00faltima brev\u00edssima palavra. Muitas vezes, durante a prepara\u00e7\u00e3o deste S\u00ednodo, foi colocada a pergunta: \u00abComo podemos estar em casa na Igreja com o horr\u00edvel esc\u00e2ndalo dos abusos sexuais?\u00bb. Para muitos foi a gota que fez transbordar o copo. Fizeram as malas e foram-se embora. Coloquei esta pergunta numa reuni\u00e3o de respons\u00e1veis cat\u00f3licos na Austr\u00e1lia, onde a Igreja foi horrivelmente desfigurada por este esc\u00e2ndalo. Como fizeram para permanecer? Como puderam estar ainda em casa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um deles citou Carlo Carretto (1910-1988), um Irm\u00e3ozinho de Charles de Foucauld. As palavras de Carretto resumem a ambiguidade da Igreja, minha casa, mas n\u00e3o ainda casa minha, que revela e oculta Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abQuanto devo criticar-te, minha Igreja, todavia quanto te amo. Fizeste-me sofrer mais do que qualquer outro, todavia a ti te devo mais do que a qualquer outro. Queria ver-te destru\u00edda, todavia preciso da tua presen\u00e7a. Escandalizaste-me muito, todavia s\u00f3 tu me fizeste compreender a tua santidade\u2026. In\u00fameras vezes tive vontade de bater na tua cara a porta da minha alma, todavia, a cada noite, rezei por poder morrer entre os teus bra\u00e7os seguros! N\u00e3o, n\u00e3o posso libertar-me de ti, porque sou um todo contigo, ainda que n\u00e3o completamente. E depois, para onde iria? Construir uma outra igreja? Mas n\u00e3o poderei construir uma sem os mesmos defeitos, porque s\u00e3o os meus defeitos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final do Evangelho de Mateus, Jesus diz: \u00abEis que Eu estou convosco at\u00e9 ao fim dos tempos\u00bb. Se o Senhor permanece, como poderemos ir embora? Deus p\u00f4s-se na nossa casa, com todos os nossos escandalosos limites, para sempre. Deus permanece na nossa Igreja, ainda que com toda a corrup\u00e7\u00e3o e os abusos. Por isso devemos permanecer. Mas Deus est\u00e1 connosco para nos conduzir nos espa\u00e7os mais amplos do Reino. Precisamos da Igreja, da nossa casa atual com todas as suas fraquezas, mas tamb\u00e9m de respirar o oxig\u00e9nio pleno de Esp\u00edrito da nossa futura casa sem confins.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos a este S\u00ednodo com esperan\u00e7as contrastantes. Mas isso n\u00e3o deve ser um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel. 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