{"id":14322,"date":"2024-12-02T13:42:26","date_gmt":"2024-12-02T13:42:26","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=14322"},"modified":"2024-12-02T13:42:58","modified_gmt":"2024-12-02T13:42:58","slug":"o-homem-questao-para-si-mesmo-16-reflexoes-pelo-padre-anselmo-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=14322","title":{"rendered":"O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 16 reflex\u00f5es pelo Padre Anselmo Borges"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>16 reflex\u00f5es pelo Padre Anselmo Borges<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 agosto 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 1. \u00a0O c\u00e9rebro e o esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no livro\u00a0<em>Francisco. Desafios \u00e0 Igreja e ao Mundo<\/em>\u00a0escrevi longas p\u00e1ginas reflectindo sobre o tema, concretamente sobre as quest\u00f5es do \u201cTranshumanismo e p\u00f3s-humanismo\u201d, onde tamb\u00e9m citava Raymond Kurzweil para quem n\u00e3o se trataria apenas de \u201ctranshumanismo\u201d, melhorando o Homem, enxertando-lhe componentes electr\u00f3nicas: \u201cO fim \u00faltimo \u00e9 ser capaz de descarregar uma consci\u00eancia humana num material inform\u00e1tico. A Humanidade aceder\u00e1 assim \u00e0 imortalidade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto \u00e0 quest\u00e3o do Homem, que se torna cada vez mais actual com os avan\u00e7os da Intelig\u00eancia Artificial (IA), cujos benef\u00edcios ser\u00e3o cada vez mais ineg\u00e1veis, concretamente nos dom\u00ednios da sa\u00fade, mas que vai p\u00f4r dilemas \u00e9ticos, j\u00e1 que haver\u00e1 perigos gigantescos, como preveniu o Papa Francisco na recente Cimeira do G7 na It\u00e1lia, apelando, por exemplo, \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o da entrada em cen\u00e1rio de guerra de armas autom\u00e1ticas letais, sistemas que usam IA. No limite, a pergunta \u00e9: iremos ser substitu\u00eddos por m\u00e1quinas? O que \u00e9 o Homem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O enigma parece ser n\u00e3o tanto o esp\u00edrito, mas a mat\u00e9ria. Embora o esp\u00edrito seja enigm\u00e1tico na sua rela\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria &#8211; como \u00e9 que, estando na raiz o esp\u00edrito, h\u00e1 mat\u00e9ria? -, parece menos compreens\u00edvel como \u00e9 que da mat\u00e9ria resulta o esp\u00edrito, como \u00e9 que a mat\u00e9ria se abre em esp\u00edrito. O dualismo antropol\u00f3gico \u00e9 cada vez mais inadmiss\u00edvel; mas como entender a emerg\u00eancia do esp\u00edrito a partir da mat\u00e9ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o t\u00eam faltado afirma\u00e7\u00f5es reducionistas do Homem. \u201cO Homem n\u00e3o passa de um objecto material e tem apenas propriedades f\u00edsicas\u201d (D. M. Armstrong, 1968). \u201cToda a conduta humana ter\u00e1, um dia, uma explica\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica\u201d (D. Mackay, 1980). \u201cAs m\u00e1quinas inteligentes tomar\u00e3o pouco a pouco o controlo de tudo, acabando por apoderar-se do mundo da pol\u00edtica&#8230; Pensar \u00e9 simplesmente um processo f\u00edsico-qu\u00edmico (L. Ruiz de Gopegui, 1983). \u201cO esp\u00edrito \u00e9 uma m\u00e1quina\u201d (M. Minsky, 1987).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, com as novas t\u00e9cnicas da tomografia de emiss\u00e3o de positr\u00f5es e da resson\u00e2ncia magn\u00e9tica nuclear funcional, consegue-se visualizar imagens das regi\u00f5es do c\u00e9rebro que entram em ac\u00e7\u00e3o aquando das diferentes opera\u00e7\u00f5es mentais. Assim, Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio escreveu que, embora avesso a previs\u00f5es &#8211; ali\u00e1s, com o tempo, parece-me cada vez mais prudente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da consci\u00eancia -, lhe parece seguro poder afirmar que, at\u00e9 2050, a acumula\u00e7\u00e3o do saber sobre os fen\u00f3menos biol\u00f3gicos em conex\u00e3o com a mente consciente far\u00e1 com que \u201cdesapare\u00e7am as tradicionais separa\u00e7\u00f5es de corpo e alma, c\u00e9rebro e esp\u00edrito.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez haja quem receie que, mediante a compreens\u00e3o da sua estrutura material, algo t\u00e3o precioso e digno como o esp\u00edrito humano se degrade ou desapare\u00e7a. Mas Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio previne que \u201ca explica\u00e7\u00e3o das origens e do funcionamento do esp\u00edrito n\u00e3o acabar\u00e1 com ele.\u201d O nosso assombro estender-se-\u00e1 at\u00e9 essas incr\u00edveis microestruturas do organismo e \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es que permitem o aparecimento do esp\u00edrito e da autoconsci\u00eancia &#8211; n\u00e3o se esque\u00e7a de que o c\u00e9rebro com os seus cem mil milh\u00f5es de neur\u00f3nios e um n\u00famero incalcul\u00e1vel de sinapses \u00e9 a estrutura biol\u00f3gica mais complexa que conhecemos. O esp\u00edrito sobreviver\u00e1 \u00e0 sua explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gico-neuronal, como a rosa continua a enfeiti\u00e7ar-nos com o seu perfume, depois de analisada a sua estrutura molecular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da consci\u00eancia continuar\u00e1 a fascinar-nos, apesar de todos os avan\u00e7os da neurobiologia. A raz\u00e3o est\u00e1 em que o corpo e o c\u00e9rebro s\u00e3o objectivamente acess\u00edveis. A consci\u00eancia, por\u00e9m, \u00e9 \u00edntima e ineliminavelmente subjectiva: \u00e9 sempre cada um, cada uma, a viver-se a si mesmo, a si mesma, subjectivamente, de modo \u00fanico e intransfer\u00edvel, sendo dada, portanto, na experi\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Demos um exemplo, apesar de tudo, menos exigente: um neurocientista que tivesse todos os conhecimentos sobre os mecanismos com que o c\u00e9rebro processa a impress\u00e3o da cor azul, sem a sua viv\u00eancia real consciente, n\u00e3o saberia o que \u00e9 o azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema permanecer\u00e1: como \u00e9 que processos el\u00e9ctricos e f\u00edsico-qu\u00edmicos originam a experi\u00eancia subjectiva. H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9rebro e a consci\u00eancia, mas como \u00e9 que a experi\u00eancia de si na primeira pessoa surge de processos e factos da ordem da terceira pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mediante as novas t\u00e9cnicas, percepcionamos a base neurobiol\u00f3gica do pensamento. Significa isso que temos, desse modo, acesso ao conte\u00fado do pensamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reflectindo sobre esta problem\u00e1tica, o n\u00famero de julho-Agosto de\u00a0<em>Philosophie Magazine\u00a0<\/em>pergunta: \u201cObservamos no c\u00e9rebro correntes el\u00e9ctricas, fen\u00f3menos de activa\u00e7\u00e3o, mas algum dia veremos nele o pr\u00f3prio pensamento?\u201d Onde est\u00e1 a liberdade, no c\u00e9rebro? Onde est\u00e3o a autoconsci\u00eancia e o eu, no c\u00e9rebro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como sublinhou o c\u00e9lebre historiador Jean Delumeau, h\u00e1 realmente hoje correntes reducionistas, no sentido neuronal ou como se o Homem n\u00e3o passasse de um \u201cmosaico de genes\u201d. Mas n\u00e3o se esquece ent\u00e3o que \u00e9 o Homem que faz a ci\u00eancia e lhe d\u00e1 sentido?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSe o Universo \u00e9 o fruto do acaso, se o Homem n\u00e3o foi querido por um Ser que transcende a Hist\u00f3ria, se a nossa liberdade \u00e9 ilus\u00f3ria, nada tem sentido e, segundo a f\u00f3rmula tr\u00e1gica de L\u00e9on-Paul Fargue, \u2018a vida \u00e9 o\u00a0<em>cabaret<\/em>\u00a0do nada\u2019.\u201d E continua: se, como pergunta Jean-Fran\u00e7ois Lambert, o Homem \u00e9 da mesma natureza que os outros seres, donde lhe vem o seu valor e dignidade? Onde se fundamentam os Direitos Humanos? Se se n\u00e3o \u00e9 bom ou mau, \u201cmas apenas bem ou mal programado\u201d, ainda se poder\u00e1 falar de liberdade e responsabilidade?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>17 agosto 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 2. \u00a0O que sou? Quem sou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 o Homem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos s\u00e9culos, foram-se sucedendo, numa lista quase intermin\u00e1vel, as tentativas de resposta: animal que fala, animal pol\u00edtico (Arist\u00f3teles); animal racional (os est\u00f3icos e a Escol\u00e1stica); realidade sagrada (S\u00e9neca); um ser que pensa (Descartes); uma cana pensante (Pascal); um ser que trabalha (Marx); um animal capaz de prometer (Nietz- sche); um ser que cria (Bergson); um animal que ri, um animal que chora, um animal que sepulta os mortos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00eddo da gigantesca aventura c\u00f3smica com uns 14 000 milh\u00f5es de anos, o Homem tem, segundo Edgar Morin, \u201ca singularidade de ser cerebralmente\u00a0<em>sapiens-demens<\/em>\u201d (sapiente-demente), ter, portanto, com ele \u201cao mesmo tempo a racionalidade, o del\u00edrio, a\u00a0<em>hybris\u00a0<\/em>(a desmesura), a destrutividade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o fil\u00f3sofo Andr\u00e9 Comte-Sponville apresentou a sua \u201cdefini\u00e7\u00e3o\u201d, que julga suficiente: \u201c\u00c9 um ser humano qualquer ser nascido de dois seres humanos.\u201d Mas ser\u00e1 mesmo suficiente? O que dizer em rela\u00e7\u00e3o aos primeiros seres humanos que, na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nasceram de outros humanos? Esta \u00e9 uma quest\u00e3o assombrosa: sim, quem foram os primeiros e como \u00e9 que foram tomando consci\u00eancia de si? Nunca se saber\u00e1 quem foi o primeiro que disse \u201ceu\u201d. E se amanh\u00e3 se der a clonagem e a partenog\u00e9nese?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grandes esp\u00edritos &#8211; Diderot, por exemplo &#8211; deram-se conta de que o que somos n\u00e3o pode ser encerrado numa defini\u00e7\u00e3o. O Homem \u00e9 o ser que leva consigo a quest\u00e3o do ser e do seu ser e que origin\u00e1ria e constitutivamente pergunta: o que \u00e9 o Homem? O que, antes de mais, une a Humanidade toda \u00e9 precisamente esta pergunta: o que \u00e9 o Homem, o que \u00e9 ser ser humano?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o chimpanz\u00e9, por exemplo, tamb\u00e9m sente, recorda, procura, espera, joga, comunica, aprende e inventa, o que \u00e9 que nos distingue? Parece estender-se cada vez mais a tenta\u00e7\u00e3o de pensar que o Homem \u00e9 um animal entre outros. Se diferen\u00e7a houvesse, n\u00e3o seria essencial e qualitativa, mas apenas de grau. Mas quem anda atento reconhecer\u00e1 com certeza que a diferen\u00e7a entre o Homem e os outros animais n\u00e3o \u00e9 apenas de grau, mas essencial e qualitativa. Pelo menos, \u00e9 preciso manter a pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o Homem \u00e9 corpo, mas um corpo que fala e que diz eu. Ora, um corpo que produz sons duplamente articulados, portanto, transportando sentido, \u00e9 um corpo que transcende a animalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Homem \u00e9 capaz de renunciar \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o imediata dos seus impulsos: \u00e9 \u201co asceta da vida\u201d, escreveu Max Scheler. Por isso, \u00e9 capaz de jejuar e ergueu, por exemplo, um edif\u00edcio jur\u00eddico-penal, para evitar a vingan\u00e7a cega, dirimir diferendos, n\u00e3o fazer Justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando vemos um animal sentado, de olhos fechados, com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, estamos em presen\u00e7a de um Homem que pensa e medita. Est\u00e1 ensimesmado, entrou dentro de si pr\u00f3prio, desceu \u00e0 sua intimidade, submerso na sua subjectividade pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, h\u00e1 muito de id\u00eantico em n\u00f3s e no chimpanz\u00e9, \u201cno mono e no Papa\u201d, disse ironicamente o fil\u00f3sofo confessadamente ateu Michel Onfray. O professor de filosofia e o chimpanz\u00e9 t\u00eam necessidades naturais comuns: comer, beber, dormir. A etologia mostra que h\u00e1 comportamentos naturais comuns aos animais e aos humanos. Veja-se, por exemplo, as rela\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e de agress\u00e3o e compare-se inclusivamente os rituais de cortejamento sexual. Mas \u00e9 interessante constatar que j\u00e1 na resposta \u00e0s necessidades naturais h\u00e1 uma diferen\u00e7a: os homens inventaram a cozinha e a gastronomia e tamb\u00e9m o erotismo.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>Onfray acrescenta: \u201cO Homem e o animal separam-se radicalmente quando se trata de necessidades espirituais, as \u00fanicas que s\u00e3o pr\u00f3prias dos homens e das quais n\u00e3o se encontra nenhum vest\u00edgio &#8211; m\u00ednimo que seja &#8211; nos animais.\u201d H\u00e1 nos humanos uma s\u00e9rie de actividades especificamente intelectuais, que os distinguem radicalmente dos monos: nestes, n\u00e3o encontramos filosofia, nem religi\u00e3o, nem arte&#8230;<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tentativa de compreend\u00ea-lo no quadro de um materialismo mecanicista ou do biologismo n\u00e3o d\u00e1 conta do Homem. De facto, o animal \u00e9 conduzido, em \u00faltima an\u00e1lise, pelo instinto. Por isso, esfomeado, n\u00e3o se conter\u00e1 perante a comida apropriada que lhe apare\u00e7a. Face \u00e0 f\u00eamea no per\u00edodo do cio, n\u00e3o resistir\u00e1. O Homem, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 capaz de transcender a din\u00e2mica biol\u00f3gica. Por motivos de ascese ou religiosos ou at\u00e9 pura e simplesmente para mostrar a si pr\u00f3prio que se n\u00e3o deixa arrastar pelo impulso, \u00e9 capaz de conter-se, resistir, dizer n\u00e3o. Foi neste sentido que, repito, Max Scheler, um dos fundadores da Antropologia Filos\u00f3fica, escreveu que o Homem \u00e9 \u201co asceta da vida\u201d, o \u00fanico animal capaz de dizer n\u00e3o aos impulsos instintivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a base biol\u00f3gica da conduta moral, uma caracter\u00edstica essencialmente espec\u00edfica humana. Uma vez que o Homem \u00e9 capaz de ponderar, renunciar, abster-se, optar, dizer sim, dizer n\u00e3o aos impulsos, \u00e9 livre e, por conseguinte, animal moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Homem \u00e9 corpo, mas um corpo que fala. Porque fala, \u00e9 capaz de debater quest\u00f5es como a da diferen\u00e7a com os outros animais, defender pontos de vista, distinguir o bem e o mal, tomar posi\u00e7\u00f5es sobre valores morais, pol\u00edticos, religiosos, est\u00e9ticos, filos\u00f3ficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, o enigma \u00e9 este: provimos da natureza, mas contrapomo-nos a ela, somos simultaneamente da natureza, na natureza e fora dela. Monos e humanos t\u00eam a mesma origem, mas os humanos t\u00eam originalidades \u00fanicas e irredut\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Homem \u00e9 o ser da pergunta e a pergunta por si mesmo caracteriza-o: O que \u00e9 o Homem? O que sou? Quem sou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>24 agosto 2024 \u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 3. O contributo da literatura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto regi a cadeira de Antropologia Filos\u00f3fica na Faculdade de Letras, em Coimbra, esforcei-me sempre por aliciar os estudantes para a leitura da grande literatura mundial, concretamente das trag\u00e9dias e dos romances, na convic\u00e7\u00e3o de que seria esse um dos lugares indispens\u00e1veis para poderem penetrar de modo substancial na urg\u00eancia do conhecimento da realidade humana no seu enigma e mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi, por isso, para mim, uma surpresa feliz entrar em contacto com algo totalmente in\u00e9dito na hist\u00f3ria das publica\u00e7\u00f5es papais: a Carta do Papa Francisco sobre o papel da literatura na Educa\u00e7\u00e3o, publicada com a data de 17 de Julho de 2024. Ela teria sido escrita pensando na forma\u00e7\u00e3o dos futuros padres, mas, pensando bem, \u00e9 para todos, reconhecendo \u201co valor da leitura de romances e poemas no caminho do amadurecimento pessoal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francisco tem consci\u00eancia de que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cultrapassar a obsess\u00e3o dos ecr\u00e3s, dedicando-se tempo \u00e0 literatura, a momentos de leitura serena e livre, a falar de livros que, novos ou antigos, continuam a dizer-nos tanto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pessoalmente, quero lembrar, entre outros, o neurocientista Michel Desmurget, autor de\u00a0<em>A F\u00e1brica de Cretinos Digitais<\/em>\u00a0e, mais recentemente, de\u00a0<em>Ponham-nos a Ler! A leitura como ant\u00eddoto para os cretinos digitais<\/em>, que mostrou como a depend\u00eancia dos ecr\u00e3s pura e simplesmente estupidifica: \u201cLer influencia positivamente todas as dimens\u00f5es fundamentais da nossa humanidade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordando, Francisco lamenta que, \u201ccom poucas excep\u00e7\u00f5es, a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura \u00e9 considerada como algo n\u00e3o-essencial. A este respeito, gostaria de afirmar que tal perspetiva n\u00e3o \u00e9 boa. Ela est\u00e1 na origem de uma forma de grave empobrecimento intelectual e espiritual dos futuros padres, que ficam assim privados de um acesso privilegiado, precisamente atrav\u00e9s da literatura, ao cora\u00e7\u00e3o da cultura humana e, mais especificamente, ao cora\u00e7\u00e3o do ser humano. De uma forma ou outra, a literatura tem a ver com o que cada um de n\u00f3s deseja da vida, uma vez que entra numa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a nossa exist\u00eancia concreta, com as suas tens\u00f5es essenciais, com os seus desejos e os seus significados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele pr\u00f3prio foi professor de Literatura, sabendo, pois, do que que fala, e d\u00e1 um exemplo: \u201cEu gosto muito dos artistas das trag\u00e9dias, porque todos podemos sentir as suas obras como nossas, como a express\u00e3o dos nossos pr\u00f3prios dramas. No fundo, ao chorar o destino das personagens, estamos a chorar por n\u00f3s mesmos: o nosso vazio, as nossas falhas, a nossa solid\u00e3o.\u201d Na verdade &#8211; e cita Karl Rahner -, a literatura inspira-se na quotidianidade vivida, suas paix\u00f5es e acontecimentos reais, como \u201ca ac\u00e7\u00e3o, o trabalho, o amor, a morte e todas as pobres coisas que enchem a vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 urgente ir ao encontro do Homem, n\u00e3o do Homem abstracto, mas de um ser humano concreto, do \u201cmist\u00e9rio daquele ser concreto com as feridas, os desejos, as recorda\u00e7\u00f5es e as esperan\u00e7as da sua vida\u201d. E para isso est\u00e1 tamb\u00e9m o recurso ass\u00edduo \u00e0 literatura, que, entre tantas outras vantagens, \u201cmelhora a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o, reduz os n\u00edveis de\u00a0<em>deficit\u00a0<\/em>cognitivo e acalma o\u00a0<em>stress\u00a0<\/em>e a ansiedade. Mais ainda: prepara-nos para compreender e, assim, enfrentar as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es que podem surgir na vida. Ao ler, mergulhamos nas personagens, nas preocupa\u00e7\u00f5es, nos dramas, nos perigos, nos medos de pessoas que acabaram por ultrapassar os desafios da vida, ou talvez, durante a leitura, demos \u00e0s personagens conselhos que mais tarde nos servir\u00e3o a n\u00f3s mesmos.\u201d E cita M. Proust: os romances desencadeiam \u201cem n\u00f3s, no espa\u00e7o de uma hora, todas as alegrias e desgra\u00e7as poss\u00edveis que, durante a vida, levar\u00edamos anos inteiros a conhecer minimamente; e, dessas, as mais intensas nunca nos seriam reveladas, porque a lentid\u00e3o com que ocorrem nos impede de as perceber\u201d. E C. S. Lewis: \u201cAo ler as grandes obras da literatura, transformo-me em milhares de pessoas sem deixar, ao mesmo tempo, de permanecer eu mesmo\u201d, e continua: \u201cNeste ponto, como na religi\u00e3o, no amor, na a\u00e7\u00e3o moral e no conhecimento, ultrapasso-me a mim pr\u00f3prio e, no entanto, quando o fa\u00e7o, sou mais eu do que nunca.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que serve a literatura? \u201cEla ajuda-nos a dizer a nossa presen\u00e7a no mundo, a \u201cdigeri-la\u201d e a assimil\u00e1-la, captando o que vai para al\u00e9m da superf\u00edcie da experi\u00eancia; serve, portanto, para interpretar a vida, discernindo os seus significados e tens\u00f5es fundamentais.\u201d Mais: o seu olhar \u00a0\u201cforma para o descentramento, para o sentido do limite, para a ren\u00fancia ao dom\u00ednio cognitivo e cr\u00edtico da experi\u00eancia, ensinando-lhe uma pobreza que \u00e9 fonte de extraordin\u00e1ria riqueza. Ao reconhecer a inutilidade e, talvez at\u00e9, a impossibilidade de reduzir o mist\u00e9rio do mundo e do ser humano a uma polaridade antin\u00f3mica de verdadeiro\/falso ou de certo\/errado, o leitor aceita o dever de julgar n\u00e3o como instrumento de dom\u00ednio, mas como impulso para uma escuta incessante e como disponibilidade para se envolver nessa extraordin\u00e1ria riqueza da hist\u00f3ria que se deve \u00e0 presen\u00e7a do Esp\u00edrito, e tamb\u00e9m se d\u00e1 como Gra\u00e7a, isto \u00e9, como acontecimento imprevis\u00edvel e incompreens\u00edvel que n\u00e3o depende da a\u00e7\u00e3o humana, mas redefine o humano enquanto esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Francisco conclui luminosamente: \u201cN\u00e3o podemos renunciar \u00e0 escuta das palavras que nos deixou o poeta Paul Celan: \u2018Quem realmente aprende a ver aproxima-se do invis\u00edvel\u2019.\u201d E eu lembrei-me de Paul Klee: \u201cA arte n\u00e3o reproduz o vis\u00edvel, ela torna vis\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>31 agosto 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 4. Somos livres?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a pergunta decisiva. De facto, se n\u00e3o somos livres, o que se chama dignidade humana pode ser uma conven\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tem fundamento real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem nunca foi assaltado pela pergunta: a minha vida teria podido ser diferente? Para sab\u00ea-lo cientificamente, seria preciso o que n\u00e3o \u00e9 de modo nenhum poss\u00edvel: repetir a vida exactamente nas mesmas circunst\u00e2ncias. S\u00f3 assim se verificaria se as \u201cescolhas\u201d se repetiam nos mesmos termos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a liberdade humana \u00e9 condicionada. Mas ela existe ou \u00e9 uma ilus\u00e3o? N\u00e3o pretendem agora neurocientistas dizer que, mediante dados da tomografia de emiss\u00e3o de positr\u00f5es e da resson\u00e2ncia magn\u00e9tica nuclear funcional, se mostra que afinal as nossas decis\u00f5es s\u00e3o dirigidas por processos neuronais inconscientes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer modo, j\u00e1 em 2004, destacados neurocientistas tamb\u00e9m tornaram p\u00fablico um\u00a0<em>Manifesto sobre o presente e o futuro da investiga\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro<\/em>\u00a0&#8211; cito Hans K\u00fcng, no seu\u00a0<em>Der Anfang aller Dinge<\/em>\u00a0<em>(O princ\u00edpio de todas as coisas<\/em>) -, revelando-se prudentes no que toca \u00e0s \u201cgrandes perguntas\u201d: \u201cComo surgem a consci\u00eancia e a viv\u00eancia do eu? Como se entrela\u00e7am a ac\u00e7\u00e3o racional e a ac\u00e7\u00e3o emocional? Que valor se deve conceder \u00e0 ideia de \u2018livre arb\u00edtrio\u2019? Colocar j\u00e1 hoje as grandes perguntas das neuroci\u00eancias \u00e9 leg\u00edtimo, mas pensar que ter\u00e3o resposta nos pr\u00f3ximos dez anos \u00e9 muito pouco realista.\u201d \u00c9 preciso continuar as investiga\u00e7\u00f5es, no sentido de perceber o nexo entre a mente e o c\u00e9rebro. \u201cMas nenhum progresso terminar\u00e1 num triunfo do reducionismo neuronal. Mesmo que alguma vez cheg\u00e1ssemos a explicar a totalidade dos processos neuronais subjacentes \u00e0 simpatia que o ser humano pode sentir pelos seus cong\u00e9neres, ao seu enamoramento e \u00e0 sua responsabilidade moral, a autonomia da \u2018perspectiva interna\u2019 permaneceria intacta. Pois tamb\u00e9m uma fuga de Bach n\u00e3o perde nada do seu fasc\u00ednio, quando se compreende com exactid\u00e3o como est\u00e1 constru\u00edda.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade n\u00e3o \u00e9 desvincul\u00e1vel da experi\u00eancia subjectiva, da \u201cperspectiva interna\u201d. Essa experi\u00eancia \u00e9 uma experi\u00eancia transcendental, no sentido de que se afirma at\u00e9 na sua nega\u00e7\u00e3o. De facto, se tudo se movesse no quadro do determinismo total, como surgiria o debate sobre a liberdade? Ele seria poss\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa experi\u00eancia coloca-se concretamente no campo da moral e da responsabilidade. Neste contexto, h\u00e1 um c\u00e9lebre exerc\u00edcio mental de Kant na\u00a0<em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica<\/em>, que j\u00e1 aqui citei e que \u00e9 elucidativo e obriga a pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suponhamos que algu\u00e9m, sob pena de morte imediata, se v\u00ea confrontado com a ordem de levantar um falso testemunho contra uma pessoa que sabe ser inocente. Nessas circunst\u00e2ncias e por muito grande que seja o seu amor \u00e0 vida, pensar\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel resistir. \u201cTalvez n\u00e3o se atreva a assegurar que assim faria, no caso de isso realmente acontecer; mas n\u00e3o ter\u00e1 outro rem\u00e9dio sen\u00e3o aceitar sem hesita\u00e7\u00f5es que tem essa possibilidade.\u201d Existem as duas possibilidades: resistir ou n\u00e3o. \u201cJulga, portanto, que \u00e9 capaz de fazer algo, pois \u00e9 consciente de que deve moralmente faz\u00ea-lo e, desse modo, descobre em si a liberdade que, sem a lei moral, lhe teria passado despercebida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que confunde frequentemente o debate \u00e9 a falta de esclarecimento quanto ao que \u00e9 realmente a liberdade. Ela \u00e9 a n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0 necessidade coactiva, externa e interna, mas n\u00e3o pode, por outro lado, ser confundida com a arbitrariedade e a pura espontaneidade &#8211; n\u00e3o implica a espontaneidade a necessidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberdade radica na experi\u00eancia origin\u00e1ria do ser humano como dom para si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paradoxalmente, \u00e9 na abertura a tudo, portanto, no horizonte da totalidade do ser, que ele vem a si mesmo como eu \u00fanico e senhor de si. Ent\u00e3o, agir livremente \u00e9 a capacidade de erguer-se acima dos pr\u00f3prios interesses, para p\u00f4r-se no lugar do outro e agir racionalmente. Fa\u00e7o a experi\u00eancia de que sou dado a mim pr\u00f3prio como senhor de mim; portanto, sou dono de mim (j\u00e1 ouvi uma crian\u00e7a de 6 anos dizer \u00e0 m\u00e3e: \u201cTu n\u00e3o \u00e9s a minha dona\u201d) e, portanto, dono dos meus actos e, consequentemente respons\u00e1vel, respondo por eles e por mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso distinguir entre causas e raz\u00f5es. Quando se age sob uma causalidade constringente, n\u00e3o h\u00e1 liberdade. Ser livre \u00e9 propor-se ideais, deliberar e agir segundo raz\u00f5es e argumentos, impondo limites aos impulsos, inclina\u00e7\u00f5es e desejos, o que mostra que o Homempode ser senhor dos seus actos e, assim, respons\u00e1vel, pode e deve responder por eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 existe liberdade, se h\u00e1 algu\u00e9m capaz de autodetermina\u00e7\u00e3o. A determina\u00e7\u00e3o por um \u201ceu\u201d, segundo um ju\u00edzo de valor, \u00e9 que faz com que uma ac\u00e7\u00e3o seja livre e n\u00e3o puro acaso ou enquadrada no determinismo das leis naturais. \u00a0Como diz P. Bieri &#8211; ver de novo cita\u00e7\u00e3o em\u00a0<em>O princ\u00edpio de todas as coisas<\/em>\u00a0-, \u201c\u00e9 in\u00fatil procurar na textura material de um quadro o representado ou a sua beleza; \u00e9 igualmente in\u00fatil procurar na mec\u00e2nica neurobiol\u00f3gica do c\u00e9rebro a liberdade ou a sua aus\u00eancia. Ali, n\u00e3o h\u00e1 nem liberdade, nem falta de liberdade. Do ponto de vista l\u00f3gico, o c\u00e9rebro n\u00e3o \u00e9 o lugar adequado para esta ideia. A vontade \u00e9 livre, se se submete ao nosso ju\u00edzo sobre o que \u00e9 adequado querer em cada momento. A vontade carece de liberdade, quando ju\u00edzo e vontade seguem caminhos divergentes.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se pensa em profundidade e verdade, ser Homem \u00e9 ser livre e, consequentemente, respons\u00e1vel: responder por si e pelos outros. O que quero fazer de mim? Para onde queremos ir verdadeiramente?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07 setembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo 5. No rosto, o olhar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um rosto \u00e9 um milagre. H\u00e1 hoje, no mundo, oito mil milh\u00f5es. Nenhum igual a outro: cada rosto \u00e9 \u00fanico. Um rosto \u00e9 a visita do infinito e a sua manifesta\u00e7\u00e3o viva no finito. Que \u00e9 um rosto sen\u00e3o algu\u00e9m que se mostra na sua apari\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse rosto concentra-se no olhar. Sim, o olhar. N\u00e3o \u00e9 dos olhos que se trata. O mist\u00e9rio \u00e9 o olhar. Um dia ter\u00e3o perguntado a Hegel o que se manifesta e v\u00ea num olhar. E ele: \u201cO abismo do mundo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">0:00 \/ 0:49<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num olhar, o que h\u00e1 \u00e9 algu\u00e9m que vem \u00e0 janela de si e nos visita. Tamb\u00e9m por isso, para tornar algu\u00e9m an\u00f3nimo, venda-se-lhe os olhos. Faz-se o mesmo a um condenado \u00e0 morte, porque \u00e9 intoler\u00e1vel o seu olhar. E, quando algu\u00e9m morre, coloca-se-lhe um v\u00e9u sobre o rosto: j\u00e1 est\u00e1 para Al\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 para n\u00f3s pr\u00f3prios, somos por vezes terrivelmente estranhos. Quem nunca se surpreendeu ao olhar para o seu pr\u00f3prio olhar no espelho? \u201cQuem \u00e9 esse ou isso que me v\u00ea, desde o abismo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa estranheza assalta-nos at\u00e9 no olhar de um animal: um c\u00e3o velho e abandonado que nos olha n\u00e3o nos deixa indiferentes. Mas \u00e9 sobretudo o olhar de algu\u00e9m que \u00e9 perturbador. Ele h\u00e1 o olhar triste. O olhar meigo. O olhar arrogante. O olhar do terror. O olhar da s\u00faplica. O olhar de gozo. O olhar que baila num sorriso. O olhar concentrado. O olhar disperso. O olhar da aceita\u00e7\u00e3o. O olhar do \u00f3dio e desprezo. O olhar compassivo. O olhar do desespero. O olhar sedutor. O olhar envergonhado. Ah!, o olhar da despedida final para sempre! O olhar morto, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 olhar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar \u00e9 a presen\u00e7a misteriosa de algu\u00e9m, que ao mesmo tempo se desvela e se vela. J\u00e1 ao n\u00edvel do tal c\u00e3o velho e abandonado pode erguer-se o sobressalto da pergunta: o que \u00e9 e como \u00e9 ser c\u00e3o? Mas \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de abismo, um belo dia, precisamente perante o olhar de algu\u00e9m, ficarmos paralisados com a interroga\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 ser algu\u00e9m outro? Porque a outra pessoa &#8211; o outro homem ou a outra mulher &#8211; n\u00e3o \u00e9 simplesmente outro eu, mas um eu outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explicitando: o que \u00e9 e como \u00e9 ser o Alberto ou a Eunice, viver-se a si mesmo por dentro como o Alberto ou a Eunice? Nunca saberei. E como \u00e9 o mundo visto a partir deles? E como \u00e9 que ele ou ela me v\u00eaem? O qu\u00ea e quem sou eu realmente para eles, a partir do seu olhar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E como \u00e9 que eu sei que h\u00e1 o outro, n\u00e3o enquanto outro eu &#8211; ainda no prolongamento de mim -, mas precisamente como um eu outro, sujeito inapreens\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sartre teorizou que esse saber \u00e9 dado de modo indubit\u00e1vel no sentimento da vergonha. E d\u00e1 o exemplo de algu\u00e9m que, num hotel, est\u00e1, concentrado, a espreitar pelo buraco da fechadura. Ouve passos no corredor. Ent\u00e3o, no sentimento paralisante da vergonha, ao ficar objectivado pelo olhar do outro a quem os passos pertencem, sabe que h\u00e1 um sujeito que n\u00e3o \u00e9 ele. Ele \u00e9 objecto para esse sujeito que o v\u00ea: \u00e9 visto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem o outro n\u00e3o h\u00e1 eu, como diz o conceito de Ubuntu, pr\u00f3prio da cultura africana, que diz precisamente: \u201cEu sou eu atrav\u00e9s de ti\u201d, e na solidariedade e colabora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na competi\u00e7\u00e3o. Se a \u00fanica ou a principal rela\u00e7\u00e3o com o outro fosse a da vergonha, n\u00e3o se aguentava viver, porque \u201co inferno\u201d seriam \u201cos outros\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria insuport\u00e1vel estar sob a vigia de um olhar omnipresente. Por isso, para Nietzsche, o olhar de Deus \u00e9 intoler\u00e1vel. Em\u00a0<em>A Gaia Ci\u00eancia<\/em>, uma mi\u00fada pergunta \u00e0 m\u00e3e: \u201c\u00c9 verdade que Deus est\u00e1 em toda a parte?\u201d, respondendo ela pr\u00f3pria: \u201cEu considero isso uma indec\u00eancia.\u201d Ent\u00e3o, em\u00a0<em>Assim Falava Zaratustra<\/em>, escreve: o Deus que objectiva o Homem \u201ctinha de morrer, porque via com olhos que viam tudo. A sua piedade desconhecia o pudor: ele metia-se nos meus recantos mais s\u00f3rdidos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m Jean-Paul Sartre cortou rela\u00e7\u00f5es com Deus, o Todo-Poderoso, por causa do seu olhar horrorosamente indiscreto. \u201cUma s\u00f3 vez tive a sensa\u00e7\u00e3o de que Ele existia. Brincava com f\u00f3sforos e queimava um pequeno tapete; estava eu a dissimular o meu crime quando, de s\u00fabito, Deus viu-me; eu rodopiava na casa de banho, horrivelmente vis\u00edvel, um alvo vivo. Salvou-me a indigna\u00e7\u00e3o. Blasfemei, murmurei como o meu av\u00f4: \u2018Maldito o nome de Deus, nome de Deus, nome de Deus.\u2019 Nunca mais Ele me contemplou.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 certo que s\u00f3 vimos a n\u00f3s na correla\u00e7\u00e3o com o outro. Sem outros eus enquanto tus, n\u00e3o h\u00e1 eu. Mas, repito, ser\u00e1 que a \u00fanica ou mesmo a principal rela\u00e7\u00e3o com o outro \u00e9 a da vergonha? Entre mim e o outro h\u00e1 uma tens\u00e3o dial\u00e9ctica: de dist\u00e2ncia e proximidade. Afinal, a rela\u00e7\u00e3o com o outro pode ser de rivalidade ou de alian\u00e7a, de destrui\u00e7\u00e3o ou de cria\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, precisamente no olhar do outro, enquanto pr\u00f3ximo inobjectiv\u00e1vel, irredut\u00edvel, de que n\u00e3o posso dispor, pode revelar-se o apelo misterioso da proximidade infinita do Deus infinitamente Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conta a\u00a0<em>B\u00edblia<\/em>, no<em>\u00a0Livro do \u00caxodo<\/em>, que Mois\u00e9s quis ver Deus, e Deus respondeu: \u201cFarei passar diante de ti toda a minha bondade&#8230; mas tu n\u00e3o poder\u00e1s ver a minha face, pois o Homem n\u00e3o pode contemplar-me e continuar a viver.\u201d O Senhor disse: \u201cEst\u00e1 aqui um lugar pr\u00f3ximo de mim; conservar-te-\u00e1s sobre o rochedo. Quando a minha gl\u00f3ria passar, colocar-te-ei na cavidade do rochedo e cobrir-te-ei com a minha m\u00e3o, at\u00e9 que Eu tenha passado. Retirarei a m\u00e3o, e poder\u00e1s ent\u00e3o ver-me por detr\u00e1s. Quanto \u00e0 minha face, ela n\u00e3o pode ser vista.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a f\u00e9 crist\u00e3, o Deus invis\u00edvel deixou-se ver no rosto e no olhar misericordioso de Jesus. Ele deixa-se ver no rosto de todos os homens, mulheres e crian\u00e7as: \u201cO que fizestes a um destes mais pequeninos &#8211; dar de comer, de beber, curar, visitar&#8230; &#8211; a mim o fizestes.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>14 setembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 6. A tens\u00e3o de um corpo-pessoa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raramente algu\u00e9m disse de modo t\u00e3o realista o ser humano na sua tens\u00e3o como Verg\u00edlio Ferreira neste texto magn\u00edfico: \u201cUm corpo e o que em obra superior ele produz. Como \u00e9 fascinante pens\u00e1-lo. Um novelo de tripas, de sebo, de mat\u00e9ria viscosa e repelente, um incans\u00e1vel produtor de lixo. Uma podrid\u00e3o insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a dec\u00eancia do conv\u00edvio, um equil\u00edbrio dif\u00edcil em dois p\u00e9s prec\u00e1rios, uma latrina ambulante, um saco de esterco. E simultaneamente, na visibilidade disso, a harmonia de uma face, a sua poss\u00edvel beleza e sobretudo o prod\u00edgio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte. Construir o m\u00e1ximo da sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem. D\u00e1 vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaix\u00e3o. D\u00e1 vontade de enlouquecer.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Homem vive-se a si mesmo numa tens\u00e3o insuper\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, o corpo \u00e9 o seu peso, a sua limita\u00e7\u00e3o &#8211; parece que, se f\u00f4ssemos esp\u00edrito puro, poder\u00edamos, por exemplo, estar em todo o lado. Com o tempo, o corpo decai, envelhece e, aparentemente, envilece-nos. Adoecemos e desmoronamo-nos. Depois, com a morte, o que resta do corpo \u00e9 lixo biol\u00f3gico e coisa que apodrece. Referindo-se ao nascimento, Santo Agostinho, nada exaltado, tem estas palavras cruas: \u201c<em>Inter faeces \u00a0et urinam nascimur<\/em>\u201d, nascemos entre fezes e urina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, aqui, fa\u00e7o uma observa\u00e7\u00e3o fundamental: ele usa a passiva para o nascimento:\u00a0<em>nascimur<\/em>\u00a0(somos nascidos). Em portugu\u00eas, usamos a activa: nascemos, nasci, outras l\u00ednguas usam a passiva:\u00a0<em>natus sum<\/em>,\u00a0<em>soy nacido<\/em>,\u00a0<em>suis n\u00e9<\/em>,\u00a0<em>bin geboren<\/em>,\u00a0<em>am born<\/em>,\u00a0<em>sono nato<\/em>&#8230; De facto, algu\u00e9m se lembra do seu nascimento e decidiu nascer? Foi muito, muito lentamente que fomos dando conta de n\u00f3s at\u00e9 tomarmos consci\u00eancia de n\u00f3s como um \u201ceu\u201d &#8211; \u00e9 isso: afirmamo-nos, assentes numa passividade origin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, ser\u00e1 sempre misterioso um corpo que fala: produz sons que encarnam e transmitem sentido. Um olhar \u00e9 sempre a visita do in-finito. Um corpo humano canta, ora, sorri, produz obras de arte, que param o tempo e visibilizam a transcend\u00eancia. De um bloco de m\u00e1rmore Miguel \u00c2ngelo arranca a\u00a0<em>Piet\u00e0<\/em>; misturando tintas, Van Gogh p\u00f5e \u00e0 vista as\u00a0<em>Botas com atacadores<\/em>\u00a0e Leonardo, a\u00a0<em>\u00daltima Ceia<\/em>. Com instrumentos de sopro, de percuss\u00e3o e de cordas e vozes, corpos executam m\u00fasica, a mais ut\u00f3pica das artes (E. Bloch), que nos leva l\u00e1 para onde nunca estivemos, mas aonde queremos sempre voltar de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um corpo humano desabrocha como algu\u00e9m perante outro algu\u00e9m. Quando dois corpos humanos se abra\u00e7am s\u00e3o duas pessoas que dizem uma \u00e0 outra quanto se querem bem. E mais uma vez Verg\u00edlio Ferreira, exprimindo a viv\u00eancia do corpo pessoal e interpessoal: \u201cM\u00f3nica, minha querida. Porque o teu corpo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o teu corpo. N\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 entrar em ti, e a tua pessoa estar l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o corpo humano \u00e9 um corpo livre, que n\u00e3o se entende como se fosse uma m\u00e1quina, nem na simples continuidade da explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. \u00c9 um corpo capaz de dizer n\u00e3o ao que a biologia pede &#8211; \u00e9 um asceta da vida, n\u00e3o fica submerso nas suas necessidades. Ent\u00e3o, exprime liberdade. E a liberdade \u00e9 o salto milagroso. Kant escreveu que \u00e9 imposs\u00edvel compreender a produ\u00e7\u00e3o de um ser dotado de liberdade por uma opera\u00e7\u00e3o f\u00edsica, sendo mesmo dif\u00edcil, se n\u00e3o imposs\u00edvel tamb\u00e9m, compreender como pode o pr\u00f3prio Deus criar seres livres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, o materialismo mec\u00e2nico ou biol\u00f3gico n\u00e3o d\u00e1 conta do Homem. Mas quem defender uma concep\u00e7\u00e3o dualista de Homem &#8211; um composto de alma e corpo, mat\u00e9ria e esp\u00edrito &#8211; ter\u00e1 de responder \u00e0 pergunta daquela crian\u00e7a de uma est\u00f3ria ing\u00e9nua: diante do cad\u00e1ver da av\u00f3, o mi\u00fado perguntou \u00e0 m\u00e3e o que \u00e9 que estava a acontecer. A m\u00e3e foi-lhe explicando que a av\u00f3 tinha morrido e que a alma dela tinha ido para Deus e o corpo ia para a terra. Quando ela pr\u00f3pria morresse, tamb\u00e9m ia ser assim: a alma iria para Deus e o corpo para o cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E continuou, angustiada: \u201cSabes, meu filho, quando tu morreres, a tua alma vai ter com Deus e o teu corpo fica no cemit\u00e9rio.\u201d A\u00ed, o mi\u00fado observou, perplexo: \u201cA minha alma vai ter com Deus e o meu corpo vai para o cemit\u00e9rio. E eu?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 o corpo fisiol\u00f3gico, anat\u00f3mico &#8211; quando vou ao m\u00e9dico, espero que perceba de anatomia. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 o corpo fora da anatomia &#8211; quando vou ao m\u00e9dico, espero que me trate como pessoa e n\u00e3o como simples corpo, \u00e0 maneira de m\u00e1quina desarranjada que ele, como t\u00e9cnico especializado, vai recompor. Tenho corpo, mas sou corpo. Eu sou um corpo que diz \u201ceu\u201d e, portanto, vivo-me a mim mesmo por dentro como corpo-sujeito, corpo-pessoa. E tamb\u00e9m os outros, todos os outros s\u00e3o corpo-pessoa, vivendo-se a si mesmos como sujeitos. O Homem transcende o simplesmente biol\u00f3gico. \u201cCome\u00e7ou a ser Homem intentando criar beleza\u201d, escreveu Pedro La\u00edn Entralgo. E vive do gratuito: cria e contempla a beleza, \u00e9 o ser \u201ccriativamente possu\u00eddo pelo fascinante esplendor do in\u00fatil\u201d (G. Steiner). Para sobreviver, n\u00e3o precisava de investigar na mec\u00e2nica qu\u00e2ntica&#8230; O que ganha no tempo dedicado aos mortos? No entanto, o tempo que gastamos inutilmente &#8211; inutilmente? &#8211; com os mortos!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser Homem \u00e9 viver esta tens\u00e3o, numa arte quase imposs\u00edvel. Porque permanentemente espreita o perigo de coisificar o corpo ou de desprez\u00e1-lo, refugiando-se num idealismo ang\u00e9lico. Mas j\u00e1 Pascal preveniu: \u201cO Homem n\u00e3o \u00e9 anjo, nem \u00e9 besta, e, desgra\u00e7adamente, quem quer fazer de anjo faz de besta.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>21 setembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 7. Sujeito irredut\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Freud falou das v\u00e1rias humilha\u00e7\u00f5es do Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira foi a cosmol\u00f3gica. O Homem pensava ocupar o centro do universo. O Sol girava \u00e0 volta da Terra. Cop\u00e9rnico, por\u00e9m, veio mostrar que afinal \u00e9 a Terra que gira \u00e0 volta do Sol. E hoje sabemos que o Sol \u00e9 apenas uma estrela de entre trezentas ou quatrocentas mil milh\u00f5es da nossa gal\u00e1xia e, como a nossa gal\u00e1xia, h\u00e1 centenas de milhares de milh\u00f5es&#8230; Secund\u00e1rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda humilha\u00e7\u00e3o foi a biol\u00f3gica e vem fundamentalmente de Darwin. O Homem n\u00e3o foi directamente criado por Deus como coroa e senhor da cria\u00e7\u00e3o, pois apareceu por evolu\u00e7\u00e3o, em que tamb\u00e9m jogam for\u00e7as do acaso&#8230; De qualquer \u00a0forma, mergulhamos as nossas ra\u00edzes na animalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde Karl Marx que sabemos mais explicitamente &#8211; e \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica &#8211; que nenhum de n\u00f3s fala a partir de um lugar neutro: nas nossas concep\u00e7\u00f5es de sociedade, de justi\u00e7a, de religi\u00e3o, de direito&#8230;, somos condicionados pela sociedade e pelo lugar que nela ocupamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Freud contribuiu decisivamente para a humilha\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica: o poder da autoconsci\u00eancia l\u00edmpida e a arrog\u00e2ncia do eu soberano foram abalados, j\u00e1 que h\u00e1 em n\u00f3s as for\u00e7as subterr\u00e2neas e nocturnas do inconsciente, que n\u00e3o controlamos: a raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 plena e adequadamente transparente e n\u00e3o somos exactamente o que julgamos ser, pois h\u00e1 em n\u00f3s tamb\u00e9m o que \u00e9 e nos impulsiona sem n\u00f3s: o \u201cisso\u201d em n\u00f3s sem n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais recentemente, fomos confrontados com as humilha\u00e7\u00f5es estruturalista e inform\u00e1tica. E, presentemente, est\u00e1 a\u00ed a revolu\u00e7\u00e3o gigantesca da Intelig\u00eancia Artificial, que leva alguns a perguntar se n\u00e3o iremos ser substitu\u00eddos por m\u00e1quinas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, quando se reflecte sobre o Homem, \u00e9 pelo menos necess\u00e1rio perguntar, como escreveu Javier San Mart\u00edn, at\u00e9 que ponto a subjectividade humana \u00e9 um \u201c<em>sujeito-de<\/em>\u201d para l\u00e1 de um \u201c<em>sujeito-a<\/em>\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que a subjectividade \u00e9 inelimin\u00e1vel. Mas aquele sujeito cartesiano auto-constitu\u00eddo pela reflex\u00e3o e de modo soberano ficou abalado. Tom\u00e1mos consci\u00eancia de que a alteridade nos constitui. Para virmos a n\u00f3s mesmos e \u00e0 nossa identidade, temos de passar pelo outro &#8211; e este outro \u00e9 o outro humano (por princ\u00edpio, o primeiro outro que encontr\u00e1mos foi a m\u00e3e), o outro que \u00e9 a linguagem e a cultura, o outro que \u00e9 cada um de n\u00f3s para si mesmo enquanto um outro: as nossas obras, as nossas possibilidades, a nossa escurid\u00e3o, as nossas esperan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer modo, a Humanidade sempre teve consci\u00eancia de si, sabendo que mergulhava em abismos, onde mora o rec\u00f4ndito, o tenebroso e o incontrol\u00e1vel. A alma humana tamb\u00e9m \u00e9 habitada por complexos, medos, conflitos, paradoxos, antagonismos, ambival\u00eancias, ang\u00fastias, que, no fundo mais fundo, t\u00eam a sua g\u00e9nese na consci\u00eancia da mortalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, n\u00e3o \u00e9 totalmente verdade o que dizemos: \u201cquerer \u00e9 poder\u201d &#8211; de facto, nem sempre queremos o que podemos e nem sempre podemos o que queremos -, e h\u00e1 aquele \u201cisso\u201d em n\u00f3s, impenetr\u00e1vel, que nos impede a transpar\u00eancia total de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando faltavam categorias filos\u00f3ficas, cient\u00edficas ou psicol\u00f3gicas, exprimiu-se essa outra dimens\u00e3o temerosa de n\u00f3s sem n\u00f3s, utilizando, por exemplo, o imagin\u00e1rio dos monstros, com dem\u00f3nios, com h\u00edbridos, com figuras de seres humanos zoomorfos e de animais antropomorfos&#8230; Mesmo o\u00a0<em>Evangelho<\/em>, quando se est\u00e1 atento, \u00e9 tamb\u00e9m combate do tenebroso, demon\u00edaco e diab\u00f3lico, e promessa de reconcilia\u00e7\u00e3o e de luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De qualquer modo, continuar\u00e1 o enigma humano de um corpo que diz eu. E, quando cada um o diz, f\u00e1-lo de modo \u00fanico e intransfer\u00edvel. Pela sua pr\u00f3pria natureza, ao mesmo tempo que \u00e9 abertura \u00e0 totalidade, cada eu \u00e9 irredut\u00edvel, em polaridade com tudo quanto existe. Como se n\u00e3o cansava de repetir o fil\u00f3sofo Juli\u00e1n Mar\u00edas, \u201co filho que diz\u00a0<em>eu\u00a0<\/em>\u00e9 irredut\u00edvel ao seu pai, \u00e0 sua m\u00e3e, a Deus e a toda a realidade, seja ela qual for\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa perguntar:\u00a0<em>O que \u00e9 o Homem?<\/em>\u00a0e:\u00a0<em>Quem \u00e9 o Homem?\u00a0<\/em>De facto, o Homem n\u00e3o \u00e9 um qu\u00ea, uma coisa, pois \u00e9 realidade essencialmente aberta, em processo de fazer-se, projectando-se a si pr\u00f3prio em perman\u00eancia, de tal modo que se vive como paradoxo vivo de em-si-fora-de-si-para-l\u00e1-de-si e centro ex-c\u00eantrico, u-t\u00f3pico, em processo de transcendimento&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque nunca \u00e9 dado, o Homem como pessoa n\u00e3o cabe na defini\u00e7\u00e3o famosa de Bo\u00e9cio: \u201cSubst\u00e2ncia ou coisa individual de natureza racional.\u201d O Homem \u00e9 um quem, algu\u00e9m. Evidentemente, vai-se fazendo, e, na medida em que se faz, faz-se algo, mas, precisamente porque \u00e9 algu\u00e9m, nega e transcende sempre todos os algos e qu\u00eas, recusando e superando toda a coisifica\u00e7\u00e3o. O Homem \u00e9 sempre mais do que consegue objectivar de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio de todas as humilha\u00e7\u00f5es, ao ser humano reflexivo impor-se-\u00e1 sempre a subjectividade pr\u00f3pria, pois a ci\u00eancia objectiva s\u00f3 existe para e a partir do sujeito. O sujeito humano &#8211; sublinhe-se -, por mais que objective de si, deparar\u00e1 sempre com o inobjectiv\u00e1vel, j\u00e1 que a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de objectivar \u00e9 ele mesmo enquanto sujeito irredut\u00edvel. O Homem enquanto sujeito transcender\u00e1, portanto, continuamente a explica\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias objectivantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deste modo, como escreveu o fil\u00f3sofo Jos\u00e9 G\u00f3mez Caffarena, mantendo \u201ca nossa condi\u00e7\u00e3o irrenunci\u00e1vel de sujeitos &#8211; n\u00e3o s\u00f3 de conhecimento, mas tamb\u00e9m de ac\u00e7\u00e3o, de decis\u00e3o, de valora\u00e7\u00e3o moral, est\u00e9tica&#8230; -, renascer\u00e1 sempre para n\u00f3s, nessa perspectiva, a pergunta pelo\u00a0<em>sentido global da exist\u00eancia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>28 setembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 8. Uma identidade em processo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antropologia, o estudo do Homem, \u00e9 uma tarefa sem fim. De facto, o ser humano n\u00e3o pode definir-se de uma vez por todas. Nem sequer h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, pois ele \u00e9 uma abertura ilimitada: por mais que diga de si, nunca se diz plena e adequadamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta pelo Homem convoca todas as disciplinas. N\u00e3o \u00e9 ele, de facto, como bem viram Arist\u00f3teles e S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, de algum modo todas as coisas? Quando questionamos: \u201cO que \u00e9 que eu sou? Quem sou eu?\u201d, \u00e9 necess\u00e1rio apelar para o concurso das ci\u00eancias da natureza, da cosmologia, da f\u00edsica, da qu\u00edmica, da paleontologia, da embriologia, da neurologia, da etologia, da medicina, da lingu\u00edstica, da sociologia, da sociobiologia, da hist\u00f3ria, das artes, da economia, das ci\u00eancias pol\u00edticas e jur\u00eddicas, da filosofia, da teologia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu ilustre amigo, Juan Masi\u00e1, professor na Universidade Sophia, em T\u00f3quio, apresentou a quest\u00e3o numa bela s\u00edntese. Pode-se tentar uma Antropologia Filos\u00f3fica partindo de algumas afirma\u00e7\u00f5es de base. Assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou eu a partir da natureza, mas precisamente deste modo: provenho da natureza, mas transcendo a natureza: em mim, a natureza e a sua hist\u00f3ria sabem de si. Imp\u00f5e-se, pois, o di\u00e1logo com as ci\u00eancias da natureza e as filosofias personalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou eu na minha circunst\u00e2ncia (Ortega y Gasset). Portanto, eu sou no mundo, eu sou esp\u00e1cio-temporalmente, enquanto transcendo e tento sempre transcender o espa\u00e7o e o tempo. Neste \u00e2mbito, s\u00e3o imprescind\u00edveis os contributos das antropologias culturais, da sociologia, das psicologias evolutivas, da hist\u00f3ria, da lingu\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou eu a partir do meu corpo, mas de tal modo que nunca sei adequadamente quem sou. Como \u00e9 que de um corpo acabado de nascer vai emergindo um eu, como \u00e9 que o corpo se faz um sujeito que vai lentamente tomando consci\u00eancia de si? Neste quadro, dialoga-se com as antropologias biol\u00f3gicas, com as fenomenologias existenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sou eu a partir de mim e perante a realidade. Eu sou eu, mas de tal modo que o segundo eu exprime a possibilidade que uma pessoa tem de auto-objectivar-se e reconhecer-se. O ser humano afirma-se a si mesmo na reflex\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 um mero animal de instintos, pois vive na realidade: \u00e9 um animal de realidades, como sublinhava o fil\u00f3sofo Xavier Zubiri, distinguindo entre o imagin\u00e1rio, o que \u00e9 objecto de desejo e o real. Apesar dos seus limites, encontraremos aqui concretamente as antropologias racionais e reflexivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sou eu de modo fixo, dado de uma vez para sempre, pois eu vou sendo eu, ao sair de mim. A partir do material gen\u00e9tico que recebi dos meus pais e sempre condicionado por ele, eu, se fosse educado noutro lugar e em circunst\u00e2ncias diferentes, noutro ambiente, se fosse encontrando outras pessoas ao longo da vida, seria o mesmo? A resposta \u00e9: sim e n\u00e3o, pois seria eu, mas de outro modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A identidade pessoal constr\u00f3i-se e afirma-se na liberdade, mas a partir de uma heran\u00e7a tanto gen\u00e9tica como cultural, e isto num processo hist\u00f3rico sempre aberto: cada um de n\u00f3s \u00e9 uma estrutura em permanente desestrutura\u00e7\u00e3o para uma nova configura\u00e7\u00e3o: fa\u00e7o-me, desfa\u00e7o-me, refa\u00e7o-me&#8230; A pessoa n\u00e3o \u00e9 encerrando-se em si mesma; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 saindo de si que vem a si e se encontra. O ser humano s\u00f3 \u00e9 na rela\u00e7\u00e3o, vivendo mesmo este paradoxo: s\u00f3 porque \u00e9 abertura a tudo \u00e9 que \u00e9 intimidade pessoal e \u00fanica, e experiencia-se enquanto liberdade, ainda que sempre liberdade em situa\u00e7\u00e3o. Aqui, entram os contributos das psicologias evolutivas e sociais, das filosofias do conhecimento, do amor, da pr\u00e1xis, da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sei se sou eu. Serei eu? Acontece por vezes o ser humano olhar para o que fez e perguntar: fui eu que fiz isto? como foi poss\u00edvel?, a\u00ed n\u00e3o era eu. \u00c9, pois, inevit\u00e1vel o confronto com os desafios da psican\u00e1lise, dos estruturalismos, das neuroci\u00eancias, da sociobiologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu ainda n\u00e3o sou eu, mas vou-me tornando eu e sou mais do que eu, eu sou o que serei para l\u00e1 de mim. O Homem \u00e9 um ser temporal, vai-se fazendo historicamente. O ser humano \u00e9 simultaneamente um ser que sabe da sua morte inexor\u00e1vel e que constitutivamente espera para l\u00e1 da morte. Ele n\u00e3o \u00e9 ainda, vai sendo e quer ser em plenitude: espera, assim, a sua realiza\u00e7\u00e3o para l\u00e1 da hist\u00f3ria intramundana. A antropologia desemboca assim em perguntas pela ultimidade, que s\u00e3o quest\u00f5es da constitui\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica do real e da conex\u00e3o entre \u00e9tica, esperan\u00e7a e religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui chegados, \u00e9 ainda necess\u00e1rio reconhecer que estas afirma\u00e7\u00f5es-perguntas formuladas na primeira pessoa do singular t\u00eam de apresentar-se no plural, pois o Homem s\u00f3 \u00e9 real e autenticamente na rela\u00e7\u00e3o, a identidade individual implica a identidade social e hist\u00f3rica e planet\u00e1ria e c\u00f3smica. Afinal, em cada ser humano est\u00e1 presente a realidade toda. Da identidade de cada ser humano faz parte a humanidade inteira &#8211; l\u00e1 est\u00e3o, de novo, Arist\u00f3teles e S\u00e3o Tom\u00e1s:\u00a0<em>anima est quodammodo omnia<\/em>\u00a0(a alma, o ser humano, \u00e9 de algum modo tudo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por todas estas raz\u00f5es, o Homem \u00e9 sobretudo, para l\u00e1 de tudo, o ser da pergunta, no sentido radical, dito no \u00e9timo da palavra &#8211; perguntar vem do latim:\u00a0<em>percontare<\/em>, que cont\u00e9m\u00a0<em>contus<\/em>, um pau comprido com o qual se remexe um tanque at\u00e9 ao fundo (o que h\u00e1 l\u00e1 no mais fundo?). De pergunta em pergunta, o Homem vai at\u00e9 ao infinito e pergunta ao infinito pelo infinito, ou seja, por Deus, j\u00e1 que a pergunta pelo sentido global da exist\u00eancia \u00e9 constitutiva e inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05 outubro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 9. Para l\u00e1 do dualismo e a esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do pior que h\u00e1 s\u00e3o os repetidores, os que n\u00e3o ousam pensar o novo e o diferente, os que, no fundo, n\u00e3o passam de ruminantes na vida intelectual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Pedro La\u00edn Entralgo, com quem tive o privil\u00e9gio de falar v\u00e1rias vezes e que morreu em 2001, considerado um dos pensadores maiores da Espanha do s\u00e9culo XX, cientista, fil\u00f3sofo, humanista crist\u00e3o, n\u00e3o teve medo de pensar de modo novo, ir mais longe, confrontar-se com as d\u00favidas, questionar. F\u00ea-lo concretamente no dom\u00ednio da antropologia. Depois de rejeitar tanto o monismo materialista como o dualismo corpo-alma, para pensar o Homem na sua singularidade procurou um terceiro caminho, que deu lugar ao que chamou uma \u201cantropologia integradora\u201d, \u201ccosmol\u00f3gica, din\u00e2mica e evolutiva\u201d, que viu a sua express\u00e3o brilhante, intensamente original e acess\u00edvel no livro que escreveu aos 90 anos, dois anos antes da morte, s\u00edntese madura de uma extensa obra e aturada e longa reflex\u00e3o, traduzido para portugu\u00eas: O que \u00e9 o Homem. Evolu\u00e7\u00e3o e sentido da vida. Como crente sincero e intelectual honesto e exigente, quer, sem precisar de uma alma espiritual nem de uma interven\u00e7\u00e3o divina especial, mostrar a compatibilidade entre as duas afirma\u00e7\u00f5es crist\u00e3s essenciais sobre o Homem \u2013 criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e titular de uma vida que n\u00e3o morre com a morte \u2013 e a concep\u00e7\u00e3o actual das ci\u00eancias: o Homem como resultado da evolu\u00e7\u00e3o do cosmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recusa o dualismo. De facto, se o Homem fosse um composto de corpo e alma, seria preciso perguntar, por exemplo, se os pais, que apenas teriam dado origem ao corpo \u2013 a alma viria \u201cde fora\u201d \u2013, ainda s\u00e3o verdadeiramente pais dos seus filhos. Dada a realidade dos g\u00e9meos monozig\u00f3ticos, que se formam pela divis\u00e3o de um embri\u00e3o, seria preciso perguntar se uma \u201calma\u201d se divide em duas. H\u00e1 ainda uma pergunta fundamental e decisiva: como \u00e9 que um esp\u00edrito finito pode agir sobre a mat\u00e9ria e vice-versa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A recusa do dualismo n\u00e3o significa, por\u00e9m, queda no materialismo vulgar. De facto, o monismo materialista, concretamente tal como foi entendido no s\u00e9culo XIX, n\u00e3o d\u00e1 conta da dignidade humana. Quem reduz o esp\u00edrito humano e o eu a processos f\u00edsicos e qu\u00edmicos no c\u00e9rebro ter\u00e1 de responder \u00e0 seguinte pergunta: como \u00e9 que processos objectivos na terceira pessoa se transformam numa experi\u00eancia subjectiva de um eu pessoal que se vive interiormente como \u00fanico, como pessoa e n\u00e3o como coisa? Se a vida espiritual se identificasse com processos f\u00edsicos e qu\u00edmicos, ent\u00e3o seriam eles a decidir as minhas ac\u00e7\u00f5es, de tal modo que se deveria concluir que n\u00e3o sou respons\u00e1vel pelo que fa\u00e7o. Isto significa que, apesar do valor das investiga\u00e7\u00f5es neurobiol\u00f3gicas e dos avan\u00e7os progressivos neste dom\u00ednio, n\u00e3o ser\u00e1 exagerado afirmar que a autoconsci\u00eancia e o eu manter\u00e3o uma reserva de insond\u00e1vel e incompreens\u00edvel para a ci\u00eancia objectivante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Segundo Pedro La\u00edn Entralgo, Deus cria atrav\u00e9s do dinamismo c\u00f3smico evolutivo. O dinamismo radical evolutivo em que o Cosmos consiste vai-se actualizando e configurando progressivamente em estruturas materiais cada vez mais complexas, de tal modo que surgem propriedades estruturais ou sistem\u00e1ticas emergentes autenticamente novas, in\u00e9ditas, que n\u00e3o eram previs\u00edveis e que s\u00e3o irredut\u00edveis. O Homem na sua singularidade \u00e9 dinamismo c\u00f3smico humanamente estruturado, e nele o Todo do Cosmos enquanto natura naturans (natureza naturante) toma consci\u00eancia de si, nada impedindo pensar que haja noutras paragens do Universo outros seres pensantes e conscientes e que o pr\u00f3prio homem actual possa ser o predecessor do\u00a0<em>Homo supersapiens<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Caracter\u00edstica constitutiva do ser humano no processo de realizar-se \u00e9 a esperan\u00e7a. Segundo La\u00edn Entralgo, a esperan\u00e7a tem dois modos complementares: a esperan\u00e7a do concreto (o h\u00e1bito de confiar que os projectos parciais se ir\u00e3o realizando bem) e a esperan\u00e7a do fundamental (o h\u00e1bito de confiar \u2014 a confian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 certeza \u2014 que a realiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia pessoal ser\u00e1 exitosa). Por sua vez, esta esperan\u00e7a do fundamental, que \u00e9 a \u201cesperan\u00e7a genu\u00edna\u201d, assume dois modos, que n\u00e3o se excluem: a esperan\u00e7a terrena e hist\u00f3rica e a esperan\u00e7a meta-terrena e trans-hist\u00f3rica. Esta \u00e9 pr\u00f3pria dos crentes numa religi\u00e3o que afirma confiadamente a vida em Deus. A\u00ed encontrar\u00e1 finalmente, como viu Santo Agostinho, aquela plenitude por que aspira na tens\u00e3o constitutiva entre a sua radical finitude \u2014 n\u00e3o esquecer a constata\u00e7\u00e3o que j\u00e1 aqui transcrevi:\u00a0<em>inter faeces et urinam nascimur<\/em>: nascemos entre as fezes e a urina \u2014 e a \u00e2nsia de Infinito: \u201cO nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o repousar em ti, \u00f3 Deus.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00c9 claro que, na concep\u00e7\u00e3o do Homem segundo La\u00edn, torna-se mais enigm\u00e1tica a imortalidade pessoal, pois a estrutura pessoal humana n\u00e3o pode sobreviver naturalmente \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o das subestruturas nela incorporadas. Por isso, alguns cr\u00eaem que na morte o Homem se desfaz na aniquila\u00e7\u00e3o. A f\u00e9 crist\u00e3, ao contr\u00e1rio \u2014 e La\u00edn acreditava \u2014 , convida a esperar, num acto de confian\u00e7a radical racional, que a morte \u00e9 a passagem, por dom misterioso e gratuito de Deus, a um modo de exist\u00eancia absolutamente inimagin\u00e1vel e insond\u00e1vel, para l\u00e1 do espa\u00e7o e do tempo c\u00f3smicos. O grande fil\u00f3sofo jesu\u00edta Jos\u00e9 G\u00f3mez Caffarena perguntava com honradez intelectual: \u201cEm qualquer concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ter\u00e1 que ser inimagin\u00e1vel e misteriosa a resposta com que o crente, na peculiar certeza da sua f\u00e9, se atreve a ir para l\u00e1 do Cosmos?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12 outubro 2024 \u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 10. Vida boa: bondade e intelig\u00eancia entrecruzadas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senhor Elliot fora operado a um tumor. Embora a opera\u00e7\u00e3o tenha sido considerada um \u00eaxito, depois dela as pessoas come\u00e7aram a dizer que o senhor Elliot j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo \u2013 sofrera uma mudan\u00e7a de personalidade dr\u00e1stica. Outrora um advogado de sucesso, o senhor Elliot tornou-se incapaz de manter um emprego. A mulher deixou-o. Tendo desbaratado as suas poupan\u00e7as, viu-se for\u00e7ado a viver no quarto de h\u00f3spedes em casa de um irm\u00e3o. Havia algo de estranho em todo este caso. De facto, intelectualmente continuava t\u00e3o brilhante como antes, mas fazia um p\u00e9ssimo uso do seu tempo. As censuras n\u00e3o produziam o m\u00ednimo efeito. Foi despedido de uma s\u00e9rie de empregos. Embora aturados testes intelectuais nada tivessem encontrado de errado com as suas faculdades mentais, mesmo assim foi procurar um neurologista. Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio, o neurologista que Elliot consultou, notou a falta de um elemento no report\u00f3rio mental de Elliot: ainda que tudo estivesse certo com a sua l\u00f3gica, mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o e outras faculdades cognitivas, Elliot parecia n\u00e3o ter praticamente sentimentos em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que lhe acontecera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobretudo era capaz de narrar os tr\u00e1gicos acontecimentos da sua vida de uma forma perfeitamente desapaixonada. Dam\u00e1sio ficou mais impressionado do que o pr\u00f3prio Elliot. A origem desta inconsci\u00eancia emocional, concluiu Dam\u00e1sio, fora que a cirurgia da remo\u00e7\u00e3o do tumor cortara as liga\u00e7\u00f5es entre os centros inferiores do c\u00e9rebro emocional e as capacidades de pensamento do neoc\u00f3rtex. O pensamento de Elliot tornara-se igual ao de um computador: totalmente desapaixonado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Citei livremente Daniel Goleman em\u00a0<em>Intelig\u00eancia Emocional<\/em>. Afinal, o ser humano n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 l\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que se refere \u00e0 moral, Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola Cr\u00edtica de Frankfurt, deixou escrito que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fundamentar a moral de um modo exclusivamente l\u00f3gico. Isso foi visto tamb\u00e9m por Herbert Marcuse. J\u00e1 no hospital, confessou ao seu amigo J\u00fcrgen Habermas: \u201cV\u00eas? Agora sei em que \u00e9 que se fundamentam os nossos ju\u00edzos de valor mais elementares: na compaix\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juntamente com Espinosa, ter\u00e1 sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: \u201cO que \u00e9 racional \u00e9 real; e o que \u00e9 real \u00e9 racional\u201d, escreveu. Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo n\u00e3o pode desenrolar-se a partir do<em>\u00a0logos\u00a0<\/em>puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer. Bloch, como tamb\u00e9m Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um fil\u00f3sofo que sublinhou do modo mais intenso que, na sua ultimidade, a realidade n\u00e3o \u00e9 racional, pois h\u00e1 uma for\u00e7a que tem o predom\u00ednio sobre os planos e ju\u00edzos da raz\u00e3o: a vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed est\u00e1 um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explica\u00e7\u00e3o dos fen\u00f3menos humanos, a n\u00edvel individual e social, temos sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma falha no encadeamento das raz\u00f5es. No ser humano, h\u00e1 a puls\u00e3o e o l\u00f3gico, o afecto e o pensamento, a emo\u00e7\u00e3o e o c\u00e1lculo, o impulso e a raz\u00e3o. O pr\u00f3prio c\u00e9rebro, que forma certamente um todo hol\u00edstico, tem tr\u00eas n\u00edveis; Paul D. Mac Lean fala dos tr\u00eas c\u00e9rebros integrados num, mas tamb\u00e9m em conflito: o paleoc\u00e9falo, o c\u00e9rebro arcaico, reptiliano, o mesoc\u00e9falo, o c\u00e9rebro da afectividade, e o c\u00f3rtex com o neo-c\u00f3rtex, em conex\u00e3o com as capacidades l\u00f3gicas. A luz racional \u00e9 afinal apenas uma ponta num imenso oceano. Por isso, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conseguimos uma harmonia permanente como \u00e9 necess\u00e1rio estar constantemente de sobreaviso contra a amea\u00e7a de descalabros e cat\u00e1strofes mortais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, porque o ser humano n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 l\u00f3gica computacional, \u00e9 capaz de cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas divinas, do amor gratuito, do luxo generoso, da m\u00fasica \u2013 a m\u00fasica, \u201carte \u2018pura\u2019 por excel\u00eancia\u201d, \u201ca mais \u2018m\u00edstica\u2019, a mais \u2018espiritual\u2019 das artes \u00e9 talvez simplesmente a mais corporal\u201d, como escreveu Pierre Bourdieu, e que n\u00e3o \u00e9 preciso compreender para ficar emocionado e extasiado. \u00a0Perante uma orquestra, com instrumentos de sopro, de percuss\u00e3o, de corda&#8230;, assistimos a uma sinfonia que nos atira para um lugar onde nunca estivemos, mas onde querer\u00edamos ficar sempre e um tempo sem tempo numa experi\u00eancia de \u00eaxtase de eternidade&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto, vem-me \u00e0 mem\u00f3ria uma hist\u00f3ria de h\u00e1 muitos anos. Naquela manh\u00e3, estacionei o carro. Um jovem encostou-se imediatamente para a moedinha da praxe. \u00c0 noite, de regresso, sa\u00ed do comboio e dirigi-me ao carro. O jovem da manh\u00e3 apressou-se. Saudei-o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Como foi o dia, senhor Jo\u00e3o?<br \/>\n\u2013 Sabe o meu nome? Como \u00e9 que sabe o meu nome?<br \/>\n\u2013 Foi o senhor que mo disse esta manh\u00e3.<br \/>\n\u2013 E n\u00e3o se esqueceu do meu nome? Ainda se lembra do meu nome?<br \/>\n\u2013 Como v\u00ea, senhor Jo\u00e3o.<br \/>\n\u2013 Nunca vou deixar que algum filho da p&#8230; lhe fa\u00e7a mal ao carro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele jovem j\u00e1 tr\u00f4pego e ca\u00eddo teve um assomo de alegria e de quase reden\u00e7\u00e3o. Pela raz\u00e3o simples de ser tratado como gente, de algu\u00e9m se lembrar dele e o tratar pelo nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m, mais uma vez, conclu\u00ed: N\u00e3o basta a bondade, uma bondade cega, o sentimento em bruto. A bondade tem de ser inteligente. Viemos ao mundo por fazer e, livres, a \u00fanica tarefa que temos \u00e9 fazermo-nos: fazendo o que fazemos, uns com os outros, estamos a fazer-nos. E isso exige a bondade e a intelig\u00eancia entrecruzadas. De facto, a bondade sem a intelig\u00eancia n\u00e3o abre caminhos novos e pode at\u00e9 causar imensos estragos; a intelig\u00eancia sem a bondade pode tornar-se cruel e fazer um sem-n\u00famero de v\u00edtimas. Como est\u00e1 \u00e0 vista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>19 outubro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 11 &#8211; M\u00e1quinas com consci\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que diz algu\u00e9m, quando diz \u201ceu\u201d? Afirma-se a si mesmo como sujeito, autor das suas ac\u00e7\u00f5es conscientes, centro pessoal respons\u00e1vel por elas, algu\u00e9m referido a si mesmo, na abertura e em contraposi\u00e7\u00e3o a tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 observa\u00e7\u00f5es perturbadoras. Por exemplo, pode acontecer que algu\u00e9m adulto, ao olhar para si em mi\u00fado, se veja de fora, apontando como que para um outro: aquele era eu, sou eu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 fil\u00f3sofos que se referem \u00e0 ilus\u00e3o do eu. Certas interpreta\u00e7\u00f5es do budismo caminham nesta direc\u00e7\u00e3o. No quadro da imperman\u00eancia e da interdepend\u00eancia de todas as coisas, fala-se da inexist\u00eancia do eu, do n\u00e3o-eu. Matthieu Ricard, investigador em gen\u00e9tica celular e monge budista, deu-me, h\u00e1 anos, num congresso no Porto, um exemplo: veja ali o Rio Douro. O que \u00e9 o Rio Douro? Onde est\u00e1 o Rio Douro? Ele n\u00e3o existe como subst\u00e2ncia, pois n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o uma corrente de \u00e1gua. Est\u00e1 a ver a consci\u00eancia? O que \u00e9 ela sen\u00e3o um fluxo permanente de pensamentos fugazes, de viv\u00eancias? O eu n\u00e3o passa de um nome para designar um\u00a0<em>continuum<\/em>, como nomeamos um rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 a experi\u00eancia vivida e inexpugn\u00e1vel do eu, ainda que numa identidade em transforma\u00e7\u00e3o, que continuamente se faz, desfaz e refaz. O que se passa \u00e9 que, n\u00e3o se tratando de uma realidade coisista, \u00e9 inobjectiv\u00e1vel e inapreens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, e ser\u00e1 sempre, enigm\u00e1tico como aparecem no mundo corp\u00f3reo o eu e a consci\u00eancia. \u00c9 claro que o eu n\u00e3o pode ser pensado \u00e0 maneira de uma alma, um\u00a0<em>homunculus<\/em>, um observador dentro do corpo &#8211; o fantasma dentro da m\u00e1quina. H\u00e1, portanto, uma correla\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia e os processos cerebrais. Mas significa isto que essa correla\u00e7\u00e3o \u00e9 de causalidade, de tal modo que haver\u00e1 um dia uma explica\u00e7\u00e3o neuronal adequada para os estados espirituais? Ou, como j\u00e1 viu Leibniz e \u00e9 acentuado pelo fil\u00f3sofo Th. Nagel, mesmo que, por exemplo, tiv\u00e9ssemos todos os conhecimentos cient\u00edficos sobre os processos neuronais de um morcego, n\u00e3o saber\u00edamos o que \u00e9 o mundo a partir do seu ponto de vista? A quest\u00e3o \u00e9: como se passa de acontecimentos el\u00e9ctricos e qu\u00edmicos no c\u00e9rebro &#8211; processos neuronais da ordem da terceira pessoa &#8211; para a experi\u00eancia subjectiva na primeira pessoa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de se n\u00e3o afastar, por princ\u00edpio, a possibilidade de se poder vir a dar essa compreens\u00e3o, o fil\u00f3sofo Colin McGinn pensa que talvez nunca venhamos a entender como \u00e9 que a consci\u00eancia surge num mundo corporal, a partir de processos f\u00edsicos. Tamb\u00e9m o neurocientista W. Prinz disse numa entrevista: \u201cOs bi\u00f3logos podem explicar como funcionam a qu\u00edmica e a f\u00edsica do c\u00e9rebro. Mas at\u00e9 agora ningu\u00e9m sabe como se chega \u00e0 experi\u00eancia do eu, nem como \u00e9 que o c\u00e9rebro \u00e9 capaz de gerar significados.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sou livre ou n\u00e3o? \u00c9 claro que, como escreve o fil\u00f3sofo M. Pauen, se as nossas actividades espirituais se identificassem com processos cerebrais, segundo leis naturais, j\u00e1 se n\u00e3o poderia falar em liberdade &#8211; \u201cas nossas ac\u00e7\u00f5es seriam determinadas n\u00e3o por n\u00f3s, mas por aquelas leis.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, afinal, quem age, quem \u00e9 o autor das minhas ac\u00e7\u00f5es: o meu c\u00e9rebro ou eu? \u201cComo n\u00e3o \u00e9 a minha m\u00e3o, mas eu, quem esbofeteia esta ou aquela pessoa, n\u00e3o \u00e9 o meu c\u00e9rebro, mas eu, quem decide. O facto de eu pensar com o c\u00e9rebro n\u00e3o significa que seja o c\u00e9rebro, e n\u00e3o eu, quem pensa\u201d, escreveu o fil\u00f3sofo Th. Buchheim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste dom\u00ednio, nestes tempos de debates fundamentais \u00e0 volta da Intelig\u00eancia Artificial, a quest\u00e3o decisiva \u00e9 se algum dia teremos uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da consci\u00eancia. Mais: se haver\u00e1 m\u00e1quinas com consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O f\u00edsico Carlos Fiolhais, apresentou recentemente num dos seus escritos semanais no\u00a0<em>Correio da Manh\u00e3<\/em>, precisamente \u00e0 volta da Intelig\u00eancia Artificial.uma famosa aposta precisamente sobre a consci\u00eancia: \u201cEm 1994, em Tucson, nos Estados Unidos, realizou-se uma confer\u00eancia intitulada \u2018Em direc\u00e7\u00e3o a uma base cient\u00edfica da consci\u00eancia\u2019.\u201d O neurocientista Christof Koch defendeu a\u00ed que a consci\u00eancia tinha uma base f\u00edsica: dar-se-iam disparos s\u00edncronos de neur\u00f3nios 40 vezes por segundo. O fil\u00f3sofo David Chalmers retorquiu, dizendo que era imposs\u00edvel descrever a consci\u00eancia por um fen\u00f3meno f\u00edsico. Chamou ao entendimento da consci\u00eancia \u2018o problema dif\u00edcil\u2019.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados quatro anos, os dois reencontraram-se e, mantendo as suas posi\u00e7\u00f5es, fizeram uma aposta: o primeiro apostou com o segundo uma caixa de garrafas de vinho que, nos pr\u00f3ximos 25 anos, os cientistas iam descobrir um comportamento neuronal claramente respons\u00e1vel pela no\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa reuni\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o para o Estudo Cient\u00edfico da Consci\u00eancia realizada em Nova Iorque, em fins de junho passado, os dois voltaram a encontrar-se. O antigo modelo de Koch estava ultrapassado, havendo outros em contenda. Mas nenhum deles era claro, dando uma resposta inequ\u00edvoca, disse Chalmers.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O neurologista teve de admitir: \u201c\u00c9 claro que as coisas n\u00e3o s\u00e3o claras.\u201d E foi buscar uma caixa de garrafas de vinho portugu\u00eas, no qual se destacava uma de Madeira antigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perdedor, pretendendo desforrar-se, prop\u00f4s que repetissem a aposta: \u201cApostou que daqui a mais 25 anos o assunto estar\u00e1 finalmente claro. Chalmers aceitou com um sorriso.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Carlos Fiolhais, com o seu humor: \u201cOs cientistas gostam de fazer apostas. Mas \u00e9 por saber que os cientistas perdem apostas que sigo um precioso conselho da minha av\u00f3: \u2018Teima, teima, mas nunca apostes\u2019.\u201d E acrescenta: \u201cEstou em crer que as m\u00e1quinas s\u00f3 ter\u00e3o consci\u00eancia no Dia de S\u00e3o Nunca.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho a mesma opini\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>27 outubro 2024 \u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 12. Donde vem o \u201ceu\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 soberanamente estranho e enigm\u00e1tico o significado de dizer \u201ceu\u201d. S\u00f3 cada um, cada uma, o pode dizer de si mesmo, de si mesma, com sentido \u00fanico e irrepet\u00edvel. Ningu\u00e9m pode dizer \u201ceu\u201d na vez de outro. Precisamente por isso, ningu\u00e9m sabe o que \u00e9 exactamente ser outro, outro eu, ningu\u00e9m pode viver-se plenamente a partir de dentro de outro, ningu\u00e9m pode conceber o mundo visto pelo outro, por outro eu. O outro &#8211; outro eu, mas sobretudo e sempre um eu outro &#8211; \u00e9 irredut\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 absolutamente fascinante perguntar-se a si pr\u00f3prio: como ser\u00e1 o mundo a partir dali, daquele olhar, daquele olhar do outro &#8211; olhar n\u00e3o apenas externo, mas interior? Como \u00e9 que ele, ela, me v\u00ea? O que se passar\u00e1 nele, nela, dentro dele, dela, quando me v\u00ea, quando me observa, quando pensa em mim, quando diz que me ama? Se nos fosse poss\u00edvel ir l\u00e1 dentro!&#8230; O que \u00e9 que aconteceu para que o beb\u00e9, que come\u00e7a por parecer um \u201cembrulhinho\u201d (perdoe-se a express\u00e3o terna), inicie um processo de dizer-se, que vai do neutro &#8211; o menino, a menina, o Kico, a Rita&#8230; &#8211; at\u00e9 ao soberano eu, donde tudo parece partir para tudo dominar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 apenas o eu do outro que \u00e9 enigm\u00e1tico. O meu pr\u00f3prio eu \u00e9 enigma para mim. Quando tentamos ver-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios \u00e0 dist\u00e2ncia, em mi\u00fados, quando and\u00e1vamos na escola, por exemplo, ao dar connosco, sabemos que somos n\u00f3s, mas ao mesmo tempo vemo-nos de fora: somos os mesmos, mas de outro modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 no presente, por mais que objective de mim, h\u00e1 sempre um reduto \u00faltimo &#8211; parte da subjectividade &#8211; que resiste \u00e0 objectiva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havendo nunca coincid\u00eancia entre o eu objectivo e o eu subjectivo. Vejo-me, sem ver-me adequadamente, de tal maneira que, na medida em que procuro mergulhar at\u00e9 \u00e0 ultimidade de mim, \u00e9 como se desaparecesse no nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m por isso, David Hume negou a exist\u00eancia do eu: quando me vejo por dentro, o que encontro \u00e9 apenas uma s\u00e9rie de viv\u00eancias, mas nunca o eu, que n\u00e3o passa precisamente de um feixe de viv\u00eancias. N\u00e3o perguntava Pascal em que parte do corpo \u00e9 que se encontraria o eu? Ali\u00e1s, j\u00e1 certas correntes do budismo se tinham referido ao eu como ilus\u00e3o, e o exemplo que se d\u00e1 \u00e9 o de uma cebola a que se vai tirando as camadas sucessivas, sem que reste um n\u00facleo duro: da desconstru\u00e7\u00e3o da unidade pessoal n\u00e3o permanece um sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a interpreta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode seguir outro caminho. Descendo at\u00e9 ao abismo de mim, aquele aparente nada com que deparo \u00e9 o v\u00e9u de mim enquanto inobjectiv\u00e1vel, isto \u00e9, enquanto pessoa e n\u00e3o coisa. Precisamente a\u00ed &#8211; no eu irredut\u00edvel &#8211; posso encontrar-me com o mist\u00e9rio do Deus criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com esse milagre do eu enquanto pessoa, fim e n\u00e3o meio para nada, nem para ningu\u00e9m, que se defrontam, por exemplo, os pais, no encontro com o filho, como escreveu o fil\u00f3sofo Juli\u00e1n Mar\u00edas: \u201cA realidade psicof\u00edsica do filho &#8211; corpo, fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, psiquismo, car\u00e1cter, etc. &#8211; \u2018deriva\u2019 da dos pais, e neste sentido \u00e9 \u2018redut\u00edvel\u2019 a ela. Mas o filho que \u00e9 e diz \u2018eu\u2019 \u00e9 absolutamente irredut\u00edvel ao eu do pai, bem como ao da m\u00e3e, igualmente irredut\u00edveis, \u00e9 claro, entre si. N\u00e3o tem o menor sentido control\u00e1vel dizer que \u2018vem\u2019 deles, pois eu n\u00e3o posso vir de outro eu, j\u00e1 que este \u00e9 um \u2018tu\u2019 irredut\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, a cria\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 evidente. Isto \u00e9, o aparecimento da pessoa &#8211; de uma pessoa -, enquanto tal, \u00e9 o modelo daquilo que realmente entendemos por cria\u00e7\u00e3o: a ilumina\u00e7\u00e3o de uma realidade nova e intrinsecamente irredut\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03 novembro 2024 &#8211; Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 13. Nos cemit\u00e9rios, o que h\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de a morte hoje se ter tornado tabu, muitos nestes dias passaram pelos cemit\u00e9rios. E a pergunta \u00e9: que foram l\u00e1 fazer? Quando algu\u00e9m est\u00e1 concentrado num cemit\u00e9rio perante a campa de um familiar, de um amigo, est\u00e1 a olhar para onde? E o que \u00e9 que v\u00ea realmente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0H\u00e1 talvez algumas imagens entrecortadas que lhe passam de modo fugaz pela mente. Mas, quando olha, verdadeiramente absorto, embora talvez com os olhos muito abertos para ver, o que realmente lhe aparece \u00e9 simplesmente e s\u00f3 um abismo sem fundo e sem fim, um vazio ilimitadamente aberto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas olhar e ver um abismo sem fundo e sem fim e um vazio ilimitadamente aberto, isto \u00e9, n\u00e3o ver nada, \u00e9 o que propriamente se chama ver o Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Quando se vai ao cemit\u00e9rio visitar a campa de um familiar, de um amigo, presta-se uma homenagem, faz-se uma romagem de saudade&#8230; \u00c9 isso: de saudade, no sentido mais fundo da palavra, dito na pr\u00f3pria etimologia &#8211; a saudade refere-se a uma aus\u00eancia sem nome e sem fim, que nos faz sentir a solid\u00e3o (solitate) que nos d\u00f3i; se o \u00e9timo for salutem dare (saudar), ent\u00e3o trata-se de uma sauda\u00e7\u00e3o, com o desejo de que quem partiu esteja bem. A\u00ed, no recolhimento mais intenso, pode erguer-se, sem palavras, uma s\u00faplica, um solu\u00e7o, como forma de tentar balbuciar o Mist\u00e9rio indiz\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A morte \u00e9 o mist\u00e9rio pura e simplesmente&#8230; Perante ela e tudo o que se lhe refere, \u00e9 como se ca\u00edssemos num precip\u00edcio, onde se estilha\u00e7a a capacidade de pensar&#8230; Ningu\u00e9m sabe o que \u00e9 morrer. Que instante \u00e9 esse o da morte, mediante o qual se deixa de pertencer ao mundo e ao tempo? Mesmo que assistamos \u00e0 morte de algu\u00e9m, \u00e9 de fora que o fazemos&#8230; Ningu\u00e9m sabe o que \u00e9 estar morto. Diante do cad\u00e1ver do pai, da m\u00e3e, do filho, do amigo, do marido, da mulher, n\u00e3o tem sentido dizer: o meu pai est\u00e1 aqui morto, a minha m\u00e3e est\u00e1 aqui morta, o meu amigo est\u00e1 aqui morto, o meu marido est\u00e1 aqui morto, a minha mulher est\u00e1 aqui morta&#8230; De facto, eles n\u00e3o est\u00e3o ali&#8230; Tamb\u00e9m \u00e9 por pura ilus\u00e3o de linguagem que dizemos que levamos o pai, ou a m\u00e3e, ou o filho, ou o amigo, ou a mulher, ou o marido \u00e0 sua \u00faltima morada&#8230; Como n\u00e3o podemos dizer, quando vamos ao cemit\u00e9rio, que os vamos visitar&#8230; Nos cemit\u00e9rios, com excep\u00e7\u00e3o dos vivos que l\u00e1 v\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Pergunta-se ent\u00e3o: porque \u00e9 que \u00e9 um crime nefando em todas as culturas e sociedades a viola\u00e7\u00e3o de um cemit\u00e9rio se l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m? Afinal o que \u00e9 que est\u00e1 nos cemit\u00e9rios?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Nos cemit\u00e9rios, o que h\u00e1 \u00e9 uma incont\u00edvel e inapag\u00e1vel interroga\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 o Homem, o que \u00e9 ser-se humano? O que h\u00e1 nos cemit\u00e9rios \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que, seja como for, a antropologia n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a um simples cap\u00edtulo da zoologia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Afinal, para onde foram os mortos? N\u00e3o ser\u00e1 que, como acontece nas guerras, andam perdidos, mas um dia havemos de encontr\u00e1-los e encontrar-nos? Para onde v\u00e3o os mortos? Para o nada? Mas, como perguntava o fil\u00f3sofo Bernhard Welte, que nada \u00e9 esse? O nada vazio e nulo ou o nada enquanto v\u00e9u que oculta a realidade verdadeira, como quando entramos num espa\u00e7o de breu e dizemos: aqui, n\u00e3o vejo nada, o que n\u00e3o significa que l\u00e1 n\u00e3o haja nada, pois pode at\u00e9 acontecer que l\u00e1 se encontre o tesouro maior?&#8230; Para onde v\u00e3o os mortos? Para a noite total ou, pelo contr\u00e1rio, para a luz plena, de tal modo luz que para n\u00f3s \u00e9 noite, como quando, olhando para o sol de frente, ficamos cegos pelo excesso de luz? No final, est\u00e1 a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10 novembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 14. A morte e o intoler\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conta-se que um dia um padre entrou na igreja e viu Deus a rezar. Terrivelmente perplexo, perguntava a si mesmo a quem \u00e9 que Deus poderia rezar. Aproximou-se, e constatou, com espanto, que, Deus rezava ao homem: \u201cHomem, se existes, mostra-te, aparece!\u201d Mas Deus, o criador, devia saber que o homem existe &#8211; como \u00e9 que perguntava por ele?! De qualquer modo, da\u00ed para diante, o padre anunciava por toda a parte que Deus existe: ele pr\u00f3prio tinha-o visto a rezar ao homem, a perguntar por ele&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta hist\u00f3ria &#8211; ing\u00e9nua? -, est\u00e1 presente aquela urg\u00eancia em que consiste a quest\u00e3o de Deus, que Eduardo Louren\u00e7o traduziu assim: \u201cDeus? O problema \u00e9 saber se n\u00f3s existimos para Deus.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, porque \u00e9 que perguntar\u00edamos por Deus, se ele n\u00e3o estivesse presente em n\u00f3s? Como \u00e9 que o procurar\u00edamos, se, como explicitaram concretamente Santo Agostinho e Pascal, o n\u00e3o tiv\u00e9ssemos j\u00e1 encontrado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus est\u00e1 presente, pelo menos como quest\u00e3o aberta, essencialmente na pergunta irrecus\u00e1vel pelo sentido \u00faltimo. A exist\u00eancia humana \u00e9 uma caminhada de sentido em sentido: tem sentido crescer e aumentar os conhecimentos, tem sentido casar, formar fam\u00edlia, ter filhos, educ\u00e1-los, procurar uma realiza\u00e7\u00e3o profissional, tem sentido bater-se pela Justi\u00e7a, festejar, fazer investiga\u00e7\u00e3o para aprofundar a compreens\u00e3o do mundo e transform\u00e1-lo, sacrificar-se pela edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e feliz&#8230; Mas se, no fim, pela morte, tudo desembocasse no nada, ent\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, tudo apareceria sem sentido, precisamente porque a vida \u00e9 essa caminhada de sentido em sentido, \u00e0 procura do Sentido \u00faltimo, e, no final, era o nada. Precisamente esse nada \u00e9 intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1cter insuport\u00e1vel desse nada, do acabar no nada, do nunca mais ser para todo o sempre, adquire intensidade dramaticamente maci\u00e7a na morte do amigo. Por um lado, olha-se para aquele resto cadav\u00e9rico e tem-se consci\u00eancia de que o amigo est\u00e1 real e totalmente morto &#8211; \u00e9 uma naturalidade evidente morrer e estar morto. Por outro, o amigo n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o pode ser, aquele resto. Mas ent\u00e3o onde est\u00e1, para onde foi? Como \u00e9 que partiu sem deixar endere\u00e7o? E fica-se atordoado, \u00e9 como se o mundo nos ca\u00edsse em cima ou ca\u00edssemos n\u00f3s num abismo &#8211; o pensamento desfaz-se de parede contra parede, a fonte das palavras fica absolutamente seca, e \u00e9 um vazio sem fim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte de algu\u00e9m \u00e9 sempre o fim de um mundo, a morte de um amigo \u00e9 irrepar\u00e1vel. Com a morte do amigo, a nossa pr\u00f3pria morte faz a sua entrada no mais profundo de n\u00f3s mesmos. Como escreveu Santo Agostinho: \u201cAdmirava-me de viverem os outros mortais, quando tinha morrido aquele que eu amava, como se ele n\u00e3o houvesse de morrer! E, sendo eu outro ele, mais me admirava de eu viver, estando ele morto.\u201d E a\u00ed ergueu-se gigantesca, assombrosa e inevit\u00e1vel a pergunta essencial: \u201c<em>Factus eram ipse mihi magna quaestio<\/em>\u00a0&#8211; tinha-me tornado para mim pr\u00f3prio uma quest\u00e3o enorme.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Decisivo \u00e9 n\u00e3o abandonar a pergunta at\u00e9 ao fim e ao fundo. \u00c9 que, como escreveu Theodor Adorno, fundador da Escola Cr\u00edtica de Frankfurt, agn\u00f3stico: \u201cO pensamento que n\u00e3o se decapita desemboca na Transcend\u00eancia.\u201d E como escreveu Max Horkheimer, outro fundador da Escola de Frankfurt, \u201c\u00e9 imposs\u00edvel salvar um sentido absoluto sem Deus\u201d e, por isso, a religi\u00e3o est\u00e1 em conex\u00e3o com \u201co anelo de que esta exist\u00eancia terrena n\u00e3o seja absoluta\u201d, de que o sofrimento e a morte \u201cn\u00e3o sejam o \u00faltimo.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>17 novembro 2024\u00a0\u2013 Di\u00e1rio de Not\u00edcias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o pa<\/strong><strong>ra si mesmo. 15. Pensar significa transcender<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve tempos em que o m\u00eas de novembro era dedicado aos mortos e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o sobre a morte. Isso hoje n\u00e3o acontece nem se permite que aconte\u00e7a. Vivemos realmente em sociedades que fizeram da morte tabu, o \u00faltimo tabu. Na realidade, se tradicionalmente tabu era o sexo, hoje o sexo est\u00e1 \u00e0s esc\u00e2ncaras por toda a parte. E vivemos em sociedades do ter, do consumir, da corrup\u00e7\u00e3o, do imediatismo, submersos a dedar na aliena\u00e7\u00e3o das redes sociais, numa correria louca n\u00e3o se sabe para onde, enfim, no niilismo&#8230; E a\u00ed est\u00e3o as depress\u00f5es, os suic\u00eddios, o vazio amea\u00e7ador da falta de sentido&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca fui de modo nenhum favor\u00e1vel ao pensamento m\u00f3rbido da morte, que envenena a vida com o medo e o terror, usados tamb\u00e9m muitas vezes pela Igreja para aterrorizar as consci\u00eancias e exercer o poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero um pensamento sadio da morte por causa da vida. Conscientes do limite, viver intensamente. Quando? Agora. E com dignidade e fazendo de n\u00f3s e da sociedade o que verdadeiramente queremos. Com tempo e a tempo&#8230; Ai!, como o pensamento sadio da morte acabaria com tanta vaidade oca e toda a prociss\u00e3o de ilus\u00f5es, bo\u00e7alidades, malqueren\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, na perplexidade, lembro sempre o fil\u00f3sofo ateu religioso, Ernst Bloch, o fil\u00f3sofo da esperan\u00e7a com quem tive o privil\u00e9gio de conversar. O n\u00facleo do seu pensamento encontra-se na obra\u00a0<em>O princ\u00edpio esperan\u00e7a<\/em>, com a enciclop\u00e9dia de todas as esperan\u00e7as. Para ele, \u201co importante \u00e9 aprender a esperar\u201d, mas sem ilus\u00f5es. De facto, por mais longe que se v\u00e1 na erradica\u00e7\u00e3o dos males que nos afligem, ficar\u00e1 sempre a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o acreditava em Deus, mas, \u201conde h\u00e1 esperan\u00e7a, h\u00e1 religi\u00e3o\u201d. Na juventude, admitiu a reencarna\u00e7\u00e3o. Na maturidade, teorizou sobre \u201co n\u00facleo do\u00a0<em>Humanum<\/em>\u00a0extraterritorial \u00e0 morte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 est\u00e1: \u201cpor dignidade pessoal nego-me a que o Homem acabe como o gado\u201d; \u201ca desesperan\u00e7a \u00e9 em si, tanto em sentido temporal como objectivo, o insustent\u00e1vel, o insuport\u00e1vel em todos os sentidos\u201d e \u201cn\u00e3o me resigno a que a \u00faltima melodia que escutarei sejam as pazadas de terra despejadas sobre os meus despojos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O te\u00f3logo J. Moltmann contou-me que, poucos dias antes da morte, lhe perguntou como reagia a este desafio, tendo ele respondido: \u201cestou curioso\u201d \u2013 note-se, por\u00e9m, a for\u00e7a da palavra alem\u00e3 \u201cneugierig\u201d, com o sentido de ansioso por novidades. Moltmann tamb\u00e9m escreveu que \u201cna v\u00e9spera de morrer, ao entardecer, ele escutou mais uma vez a sua m\u00fasica mais querida, a abertura de\u00a0<em>Fidelio<\/em>, de Beethoven, com o sinal das trombetas para a liberta\u00e7\u00e3o dos cativos no final\u201d. Essa passagem, que associava \u00e0 Primeira Carta de S\u00e3o Paulo aos Tessalonicenses, 13, 16: \u201cquando for dado o sinal, \u00e0 voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descer\u00e1 dos c\u00e9us e os que morreram em<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristo ressuscitar\u00e3o primeiro\u201d, sempre o comovera. \u00c9 que, como escreveu, \u201cem Beethoven, pr\u00e9-anuncia-se a chegada de um Messias. Erguem-se desde as masmorras sons de liberdade e de recorda\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica. O grande momento chegou, a estrela da esperan\u00e7a cumprida no aqui e agora.\u201d A mim tamb\u00e9m me confessou o que tamb\u00e9m escreveu: \u201co cristianismo venceu em grande parte gra\u00e7as \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o de Cristo: \u2018Eu sou a Ressurrei\u00e7\u00e3o e a Vida\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima vez que fui a Tubinga, passei pelo cemit\u00e9rio para uma homenagem. O que estava escrito na l\u00e1pide tumular: \u201cDenken heisst \u00dcberschereiten\u201d (Pensar significa transcender).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed est\u00e1 o que mais faz falta nas nossas sociedades: Pensar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12838\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/anselmo_borges.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Anselmo Borges<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/autor\/1789600682\/anselmo-borges\/\">Padre e professor de Filosofia<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>24 novembro 2024\u00a0-Di\u00e1rio de Not\u00edcias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Homem: quest\u00e3o para si mesmo. 16. As v\u00edtimas inocentes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando olhamos para os horrores do mundo hoje, concretamente para a Ucr\u00e2nia e o M\u00e9dio Oriente, \u00e9 o horror pura e simplesmente, pensando concretamente nas v\u00edtimas inocentes. Mas n\u00e3o foi sempre assim? Veja-se Auschwitz. A gente vai l\u00e1 e fica estarrecido. Bento XVI foi l\u00e1 tamb\u00e9m e deixou estas palavras: H\u00e1 \u201cum sil\u00eancio que \u00e9 um grito interior para Deus: Por que te calaste? Por que quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que se calou?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele deixou uma enc\u00edclica sobre a esperan\u00e7a &#8211;\u00a0<em>Spe salvi<\/em>\u00a0-, e nela debru\u00e7a-se sobre uma pergunta decisiva, \u201ca pergunta fundamental da Filosofia\u201d (Max Horkheimer) : o que podem esperar as incont\u00e1veis v\u00edtimas inocentes da Hist\u00f3ria? Quem lhes far\u00e1 justi\u00e7a? Elas clamam, um grito ensurdecedor percorre a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ergue-se um ate\u00edsmo moral precisamente por causa das injusti\u00e7as do mundo e da Hist\u00f3ria . \u201cUm mundo no qual h\u00e1 tanta injusti\u00e7a, tanto sofrimento dos inocentes e tanto cinismo do poder, n\u00e3o pode ser obra de um Deus bom.\u201d Quase se poderia dizer que se \u00e9 ateu\u00a0<em>ad majorem Dei gloriam<\/em>, para a maior gl\u00f3ria de Deus, como se, perante o horror do mundo, a justifica\u00e7\u00e3o de Deus fosse n\u00e3o existir. \u00c9-se ateu por causa de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afastado Deus, deve ser o Homem a estabelecer a Justi\u00e7a no mundo. Mas n\u00e3o ser\u00e1 esta uma pretens\u00e3o arrogante e intrinsecamente falsa? Quem n\u00e3o ouve o eco das palavras de S\u00f3focles: Na terra \u201ch\u00e1 muita coisa terr\u00edvel, mas nada existe mais terr\u00edvel do que o Homem\u201d. Tem, pois, raz\u00e3o Bento XVI, ao acrescentar: \u201cUm mundo que tem de criar a sua Justi\u00e7a por si mesmo \u00e9 um mundo sem esperan\u00e7a. Ningu\u00e9m, nem nada responde pelo sofrimento dos s\u00e9culos.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, ele lembra a Escola de Frankfurt, nomeadamente Max Horkheimer e Theodor Adorno, que viveram filosoficamente a inconsol\u00e1vel \u201ctristeza metaf\u00edsica\u201d da impossibilidade de fazer justi\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas da Hist\u00f3ria. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse poss\u00edvel erguer uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela n\u00e3o poderia ser feliz, j\u00e1 que ou essa sociedade se lembrava de todas as v\u00edtimas do passado, que n\u00e3o participam dela, e seria atravessada pela infelicidade, ou n\u00e3o se interessava por elas e ent\u00e3o n\u00e3o era humana, porque insolid\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Horkheimer e Adorno exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, n\u00e3o podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, h\u00e1 uma verdade da religi\u00e3o, apesar de todas as suas trai\u00e7\u00f5es no conluio com o poder e os vencedores: a religi\u00e3o \u201cno bom sentido\u201d \u00e9, segundo Horkheimer, \u201co anelo inesgot\u00e1vel, sustentado contra a realidade f\u00e1ctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de um desejo ego\u00edsta, mas da esperan\u00e7a contraf\u00e1ctica de que a realidade dominante da injusti\u00e7a n\u00e3o tenha a \u00faltima palavra. Da\u00ed, o \u201canelo do totalmente Outro\u201d, o \u201canelo da justi\u00e7a universal cumprida\u201d, \u201ca esperan\u00e7a de que a injusti\u00e7a que atravessa a Hist\u00f3ria n\u00e3o permane\u00e7a, n\u00e3o tenha a \u00faltima palavra\u201d. E Adorno tamb\u00e9m escreveu que, frente \u00e0s aporias da raz\u00e3o, neste dom\u00ednio, a \u00fanica filosofia leg\u00edtima seria \u201co intento de contemplar todas as coisas com aparecem \u00e0 luz da reden\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora se n\u00e3o possa afirmar nada para l\u00e1 da iman\u00eancia, a pergunta pela esperan\u00e7a truncada das v\u00edtimas, que acusam o mundo da Hist\u00f3ria dos vencedores, obriga a pensar para l\u00e1 dos limites da iman\u00eancia, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela Justi\u00e7a universal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Anselmo-Borges.pdf\">Anselmo Borges<\/a> (PDF)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 no livro\u00a0Francisco. Desafios \u00e0 Igreja e ao Mundo\u00a0escrevi longas p\u00e1ginas reflectindo sobre o tema, concretamente sobre as &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14323,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[68],"tags":[],"class_list":["post-14322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=14322"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14325,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/14322\/revisions\/14325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/14323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=14322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=14322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=14322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}