{"id":16465,"date":"2025-12-22T11:06:48","date_gmt":"2025-12-22T11:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=16465"},"modified":"2025-12-22T11:18:55","modified_gmt":"2025-12-22T11:18:55","slug":"uma-historia-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=16465","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria de Natal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Natal no Quarto 432 do\u00a0Hospital<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Foi assim que Mike teve uma nova filha e Amara um pai. Naquele momento, no quarto 432 daquele hospital, foi Natal como, h\u00e1 dois mil anos, em Bel\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>20 dez. 2025|Observador| <\/strong><strong>P. Gon\u00e7alo Portocarrero de Almada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois \u00e9, \u00e0s vezes o Natal acontece onde menos se espera. Foi assim h\u00e1 2025 anos, em Bel\u00e9m de Jud\u00e1, no est\u00e1bulo onde Jesus de Nazar\u00e9 nasceu. Foi assim tamb\u00e9m no quarto 432 de um qualquer hospital, segundo um relato atribu\u00eddo a Sir David Attenborough e que,\u00a0<em>si non \u00e8 vero, \u00e8 ben trovato.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A protagonista \u00e9 Amara, uma rapariga de sete anos de idade, doente oncol\u00f3gica terminal. Ou talvez seja Mike, de 58 anos, motoqueiro que tem completamente tatuados os dois bra\u00e7os, barba at\u00e9 ao peito e \u00e9 membro dos\u00a0<em>Defenders<\/em>. Apesar de meter medo ao susto, \u00e9 volunt\u00e1rio num hospital pedi\u00e1trico, onde vai todas as quintas-feiras para ler livros infantis \u00e0s crian\u00e7as internadas. Depois de a neta de um dos\u00a0<em>Defenders\u00a0<\/em>ter estado internada, tamb\u00e9m no servi\u00e7o de oncologia de um hospital pedi\u00e1trico, h\u00e1 j\u00e1 quinze anos, v\u00e1rios dos membros do grupo assumiram este voluntariado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mike reconhece a estranheza que causa, inicialmente, a sua presen\u00e7a:<em>\u00a0\u201cA maioria das crian\u00e7as, no in\u00edcio, tem medo de mim. Eu percebo. Sou grande e barulhento e, por isso, parece que o meu lugar seria num filme sobre gangues de motas e n\u00e3o num hospital infantil. Mas, logo que come\u00e7o a ler, elas esquecem-se da minha apar\u00eancia e limitam-se a ouvir a hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte inferior do formul\u00e1rio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a Amara, Mike recorda:\u00a0<em>\u201cEntrei no quarto 432, em mar\u00e7o, numa quinta-feira \u00e0 tarde. A enfermeira avisou-me que se tratava de uma nova paciente, de sete anos. Neuroblastoma, fase 4. Desde que tinha sido internada, havia tr\u00eas semanas, n\u00e3o tinha recebido nenhuma visita da fam\u00edlia\u201d. A enfermeira explicou: \u201cFoi a m\u00e3e que a deixou aqui para tratamento, mas nunca mais c\u00e1 voltou. H\u00e1 semanas que estamos a tentar localiz\u00e1-la, sem efeito. Amara n\u00e3o tem mais ningu\u00e9m de fam\u00edlia e, por isso, se ficar est\u00e1vel, ter\u00e1 de ser adotada, ou enviada para um orfanato.\u201d \u201cE se ela n\u00e3o melhorar?\u201d \u2013\u00a0<\/em>perguntou Mike, visivelmente incomodado pelo abandono em que tinha sido deixada aquela crian\u00e7a.\u00a0<em>\u201cNesse caso\u00a0<\/em>\u2013 respondeu a enfermeira \u2013<em>\u00a0morrer\u00e1 aqui, sozinha\u201d. \u201cFiquei do lado de fora do quarto 432, durante um minuto, antes de conseguir entrar. J\u00e1 tinha lido para crian\u00e7as moribundas e nunca \u00e9 f\u00e1cil. Mas uma mi\u00fada a morrer completamente s\u00f3?! Isso \u00e9 um novo tipo de inferno!\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mike bateu suavemente \u00e0 porta do quarto 432 e disse:\u00a0<em>\u201cOl\u00e1, eu sou o Mike. Estou aqui para te ler uma hist\u00f3ria, se quiseres.\u201d<\/em>\u00a0Amara virou-se na cama e olhou fixamente para ele: ela tinha os maiores olhos castanhos que ele tinha visto. \u00c0 conta da quimioterapia, j\u00e1 n\u00e3o tinha cabelo e a sua pele acinzentada era reveladora do seu estado terminal. Ao v\u00ea-lo, sorriu e disse:<em>\u00a0\u201cO senhor \u00e9 muito grande!\u201d<\/em>. Mike concordou e, depois, acrescentou:\u00a0<em>\u201cTenho aqui a hist\u00f3ria de uma girafa que aprendeu a dan\u00e7ar. Queres ouvir?\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amara concordou e ele sentou-se na cadeira ao lado da cama e come\u00e7ou a ler a hist\u00f3ria. Quando ia a meio, a pequenita interrompeu-o, para lhe perguntar se tinha filhos. Mike tinha tido uma \u00fanica filha, que morrera num acidente de via\u00e7\u00e3o, quando tinha 16 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que Amara contou a sua triste hist\u00f3ria:\u00a0<em>\u201cO meu pai foi-se embora, antes de eu nascer, e a minha m\u00e3e trouxe-me para este hospital e nunca mais voltou c\u00e1. As enfermeiras disseram-me que j\u00e1 n\u00e3o vir\u00e1. A assistente social disse que, se eu melhorar, irei viver com uma fam\u00edlia adotiva, mas eu ouvi os m\u00e9dicos dizerem que n\u00e3o me vou curar. Eu sei que estou a morrer. Todas as pessoas acham que eu n\u00e3o percebo, mas eu sei, porque eu os ouvi dizer que o cancro j\u00e1 est\u00e1 espalhado por todo o corpo. Disseram que talvez dure seis meses, ou menos.\u201d\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mike pousou o livro, para lhe dizer:<em>\u00a0\u201cAmara, sinto muito.\u201d<\/em>\u00a0Foi ent\u00e3o que ela o olhou, com aqueles seus olhos enormes, e disse-lhe:<em>\u00a0\u201cPosso pedir-lhe uma coisa?\u201d. \u201cO que quiseres, querida \u201c,<\/em>\u00a0respondeu ele.\u00a0<em>\u201cQuer ser o meu pai \u2026 at\u00e9 eu morrer?\u201d.<\/em>\u00a0Mike quis responder, mas n\u00e3o conseguiu articular nenhuma palavra, pois parecia que tinha levado um murro no est\u00f4mago. Queria dizer que sim, mas ele era apenas um velho motoqueiro bruto, que ia uma vez por semana ao hospital, para ler livros infantis. N\u00e3o obstante, gaguejou a \u00fanica resposta poss\u00edvel: \u201c<em>Querida\u2026 Seria uma honra. Mas tenho que ser honesto contigo: j\u00e1 n\u00e3o sou novo para ser pai outra vez e, por isso, posso n\u00e3o saber s\u00ea-lo.\u201d<\/em>\u00a0O rosto dela iluminou-se como o nascer do sol.\u00a0<em>\u201cN\u00e3o faz mal. Pode reaprender comigo.\u201d<\/em>\u00a0Foi assim que Mike teve uma nova filha e Amara um pai. Naquele momento, no quarto 432 daquele hospital, foi Natal como, h\u00e1 dois mil anos, num est\u00e1bulo de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As enfermeiras e a assistente social ficaram comovidas ao saber que Amara tinha, agora, um pai, que a iria acompanhar na sua doen\u00e7a e, depois, se melhorasse, lhe daria um lar. E uma \u2018fam\u00edlia\u2019, por sinal, muito numerosa e barulhenta, porque os<em>\u00a0Defenders<\/em>\u00a0acolheram, com entusiasmo, esta filha de um dos seus: no estacionamento do hospital, foi um espet\u00e1culo ver as vinte e cinco Harleys com peluches amarrados aos seus volantes e destinados ao quarto 432. At\u00e9 lhe ofereceram um colete de couro, com a indica\u00e7\u00e3o \u2018menina do pap\u00e1\u2019 costurada nas costas, para o dia em que se pudesse juntar ao grupo que era, afinal, a sua nova fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora curada na sua alma por aquele inesperado afeto, o seu pequeno corpo continuava doente: por vezes j\u00e1 nem conseguia segurar o livro e, esgotada, adormecia encostada ao pai, que lhe cantarolava velhas can\u00e7\u00f5es de Johnny Cash que, muitos anos antes, tinha cantado \u00e0 sua filha mais velha e que ela adorava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doen\u00e7a seguia o seu curso inexor\u00e1vel, mas, inexplicavelmente, na manh\u00e3 do seu oitavo anivers\u00e1rio, Amara acordou e disse:\u00a0<em>\u201cPai, sonhei que estava a correr e que as minhas pernas funcionavam e tudo!\u201d<\/em>\u00a0Mike beijou o seu cabelo, que, entretanto, renascera e disse-lhe: \u201c<em>Ent\u00e3o vamos fazer com que isso aconte\u00e7a!\u201d<\/em>\u00a0Duas semanas depois, o oncologista reconheceu algo inexplic\u00e1vel: os tumores na coluna de Amara estavam a regredir. Nunca tinha visto nada assim. Mike desvendou o mist\u00e9rio<em>: \u201cFoi amor. Amor simples, casmurro, barulhento e tatuado. Dezoito meses depois do dia em que ela pediu a um motociclista assustador para ser o seu pai \u2018at\u00e9 que ela morresse\u2019, a Amara saiu daquele hospital pelos seus pr\u00f3prios p\u00e9s, a segurar a minha m\u00e3o, vestindo o seu pequeno blus\u00e3o de couro e um sorriso maior que o c\u00e9u. O clube deu-lhe as boas-vindas com uma festa de arromba. Houve p\u00f3neis e um castelo insufl\u00e1vel. Teve bolo do tamanho de uma roda Harley. E quando o sol se p\u00f4s e a fogueira ainda rugia, Amara sentou-se ao meu colo, olhou para as estrelas e sussurrou: \u2018Pai?\u2019. \u2018Sim, querida?\u2019. \u2018Acho que, por muito tempo, n\u00e3o vou morrer.\u2019<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta hist\u00f3ria, como todas as hist\u00f3rias verdadeiras, tem um<em>\u00a0happy end,<\/em>\u00a0que \u00e9 tanto mais<em>\u00a0happy\u00a0<\/em>quanto \u00e9 menos\u00a0<em>end.<\/em>\u00a0Amara tem agora quinze anos e continua saud\u00e1vel. O cancro n\u00e3o regressou, mas ela vai, todas as semanas, ao hospital onde esteve internada, \u00e0s quintas-feiras, com o seu novo pai, na Harley que ele guia e em que ela monta como uma verdadeira amazona. Ambos leem hist\u00f3rias \u00e0s crian\u00e7as hospitalizadas, sobretudo \u00e0s mais doentes e s\u00f3s. Eles sabem que o que cura \u00e9 o amor. E que esta \u00e9, h\u00e1 2025 anos como agora, a verdadeira mensagem do Natal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Uma-historia-de-Natal-1.pdf\">Uma hist\u00f3ria de Natal<\/a> (PDF)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi assim que Mike teve uma nova filha e Amara um pai. 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