{"id":17150,"date":"2026-05-25T14:38:01","date_gmt":"2026-05-25T13:38:01","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=17150"},"modified":"2026-05-25T14:38:01","modified_gmt":"2026-05-25T13:38:01","slug":"carta-enciclica-magnifica-humanitas-papa-leao-xiv-15-maio-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=17150","title":{"rendered":"Carta Enc\u00edclica Magnifica Humanitas &#8211; Papa Le\u00e3o XIV &#8211; 15 maio 2026"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9814 size-full\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/pope.png\" alt=\"\" width=\"104\" height=\"120\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CARTA ENC\u00cdCLICA<br \/>\nMAGNIFICA HUMANITAS<br \/>\nDO SANTO PADRE<br \/>\nLE\u00c3O XIV<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA<br \/>\nNA ERA DA INTELIG\u00caNCIA ARTIFICIAL<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\nAs res novae do nosso tempo<br \/>\nDuas imagens b\u00edblicas<br \/>\nConstruir no bem<br \/>\nPermanecer humanos<br \/>\nCAP\u00cdTULO I<br \/>\nUM PENSAMENTO DIN\u00c2MICO FIEL AO EVANGELHO<br \/>\nUma Igreja que caminha na hist\u00f3ria da humanidade<br \/>\nSabedoria da Palavra e di\u00e1logo com as ci\u00eancias humanas<br \/>\nA Doutrina Social como discernimento comunit\u00e1rio<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio social desde Le\u00e3o XIII aos dias de hoje<br \/>\nOs Primeiros passos da Doutrina social da Igreja<br \/>\nOs anos do Conc\u00edlio Vaticano II<br \/>\nO Magist\u00e9rio recente<br \/>\nUma leitura da hist\u00f3ria \u00e0 luz da f\u00e9<br \/>\nCAP\u00cdTULO II<br \/>\nFUNDAMENTOS E PRINC\u00cdPIOS DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA<br \/>\nFundamentos da Doutrina social<br \/>\nO ser humano, imagem do Deus trinit\u00e1rio<br \/>\nA igual dignidade de todos os seres humanos<br \/>\nO alt\u00edssimo valor dos direitos humanos<br \/>\nPrinc\u00edpios da Doutrina social<br \/>\nO princ\u00edpio do bem comum<br \/>\nO princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens<br \/>\nO princ\u00edpio de subsidiariedade<br \/>\nO princ\u00edpio de solidariedade<br \/>\nO princ\u00edpio da justi\u00e7a social<br \/>\nO desenvolvimento humano integral<br \/>\nUm teste para a Igreja<br \/>\nCAP\u00cdTULO III<br \/>\nT\u00c9CNICA E DOM\u00cdNIO.<br \/>\nA GRANDEZA DA PESSOA HUMANA PERANTE AS PROMESSAS DA IA<br \/>\nO paradigma tecnocr\u00e1tico e o poder digital<br \/>\nA intelig\u00eancia artificial<br \/>\nUma ajuda preciosa que requer aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nResponsabilidade, transpar\u00eancia e gest\u00e3o da IA<br \/>\nO que n\u00e3o podemos perder<br \/>\nNarrativas de fundo: transumanismo e p\u00f3s-humanismo<br \/>\nOs limites, o cora\u00e7\u00e3o, a grandeza do ser humano<br \/>\nO verdadeiro \u201cmais que humano\u201d: gra\u00e7a e humanismo crist\u00e3o<br \/>\nDuas cidades e dois amores<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO IV<br \/>\nSALVAGUARDAR O HUMANO NA TRANSFORMA\u00c7\u00c3O.<br \/>\nVERDADE, TRABALHO, LIBERDADE<br \/>\nA verdade como bem comum<br \/>\nVerdade e democracia<br \/>\nComunica\u00e7\u00e3o e imagin\u00e1rio coletivo<br \/>\nPor uma ecologia da comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nUma alian\u00e7a educativa para a era digital<br \/>\nCentralidade da escola<br \/>\nA dignidade do trabalho na transi\u00e7\u00e3o digital<br \/>\nO valor do trabalho<br \/>\nO problema do desemprego<br \/>\nUma economia que valorize a dignidade<br \/>\nFam\u00edlia e jovens: condi\u00e7\u00f5es sociais da esperan\u00e7a<br \/>\nSalvaguardar a liberdade contra a depend\u00eancia e a mercantiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nDepend\u00eancias e controle social<br \/>\nQuebrar as correntes das novas formas de escravid\u00e3o<br \/>\nUma responsabilidade partilhada<br \/>\nCAP\u00cdTULO V<br \/>\nA CULTURA DO PODER E A CIVILIZA\u00c7\u00c3O DO AMOR<br \/>\nA civiliza\u00e7\u00e3o do amor na era digital<br \/>\nA cultura do poder<br \/>\nA normaliza\u00e7\u00e3o da guerra<br \/>\nA for\u00e7a sem limites<br \/>\nArmas e IA<br \/>\nA crise do multilateralismo<br \/>\nUm suposto realismo pol\u00edtico<br \/>\nConstruir a civiliza\u00e7\u00e3o do amor<br \/>\nTodos podemos fazer a nossa parte<br \/>\nDesarmar as palavras<br \/>\nConstruir a paz na justi\u00e7a<br \/>\nAssumir o olhar das v\u00edtimas<br \/>\nCultivar um saud\u00e1vel realismo<br \/>\nRevitalizar o di\u00e1logo<br \/>\nA necessidade da diplomacia e do multilateralismo<br \/>\nRezar e ter esperan\u00e7a<br \/>\nCONCLUS\u00c3O<br \/>\nO Verbo fez-se carne<br \/>\nUm \u00fanico corpo em Cristo<br \/>\nO canteiro de obras do nosso tempo<br \/>\nO c\u00e2ntico da esperan\u00e7a: Magnificat<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\n1. A Magn\u00edfica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada gera\u00e7\u00e3o recebe em heran\u00e7a a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a hist\u00f3ria como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justi\u00e7a promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada \u00e9poca, por\u00e9m, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Ali onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, n\u00f3s, crist\u00e3os, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que \u00abo mist\u00e9rio do homem s\u00f3 no mist\u00e9rio do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente\u00bb. [1] Em Jesus Cristo, esta magn\u00edfica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de n\u00f3s a via para crescermos at\u00e9 \u00e0 plenitude.<br \/>\n2. Alicer\u00e7ados em Cristo, a pedra viva, experimentamos a poderosa e misteriosa a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e acreditamos que todo o aut\u00eantico esfor\u00e7o humano de cooperar com Ele para o bem ser\u00e1 aben\u00e7oado pelo Pai celeste, no qual depositamos a nossa esperan\u00e7a. Por isso, com determina\u00e7\u00e3o, podemos contribuir em todas as iniciativas que constroem um mundo mais justo e convidar outros a colaborar conosco na promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento integral de cada ser humano. Desejamos entrar em di\u00e1logo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as quest\u00f5es e as aspira\u00e7\u00f5es da humanidade. [2] Com eles, queremos individuar novos caminhos para o bem comum e a promo\u00e7\u00e3o de uma vida digna para todos. Essa atitude de di\u00e1logo \u00e9 parte integrante da voca\u00e7\u00e3o da Igreja, pois ela, constitu\u00edda \u00abem Cristo, \u00e9 como que o sacramento [\u2026] da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u00bb, [3] reconhece a hist\u00f3ria como o lugar onde o Evangelho interpela e acompanha a experi\u00eancia humana.<br \/>\n3. Com esse esp\u00edrito, Le\u00e3o XIII publicou, em 1891, a Enc\u00edclica Rerum novarum, cujo 135\u00ba anivers\u00e1rio celebramos este ano com viva gratid\u00e3o. O meu amado Predecessor deu impulso, com este documento, \u00e0quela reflex\u00e3o sobre a sociedade, a economia e a pol\u00edtica a que hoje chamamos \u201cDoutrina social da Igreja\u201d. E quando alguns contestavam que a Igreja n\u00e3o devia desperdi\u00e7ar energias em quest\u00f5es mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna, ele respondia com realismo e sabedoria que o an\u00fancio do Evangelho n\u00e3o pode esquecer a vida concreta dos povos. [4] Passaram-se muitas d\u00e9cadas desde ent\u00e3o, e o Magist\u00e9rio, os pastores, os te\u00f3logos e os fi\u00e9is continuaram a refletir sobre as quest\u00f5es sociais \u00e0 luz do Evangelho. Hoje, a Doutrina social da Igreja \u00e9 um patrim\u00f3nio de sabedoria, onde encontramos princ\u00edpios para pensar, crit\u00e9rios para discernir e julgar, orienta\u00e7\u00f5es concretas para agir. Ela baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradi\u00e7\u00e3o e, em di\u00e1logo com as ci\u00eancias, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e ao servi\u00e7o do mundo, um l\u00edmpido testemunho crist\u00e3o. N\u00e3o se trata dum conjunto est\u00e1tico de conceitos, mas dum corpus vivo de verdades, que preserva e interpreta a voca\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e0 vida plena e justa. Desejo, portanto, juntar a minha voz a esta tradi\u00e7\u00e3o viva, invocando a ajuda do Esp\u00edrito de sabedoria, que habita o mundo desde os seus prim\u00f3rdios (cf. Pr 8, 22-31).<br \/>\nAs res novae do nosso tempo<br \/>\n4. Se, na sua \u00e9poca, Le\u00e3o XIII falava de \u00abnovas quest\u00f5es\u00bb ( rerum novarum), hoje n\u00e3o podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tend\u00eancias do nosso tempo, em particular os progressos da t\u00e9cnica. Nos \u00faltimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o qu\u00e3o r\u00e1pida e profundamente a digitaliza\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia artificial (IA) e a rob\u00f3tica est\u00e3o a transformar o nosso mundo. A t\u00e9cnica n\u00e3o deve ser considerada, em si mesma, como uma for\u00e7a antag\u00f3nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa: pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 enraizada na nossa hist\u00f3ria desde o in\u00edcio, na medida em que \u00e9 \u00abum dado profundamente humano, ligado \u00e0 autonomia e \u00e0 liberdade do homem\u00bb. [5] Ao longo dos s\u00e9culos, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico contribuiu para uma melhoria significativa das condi\u00e7\u00f5es de vida da humanidade; ao mesmo tempo, cada fase do progresso tamb\u00e9m revelou o lado amb\u00edguo de instrumentos que, quando n\u00e3o orientados para o bem, s\u00e3o capazes de causar danos. Hoje, no entanto, estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o nova, em que o poder e a dissemina\u00e7\u00e3o das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decis\u00e3o e incidem profundamente no imagin\u00e1rio coletivo: \u00abNunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma\u00bb. [6] As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em dire\u00e7\u00f5es que, embora imagin\u00e1veis, n\u00e3o podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum.<br \/>\n5. Cabe-nos agora enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo. \u00c9 necess\u00e1rio adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justi\u00e7a e de conter os efeitos nocivos do poder tecnol\u00f3gico. Mas a quest\u00e3o n\u00e3o se esgota na regulamenta\u00e7\u00e3o. Como alertou o Papa Francisco, devemos perguntar-nos com realismo quem det\u00e9m hoje este poder e para que fins o orienta: \u00abN\u00e3o podemos, por\u00e9m, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a inform\u00e1tica, o conhecimento do nosso pr\u00f3prio DNA e outras potencialidades que adquirimos [\u2026] d\u00e3o, \u00e0queles que det\u00eam o conhecimento e sobretudo o poder econ\u00f3mico para o desfrutar, um dom\u00ednio impressionante sobre o conjunto do g\u00e9nero humano e do mundo inteiro\u00bb. [7] Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inova\u00e7\u00e3o. Hoje, pelo contr\u00e1rio, os principais motores do desenvolvimento s\u00e3o sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de interven\u00e7\u00e3o superiores aos de muitos Governos. O poder tecnol\u00f3gico assume, destarte, uma identidade in\u00e9dita, predominantemente \u201cprivada\u201d e, portanto, ainda mais dif\u00edcil de discernir, gerir e orientar para o bem comum.<br \/>\n6. Assim, \u00e9 preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas ra\u00edzes espirituais e culturais das transforma\u00e7\u00f5es em curso. Se nos limitarmos \u00e0s conting\u00eancias, corremos o risco de deixar que uma s\u00e9rie de emerg\u00eancias decida, em nosso lugar, a dire\u00e7\u00e3o do caminho. Estamos a viver uma r\u00e1pida fase de transi\u00e7\u00e3o, uma \u201cmudan\u00e7a de \u00e9poca\u201d em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam \u00e0 reflex\u00e3o sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, imp\u00f5em-se \u00e0 nossa consci\u00eancia quest\u00f5es decisivas, que n\u00e3o podem j\u00e1 ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que dire\u00e7\u00e3o escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?<br \/>\nDuas imagens b\u00edblicas<br \/>\n7. Para responder a estas quest\u00f5es e discernir como viver com responsabilidade a era da intelig\u00eancia artificial, gostaria de evocar duas imagens b\u00edblicas: a da edifica\u00e7\u00e3o da torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9) e a da reconstru\u00e7\u00e3o das muralhas de Jerusal\u00e9m (cf. Ne 2-6). No livro do G\u00e9nesis, o relato de Babel situa-se nas origens da humanidade, imediatamente ap\u00f3s as genealogias dos filhos de No\u00e9. Os seres humanos, tendo-se estabelecido na plan\u00edcie de Senaar, decidem construir uma cidade e uma torre \u00abcujo cimo atinja os c\u00e9us\u00bb (Gn 11, 4). Pretendem, assim, obter estabilidade e poder e, sobretudo, tornarem-se \u201cfamosos\u201d, temendo ser dispersos pela terra. A empresa mostra-se imponente: uma \u00fanica l\u00edngua, uma \u00fanica tecnologia, uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o. Todavia, o projeto esconde uma profunda ins\u00eddia: \u00e9 uma obra pensada sem refer\u00eancia a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez da comunh\u00e3o, opta pela homogeneiza\u00e7\u00e3o. Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretens\u00e3o de se bastar a si mesma, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 interrompida, as l\u00ednguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender. O resultado n\u00e3o \u00e9 a unidade, mas a dispers\u00e3o. Deste modo, Babel revela o limite de qualquer constru\u00e7\u00e3o, ainda que grandiosa, surgida da absolutiza\u00e7\u00e3o do humano e da sua pretens\u00e3o de autossufici\u00eancia, do sacrif\u00edcio da dignidade das pessoas em nome da efici\u00eancia e da ambi\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar o c\u00e9u sem a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus.<br \/>\n8. O livro de Neemias, por sua vez, come\u00e7a num momento de grande vulnerabilidade na hist\u00f3ria do antigo Israel. Ap\u00f3s o ex\u00edlio babil\u00f3nico, uma parte do povo regressou a Jerusal\u00e9m, mas a cidade continua devastada, com as muralhas ainda em ru\u00ednas e as portas consumidas pelo fogo (cf. Ne 1-2). Neemias, um judeu ao servi\u00e7o do rei persa Artaxerxes, recebe a not\u00edcia do estado desastroso da cidade dos seus pais. Antes de agir, jejua, reza e intercede pelo povo; depois, pede ao rei permiss\u00e3o para regressar a Jerusal\u00e9m e, ao chegar ao destino, examina em sil\u00eancio os lugares destru\u00eddos. N\u00e3o imp\u00f5e solu\u00e7\u00f5es vindas do alto: convoca as fam\u00edlias, confia a cada uma delas uma parte da muralha para reconstruir, ouve os receios, coordena os esfor\u00e7os, enfrenta as oposi\u00e7\u00f5es. O relato mostra como a cidade renasce n\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 iniciativa de uma \u00fanica pessoa, mas atrav\u00e9s da responsabilidade partilhada por todo o povo: sacerdotes, artes\u00e3os, chefes de fam\u00edlia, mulheres e jovens. \u00c9 uma obra que tem Deus no centro e que reconstr\u00f3i as rela\u00e7\u00f5es antes mesmo das pedras. Com efeito, a antiga Jerusal\u00e9m reencontra uma linguagem comum, n\u00e3o a da uniformidade, mas a da comunh\u00e3o: a harmonia que brota quando cada um assume a pr\u00f3pria responsabilidade e todo o povo reconhece que a sua for\u00e7a prov\u00e9m do Senhor.<br \/>\n9. \u00c0 luz destas duas imagens, o Esp\u00edrito Santo interpela-nos hoje sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com a t\u00e9cnica e com a revolu\u00e7\u00e3o digital em curso. As descobertas cient\u00edficas s\u00e3o um dom concedido \u00e0 humanidade para que esta o fa\u00e7a frutificar (cf. Mt 25, 14-30). A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas tamb\u00e9m pode dividir, descartar, gerar novas injusti\u00e7as. Na teoria, em si mesma, ela n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para os problemas da humanidade, assim como n\u00e3o \u00e9, em si mesma, um mal; todavia, na pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha n\u00e3o \u00e9 entre um \u201csim\u201d ou um \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusal\u00e9m: entre um poder que pretende dominar o c\u00e9u ou um povo que unido, na presen\u00e7a de Deus, come\u00e7a o trabalho de reerguer os muros da conviv\u00eancia fraterna.<br \/>\n10. Evitemos, portanto, a \u201cs\u00edndrome de Babel\u201d: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferen\u00e7as; a pretens\u00e3o de uma linguagem \u00fanica \u2013 mesmo digital \u2013 dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mist\u00e9rio da pessoa. Este \u00e9 o risco da desumaniza\u00e7\u00e3o: construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova, que hoje assume tamb\u00e9m uma faceta t\u00e9cnica. Pelo contr\u00e1rio, escolhamos o \u201ccaminho de Neemias\u201d, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a seguran\u00e7a da cidade de Deus aos exilados que regressavam. Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e vis\u00f5es que por vezes lembra a dispers\u00e3o das l\u00ednguas, a exist\u00eancia duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do di\u00e1logo o terreno comum no qual crescem a justi\u00e7a e a fraternidade. No \u00e2mbito desta obra partilhada, os crist\u00e3os encontram a sua forma espec\u00edfica de construir: orientar a a\u00e7\u00e3o para Deus, de modo que, \u00e0 sua luz, o pluralismo n\u00e3o se disperse na desordem, mas, pela pr\u00e1tica da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus s\u00f3lidos alicerces e o seu fim \u00faltimo. No Apocalipse, Jo\u00e3o v\u00ea a nova Jerusal\u00e9m \u00abdescer do c\u00e9u, de junto de Deus\u00bb (Ap 21, 2) como um dom para toda a humanidade. Esta vis\u00e3o de gra\u00e7a constitui, para n\u00f3s crist\u00e3os, um apelo a trabalhar juntos, cultivando uma coexist\u00eancia pac\u00edfica, justa e digna nas \u201ccidades\u201d de hoje.<br \/>\nConstruir no bem<br \/>\n11. Construir uma cidade orientada para o bem comum exige, em primeiro lugar, edificar sobre a rocha da rela\u00e7\u00e3o com Deus. Reconhecer que a verdade do seu amor nos chama a uma vida \u00abem abund\u00e2ncia\u00bb ( Jo 10, 10) e \u00e0 comunh\u00e3o com Ele. Tamb\u00e9m n\u00f3s podemos dizer com Santo Agostinho: \u00abNos criastes para V\u00f3s e o nosso cora\u00e7\u00e3o vive inquieto, enquanto n\u00e3o repousa em V\u00f3s\u00bb. [8] Na verdade, Deus gravou no nosso cora\u00e7\u00e3o um desejo de felicidade, que envolve todas as dimens\u00f5es da vida, e a Igreja, no di\u00e1logo com os homens e as mulheres do nosso tempo, sente a urg\u00eancia de guardar e orientar essa aspira\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 sua verdade mais profunda.<br \/>\n12. Em segundo lugar, edificar no bem significa aceitar os limites e a fragilidade da humanidade, sem os considerar um erro a corrigir. Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilus\u00e3o duma t\u00e9cnica que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que \u201cdeixam para tr\u00e1s\u201d povos inteiros. N\u00e3o raro, depositamos a esperan\u00e7a num aperfei\u00e7oamento sem limites, em formas de progresso que podem exacerbar as desigualdades, em solu\u00e7\u00f5es imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Ent\u00e3o, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirma\u00e7\u00e3o ilimitada, muitos continuam sem o essencial. A Igreja recorda \u2013 com voz humilde, mas firme \u2013 que a verdadeira realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasce da supress\u00e3o das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrela\u00e7am com o cuidado rec\u00edproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos.<br \/>\n13. Construir um mundo onde todos possam \u201cflorescer\u201d exige, em terceiro lugar, uma corresponsabilidade corajosa. Nenhuma m\u00e3o, sozinha, \u00e9 suficiente para aguentar o peso dos desafios que assolam o mundo; e nenhuma m\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fraca que n\u00e3o possa dar o seu contributo: \u00abA for\u00e7a manifesta-se na fraqueza\u00bb (2 Cor 12, 9). A cada um o seu peda\u00e7o da muralha: cientistas e estudiosos, empres\u00e1rios e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de f\u00e9. Esta \u00e9 a l\u00f3gica da subsidiariedade, que valoriza a coopera\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es, povos, disciplinas e culturas como caminho principal para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. As tens\u00f5es e as diferen\u00e7as n\u00e3o devem intimidar, pois, quando orientadas por uma responsabilidade comum, podem tornar-se for\u00e7as criativas.<br \/>\n14. Por fim, edificar no bem exige uma linguagem evang\u00e9lica. Evitemos palavras que humilhem ou criem oposi\u00e7\u00f5es. Escolhamos a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos. N\u00e3o aben\u00e7oemos entusiasmos ing\u00e9nuos, n\u00e3o alimentemos medos est\u00e9reis. Em vez disso, indiquemos crit\u00e9rios de discernimento \u2013 dignidade da pessoa, destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, op\u00e7\u00e3o pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz \u2013 e transformemo-los em a\u00e7\u00f5es: planeamento respons\u00e1vel, avalia\u00e7\u00f5es de impacto humano e social, inclus\u00e3o dos mais fr\u00e1geis, alfabetiza\u00e7\u00e3o digital, pesquisa e ind\u00fastria orientadas para a justi\u00e7a e a paz.<br \/>\nPermanecer humanos<br \/>\n15. No recente Jubileu Ordin\u00e1rio de 2025, caminh\u00e1mos como peregrinos da esperan\u00e7a e fomos cumulados de gra\u00e7as. Fortalecidos por estes dons, podemos avan\u00e7ar com \u00e2nimo confiante perante as \u00e1rduas tarefas e os exigentes desafios que se apresentam no nosso futuro. Na era da intelig\u00eancia artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumaniza\u00e7\u00e3o, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magn\u00edfica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma m\u00e1quina poder\u00e1 substituir no seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um cora\u00e7\u00e3o aberto ao outro, de uma intelig\u00eancia dispon\u00edvel para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa.<br \/>\n16. A todos os fi\u00e9is cat\u00f3licos, a todos os crist\u00e3os, a todos os homens e mulheres de boa vontade, dirijo um sentido apelo: n\u00e3o tenhamos medo de sujar as m\u00e3os no canteiro de obras do nosso tempo. Como Neemias, rezemos, planifiquemos com sabedoria, trabalhemos com perseveran\u00e7a, recolocando Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas. Ent\u00e3o, as pedras rejeitadas \u2013 os pobres, os doentes, os migrantes, os pequenos \u2013 tornar-se-\u00e3o a pedra angular, e na terra erguer-se-\u00e1 uma s\u00f3lida e acolhedora morada comum, onde o amor e a verdade finalmente se encontrar\u00e3o e a justi\u00e7a e a paz se beijar\u00e3o (cf. Sl 85, 11). Esta \u00e9 a b\u00ean\u00e7\u00e3o que imploramos de Deus e a tarefa que nos espera: ser construtores de comunh\u00e3o, n\u00e3o arquitetos de Babel; servos do Reino que vem, n\u00e3o senhores de torres destinadas a ruir. E, com esp\u00edrito de pastor e pai, pe\u00e7o a todos que pareis a constru\u00e7\u00e3o da en\u00e9sima Babel, congregando for\u00e7as para edificar no bem, a fim de que a humanidade nunca perca a pr\u00f3pria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no cora\u00e7\u00e3o do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO I<br \/>\nUM PENSAMENTO DIN\u00c2MICO FIEL AO EVANGELHO<br \/>\n17. Neste primeiro cap\u00edtulo, pretendo percorrer, resumidamente, o caminho atrav\u00e9s do qual a Doutrina social da Igreja tomou forma no recente Magist\u00e9rio dos Papas e do Conc\u00edlio Vaticano II, a fim de destacar o seu car\u00e1ter din\u00e2mico. Realmente, em todas as \u00e9pocas, as res novae impulsionam este ensinamento a confrontar-se com as interroga\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria \u00e0 luz da Verdade revelada. Tamb\u00e9m a intelig\u00eancia artificial, por isso, deve ser entendida n\u00e3o como um ap\u00eandice tem\u00e1tico, nem como uma emerg\u00eancia a gerir, mas como uma transforma\u00e7\u00e3o que interpela, a partir de dentro, as categorias da Doutrina social, exigindo o seu desenvolvimento na fidelidade ao Evangelho.<br \/>\n18. No entanto, este itiner\u00e1rio seria verdadeiramente incompreens\u00edvel se, antes de nos debru\u00e7armos sobre o contributo de cada um dos Pont\u00edfices e sobre os documentos mais relevantes, n\u00e3o aclar\u00e1ssemos algumas convic\u00e7\u00f5es fundamentais sobre o modo como a Igreja est\u00e1 presente na hist\u00f3ria e se relaciona com o mundo. Sem tal esclarecimento, a Doutrina social correria o risco de parecer uma inger\u00eancia indevida em quest\u00f5es temporais ou um c\u00f3digo \u00e9tico externo a ser aplicado de cima para baixo. Na realidade, ela nasce de uma Igreja que caminha com a humanidade, reconhece a autonomia das realidades terrenas e a distin\u00e7\u00e3o entre comunidade eclesial e comunidade pol\u00edtica e, precisamente por isso, aspira a servir o bem comum.<br \/>\nUma Igreja que caminha na hist\u00f3ria da humanidade<br \/>\n19. A Igreja, presente no mundo como sinal de unidade para toda a fam\u00edlia humana, reconhece nas quest\u00f5es e nos desafios do tempo atual o lugar onde deve exercer a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o \u00e0 escuta, ao di\u00e1logo e ao servi\u00e7o, deixando-se interpelar por tudo o que diz respeito \u00e0 exist\u00eancia dos homens e das mulheres de hoje. Esta interliga\u00e7\u00e3o vital com os povos faz-lhe compreender cada vez mais que a sua miss\u00e3o tem um alcance hist\u00f3rico e implica responsabilidade no que diz respeito \u00e0 maneira como se tecem as rela\u00e7\u00f5es sociais. Por isso, n\u00e3o pode considerar-se alheia \u00e0s din\u00e2micas que moldam o rosto da sociedade. Pelo contr\u00e1rio, participa com dedica\u00e7\u00e3o nos percursos atrav\u00e9s dos quais a pr\u00f3pria sociedade cresce e se organiza, e oferece o seu contributo para uma conviv\u00eancia mais justa e fraterna. O Papa Francisco recordou com veem\u00eancia esta dimens\u00e3o hist\u00f3rica da miss\u00e3o eclesial, lembrando: \u00abNingu\u00e9m pode exigir-nos que releguemos a religi\u00e3o para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influ\u00eancia na vida social e nacional, sem nos preocupar com a sa\u00fade das institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidad\u00e3os\u00bb. [9]<br \/>\n20. O chamamento e o compromisso de caminhar com a humanidade no concreto da hist\u00f3ria levam a Igreja a reconhecer que as realidades terrenas possuem consist\u00eancia e ordem pr\u00f3prias. O Conc\u00edlio Vaticano II expressou, com particular precis\u00e3o, este princ\u00edpio na Constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes, cujo 60\u00ba anivers\u00e1rio celebr\u00e1mos com grata mem\u00f3ria no passado dia 7 de dezembro de 2025: \u00abSe por autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as pr\u00f3prias sociedades t\u00eam leis e valores pr\u00f3prios [\u2026] \u00e9 perfeitamente leg\u00edtimo exigir tal autonomia\u00bb. [10] Esta afirma\u00e7\u00e3o mostra como a cria\u00e7\u00e3o traz impressa uma bondade origin\u00e1ria que o olhar humano deve guardar, cultivar e fazer amadurecer. Neste horizonte, a Igreja oferece-se como uma presen\u00e7a que ajuda a ler em profundidade a realidade, apoiando com humilde firmeza as escolhas que promovem a dignidade de cada pessoa, a coes\u00e3o das comunidades e o bem de todos. Assim, ela coloca-se ao lado do mundo sem se lhe sobrepor, para que em cada circunst\u00e2ncia humana possa germinar a promessa de justi\u00e7a e paz, que o Esp\u00edrito Santo continua a suscitar no cora\u00e7\u00e3o da humanidade.<br \/>\n21. Ao reconhecer que Deus acompanha a liberdade dos seres humanos no desenrolar da hist\u00f3ria, o Conc\u00edlio Vaticano II afirmava a distin\u00e7\u00e3o entre comunidade eclesial e comunidade pol\u00edtica, salientando como cada uma delas deve agir em completa autonomia. Logo, a presen\u00e7a da Igreja no mundo manifesta-se tamb\u00e9m na sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade civil e com as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Ao dialogar com elas, a Igreja reconhece o valor das realidades sociais e pol\u00edticas, respeitando as suas responsabilidades e apoiando tudo o que protege a vida das pessoas e o que refor\u00e7a os alicerces do tecido social. A Igreja n\u00e3o pretende assumir as fun\u00e7\u00f5es que competem ao Estado; pelo contr\u00e1rio, estima o servi\u00e7o deste ao bem comum e reconhece com convic\u00e7\u00e3o a responsabilidade que as institui\u00e7\u00f5es civis exercem na sociedade. Ao mesmo tempo, a miss\u00e3o que lhe foi confiada leva-a a n\u00e3o permanecer distante dos sofrimentos concretos dos homens e das mulheres do nosso tempo. A sua cercania n\u00e3o nasce da inten\u00e7\u00e3o de substituir as institui\u00e7\u00f5es, nem muito menos de uma cr\u00edtica impl\u00edcita \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o, mas brota da caridade evang\u00e9lica, que a impele a aproximar-se das feridas da humanidade quando se manifestam com maior gravidade. Ao intervir, f\u00e1-lo imitando o bom Samaritano, com discri\u00e7\u00e3o e proximidade, consciente de que, quanto surge duma necessidade imediata n\u00e3o pode transformar-se em norma, nem substituir as responsabilidades institucionais pr\u00f3prias da comunidade civil.<br \/>\n22. A partir desta dupla considera\u00e7\u00e3o \u2013 a autonomia das realidades terrenas e a distin\u00e7\u00e3o das compet\u00eancias entre a comunidade eclesial e a pol\u00edtica \u2013, compreende-se melhor a orienta\u00e7\u00e3o que o Conc\u00edlio Vaticano II transmitiu \u00e0 Igreja na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. A Gaudium et spes recorda que \u00e9 \u00abdever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e te\u00f3logos, com a ajuda do Esp\u00edrito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as v\u00e1rias linguagens do nosso tempo, e julg\u00e1-las \u00e0 luz da palavra de Deus, de modo que a Verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente\u00bb. [11] A escuta das \u00abv\u00e1rias linguagens\u00bb n\u00e3o \u00e9 mera aten\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, mas implica um discernimento espiritual no qual, com a ajuda do Esp\u00edrito Santo, o povo de Deus reconhece nas transforma\u00e7\u00f5es culturais e sociais tanto os sinais da presen\u00e7a de Cristo, que vem e guia a hist\u00f3ria em dire\u00e7\u00e3o ao seu cumprimento, como aqueles desvios que obscurecem o seu rosto. Deste modo, a Verdade revelada n\u00e3o \u00e9 alterada no seu n\u00facleo essencial, mas explicitada e assumida como crit\u00e9rio vivente a fim de orientar escolhas concretas, inspirar caminhos de convers\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria, promover reformas de estruturas e apoiar novos modos de testemunho evang\u00e9lico na vida p\u00fablica. Por causa disso, a hist\u00f3ria \u00e9 um dos lugares onde a Igreja se deixa instruir pelo Esp\u00edrito Santo sobre a \u00edndole humanizante do Evangelho e aprende a ajustar o seu ensinamento ao servi\u00e7o da dignidade de cada pessoa e do bem dos povos.<br \/>\nSabedoria da Palavra e di\u00e1logo com as ci\u00eancias humanas<br \/>\n23. A Igreja considera todos os que procuram sinceramente \u00aba verdade, a bondade e a beleza\u00bb como companheiros de caminho, tendo-os como \u00abpreciosos aliados\u00bb [12] na defesa da dignidade de cada pessoa e no cuidado da cria\u00e7\u00e3o. Assumindo o estilo pastoral do Conc\u00edlio Vaticano II \u2013 que convida a ouvir, discernir e interpretar os sinais dos tempos \u2013 a Igreja, iluminada pela sabedoria da Palavra, n\u00e3o teme o encontro com o saber humano. A Palavra de Deus oferece crit\u00e9rios confi\u00e1veis para orientar os caminhos da justi\u00e7a e abrir vias de reconcilia\u00e7\u00e3o e paz entre os seres humanos. Quando se trata de aplicar estes crit\u00e9rios \u00e0s complexas situa\u00e7\u00f5es do nosso tempo, revela-se essencial o contributo da filosofia e das ci\u00eancias humanas e sociais, que ajudam a compreender e a analisar mais profundamente as din\u00e2micas culturais, econ\u00f3micas e pol\u00edticas. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II recordava que a Igreja acolhe o contributo das ci\u00eancias sociais \u00abpara dele obter indica\u00e7\u00f5es concretas que a ajudem a desempenhar as suas fun\u00e7\u00f5es magisteriais\u00bb. [13] O confronto com esses conhecimentos n\u00e3o diminui a for\u00e7a do Evangelho; pelo contr\u00e1rio, permite identificar com maior lucidez o que promove realmente a vida das pessoas e das comunidades. Em continuidade com esta perspectiva, o Papa Francisco sublinhou que, em muitas quest\u00f5es espec\u00edficas, a Igreja n\u00e3o pretende oferecer \u00abuma palavra definitiva\u00bb, [14] mas reconhecer a import\u00e2ncia de ouvir a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e favorecer um interc\u00e2mbio s\u00e9rio e leal entre estudiosos, acolhendo a diversidade de opini\u00f5es.<br \/>\n24. Alimentada por este di\u00e1logo fecundo entre Evangelho e conhecimentos humanos, a Igreja aprofundou progressivamente a sua Doutrina social, fazendo amadurecer ao longo do tempo um patrim\u00f3nio de sabedoria dotado de uma coer\u00eancia teol\u00f3gica e antropol\u00f3gica enraizada na vis\u00e3o crist\u00e3 da pessoa. Precisamente porque nasce da f\u00e9 e da sua compreens\u00e3o da realidade, este patrim\u00f3nio n\u00e3o se traduz num repert\u00f3rio de solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas nem num modelo econ\u00f3mico ou pol\u00edtico a opor a outros, mas pertence a um n\u00edvel diferente: [15] o dos princ\u00edpios que orientam a leitura dos acontecimentos e fundamentam uma interpreta\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica dos processos hist\u00f3ricos e das escolhas que estes exigem. \u00c9 daqui que brota a fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da Doutrina social, que n\u00e3o pretende substituir-se \u00e0s responsabilidades da pol\u00edtica e das institui\u00e7\u00f5es, mas se oferece como apoio ao discernimento comum, ajudando a reconhecer e a promover o que serve \u00e0 dignidade das pessoas, \u00e0 vitalidade das comunidades e ao bem de todos.<br \/>\nA Doutrina social como discernimento comunit\u00e1rio<br \/>\n25. A compreens\u00e3o da verdade enquanto dom a ser partilhado, e n\u00e3o posse a ser reivindicada, liberta a Igreja da tenta\u00e7\u00e3o do saudosismo de formas de ser baseadas no poder. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II convidava a olhar com sinceridade para os tempos em que se cedeu a \u00abm\u00e9todos de intoler\u00e2ncia ou at\u00e9 mesmo de viol\u00eancia no servi\u00e7o \u00e0 verdade\u00bb, [16] para reencontrar o caminho evang\u00e9lico do an\u00fancio af\u00e1vel e da verdade que n\u00e3o deve ser imposta. Na mesma linha, reiterei que a Igreja \u00abn\u00e3o quer levantar a bandeira da posse da verdade\u00bb, [17] porque esta n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio a defender, mas um bem a partilhar. A mesma perspectiva foi resumida pelo Papa Francisco nas famosas palavras, segundo as quais \u00abo tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o\u00bb: [18] antes de mais, n\u00e3o conta ocupar espa\u00e7os de poder ou presidir a basti\u00f5es culturais, mas iniciar processos de bem e deix\u00e1-los amadurecer; assim, a verdade do Evangelho n\u00e3o se imp\u00f5e de cima, mas cresce no tempo, no entrela\u00e7ar-se concreto das vidas, das comunidades e das culturas. \u00c9 uma verdade que n\u00e3o teme a diversidade, mas a acolhe e ordena; que n\u00e3o elimina os conflitos, mas os transfigura; que recomp\u00f5e aquilo que a hist\u00f3ria tende a dispersar. Da\u00ed tamb\u00e9m a imagem do poliedro, uma figura com muitas faces, nas quais se reflete, sob diferentes \u00e2ngulos, a mesma verdade do Evangelho. [19]<br \/>\n26. Esta atitude de abertura \u00e0 verdade \u2013 \u00fanica e em simult\u00e2neo multifacetada \u2013 expressa profundamente a catolicidade da Igreja, que abra\u00e7a a inteira fam\u00edlia humana e, ao mesmo tempo, vive imersa nas condi\u00e7\u00f5es concretas dos povos e das culturas. O Conc\u00edlio Vaticano II recorda que, precisamente em virtude desta catolicidade, \u00abcada uma das partes traz \u00e0s outras e a toda a Igreja os seus dons particulares\u00bb, [20] de modo que ela, no seu conjunto e em cada comunidade espec\u00edfica, cresce gra\u00e7as a uma troca rec\u00edproca e a um esfor\u00e7o comum rumo a uma comunh\u00e3o sempre mais plena. Da\u00ed decorre que o Povo de Deus n\u00e3o \u00e9 composto apenas por muitos povos, mas \u00e9 constitu\u00eddo, no seu seio, por fun\u00e7\u00f5es, voca\u00e7\u00f5es, culturas e tradi\u00e7\u00f5es diversas, chamadas a apoiar-se e a enriquecer-se mutuamente. Nesta perspectiva, dada a grande variedade de situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, S\u00e3o Paulo VI reconhecia que n\u00e3o era realista pensar que a Doutrina social pudesse propor uma resposta \u00fanica e v\u00e1lida para todos os contextos [21] e, por isso, convidava cada comunidade crist\u00e3 a ler com lucidez e responsabilidade a realidade do seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Pertence intimamente \u00e0 vida da Igreja a tens\u00e3o fecunda entre a universalidade da miss\u00e3o e o enraizamento local: ela traz dentro de si o horizonte do mundo inteiro, assumindo as quest\u00f5es de cada contexto como o lugar concreto onde o Evangelho se faz hist\u00f3ria.<br \/>\n27. \u00c0 luz do exposto at\u00e9 agora, a Doutrina social da Igreja surge, na sua forma mais aut\u00eantica, n\u00e3o como um manual de princ\u00edpios e normas a aplicar, mas um caminho de discernimento comunit\u00e1rio. Ela nasce do encontro entre a verdade eterna do Evangelho e as quest\u00f5es da hist\u00f3ria; deixa-se interrogar pelos sinais dos tempos; nutre-se dos contributos das ci\u00eancias, das culturas e das experi\u00eancias humanas. Assim, quando a dignidade dos irm\u00e3os \u00e9 desfigurada, quando a pol\u00edtica n\u00e3o responde aos dramas da humanidade, quando a economia se volta contra a pessoa ou a ci\u00eancia ultrapassa os limites do seu m\u00e9todo, [22] a Igreja \u2013 com as outras confiss\u00f5es crist\u00e3s e os crentes de outras religi\u00f5es \u2013 deve erguer a sua voz n\u00e3o para dominar, mas para servir a comunh\u00e3o. Com esta compreens\u00e3o, a Doutrina social torna-se uma teologia da comunh\u00e3o na hist\u00f3ria; um lugar onde a Palavra, que se fez carne, continua a tornar-se di\u00e1logo, mem\u00f3ria e profecia.<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio social desde Le\u00e3o XIII aos dias de hoje<br \/>\n28. Depois de ter recordado a forma como a Igreja est\u00e1 presente na hist\u00f3ria e dialoga com o mundo, desejo agora debru\u00e7ar-me sobre o desenvolvimento da Doutrina social no Magist\u00e9rio que, desde o s\u00e9culo XIX aos nossos dias, tem acompanhado as grandes transforma\u00e7\u00f5es sociais. Evidentemente, n\u00e3o poderei dar conta de toda a riqueza deste ensinamento, cujos princ\u00edpios fundamentais s\u00e3o apresentados no Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja e aprofundados no recente Magist\u00e9rio. Nem poderei retomar de modo sistem\u00e1tico o que foi elaborado nas enc\u00edclicas dos meus \u00faltimos venerados Predecessores, em particular na Laudato si\u2019 e na Fratelli tutti. N\u00e3o obstante, pretendo recordar algumas linhas essenciais, para mostrar que quanto aqui escrevo se insere na continuidade desta tradi\u00e7\u00e3o e, simultaneamente, para evidenciar como nesta tradi\u00e7\u00e3o o n\u00facleo est\u00e1vel das verdades reveladas sobre a pessoa e a conviv\u00eancia humana se entrela\u00e7a com uma capacidade sempre renovada de ouvir as situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e de se deixar interrogar pelas perguntas que emergem do presente. Por isso, percorrerei algumas etapas decisivas deste desenvolvimento, come\u00e7ando pela etapa inaugurada com a Enc\u00edclica Rerum novarum.<br \/>\nOs Primeiros passos da Doutrina social da Igreja<br \/>\n29. Aquilo que hoje chamamos de \u201cDoutrina social da Igreja\u201d n\u00e3o surgiu de repente na era contempor\u00e2nea, mas re\u00fane e organiza uma longa tradi\u00e7\u00e3o de reflex\u00e3o eclesial sobre a vida social, cujas fontes se encontram na Sagrada Escritura, nos Padres da Igreja e nas elabora\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e jur\u00eddicas da Idade M\u00e9dia e da era moderna. A express\u00e3o \u201cDoutrina social da Igreja\u201d foi utilizada pela primeira vez por Pio XII em 1950, [23] mas o conte\u00fado que ela abrange, entendido como um corpus org\u00e2nico de ensinamentos sociais, come\u00e7ou a delinear-se com a Enc\u00edclica Rerum novarum de Le\u00e3o XIII. Perante as \u201ccoisas novas\u201d do seu tempo \u2013 o conflito entre capital e trabalho, a quest\u00e3o oper\u00e1ria, as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais \u2013, Le\u00e3o XIII n\u00e3o se limitou a notar o problema mas, assumindo essas situa\u00e7\u00f5es como lugar da miss\u00e3o pastoral da Igreja, submeteu-as a um discernimento rigoroso e esclareceu as suas causas e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es \u00e0 luz do Evangelho e duma vis\u00e3o integral da pessoa, criada \u00e0 imagem de Deus. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II viu nesta maneira de proceder um \u00abparadigma permanente\u00bb [24] da Doutrina social: uma pr\u00e1xis exemplar, atrav\u00e9s da qual a Igreja, face \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, exerce o seu direito-dever de examinar as realidades sociais, pronunciando-se sobre elas e indicando caminhos para uma solu\u00e7\u00e3o justa. Com isso, os conte\u00fados perenes da f\u00e9 e da antiga sabedoria eclesial articulam-se numa doutrina viva que, permanecendo fiel ao Evangelho, cresce no confronto com as \u201ccoisas novas\u201d de cada \u00e9poca.<br \/>\n30. A Enc\u00edclica Rerum novarum de Le\u00e3o XIII constitui um marco na evolu\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio social. O documento coloca no centro da sua reflex\u00e3o a dignidade do trabalho e do trabalhador; afirma o direito a um sal\u00e1rio justo para ele e sua fam\u00edlia; reconhece nas pessoas um valor essencial, priorit\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao capital e ao lucro; defende a propriedade privada, com a sua imprescind\u00edvel fun\u00e7\u00e3o social; valoriza as associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores e, como alternativa \u00e0 l\u00f3gica da \u201cluta de classes\u201d, prop\u00f5e formas de colabora\u00e7\u00e3o entre os diversos componentes da sociedade. N\u00e3o surpreende, portanto, que Pio XI a tenha definido como a \u00ab Magna Charta\u00bb [25] da a\u00e7\u00e3o social dos crist\u00e3os: na Rerum novarum, a antiga sabedoria da Igreja sobre a pessoa e a vida em sociedade assume uma forma nova, capaz de dialogar com a era industrial e de oferecer o primeiro grande quadro sistem\u00e1tico daquela Doutrina social que as d\u00e9cadas seguintes viriam a desenvolver ainda mais. Embora muitas das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas descritas por Le\u00e3o XIII tenham mudado, permanecem de grande atualidade pelo menos dois de seus contributos: o primado do trabalho humano sobre qualquer tipo de l\u00f3gica puramente produtiva ou financeira \u2013 com a consequente aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas e fam\u00edlias mais expostas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o \u2013, e o v\u00ednculo indissoci\u00e1vel entre o an\u00fancio evang\u00e9lico e a busca de uma ordem social mais justa. Assim, a Rerum novarum continua a recordar-nos n\u00e3o existir aut\u00eantica evangeliza\u00e7\u00e3o, caso esta n\u00e3o toque tamb\u00e9m as estruturas da conviv\u00eancia humana.<br \/>\n31. A Enc\u00edclica Quadragesimo anno de Pio XI, publicada por ocasi\u00e3o do 40\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum novarum, em 1931, e durante o \u00e1pice da grande crise econ\u00f3mica mundial, d\u00e1 mais um passo no desenvolvimento do Magist\u00e9rio social. N\u00e3o se limita a retomar a \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d, mas alarga o olhar \u00e0 configura\u00e7\u00e3o da ordem econ\u00f3mica e pol\u00edtica como um todo. Denuncia a concentra\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f3mico nas m\u00e3os de poucos; critica tanto a concorr\u00eancia sem limites como os projetos coletivistas que anulam a liberdade e a responsabilidade das pessoas; reitera com veem\u00eancia o direito de associa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e reafirma a exig\u00eancia dum sal\u00e1rio proporcional n\u00e3o s\u00f3 ao desempenho, mas \u00e0s necessidades do trabalhador e sua fam\u00edlia. Neste quadro, formula de maneira sistem\u00e1tica o princ\u00edpio de subsidiariedade, destinado a tornar-se uma das refer\u00eancias s\u00f3lidas da Doutrina social, segundo o qual aquilo que pode ser realizado por pessoas, fam\u00edlias, organismos interm\u00e9dios e comunidades locais n\u00e3o deve ser absorvido por inst\u00e2ncias superiores. A par destes contributos, Pio XI reitera com clareza a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e, atrav\u00e9s de diversas interven\u00e7\u00f5es do seu Magist\u00e9rio \u2013 desde as Enc\u00edclicas Non abbiamo bisogno e Mit brennender Sorge at\u00e9 \u00e0 Divini Redemptoris \u2013 denuncia os totalitarismos, que espezinham a dignidade da pessoa, sufocam a vida social, exaltam o Estado al\u00e9m do seu devido valor e adotam a categoria discriminat\u00f3ria da ra\u00e7a. Para o nosso tempo, permanecem particularmente atuais, pelo menos, tr\u00eas intui\u00e7\u00f5es do seu ensinamento social: a consci\u00eancia de que as injusti\u00e7as n\u00e3o dizem respeito apenas aos comportamentos individuais, mas tamb\u00e9m \u00e0s estruturas econ\u00f3micas e institucionais; o valor do princ\u00edpio de subsidiariedade, que convida a refor\u00e7ar o tecido associativo e comunit\u00e1rio, evitando novas concentra\u00e7\u00f5es de poder; e a liga\u00e7\u00e3o entre dignidade do trabalho, justa remunera\u00e7\u00e3o e possibilidade real das fam\u00edlias terem uma vida humana decorosa.<br \/>\n32. No contexto dram\u00e1tico da Segunda Guerra Mundial e dos anos da reconstru\u00e7\u00e3o, o Magist\u00e9rio de Pio XII oferece um contributo significativo para o desenvolvimento da Doutrina social, sobretudo atrav\u00e9s das Mensagens radiof\u00f3nicas de Natal, nas quais esbo\u00e7a as linhas gerais de uma ordem internacional fundada no reconhecimento da dignidade humana, na justi\u00e7a e na paz. Nestas ocasi\u00f5es, o Papa prop\u00f5e um di\u00e1logo com a sociedade a partir dum exigente apelo ao direito natural, entendido como conjunto de princ\u00edpios objetivos que precedem os interesses dos indiv\u00edduos e dos Estados e que devem regular a vida interna das na\u00e7\u00f5es e as suas rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas. Pio XII atribui ainda um papel decisivo \u00e0s associa\u00e7\u00f5es profissionais, \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e aos diversos organismos interm\u00e9dios da vida econ\u00f3mica e social, reconhecendo nestas formas organizadas da sociedade um basti\u00e3o essencial para o equil\u00edbrio civil e a tutela do bem comum. Ele defende a necessidade de um Estado de direito s\u00f3lido para prevenir abusos de poder e reconhece na democracia um instrumento capaz de promover o correto exerc\u00edcio da autoridade. Ao mesmo tempo, adverte contra as pretens\u00f5es de fundar o direito na utilidade ou na for\u00e7a, recordando que uma ordem internacional regulada segundo a vantagem dos mais fortes exp\u00f5e os povos mais fracos \u00e0 opress\u00e3o e mina, na sua base, a confian\u00e7a entre as na\u00e7\u00f5es. Por fim, identifica nos profundos desequil\u00edbrios econ\u00f3micos entre pa\u00edses um dos fatores que alimentam os conflitos. [26] Para o nosso tempo, marcado por novas formas de poder global e por desigualdades crescentes, mant\u00eam-se particularmente significativas tr\u00eas orienta\u00e7\u00f5es: a exig\u00eancia de que o direito preceda o interesse, a consci\u00eancia de que as disparidades econ\u00f3micas s\u00e3o terreno f\u00e9rtil para tens\u00f5es e viol\u00eancias, e o valor de um tecido associativo capaz de mediar a rela\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e o Estado. Estas diretivas continuam a oferecer \u00e0 Doutrina social crit\u00e9rios importantes para interpretar as din\u00e2micas da globaliza\u00e7\u00e3o e para promover uma ordem internacional mais justa e pac\u00edfica.<br \/>\nOs anos do Conc\u00edlio Vaticano II<br \/>\n33. Com S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, inicia-se uma nova etapa do Magist\u00e9rio social, marcada por uma aten\u00e7\u00e3o mais expl\u00edcita \u00e0 dimens\u00e3o mundial das quest\u00f5es sociais e \u00e0 linguagem dos direitos. Na Mater et magistra, apresenta a f\u00e9 crist\u00e3 como uma luz capaz de unir o c\u00e9u e a terra, recordando que a Igreja, embora tenha como miss\u00e3o primordial a santifica\u00e7\u00e3o e o an\u00fancio dos bens eternos, n\u00e3o pode, em raz\u00e3o disso, negligenciar as exig\u00eancias concretas da vida quotidiana das pessoas, mas deve interessar-se pelo aut\u00eantico bem humano. [27] Partindo desta vis\u00e3o unit\u00e1ria do homem, sublinha que a vida social exige um equil\u00edbrio entre a iniciativa de cidad\u00e3os e grupos \u2013 chamados a organizar-se e a colaborar \u2013 e a a\u00e7\u00e3o do Estado, que deve coordenar e sustentar, sem sufocar, a liberdade e a responsabilidade dos indiv\u00edduos; da\u00ed a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 justa remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e \u00e0s crescentes disparidades entre os pa\u00edses. Poucos anos depois, com a Pacem in terris, dirigindo-se pela primeira vez n\u00e3o s\u00f3 aos fi\u00e9is, mas a todas as pessoas de boa vontade, Jo\u00e3o XXIII associa de forma org\u00e2nica a dignidade da pessoa ao reconhecimento dos direitos e deveres fundamentais e prop\u00f5e uma ordem de conviv\u00eancia, tamb\u00e9m no plano internacional, fundada na verdade, justi\u00e7a, amor e liberdade. [28] Para o nosso tempo, marcado por conflitos generalizados e por novas formas de interdepend\u00eancia global, continuam a ser particularmente significativos: o horizonte universal do seu apelo, a refer\u00eancia aos direitos humanos como gram\u00e1tica partilhada e a convic\u00e7\u00e3o de que a paz duradoura entre os povos requer institui\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es inspiradas na dignidade de cada pessoa.<br \/>\n34. O Conc\u00edlio Vaticano II representou um momento decisivo na compreens\u00e3o que a Igreja tem de si mesma no mundo contempor\u00e2neo. Na Constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes, apresentou-nos a imagem de uma Igreja que se aproxima da humanidade, comprometida com o mundo e determinada a refletir n\u00e3o sobre esquemas abstratos, mas a partir das situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas concretas. O texto aborda as grandes quest\u00f5es do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia, da vida econ\u00f3mica e social, da comunidade pol\u00edtica, da guerra e da paz, insistindo na ideia de que as estruturas econ\u00f3micas e institucionais s\u00f3 s\u00e3o justas na medida em que servem o desenvolvimento integral da pessoa e favorecem a participa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel de todos. [29] A import\u00e2ncia deste documento conciliar para a Doutrina social da Igreja reside n\u00e3o s\u00f3 na abertura de perspectivas de reflex\u00e3o tem\u00e1tica, mas tamb\u00e9m no proporcionar um m\u00e9todo de discernimento que convida a ler as transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas com olhar evang\u00e9lico e compet\u00eancia humana. Este estilo mostra que, para a Igreja, o di\u00e1logo com o mundo n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o t\u00e1tica, mas uma forma concreta da sua miss\u00e3o, pois o Evangelho, como fermento, pode transformar desde dentro as estruturas da conviv\u00eancia e abrir caminhos para uma maior humanidade. Neste horizonte, insere-se tamb\u00e9m a Declara\u00e7\u00e3o Dignitatis humanae, na qual o Conc\u00edlio reconhece a liberdade religiosa como um direito fundamental, radicado na dignidade da pessoa, a ser garantido pelo ordenamento jur\u00eddico, para que ningu\u00e9m seja obrigado a agir contra a consci\u00eancia ou impedido de buscar e professar a verdade, em privado e em p\u00fablico. [30] Este princ\u00edpio, de grande relev\u00e2ncia para o nosso tempo, continua a oferecer \u00e0 Doutrina social crit\u00e9rios decisivos para a tutela da pessoa e para a constru\u00e7\u00e3o de sociedades pluralistas e pac\u00edficas.<br \/>\n35. No Pontificado de S\u00e3o Paulo VI, surge uma compreens\u00e3o da paz que n\u00e3o se reduz \u00e0 aus\u00eancia de guerras, mas se concretiza no caminho do desenvolvimento humano integral. Na Populorum progressio, o Papa descreve o desenvolvimento como a passagem de condi\u00e7\u00f5es de vida menos humanas a condi\u00e7\u00f5es mais humanas, entendendo-o como um processo que diz respeito a \u00abtodos os homens e [ao] homem todo\u00bb, [31] ou seja, a todas as dimens\u00f5es da pessoa e a todos os povos, sem exclus\u00f5es. Sobre esta premissa, Paulo VI p\u00f4de afirmar que um desenvolvimento assim concebido \u00e9, na realidade, \u00abo novo nome da paz\u00bb, [32] porque visa eliminar as ra\u00edzes da injusti\u00e7a e do conflito, abrindo espa\u00e7os a uma vida mais digna para todos. Tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o Iustitia et Pax deve ser interpretada nesta \u00f3tica: como uma tentativa de dar, a n\u00edvel eclesial e internacional, uma forma est\u00e1vel a esta intui\u00e7\u00e3o, alertando a consci\u00eancia para o crescente fosso entre pa\u00edses ricos e pobres e para a necessidade de pol\u00edticas que promovam condi\u00e7\u00f5es de vida realmente mais humanas para todos.<br \/>\n36. Com a Octogesima adveniens, publicada por ocasi\u00e3o do 80\u00ba anivers\u00e1rio da Rerum novarum, Paulo VI leva essa perspectiva para dentro da sociedade p\u00f3s-industrial, marcada por altera\u00e7\u00f5es urbanas, novas formas de pobreza, mudan\u00e7as no mundo do trabalho e r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es culturais que p\u00f5em em xeque o futuro das pessoas e das comunidades. Para Paulo VI, o Evangelho, apesar de ter sido anunciado, escrito e vivido num contexto hist\u00f3rico-cultural muito diferente do nosso, n\u00e3o \u00e9 uma mensagem \u201cultrapassada\u201d, mas uma vis\u00e3o da pessoa humana, das rela\u00e7\u00f5es, da autoridade e do bem comum capaz de orientar, tamb\u00e9m hoje, as escolhas econ\u00f3micas, pol\u00edticas e culturais. [33] Por outras palavras, o Evangelho permanece atual porque, em situa\u00e7\u00f5es sempre novas, fornece os crit\u00e9rios para reconhecer o que humaniza ou desumaniza, o que liberta ou oprime. O legado mais exigente de Paulo VI para a Doutrina social da Igreja \u00e9 precisamente este: enquanto no mundo existirem povos exclu\u00eddos dum desenvolvimento digno do ser humano, a comunidade crist\u00e3 n\u00e3o poder\u00e1 conformar-se em proclamar a paz de forma abstrata, mas dever\u00e1 deixar que o Evangelho, partindo daqueles que permanecem \u00e0 margem, avalie as estruturas econ\u00f3micas e pol\u00edticas que, como viria a recordar Jo\u00e3o Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e pr\u00f3prias \u00abestruturas de pecado\u00bb, [34] para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescind\u00edveis nos processos de desenvolvimento.<br \/>\nO Magist\u00e9rio recente<br \/>\n37. O fecundo Magist\u00e9rio social de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II situa-se na conflu\u00eancia entre a crise dos grandes sistemas ideol\u00f3gicos do s\u00e9culo XX e o in\u00edcio da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Na Enc\u00edclica Laborem exercens, redigida noventa anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Rerum novarum, ele inaugura uma nova modalidade de reflex\u00e3o sobre o trabalho. O sal\u00e1rio justo \u00e9 a\u00ed apresentado como uma prova concreta da equidade de todo o sistema socioecon\u00f3mico, na medida em que revela se o trabalhador \u00e9 tratado como pessoa ou como mero custo de produ\u00e7\u00e3o. [35] O trabalho n\u00e3o \u00e9 considerado apenas um problema a gerir ou um meio para obter rendimento, mas um bem fundamental para a pessoa, princ\u00edpio da atividade econ\u00f3mica e chave da inteira quest\u00e3o social. Nele, o ser humano coloca em jogo a sua liberdade, criatividade e capacidade de cooperar, contribuindo para a eleva\u00e7\u00e3o cultural e moral da sociedade. [36] \u00c0 luz disto, as v\u00e1rias formas de precariedade, fragmenta\u00e7\u00e3o dos percursos profissionais e automatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser avaliadas apenas em termos de efici\u00eancia, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remunera\u00e7\u00e3o suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social.<br \/>\n38. No 20\u00ba anivers\u00e1rio da Populorum progressio, com a enc\u00edclica Sollicitudo rei socialis, Jo\u00e3o Paulo II volta a tratar da chaga do subdesenvolvimento e reconhece o fracasso das muitas tentativas de sanar o atraso econ\u00f3mico dos povos pobres e de acompanhar a sua industrializa\u00e7\u00e3o, constatando a persist\u00eancia do fosso entre o Norte e o Sul do mundo e, por vezes, o seu alargamento. [37] Denuncia ainda os mecanismos econ\u00f3micos, financeiros e comerciais que, geridos pelos pa\u00edses mais fortes, favorecem estruturalmente os seus interesses e sufocam as economias mais fracas, pedindo que sejam submetidos a um s\u00e9rio julgamento \u00e9tico, e n\u00e3o meramente t\u00e9cnico. [38] Neste contexto, a solidariedade \u00e9 entendida como uma corresponsabilidade concreta entre pessoas, povos e na\u00e7\u00f5es, uma forma de amizade social ou caridade pol\u00edtica orientada para a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d invocada por Paulo VI. [39]<br \/>\n39. Por fim, no centen\u00e1rio da Rerum novarum, a Enc\u00edclica Centesimus annus oferece um discernimento sobre o colapso do sistema sovi\u00e9tico e sobre o afirmar-se da democracia e da economia de mercado. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II retoma a mensagem de Pio XII segundo a qual a Igreja pode apreciar a democracia na medida em que esta garantir a participa\u00e7\u00e3o efetiva dos cidad\u00e3os, permitir escolher e substituir pacificamente os governantes e impedir que o poder seja monopolizado por um pequeno grupo de elites, movidas por interesses particulares ou ideol\u00f3gicos. [40] Da mesma forma, reconhece o potencial positivo do mercado e da iniciativa privada, apenas se permanecerem subordinados \u00e0 lei moral e orientados pelo princ\u00edpio de solidariedade, sem sacrificar os mais fracos \u00e0 l\u00f3gica do lucro. [41] Para a Doutrina social da Igreja, mant\u00e9m-se assim uma heran\u00e7a particularmente atual: a afirma\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo entre dignidade do trabalho, solidariedade entre os povos e avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da democracia e da economia de mercado, continua a oferecer crit\u00e9rios para julgar as novas formas de explora\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o e crise da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\n40. O Papa Bento XVI, na sua Enc\u00edclica social Caritas in veritate, quis retomar e aprofundar o conceito de desenvolvimento apresentado na Populorum progressio, reinterpretando-o no contexto da globaliza\u00e7\u00e3o. Ele lembra que tal desenvolvimento deveria traduzir-se num \u00abcrescimento real, extensivo a todos e concretamente sustent\u00e1vel\u00bb, [42] ou seja, num progresso econ\u00f3mico verdadeiramente inclusivo e respeitoso dos limites da cria\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, constata que nos pa\u00edses ricos se formam novas categorias de pobres e se multiplicam formas in\u00e9ditas de exclus\u00e3o, enquanto nas regi\u00f5es mais carentes, pequenos grupos vivem num bem-estar consumista que coexiste com situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria desumanizante. [43] Observa, al\u00e9m disso, que o novo sistema econ\u00f3mico-financeiro global, marcado por uma grande mobilidade de capitais e de meios de produ\u00e7\u00e3o, redimensionou o poder pol\u00edtico dos Estados e a sua capacidade de orientar os processos econ\u00f3micos. [44] Por isso, reitera que a atividade econ\u00f3mica n\u00e3o pode pretender resolver os problemas sociais ampliando simplesmente a l\u00f3gica do mercado, mas deve estar ordenada ao bem comum, pelo qual a comunidade pol\u00edtica assume uma responsabilidade pr\u00f3pria e insubstitu\u00edvel. [45]<br \/>\n41. Bento XVI coloca a caridade no centro desta releitura, afirmando que ela \u00ab\u00e9 a via mestra da Doutrina social da Igreja\u00bb, [46] desde que esteja sempre unida \u00e0 verdade; e observa com preocupa\u00e7\u00e3o que, precisamente no \u00e2mbito social, jur\u00eddico, pol\u00edtico e econ\u00f3mico, se tende a declar\u00e1-la moralmente irrelevante. A novidade do seu contributo reside em mostrar que o desenvolvimento, a justi\u00e7a, as institui\u00e7\u00f5es e o mercado n\u00e3o s\u00e3o realidades neutras, mas espa\u00e7os onde a caridade na verdade deve assumir uma forma hist\u00f3rica. Para o tempo presente, caracterizado por desigualdades crescentes, press\u00e3o dos mercados financeiros, crise ambiental e desconfian\u00e7a na pol\u00edtica, este ensinamento mant\u00e9m-se atual porque exige que se julgue cada modelo de desenvolvimento com base na sua capacidade de ser inclusivo e sustent\u00e1vel, de recompor a rela\u00e7\u00e3o entre economia e pol\u00edtica em torno do bem comum e de reconhecer \u00e0 caridade um papel cr\u00edtico e fecundo na vida p\u00fablica.<br \/>\n42. O Magist\u00e9rio social do Papa Francisco desenvolve-se na linha da Gaudium et spes, que convida a olhar para a hist\u00f3ria a partir das feridas e das esperan\u00e7as das pessoas, colocando-as em di\u00e1logo com o Evangelho. Esta orienta\u00e7\u00e3o aparece com particular clareza na Evangelii gaudium, onde se afirma que o an\u00fancio crist\u00e3o tem uma dimens\u00e3o social intr\u00ednseca e se invoca uma Igreja capaz de ouvir o clamor dos pobres, dos migrantes e das v\u00edtimas das novas formas de escravatura. Nessa perspectiva, insere-se tamb\u00e9m a insist\u00eancia de Francisco numa Igreja sinodal, uma Igreja que \u201ccaminha em conjunto\u201d, que procura ler os sinais dos tempos \u00e0 luz do Evangelho e se deixa evangelizar pelos pobres com quem partilha a hist\u00f3ria. [47]<br \/>\n43. Na Enc\u00edclica social Laudato si\u2019, Francisco prop\u00f5e a primeira grande elabora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da crise ambiental, demonstrando que esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o setorial, mas sim o aspecto ecol\u00f3gico da crise socioecon\u00f3mica contempor\u00e2nea. A sua proposta de ecologia integral relaciona o cuidado da Casa comum e a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, afirmando com veem\u00eancia que n\u00e3o podem ser separados \u00abtanto o clamor da terra como o clamor dos pobres\u00bb. [48] \u00c0 luz disto, tornam-se novamente priorit\u00e1rios a destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, a cr\u00edtica a um paradigma tecnocr\u00e1tico que pretende reduzir tudo a objeto de dom\u00ednio, a defesa do trabalho humano amea\u00e7ado pela l\u00f3gica do descarte, a exig\u00eancia de uma justi\u00e7a entre gera\u00e7\u00f5es e o apelo a um verdadeiro di\u00e1logo da pol\u00edtica com a economia, para que nenhuma das duas se feche na pr\u00f3pria autorreferencialidade.<br \/>\n44. Diante da desagrega\u00e7\u00e3o do tecido social, da \u201cguerra mundial em peda\u00e7os\u201d, da globaliza\u00e7\u00e3o individualista e das consequ\u00eancias da pandemia sobre os la\u00e7os comunit\u00e1rios, Francisco relan\u00e7a na Fratelli tutti o sonho de uma humanidade que opte pela amizade social e pela fraternidade universal. Prop\u00f5e a cultura do encontro, uma \u201cpol\u00edtica melhor\u201d capaz de buscar o bem comum, caminhos de reconcilia\u00e7\u00e3o e um mundo que garanta \u00abterra, teto e trabalho para todos\u00bb. [49] Por fim, com a Dilexit nos, mostra que estes grandes compromissos sociais n\u00e3o s\u00e3o separ\u00e1veis da rela\u00e7\u00e3o pessoal com Cristo: baseando-se na Palavra de Deus, recorda que a resposta mais verdadeira ao amor do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 o amor concreto pelos irm\u00e3os e afirma que \u00abn\u00e3o h\u00e1 maior gesto que possamos oferecer-lhe para retribuir amor por amor\u00bb. [50]<br \/>\nUma leitura da hist\u00f3ria \u00e0 luz da f\u00e9<br \/>\n45. Ao considerar este percurso na sua totalidade, compreende-se que a Doutrina social da Igreja n\u00e3o \u00e9 fruto de um projeto de gabinete, mas o resultado de um processo paciente, no qual os Papas \u2013 com o Conc\u00edlio Vaticano II \u2013 deram um contributo original \u00e0 luz das \u201ccoisas novas\u201d do seu tempo. Cada um, captando os desafios da sua \u00e9poca e interpretando as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas a partir do Evangelho, fez emergir diferentes aspectos de um \u00fanico patrim\u00f3nio: a dignidade da pessoa, o valor do trabalho, a destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, a solidariedade e a subsidiariedade, o cuidado da cria\u00e7\u00e3o, a centralidade da paz e da fraternidade. Daqui resulta um desenvolvimento harmonioso, nem sempre linear, assinalado por diferentes \u00eanfases, aprofundamentos progressivos e, \u00e0s vezes, mudan\u00e7as de ponto de vista que n\u00e3o rompem com o que as precede, mas fazem amadurecer as suas implica\u00e7\u00f5es. Se hoje podemos falar de um corpus de princ\u00edpios e crit\u00e9rios partilhados, \u00e9 porque esta leitura da hist\u00f3ria \u00e0 luz da f\u00e9 nunca foi interrompida e soube deixar-se provocar pelas quest\u00f5es de cada gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 a este n\u00facleo essencial \u2013 os grandes princ\u00edpios da Doutrina social orientadores do discernimento dos crist\u00e3os na vida pessoal e p\u00fablica \u2013 que desejo agora dirigir a aten\u00e7\u00e3o, a fim de compreender melhor a sua coer\u00eancia interna e a sua fecunda for\u00e7a para o nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO II<br \/>\nFUNDAMENTOS E PRINC\u00cdPIOS DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA<br \/>\n46. A Doutrina social da Igreja \u00e9 uma realidade viva, em di\u00e1logo com a hist\u00f3ria, as culturas e as ci\u00eancias. Ao mesmo tempo, guarda um n\u00facleo de verdades que n\u00e3o declina. Pode ser considerada, portanto, uma forma de sabedoria capaz de orientar, ainda, a vida pessoal e social dos fi\u00e9is. Neste segundo cap\u00edtulo, desejo deter-me em alguns fundamentos e princ\u00edpios da Doutrina social que ajudam a interpretar as \u201ccoisas novas\u201d do nosso tempo \u00e0 luz da dignidade fundamental da pessoa humana. Considero que hoje, para salvaguardar a pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial, devemos voltar a refletir sobre o bem comum, a destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justi\u00e7a social. Estou convencido de que a rela\u00e7\u00e3o harmoniosa entre estes princ\u00edpios exige que sejam considerados no seu conjunto, para que se torne claro o modo como se complementam e iluminam mutuamente.<br \/>\n47. Ao propor estas reflex\u00f5es, desejo, em primeiro lugar, ajudar os fi\u00e9is leigos, bem como os demais homens e mulheres de boa vontade, a redescobrir a sua tarefa de levar ao quotidiano, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es familiares, ao trabalho e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o social, os princ\u00edpios que pretendo recordar, deixando-se animar pela inten\u00e7\u00e3o de encarnar o amor de Deus na trama concreta da hist\u00f3ria. Gostaria, ao mesmo tempo, de encorajar as universidades e institui\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas a dar novo impulso a estes princ\u00edpios, repensando-os em conformidade com os nossos dias para se enfrentar eficazmente a revolu\u00e7\u00e3o digital. Desta forma, a investiga\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e filos\u00f3fica poder\u00e1 aprofundar e apoiar o caminho pastoral da Igreja, colaborando com o Magist\u00e9rio na tarefa de iluminar a consci\u00eancia dos fi\u00e9is e orientar o seu empenho em tornar a vida das nossas sociedades mais justa e fraterna.<br \/>\nFundamentos da Doutrina social<br \/>\nO ser humano, imagem do Deus trinit\u00e1rio<br \/>\n48. A Doutrina social da Igreja remete-nos ao n\u00facleo central da nossa f\u00e9: o mist\u00e9rio do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo como comunh\u00e3o de Pessoas, Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo, amor em rela\u00e7\u00e3o, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo. [51] Como recorda o Conc\u00edlio, o ser humano \u00e9 chamado \u00e0 comunh\u00e3o com Deus e \u00abn\u00e3o se pode encontrar plenamente a n\u00e3o ser no sincero dom de si mesmo\u00bb: [52] a sua voca\u00e7\u00e3o mais profunda \u00e9 entrar no movimento trinit\u00e1rio do amor recebido e partilhado.<br \/>\n49. Se o mist\u00e9rio de Deus-Amor \u00e9 a fonte da Doutrina social, o seu rosto mais concreto contemplamo-lo em Jesus Cristo, Verbo encarnado. Fazendo-se homem, o Filho de Deus entra na nossa hist\u00f3ria e na nossa carne, a estas trazendo o amor que O une ao Pai e ao Esp\u00edrito Santo. N\u2019Ele \u00abo mist\u00e9rio do homem [\u2026] se esclarece verdadeiramente\u00bb, [53] porque a sua humanidade \u00e9 plenamente livre, aberta aos outros, capaz de construir rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias e belas, comprometida com o dom total de si mesmo. Quem acredita n\u2019Ele est\u00e1 envolvido na grande obra de renova\u00e7\u00e3o inaugurada pelo mist\u00e9rio da sua paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, e coopera na edifica\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, aprendendo a acolher cada mulher e homem como irm\u00e3 e irm\u00e3o, filhos dum \u00fanico Pai. Deste modo, tanto o an\u00fancio como a experi\u00eancia crist\u00e3, guiados pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, tendem a gerar no mundo consequ\u00eancias sociais. [54]<br \/>\n50. No centro da vis\u00e3o crist\u00e3 do ser humano est\u00e1 a grande afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual o homem e a mulher s\u00e3o criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Deus trinit\u00e1rio (cf. Gn 1, 26-27). Cada pessoa, constitutivamente feita para a rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 pensada e desejada por Deus para entrar numa hist\u00f3ria de comunh\u00e3o com Ele, com os outros e com a cria\u00e7\u00e3o. A sua dignidade n\u00e3o depende das capacidades que possui, das riquezas ou da fun\u00e7\u00e3o que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas \u00e9 um dom que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como express\u00e3o do seu amor que nunca falha. Por isso, a pessoa humana permanece sempre \u00aba via da Igreja\u00bb [55] e o cora\u00e7\u00e3o de todo o caminho aut\u00eantico de desenvolvimento humano integral. [56]<br \/>\nA igual dignidade de todos os seres humanos<br \/>\n51. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II declarou que \u00abo sentido mais agudo da dignidade e da unicidade da pessoa humana, bem como do respeito devido ao caminho da consci\u00eancia, constitui certamente uma conquista positiva da cultura moderna\u00bb. [57] Esta afirma\u00e7\u00e3o insere-se na linha tra\u00e7ada pelo Conc\u00edlio Vaticano II, que constatara um aumento do reconhecimento da elevada dignidade de cada pessoa, o seu valor superior ao das coisas, e os seus direitos e deveres universais e inviol\u00e1veis. [58] \u00c9 importante vigiar para que este incremento na compreens\u00e3o da dignidade humana n\u00e3o seja ofuscado pela press\u00e3o de novas ideologias ou de determinados interesses muito poderosos no mundo de hoje. Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o pr\u00f3prio valor, a ponto de atribuir maior m\u00e9rito \u00e0queles que s\u00e3o mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspectiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentaliz\u00e1vel. O valor da pessoa, no entanto, n\u00e3o depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos simplesmente por serem pessoas. [59] Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar.<br \/>\n52. Quando falamos de dignidade, nem sempre empregamos a palavra da mesma forma: por vezes, referimo-nos \u00e0 dignidade moral, ou seja, \u00e0 forma como uma pessoa orienta as suas escolhas e a\u00e7\u00f5es; outras vezes, pensamos na dignidade social, ou seja, nas condi\u00e7\u00f5es de vida da pessoa e no respeito concreto que lhe \u00e9 reconhecido pela sociedade; noutros casos ainda, referimo-nos \u00e0 dignidade existencial, ou seja, \u00e0 forma como uma pessoa percebe o valor de si mesma e da pr\u00f3pria vida. Estas dimens\u00f5es da dignidade podem aumentar ou diminuir. No entanto, al\u00e9m destes significados, existe um n\u00edvel mais profundo \u2013 o mais importante \u2013 que consiste na dignidade ontol\u00f3gica. \u00c9 a dignidade que pertence a cada ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus: [60] nenhum pecado, nenhum fracasso, nenhuma humilha\u00e7\u00e3o, nenhuma exclus\u00e3o pode afetar o valor profundo de uma vida humana que Ele desejou e chamou \u00e0 exist\u00eancia. [61]<br \/>\n53. A dignidade fundamental de cada pessoa, portanto, n\u00e3o se adquire nem se merece, nem precisa de ser demonstrada. A recente Declara\u00e7\u00e3o Dignitas infinita apresentou uma s\u00edntese das convic\u00e7\u00f5es da Igreja sobre este tema: \u00abUma dignidade infinita, inalienavelmente fundada no seu pr\u00f3prio ser, \u00e9 inerente a cada pessoa humana, para al\u00e9m de toda circunst\u00e2ncia e em qualquer estado ou situa\u00e7\u00e3o se encontre\u00bb, [62] ou seja, inelud\u00edvel e permanentemente. Como afirmou S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, [63] a dignidade de cada ser humano pode dizer-se infinita por duas raz\u00f5es: porque \u00e9 infinito o amor de Deus que o chama \u00e0 amizade com Ele, e porque \u00e9 absolutamente incondicional, no sentido de que nunca se encontrar\u00e1 nada, ainda que se procure incessantemente, capaz de apag\u00e1-la ou neg\u00e1-la.<br \/>\nO alt\u00edssimo valor dos direitos humanos<br \/>\n54. A Igreja reconhece com gratid\u00e3o que \u00abo movimento rumo \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o dos direitos do homem \u00e9 um dos mais relevantes esfor\u00e7os para responder de modo eficaz \u00e0s exig\u00eancias imprescind\u00edveis da dignidade humana\u00bb. [64] E, como afirmou Jo\u00e3o Paulo II, a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem, proclamada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas a 10 de dezembro de 1948, continua a ser, nos nossos dias, \u00abuma das mais excelsas express\u00f5es da consci\u00eancia humana\u00bb. [65] Ela \u00e9 \u00abuma pedra mili\u00e1ria no caminho do progresso moral da humanidade\u00bb. [66] Por isso, na perspectiva crist\u00e3, os direitos humanos n\u00e3o s\u00e3o um acr\u00e9scimo externo \u00e0 pessoa, mas uma tradu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da sua dignidade intr\u00ednseca, que a comunidade internacional \u00e9 chamada a proteger e promover.<br \/>\n55. Os direitos humanos s\u00e3o inviol\u00e1veis, por serem \u00abinerentes \u00e0 pessoa humana e \u00e0 sua dignidade\u00bb. [67] Por conseguinte, s\u00e3o universais e inalien\u00e1veis. [68] Precisamente porque se baseiam na igual dignidade de cada homem e de cada mulher, t\u00eam consequ\u00eancias pr\u00e1ticas e efeitos jur\u00eddicos, pois \u00abv\u00e3 seria a proclama\u00e7\u00e3o de direitos se n\u00e3o se pusesse em pr\u00e1tica, ao mesmo tempo, tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para garantir o dever de os respeitar, por todos, em todo o lado e para todos\u00bb. [69] Entre estes, o primeiro direito humano \u00e9 o direito \u00e0 vida, desde a concep\u00e7\u00e3o ao seu fim natural, [70] sem o qual \u00e9 imposs\u00edvel exercer qualquer outro direito. Quando este direito fundamental \u00e9 negado, como acontece no aborto provocado, no assassinato de inocentes e na eutan\u00e1sia, deparamo-nos com escolhas que a Igreja considera gravemente il\u00edcitas. [71]<br \/>\n56. Ao olhar para o nosso tempo, n\u00e3o podemos ignorar que a tutela dos direitos humanos est\u00e1 hoje exposta a dois riscos particularmente graves. O primeiro \u00e9 o de uma declara\u00e7\u00e3o meramente formal dos mesmos, enquanto, a par do progresso tecnol\u00f3gico, se viola de modo velado ou manifesto a dignidade humana. O segundo, que na realidade est\u00e1 na base do primeiro, \u00e9 o de n\u00e3o ser j\u00e1 poss\u00edvel reconhecer o fundamento da sua universalidade, porque se renunciou \u00e0 \u00abbusca dos fundamentos mais s\u00f3lidos que est\u00e3o na base das nossas op\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m das nossas leis\u00bb. [72] O Papa Francisco convidava a n\u00e3o subvalorizar este \u00faltimo problema. Recordava que, quando a raz\u00e3o se deixa interpelar seriamente a respeito da natureza humana, \u00e9 capaz de descobrir valores que importam para todos, porque derivam dela. Se este trabalho de busca fosse abandonado, poderia acontecer que direitos, hoje considerados intoc\u00e1veis, acabassem por ser, no futuro, postos em causa ou negados por quem det\u00e9m o poder, talvez depois de ter obtido um consenso apenas aparente por parte de popula\u00e7\u00f5es atemorizadas ou manipuladas. [73]<br \/>\n57. Com uma maior consci\u00eancia do valor de cada pessoa humana e dos seus direitos, cresceu tamb\u00e9m o reconhecimento dos direitos das minorias. Ainda h\u00e1, no entanto, um longo caminho a percorrer para, em todo o mundo, serem realmente garantidos de igual forma os direitos duma grande parte, ou seja, os das mulheres. \u00c9 um dado concreto que \u00abduplamente pobres s\u00e3o as mulheres que padecem situa\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, maus-tratos e viol\u00eancia, porque frequentemente t\u00eam menores possibilidades de defender os seus direitos\u00bb. [74] Portanto, n\u00e3o basta afirmar com palavras que homens e mulheres t\u00eam a mesma dignidade e os mesmos direitos; \u00e9 necess\u00e1rio que isto se traduza em escolhas concretas, em leis, no acesso ao trabalho, \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, \u00e0s responsabilidades sociais e pol\u00edticas, na forma como a sociedade escuta e valoriza o contributo das mulheres. Enquanto persistir esta disparidade, n\u00e3o poderemos afirmar que a sociedade reconhece \u00e0s mulheres, verdadeira e plenamente, a mesma dignidade dos homens.<br \/>\n58. S\u00e3o as pessoas concretas que contam: cada uma delas e as suas fam\u00edlias. Os movimentos sociais, as grandes declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas a favor do povo e as ideologias comunit\u00e1rias n\u00e3o servem para nada se n\u00e3o se orientarem \u00e0 promo\u00e7\u00e3o das pessoas \u2013 homens e mulheres \u2013 com os seus direitos inalien\u00e1veis. Da mesma forma, n\u00e3o basta exaltar a liberdade individual ou a iniciativa privada, se depois se aceita que uma multid\u00e3o de pessoas continue a viver sem um trabalho digno, sem direitos tutelados, sem acesso aos bens fundamentais.<br \/>\nPrinc\u00edpios da Doutrina social<br \/>\nO princ\u00edpio do bem comum<br \/>\n59. Reconhecer que cada mulher e cada homem possuem em si mesmos uma dignidade inalien\u00e1vel e direitos que nenhum poder humano deve ferir ou eliminar exige que se reconfigure o modo como vivemos juntos, as nossas escolhas econ\u00f3micas e pol\u00edticas, o rosto concreto das nossas cidades. Daqui nasce o primeiro grande princ\u00edpio da Doutrina social que desejo recordar: o bem comum. Podemos descrev\u00ea-lo como a forma social da dignidade reconhecida a cada um. Quando Bento XVI se referiu aos valores n\u00e3o negoci\u00e1veis que a Igreja deve sempre defender, incluiu entre estes \u00aba promo\u00e7\u00e3o do bem comum\u00bb. [75] Com efeito, para um crist\u00e3o, sair do pequeno mundo dos pr\u00f3prios interesses e empenhar-se, na medida das suas possibilidades, pelo bem comum \u00e9 um valor n\u00e3o negoci\u00e1vel, tal como o \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o da vida.<br \/>\n60. O Conc\u00edlio Vaticano II afirmou que o bem comum consiste no \u00abconjunto das condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcan\u00e7ar mais plena e facilmente a pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o\u00bb. [76] Esta defini\u00e7\u00e3o oferece-nos uma primeira orienta\u00e7\u00e3o preciosa, pois o bem comum n\u00e3o se deixa reduzir a uma simples lista de condi\u00e7\u00f5es ou institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o coincide com a soma dos benef\u00edcios dos indiv\u00edduos, nem com o entrecruzar-se dos seus interesses particulares; \u00e9 um bem maior, que pertence a todos, e s\u00f3 em conjunto se pode construir, aumentar e salvaguardar. Podemos dizer que a a\u00e7\u00e3o social atinge a sua plenitude quando tende para este bem partilhado, assim como a a\u00e7\u00e3o moral da pessoa se cumpre na escolha do verdadeiro bem. [77]<br \/>\n61. Neste sentido, podemos afirmar que \u00abo todo \u00e9 mais do que a parte\u00bb [78] e que, precisamente por isso, \u00aba mera soma dos interesses individuais n\u00e3o \u00e9 capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade\u00bb. [79] \u00c9 uma ilus\u00e3o pensar que para contribuir ao bem de todos basta procurar o pr\u00f3prio progresso, sem ter de se preocupar realmente com os outros. Esta vis\u00e3o ignora o valor peculiar do bem comum: ele \u00e9 fruto da \u00abinterdepend\u00eancia\u00bb [80] geradora duma rede de bem social que se difunde e repercute na vida das pessoas. O bem comum \u00e9 um plus, resultado da intera\u00e7\u00e3o e da influ\u00eancia rec\u00edproca que liga diversas a\u00e7\u00f5es, iniciativas, esfor\u00e7os e decis\u00f5es. A simples soma dos bens individuais n\u00e3o poderia explicar a exist\u00eancia deste plus que os ultrapassa e, ao mesmo tempo, os enriquece.<br \/>\n62. \u00c9 a busca do bem comum que d\u00e1 vida a um povo, compreendido n\u00e3o como mera soma de indiv\u00edduos, mas como realidade viva na qual as pessoas aprendem a reconhecer-se interligadas e correspons\u00e1veis pela res publica. Neste sentido, cada pessoa contribui para construir o pr\u00f3prio povo com \u00abum trabalho lento e \u00e1rduo que exige querer integrar-se e aprender a faz\u00ea-lo at\u00e9 se desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia pluriforme\u00bb. [81] Trabalhar em conjunto na busca do bem de todos significa ter um projeto partilhado. \u00c9 evidente que, dada a diversidade de pessoas, existem muitas diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas e pragm\u00e1ticas, interesses variados e contrastes frequentes, mas isso n\u00e3o impossibilita um percurso de di\u00e1logo configurador duma base de consensos que permita constituir um projeto para todos e caminhar juntos.<br \/>\n63. Cabe ao Estado a tarefa de garantir a coes\u00e3o, a unidade e a organiza\u00e7\u00e3o justa da sociedade civil, para que o bem comum possa ser realmente alcan\u00e7ado com a contribui\u00e7\u00e3o de todos. Em concreto, isto significa que o poder p\u00fablico tem a delicada tarefa de \u00abharmonizar com justi\u00e7a\u00bb [82] os diversos interesses em jogo, procurando um equil\u00edbrio entre os bens particulares e os bens da coletividade, sem deixar para tr\u00e1s os mais fracos. Quando a pol\u00edtica renuncia a uma vis\u00e3o a longo prazo, reduzindo-se a c\u00e1lculos de curto alcance ou a est\u00e9reis polariza\u00e7\u00f5es, os discursos sobre o bem comum perdem credibilidade e crescem, ao mesmo tempo, desigualdades e fraturas sociais.<br \/>\n64. Isto aplica-se igualmente \u00e0 pol\u00edtica internacional. \u00c0 medida que aumentam as dist\u00e2ncias entre os povos, v\u00e3o ganhando terreno l\u00f3gicas de contraposi\u00e7\u00e3o e agressividade, e o \u00e1rduo itiner\u00e1rio para um mundo mais unido e fraterno sofre novos e dolorosos reveses. Falar, neste contexto, dum caminho partilhado rumo a um desenvolvimento mais justo para toda a fam\u00edlia humana \u00absoa como um del\u00edrio\u00bb. [83] Por\u00e9m, n\u00e3o podemos perder a esperan\u00e7a. Convido todos a refletir sobre formas de coopera\u00e7\u00e3o e sobre institui\u00e7\u00f5es internacionais mais eficazes, capazes de salvaguardar o bem comum global sem anular a leg\u00edtima pluralidade dos povos e dos Estados. Com efeito, a promo\u00e7\u00e3o do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir, a salvaguardar a sua identidade e a contribuir com a pr\u00f3pria originalidade para a fam\u00edlia das na\u00e7\u00f5es. [84] Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 gravemente imoral e, por isso, inaceit\u00e1vel.<br \/>\nO princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens<br \/>\n65. \u00abDentre as mult\u00edplices implica\u00e7\u00f5es do bem comum, assume particular import\u00e2ncia o princ\u00edpio da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens\u00bb. [85] Este princ\u00edpio recorda-nos, em primeiro lugar, que os bens da terra \u2013 o solo, a \u00e1gua, o ar, os recursos naturais \u2013 s\u00e3o dados por Deus \u00e0 inteira fam\u00edlia humana para sustentar a vida de todos, nos dias de hoje e nas gera\u00e7\u00f5es futuras, e que cada pessoa tem um direito origin\u00e1rio ao uso desses bens. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II recordava que \u00abDeus deu a terra a todo o g\u00e9nero humano, para que ela sustente todos os seus membros sem excluir nem privilegiar ningu\u00e9m\u00bb. [86] Consequentemente, \u00abn\u00e3o \u00e9 segundo o des\u00edgnio de Deus gerir este dom de modo tal que os seus benef\u00edcios aproveitem s\u00f3 a alguns poucos\u00bb. [87] Hoje somos chamados a reconhecer que esta destina\u00e7\u00e3o universal n\u00e3o diz respeito apenas aos bens materiais, mas tamb\u00e9m aos bens imateriais e culturais.<br \/>\n66. Existe um direito \u00e0 propriedade privada que tem o seu sentido e fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, mas est\u00e1 sempre subordinado \u00e0 destina\u00e7\u00e3o universal dos bens. Segundo Jo\u00e3o Paulo II, esta subordina\u00e7\u00e3o constitui a regra de ouro do comportamento social e \u00abo primeiro princ\u00edpio de toda a ordem \u00e9tico-social\u00bb. [88] A tradi\u00e7\u00e3o da Igreja tem visto na propriedade um meio para preservar e administrar os bens, de modo a poderem servir melhor o bem comum. Uma vez que \u00aba tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nunca reconheceu como absoluto ou intoc\u00e1vel o direito \u00e0 propriedade privada\u00bb, [89] a sua fun\u00e7\u00e3o social n\u00e3o deve considerar-se uma mera opini\u00e3o teol\u00f3gica, mas doutrina certa da Igreja, j\u00e1 presente nas Sagradas Escrituras e nos Padres. Por isso, o Papa Francisco recordou que a solidariedade, vivida em profundidade, implica tamb\u00e9m \u00abdevolver ao pobre o que lhe corresponde\u00bb. [90]<br \/>\n67. Hoje, entre os bens que se destinam universalmente a todos, devemos contar ainda as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnol\u00f3gicas e dados. Num contexto em que a riqueza das na\u00e7\u00f5es depende cada vez mais de conhecimentos e tecnologias, quando estes bens permanecem concentrados nas m\u00e3os de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequil\u00edbrio que contradiz a destina\u00e7\u00e3o universal dos bens e alimenta o fosso entre inclu\u00eddos e exclu\u00eddos, entre quem pode participar na revolu\u00e7\u00e3o digital e quem fica \u00e0 margem. Al\u00e9m disso, o cuidado da Casa comum e a responsabilidade para com os pobres e as gera\u00e7\u00f5es futuras exigem que a utiliza\u00e7\u00e3o dos bens da cria\u00e7\u00e3o e das novas possibilidades oferecidas pela t\u00e9cnica seja regulada de modo a respeitar o ambiente, evitando desperd\u00edcios e novas formas de pilhagem.<br \/>\nO princ\u00edpio de subsidiariedade<br \/>\n68.O princ\u00edpio de subsidiariedade tem origem na mesma vis\u00e3o da pessoa que orientou a nossa reflex\u00e3o sobre a dignidade e o bem comum. Se cada mulher e cada homem s\u00e3o chamados a ser protagonistas da pr\u00f3pria vida e a participar na constru\u00e7\u00e3o da sociedade, ent\u00e3o tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o social deve respeitar e favorecer essa responsabilidade. A Doutrina social da Igreja denomina \u201csubsidiariedade\u201d o princ\u00edpio segundo o qual aquilo que as pessoas, as fam\u00edlias, as comunidades locais e os organismos interm\u00e9dios podem fazer n\u00e3o deve ser absorvido por inst\u00e2ncias superiores. As institui\u00e7\u00f5es de n\u00edvel superior devem reconhecer, proteger e promover a liberdade e a criatividade das inst\u00e2ncias inferiores, coordenando os seus contributos para que cooperem eficazmente em prol do bem comum. [91]<br \/>\n69.Desde o in\u00edcio do Magist\u00e9rio social moderno, a partir de Le\u00e3o XIII, a Igreja tem insistido na ideia de que nem a pessoa nem a fam\u00edlia devem ser absorvidas pelo Estado, sendo necess\u00e1rio permitir-lhes, na medida do poss\u00edvel, agir livremente sem prejudicar o bem comum. [92] S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II retomou e aprofundou esta perspectiva, recordando que a comunidade pol\u00edtica est\u00e1 ao servi\u00e7o da sociedade civil e que o Estado deve zelar pelo bem comum, intervindo quando necess\u00e1rio, sem tomar de forma permanente as responsabilidades dos organismos interm\u00e9dios e das realidades sociais. [93] A subsidiariedade n\u00e3o justifica o n\u00e3o envolvimento do Estado, mas orienta a sua a\u00e7\u00e3o: a interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 pedida precisamente para permitir que todos os sujeitos sociais desempenhem a sua miss\u00e3o sem serem esmagados. Cabe \u00e0 comunidade pol\u00edtica criar as condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas, as fam\u00edlias, as associa\u00e7\u00f5es e os organismos interm\u00e9dios possam realizar a sua voca\u00e7\u00e3o social, sem serem substitu\u00eddos ou reduzidos a meros executores. [94]<br \/>\n70. Este princ\u00edpio incentiva a superar as formas de gest\u00e3o paternalista ou assistencialista da vida social, promovendo um estilo de corresponsabilidade: um Estado que valoriza a iniciativa dos cidad\u00e3os, uma sociedade civil capaz de criar la\u00e7os e mobilizar for\u00e7as em prol do bem comum. Numa l\u00f3gica de subsidiariedade, as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas ao n\u00edvel mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel das pessoas envolvidas, valorizando a vida associativa, de modo que o povo n\u00e3o se depare com decis\u00f5es j\u00e1 tomadas, mas possa integrar o processo da sua constru\u00e7\u00e3o. Onde as fam\u00edlias, as associa\u00e7\u00f5es, as comunidades locais, as realidades do voluntariado e do chamado \u201cterceiro setor\u201d s\u00e3o reconhecidas e apoiadas, a vida social torna-se mais pr\u00f3xima das pessoas, os servi\u00e7os mais atentos \u00e0s necessidades concretas, as respostas mais criativas e respeitadoras da dignidade de cada um. [95]<br \/>\n71. O princ\u00edpio de subsidiariedade \u00e9 particularmente relevante no contexto da revolu\u00e7\u00e3o digital. Aqui, a inst\u00e2ncia superior n\u00e3o \u00e9 o Estado, mas cada um dos grandes sujeitos econ\u00f3micos e tecnol\u00f3gicos que exercem um poder real sobre as condi\u00e7\u00f5es da vida em comum. A inst\u00e2ncia agregadora de compet\u00eancias, dados e capacidade de decis\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por empresas e plataformas, que definem condi\u00e7\u00f5es de acesso, regras de visibilidade, formas de rela\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo oportunidades econ\u00f3micas. A subsidiariedade exige que tais processos n\u00e3o sejam impostos a partir de cima, de modo opaco e unilateral, mas que sejam orientados para o bem comum atrav\u00e9s da transpar\u00eancia, da responsabilidade e de formas concretas de participa\u00e7\u00e3o (auditorias independentes, transpar\u00eancia sobre os algoritmos, acesso equitativo aos dados, instrumentos de recurso). [96]<br \/>\n72. Neste cen\u00e1rio, os Estados e as institui\u00e7\u00f5es supranacionais s\u00e3o chamados a garantir regras justas e tutelas efetivas, para que comunidades locais, organismos interm\u00e9dios, escolas, universidades, entidades eclesi\u00e1sticas e associativas possam ter voz e contribuir para o discernimento sobre as escolhas que afetam a vida das pessoas: trabalho, acesso a servi\u00e7os, gest\u00e3o de dados e ambientes digitais. Nas escolhas relativas aos fluxos econ\u00f3micos e \u00e0s plataformas digitais, na gest\u00e3o dos dados e dos algoritmos, n\u00e3o se pode permitir que poucos sujeitos orientem sozinhos os processos, mas \u00e9 necess\u00e1rio construir formas de coopera\u00e7\u00e3o que respeitem as diversas inst\u00e2ncias da comunidade mundial e as tornem correspons\u00e1veis pelo bem comum. [97]<br \/>\nO princ\u00edpio de solidariedade<br \/>\n73. Depois de ter abordado o bem comum e a subsidiariedade, desejo agora deter-me no princ\u00edpio de solidariedade. Nasce da vis\u00e3o da pessoa que a f\u00e9 gera: cada ser humano \u00e9 criado \u00e0 imagem de Deus e inserido numa rede de rela\u00e7\u00f5es que o ligam aos outros, aos povos e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo VI recordava que os deveres de solidariedade, justi\u00e7a e caridade est\u00e3o enraizados na fraternidade humana e sobrenatural que une homens e povos entre si. [98] A fraternidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma aspira\u00e7\u00e3o interior de quem acredita, mas uma forma social e pol\u00edtica que deve encarnar-se em escolhas e percursos compartilhados. A solidariedade, ent\u00e3o, \u00e9 o reconhecimento concreto de que o destino individual est\u00e1 ligado ao destino de todos: na verdade, \u00abningu\u00e9m se salva sozinho\u00bb. [99] Surge assim evidente o estreito v\u00ednculo entre subsidiariedade e solidariedade. Quando a subsidiariedade n\u00e3o \u00e9 acompanhada pela solidariedade, acaba por transformar-se em mera tutela de interesses particulares; quando a solidariedade n\u00e3o \u00e9 suportada pela subsidiariedade, degenera em assistencialismo que n\u00e3o promove a responsabilidade. [100] Esta interliga\u00e7\u00e3o remete ainda para a responsabilidade duma aut\u00eantica participa\u00e7\u00e3o: a solidariedade expressa-se quando cada um, pessoalmente e com os outros, participa na vida da comunidade \u2013 informa-se, associa-se, faz-se ouvir, contribui para as decis\u00f5es e escolhas p\u00fablicas \u2013 assumindo responsabilidades concretas para que o bem comum se traduza em escolhas partilhadas.<br \/>\n74. Em muitas \u00e1reas, experimentamos j\u00e1 uma esp\u00e9cie de \u201csolidariedade efetiva\u201d: as nossas vidas est\u00e3o interligadas; as economias e as comunica\u00e7\u00f5es globais, a partir do que acontece num lugar, produzem efeitos em regi\u00f5es distantes; e as redes digitais conectam em tempo real pessoas e comunidades de todas as partes do mundo. Por\u00e9m, esta teia de rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 ainda solidariedade a pleno t\u00edtulo, a menos que se torne uma escolha consciente. A f\u00e9 convida-nos a interpretar esta realidade como um apelo: n\u00e3o estamos simplesmente pr\u00f3ximos uns dos outros, mas confiados uns aos outros, para que cada um assuma, dentro das suas possibilidades, a vida e as feridas do irm\u00e3o e da irm\u00e3. A solidariedade nasce precisamente quando decidimos n\u00e3o permanecer indiferentes perante o que acontece ao nosso pr\u00f3ximo e transformamos la\u00e7os inevit\u00e1veis \u2013 econ\u00f3micos, culturais, tecnol\u00f3gicos \u2013 em caminhos de partilha, coopera\u00e7\u00e3o e cuidado rec\u00edproco, aprendendo a \u00abpensar e agir em termos de comunidade\u00bb. [101]<br \/>\n75. O Magist\u00e9rio social tem insistido que a solidariedade \u00e9, simultaneamente, um princ\u00edpio e uma virtude. Enquanto princ\u00edpio, expressa a ordem objetiva das rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, grupos e povos, remetendo ao reconhecimento duma interdepend\u00eancia, pela qual o bem de cada um passa pelo bem dos outros. Enquanto virtude requer, em contrapartida, uma \u00abdetermina\u00e7\u00e3o firme e perseverante\u00bb [102] para trabalhar pelo bem comum, com especial aten\u00e7\u00e3o aos mais fracos. O Papa Francisco recordou a solidariedade como \u00abuma forma de fazer hist\u00f3ria\u00bb [103] que constr\u00f3i povos e n\u00e3o simples massas de indiv\u00edduos. Por isso, ela implica estilos de vida s\u00f3brios e partilhados, capacidade de renunciar a vantagens imediatas para abrir espa\u00e7os de futuro aos demais, disponibilidade para p\u00f4r em quest\u00e3o h\u00e1bitos e privil\u00e9gios \u2013 incluindo os ligados ao consumo digital e ao uso das tecnologias \u2013 quando impedem os outros de viver com dignidade.<br \/>\n76. Num mundo marcado por rela\u00e7\u00f5es cada vez mais estreitas entre pessoas, comunidades e na\u00e7\u00f5es, a solidariedade assume igualmente uma dimens\u00e3o global. Bento XVI recordou com veem\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o entre desenvolvimento, justi\u00e7a e responsabilidade face \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, salientando que o desenvolvimento aut\u00eantico exige uma solidariedade intergeracional [104] e uma aten\u00e7\u00e3o aos v\u00ednculos que nos unem ao ambiente natural. Hoje, esta responsabilidade estende-se \u00e0s infraestruturas digitais e informativas: como o ambiente natural, tamb\u00e9m o \u201cecossistema digital\u201d pode ser preservado ou explorado, partilhado ou monopolizado. A solidariedade exige que as escolhas em mat\u00e9ria de dados, algoritmos, plataformas e intelig\u00eancia artificial tenham em conta n\u00e3o s\u00f3 a vantagem imediata de alguns, mas tamb\u00e9m a repercuss\u00e3o sobre o conjunto dos povos e sobre as gera\u00e7\u00f5es futuras.<br \/>\nO princ\u00edpio da justi\u00e7a social<br \/>\n77.Para a comunidade crist\u00e3, a justi\u00e7a social \u00e9 uma forma concreta de seguir Jesus e de fidelidade ao seu Evangelho. No Novo Testamento, Jesus anuncia a \u00abBoa-Nova aos pobres\u00bb ( Lc 4, 18) e identifica-se com os pequenos, os doentes, os presos e os estrangeiros (cf. Mt 25, 31-46). Ensina-nos, assim, que a justi\u00e7a nasce e se concretiza na fraternidade, uma vez que o modo como nos aproximamos dos mais desfavorecidos e com eles nos relacionamos se torna, concretamente, a medida da nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus e com os irm\u00e3os. No entanto, a justi\u00e7a n\u00e3o diz respeito apenas aos comportamentos dos indiv\u00edduos, mas \u00e0 forma como as estruturas da conviv\u00eancia s\u00e3o pensadas e organizadas. A este respeito, o Conc\u00edlio Vaticano II recorda que todas as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o chamadas a servir a pessoa humana e a sua dignidade. [105] A justi\u00e7a social reconhece-se, ent\u00e3o, por uma ordem social, econ\u00f3mica e pol\u00edtica capaz de permitir a todos, em particular aos mais fracos, uma vida verdadeiramente humana, sem que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s.<br \/>\n78. O Magist\u00e9rio recente tem insistido numa justi\u00e7a social que exija um olhar a partir dos \u00faltimos. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II falou duma \u00abop\u00e7\u00e3o ou amor preferencial pelos pobres\u00bb [106] que deve marcar as escolhas pessoais e sociais, enquanto o Papa Francisco denunciou uma \u00abcultura do \u201cdescart\u00e1vel\u201d\u00bb [107] causadora de sempre novas formas de exclus\u00e3o. Nesta perspectiva, a justi\u00e7a social exige que se olhe para indiv\u00edduos e povos a partir dos mais vulner\u00e1veis: pobres, migrantes, refugiados, deslocados internos, v\u00edtimas de viol\u00eancia, pessoas que vivem nas periferias urbanas ou existenciais.<br \/>\n79.A ideia de \u201cjusti\u00e7a social\u201d ajuda a reconhecer que as injusti\u00e7as n\u00e3o surgem apenas das escolhas erradas dos indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m de estruturas, mecanismos e sistemas econ\u00f3micos e culturais que, de forma quase autom\u00e1tica, produzem desigualdades. Neste sentido, S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II falou de estruturas de pecado [108] que, opondo-se \u00e0 vontade de Deus, pedem um empenho de convers\u00e3o pessoal e social. Nesta perspectiva, a justi\u00e7a n\u00e3o diz respeito s\u00f3 a uma distribui\u00e7\u00e3o mais equitativa dos bens ou \u00e0 corre\u00e7\u00e3o das injusti\u00e7as atuais, mas assume uma dimens\u00e3o reparadora. Ela visa recompor rela\u00e7\u00f5es destru\u00eddas e reintegrar quem foi exclu\u00eddo, tendo em conta as feridas deixadas pelas injusti\u00e7as: guerras, colonialismo, discrimina\u00e7\u00f5es raciais ou de g\u00e9nero, viol\u00eancias contra povos inteiros, explora\u00e7\u00e3o. Isto pode significar, ou seja, devolver dignidade e voz a quem foi ignorado, promover percursos de cura da mem\u00f3ria coletiva, combater leis e pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias, apoiar concretamente quem ainda hoje carrega as consequ\u00eancias dos danos sofridos no passado.<br \/>\n80. Neste momento, a justi\u00e7a social deve tamb\u00e9m confrontar-se com o ambiente criado pelas tecnologias digitais. A difus\u00e3o de redes globais, plataformas e sistemas de intelig\u00eancia artificial altera o modo como nos informamos, comunicamos e acedemos aos servi\u00e7os. A justi\u00e7a exige que se impe\u00e7a o surgimento de novas formas de exclus\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o de liberdade: pessoas e povos a quem \u00e9 negado ou dificultado o acesso \u00e0s tecnologias b\u00e1sicas, comunidades expostas a uma vigil\u00e2ncia invasiva, grupos sociais penalizados por algoritmos opacos que reproduzem preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es. Uma ordem social justa na era digital \u00e9 aquela que garante a todos um acesso equitativo \u00e0s oportunidades, protege os pequenos e mais fr\u00e1geis, combate o \u00f3dio e a desinforma\u00e7\u00e3o, submete a utiliza\u00e7\u00e3o dos dados e das tecnologias \u00e0 inspec\u00e7\u00e3o p\u00fablica, de modo que o crit\u00e9rio n\u00e3o seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem-estar dos povos.<br \/>\n81. Um teste decisivo para a justi\u00e7a social \u00e9 hoje representado pela condi\u00e7\u00e3o dos migrantes, dos refugiados e dos que s\u00e3o obrigados a deslocar-se devido \u00e0 pobreza, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e \u00e0s cat\u00e1strofes ambientais. A forma como uma sociedade os trata, revela se a sua no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a \u00e9 orientada pelo medo ou pela fraternidade. O Papa Francisco convidava a reconhecer nos migrantes n\u00e3o apenas um problema a gerir, mas \u00abuma imagem viva do povo de Deus em caminho\u00bb; [109] pessoas com dignidade, recursos e sonhos, que t\u00eam direito a ser tratadas com respeito e pedem a possibilidade de ser parte ativa das sociedades que as acolhem. Neste \u00e2mbito, a justi\u00e7a social implica, pelo menos, dois compromissos complementares. Por um lado, salvaguardar o direito \u00e0 esperan\u00e7a de quem \u00e9 obrigado a partir, garantindo vias seguras e legais, condi\u00e7\u00f5es de acolhimento dignas e percursos concretos de integra\u00e7\u00e3o. Por outro lado, promover igualmente o direito de permanecer em paz e seguran\u00e7a na pr\u00f3pria terra, enfrentando as causas profundas que for\u00e7am \u00e0 migra\u00e7\u00e3o, incluindo as relacionadas com as injusti\u00e7as econ\u00f3micas e a crise clim\u00e1tica. Quando estes direitos s\u00e3o respeitados, as migra\u00e7\u00f5es podem tornar-se uma oportunidade de encontro e enriquecimento m\u00fatuo entre povos.<br \/>\nO desenvolvimento humano integral<br \/>\n82. Na Enc\u00edclica Populorum progressio, Paulo VI afirma que o desenvolvimento s\u00f3 \u00e9 aut\u00eantico se for \u201cintegral\u201d, ou seja, destinado a \u00abpromover todos os homens e o homem todo\u00bb. [110] Nas d\u00e9cadas seguintes, a Doutrina social da Igreja retomou e aprofundou esta express\u00e3o para indicar como os grandes princ\u00edpios \u2013 dignidade, bem comum, destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justi\u00e7a social \u2013 se concretizam na hist\u00f3ria. Por \u201cdesenvolvimento humano integral\u201d entende-se um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos diz respeito a todas as dimens\u00f5es da exist\u00eancia e abre o futuro tamb\u00e9m \u00e0s gera\u00e7\u00f5es vindouras.<br \/>\n83. O desenvolvimento, tanto para as pessoas como para as na\u00e7\u00f5es, \u00e9 simultaneamente uma tarefa e um direito: exige condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas que possibilitem a cada pessoa e povo amadurecer de acordo com a sua dignidade, sem serem mantidos em situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia ou exclu\u00eddos do acesso aos bens necess\u00e1rios. O desenvolvimento \u00e9 humano quando coloca as pessoas no centro e n\u00e3o a acumula\u00e7\u00e3o de bens, quando abrange tamb\u00e9m os povos e n\u00e3o apenas os indiv\u00edduos. A justi\u00e7a exige o reconhecimento dos direitos sociais e dos direitos dos povos, incluindo a responsabilidade perante quem vir\u00e1 depois de n\u00f3s. Por isso, n\u00e3o \u00e9 humano um desenvolvimento que aumenta o consumo de alguns, impondo custos e feridas a outros, ou que relega regi\u00f5es inteiras a um papel subordinado, impedindo-as de manifestar o seu potencial. [111] O desenvolvimento \u00e9 integral quando n\u00e3o se reduz ao \u00e2mbito econ\u00f3mico, mas promove a qualidade da vida nas suas dimens\u00f5es espirituais, culturais, morais e relacionais, no respeito pela Casa comum, pela diversidade dos povos e pelos seus modos de viver. [112]<br \/>\n84. A ideia de desenvolvimento humano integral encontra hoje um decisivo crit\u00e9rio de avalia\u00e7\u00e3o na ecologia integral, que passou a ser uma dimens\u00e3o imprescind\u00edvel da Doutrina social da Igreja. Na verdade, a qualidade do desenvolvimento mede-se pela sua capacidade de manter juntas, sem as separar, a justi\u00e7a para com as pessoas e a salvaguarda da Casa comum, favorecendo condi\u00e7\u00f5es de vida dignas, acesso aos bens essenciais, rela\u00e7\u00f5es sociais justas, cuidado da cria\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras. Da\u00ed se conclui que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro progresso o que aumenta o bem-estar de alguns degradando os ecossistemas, descarregando os custos nas comunidades mais vulner\u00e1veis ou prejudicando as condi\u00e7\u00f5es de vida de quem vir\u00e1 depois de n\u00f3s.<br \/>\n85. Assim entendido, o desenvolvimento humano integral constitui o horizonte a partir do qual devemos interpretar as transforma\u00e7\u00f5es do nosso tempo, incluindo as da revolu\u00e7\u00e3o digital. As inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas \u2013 entre elas a intelig\u00eancia artificial \u2013 n\u00e3o s\u00e3o neutras: podem aumentar a participa\u00e7\u00e3o e a justi\u00e7a, ou, pelo contr\u00e1rio, agravar desigualdades, controle e exclus\u00e3o. Por isso, devem ser avaliadas a partir duma pergunta decisiva: contribuem realmente para que as pessoas e os povos cres\u00e7am em humanidade e fraternidade, no respeito pela Casa comum e pelas gera\u00e7\u00f5es futuras? \u00c9 aqui que os princ\u00edpios da Doutrina social se tornam crit\u00e9rios concretos de discernimento para os \u00e2mbitos que abordaremos nos cap\u00edtulos seguintes.<br \/>\nUm teste para a Igreja<br \/>\n86. Para concluir, gostaria de abordar um ponto que me \u00e9 particularmente caro. A Doutrina social n\u00e3o \u00e9 apenas uma palavra dirigida \u00e0 sociedade: \u00e9 tamb\u00e9m um exame de consci\u00eancia para a Igreja, casa e escola de comunh\u00e3o, chamada sempre a averiguar se os princ\u00edpios evocados neste cap\u00edtulo s\u00e3o vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma. No \u00e2mbito eclesial, o bem comum assume o rosto dum estilo sinodal para a miss\u00e3o ao servi\u00e7o do Reino. Com efeito, a Igreja \u00e9 o \u00absujeito comunit\u00e1rio e hist\u00f3rico da sinodalidade e da miss\u00e3o\u00bb. [113] Isto pede aten\u00e7\u00e3o \u00e0 forma de tomar decis\u00f5es e de exercer a responsabilidade. Entre as pr\u00e1ticas decisivas para a transforma\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, o Documento Final do S\u00ednodo identifica a cultura da transpar\u00eancia, da presta\u00e7\u00e3o de contas e da avalia\u00e7\u00e3o. [114]<br \/>\n87. Nesta perspectiva, a subsidiariedade torna-se um crit\u00e9rio de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fi\u00e9is e dos organismos eclesiais interm\u00e9dios, valorizando os carismas e as compet\u00eancias, e evitando qualquer paternalismo que sufoque a liberdade evang\u00e9lica. Em concreto, a participa\u00e7\u00e3o dos batizados nos processos de decis\u00e3o e a corresponsabilidade na miss\u00e3o passam por organismos de participa\u00e7\u00e3o reais, e n\u00e3o meramente nominais. [115]<br \/>\n88. Para a comunidade crist\u00e3, a solidariedade encontra a sua fonte no mist\u00e9rio de Cristo e alimenta-se da Eucaristia. Ela nasce da comunh\u00e3o na f\u00e9 e nos Sacramentos: o Batismo e a Confirma\u00e7\u00e3o unem-nos em Cristo, para que sejamos um s\u00f3 corpo e um s\u00f3 esp\u00edrito, um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma (cf. Ef 4, 4; At 4, 32). A Eucaristia, sacramento da unidade, alimenta a nossa perten\u00e7a ao corpo de Cristo e educa-nos para a partilha. As diversas sensibilidades presentes na Igreja, as convic\u00e7\u00f5es fortes que animam cada um, s\u00e3o uma riqueza se permanecerem ancoradas na certeza da unidade, enquanto dom recebido e tarefa a assumir.<br \/>\n89. Viver a justi\u00e7a na Igreja significa melhorar as rela\u00e7\u00f5es e as estruturas eclesiais, eliminando as distor\u00e7\u00f5es que geram desigualdades, opacidades e prevarica\u00e7\u00f5es. A este respeito, a escuta das v\u00edtimas de abusos espirituais, econ\u00f3micos, institucionais, sexuais, de poder e de consci\u00eancia \u00e9 parte integrante dum caminho de justi\u00e7a, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa repara\u00e7\u00e3o e a preven\u00e7\u00e3o. Todo o poder est\u00e1 ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o e da miss\u00e3o. Toda a autoridade est\u00e1 ao servi\u00e7o do povo de Deus. Esta diaconia manifesta-se n\u00e3o s\u00f3 na f\u00e9 celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisi\u00e7\u00e3o de um estilo sinodal, mas tamb\u00e9m na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais s\u00e3o chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre n\u00f3s ningu\u00e9m passe necessidade (cf. At 4, 34) e para que a sua administra\u00e7\u00e3o apoie a miss\u00e3o de an\u00fancio do Evangelho aos mais pobres. Devem promover-se formas regulares de avalia\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio das responsabilidades ministeriais, que n\u00e3o sejam um julgamento das pessoas, mas instrumentos de aprendizagem e de corre\u00e7\u00e3o orientados \u00e0 miss\u00e3o. [116] Na medida em que nos abrimos \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, estes princ\u00edpios da Doutrina social encarnam-se na vida eclesial. Deste modo, a Igreja \u00e9 capaz de oferecer \u00e0 sociedade um sinal cr\u00edvel de que procurar juntos, na corresponsabilidade e na fraternidade, o bem de todos n\u00e3o \u00e9 uma utopia, mas uma possibilidade concreta. [117]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO III<br \/>\nT\u00c9CNICA E DOM\u00cdNIO<br \/>\nA GRANDEZA DA PESSOA HUMANA PERANTE AS PROMESSAS DA IA<br \/>\n90. Depois de ter recordado os princ\u00edpios que iluminam a Doutrina social, desejo agora focar-me em alguns desafios que dizem respeito \u00e0 nossa forma de viver este tempo. A imagem b\u00edblica que acompanha estas p\u00e1ginas \u00e9 a da constru\u00e7\u00e3o: por um lado, a torre de Babel, onde a obra comum \u00e9 guiada por um projeto de dom\u00ednio que acaba por desumanizar (cf. Gn 11, 1-9); por outro, as ru\u00ednas de Jerusal\u00e9m que, sob a lideran\u00e7a de Neemias, s\u00e3o reconstru\u00eddas por partes, como obra de responsabilidade partilhada (cf. Ne 2-6). Somos levados a interrogar-nos sobre o grande estaleiro de obras da nossa \u00e9poca: o que estamos a construir? Enquanto o desenvolvimento tecnol\u00f3gico altera rapidamente linguagens, rela\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es e formas de poder, n\u00f3s, crist\u00e3os, podemos e devemos escolher em que projeto trabalhar, e com que estilo, para salvaguardar e valorizar a magn\u00edfica humanidade que recebemos como dom. N\u00e3o se trata de uma escolha sobre o nosso futuro, mas sobre o presente, porque a intelig\u00eancia artificial e as outras tecnologias emergentes fazem j\u00e1 parte do nosso quotidiano.<br \/>\n91. Estou convicto de que a forma concreta de viver as rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 luz do Evangelho n\u00e3o foi estabelecida de uma vez por todas, mas continua, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, uma tarefa confiada \u00e0 comunidade crist\u00e3. Sob a orienta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, a Igreja deixa-se iluminar pela Palavra na leitura dos sinais dos tempos e na procura criativa de novos caminhos para que as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e os povos se tornem mais conformes \u00e0s exig\u00eancias do Reino de Deus [118]. Por isso, encorajo todos, em particular os fi\u00e9is leigos, a n\u00e3o ter medo de se deixar interpelar pela realidade, a escutar-se mutuamente e a assumir com firmeza a pr\u00f3pria responsabilidade na constru\u00e7\u00e3o duma sociedade mais humana e fraterna.<br \/>\nO paradigma tecnocr\u00e1tico e o poder digital<br \/>\n92. Na Enc\u00edclica Laudato si\u2019, o Papa Francisco denunciava a crescente afirma\u00e7\u00e3o de um paradigma tecnocr\u00e1tico no mundo globalizado: [119] a tend\u00eancia de deixar que a l\u00f3gica da efici\u00eancia, do dom\u00ednio e do lucro governe por si s\u00f3 as escolhas pessoais, sociais e econ\u00f3micas. Assim, torna-se mais evidente que a t\u00e9cnica n\u00e3o \u00e9 um mero instrumento e que, quando se torna crit\u00e9rio, acaba por determinar o que \u00e9 importante e o que pode ser descartado, reduzindo a cria\u00e7\u00e3o a objeto de explora\u00e7\u00e3o e as pessoas a engrenagens dum sistema que quer ser sempre mais eficiente.<br \/>\n93. Este paradigma tem-se expandido rapidamente nos \u00faltimos anos, devido tamb\u00e9m \u00e0 difus\u00e3o da intelig\u00eancia artificial, das ci\u00eancias cognitivas, da nanotecnologia, da rob\u00f3tica e da biotecnologia. Por si s\u00f3, essas inova\u00e7\u00f5es podem tornar-se uma grande ajuda para o desenvolvimento humano integral e para o cuidado da nossa casa comum. Mas, precisamente devido ao seu poder, podem agir como um acelerador do paradigma tecnocr\u00e1tico e, por isso, necessitam dum novo enquadramento espiritual, \u00e9tico e pol\u00edtico. Mais poderoso n\u00e3o significa necessariamente melhor. Neste sentido, as palavras de Romano Guardini continuam surpreendentemente atuais: \u00abo homem moderno n\u00e3o est\u00e1 educado para usar corretamente o seu poder\u00bb. [120]<br \/>\n94. O perigo da humanidade se tornar v\u00edtima das pr\u00f3prias conquistas j\u00e1 tinha sido percebido com lucidez por S\u00e3o Paulo VI, quando advertiu que \u00abos progressos cient\u00edficos mais extraordin\u00e1rios, as inven\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas mais assombrosas, o desenvolvimento econ\u00f3mico mais prodigioso, se n\u00e3o estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se, necessariamente, contra o homem\u00bb. [121] Por isso, o progresso t\u00e9cnico, em si precioso, exige um discernimento sobre a vis\u00e3o antropol\u00f3gica que o orienta e sobre os fins que persegue. Se o desenvolvimento tecnol\u00f3gico avan\u00e7a sem uma matura\u00e7\u00e3o \u00e9tica e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a humanidade cres\u00e7a na mesma medida: \u201ctem-se mais\u201d, mas n\u00e3o \u201cse \u00e9 mais\u201d e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante. [122]<br \/>\n95. \u00c9 necess\u00e1rio aqui reconhecer um dado decisivo, que j\u00e1 referi anteriormente: em muitos casos, no contexto digital, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes sujeitos econ\u00f3micos e tecnol\u00f3gicos que, na pr\u00e1tica, estabelecem as condi\u00e7\u00f5es de acesso, as regras de visibilidade e as pr\u00f3prias possibilidades de participa\u00e7\u00e3o. Quando um poder desta magnitude se concentra na m\u00e3o de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle p\u00fablico, aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas depend\u00eancias, exclus\u00f5es, manipula\u00e7\u00f5es e desigualdades.<br \/>\n96. Ante esta concentra\u00e7\u00e3o de poder no mundo digital, os grandes princ\u00edpios da Doutrina Social tornam-se crit\u00e9rios para avaliar e discernir o novo cen\u00e1rio: a dignidade inalien\u00e1vel da pessoa, o bem comum, a destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justi\u00e7a social. Estes princ\u00edpios exigem que se verifique se o poder das infraestruturas digitais e dos algoritmos favorece realmente a participa\u00e7\u00e3o e a responsabilidade, protege os mais fr\u00e1geis, assegura um acesso equitativo \u00e0s oportunidades e permanece orientado para o bem de todos. A partir destas premissas, podemos agora analisar mais de perto o que \u00e9 a intelig\u00eancia artificial, quais as possibilidades que abre e quais os riscos que encerra.<br \/>\nA intelig\u00eancia artificial<br \/>\n97. N\u00e3o tenho a inten\u00e7\u00e3o de apresentar aqui uma tratado sobre a intelig\u00eancia artificial, nem revisitar uma bibliografia j\u00e1 vast\u00edssima, pois existem contributos autorizados \u2013 tamb\u00e9m no \u00e2mbito eclesial \u2013 aos quais \u00e9 poss\u00edvel fazer refer\u00eancia. [123] Limito-me a recordar alguns elementos essenciais a um discernimento moral e social que salvaguarde o primado da pessoa, para que seja sempre a intelig\u00eancia humana, com a sua consci\u00eancia e liberdade, a orientar as inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e a estabelecer com responsabilidade o seu uso e limites.<br \/>\n98. \u00c9 oportuno partir de duas considera\u00e7\u00f5es: a primeira \u00e9 que qualquer afirma\u00e7\u00e3o sobre a IA corre o risco de se tornar obsoleta em pouco tempo, dada a impressionante velocidade de desenvolvimento destes sistemas. A segunda \u00e9 que todos n\u00f3s, incluindo quem os projeta, sabemos muito pouco sobre o seu funcionamento efetivo. Na verdade, as intelig\u00eancias artificiais modernas s\u00e3o mais \u201ccultivadas\u201d do que \u201cconstru\u00eddas\u201d: os programadores n\u00e3o projetam diretamente todos os detalhes, mas criam uma arquitetura sobre a qual a IA \u201ccresce\u201d. Consequentemente, aspectos cient\u00edficos fundamentais \u2014 como as representa\u00e7\u00f5es internas e os processos computacionais destes sistemas \u2014 permanecem, por enquanto, desconhecidos. Manifesta-se, portanto, a urg\u00eancia de um duplo compromisso: por um lado, um aprofundamento da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; por outro, um exerc\u00edcio de discernimento moral e espiritual.<br \/>\n99. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dar uma defini\u00e7\u00e3o un\u00edvoca e completa da IA. O que podemos afirmar \u00e9 que se evite o equ\u00edvoco de equiparar esta \u201cintelig\u00eancia\u201d \u00e0 humana. Estes sistemas imitam algumas fun\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia humana. Ao faz\u00ea-lo, muitas vezes superam-na em velocidade e amplitude de c\u00e1lculo, oferecendo benef\u00edcios concretos em numerosos campos. No entanto, este poder permanece exclusivamente ligado ao tratamento de dados: as ditas intelig\u00eancias artificiais n\u00e3o vivem uma experi\u00eancia, n\u00e3o possuem um corpo, n\u00e3o passam pela alegria e pela dor, n\u00e3o amadurecem nas rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade. Nem sequer possuem uma consci\u00eancia moral: n\u00e3o julgam o bem e o mal, n\u00e3o captam o sentido \u00faltimo das situa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o assumem sobre si o peso das consequ\u00eancias. Podem imitar linguagens, comportamentos, avalia\u00e7\u00f5es, podem simular empatia ou entendimento, mas n\u00e3o compreendem o que produzem, porque n\u00e3o penetram o horizonte afetivo, relacional e espiritual no qual o ser humano se torna s\u00e1bio. Ainda que esses instrumentos sejam apresentados como capazes de \u201caprender\u201d, a sua forma de o fazer \u00e9 diferente da do ser humano. N\u00e3o se trata da experi\u00eancia de quem se deixa moldar pela vida e cresce ao longo do tempo atrav\u00e9s de escolhas, erros, perd\u00e3o e fidelidade; trata-se, antes, de uma adapta\u00e7\u00e3o estat\u00edstica a partir de dados e resultados, que pode ser muito eficaz, mas n\u00e3o implica um crescimento interior.<br \/>\nUma ajuda preciosa que requer aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n100. \u00c0 luz de quanto foi exposto, podemos compreender melhor por que raz\u00e3o a intelig\u00eancia artificial pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem s\u00f3bria e vigilante. Nos \u00faltimos anos, o seu uso privado cresceu de modo not\u00e1vel e em v\u00e1rios setores reflete-se sobre as oportunidades e os riscos associados \u00e0 sua r\u00e1pida difus\u00e3o. Na utiliza\u00e7\u00e3o pessoal, devem ser devidamente considerados, em particular, tr\u00eas aspectos: a facilidade de obter o resultado, a apar\u00eancia de objetividade e a simula\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o humana. A rapidez e a simplicidade com que \u00e9 poss\u00edvel obter orienta\u00e7\u00f5es, processamentos complexos, conte\u00fados medi\u00e1ticos e formas de assist\u00eancia concreta simplificam as nossas vidas, mas tamb\u00e9m podem habituar-nos a delegar em demasia e a procurar respostas prontas, enfraquecendo a pr\u00f3pria opini\u00e3o e a criatividade. A apar\u00eancia de objetividade que as respostas e as propostas destes sistemas podem suscitar corre o risco de nos fazer esquecer que elas refletem os par\u00e2metros culturais de quem os concebeu e treinou, com todos os seus m\u00e9ritos e defeitos. A imita\u00e7\u00e3o artificial de uma comunica\u00e7\u00e3o humana positiva \u2013 palavras de conselho, empatia, amizade, amor \u2013 pode revelar-se gratificante e at\u00e9 \u00fatil, mas, em utilizadores pouco conscientes, pode induzir em erro e criar a ilus\u00e3o de estarem em rela\u00e7\u00e3o com um sujeito pessoal aut\u00eantico. Quando a palavra \u00e9 simulada, mas n\u00e3o encarnada, ela n\u00e3o constr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o, mas sim uma apar\u00eancia dela. A imita\u00e7\u00e3o artificial da rela\u00e7\u00e3o de cuidado ou de acompanhamento pode tornar-se perigosa quando se insinua num contexto pobre de rela\u00e7\u00f5es e afetos concretos: ent\u00e3o, o risco n\u00e3o \u00e9 tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro.<br \/>\n101. Ao alargar o olhar para a utiliza\u00e7\u00e3o da IA nas nossas sociedades, constatamos que est\u00e1 j\u00e1 presente nos processos de tomada de decis\u00e3o em todos os dom\u00ednios e a v\u00e1rios n\u00edveis: na comunica\u00e7\u00e3o, na gest\u00e3o e no controle. As vantagens em termos de efici\u00eancia e o potencial de melhoria de alguns servi\u00e7os s\u00e3o evidentes; todavia, uma ado\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e acr\u00edtica exp\u00f5e-nos a v\u00e1rios riscos, entre os quais o de subestimar o seu impacto ambiental. Os atuais sistemas de IA requerem grandes quantidades de energia e \u00e1gua, t\u00eam um impacto significativo nas emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono e consomem recursos de forma intensiva. Com o aumento da complexidade, sobretudo nos grandes modelos lingu\u00edsticos, crescem tamb\u00e9m as necessidades de poder de c\u00e1lculo e capacidade de armazenamento, que se apoiam num conjunto de m\u00e1quinas, cabos, centros de dados e infraestruturas consumidoras de muita energia. Por isso, \u00e9 essencial desenvolver solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas mais sustent\u00e1veis para reduzir o impacto ambiental e cuidar da nossa Casa comum. [124]<br \/>\nResponsabilidade, transpar\u00eancia e gest\u00e3o da IA<br \/>\n102. O uso da IA nunca \u00e9 uma quest\u00e3o puramente t\u00e9cnica: ao interferir em processos que afetam a vida das pessoas, ela incide sobre direitos, oportunidades, reputa\u00e7\u00e3o e liberdade. Decis\u00f5es delicadas que dizem respeito ao trabalho, ao cr\u00e9dito, ao acesso a servi\u00e7os e \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o das pessoas correm o risco de ser confiadas inteiramente a sistemas automatizados que desconhecem \u00aba compaix\u00e3o, a miseric\u00f3rdia, o perd\u00e3o e, sobretudo, a abertura \u00e0 esperan\u00e7a de mudan\u00e7a da pessoa\u00bb, [125] podendo assim gerar novas formas de marginaliza\u00e7\u00e3o. Podem existir usos manifestamente anti-humanos, como a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o ou a viola\u00e7\u00e3o da privacidade, mas pode tamb\u00e9m haver uma amea\u00e7a menos evidente, quando os sistemas de IA, apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e refor\u00e7am estere\u00f3tipos ou posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas daqueles que os projetaram e treinaram.<br \/>\n103. Confiar, na pr\u00e1tica, a um algoritmo o poder de selecionar quem merece ou n\u00e3o, sem que ningu\u00e9m mais assuma o peso da decis\u00e3o, significa confiar-lhe a tarefa de redefinir os limites das possibilidades humanas. Neste processo, o que se perde n\u00e3o \u00e9 apenas a empatia para com o exclu\u00eddo \u2013 que pode ser imitada artificialmente \u2013, mas a responsabilidade pol\u00edtica, porque o descarte dos fracos \u00e9 revestido de neutralidade e objetividade, perante as quais \u00e9 imposs\u00edvel protestar. E assim, a injusti\u00e7a torna-se silenciosa, e desaparecem do horizonte a compaix\u00e3o, a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o, n\u00e3o como mera apar\u00eancia, mas enquanto gestos pol\u00edticos.<br \/>\n104. Daqui decorre uma consequ\u00eancia simples, mas imperiosa: n\u00e3o podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo o artefato t\u00e9cnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situa\u00e7\u00f5es. Se um sistema for concebido ou utilizado de modo a tratar certas vidas como menos dignas, ou a exclu\u00ed-las sem possibilidade de apelo, n\u00e3o se trata de um mero instrumento \u201ca ser bem utilizado\u201d: introduz j\u00e1 um crit\u00e9rio que contradiz a dignidade inalien\u00e1vel da pessoa. Por isso, o discernimento \u00e9tico n\u00e3o pode limitar-se a perguntar se utilizamos um determinado sistema para um fim bom ou mau, mas deve tamb\u00e9m questionar-se sobre a forma como foi projetado e que ideia de pessoa e sociedade est\u00e1 inscrita nos dados e nos modelos que o orientam. [126]<br \/>\n105. Para que a IA respeite a dignidade humana e sirva verdadeiramente o bem comum, \u00e9 essencial que as responsabilidades sejam claras em todas as etapas: desde quem concebe e treina os sistemas a quem os utiliza e decide confiar-lhes escolhas concretas. Em muitos casos, contudo, os processos internos que conduzem a um resultado podem ser pouco transparentes, o que torna mais dif\u00edcil atribuir responsabilidades e corrigir erros. \u00c9 aqui que se torna decisivo o que chamamos accountability: a possibilidade de identificar quem deve \u201cprestar contas\u201d das decis\u00f5es, motiv\u00e1-las, control\u00e1-las e, quando necess\u00e1rio, contest\u00e1-las, reparando os danos da\u00ed decorrentes. [127]<br \/>\n106. Apelar \u00e0 prud\u00eancia, a auditorias rigorosas e, por vezes, a um abrandamento na ado\u00e7\u00e3o da IA n\u00e3o significa ser contra o progresso, mas sim exercer a salvaguarda respons\u00e1vel da fam\u00edlia humana. Esta exig\u00eancia \u00e9 ainda mais urgente porque frequentemente existe um desequil\u00edbrio entre a velocidade do desenvolvimento tecnol\u00f3gico e o ritmo com que amadurecem a consci\u00eancia, as normas, os controles e as institui\u00e7\u00f5es capazes de gerir os seus efeitos. N\u00e3o basta invocar genericamente a \u00e9tica: s\u00e3o necess\u00e1rios quadros jur\u00eddicos adequados, vigil\u00e2ncia independente, educa\u00e7\u00e3o dos utilizadores, uma pol\u00edtica que n\u00e3o renuncie \u00e0 sua miss\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, a mudan\u00e7a ser\u00e1 governada somente por l\u00f3gicas tecnocr\u00e1ticas e apresentada como necess\u00e1ria e inevit\u00e1vel, acabando por impor regras efetivas, ditadas por quem det\u00e9m dados, infraestruturas e capacidade de processamento.<br \/>\n107. N\u00e3o podemos limitar-nos a invocar a moraliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, o chamado \u201calinhamento\u201d da IA com os valores humanos, sem termos a coragem de impor uma condi\u00e7\u00e3o adicional: a possibilidade de discutir o c\u00f3digo \u00e9tico a ser utilizado, submetendo-o a crit\u00e9rios de justi\u00e7a social partilhada. Caso contr\u00e1rio, quem controla a IA impor\u00e1 a pr\u00f3pria vis\u00e3o moral, que se tornar\u00e1 a infraestrutura invis\u00edvel dos sistemas. N\u00e3o precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos. Precisamos de uma pol\u00edtica mais presente, capaz de reduzir a velocidade onde tudo se acelera e de proteger os espa\u00e7os onde as comunidades ainda podem participar e questionar-se.<br \/>\n108. Com efeito, tal como acontece com qualquer grande avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, a IA tende a refor\u00e7ar sobretudo o poder daqueles que j\u00e1 disp\u00f5em de recursos econ\u00f3micos, compet\u00eancias e acesso aos dados. \u00c0 luz do bem comum e da destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, este fen\u00f3meno suscita s\u00e9rias preocupa\u00e7\u00f5es: pequenos grupos muito influentes podem orientar a informa\u00e7\u00e3o e o consumo, condicionar processos democr\u00e1ticos e incidir sobre din\u00e2micas econ\u00f3micas em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio, contrariando a justi\u00e7a social e a solidariedade entre os povos. Por isso, \u00e9 indispens\u00e1vel que a utiliza\u00e7\u00e3o da IA \u2013 sobretudo quando envolve bens p\u00fablicos e direitos fundamentais \u2013 seja acompanhada por crit\u00e9rios claros e controles efetivos, inspirados na participa\u00e7\u00e3o e na subsidiariedade: as comunidades e os organismos interm\u00e9dios n\u00e3o podem ser reduzidos a destinat\u00e1rios de decis\u00f5es que n\u00e3o foram tomadas por eles mesmos, mas devem poder contribuir para o discernimento e a vigil\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, a propriedade dos dados n\u00e3o pode ser confiada apenas a particulares, mas deve ser regulamentada. Estes s\u00e3o fruto da contribui\u00e7\u00e3o de muitos e n\u00e3o podem ser vendidos ou confiados a poucos. \u00c9 necess\u00e1ria uma criatividade capaz de os gerir como um dos bens comuns ou coletivos, numa l\u00f3gica de partilha, tal como j\u00e1 sugeria S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, a prop\u00f3sito dos bens coletivos. [128]<br \/>\n109. Os princ\u00edpios da Doutrina social ajudam-nos a interpretar esta nova realidade. Num mundo em que poucos sujeitos concentram dados, capital computacional e capacidade normativa, falar de bem comum significa desmascarar esta nova assimetria epist\u00e9mica, econ\u00f3mica e pol\u00edtica, dando nome aos novos monop\u00f3lios da IA. Falar de destina\u00e7\u00e3o universal dos bens significa encontrar formas de garantir o acesso universal \u00e0s tecnologias e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o. Falar de subsidiariedade \u00e9 pedir que se proteja a capacidade das comunidades escolherem e corrigirem, sem relegar a sua interven\u00e7\u00e3o a uma mera vigil\u00e2ncia, depois das normas terem sido definidas noutro local. Falar de solidariedade obriga a reconhecer o trabalho invis\u00edvel, frequentemente explorado, que alimenta os modelos algor\u00edtmicos. Falar de justi\u00e7a imp\u00f5e questionar as geografias do poder que definem quem pode treinar os modelos e quem \u00e9 apenas objeto de treino, e reconhecer que a justi\u00e7a social n\u00e3o \u00e9 apenas um objetivo a proteger ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o das tecnologias, mas uma condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, a ser posta em pr\u00e1tica no seu pr\u00f3prio projeto.<br \/>\n110. Por fim, gostaria de utilizar uma palavra que me \u00e9 cara: \u201cdesarmar\u201d. Desarmar a IA significa subtra\u00ed-la \u00e0 l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o armada, que hoje n\u00e3o \u00e9 apenas militar, mas tamb\u00e9m econ\u00f3mica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopol\u00edtica ou comercial sobre todos os outros. Desarmar significa quebrar esta equival\u00eancia entre poder t\u00e9cnico e direito de governar. N\u00e3o significa renunciar \u00e0 tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano. Significa retir\u00e1-la dos monop\u00f3lios, torn\u00e1-la discut\u00edvel, contest\u00e1vel e, portanto, habit\u00e1vel, devolvendo-a \u00e0 pluralidade das culturas humanas e das formas de vida. A tarefa, hoje, n\u00e3o \u00e9 apenas \u00e9tica ou t\u00e9cnica: \u00e9 ecol\u00f3gica no sentido mais radical, porque envolve uma nova dimens\u00e3o da nossa Casa comum. A IA \u00e9 o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar. Por isso, n\u00e3o basta regul\u00e1-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora.<br \/>\n111. Dirijo um apelo especial \u00e0queles que desenvolvem as intelig\u00eancias artificiais. A inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pode ser, em certo sentido, uma forma humana de participar no ato divino da cria\u00e7\u00e3o. Portanto, os programadores assumem um particular peso \u00e9tico e espiritual, pois cada escolha feita no projeto expressa uma vis\u00e3o da humanidade. Tal como o autor de uma obra art\u00edstica ou liter\u00e1ria \u00e9 respons\u00e1vel por ponderar os valores que ela expressa, tamb\u00e9m eles s\u00e3o chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem nos seus projetos: com transpar\u00eancia, com responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades envolvidas e com a aten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria em confirmar que quanto est\u00e1 a ser cultivado \u00e9 efetivamente um bem.<br \/>\nO que n\u00e3o podemos perder<br \/>\n112. Depois de ter evocado as quest\u00f5es da responsabilidade e da gest\u00e3o da IA, \u00e9 necess\u00e1rio voltar ao cerne da quest\u00e3o: o que significa salvaguardar o humano. O risco n\u00e3o \u00e9 apenas o do mau uso de algumas tecnologias, mas que o paradigma tecnocr\u00e1tico em que estamos imersos, potencializado pela revolu\u00e7\u00e3o digital e pela IA, fa\u00e7a parecer justa e normal uma vis\u00e3o anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em possuir mais, em reduzir a fragilidade, eliminar o imprevisto e controlar tudo. Quando a efici\u00eancia se torna a medida do valor, o ser humano \u00e9 tentado a pensar-se como um projeto a otimizar, mais do que como uma criatura chamada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o e \u00e0 comunh\u00e3o.<br \/>\n113. Na verdade, absolutizar uma \u00fanica dimens\u00e3o do ser humano \u00e9 sempre errado. Com efeito, n\u00e3o \u00e9 apenas a escassez que gera desordem. Tamb\u00e9m aquilo que cresce sem medida pode tornar-se uma forma de pobreza. Num ecossistema, a harmonia rompe-se quando uma \u00fanica esp\u00e9cie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano quando uma faculdade pretende tornar-se a medida de tudo. Assim, a intelig\u00eancia, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimens\u00f5es essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedica\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o. O poder t\u00e9cnico, se n\u00e3o for equilibrado, n\u00e3o nos torna mais capazes: torna-nos mais s\u00f3s e mais expostos a l\u00f3gicas de dom\u00ednio e de exclus\u00e3o. N\u00e3o se trata, evidentemente, de se opor \u00e0 intelig\u00eancia, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana.<br \/>\n114. A qualidade de uma civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e n\u00e3o enquanto fun\u00e7\u00e3o. Uma dimens\u00e3o importante do nosso ser humanos \u00e9 a capacidade de saber cuidar uns dos outros. Esta aprende-se e aperfei\u00e7oa-se com a experi\u00eancia. Ler hist\u00f3rias a uma crian\u00e7a, fazer companhia a um idoso, tornar acolhedor um espa\u00e7o, s\u00e3o gestos que se vivem no ambiente familiar, ajudando-nos a aprender e a interiorizar a import\u00e2ncia do cuidado a n\u00edvel social e treinando-nos para reconhecer o outro como pessoa digna de aten\u00e7\u00e3o. A tecnologia pode apoiar tamb\u00e9m o cuidado m\u00fatuo entre as pessoas, ao oferecer ferramentas que, por exemplo, ajudem a prever e a organizar, mas sem derrubar a liberdade e o discernimento do ser humano, sujeito das rela\u00e7\u00f5es e respons\u00e1vel pelas decis\u00f5es.<br \/>\nNarrativas de fundo: transumanismo e p\u00f3s-humanismo<br \/>\n115. Na tentativa de evidenciar os pressupostos culturais que acompanham a revolu\u00e7\u00e3o digital em curso, gostaria agora de focar-me em algumas correntes que interpretam o progresso como uma supera\u00e7\u00e3o do humano e que podem ser agrupadas sob os nomes de transumanismo e p\u00f3s-humanismo. Estas constituem o pano de fundo ideol\u00f3gico que est\u00e1 presente em alguns centros de poder tecnol\u00f3gico e coloniza o imagin\u00e1rio coletivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e nas redes sociais, acendendo o entusiasmo pelas novas tecnologias com uma vis\u00e3o futurista do \u201chomem aperfei\u00e7oado\u201d ou do \u201chomem hibridado\u201d com a m\u00e1quina.<br \/>\n116. O transumanismo e o p\u00f3s-humanismo incluem em si uma pluralidade de correntes e sensibilidades, sendo dif\u00edcil dar deles uma descri\u00e7\u00e3o un\u00edvoca. Podem ser comparados a um arquip\u00e9lago de ilhas conceituais diferentes, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condi\u00e7\u00e3o humana. O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfei\u00e7oamento do ser humano atrav\u00e9s das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O p\u00f3s-humanismo, sobretudo nas suas vers\u00f5es radicais, vai al\u00e9m: critica o antropocentrismo e prop\u00f5e uma forma de hibrida\u00e7\u00e3o entre o ser humano, a m\u00e1quina e o ambiente, chegando a imaginar uma transi\u00e7\u00e3o em que a humanidade se superar\u00e1 a si pr\u00f3pria, entrando num novo est\u00e1dio de evolu\u00e7\u00e3o. Mesmo se estas hip\u00f3teses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relev\u00e2ncia, porque modificam o imagin\u00e1rio coletivo e, consequentemente, orientam as escolhas sociais, econ\u00f3micas e pol\u00edticas. [129]<br \/>\n117. O ponto cr\u00edtico, \u00e0 luz da Doutrina social da Igreja, n\u00e3o \u00e9 o uso da tecnologia em si, mas a vis\u00e3o que lhe est\u00e1 subjacente: se o ser humano for tratado como mat\u00e9ria a aperfei\u00e7oar ou a ultrapassar, \u00e9 ent\u00e3o mais f\u00e1cil aceitar que alguns sejam considerados menos \u00fateis, desej\u00e1veis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar \u201csacrif\u00edcios necess\u00e1rios\u201d e a fazer com que os mais fr\u00e1geis paguem o pre\u00e7o de uma suposta otimiza\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. A j\u00e1 mencionada advert\u00eancia de S\u00e3o Paulo VI mant\u00e9m-se, portanto, de grande clarivid\u00eancia: as conquistas cient\u00edficas e t\u00e9cnicas, desvinculadas do progresso moral e social, acabam realmente por se voltar contra o homem. [130] Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir com clareza: uma coisa \u00e9 integrar as tecnologias numa vis\u00e3o humana e relacional, outra \u00e9 deixar-se guiar por um imagin\u00e1rio que desvaloriza os limites e promete uma \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d puramente t\u00e9cnica.<br \/>\nOs limites, o cora\u00e7\u00e3o e a grandeza do ser humano<br \/>\n118. A nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como \u201climite\u201d \u2013 incapacidade, doen\u00e7a, velhice, sofrimento, vulnerabilidade \u2013 tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e n\u00e3o como um espa\u00e7o onde o humano amadurece e se abre \u00e0 rela\u00e7\u00e3o. Em vez disso, devemos recordar que o humano n\u00e3o floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, atrav\u00e9s dos limites. Uma vis\u00e3o da realidade \u00e0 luz da f\u00e9 ajuda a reconhecer aquilo a que chamamos a \u201cconting\u00eancia\u201d das coisas deste mundo. Se, por um lado, \u00e9 nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana, por outro, \u00e9 sensato reconhecer a nossa constitutiva finitude, sabendo que \u00aba experi\u00eancia religiosa e, em particular, a f\u00e9 crist\u00e3 prop\u00f5em viver, sem simplifica\u00e7\u00f5es, essa ambival\u00eancia entre a grandeza e os limites do ser humano, interpretando-a \u00e0 luz da rela\u00e7\u00e3o original e fundamental com Deus\u00bb. [131]<br \/>\n119. \u00c9 precisamente na nossa limita\u00e7\u00e3o que encontram espa\u00e7o a compaix\u00e3o, a sincera preocupa\u00e7\u00e3o perante as necessidades dos outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escurid\u00e3o e do fracasso, a experi\u00eancia espiritual e a adora\u00e7\u00e3o de Deus. Vemo-lo em tantos momentos em que os limites se tornam concretos na nossa vida, quando somos rejeitados, quando sofremos por causa da doen\u00e7a ou da morte de uma pessoa amada, quando experimentamos o sentimento de impot\u00eancia ou o fracasso. Misteriosamente, \u00e9 precisamente nestas adversidades que podemos encontrar uma sabedoria nova, tocar com as pr\u00f3prias m\u00e3os o carinho das pessoas e experimentar diversamente a presen\u00e7a do Senhor.<br \/>\n120. Mesmo quando os limites se manifestam como dor interior, a sabedoria humana ensina a n\u00e3o a afastar nem suprimir, mas a integr\u00e1-la. Para suprimir totalmente a dor, seria necess\u00e1rio, no fundo, extinguir tamb\u00e9m o amor e o desejo. Realmente, quem ama e deseja n\u00e3o pode evitar passar pela prova\u00e7\u00e3o e pelo sofrimento e, por isso, ao longo dos anos, guardamos dentro de n\u00f3s ensinamentos que ficam gravados como cicatrizes, lembran\u00e7a do caminho percorrido entre liberdades e quedas, sonhos e desilus\u00f5es. \u00c9 s\u00f3 gra\u00e7as \u00e0 interliga\u00e7\u00e3o destes elementos que, no cora\u00e7\u00e3o, acontecem aqueles prod\u00edgios da alma que nos fazem experimentar o sabor mais doce da nossa humanidade. [132] Renunciar a esta aventura, simultaneamente dram\u00e1tica e espl\u00eandida, em nome de uma suposta supera\u00e7\u00e3o de todos os limites, pode significar qualquer outra coisa, mas n\u00e3o ser humanos.<br \/>\n121. A corrup\u00e7\u00e3o moral dos nossos limites \u2013 o mal que, de forma evidente, agita o cora\u00e7\u00e3o do homem \u2013 destr\u00f3i a sociedade e a vida, chegando a extremos de desumanidade. No entanto, tamb\u00e9m esta dolorosa forma de limita\u00e7\u00e3o deixa frestas abertas para o bem. Mesmo quando o ser humano se desumaniza e provoca trag\u00e9dias, uma pequena luz continua a brilhar na humanidade e permanece capaz de, com a gra\u00e7a de Deus, se reacender em caminhos de convers\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o. Viktor Frankl afirmava, com raz\u00e3o, que nos momentos de horror acab\u00e1mos por \u00abconhecer o ser humano como ele realmente \u00e9. Afinal de contas, o Homem \u00e9 esse ser que inventou as c\u00e2maras de g\u00e1s de Auschwitz; no entanto, \u00e9 igualmente o ser que entrou nas c\u00e2maras de g\u00e1s de cabe\u00e7a erguida, com o Pai Nosso ou o Shema Yisrael nos l\u00e1bios\u00bb. [133]<br \/>\n122. A finitude, quando \u00e9 acolhida na verdade, n\u00e3o empobrece o ser humano, mas abre-o ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro. Ali\u00e1s, precisamente porque experimenta os limites \u2013 a vulnerabilidade, a dor, o insucesso \u2013, ele pode reconhecer como inviol\u00e1vel a sua dignidade e a dos outros. E, na mesma experi\u00eancia dos limites, continua capaz de intuir uma fraternidade maior do que ele pr\u00f3prio e de reconhecer a injusti\u00e7a como esc\u00e2ndalo. A cultura e a arte, quando aut\u00eanticas, conservam esta centelha, impedindo a normaliza\u00e7\u00e3o do mal. Assim, algumas obras assumiram um valor quase prof\u00e9tico: a Nona Sinfonia de Beethoven, enquanto desejo de unidade; o quadro Guernica, enquanto den\u00fancia da desumaniza\u00e7\u00e3o; o filme A Lista de Schindler, enquanto convite a n\u00e3o deixar cair o passado no esquecimento.<br \/>\n123. A hist\u00f3ria n\u00e3o se apresenta apenas como o cat\u00e1logo das nossas viol\u00eancias, mas como a prova de que o ser humano \u00e9 capaz de criar institui\u00e7\u00f5es capazes de proteger a vida em comum. Vemos isso em alguns marcos emblem\u00e1ticos dos \u00faltimos dois s\u00e9culos: o nascimento do Comit\u00e9 Internacional da Cruz Vermelha (1863), cuja neutralidade operacional garante cuidados compassivos a todos; o longo processo que conduziu \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, que n\u00e3o foi uma simples altera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, mas uma mudan\u00e7a de consci\u00eancia; a funda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas(1945) e a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos (1948), que estabeleceram uma linguagem comum para afirmar, pelo menos como ideal partilhado, que a dignidade \u00e9 universal; a Conven\u00e7\u00e3o relativa ao estatuto dos refugiados (1951), que reconhece o dever de prote\u00e7\u00e3o a quem foge de persegui\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as. Nestes exemplos, o desejo do bem traduz-se concretamente em formas p\u00fablicas \u2013 normas, institui\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas \u2013 capazes de limitar a for\u00e7a e defender as pessoas vulner\u00e1veis. Nada disso, por\u00e9m, surgiu sem ser contestado por resist\u00eancias, interesses mesquinhos e in\u00e9rcias culturais. As conquistas morais assumem quase sempre a forma de um caminho longo e \u00e1rduo, marcado tamb\u00e9m por retrocessos: pensemos nos processos de paz interrompidos ou nos compromissos ambientais aplicados com lentid\u00e3o. E, no entanto, \u00e9 precisamente a fragilidade destes resultados que demonstra o qu\u00e3o preciosa \u00e9 a responsabilidade daqueles que os iniciam e sustentam.<br \/>\n124. Alguns acontecimentos ajudam a ver que a hist\u00f3ria pode mudar quando mesmo um s\u00f3 homem ou mulher leva realmente a s\u00e9rio a dignidade de todos: o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, ligado tamb\u00e9m ao testemunho de Martin Luther King Jr., ou o fim do apartheid na \u00c1frica do Sul ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela e a sua decis\u00e3o de n\u00e3o entregar ao \u00f3dio o futuro. Em contextos diferentes, destacaram-se tamb\u00e9m mulheres corajosas e generosas como Santa Laura Montoya, Santa Teresa de Calcut\u00e1, Dorothy Day, Marie Sk\u0142odowska-Curie, Maria Montessori, Elisabeth Elliot, Wangari Maathai, Benazir Bhutto e muitas outras de todos os continentes, que contribu\u00edram com o seu empenho para tornar a hist\u00f3ria mais humana.<br \/>\n125. A par destes sinais p\u00fablicos, existe uma trama mais oculta, mas decisiva: as comunidades religiosas que escolhem lugares pobres e perigosos; os m\u00e1rtires da fraternidade e da justi\u00e7a, como S\u00e3o Maximiliano Maria Kolbe, S\u00e3o \u00d3scar Romero e o Beato Enrique Angelelli, ao lado de testemunhas que encarnaram, em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e muitas vezes desumanas, a esperan\u00e7a do Evangelho e a dignidade do homem, como o Vener\u00e1vel Fran\u00e7ois-Xavier Nguy\u1ec5n V\u0103n Thu\u1eadn. E, sobretudo, os \u201cm\u00e1rtires do quotidiano\u201d que cuidam, educam, acompanham e consolam sem alarde, como os pais, os enfermeiros, os m\u00e9dicos, os volunt\u00e1rios, as pessoas que permanecem ao lado dum idoso ou dum exclu\u00eddo. O testemunho deles mostra que o bem n\u00e3o acontece automaticamente, mas requer perseveran\u00e7a, mem\u00f3ria, e uma convers\u00e3o que nos permite recome\u00e7ar mesmo ap\u00f3s as derrotas.<br \/>\n126. \u00c9 precisamente esta interconex\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es justas, testemunhos fidedignos e fidelidades quotidianas, que mant\u00e9m viva a esperan\u00e7a e indica uma dire\u00e7\u00e3o: permitir o crescimento da t\u00e9cnica sem deixar regredir o cora\u00e7\u00e3o. Por isso, a humanidade \u2013 magn\u00edfica e ferida \u2013 n\u00e3o deve ser substitu\u00edda nem superada: pode acolher os progressos da t\u00e9cnica para aliviar os sofrimentos e abrir novas possibilidades, desde que n\u00e3o renuncie ao que lhe permite ser ela mesma, ou seja, \u00e0 capacidade de rela\u00e7\u00e3o e amor. A este ponto, imp\u00f5e-se uma quest\u00e3o decisiva: se existe um aut\u00eantico \u201cmais que humano\u201d, onde se encontra? A f\u00e9 crist\u00e3 responde indicando uma plenitude que n\u00e3o deriva duma diviniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas daquela realizada pela gra\u00e7a de Deus recebida em Cristo.<br \/>\nO verdadeiro \u201cmais que humano\u201d: gra\u00e7a e humanismo crist\u00e3o<br \/>\n127. A express\u00e3o \u201cmais que humano\u201d n\u00e3o pertence apenas \u00e0 linguagem das promessas da tecnologia. H\u00e1 s\u00e9culos que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 afirma que o ser humano n\u00e3o est\u00e1 confinado aos limites da pr\u00f3pria natureza, mas \u00e9 chamado a transcender-se a si mesmo: n\u00e3o para fugir da realidade ou por desprezo dos limites, mas para se realizar no amor. A f\u00e9 conhece um \u201cal\u00e9m\u201d que nasce do dom de Deus. Esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo. Como ensinava S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, este processo de eleva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o \u00abultrapassa a capacidade da natureza\u00bb [134], porque existe uma dist\u00e2ncia infinita [135] entre a nossa natureza e a vida de Deus. Todavia, mesmo enquanto caminhamos entre os limites deste mundo, \u00e9 poss\u00edvel inserir-nos no seio dessa vida inesgot\u00e1vel. E quem torna poss\u00edvel este caminho n\u00e3o pode ser sen\u00e3o o Infinito, que se doa: \u00e9 o pr\u00f3prio Deus quem supera a despropor\u00e7\u00e3o \u201cinfinita\u201d. [136] Assim se realiza a recria\u00e7\u00e3o do ser humano: \u00abSe algu\u00e9m est\u00e1 em Cristo, \u00e9 uma nova cria\u00e7\u00e3o. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas\u00bb ( 2 Cor 5, 17).<br \/>\n128. Quando aceitamos esta possibilidade de nos transcendermos a n\u00f3s mesmos com a gra\u00e7a de Deus, n\u00e3o nos negamos a n\u00f3s pr\u00f3prios nem nos tornamos menos humanos. Pelo contr\u00e1rio, como explicava o Papa Francisco, \u00abchegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para al\u00e9m de n\u00f3s mesmos a fim de alcan\u00e7armos o nosso ser mais verdadeiro\u00bb. [137] Aqui reside a diferen\u00e7a radical em rela\u00e7\u00e3o aos sonhos prometeicos: o que salva o ser humano n\u00e3o \u00e9 a autossufici\u00eancia aperfei\u00e7oada, mas uma rela\u00e7\u00e3o que liberta, uma comunh\u00e3o que transforma. Perante isto, uma tecnologia que classifica e otimiza o que j\u00e1 existe pode tornar-se, sem querer, um obst\u00e1culo \u00e0 mudan\u00e7a e ao crescimento. Para um algoritmo, o erro \u00e9 algo a corrigir; para uma pessoa, pode ser o in\u00edcio de uma mudan\u00e7a profunda. O futuro de uma pessoa n\u00e3o \u00e9 calcul\u00e1vel, mas est\u00e1 confiado aos la\u00e7os que cultiva e \u00e0 sua liberdade, elevada pela inesgot\u00e1vel gra\u00e7a divina.<br \/>\nDuas cidades e dois amores<br \/>\n129. O humanismo crist\u00e3o n\u00e3o rejeita a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica: acolhe-as com gratid\u00e3o e realismo, inserindo-as, \u201ccom os p\u00e9s bem assentes na terra\u201d, numa voca\u00e7\u00e3o mais elevada. A intelig\u00eancia criativa do ser humano \u00e9 um dom que pode aliviar sofrimentos e abrir novas possibilidades, mas deve permanecer orientada ao bem comum, \u00e0 justi\u00e7a, ao cuidado dos mais fr\u00e1geis e da cria\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a verdadeira alternativa n\u00e3o \u00e9 entre entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de constru\u00e7\u00e3o: um progresso que serve \u00e0 pessoa e aos povos, ou um progresso que os submete \u00e0s l\u00f3gicas de poder. Em \u00faltima an\u00e1lise, a quest\u00e3o decisiva continua a ser a que indicou S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II: a IA torna \u00aba vida humana sobre a terra, em todos os seus aspectos, \u201cmais humana\u201d? Torna-a mais \u201cdigna do homem\u201d?\u00bb. [138] Se a resposta for \u201csim\u201d, ent\u00e3o podemos reconhecer nela uma boa possibilidade a ser vivida com responsabilidade, num caminho de reconstru\u00e7\u00e3o paciente e partilhada, segundo o modelo do renascimento de Jerusal\u00e9m narrado no livro de Neemias. Se, pelo contr\u00e1rio, o poder cresce enquanto o cora\u00e7\u00e3o seca e os la\u00e7os se rompem, ent\u00e3o estamos diante duma nova forma de Babel: uma constru\u00e7\u00e3o grandiosa, mas desumana.<br \/>\n130. Questionar-nos sobre esta alternativa de progresso e sobre o nosso modo de o interpretar e viver, no fundo significa sempre questionar-nos tamb\u00e9m sobre o nosso cora\u00e7\u00e3o. Com efeito, a forma como pensamos e estruturamos as rela\u00e7\u00f5es, o trabalho e as institui\u00e7\u00f5es, revela os nossos valores fundamentais e, em \u00faltima an\u00e1lise, nasce daquilo que nos \u00e9 mais caro. \u00c9 um amor que nos guia: o que, enquanto indiv\u00edduos e enquanto sociedade, amamos verdadeiramente orienta a nossa vida e a\u00e7\u00f5es. Santo Agostinho descreve a hist\u00f3ria humana como um campo de batalha entre dois amores, que constru\u00edram duas formas de habitar o mundo e de conviver, duas \u201ccidades\u201d: por um lado, o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo; por outro, o amor exclusivo a si mesmo. \u00abDois amores fizeram as duas cidades: o amor de si at\u00e9 ao desprezo de Deus \u2013 a terrestre; o amor de Deus at\u00e9 ao desprezo de si \u2013 a celeste\u00bb. [139] Como em toda a hist\u00f3ria humana, tamb\u00e9m hoje estes dois amores lutam no nosso cora\u00e7\u00e3o pelo predom\u00ednio. A era da IA n\u00e3o escapa a esta regra: a constru\u00e7\u00e3o de Babel ou a de Jerusal\u00e9m come\u00e7a em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO IV<br \/>\nSALVAGUARDAR O HUMANO NA TRANSFORMA\u00c7\u00c3O<br \/>\nVERDADE, TRABALHO, LIBERDADE<br \/>\n131. Depois de tra\u00e7ado o horizonte no qual se situa o desafio da transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, particularmente ligado \u00e0 IA e \u00e0s correntes transumanistas e p\u00f3s-humanistas, n\u00e3o podemos limitar-nos a an\u00e1lises gerais. Quando as linguagens e os instrumentos mudam, alteram-se tamb\u00e9m os gestos quotidianos e as rela\u00e7\u00f5es sociais. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio deter-nos nalguns \u00e2mbitos em que essas transforma\u00e7\u00f5es t\u00eam repercuss\u00f5es muito concretas e, por vezes, dram\u00e1ticas. \u00c0 luz dos princ\u00edpios da Doutrina social da Igreja, a transforma\u00e7\u00e3o digital exige-nos a redescoberta da verdade como bem comum, a tutela da dignidade do trabalho e a salvaguarda da liberdade contra todas as formas de depend\u00eancia e mercantiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA verdade como bem comum<br \/>\nVerdade e democracia<br \/>\n132. A utiliza\u00e7\u00e3o de plataformas digitais e sistemas de IA acelera mudan\u00e7as profundas na comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica e pol\u00edtica. Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participa\u00e7\u00e3o s\u00e3o frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distin\u00e7\u00f5es entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opini\u00f5es. A desinforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o surge com a IA, embora nela encontre hoje um poderoso multiplicador. A possibilidade de manipular conte\u00fados, imagens e v\u00eddeos exp\u00f5e os cidad\u00e3os a perspectivas parciais ou enganosas. O problema diz respeito \u00e0 dimens\u00e3o cultural e moral, uma vez que a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica depende diretamente da confian\u00e7a social e tem impacto sobre ela. Com efeito, uma informa\u00e7\u00e3o verdadeira n\u00e3o surge dum controle centralizado ou automatizado. No discurso p\u00fablico, a verdade factual tem uma dimens\u00e3o racional, uma vez que requer averigua\u00e7\u00e3o, correspond\u00eancia com as fontes e responsabilidade argumentativa; mas \u00e9, sobretudo, relacional: constr\u00f3i-se atrav\u00e9s de v\u00ednculos de confian\u00e7a e experi\u00eancias partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo. S\u00f3 a busca partilhada da verdade factual, assumida como bem comum, pode dar origem a uma correta comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n133. Quem disp\u00f5e de importantes recursos t\u00e9cnicos e econ\u00f3micos \u2013 e, com estes, tamb\u00e9m de muitos recursos humanos para intervir \u2013 tem uma grande capacidade de desencadear mudan\u00e7as culturais e, em \u00faltima an\u00e1lise, de convencer um significativo n\u00famero de pessoas sobre qual \u00e9 a verdade a respeito do ser humano, do mundo, do sentido da exist\u00eancia, da fam\u00edlia e at\u00e9 mesmo de Deus. Este \u00e9 puro poder desprovido de verdade, que imp\u00f5e sutil ou claramente aquilo que deseja que os outros considerem como verdadeiro. Por tr\u00e1s de tudo isto est\u00e1 uma raiz maligna dif\u00edcil de reconhecer: \u00abo homem moderno convence-se, erroneamente, de que \u00e9 o \u00fanico autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presun\u00e7\u00e3o, resultante do encerramento ego\u00edsta em si mesmo\u00bb. [140] Por isso, ele pensa que consegue construir a realidade e que \u00e9 v\u00e1lido o que melhor se adapta \u00e0s suas pretens\u00f5es. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II refletiu sobre as consequ\u00eancias da \u201ccrise em torno da verdade\u201d, chegando a afirmar que, \u00abperdida a ideia de uma verdade universal sobre o bem, cognosc\u00edvel pela raz\u00e3o humana, mudou tamb\u00e9m inevitavelmente a conce\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia\u00bb. [141] Assim, vem a faltar o reconhecimento de verdades universalmente v\u00e1lidas que nos precedem e que a consci\u00eancia deve aceitar. Isto levou o Papa Francisco a questionar-se de forma realista: \u00abQue \u00e9 a lei sem a convic\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ada atrav\u00e9s dum longo caminho de reflex\u00e3o e sabedoria, de que cada ser humano \u00e9 sacro e inviol\u00e1vel?\u00bb, e a concluir: \u00abPara que uma sociedade tenha futuro, \u00e9 preciso ter maturado um vivo respeito pela verdade da dignidade humana, \u00e0 qual nos submetemos. Ent\u00e3o abster-se-\u00e1 de matar algu\u00e9m, n\u00e3o apenas para evitar o desprezo social e o peso da lei, mas por convic\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma verdade irrenunci\u00e1vel que reconhecemos com a raz\u00e3o e aceitamos com a consci\u00eancia. Uma sociedade \u00e9 nobre e respeit\u00e1vel, nomeadamente porque cultiva a busca da verdade e pelo seu apego \u00e0s verdades fundamentais\u00bb. [142]<br \/>\n134. A busca da verdade \u00e9 um elemento essencial para a democracia, que \u00e9, ela pr\u00f3pria, um instrumento de participa\u00e7\u00e3o no bem comum. Quando a quest\u00e3o sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se d\u00e1 por contente com o que parece \u00fatil ou eficaz, a vida democr\u00e1tica enfraquece. Com efeito, ela n\u00e3o se nutre apenas de regras e procedimentos, mas, principalmente, de uma leal rela\u00e7\u00e3o com os acontecimentos e de uma orienta\u00e7\u00e3o efetiva para o bem das pessoas e do corpo social. O desinteresse pela verdade leva, lenta mas inexoravelmente, a deslizar para o totalitarismo, segundo o qual o s\u00fabdito ideal, como escreveu a fil\u00f3sofa Hannah Arendt, n\u00e3o \u00e9 tanto aquele ideologicamente convencido, mas \u00abaquele para quem j\u00e1 n\u00e3o existe a diferen\u00e7a entre o facto e a fic\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, a realidade da experi\u00eancia), nem a diferen\u00e7a entre verdadeiro e falso (que constituem os crit\u00e9rios do pensamento)\u00bb. [143]<br \/>\nComunica\u00e7\u00e3o e imagin\u00e1rio coletivo<br \/>\n135. Neste horizonte, \u00e9 importante recordar que a comunica\u00e7\u00e3o \u00abn\u00e3o \u00e9 apenas a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, mas a cria\u00e7\u00e3o de uma cultura\u00bb. [144] Os conte\u00fados que circulam nos ambientes digitais influenciam o modo como as pessoas percebem o mundo, introduzindo na consci\u00eancia coletiva imagens e narrativas que orientam os desejos e influenciam as escolhas quotidianas. \u00abN\u00e3o \u00e9 um mundo paralelo ou puramente virtual\u00bb, [145] porque o que surge na rede passa a fazer parte da vida das pessoas, sobretudo dos mais jovens.<br \/>\n136. Por isso, quem det\u00e9m o controle das plataformas digitais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o possui uma enorme capacidade de influenciar o imagin\u00e1rio coletivo e de apresentar como desej\u00e1vel uma determinada vis\u00e3o da realidade. \u00c9 um poder que exige ser continuamente iluminado pela busca da verdade e pelo respeito pela dignidade humana, para que a cultura que se gera na rede n\u00e3o se torne um instrumento de distra\u00e7\u00e3o excessiva, de homogeneiza\u00e7\u00e3o e de dom\u00ednio, mas um espa\u00e7o onde possam amadurecer a liberdade interior e o pensamento cr\u00edtico.<br \/>\nPor uma ecologia da comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\n137. A nossa primeira tarefa consiste em n\u00e3o demonizar nem idolatrar os instrumentos, mas em orient\u00e1-los a partir dum ponto de refer\u00eancia: a verdade \u00e9 um bem comum e n\u00e3o propriedade daqueles que det\u00eam poder ou visibilidade. Importa, pois, promover uma ecologia da comunica\u00e7\u00e3o: quanto \u00e0s regras p\u00fablicas, isso significa estabelecer normas que tornem mais transparentes as l\u00f3gicas de sele\u00e7\u00e3o e amplifica\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados, e que protejam os dados pessoais; por outro lado, quanto ao \u00e2mbito social e cultural, implica o refor\u00e7o dos organismos interm\u00e9dios, um jornalismo s\u00e9rio e espa\u00e7os de debate onde prevale\u00e7am a argumenta\u00e7\u00e3o e a averigua\u00e7\u00e3o, em vez da rea\u00e7\u00e3o impulsiva; quanto \u00e0 escola e \u00e0 fam\u00edlia, o amadurecer da exig\u00eancia duma nova consci\u00eancia educativa e o formar para a utiliza\u00e7\u00e3o correta e cr\u00edtica das ferramentas digitais, da IA e das plataformas de compra e investimento; quanto \u00e0 universidade, o grande desafio da integra\u00e7\u00e3o dos saberes, preparando tanto a capacidade de relacionar e fundir os conhecimentos para interpretar a complexidade, como as t\u00e9cnicas para averiguar os acontecimentos.<br \/>\n138. Tamb\u00e9m as comunidades crist\u00e3s devem empenhar-se numa comunica\u00e7\u00e3o transparente e na busca fiel da verdade dos factos. Infelizmente, nem sempre foi assim. Assistimos com vergonha \u00e0 dif\u00edcil descoberta de verdades dolorosas, tamb\u00e9m sobre membros da Igreja e realidades eclesiais. De modo particular, alguns jornalistas apaixonados pela verdade desempenharam um papel fundamental em trazer \u00e0 luz injusti\u00e7as e abusos. Gostaria de lhes repetir as palavras que disse o Papa Francisco, dirigindo-se aos vaticanistas: \u00abAgrade\u00e7o-vos inclusive pelo que narrais sobre quanto n\u00e3o funciona na Igreja, pela vossa ajuda a n\u00e3o o esconder debaixo do tapete e pela voz que destes \u00e0s v\u00edtimas de abusos\u00bb. [146] Todavia, a vigil\u00e2ncia e a transpar\u00eancia s\u00e3o, em primeiro lugar, uma grave responsabilidade da pr\u00f3pria Igreja e n\u00e3o devemos aguardar que outros nos obriguem a enfrentar verdades inc\u00f3modas sobre n\u00f3s pr\u00f3prios.<br \/>\nUma alian\u00e7a educativa para a era digital<br \/>\n139. Numa \u00e9poca em que a verdade est\u00e1 frequentemente submetida a interesses e estrat\u00e9gias comunicativas, o mundo da educa\u00e7\u00e3o assume uma import\u00e2ncia decisiva. No entanto, as r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas evidenciam o quanto n\u00e3o estamos preparados a n\u00edvel educativo. A propaga\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o digitais gera uma cultura do imediato e da hiperestimula\u00e7\u00e3o, que fomenta cansa\u00e7o, t\u00e9dio e apatia face ao esfor\u00e7o necess\u00e1rio para procurar a verdade.<br \/>\n140. Em contrapartida, os processos educativos requerem um tempo de matura\u00e7\u00e3o, de confronto com a realidade que vai al\u00e9m das apar\u00eancias, e um caminho de paci\u00eancia. A quest\u00e3o \u00e9 fundamental, pois toda a tecnologia educa quem a utiliza. Educar para o uso da IA implica, portanto, educar para decidir quando e em que situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o a utilizar. A rapidez e a facilidade com que se obt\u00e9m uma resposta ou uma s\u00edntese correm o risco de extinguir o desejo de colocar perguntas, o qual d\u00e1 frutos s\u00f3 a longo prazo. Como escreve Plat\u00e3o, as coisas mais profundas e importantes s\u00f3 se aprendem depois de muito tempo e esfor\u00e7o, no empenho em discutir com os outros para \u201cfriccionar\u201d, como numa pederneira, os conceitos e as experi\u00eancias, at\u00e9 saltar em n\u00f3s a centelha da compreens\u00e3o. [147] Devemos educar-nos ao jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da m\u00e1quina perfeita, daquela subtil sedu\u00e7\u00e3o que parece tornar o pensamento humano in\u00fatil precisamente quando \u00e9 mais necess\u00e1rio.<br \/>\n141. Nos \u00faltimos anos, a literatura psicol\u00f3gica e psiqui\u00e1trica tem documentado, com crescente insist\u00eancia, como uma exposi\u00e7\u00e3o precoce e n\u00e3o supervisionada a dispositivos digitais e redes sociais pode afetar negativamente o sono, a aten\u00e7\u00e3o, a regula\u00e7\u00e3o emocional e as rela\u00e7\u00f5es, sobretudo nas idades mais vulner\u00e1veis, com consequ\u00eancias por vezes dram\u00e1ticas. A isto soma-se a facilidade de acesso a cenas violentas ou cru\u00e9is, que ferem a sensibilidade; a conte\u00fados pornogr\u00e1ficos e hipersexualizados; a mensagens que banalizam o corpo e a afetividade; e a propostas que normalizam comportamentos de risco. Na rede, n\u00e3o s\u00e3o raros os fen\u00f3menos de ass\u00e9dio, chantagem e explora\u00e7\u00e3o sexual de menores, ainda mais insidiosos pelo uso de perfis falsos, de algoritmos que amplificam contactos perigosos e de ferramentas de IA capazes de manipular imagens e v\u00eddeos. A posse prematura dum telem\u00f3vel pessoal e a sua utiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o controlada por adultos podem acentuar fragilidades e favorecer depend\u00eancias nos adolescentes, expondo-os a din\u00e2micas de isolamento, de bullying e ciberbullying, bem como a press\u00f5es para partilhar imagens \u00edntimas ou dados sens\u00edveis.<br \/>\n142. Para os pais, \u00e9 dif\u00edcil resistir sozinhos \u00e0 influ\u00eancia de modelos de neg\u00f3cio que capitalizam a aten\u00e7\u00e3o e o tempo. Por isso, \u00e9 indispens\u00e1vel uma alian\u00e7a entre pol\u00edtica, institui\u00e7\u00f5es educativas e fam\u00edlias, capaz de apoiar concretamente os adultos na sua tarefa. Quando o interesse imediato das plataformas \u2013 concentradas nas m\u00e3os de poucos \u2013 entra em conflito com o bem-estar dos menores, \u00e9 necess\u00e1rio opor-se-lhe com decis\u00f5es p\u00fablicas clarividentes. Nessa perspectiva, s\u00e3o oportunas medidas legislativas que estabele\u00e7am limites de idade, responsabilizem os prestadores de servi\u00e7os \u2013 sem delegar nas fam\u00edlias o \u00f3nus da limita\u00e7\u00e3o \u2013 e prevejam tutelas espec\u00edficas contra todas as formas de explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia sexual na rede, de modo a proteger verdadeiramente a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia como bens preciosos, confiados ao nosso cuidado. [148] Ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio educar as crian\u00e7as, os adolescentes e os jovens para que aprendam a identificar as manipula\u00e7\u00f5es, a defender a sua dignidade e a respeitar a dos outros, inclusivamente nos ambientes digitais. [149]<br \/>\nCentralidade da escola<br \/>\n143. A escola \u00e9 o local onde as novas gera\u00e7\u00f5es podem aprender a procurar e amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa. Por isso, muitos pais, desejosos que os filhos cres\u00e7am capazes de rela\u00e7\u00f5es, dotados de esp\u00edrito cr\u00edtico e com valores s\u00f3lidos, depositam nela grandes expectativas, como aliada preciosa na educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Cabe aos pais, efetivamente, o direito fundamental e inalien\u00e1vel de escolher o tipo de instru\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o a transmitir aos filhos, em conformidade com as suas convic\u00e7\u00f5es morais, culturais e religiosas. O mundo escolar enfrenta, hoje, alguns desafios inadi\u00e1veis.<br \/>\n144. O primeiro desafio \u00e9 sociopol\u00edtico. Tanto dentro de cada pa\u00eds como entre diferentes regi\u00f5es do mundo, persistem fortes desigualdades no acesso \u00e0 escolaridade b\u00e1sica e ao ensino superior. Em muitos pa\u00edses, o Estado ainda n\u00e3o investiu os recursos necess\u00e1rios para garantir a todos uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade, seja apoiando adequadamente o ensino p\u00fablico, seja ajudando as institui\u00e7\u00f5es privadas que disponibilizam este servi\u00e7o fundamental. Quando uma parte significativa da instru\u00e7\u00e3o, a v\u00e1rios n\u00edveis, est\u00e1 confiada a institui\u00e7\u00f5es privadas, pode acontecer que o acesso \u00e0 escola, na aus\u00eancia dum devido apoio p\u00fablico, dependa excessivamente das possibilidades econ\u00f3micas das fam\u00edlias. Perante este risco, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer e apoiar o contributo de muitas obras educativas cat\u00f3licas que, mesmo sendo institui\u00e7\u00f5es privadas, garantem um acolhimento inclusivo a crian\u00e7as e jovens de todas as origens, mesmo quando as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas das fam\u00edlias n\u00e3o o permitiriam.<br \/>\n145. O segundo grande desafio \u00e9 pedag\u00f3gico. Muitos sistemas formativos sentem dificuldade em se ir atualizando ao ritmo das mudan\u00e7as e em garantir um crescimento integral aos alunos. O desenvolvimento das tecnologias inform\u00e1ticas e da IA torna rapidamente inadequados os programas de estudos concebidos para uma outra \u00e9poca, enquanto a organiza\u00e7\u00e3o da escola, os espa\u00e7os, os m\u00e9todos de avalia\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria figura do professor pedem para ser repensados no sentido de uma educa\u00e7\u00e3o verdadeiramente integral, aberta a todas as dimens\u00f5es da pessoa. \u00c9 necess\u00e1rio apoiar a forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos docentes ao longo de toda a vida profissional, para que saibam dialogar de forma positiva com as novas tecnologias, ajudando os alunos a us\u00e1-las de modo respons\u00e1vel, cr\u00edtico e criativo, sem apenas se submeterem, de modo passivo, \u00e0 sua influ\u00eancia.<br \/>\n146. O terceiro grande desafio \u00e9 intelectual e sapiencial. Se n\u00e3o estivermos atentos, pode formar-se um sistema educativo desprovido de amor \u00e0 verdade, no qual o fluxo incessante de informa\u00e7\u00f5es substitui o exerc\u00edcio de investiga\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o e discernimento. Multiplicam-se os conhecimentos fragmentados, mas torna-se mais dif\u00edcil captar a realidade no seu todo, colocar quest\u00f5es de sentido e desenvolver um aut\u00eantico pensamento cr\u00edtico e criativo. Muitos educadores intuem j\u00e1 sinais duma poss\u00edvel desumaniza\u00e7\u00e3o, em que as pessoas \u201csabem muitas coisas\u201d, mas t\u00eam dificuldade em conservar o horizonte de sentido e em orientar a pr\u00f3pria vida, tamb\u00e9m devido \u00e0 incapacidade de relacionar informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos. \u00c9 necess\u00e1rio promover uma verdadeira higiene da aten\u00e7\u00e3o: ritmos que prevejam sil\u00eancio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado. Sem estes elementos, a liberdade interior pode ficar comprometida.<br \/>\n147. A Doutrina social da Igreja convida fam\u00edlias, escolas, comunidades crist\u00e3s e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a uma renovada alian\u00e7a educativa. Ela concretiza-se quando os princ\u00edpios fundamentais se traduzem em metas educativas: educar para a sobriedade e o sentido do limite; educar para o reconhecimento do direito do outro e de quem vir\u00e1 depois de n\u00f3s a usufruir dos bens que nos s\u00e3o doados ou que o engenho humano disponibiliza; educar para a liberdade e a responsabilidade; educar para o sentido da transcend\u00eancia e para o bem comum. A escola n\u00e3o \u00e9 chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer aquilo que o digital, por si s\u00f3, n\u00e3o consegue: tempo partilhado para aprender e rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a.<br \/>\nA dignidade do trabalho na transi\u00e7\u00e3o digital<br \/>\nO valor do trabalho<br \/>\n148. Desde as origens da Doutrina social, com a Rerum novarum, a Igreja tem chamado a aten\u00e7\u00e3o para a prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e para a necessidade de combater qualquer tipo de explora\u00e7\u00e3o. Mas, sobretudo, o Magist\u00e9rio reconheceu no trabalho \u00aba chave essencial\u00bb [150] para compreender toda a quest\u00e3o social, pois atrav\u00e9s dele a pessoa desenvolve muitas dimens\u00f5es da sua exist\u00eancia. Nesta perspectiva, compreende-se tamb\u00e9m a grande intui\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bento de N\u00farsia, que uniu ora\u00e7\u00e3o e trabalho, indicando a atividade quotidiana como parte da resposta da pessoa ao chamamento de Deus. Feitos \u00e0 imagem do Criador, por meio das nossas obras, prolongamos de certa forma a sua: contribu\u00edmos para o progresso da sociedade e para a constru\u00e7\u00e3o do bem comum, fazemos frutificar as capacidades recebidas, melhoramos e embelezamos o mundo, sustentamos as nossas fam\u00edlias, entramos em rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o e, na escuta e no di\u00e1logo, aprendemos a construir juntos algo que ningu\u00e9m poderia fazer sozinho.<br \/>\n149. Por estas raz\u00f5es, o trabalho n\u00e3o \u00e9 um mero instrumento, mas expressa e enriquece a dignidade da nossa vida. \u00c9 uma exig\u00eancia inscrita na condi\u00e7\u00e3o humana, um ordin\u00e1rio caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Nesta perspectiva, por vezes e em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, s\u00e3o necess\u00e1rios apoios econ\u00f3micos para os pobres, embora n\u00e3o possam tornar-se a \u00fanica resposta, pois o objetivo \u00e9 dar a cada um condi\u00e7\u00f5es para viver dignamente atrav\u00e9s do pr\u00f3prio trabalho. [151]<br \/>\n150. Atualmente, o entrecruzar-se de automa\u00e7\u00e3o, rob\u00f3tica e IA est\u00e1 a transformar rapidamente a pr\u00f3pria estrutura do trabalho. Diz-se que isto trar\u00e1 grandes melhorias para todos. Na realidade, as \u201cnovas formas\u201d de trabalhar n\u00e3o s\u00e3o necessariamente melhores, porque \u00abenquanto a IA promete impulsionar a produtividade encarregando-se das tarefas ordin\u00e1rias, os trabalhadores s\u00e3o frequentemente obrigados a adaptar-se \u00e0 velocidade e \u00e0s exig\u00eancias das m\u00e1quinas, em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha. Assim, contrariamente aos publicitados benef\u00edcios da IA, as abordagens atuais \u00e0 tecnologia podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, submet\u00ea-los a uma vigil\u00e2ncia automatizada e releg\u00e1-los a fun\u00e7\u00f5es r\u00edgidas e repetitivas. A necessidade de acompanhar a tecnologia pode minar o sentido da pr\u00f3pria capacidade de agir dos trabalhadores e sufocar as capacidades inovadoras que s\u00e3o chamados a imprimir no seu trabalho\u00bb. [152] Precisamente para evitar esta deriva, \u00e9 necess\u00e1rio conceber sistemas centrados na pessoa e n\u00e3o apenas no desempenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema do desemprego<br \/>\n151. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II recordou que o desemprego \u00e9 um mal grave e, sobretudo quando assume propor\u00e7\u00f5es massivas, pode tornar-se uma verdadeira calamidade social, que interpela de modo especial a responsabilidade do Estado. [153] Hoje, na \u201cquarta revolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d, esta preocupa\u00e7\u00e3o torna-se mais premente, uma vez que a inova\u00e7\u00e3o \u00e9, frequentemente, entendida em fun\u00e7\u00e3o apenas da redu\u00e7\u00e3o dos custos e do aumento dos lucros. [154] Em alguns contextos, \u00e9 realista temer-se uma significativa e r\u00e1pida contra\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho dispon\u00edveis, com um efeito em cadeia que afeta profundamente fam\u00edlias, jovens e economias locais. Em v\u00e1rios setores, isto traduz-se j\u00e1 em novas formas de precariedade e desigualdade, com remunera\u00e7\u00f5es muito elevadas para uma minoria altamente especializada e sal\u00e1rios sempre mais reduzidos para uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o ativa.<br \/>\n152. \u00c9 desej\u00e1vel que a tecnologia alivie o homem de trabalhos particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofere\u00e7a um apoio inteligente \u00e0 atividade humana; por\u00e9m, o princ\u00edpio geral deve continuar a ser a prote\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho e do papel insubstitu\u00edvel da pessoa. O objetivo de maiores lucros n\u00e3o pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego, pois a pessoa humana \u00e9 um fim e n\u00e3o um meio, e a ordem econ\u00f3mica deve manter-se subordinada \u00e0 sua dignidade e ao bem comum.<br \/>\n153. Temos de reconhecer, ao mesmo tempo, que qualquer transi\u00e7\u00e3o efetiva ocorre de forma descont\u00ednua: \u00e9 desigual, fragmentada e, por vezes, conflituosa. N\u00e3o h\u00e1 um modelo \u00fanico de mudan\u00e7a nem uma solu\u00e7\u00e3o global: existem, sim, territ\u00f3rios e hist\u00f3rias que pedem respostas diversas. Dada a desigualdade que caracteriza o nosso mundo, os efeitos da difus\u00e3o da IA e dos sistemas computacionais s\u00e3o diferentes em v\u00e1rios lugares. As sociedades ricas automatizam-se rapidamente e de forma ca\u00f3tica, reduzindo a necessidade de m\u00e3o de obra, criando \u00e1reas de desemprego e atritos institucionais. Por outro lado, vastas regi\u00f5es do mundo permanecem aprisionadas em economias h\u00edbridas, onde o trabalho humano mal remunerado e as tecnologias parciais coexistem sem nunca se transformarem verdadeiramente. Estes territ\u00f3rios tornam-se reservat\u00f3rios de m\u00e3o de obra prec\u00e1ria, focos de instabilidade e de migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas. As solu\u00e7\u00f5es, portanto, devem ser encontradas a n\u00edvel nacional e local, envolvendo as comunidades interm\u00e9dias. S\u00e3o necess\u00e1rias ferramentas capazes de se adaptar: modelos articulados, experimenta\u00e7\u00f5es locais, redistribui\u00e7\u00f5es progressivas, novos direitos de acesso a bens essenciais. Evitando uma harmonia abstrata, trata-se de construir formas concretas de conviv\u00eancia humana na transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\n154. O trabalho continua a ser uma dimens\u00e3o fundamental da experi\u00eancia humana: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um meio de subsist\u00eancia, mas um lugar de express\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es e contributo para a comunidade. Assim, os problemas ligados ao trabalho n\u00e3o se referem apenas ao rendimento necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias. Uma sociedade que s\u00f3 garantisse emprego a uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o exporia muitos a uma condi\u00e7\u00e3o de inatividade for\u00e7ada, de aus\u00eancia de responsabilidades, de falta de compromissos e est\u00edmulos di\u00e1rios, com consequente empobrecimento humano e cultural, em contraste com o elevado n\u00edvel de desenvolvimento t\u00e9cnico. Encontrar-nos-\u00edamos perante um paradoxo de progresso material e retrocesso antropol\u00f3gico, em que desapareceriam as condi\u00e7\u00f5es para uma paz social justa e est\u00e1vel. Por isso, a Doutrina social da Igreja insiste que o acesso de todos ao trabalho deve continuar a ser um objetivo priorit\u00e1rio das pol\u00edticas p\u00fablicas e dos processos econ\u00f3micos, um crit\u00e9rio para avaliar a qualidade humana de um modelo de desenvolvimento. [155] De resto, nas partes do mundo em que, devido a processos tecnol\u00f3gicos e organizacionais que escapam ao controle democr\u00e1tico, o trabalho tende a diminuir ou a mudar radicalmente, \u00e9 necess\u00e1rio repens\u00e1-lo a ele e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a cidadania, para que a falta de emprego n\u00e3o prejudique a participa\u00e7\u00e3o social.<br \/>\n155. \u00c0 luz desta convic\u00e7\u00e3o, podemos tamb\u00e9m reler a hist\u00f3ria da Doutrina social da Igreja ap\u00f3s a Rerum novarum. As iniciativas que surgiram nesse contexto \u2013 associa\u00e7\u00f5es, sindicatos, cooperativas, obras de assist\u00eancia social \u2013 contribu\u00edram de forma decisiva para melhorar a legisla\u00e7\u00e3o laboral, proteger os mais vulner\u00e1veis e promover condi\u00e7\u00f5es mais humanas. [156] Contudo, hoje e por si s\u00f3, estes instrumentos deixaram de ser suficientes diante das transforma\u00e7\u00f5es provocadas pela IA, pela nova organiza\u00e7\u00e3o dos mercados e por uma competitividade que raramente se preocupa com a sustentabilidade social. \u00c9 necess\u00e1rio um renovado esfor\u00e7o de converg\u00eancia dos respons\u00e1veis pol\u00edticos, das organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores, do mundo do empreendedorismo e da comunidade cient\u00edfica para, em tempo \u00fatil, se elaborarem regras e prote\u00e7\u00f5es adequadas e partilhadas, tamb\u00e9m a n\u00edvel internacional. [157] As organiza\u00e7\u00f5es sindicais, que a Igreja sempre apoiou, s\u00e3o chamadas a abrir-se \u00e0s novas formas de trabalho e aos novos trabalhadores, para os representar e defender num cen\u00e1rio em que, sem escolhas corajosas, se preveem mais pobreza e desigualdades, com uma multid\u00e3o de exclu\u00eddos rodeados por m\u00e1quinas e sistemas automatizados que usurparam o seu lugar.<br \/>\n156. Nesta transi\u00e7\u00e3o, quando os postos de trabalho desaparecem, n\u00e3o basta reagir, mas \u00e9 necess\u00e1rio gerir antecipadamente a transforma\u00e7\u00e3o. Uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel consiste, desde logo, em estabelecer crit\u00e9rios sociais para a inova\u00e7\u00e3o: a introdu\u00e7\u00e3o de automa\u00e7\u00e3o e IA deve ser acompanhada por escolhas verific\u00e1veis em mat\u00e9ria de prote\u00e7\u00e3o do emprego, requalifica\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, para que a tecnologia se destine a libertar tempo e capacidades humanas, e n\u00e3o a gerar exclus\u00e3o. Em segundo lugar, \u00e9 necess\u00e1rio lutar por pol\u00edticas ativas que tornem acess\u00edveis a todos a forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e as transi\u00e7\u00f5es profissionais, sem descarregar nos indiv\u00edduos o custo da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es. Por fim, \u00e9 necess\u00e1ria uma responsabilidade empresarial que, entre os indicadores do sucesso, inclua a qualidade e a dignidade do trabalho. Quando estas condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o garantidas, a inova\u00e7\u00e3o pode tornar-se aliada dum trabalho mais seguro, criativo e digno; quando falham, tende a transformar-se num acelerador da injusti\u00e7a.<br \/>\nUma economia que valorize a dignidade<br \/>\n157. O mercado do trabalho \u00e9 uma das \u00e1reas na qual, com maior evid\u00eancia, se manifestam os riscos das novas tecnologias. \u00c9, por isso, necess\u00e1rio recordar que a liberdade econ\u00f3mica n\u00e3o \u00e9 absoluta e deve ser sempre avaliada \u00e0 luz do bem comum e da dignidade de cada pessoa. A iniciativa empreendedora pode ser uma verdadeira voca\u00e7\u00e3o, capaz de gerar riqueza e melhorar a vida de todos, desde que reconhe\u00e7a a cria\u00e7\u00e3o de trabalho digno e de valor como parte essencial do pr\u00f3prio servi\u00e7o \u00e0 sociedade e n\u00e3o como uma vari\u00e1vel dependente apenas do lucro. [158]<br \/>\n158. Com esp\u00edrito prof\u00e9tico, o Papa Francisco alertou para o perigo duma liberdade econ\u00f3mica apenas te\u00f3rica, quando as condi\u00e7\u00f5es concretas impedem que muitos beneficiem verdadeiramente dela. [159] Os modelos econ\u00f3micos que exaltam a efici\u00eancia e o sucesso individual tendem a considerar in\u00fatil ou pouco conveniente investir nas pessoas em situa\u00e7\u00f5es de desvantagem ou com percursos de crescimento mais lentos, quase como se o seu destino dependesse exclusivamente da capacidade de acompanhar os vencedores. Na realidade, uma sociedade justa requer um Estado presente e institui\u00e7\u00f5es civis capazes de superar a l\u00f3gica da efici\u00eancia, orientando explicitamente recursos, criatividade e normas em favor dos mais vulner\u00e1veis. [160] Em vez de aguardar os benef\u00edcios dum crescimento que \u201cpor \u00faltimo\u201d tamb\u00e9m recair\u00e1 sobre os pobres, s\u00e3o necess\u00e1rias escolhas que, desde o seu in\u00edcio, tornem o crescimento inclusivo. As experi\u00eancias das \u00faltimas d\u00e9cadas mostram que, nas crises econ\u00f3micas e financeiras, s\u00e3o sempre os pobres a pagar o pre\u00e7o mais elevado, revelando-se frequentemente ilus\u00f3rias as teorias que prometem um autom\u00e1tico e geral bem-estar.<br \/>\n159. Constata-se a necessidade de superar os atuais par\u00e2metros para aferir o desenvolvimento, ancorados h\u00e1 mais de oitenta anos no conceito de Produto Interno Bruto, fazendo com que sejam quase sistematicamente ignorados aspetos essenciais para o bem-estar global das pessoas e do ambiente. Valorizam ao mesmo tempo atividades que t\u00eam impacto, a curto ou a longo prazo, na vida do planeta. O desenvolvimento de par\u00e2metros e m\u00e9tricas complementares ao PIB \u00e9 decisivo para melhorar os dados de base utilizados para fazer an\u00e1lises, tomar decis\u00f5es pol\u00edticas e de pol\u00edtica econ\u00f3mica, bem como para selecionar as prioridades regionais, nacionais e internacionais. A introdu\u00e7\u00e3o de novos par\u00e2metros permitir\u00e1 avaliar, com uma vis\u00e3o ampla e adequada aos tempos, os efeitos das delibera\u00e7\u00f5es legislativas e regulamentares sobre a dignidade do trabalho, a prosperidade partilhada, a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e a salvaguarda do ambiente. Ela ter\u00e1 impacto no pr\u00f3prio conceito de desenvolvimento, nos processos formativos, na mentalidade e na opini\u00e3o p\u00fablica, e tamb\u00e9m na paz, que s\u00f3 \u00e9 verdadeira se fundada na justi\u00e7a.<br \/>\n160. Nos \u00faltimos anos, o setor financeiro adquiriu uma import\u00e2ncia crescente e registou uma forte inova\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m depois da introdu\u00e7\u00e3o das criptomoedas. As reflex\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es contidas no Magist\u00e9rio dos meus Antecessores, em particular nas Enc\u00edclicas, salientaram como o funcionamento da intermedia\u00e7\u00e3o financeira \u00abquando foi desvinculado de adequados fundamentos antropol\u00f3gicos e morais, n\u00e3o s\u00f3 produziu evidentes abusos e injusti\u00e7as, mas tamb\u00e9m revelou-se capaz de criar crises sist\u00e9micas e de alcance mundial\u00bb. [161] E \u00e9 igualmente verdade que a renda do capital corre o risco de substituir o rendimento do trabalho, muitas vezes deixado \u00e0 margem dos principais interesses do sistema econ\u00f3mico. No entanto, a poupan\u00e7a que se transforma em cr\u00e9dito para a economia real, e, portanto, para criar emprego tanto por conta de outrem como por conta pr\u00f3pria, continua a ser fundamental para o desenvolvimento e para os investimentos que devem acompanhar as transi\u00e7\u00f5es em curso. A fun\u00e7\u00e3o social do cr\u00e9dito permanece insubstitu\u00edvel. A finan\u00e7a pela finan\u00e7a \u00e9 muito diferente da finan\u00e7a pelo desenvolvimento e pela cria\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o do trabalho.<br \/>\n161. Esta perspectiva deve ser enquadrada numa alargada vis\u00e3o sobre as din\u00e2micas globais. A riqueza mundial cresceu em termos absolutos, mas intensificou-se a concentra\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de poucos e aumentaram os desequil\u00edbrios, tanto entre pa\u00edses como no interior dum mesmo pa\u00eds: \u00abPoucos possuem demais e muitos possuem pouco, esta \u00e9 a l\u00f3gica de hoje\u00bb. [162] Os avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos, mesmo no campo da medicina, n\u00e3o s\u00e3o facilmente acess\u00edveis \u00e0 grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, como se verificou de forma dram\u00e1tica durante a recente pandemia. Enquanto em algumas regi\u00f5es se investe em projetos sup\u00e9rfluos ou em sonhos de aperfei\u00e7oamento individual que poucas pessoas se podem permitir, noutras partes do mundo ainda faltam equipamentos essenciais para salvar milh\u00f5es de vidas humanas. Pensar que as novas tecnologias trar\u00e3o automaticamente benef\u00edcios a todos, significa ignorar uma evid\u00eancia: se as transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o se regerem tendo como objetivo priorit\u00e1rio, j\u00e1 na fase de projeto, a preven\u00e7\u00e3o de novas e ulteriores disparidades, o progresso tecnol\u00f3gico produz automaticamente desigualdades estruturais. Hoje, a justi\u00e7a passa tamb\u00e9m pelo acesso aos benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o: cuidados, conhecimento, instrumentos e oportunidades.<br \/>\n162. S\u00e3o certamente necess\u00e1rias leis justas e instrumentos de redistribui\u00e7\u00e3o que corrijam desequil\u00edbrios, tamb\u00e9m atrav\u00e9s de sistemas fiscais que aliviem o peso imposto sobre os mais fracos, exigindo por outro lado a quem disp\u00f5em de maiores recursos. N\u00e3o se deve, por\u00e9m, considerar a busca da justi\u00e7a social um tema separado e sucessivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de riqueza, como se a economia devesse simplesmente criar valor e a pol\u00edtica interviesse, s\u00f3 posteriormente, para o distribuir. Pelo contr\u00e1rio, a justi\u00e7a diz respeito a todas as fases da atividade econ\u00f3mica, desde a obten\u00e7\u00e3o de recursos at\u00e9 ao financiamento, desde a produ\u00e7\u00e3o ao consumo, tendo cada escolha consequ\u00eancias morais. [163]<br \/>\n163. Mais ainda na era da IA e da rob\u00f3tica, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar-se apenas \u00e0 \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d do mercado: [164] a pol\u00edtica tem a tarefa de orientar as din\u00e2micas econ\u00f3mico-tecnol\u00f3gicas para o bem comum, promovendo o trabalho digno, a inclus\u00e3o social e uma distribui\u00e7\u00e3o equitativa dos benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o. Uma vez que muitas decis\u00f5es econ\u00f3micas ultrapassam as fronteiras dos Estados, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria uma coopera\u00e7\u00e3o internacional capaz de definir estrat\u00e9gias comuns, sobretudo em favor dos pa\u00edses e dos grupos mais vulner\u00e1veis, para promover o desenvolvimento e superar o assistencialismo. A l\u00f3gica que inspira estas escolhas \u00e9 a da imensa dignidade de cada pessoa, do bem comum e dum mundo pensado verdadeiramente para todos. A interdepend\u00eancia entre paz e desenvolvimento, como escreveu profeticamente em 1967 S\u00e3o Paulo VI, [165] poderia ser hoje adaptada: a prosperidade, s\u00f3 se generalizada, inclusiva e sustent\u00e1vel, pode contribuir para construir e fortalecer a paz.<br \/>\n164. Em termos concretos, orientar a economia para a dignidade significa, tamb\u00e9m na era da IA, adotar alguns est\u00e1veis crit\u00e9rios de a\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, a transpar\u00eancia e a responsabilidade: quando os dados e os algoritmos influenciam na concess\u00e3o do cr\u00e9dito, na sele\u00e7\u00e3o de pessoal, no acesso a servi\u00e7os ou oportunidades, \u00e9 necess\u00e1rio que as decis\u00f5es sejam compreens\u00edveis, contest\u00e1veis e sujeitas a controle, para que a pessoa n\u00e3o seja reduzida a um mero perfil. Em segundo lugar, a inclus\u00e3o e o acesso: os benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o devem ser acompanhados por investimentos em compet\u00eancias, infraestruturas e servi\u00e7os essenciais, para que a tecnologia n\u00e3o aumente o fosso entre quem tem e quem n\u00e3o tem. Por fim, medidas de equidade: fiscalidade, prote\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas industriais devem corrigir os desequil\u00edbrios criados pela concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e poder. Estes crit\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o um trav\u00e3o \u00e0 inova\u00e7\u00e3o: tornam-na, na realidade, vi\u00e1vel e humana.<br \/>\nFam\u00edlia e jovens: condi\u00e7\u00f5es sociais da esperan\u00e7a<br \/>\n165. A fam\u00edlia \u00e9 um bem social prim\u00e1rio. Fundada na uni\u00e3o est\u00e1vel entre um homem e uma mulher, \u00e9 o primeiro ambiente em que cada um desenvolve as suas potencialidades, toma consci\u00eancia da pr\u00f3pria dignidade e aprende as primeiras formas de verdade e bondade, interiorizando h\u00e1bitos que preparam para a vida social. [166] Como primeira sociedade natural, dotada de direitos originais, a fam\u00edlia \u00e9 a c\u00e9lula fundamental e insubstitu\u00edvel de toda a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. [167] Consequentemente, quando os projetos pol\u00edticos e as grandes decis\u00f5es econ\u00f3micas lhe relegam um papel marginal ou secund\u00e1rio, o aut\u00eantico crescimento de todo o corpo social fica comprometido. [168]<br \/>\n166. Todavia, a fam\u00edlia \u00e9 um bem social fr\u00e1gil, sentindo de forma imediata as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e tecnol\u00f3gicas que est\u00e3o a alterar o mundo do trabalho, e pedindo apoio cultural, jur\u00eddico e econ\u00f3mico. \u00c9 conhecido o impacto devastador do desemprego e da precariedade no tecido familiar. A curto prazo, pode parecer vantajoso reduzir os custos laborais ou maximizar a efici\u00eancia financeira, mas a longo prazo isso mina as pr\u00f3prias bases da conviv\u00eancia: enquanto se celebram sucessos tecnol\u00f3gicos, a estrutura social \u00e9 progressivamente afetada como que por um v\u00edrus silencioso.<br \/>\n167. Para os jovens, a precariedade laboral \u00e9 particularmente dram\u00e1tica. Como recordam os bispos dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, o trabalho n\u00e3o \u00e9 apenas fonte de rendimento, mas um \u00e2mbito decisivo onde se forma a identidade, se tecem amizades e rela\u00e7\u00f5es, se aprendem responsabilidades concretas e se discerne a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. [169] Quando o acesso ao trabalho \u00e9 dificultado por elevadas taxas de desemprego, por sistemas de forma\u00e7\u00e3o inadequados ou por obst\u00e1culos estruturais, muitos jovens encontram bloqueado o pr\u00f3prio caminho de realiza\u00e7\u00e3o humana e profissional. A necessidade de mudar de emprego, v\u00e1rias vezes ao longo da vida, exige percursos de atualiza\u00e7\u00e3o e requalifica\u00e7\u00e3o permanente, que tornem as novas gera\u00e7\u00f5es capazes de assumir, com compet\u00eancia e autonomia, os riscos dum contexto econ\u00f3mico inst\u00e1vel e muitas vezes imprevis\u00edvel. [170]<br \/>\n168. Deriva daqui uma espec\u00edfica responsabilidade p\u00fablica. O Estado tem o dever de apoiar a atividade das empresas, criando condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao emprego, promovendo o trabalho onde falha e defendendo-o em tempos de crise, pois \u00e9 um bem prim\u00e1rio para as fam\u00edlias e a sociedade. [171] Em particular, numa \u00e9poca de profundas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, se n\u00e3o quisermos que os progressos econ\u00f3micos se traduzam em novas formas de inseguran\u00e7a e exclus\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria uma criatividade pol\u00edtica em favor do trabalho que d\u00ea centralidade \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\n169. Apoiar as fam\u00edlias e os jovens nesta transi\u00e7\u00e3o exige escolhas que tornem vi\u00e1vel a estabilidade. Como j\u00e1 foi referido, s\u00e3o precisas pol\u00edticas laborais que favore\u00e7am a continuidade e a qualidade do emprego, contrastando a precariedade como condi\u00e7\u00e3o normal de vida e promovendo percursos realistas de inser\u00e7\u00e3o e crescimento profissional. Em segundo lugar, s\u00e3o necess\u00e1rias medidas que garantam ritmos humanos: sem um equil\u00edbrio entre trabalho, benef\u00edcios e descanso, a fam\u00edlia enfraquece-se e os jovens encontram dificuldades em amadurecer na responsabilidade. Al\u00e9m disso, \u00e9 decisivo investir em forma\u00e7\u00e3o e requalifica\u00e7\u00e3o acess\u00edveis, para que a mobilidade profissional exigida pela economia digital n\u00e3o se torne uma sele\u00e7\u00e3o cruel entre quem consegue atualizar-se e quem n\u00e3o o consegue. Por fim, devem ser apoiados os la\u00e7os sociais: redes e comunidades educativas que acompanhem as escolhas de vida e impe\u00e7am que a incerteza crie solid\u00e3o e depend\u00eancias. Assim, a transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pode ser enfrentada sem destruir o que torna generativa uma sociedade: a capacidade de construir futuro.<br \/>\nSalvaguardar a liberdade contra a depend\u00eancia e a mercantiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nDepend\u00eancias e controle social<br \/>\n170. Depois de ter refletido sobre a verdade e a educa\u00e7\u00e3o, o trabalho e as fam\u00edlias, devemos abordar o impacto da revolu\u00e7\u00e3o digital na liberdade humana, considerando como enfrentar tanto os riscos associados \u00e0 psicologia individual como os grandes dramas sociais. N\u00e3o se devem subestimar as formas mais subtis de depend\u00eancia ligadas \u00e0 economia digital da aten\u00e7\u00e3o, na qual plataformas e servi\u00e7os s\u00e3o concebidos para captar o tempo e o olhar dos utilizadores, explorando as suas fragilidades e enfraquecendo a liberdade interior. Quando os modelos empresariais prosperam \u00e0 custa da fraqueza humana, a pessoa \u00e9 tratada como um meio e n\u00e3o como um fim, e quem concebe ou financia estes sistemas assume uma responsabilidade moral que n\u00e3o pode ser ignorada. \u00c9 urgente promover uma utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias que reforce a liberdade interior: educa\u00e7\u00e3o para a sobriedade digital, prote\u00e7\u00e3o dos menores e combate a modelos que prosperam \u00e0 custa da vulnerabilidade.<br \/>\n171. Um risco adicional, menos vis\u00edvel, mas n\u00e3o menos grave, \u00e9 o do controle social, possibilitado pela recolha massiva de dados e pela utiliza\u00e7\u00e3o de sistemas algor\u00edtmicos. Quando cada gesto \u2013 desloca\u00e7\u00f5es, compras, rela\u00e7\u00f5es, prefer\u00eancias \u2013 deixa rasto, cria-se um novo poder: o de tra\u00e7ar perfis, prever e orientar comportamentos, muitas vezes sem que as pessoas tenham plena consci\u00eancia disso. Se estes dados forem utilizados para tomar decis\u00f5es que incidem sobre oportunidades concretas (acesso ao cr\u00e9dito, recrutamento de pessoal, servi\u00e7os), corre-se o risco de lesar a liberdade e discriminar os mais fracos. Al\u00e9m disso, o controle n\u00e3o passa apenas por proibi\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas, mas pela arquitetura da visibilidade: o que \u00e9 amplificado ou tornado invis\u00edvel, o que \u00e9 premiado ou penalizado, acaba por moldar opini\u00f5es e escolhas, gerando conformismo e autocensura. Por isso, na era digital, a liberdade n\u00e3o \u00e9 apenas algo interior: \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o p\u00fablica, que exige regras claras, transpar\u00eancia, possibilidades de recurso e limites ao uso de tecnologias invasivas, para que a t\u00e9cnica permane\u00e7a ao servi\u00e7o da pessoa e n\u00e3o se torne uma forma de dom\u00ednio das consci\u00eancias.<br \/>\n172. Na origem destes problemas est\u00e1 uma mentalidade tecnocr\u00e1tica e p\u00f3s-humanista, que tende a considerar a pessoa como um objeto manipul\u00e1vel ou um recurso a otimizar, [172] eliminando tudo o que limita a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro: o que importa \u00e9 a efici\u00eancia, n\u00e3o o respeito pela liberdade e pela dignidade humana. Algumas correntes p\u00f3s-humanistas chegam mesmo a p\u00f4r a hip\u00f3tese de seres humanos \u201cde segunda\u201d, funcionais aos interesses de elites que se consideram superiores: uma perspectiva inquietante, ainda mais grave se associada a instrumentos tecnol\u00f3gicos que ampliam exponencialmente o poder de controle e sele\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m certas l\u00f3gicas de endividamento estrutural, mantendo povos inteiros em condi\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia, revelam a mesma mentalidade que aceita, sob novas formas, rela\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o pr\u00f3ximas da escravatura.<br \/>\nQuebrar as correntes das novas formas de escravatura<br \/>\n173. Esta vis\u00e3o distorcida da pessoa traduz-se hoje em diversas formas de servid\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 economia digital. No mundo da IA, nada \u00e9 imaterial ou m\u00e1gico. Cada resposta que parece imediata e perfeita prov\u00e9m de uma longa cadeia de media\u00e7\u00f5es, de uma rede alargada de recursos naturais, de infraestruturas energ\u00e9ticas e, sobretudo, de pessoas. Uma parte significativa do funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milh\u00f5es de seres humanos, empregados em atividades pouco vis\u00edveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados \u2013 muitas vezes p\u00e9ssimos \u2013 e treino de modelos. Em muitos casos, s\u00e3o jovens, maioritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remunera\u00e7\u00e3o m\u00ednima. A este esfor\u00e7o invis\u00edvel junta-se o ainda mais brutal da extra\u00e7\u00e3o dos recursos necess\u00e1rios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dos dispositivos e dos microprocessadores, que servem de suporte \u00e0 IA. Nalgumas regi\u00f5es do mundo, adolescentes e crian\u00e7as trabalham em condi\u00e7\u00f5es perigosas na tritura\u00e7\u00e3o dos materiais donde se extraem as terras raras. Corpos marcados, mutilados, consumidos para que o fluxo do c\u00e1lculo n\u00e3o se interrompa. Al\u00e9m disso, organiza\u00e7\u00f5es criminosas utilizam plataformas na rede, sistemas de mensagens, pagamentos an\u00f3nimos e t\u00e9cnicas de cria\u00e7\u00e3o de perfis para recrutar, controlar e deslocar v\u00edtimas de tr\u00e1fico, muitas vezes menores, transformando homens e mulheres em \u201cdados\u201d a rastrear e \u201cpacotes\u201d a transportar dentro dos mesmos circuitos digitais que sust\u00eam grande parte da economia global. Esta realidade interpela profundamente a consci\u00eancia moral do nosso tempo. N\u00e3o basta invocar a efici\u00eancia, nem celebrar os benef\u00edcios da inova\u00e7\u00e3o, quando resultam duma cadeia de explora\u00e7\u00e3o que permanece deliberadamente invis\u00edvel. Se uma tecnologia promete emancipa\u00e7\u00e3o, mas produz novas formas de subordina\u00e7\u00e3o global, contradiz o princ\u00edpio fundamental da dignidade da pessoa.<br \/>\n174. A luta contras as novas formas de escravatura \u00e9 um teste decisivo para o discernimento \u00e9tico da IA e da transforma\u00e7\u00e3o digital. Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o inaugurada por Le\u00e3o XIII, a Igreja renova a sua firme condena\u00e7\u00e3o de todas as express\u00f5es de escravatura, tr\u00e1fico e mercantiliza\u00e7\u00e3o de pessoas, e apela \u00e0 urg\u00eancia dum alargado movimento de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o que coloque d\u00ea centralidade \u00e0 dignidade inalien\u00e1vel de cada ser humano e ao bem comum, como fins da sociedade e como crit\u00e9rios de qualquer escolha pessoal, social e pol\u00edtica. Sem esta reflex\u00e3o \u00e9tica e humanizante, o poder crescente dos sistemas digitais corre o risco de nos levar a novas atrocidades, n\u00e3o menos vergonhosas das do passado que hoje deploramos, ao apresentarmo-nos como sociedades \u201cavan\u00e7adas\u201d e \u201ccivilizadas\u201d.<br \/>\n175. O tr\u00e1fico deve ser reconhecido como uma forma contempor\u00e2nea de escravatura e como uma grave viola\u00e7\u00e3o da dignidade humana; n\u00e3o reagir com firmeza ou tolerar de alguma forma estas pr\u00e1ticas significa, em certa medida, tornar-se hoje c\u00famplice das culpas cometidas no passado, quando a escravatura era justificada ou silenciada. [173]<br \/>\n176. Na matura\u00e7\u00e3o da sua doutrina, a Igreja foi progressivamente tomando consci\u00eancia da gravidade destas realidades. \u00c9 verdade que os acontecimentos do passado n\u00e3o podem ser considerados de forma a-hist\u00f3rica, como se os crit\u00e9rios amadurecidos ao longo do tempo tivessem estado sempre dispon\u00edveis. No entanto, n\u00e3o podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura. Se na Antiguidade e na Idade M\u00e9dia, muitas pessoas e institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas tinham escravos, durante a modernidade, instigada pelos pedidos dos soberanos, a S\u00e9 Apost\u00f3lica romana interveio v\u00e1rias vezes para regular e legitimar as modalidades de submeter e, nalguns casos, reduzir \u00e0 escravatura os \u201cinfi\u00e9is\u201d. [174] Foi preciso aguardar o s\u00e9culo XIX para se encontrar uma condena\u00e7\u00e3o formal, absoluta e universal da escravatura, em particular com Le\u00e3o XIII. [175] Isto constitui um claro exemplo do crescimento na compreens\u00e3o, por parte da Igreja, das verdades perenes da Revela\u00e7\u00e3o que ela guarda. Embora n\u00e3o encontremos homogeneidade na quest\u00e3o em si \u2013 tendo tolerado durante muito tempo a escravatura e s\u00f3 mais tarde condenando-a de forma absoluta \u2013, h\u00e1 ao longo de toda a hist\u00f3ria uma continuidade no que respeita \u00e0 convic\u00e7\u00e3o da dignidade de cada ser humano, criado \u00e0 imagem de Deus, mesmo sem ter conseguido, em dezoito s\u00e9culos, explicitar oficialmente a total incompatibilidade com a escravatura. Trata-se duma ferida na mem\u00f3ria crist\u00e3, \u00e0 qual n\u00e3o podemos ficar alheios. [176] \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilha\u00e7\u00e3o que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, pe\u00e7o sinceramente perd\u00e3o.<br \/>\n177. Precisamente por isso, a mem\u00f3ria da cumplicidade e da cegueira do passado face \u00e0 injusti\u00e7a da escravatura torna-se, para n\u00f3s, apelo \u00e0 vigil\u00e2ncia: o que aprendemos deve traduzir-se em discernimento e responsabilidade no presente. Se n\u00e3o quisermos, no futuro, pedir perd\u00e3o por termos sido infi\u00e9is ao tesouro da dignidade humana que a nossa f\u00e9 encerra, cabe-nos hoje ser diretos e firmes em denunciar as m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es do tr\u00e1fico e apoiar, passo a passo com todos os que nisso se empenham, percursos concretos de preven\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o, liberta\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n178. O colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto in\u00e9dito. N\u00e3o domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas pessoais em informa\u00e7\u00f5es que podem ser exploradas. Inteiros territ\u00f3rios, sobretudo aqueles com menor relev\u00e2ncia geopol\u00edtica e maior fragilidade estrutural, s\u00e3o atualmente atravessados por uma nova l\u00f3gica de extra\u00e7\u00e3o: a dos fluxos sanit\u00e1rios, perfis epidemiol\u00f3gicos, mapas gen\u00e9ticos e dados demogr\u00e1ficos. S\u00e3o estas as novas \u201cterras raras\u201d do poder: informa\u00e7\u00f5es vitais que, uma vez relacionadas entre si, podem utilizar-se para desenvolver modelos preditivos, orientar estrat\u00e9gias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa. Os titulares dos dados de sa\u00fade de popula\u00e7\u00f5es inteiras, hoje frequentemente recolhidos sob o pretexto de ajudar, investigar ou inovar, det\u00eam, na realidade, uma alavanca estrutural em rela\u00e7\u00e3o ao futuro: podem moldar as necessidades e os mercados. E podem decidir, antecipadamente, a quem destinar medicamentos, investimentos e prote\u00e7\u00f5es. \u00c9 aqui que se joga uma das quest\u00f5es morais mais prementes do nosso tempo: transformar o conhecimento partilhado em bem comum e n\u00e3o em alavanca de dom\u00ednio; devolver aos povos n\u00e3o s\u00f3 os dados que os descrevem, mas tamb\u00e9m a possibilidade de decidir como ser\u00e3o utilizados, por quem e para quem. Caso contr\u00e1rio, a era digital n\u00e3o ser\u00e1 p\u00f3s-colonial, mas colonial duma outra forma.<br \/>\n179. As novas express\u00f5es de escravatura alimentam-se de cadeias econ\u00f3micas e infraestruturas digitais. \u00c9, portanto, necess\u00e1rio trabalhar em v\u00e1rias frentes: em primeiro lugar, para tornar mais rigorosa a transpar\u00eancia das fileiras que sust\u00eam a ind\u00fastria tecnol\u00f3gica e a economia digital, a fim de que nenhuma vantagem competitiva seja constru\u00edda sobre a explora\u00e7\u00e3o invis\u00edvel; em segundo lugar, \u00e9 necess\u00e1rio que as empresas e os investidores adotem crit\u00e9rios claros de averigua\u00e7\u00e3o \u00e9tica preventiva (due diligence), contando como prioridades a prote\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, o combate ao trabalho for\u00e7ado e o impacto social dos modelos de empresa baseados em dados. Al\u00e9m disso, as plataformas digitais devem ser chamadas a cooperar, de forma respons\u00e1vel, com as autoridades e a sociedade civil para impedirem que os instrumentos de comunica\u00e7\u00e3o, pagamento e defini\u00e7\u00e3o de perfis se tornem canais de recrutamento e controle das v\u00edtimas. Quando estas escolhas convergem, o ambiente digital pode passar dum espa\u00e7o predat\u00f3rio a um espa\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o, preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma responsabilidade partilhada<br \/>\n180. Os diversos campos em an\u00e1lise \u2013 a busca da verdade na vida p\u00fablica, a educa\u00e7\u00e3o no ambiente digital, as transforma\u00e7\u00f5es do trabalho, a fragilidade das fam\u00edlias e as novas formas de escravatura \u2013 n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f3menos isolados. Eles manifestam o mesmo desafio: se a t\u00e9cnica se torna crit\u00e9rio absoluto, a pessoa corre o risco de ser tratada como um dado, uma pe\u00e7a de engrenagem ou uma mercadoria; se, pelo contr\u00e1rio, a t\u00e9cnica for integrada num horizonte de sabedoria, pode tornar-se uma oportunidade de crescimento, justi\u00e7a e fraternidade.<br \/>\n181. Nessa perspectiva, a Doutrina social da Igreja prop\u00f5e uma responsabilidade partilhada. Pede que estes processos sejam geridos com clarivid\u00eancia: por institui\u00e7\u00f5es capazes de regular sem sufocar e de proteger sem substituir; por empresas que reconhe\u00e7am no trabalho e na dignidade um crit\u00e9rio de sucesso; por corpos interm\u00e9dios e comunidades educativas que reconstruam a confian\u00e7a e os la\u00e7os; por cidad\u00e3os que cultivem responsabilidade, sobriedade, discernimento e sentido do verdadeiro. S\u00f3 assim a inova\u00e7\u00e3o poder\u00e1 realmente tornar-se desenvolvimento humano integral e n\u00e3o um fator de exclus\u00e3o e dom\u00ednio; e s\u00f3 assim a promessa do progresso poder\u00e1 ser reconhecida como verdadeira, porque aferida pela dignidade inviol\u00e1vel de cada homem e mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CAP\u00cdTULO V<br \/>\nA CULTURA DO PODER E A CIVILIZA\u00c7\u00c3O DO AMOR<br \/>\n182. Depois de ter considerado a forma como a IA est\u00e1 a transformar certos aspetos da vida e da sociedade, com graves consequ\u00eancias para a dignidade humana, \u00e9 necess\u00e1rio dirigir o olhar a um \u00e2mbito ainda mais dram\u00e1tico: a guerra. Aqui, a quest\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 efici\u00eancia de novos instrumentos, mas ao risco de que a t\u00e9cnica, dissociada da \u00e9tica e da responsabilidade, torne mais r\u00e1pida e impessoal a decis\u00e3o sobre a vida e a morte, e apresente o recurso \u00e0 for\u00e7a como uma op\u00e7\u00e3o imediata e exequ\u00edvel. Num mundo cada vez mais interdependente, a paz n\u00e3o \u00e9 um tema entre tantos outros, mas uma condi\u00e7\u00e3o do bem comum universal e um par\u00e2metro para medir a maturidade moral dos povos, especialmente de quem \u00e9 chamado a assumir responsabilidades de governo.<br \/>\n183. A revolu\u00e7\u00e3o digital est\u00e1 a modificar a gram\u00e1tica dos conflitos. A guerra vis\u00edvel \u00e9 acompanhada por formas h\u00edbridas: ataques cibern\u00e9ticos, manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, campanhas de influ\u00eancia, automatiza\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es estrat\u00e9gicas. A IA entra nestes processos como um fator de acelera\u00e7\u00e3o, num panorama em que muitas tecnologias s\u00e3o intrinsecamente ambivalentes: o que nasce para defender pode ser rapidamente alterado para atacar, e a fronteira entre prote\u00e7\u00e3o e agress\u00e3o tende a dissipar-se. A IA pode refor\u00e7ar a defesa e a prote\u00e7\u00e3o dos civis, mas tamb\u00e9m pode baixar a fasquia do uso da for\u00e7a, tornar as responsabilidades menos claras, alimentar uma cultura em que o inimigo \u00e9 reduzido a um dado e a v\u00edtima a um \u201cdano colateral\u201d. Diante destas transforma\u00e7\u00f5es, devemos invocar os princ\u00edpios da Doutrina social \u2013 dignidade da pessoa, bem comum, destina\u00e7\u00e3o universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justi\u00e7a \u2013 como crit\u00e9rios para julgar se as tecnologias servem realmente a humanidade ou acabam por subjug\u00e1-la, e consider\u00e1-los como orienta\u00e7\u00f5es para as nossas escolhas.<br \/>\n184. Neste cap\u00edtulo, pretendo comparar duas l\u00f3gicas opostas, que j\u00e1 evoquei com imagens b\u00edblicas: por um lado, a tenta\u00e7\u00e3o de construir a torre de Babel, confiando no poder e no orgulho; por outro, a paci\u00eancia em reconstruir Jerusal\u00e9m \u201cpor partes\u201d, como no tempo de Neemias, salvaguardando o humano e o bem comum.<br \/>\n185. Se olharmos para as din\u00e2micas mundiais, reconhecemos cada vez mais claramente a expans\u00e3o de uma cultura do poder, feita de polariza\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias. A Babel moderna n\u00e3o \u00e9 apenas o paradigma tecnocr\u00e1tico globalizado, mas tamb\u00e9m o confronto \u00e0 dist\u00e2ncia entre imperialismos opostos, entre pot\u00eancias que desejam conservar a sua supremacia e pot\u00eancias que aspiram a conquist\u00e1-la, com uma multiplicidade de conflitos locais. Al\u00e9m disso, \u00e9 a corrida pelo desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas, ou pela garantia do seu controle, segundo uma din\u00e2mica desumanizante que parece n\u00e3o conhecer limites. E, no entanto, ao lado deste desvio, vislumbramos grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na constru\u00e7\u00e3o da cidade da conviv\u00eancia e da paz. Dela, todos n\u00f3s somos frequentemente art\u00edfices sem o saber e arquitetos descoordenados, capazes de gestos generosos, mas desprovidos duma vis\u00e3o de conjunto: trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o mais lenta, menos vis\u00edvel e espetacular, que aguarda ser melhor compreendida e mais coordenada, para se tornar compromisso consciente e articulado de cada comunidade, desde a fam\u00edlia ao governo dos Estados e suas rela\u00e7\u00f5es. \u00c9 a este horizonte de empenho, a este estaleiro de esperan\u00e7a, que damos o nome de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d.<br \/>\nA civiliza\u00e7\u00e3o do amor na era digital<br \/>\n186. Quando S\u00e3o Paulo VI introduziu a express\u00e3o \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do amor\u201d, [177] o mundo estava marcado pela Guerra fria, pela corrida ao armamento e por fortes desequil\u00edbrios econ\u00f3micos. Naquele contexto, a Igreja apontava um caminho alternativo \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre sistemas, imaginando uma ordem social em que a justi\u00e7a e a caridade se entrela\u00e7am e o amor se torna o princ\u00edpio organizador da vida econ\u00f3mica, pol\u00edtica e cultural. Hoje devemos recuperar com firmeza esta vis\u00e3o: a civiliza\u00e7\u00e3o do amor n\u00e3o \u00e9 uma utopia ing\u00e9nua, mas um projeto exigente. Consiste na tradu\u00e7\u00e3o da caridade em estruturas de justi\u00e7a, em dar corpo institucional \u00e0 fraternidade e em considerar o outro \u2013 seja ele uma pessoa ou um povo \u2013 como aliado necess\u00e1rio na constru\u00e7\u00e3o do bem comum. Como nos recordou a Enc\u00edclica Fratelli tutti, s\u00f3 este amor social, capaz de se tornar cultura e norma, pode gerar uma ordem internacional est\u00e1vel, transformando a conviv\u00eancia de simples coexist\u00eancia armada numa comunidade de destino. [178]<br \/>\n187. Hoje, no contexto da transi\u00e7\u00e3o digital, esta intui\u00e7\u00e3o revela-se ainda mais decisiva. As redes digitais, a economia globalizada e o desenvolvimento da IA criam la\u00e7os cada vez mais estreitos, ligando em tempo real as decis\u00f5es tomadas num lugar aos efeitos que estas produzem noutras partes. S\u00e3o, desse modo, ainda atuais as palavras do Conc\u00edlio Vaticano II sobre a crescente interdepend\u00eancia entre os povos: o bem comum tem cada vez mais uma dimens\u00e3o universal, com direitos e deveres que dizem respeito a toda a fam\u00edlia humana. [179] O projeto da civiliza\u00e7\u00e3o do amor assume aqui a tarefa decisiva de transformar esta interdepend\u00eancia numa solidariedade desejada e escolhida. \u00c9 este o crit\u00e9rio para orientar os processos tecnol\u00f3gicos: n\u00e3o basta que a IA nos torne mais eficientes ou conectados, ela deve servir para edificar a fam\u00edlia humana universal, com direitos e deveres partilhados, onde a proximidade digital se torna ocasi\u00e3o concreta de encontro e cuidado rec\u00edproco.<br \/>\nA cultura do poder<br \/>\n188. Na \u00e9poca em que vivemos, vai-se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os crit\u00e9rios de decis\u00e3o, relegando o bem comum da humanidade para segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma vari\u00e1vel secund\u00e1ria face aos interesses estrat\u00e9gicos. Esta cultura do poder penetra na sociedade, altera rela\u00e7\u00f5es e comportamentos, expande-se normalizando a guerra, em busca dum poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que repete n\u00e3o existirem alternativas.<br \/>\nA normaliza\u00e7\u00e3o da guerra<br \/>\n189. Em 1965, na Assembleia da ONU, ressoou com for\u00e7a o brado de S\u00e3o Paulo VI: \u00abNunca mais a guerra, nunca mais a guerra\u00bb. [180] Temos de reconhecer que, apesar dos desejos e das declara\u00e7\u00f5es de paz, os \u00faltimos sessenta anos foram marcados por conflitos duma ferocidade impressionante, que muitas vezes envolveram de forma massiva as popula\u00e7\u00f5es civis, causando v\u00edtimas inocentes, ondas de refugiados, desestabiliza\u00e7\u00e3o social e feridas duradouras. N\u00e3o obstante, era comum no discurso p\u00fablico a convic\u00e7\u00e3o de que a guerra deveria permanecer uma extrema ratio, cercada por limites \u00e9ticos e jur\u00eddicos rigorosos e, em todo o caso, por um horizonte pol\u00edtico orientado para a paz. Na sequ\u00eancia dos desenvolvimentos ocorridos no per\u00edodo interb\u00e9lico, depois da Segunda Guerra Mundial deu-se uma reviravolta: a paz foi colocada no centro da ordem internacional, como atesta em particular a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que se prop\u00f5e \u00abpreservar as gera\u00e7\u00f5es vindouras do flagelo da guerra\u00bb; [181] muitas Constitui\u00e7\u00f5es nacionais, na mesma linha, tinham relegado o recurso \u00e0s armas a casos extremos e rigorosamente delimitados. Mesmo durante a Guerra fria, apesar da exist\u00eancia de conflitos graves, permanecia a consci\u00eancia da necessidade de evitar, a todo o custo, um novo conflito mundial.<br \/>\n190. Hoje, por\u00e9m, assistimos a uma verdadeira mudan\u00e7a de paradigma no discurso p\u00fablico e nas decis\u00f5es em mat\u00e9ria de rearmamento, com uma preocupante reabilita\u00e7\u00e3o da guerra como instrumento de pol\u00edtica internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles crit\u00e9rios \u00e9ticos que tinham limitado o seu uso. Conflitos regionais que se arrastam no tempo, escaladas de tens\u00f5es e amea\u00e7as cruzadas tornam-se quase habituais, e ressurgem formas de luta por expans\u00e3o territorial que se pensavam superadas. A opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 progressivamente orientada e condicionada por narrativas medi\u00e1ticas de polariza\u00e7\u00e3o, amplificadas com frequ\u00eancia por algoritmos que valorizam o confronto e a oposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n191. Assistimos tamb\u00e9m a uma preocupante perda de mem\u00f3ria hist\u00f3rica. O atenuar do testemunho direto da Shoah e das duas guerras mundiais facilita a reescrita seletiva ou distorcida do passado, num clima em que as not\u00edcias falsas e as manipula\u00e7\u00f5es narrativas obscurecem as li\u00e7\u00f5es aprendidas. Sem uma mem\u00f3ria viva dos horrores da guerra, as decis\u00f5es pol\u00edticas correm o risco de ser tomadas com base em c\u00e1lculos de for\u00e7a, desprovidos duma vis\u00e3o das consequ\u00eancias a longo prazo.<br \/>\n192. A tudo isto acresce um elemento novo e decisivo: a dimens\u00e3o medi\u00e1tica e digital. As redes de comunica\u00e7\u00e3o, os ambientes informativos fragmentados e os algoritmos que privilegiam o confronto podem amplificar a polariza\u00e7\u00e3o e o ressentimento, acelerar a propaganda e dificultar o discernimento comum. Assim, a guerra n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 combatida, mas tamb\u00e9m preparada culturalmente atrav\u00e9s de narrativas simplistas, l\u00f3gicas de amigo-inimigo, desinforma\u00e7\u00e3o e medo. Quando a mem\u00f3ria hist\u00f3rica desvanece e os crit\u00e9rios \u00e9ticos que protegem os civis e os mais fr\u00e1geis enfraquecem, torna-se mais f\u00e1cil apresentar a viol\u00eancia como necess\u00e1ria, inevit\u00e1vel ou mesmo \u201climpa\u201d. \u00c9 neste clima que a humanidade se encontra a resvalar para a cultura violenta do poder, onde a paz j\u00e1 n\u00e3o aparece como uma tarefa a assumir, mas como um intervalo prec\u00e1rio entre conflitos. Hoje, mais do que nunca, \u00e9 importante reafirmar que foi superada a teoria da \u201cguerra justa\u201d, invocada com demasiada frequ\u00eancia para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito \u00e0 leg\u00edtima defesa entendida no sentido mais estrito. [182] Para enfrentar os conflitos, a humanidade disp\u00f5e de instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o di\u00e1logo, a diplomacia e o perd\u00e3o. O recurso \u00e0 for\u00e7a, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s armas testemunha uma pobreza relacional que tem sempre consequ\u00eancias desastrosas para as popula\u00e7\u00f5es civis.<br \/>\nA for\u00e7a sem limites<br \/>\n193. Um elemento decisivo do panorama atual \u00e9 o crescimento da ind\u00fastria b\u00e9lica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns pa\u00edses. A estreita liga\u00e7\u00e3o entre interesses econ\u00f3micos, aparatos militares e decis\u00f5es pol\u00edticas gera uma \u201cna\u00e7\u00e3o armada\u201d, na qual a guerra parece quase uma continua\u00e7\u00e3o natural da pol\u00edtica e o mercado das armas torna-se motor aut\u00f3nomo de escolhas b\u00e9licas. N\u00e3o podemos ignorar os enormes interesses econ\u00f3micos que est\u00e3o por tr\u00e1s da guerra. As ind\u00fastrias de armamento e os pa\u00edses que fornecem armas lucram com um mercado que prospera precisamente gra\u00e7as aos conflitos. Neste sentido, existe tamb\u00e9m uma l\u00f3gica econ\u00f3mica que contribui para alimentar tens\u00f5es em diversas regi\u00f5es do mundo.<br \/>\n194. Os arsenais militares usufruem duma nova aten\u00e7\u00e3o. No passado, o reconhecimento da amea\u00e7a representada por armas capazes de destruir toda a humanidade tinha favorecido vias de distens\u00e3o e de negocia\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de desarmamento. Infelizmente, afast\u00e1mo-nos deste horizonte e a evolu\u00e7\u00e3o dos arsenais nucleares \u2013 incluindo a possibilidade de utiliza\u00e7\u00e3o \u201ct\u00e1tica\u201d \u2013 faz com que o recurso a tais engenhos pare\u00e7a uma possibilidade cada vez menos remota. Nessas circunst\u00e2ncias, a entrada em vigor, em 2021, do Tratado sobre a proibi\u00e7\u00e3o de armas nucleares, apoiado por mais de setenta pa\u00edses, representa um sinal importante, mas corre o risco de permanecer em grande parte simb\u00f3lico, uma vez que as principais pot\u00eancias nucleares n\u00e3o aderem ao mesmo. Assim, difundiu-se a convic\u00e7\u00e3o \u2013 errada \u2013 de que a dissuas\u00e3o nuclear \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a seguran\u00e7a, cujo resultado \u00e9 alimentar uma nova e pouco control\u00e1vel corrida ao armamento, acompanhada pelo desmantelamento progressivo dos acordos de redu\u00e7\u00e3o das armas nucleares e pelo desenvolvimento de engenhos \u201cminiaturizados\u201d, que tornam mais f\u00e1cil considerar o seu uso como uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel.<br \/>\n195. A mesma l\u00f3gica verifica-se nos conflitos convencionais: a for\u00e7a militar, a fraqueza das iniciativas diplom\u00e1ticas e a complexidade dos interesses em jogo favorecem conflitos que tendem a tornar-se cr\u00f3nicos, com um custo humano e ambiental extremamente elevado. \u00c9 muito mais f\u00e1cil iniciar uma guerra do que termin\u00e1-la e, no entanto, a reflex\u00e3o sobre a preven\u00e7\u00e3o de conflitos continua a ser dramaticamente marginal.<br \/>\n196. O cen\u00e1rio torna-se ainda mais inst\u00e1vel com a presen\u00e7a de novos protagonistas armados \u2013 grupos jihadistas, mil\u00edcias privadas, redes criminosas \u2013 que marcam o fim do monop\u00f3lio estatal da for\u00e7a. Frequentemente, eles combinam vagas motiva\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas com interesses econ\u00f3micos muito concretos, transformando a guerra num verdadeiro modo de viver para gera\u00e7\u00f5es inteiras de jovens e crian\u00e7as: o objetivo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria definitiva, mas a perpetua\u00e7\u00e3o do conflito como fonte de poder e rendimento.<br \/>\nArmas e IA<br \/>\n197. A este cen\u00e1rio associa-se o desenvolvimento incessante dos sistemas de armas, em particular das armas relacionadas com a IA. A Santa S\u00e9 observou recentemente que a crescente facilidade com que os sistemas de armas com autonomia operativa podem ser utilizados torna a guerra mais \u201cvi\u00e1vel\u201d e menos sujeita ao controlo humano, contrariando o princ\u00edpio de que o recurso \u00e0 for\u00e7a armada deve ocorrer como \u00faltima alternativa em caso de leg\u00edtima defesa. [183] Por isso, o desenvolvimento e a utiliza\u00e7\u00e3o da IA no campo b\u00e9lico devem estar sujeitos aos mais rigorosos compromissos \u00e9ticos, no respeito pela dignidade humana e pela sacralidade da vida, evitando uma corrida ao armamento. [184]<br \/>\n198. Fala-se por vezes de \u201cagentes morais artificiais\u201d, como se uma m\u00e1quina pudesse garantir, com maior coer\u00eancia do que um ser humano, a distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal. Ora, o ju\u00edzo moral n\u00e3o se reduz a um c\u00e1lculo: implica consci\u00eancia, responsabilidade pessoal e reconhecimento do outro como pessoa. Por isso, n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito confiar a sistemas artificiais decis\u00f5es letais ou, de qualquer forma, irrevers\u00edveis. N\u00e3o existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceit\u00e1vel. A IA n\u00e3o retira ao conflito a sua intr\u00ednseca desumanidade: apenas o torna mais r\u00e1pido e impessoal, baixando a fasquia do recurso \u00e0 viol\u00eancia e transformando a defesa em previs\u00e3o operacional, com as v\u00edtimas reduzidas a dados. Habituamo-nos, assim, \u00e0 ideia de que a viol\u00eancia \u00e9 inevit\u00e1vel e deve apenas ser otimizada. \u00c9, portanto, de m\u00e1xima import\u00e2ncia infundir valores e prud\u00eancia na programa\u00e7\u00e3o dos sistemas artificiais que constru\u00edmos, os quais podem contribuir para um ecossistema moral em que os seres humanos se encontrem melhor posicionados para ouvir a pr\u00f3pria consci\u00eancia e em que os modelos de IA estabele\u00e7am limites apropriados.<br \/>\n199. N\u00e3o basta invocar genericamente a \u00e9tica: \u00e9 necess\u00e1rio indicar crit\u00e9rios precisos de discernimento. O primeiro diz respeito \u00e0 responsabilidade pessoal. Quando a decis\u00e3o de atingir se automatiza ou se torna obscura, aumenta o risco de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o. Por isso, a cadeia de responsabilidades deve permanecer identific\u00e1vel e verific\u00e1vel: quem projeta, quem treina, quem autoriza e quem utiliza deve poder prestar contas das suas escolhas. O segundo crit\u00e9rio diz respeito ao tempo do ju\u00edzo moral. A IA tende a comprimir os tempos de decis\u00e3o; mas, na guerra, as decis\u00f5es irrevers\u00edveis n\u00e3o podem ter como crit\u00e9rios supremos a rapidez e a efici\u00eancia. O terceiro crit\u00e9rio \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o dos civis e a sua prote\u00e7\u00e3o. Toda a tecnologia que facilite atingir sem ver o rosto do outro reduz o n\u00edvel moral do conflito. A sele\u00e7\u00e3o de alvos e o uso da for\u00e7a n\u00e3o podem confundir combatentes e n\u00e3o combatentes, nem ignorar o impacto sobre popula\u00e7\u00f5es indefesas.<br \/>\n200. Destes crit\u00e9rios decorrem algumas exig\u00eancias imprescind\u00edveis. Em primeiro lugar, para qualquer sistema utilizado em \u00e2mbito b\u00e9lico, devem ser garantidas a rastreabilidade e a possibilidade de reconstituir as decis\u00f5es, de modo que responsabilidade e eventuais culpas n\u00e3o se dissolvam \u201cna m\u00e1quina\u201d. Em segundo lugar, a decis\u00e3o de recorrer \u00e0 for\u00e7a letal n\u00e3o pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controlo humano efetivo, consciente e respons\u00e1vel. Por fim, \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer regras partilhadas, inclusive a n\u00edvel internacional, que travem a corrida ao armamento tecnol\u00f3gico e garantam uma especial prote\u00e7\u00e3o a civis e infraestruturas essenciais \u00e0 sua sobreviv\u00eancia.<br \/>\nA crise do multilateralismo<br \/>\n201. A cultura do poder decorre tamb\u00e9m da crise do sistema multilateral. As institui\u00e7\u00f5es criadas para salvaguardar a ideia dum destino comum dos povos e dum bem comum mundial parecem enfraquecidas, n\u00e3o apenas devido a limita\u00e7\u00f5es estruturais, mas porque muitas vezes falta uma vontade partilhada de as apoiar e reformar, e de reconhecer a sua autoridade moral. Em vez de progredirmos, estamos a retroceder em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a hist\u00f3rica do s\u00e9culo XX. Depois de 1989, o colapso na Europa dos regimes comunistas foi acompanhado por uma globaliza\u00e7\u00e3o predominantemente econ\u00f3mica, desprovida de uma arquitetura pol\u00edtica adequada capaz de sustentar o di\u00e1logo e a paz. Confiou-se quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade, quando, na realidade, a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o gerou automaticamente unidade e paz, mas suscitou rea\u00e7\u00f5es fundamentalistas, identit\u00e1rias e nacionalistas. O resultado est\u00e1 longe dum multilateralismo aut\u00eantico: parece antes um multipolarismo desordenado e conflituoso, onde prevalece a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao outro.<br \/>\n202. Ressurge a tenta\u00e7\u00e3o de construir a identidade coletiva contra um inimigo, alimentando narrativas nas quais cada um se apresenta como v\u00edtima com direito \u00e0 vingan\u00e7a. As simplifica\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cprimeiro eu\u201d, \u201camigo-inimigo\u201d, \u201cn\u00f3s-eles\u201d \u2013 facilitam decis\u00f5es frequentemente irrespons\u00e1veis, que minam a confian\u00e7a m\u00fatua entre as na\u00e7\u00f5es. A for\u00e7a do direito internacional \u00e9 assim substitu\u00edda pelo pretenso \u201cdireito do mais forte\u201d, e os seus instrumentos \u2013 desde os tribunais competentes em crimes de guerra aos tribunais chamados a dirimir controv\u00e9rsias entre Estados \u2013 s\u00e3o em muitos casos contornados ou enfraquecidos, com consequ\u00eancias devastadoras para a cultura pol\u00edtica e a conviv\u00eancia. [185]<br \/>\n203. Neste contexto, a constru\u00e7\u00e3o da paz passou para segundo plano: em nome de l\u00f3gicas de poder, deixam-se de lado a coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento, o desarmamento, a preven\u00e7\u00e3o de conflitos e a constru\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a m\u00fatua. Assim, enfraquecem-se tamb\u00e9m as conquistas do direito humanit\u00e1rio: o princ\u00edpio da proporcionalidade na resposta \u00e0s agress\u00f5es; a garantia do acesso \u00e0 \u00e1gua, aos alimentos e aos bens essenciais; o respeito pela vida dos civis e das crian\u00e7as s\u00e3o tratados como reminisc\u00eancias ing\u00e9nuas do passado.<br \/>\nUm suposto realismo pol\u00edtico<br \/>\n204. Vivemos numa \u00e9poca de not\u00e1vel cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as ra\u00edzes da mem\u00f3ria, como se fosse poss\u00edvel inaugurar uma esp\u00e9cie de \u201cnova cria\u00e7\u00e3o\u201d desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princ\u00edpios morais pode cair neste niilismo hist\u00f3rico, iludindo-se com a ideia de que as atrocidades do s\u00e9culo XX n\u00e3o se podem repetir. Na realidade, as mesmas din\u00e2micas ressurgem sob novas formas. Parece voltar a impor-se a l\u00f3gica do equil\u00edbrio armado e da dissuas\u00e3o. Mas, ao contr\u00e1rio do cen\u00e1rio bipolar da Guerra fria, hoje a multiplica\u00e7\u00e3o dos protagonistas e das frentes de conflito torna esta l\u00f3gica cada vez mais fr\u00e1gil. A conflitualidade exacerbada conduz a guerras assim\u00e9tricas e \u201ch\u00edbridas\u201d, travadas tamb\u00e9m em \u00e2mbito econ\u00f3mico, financeiro e inform\u00e1tico, com o recurso \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica. Em muitos pa\u00edses, tamb\u00e9m no Sul global, o aumento das despesas militares \u00e9 apresentado como a \u00fanica resposta a um futuro incerto ou a amea\u00e7as pressentidas, enquanto o custo real recai sobre os mais pobres, que assistem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos recursos destinados \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e aos servi\u00e7os sociais.<br \/>\n205. Por tr\u00e1s de tudo isto est\u00e1 um falso \u201crealismo\u201d, baseado n\u00e3o s\u00f3 na l\u00f3gica dominante da for\u00e7a, mas tamb\u00e9m numa convic\u00e7\u00e3o cultural e antropol\u00f3gica, como se a guerra fosse inevitavelmente parte da natureza humana. Diz-se que, salvo breves intervalos, sempre foi assim e assim ser\u00e1! Portanto, o problema j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a paz, perdida como refer\u00eancia no horizonte internacional, mas sim como e quando agir militarmente, considerando-se irrespons\u00e1vel a n\u00e3o prepara\u00e7\u00e3o para o confronto. Por\u00e9m, o que \u00e9 verdadeiramente irrespons\u00e1vel \u00e9 a Realpolitik, esta forma de \u201crealismo\u201d pol\u00edtico, que semeia nas consci\u00eancias e na cultura a resigna\u00e7\u00e3o perante uma guerra inevit\u00e1vel, e qualifica a paz e o di\u00e1logo como posi\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas ou irracionais, que ignoram os riscos em jogo. Pelo contr\u00e1rio, a paz n\u00e3o \u00e9 uma esperan\u00e7a ing\u00e9nua nem apenas uma aus\u00eancia de guerra: \u00e9 o fruto, sempre poss\u00edvel, da justi\u00e7a e da caridade.<br \/>\n206. Neste clima, o niilismo e o pragmatismo acabam por entrela\u00e7ar-se e normalizar erros grav\u00edssimos: extremismos religiosos e fanatismos identit\u00e1rios aliam-se a um economicismo irracional, enquanto a pol\u00edtica recorre com facilidade \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o, \u00e0 ridiculariza\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de medos e ressentimentos. Assim, a diversidade do outro \u00e9 cada vez mais vivida como uma amea\u00e7a, alimentando o desejo de posse, a vontade de dom\u00ednio, as ambi\u00e7\u00f5es hegem\u00f3nicas, os abusos de poder e o medo da diferen\u00e7a, e preparando um terreno no qual novos conflitos podem amadurecer quase sem nos apercebermos. [186]<br \/>\n207. Este \u00e9 um terreno f\u00e9rtil para novas guerras, talvez ainda mais perigosas do que as do passado, pois tendem a perder todo o limite \u00e9tico. O que outrora era considerado inaceit\u00e1vel pode hoje ser posto em pr\u00e1tica quase sem hesita\u00e7\u00e3o, enquanto a rea\u00e7\u00e3o internacional se adapta \u00e0 conveni\u00eancia de cada governo, mais do que \u00e0 gravidade objetiva dos acontecimentos. As decis\u00f5es parecem guiadas quase exclusivamente por c\u00e1lculos econ\u00f3micos, defendidas atrav\u00e9s de ilus\u00f5es medi\u00e1ticas, euforias artificiais e \u201csonhos\u201d que inevitavelmente se desvanecem, gerando frustra\u00e7\u00e3o e nova viol\u00eancia. Quando nos persuadimos de que nada \u00e9 verdadeiramente real e os \u201cprinc\u00edpios\u201d n\u00e3o passam de um embrulho vazio, o rastilho de novas explos\u00f5es de intoler\u00e2ncia e agressividade acende-se no cora\u00e7\u00e3o das pessoas.<br \/>\n208. Neste contexto, a reivindica\u00e7\u00e3o de garantias contra novos atos de viol\u00eancia permanece em aberto. Quando uma cultura normaliza e justifica o conflito, abre-se uma deriva perigosa: o que hoje parece impens\u00e1vel pode tornar-se amanh\u00e3 aceit\u00e1vel por raz\u00f5es de utilidade ou seguran\u00e7a. Em pa\u00edses marcados por graves tens\u00f5es sociais, n\u00e3o podemos excluir a possibilidade de que algu\u00e9m acabe por considerar o conflito armado como uma forma eficaz de desviar a aten\u00e7\u00e3o dos problemas internos e como um instrumento de gest\u00e3o c\u00ednica das dificuldades.<br \/>\n209. Uma responsabilidade particular recai sobre aqueles que atuam no mundo da pesquisa. Todos os protagonistas desta \u00e1rea \u2013 cientistas, empreendedores, investidores, autoridades acad\u00e9micas, pol\u00edticos e outros \u2013 s\u00e3o chamados a trabalhar numa l\u00f3gica de transpar\u00eancia e responsabilidade, mantendo viva a consci\u00eancia do quadro mais amplo em que se inscrevem os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos para os quais contribuem, incluindo os relacionados com a IA. Quando se olha apenas para o pr\u00f3prio setor, julga-se desempenhar uma tarefa moralmente neutra e evitam-se quest\u00f5es sobre os fins \u00faltimos que orientam determinadas experi\u00eancias: corre-se assim o risco de cooperar, talvez sem querer, em projetos obscuros que alimentam novas formas de viol\u00eancia, manipula\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio.<br \/>\nConstruir a civiliza\u00e7\u00e3o do amor<br \/>\n210. A constru\u00e7\u00e3o de um mundo em estado de beliger\u00e2ncia permanente \u00e9 um mal, e deve ser chamado pelo seu nome. Esta forma de descrever a realidade em que vivemos pode parecer sombria ou pessimista, mas considero tratar-se duma den\u00fancia necess\u00e1ria. A perspectiva crist\u00e3, por\u00e9m, n\u00e3o se esgota na den\u00fancia do mal. Contemplamos a hist\u00f3ria \u00e0 luz do Crucificado Ressuscitado, a quem o Pai concedeu \u00abtodo o poder no C\u00e9u e na Terra\u00bb (Mt 28, 18). N\u00e3o interpretamos o presente como um destino fechado, mas como um campo aberto \u00e0 convers\u00e3o pessoal e coletiva. E acreditamos na for\u00e7a do Reino, que se desenvolve a partir da pequenez dum gr\u00e3o de mostarda, como uma semente que, uma vez deitada \u00e0 terra, germina e cresce (cf. Mc 4, 26-32). Enquanto nos rodeia o ru\u00eddo da confus\u00e3o, o bem cresce silenciosamente da terra. Escreve o profeta: \u00abVou realizar algo de novo, que j\u00e1 est\u00e1 a aparecer: n\u00e3o o notais?\u00bb (Is 43, 19).<br \/>\n211. Uma leitura atenta da hist\u00f3ria confirma-o. Mesmo nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de n\u00e3o se resignarem e de perseverarem no bem: pessoas que protegem os mais fracos e abrem caminhos para a reconcilia\u00e7\u00e3o. A mem\u00f3ria dos santos e dos justos, dos construtores da paz muitas vezes esquecidos, mostra que a gra\u00e7a n\u00e3o elimina o conflito com um gesto m\u00e1gico, mas gera uma ativa resist\u00eancia ao mal e uma surpreendente criatividade no bem. Os crist\u00e3os veem as trevas e chamam-nas pelo nome, mas n\u00e3o ficam parados a contempl\u00e1-las: conhecem a luz e sabem que as trevas nem a receberam nem podem venc\u00ea-la (cf. Jo 1, 5). Por isso, mesmo onde parece que a dor tem a \u00faltima palavra, servem o bem, sustentados por uma esperan\u00e7a teologal que d\u00e1 \u00e0 realidade um horizonte e uma dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTodos podemos fazer a nossa parte<br \/>\n212. Neste ponto, por\u00e9m, insinua-se uma subtil tenta\u00e7\u00e3o: pensar que os problemas s\u00e3o demasiado grandes e n\u00f3s demasiado pequenos; e que, por isso, as nossas escolhas nada alteram. Trata-se de uma forma elegante de rendi\u00e7\u00e3o, muitas vezes disfar\u00e7ada de realismo. Claro, nem todos t\u00eam o mesmo poder de incidir sobre a realidade: h\u00e1 quem governe, quem decida sobre investimentos, quem dirija institui\u00e7\u00f5es, quem fa\u00e7a investiga\u00e7\u00e3o, quem eduque, quem informe, quem produza; e h\u00e1 quem pare\u00e7a apenas ter a sua vida quotidiana. No entanto, ningu\u00e9m est\u00e1 isento de responsabilidade. Cada um disp\u00f5e de um pr\u00f3prio \u00e2mbito de a\u00e7\u00e3o, e \u00e9 a\u00ed \u2013 e n\u00e3o noutro lugar \u2013 que \u00e9 chamado a escolher entre alimentar a l\u00f3gica da for\u00e7a (mesmo que apenas com a indiferen\u00e7a, o cinismo, a mentira, o \u00f3dio), ou zelar pela l\u00f3gica da paz (com a verdade, a sobriedade, a proximidade, o cuidado).<br \/>\n213. John Ronald Reuel Tolkien, um escritor cat\u00f3lico do s\u00e9culo XX, atrav\u00e9s das palavras de um protagonista dum seu romance, descreveu assim a nossa responsabilidade: \u00abN\u00e3o nos compete dominar todas as mar\u00e9s do mundo, mas sim fazer o que nos for poss\u00edvel para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar\u00bb. [187] A civiliza\u00e7\u00e3o do amor n\u00e3o nasce dum gesto \u00fanico e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumaniza\u00e7\u00e3o. Por isso, vale a pena determo-nos a refletir sobre alguns aspectos de como podemos, cada um no seu \u00e2mbito, colaborar na sua constru\u00e7\u00e3o. Sem pretender esgotar o tema, proponho cinco pistas de responsabilidades quotidianas e p\u00fablicas: desarmar as palavras, construir a paz na justi\u00e7a, assumir o olhar das v\u00edtimas, cultivar um saud\u00e1vel realismo, revitalizar o di\u00e1logo e o multilateralismo.<br \/>\nDesarmar as palavras<br \/>\n214. O primeiro contributo que podemos dar para uma civiliza\u00e7\u00e3o mais humana \u00e9 prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas palavras. \u00abDesarmemos as palavras e contribuiremos para desarmar a Terra\u00bb. [188] O poder das palavras \u00e9 enorme e experimentamo-lo na comunica\u00e7\u00e3o quotidiana, quando algu\u00e9m nos diz algo que altera o nosso estado de esp\u00edrito, para melhor ou para pior. \u00abA paz come\u00e7a em cada um de n\u00f3s: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental: devemos dizer \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra\u00bb. [189] Todos devemos, portanto, fazer um exame de consci\u00eancia sobre as palavras que usamos, sobre os preconceitos de que est\u00e3o impregnadas e sobre a agressividade, patente ou latente, que nelas habita. Temos uma possibilidade real de contribuir para o bem sempre que dizemos a verdade, quando damos um conselho s\u00e1bio, quando apoiamos quem precisa de conforto, quando denunciamos uma injusti\u00e7a, quando damos voz a quem a n\u00e3o tem.<br \/>\nConstruir a paz na justi\u00e7a<br \/>\n215. Todos n\u00f3s, sem exce\u00e7\u00e3o, podemos contribuir para o alicerce da paz, que \u00e9 a justi\u00e7a. N\u00e3o procuramos, pois, uma paz qualquer, uma aus\u00eancia de conflito a todo o custo, mas aquela verdadeira paz que nasce da justi\u00e7a. \u00abExiste uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre a justi\u00e7a de cada um e a paz de todos\u00bb. [190] Ao comentar o vers\u00edculo do salmo que diz que \u00abv\u00e3o beijar-se a justi\u00e7a e a paz\u00bb ( Sl 85, 11b), escreve Santo Agostinho: \u00abN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que negue desejar a paz, mas pelo contr\u00e1rio nem todos est\u00e3o dispostos a praticar a justi\u00e7a. [\u2026] Por\u00e9m tu, tendo em mente que a justi\u00e7a e a paz se beijam, n\u00e3o est\u00e3o em disc\u00f3rdia, realiza as obras da justi\u00e7a. Por que raz\u00e3o queres tu colocar-te em contraste com a justi\u00e7a? Eis, por exemplo, a justi\u00e7a diz-te para n\u00e3o roubar, mas tu n\u00e3o lhe d\u00e1s ouvidos; para n\u00e3o cometer adult\u00e9rio, e fazes-te de surdo; para n\u00e3o fazeres aos outros aquilo que n\u00e3o gostarias que te fizessem; para n\u00e3o dizeres, a respeito do pr\u00f3ximo, as coisas que n\u00e3o gostarias que fossem ditas de ti. [\u2026] Queres, portanto, alcan\u00e7ar a paz? Pratica a justi\u00e7a!\u00bb. [191] N\u00e3o nos cansemos de procurar a justi\u00e7a!<br \/>\nAssumir o olhar das v\u00edtimas<br \/>\n216. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesita\u00e7\u00f5es e tomar posi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 conflitos nos quais n\u00e3o \u00e9 justo permanecer neutros nem \u00e9 suficiente pensar \u201cn\u00e3o ser c\u00famplice\u201d. [192] Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com atos de viol\u00eancia que atingem crian\u00e7as, estamos perante esc\u00e2ndalos que ferem a pr\u00f3pria humanidade. Por isso, n\u00e3o podemos limitar-nos a an\u00e1lises abstratas. Como recordou o Papa Francisco, devemos \u201ctocar a carne\u201d de quem sofre: [193] olhar para os rostos, escutar as hist\u00f3rias, reconhecer as feridas. Os acontecimentos dolorosos necessitam tanto de hist\u00f3ria como de mem\u00f3ria, a primeira para tentar relatar os acontecimentos, a segunda para testemunhar as experi\u00eancias vividas.<br \/>\n217. Dar espa\u00e7o, na informa\u00e7\u00e3o e na educa\u00e7\u00e3o, ao olhar e \u00e0 voz das v\u00edtimas ajuda verdadeiramente: a tomar consci\u00eancia do abismo do mal que a guerra encerra e, em geral, toda a viol\u00eancia; a n\u00e3o aceitar como normal a l\u00f3gica do conflito; a n\u00e3o desviar o olhar quando ocorre uma viola\u00e7\u00e3o da dignidade humana; e a devolver \u00e0s pessoas afetadas a dignidade de serem reconhecidas e escutadas. [194] A aten\u00e7\u00e3o a estas vozes alimenta a convic\u00e7\u00e3o de que, para al\u00e9m de minorias violentas, a humanidade n\u00e3o deseja a guerra. A Igreja pode ser, de modo especial, um lugar de mem\u00f3ria viva das v\u00edtimas. Como recordava S\u00e3o Paulo VI, ela sente que deve fazer sua, simultaneamente, a voz dos mortos das guerras passadas e a voz dos vivos que delas ainda levam as feridas, para que o seu clamor se torne apelo \u00e0 paz e \u00e0 conc\u00f3rdia e n\u00e3o prel\u00fadio para novos conflitos. [195]<br \/>\nCultivar um saud\u00e1vel realismo<br \/>\n218. Precisamos de um saud\u00e1vel realismo, que evite tanto o idealismo pol\u00edtico como o cinismo. Existe, realmente, um idealismo que, para salvar a sua vis\u00e3o do mundo, seleciona os acontecimentos, distorce-os, nomeia-os de novo e acaba por se envolver com uma realidade constru\u00edda \u00e0 medida das pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es. Existe, por outro lado, tamb\u00e9m um realismo degradado que confunde constata\u00e7\u00e3o com resigna\u00e7\u00e3o: uma vez que a for\u00e7a prevalece, chega \u00e0 conclus\u00e3o que deve predominar. O realismo aut\u00eantico n\u00e3o renuncia a mudar o mundo: come\u00e7a por ver com clareza os interesses, os medos, os v\u00ednculos e as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, precisamente para calcular o que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar e com que mudan\u00e7as. N\u00e3o reduz a pol\u00edtica \u00e0 moralidade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o a entrega \u00e0 viol\u00eancia: procura solu\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis para que a paz seja mais do que uma palavra, ou seja, institui\u00e7\u00f5es cred\u00edveis, garantias verific\u00e1veis, negocia\u00e7\u00f5es pacientes, preven\u00e7\u00e3o de conflitos e prote\u00e7\u00e3o dos civis.<br \/>\nRevitalizar o di\u00e1logo<br \/>\n219. Para construir a civiliza\u00e7\u00e3o do amor, devemos praticar o di\u00e1logo. Ele \u00e9 o principal instrumento da conviv\u00eancia entre as pessoas e entre os povos, sendo alternativa ao conflito aberto. J\u00e1 o recordava Pio XII na v\u00e9spera da Segunda Guerra Mundial, quando afirmava que com a paz nada se perde, enquanto com a guerra tudo pode ser perdido; e que os homens devem voltar a dialogar, pois um debate sincero e perseverante abre sempre a possibilidade duma solu\u00e7\u00e3o honrosa. [196]<br \/>\n220. O di\u00e1logo \u00e9 uma dimens\u00e3o normal da vida humana e n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre os Estados. Trata-se de adquirir uma atitude que permita construir la\u00e7os de fraternidade, feitos de escuta, de olhares sinceros, de tempo dado, e at\u00e9 mesmo de tempo perdido juntos. Pois, se fizermos a experi\u00eancia do encontro aut\u00eantico com o outro, com quem \u00e9 diferente, com o estrangeiro, com o migrante, torna-se muito mais dif\u00edcil at\u00e9 imaginar a guerra.<br \/>\n221. A n\u00edvel pol\u00edtico, \u00e9 urgente passar da \u201ccultura do poder\u201d para uma aut\u00eantica \u201ccultura da negocia\u00e7\u00e3o\u201d, na qual o di\u00e1logo e as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas se tornem o meio habitual para enfrentar os conflitos, tal como desejava Giorgio La Pira: \u00abo m\u00e9todo da guerra ter\u00e1 de ser substitu\u00eddo pelo m\u00e9todo da paz: o m\u00e9todo das negocia\u00e7\u00f5es, do encontro, da converg\u00eancia; ou seja, o m\u00e9todo autenticamente humano!\u00bb. [197] A consci\u00eancia dum destino comum dos povos exige que a cultura das negocia\u00e7\u00f5es se torne cada vez mais um compromisso partilhado, pol\u00edtico e cultural, capaz de afastar gradualmente a humanidade da espiral da viol\u00eancia.<br \/>\n222. Aos que t\u00eam a honra e o dever de governar, gostaria de repetir algumas palavras que proferi no in\u00edcio do meu Pontificado: \u00abOs povos querem a paz e eu, com o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, digo aos respons\u00e1veis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos! A guerra nunca \u00e9 inevit\u00e1vel, as armas podem e devem ser silenciadas, pois n\u00e3o resolvem os problemas, mas s\u00f3 os aumentam; pois ficar\u00e1 na hist\u00f3ria quem semeia a paz, n\u00e3o quem ceifa v\u00edtimas; pois os outros n\u00e3o s\u00e3o sobretudo inimigos, mas seres humanos: n\u00e3o vil\u00f5es a odiar, mas pessoas com quem falar. Rejeitemos as vis\u00f5es manique\u00edstas t\u00edpicas das narra\u00e7\u00f5es violentas, que dividem o mundo entre bons e maus\u00bb. [198]<br \/>\n223. Ao rejeitar a l\u00f3gica da viol\u00eancia, o di\u00e1logo entre as religi\u00f5es desempenha um papel decisivo, pois no centro dos grandes caminhos espirituais encontra-se uma mensagem de paz. [199] Quem, para legitimar o terrorismo, a viol\u00eancia ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religi\u00e3o significa, na realidade, ferir a pr\u00f3pria religi\u00e3o. [200] O \u201cesp\u00edrito de Assis\u201d, suscitado por S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e continuado pelo esfor\u00e7o do Papa Francisco \u2013 no di\u00e1logo, por exemplo, com o Grande Im\u00e3 de al-Azhar \u2013, mostra que os crentes podem haurir das fontes mais aut\u00eanticas das suas tradi\u00e7\u00f5es espirituais, onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para o \u00f3dio sacralizado.<br \/>\nA necessidade da diplomacia e do multilateralismo<br \/>\n224. Nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, o di\u00e1logo \u00e9 o instrumento insubstitu\u00edvel da diplomacia para prevenir conflitos e restabelecer la\u00e7os de confian\u00e7a. Contra as comunica\u00e7\u00f5es impulsivas, as ret\u00f3ricas agressivas e as l\u00f3gicas de poder que marcam o nosso tempo, \u00aba voca\u00e7\u00e3o da diplomacia \u00e9 favorecer o di\u00e1logo entre todos, incluindo os interlocutores considerados mais \u201cinc\u00f3modos\u201d ou que n\u00e3o se considerariam legitimados para negociar\u00bb, [201] recorrendo o m\u00e1ximo poss\u00edvel \u00e0 humildade e \u00e0 paci\u00eancia para reatar os mais t\u00e9nues sinais de boa vontade das partes em conflito, de modo a iniciar uma pacifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n225. O ciberespa\u00e7o tamb\u00e9m se tornou um campo de batalha: ataques inform\u00e1ticos, manipula\u00e7\u00e3o de dados e campanhas de influ\u00eancia orquestradas com a ajuda da IA podem desestabilizar pa\u00edses inteiros, antes mesmo de se chegar a um aberto confronto armado. Al\u00e9m disso, neste \u00e2mbito, a atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidades \u00e9 frequentemente incerta: quando n\u00e3o \u00e9 clara a origem dos ataques, aumenta o risco de rea\u00e7\u00f5es desproporcionais, erros de avalia\u00e7\u00e3o e espirais de escalada. Por isso, \u00e9 necess\u00e1ria uma diplomacia capaz de atuar tamb\u00e9m neste novo ambiente, negociando regras comuns sobre a utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias digitais, protegendo os civis e os mais vulner\u00e1veis de formas de viol\u00eancia invis\u00edveis, mas nem por isso menos reais.<br \/>\n226. As organiza\u00e7\u00f5es internacionais, em particular a ONU, continuam a ser instrumentos essenciais para promover uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor, possibilitando o di\u00e1logo entre as na\u00e7\u00f5es, a resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica dos conflitos, o desenvolvimento integral dos povos, a prote\u00e7\u00e3o das pessoas mais vulner\u00e1veis, o desarmamento e o cuidado da cria\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s destas inst\u00e2ncias, a comunidade internacional pode procurar reduzir as desigualdades, defender os direitos dos refugiados e das minorias, liberar recursos alocados ao armamento para os destinar \u00e0 promo\u00e7\u00e3o humana e proteger a Casa comum. A Santa S\u00e9 apoia e acompanha este esfor\u00e7o, embora reconhe\u00e7a que a atual fragilidade da ONU e do sistema pol\u00edtico internacional revela a necessidade de reformas profundas: n\u00e3o se trata apenas de ajustes t\u00e9cnicos, uma vez que a crise de convic\u00e7\u00f5es e de valores toca tamb\u00e9m os fundamentos \u00e9ticos da vida das na\u00e7\u00f5es e torna mais dif\u00edcil orientar o multilateralismo para o verdadeiro bem comum. [202]<br \/>\n227. No contexto internacional, a diplomacia da Santa S\u00e9 assume o princ\u00edpio evang\u00e9lico da miseric\u00f3rdia como crit\u00e9rio concreto da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 uma das formas atrav\u00e9s das quais a Santa S\u00e9 se coloca ao servi\u00e7o da humanidade, chamando as consci\u00eancias para a caridade e a verdade, defendendo a dignidade de cada pessoa e tornando-se voz dos pobres, dos migrantes e das v\u00edtimas das guerras. Desta forma, a diplomacia pontif\u00edcia expressa a catolicidade da Igreja e contribui para a constru\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor, na qual tamb\u00e9m as novas tecnologias sejam orientadas para o bem comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rezar e ter esperan\u00e7a<br \/>\n228. Estas pistas de a\u00e7\u00e3o nutrem-se da ora\u00e7\u00e3o e alimentam-na. Com efeito, para n\u00f3s, a paz \u00abvem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente\u00bb. [203] \u00c9 um dom entregue por Jesus aos seus disc\u00edpulos no dia da P\u00e1scoa: \u00abA paz esteja convosco! Esta \u00e9 a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que \u00e9 humilde e perseverante\u00bb. [204] Com estas palavras, saudei a Igreja e o mundo no dia da minha elei\u00e7\u00e3o para o s\u00f3lio de Pedro, e desejo repeti-las convidando todos a pedir este dom. N\u00e3o nos cansemos de rezar pela paz e de nos empenharmos para a concretizar nas nossas rela\u00e7\u00f5es e na sociedade.<br \/>\nCONCLUS\u00c3O<br \/>\n229. \u00abVeja cada um como edifica\u00bb (1 Cor 3, 10): s\u00e3o palavras de S\u00e3o Paulo, que exorta os crist\u00e3os de Corinto a guardar a unidade. Queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, interrog\u00e1mo-nos sobre o mundo que estamos a construir, perguntando-nos o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial. No final deste percurso, desejo entregar-vos um itiner\u00e1rio de vida crist\u00e3 s\u00f3brio e exigente, com o qual podemos viver esta mudan\u00e7a de \u00e9poca \u00e0 luz do Evangelho. \u00c9 um caminho que nasce da contempla\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio de Deus, vive a unidade eclesial alimentando-se da Palavra e da Eucaristia, edifica o mundo no bem e reza com a Virgem Maria.<br \/>\nO Verbo fez-se carne<br \/>\n230. Num mundo marcado por tantas estrat\u00e9gias que visam conquistar mercados e espa\u00e7os de influ\u00eancia, muitas vezes revestidas de ret\u00f3ricas apaziguadoras e constru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas sedutoras, o nosso cora\u00e7\u00e3o sente a necessidade de descobrir um des\u00edgnio diferente, s\u00e1bio e benevolente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat, quando proclama que, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, a miseric\u00f3rdia de Deus se estende sobre aqueles que O temem. [205] Este des\u00edgnio de miseric\u00f3rdia permeia a hist\u00f3ria tamb\u00e9m hoje, no meio de mudan\u00e7as r\u00e1pidas e inquietantes marcadas por algoritmos e redes globais, e torna-se a b\u00fassola para uma exist\u00eancia evang\u00e9lica na era digital.<br \/>\n231. No centro est\u00e1 o mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o: o Verbo fez-se carne e veio habitar entre n\u00f3s. A carne do Filho, pobre e vulner\u00e1vel, remete para a carne de tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s despojados da sua dignidade e reduzidos ao sil\u00eancio; [206] e atrav\u00e9s desta proximidade, o dom da paz entra no mundo de forma paradoxal: enquanto poder de nos tornarmos filhos de Deus, reavivado quando nos deixamos tocar pelo choro das crian\u00e7as, pela fragilidade dos idosos, pelo sil\u00eancio das v\u00edtimas, pelo cansa\u00e7o daqueles que lutam contra o mal que n\u00e3o desejariam cometer. [207] Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunh\u00e3o, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se fa\u00e7a assim na terra como no C\u00e9u. [208]<br \/>\n232. Nas promessas do transumanismo e de algumas correntes p\u00f3s-humanistas, que aspiram a uma humanidade aperfei\u00e7oada e quase desencarnada, reconhecemos um desejo que nos diz respeito: a necessidade de uma vida mais plena, menos exposta \u00e0 fragilidade e ao sofrimento. A Encarna\u00e7\u00e3o abre, por\u00e9m, um caminho diferente. Enquanto ideologias antigas e novas impelem o homem a superar tecnicamente os limites e a elevar-se acima dos outros para afirmar um dom\u00ednio, o mist\u00e9rio do Filho de Deus que entra na nossa condi\u00e7\u00e3o narra um movimento oposto: o Deus vivo desce \u00e0 nossa hist\u00f3ria para nos libertar de toda a forma de escravatura, [209] toma sobre si a nossa fraqueza e transforma-a num lugar de salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 circunst\u00e2ncia ou condi\u00e7\u00e3o humana que n\u00e3o seja digna de Deus: \u00abSegundo o ensinamento da nossa f\u00e9, temos e adoramos, nos nossos mist\u00e9rios, um Deus que nasce na manjedoura, um Deus que vive e viaja pela Judeia, um Deus que morre na cruz, um Deus morto que jaz no sepulcro\u00bb. [210] O futuro da humanidade encontra assim o seu crit\u00e9rio na capacidade de acolher esta forma divina de se aproximar, de partilhar o peso do mundo, de transformar as rela\u00e7\u00f5es a partir de dentro. \u00ab\u00d3 maravilha [\u2026] o homem \u00e9 Deus e este Deus-Homem passa por todos esses graus, suporta todos esses estados e os enobrece, santifica e deifica em si mesmo!\u00bb. [211] O que salva o homem \u00e9 o amor divino que desce ao ponto mais vulner\u00e1vel da sua hist\u00f3ria e a regenera profundamente.<br \/>\n233. Por isso, como fiel entre os fi\u00e9is, convido a contemplar no rosto do Filho uma magn\u00edfica humanidade que ilumina tamb\u00e9m a era da IA. Em Cristo compreendemos que o homem \u00e9 chamado a ser colaborador na obra da cria\u00e7\u00e3o, em vez de espectador resignado de processos tecnol\u00f3gicos que restringem a sua liberdade e responsabilidade. [212] A dignidade que o Esp\u00edrito Santo grava em cada um de n\u00f3s reconhece-se tamb\u00e9m na capacidade de refletir de modo cr\u00edtico, de escolher e de amar gratuitamente, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas. Nenhum sistema de c\u00e1lculo, por mais sofisticado que seja, gera um cora\u00e7\u00e3o que se entrega ou uma consci\u00eancia que discerne o bem. Mesmo quando as m\u00e1quinas se destacam pela efici\u00eancia, o centro da hist\u00f3ria continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano \u00e9 a plenitude para a qual caminha a hist\u00f3ria. \u00c9 o mist\u00e9rio da recapitula\u00e7\u00e3o, a certeza de que o Pai decidiu reunir em Cristo, \u00fanica Cabe\u00e7a, todas as coisas, no c\u00e9u e na terra (cf. Ef 1, 10). Neste des\u00edgnio, nada do que \u00e9 autenticamente humano se perder\u00e1, mas tudo ser\u00e1 purificado e reunido n\u2019Aquele que recolhe cada fragmento de vida, cada l\u00e1grima e cada conquista humana aut\u00eantica, para as subtrair ao nada e as entregar, redimidas, ao Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um \u00fanico corpo em Cristo<br \/>\n234. A espiritualidade que necessitamos \u00e9 uma espiritualidade eucar\u00edstica, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor. A Encarna\u00e7\u00e3o e a P\u00e1scoa revelam Deus que entra na nossa condi\u00e7\u00e3o humana e a transfigura no dom de si mesmo. Este dom continua presente e operante na Eucaristia, na qual o Senhor se comunica e re\u00fane a Igreja, para que a sua oferta se torne princ\u00edpio de unidade e fonte de vida nova. Desta comunh\u00e3o nasce tamb\u00e9m a solidariedade crist\u00e3, pois a \u00abuni\u00e3o com Cristo \u00e9, ao mesmo tempo, uni\u00e3o com todos os outros aos quais Ele Se entrega\u00bb. [213] Como explicava Santo Agostinho aos novos crist\u00e3os da sua Igreja, o p\u00e3o e o vinho no altar s\u00e3o o sacramento da unidade dos fi\u00e9is em Cristo: \u00abO que se v\u00ea tem um aspeto material, o que se compreende produz um efeito espiritual. Se quiseres compreender [o mist\u00e9rio] do corpo de Cristo, escuta o que o Ap\u00f3stolo diz aos fi\u00e9is: V\u00f3s sois o corpo de Cristo e os seus membros ( 1 Cor 12, 27). Se v\u00f3s, portanto, sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor est\u00e1 depositado o mist\u00e9rio de v\u00f3s mesmos: recebei o mist\u00e9rio de v\u00f3s mesmos. Ao que sois, respondei: Am\u00e9m, e ao responder, v\u00f3s o atestais. \u00c9-vos dito, na verdade: O Corpo de Cristo, e v\u00f3s respondeis: Am\u00e9m. Sede membros do corpo de Cristo, para que o vosso Am\u00e9m seja verdadeiro\u00bb. [214]<br \/>\n235. O \u201cAm\u00e9m\u201d que dizemos na liturgia, o Corpo que comungamos e o Sangue que bebemos d\u00e3o forma a toda a nossa vida. A Eucaristia \u00ab\u00e9 o encontro pessoal\u00edssimo com o Senhor, e, no entanto, n\u00e3o \u00e9 jamais apenas um ato de devo\u00e7\u00e3o individual\u00bb. [215] Nela manifesta-se que \u00absomos a Igreja de Cristo, somos os membros do seu corpo. N\u2019Ele, somos irm\u00e3os e irm\u00e3s. E, em Cristo, apesar de muitos e diferentes, somos uma s\u00f3 coisa: In Illo uno unum\u00bb. [216] A Eucaristia abre-nos \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 partilha, com uma aten\u00e7\u00e3o preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginaliza\u00e7\u00e3o. E, enquanto as novas redes econ\u00f3micas e tecnol\u00f3gicas podem gerar exclus\u00e3o, isolamento e depend\u00eancias, a Igreja alimentada pela Eucaristia \u00e9 chamada a mostrar outro crit\u00e9rio, preservando os v\u00ednculos, devolvendo voz aos que se n\u00e3o veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas.<br \/>\nO canteiro de obras do nosso tempo<br \/>\n236. A espiritualidade que desejo transmitir \u00e9 a do \u201cs\u00e1bio arquiteto\u201d que, animado pela esperan\u00e7a do Reino de Deus, se dedica a construir o mundo no bem (cf. 1 Cor 3, 10). Como escrevi no in\u00edcio desta reflex\u00e3o, [217] hoje a nossa constru\u00e7\u00e3o deve ter como fundamento a rela\u00e7\u00e3o com Deus; como regra, a aceita\u00e7\u00e3o do limite humano como algo natural e positivo; como estilo, a corresponsabilidade e a linguagem evang\u00e9lica. No final do percurso, o projeto de uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor delineia-se mais claramente e a constru\u00e7\u00e3o parece estar j\u00e1 em andamento, sobretudo gra\u00e7as \u00e0s muitas pedras vivas firmemente unidas a Cristo, a pedra angular (cf. 1 Pe 2, 4-6). Nesta obra somos chamados a assumir um papel ativo, sem nos refugiarmos no espiritualismo ou nos nossos pequenos mundos: devemos ser fi\u00e9is \u00e0 verdade, investir na educa\u00e7\u00e3o, cuidar das rela\u00e7\u00f5es, amar a justi\u00e7a e a paz.<br \/>\n237. Permane\u00e7amos fi\u00e9is \u00e0 verdade! Vivendo imersos em fluxos incessantes de informa\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es e imagens, sabemos como \u00e9 f\u00e1cil direcionar decis\u00f5es e prefer\u00eancias atrav\u00e9s de algoritmos cada vez mais sofisticados. [218] Neste contexto, \u00e9 importante conservar um cora\u00e7\u00e3o que ama a verdade, que deseja o que \u00e9 justo mais do que conte\u00fados apelativos, que busca a sabedoria mais do que o impacto imediato. A verdade que n\u00e3o devemos perder \u00e9 aquela sobre Deus e sobre o ser humano, tal como Cristo nos revelou. \u00c9 necess\u00e1rio abandonar uma vis\u00e3o individualista e t\u00e9cnica do homem, como se a realidade fosse pura mat\u00e9ria a ser moldada em fun\u00e7\u00e3o de interesses ego\u00edstas, tanto individuais como de grupo. [219] Cultivemos, em vez disso, aquilo que o Papa Francisco definiu como um \u00abantropocentrismo situado\u00bb, [220] que reconhece o ser humano como criatura inserida numa teia de rela\u00e7\u00f5es com os outros seres vivos e com toda a cria\u00e7\u00e3o. A fidelidade \u00e0 verdade exige integrar as possibilidades oferecidas pela t\u00e9cnica num caminho de sabedoria, capaz de salvaguardar simultaneamente a dignidade de cada pessoa e o futuro da nossa Casa comum.<br \/>\n238. Invistamos na educa\u00e7\u00e3o, que come\u00e7a por n\u00f3s pr\u00f3prios! Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educa\u00e7\u00e3o na f\u00e9 e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer mission\u00e1rios generosos e maduros na f\u00e9. Em particular, s\u00e3o necess\u00e1rios adultos que redescubram a sua voca\u00e7\u00e3o de artes\u00e3os em educar, dispostos a um trabalho di\u00e1rio e paciente, apoiado por alian\u00e7as educativas amplas e partilhadas. Acompanhar crian\u00e7as e adolescentes na utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias como espa\u00e7o de rela\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, ajudando-os a reconhecer nelas os riscos e a escolher o que faz crescer a liberdade interior, representa hoje uma forma concreta de caridade e de salvaguarda da sua dignidade. Educar as novas gera\u00e7\u00f5es para acreditarem que a evolu\u00e7\u00e3o das tecnologias n\u00e3o segue um percurso inevit\u00e1vel, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva, constitui um dos servi\u00e7os mais preciosos ao bem comum.<br \/>\n239. Cuidemos das rela\u00e7\u00f5es! Numa \u00e9poca que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por m\u00e3os capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conex\u00f5es e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o cora\u00e7\u00e3o humano conserva uma necessidade inalien\u00e1vel de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presen\u00e7a f\u00edsica continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade crist\u00e3 que se re\u00fane, a visita a quem est\u00e1 s\u00f3, o servi\u00e7o aos pobres. S\u00e3o sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo \u00e9 templo do Esp\u00edrito e casa de Deus, e \u00e9 precisamente esta alian\u00e7a entre gl\u00f3ria e fragilidade que se torna o crit\u00e9rio para avaliar os modelos antropol\u00f3gicos propostos pela cultura atual.<br \/>\n240. Amemos a justi\u00e7a e a paz! As mesmas tecnologias que facilitam a comunica\u00e7\u00e3o e o acesso aos recursos podem sustentar modelos que exploram os mais fracos, alimentam novas formas de escravatura e transformam o conflito numa oportunidade de lucro. Cada escolha t\u00e9cnica ou econ\u00f3mica transforma-se numa ocasi\u00e3o de discernimento espiritual, uma oportunidade para verificar se os progressos da IA abrem espa\u00e7os de justi\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o ou se concentram riqueza e poder nas m\u00e3os de poucos. Convido a olhar com lucidez para as cadeias de produ\u00e7\u00e3o digital, para as condi\u00e7\u00f5es de trabalho escondidas por tr\u00e1s dos nossos dispositivos, para os mecanismos que tiram partido da manipula\u00e7\u00e3o e da guerra; e, ao mesmo tempo, a procurar caminhos concretos para fazer crescer a equidade, a participa\u00e7\u00e3o e o cuidado da cria\u00e7\u00e3o. A esperan\u00e7a que anunciamos vem do c\u00e9u \u00abpara gerar uma nova hist\u00f3ria aqui em baixo\u00bb: precisamente por isso, quem acredita empenha-se para que em vez das desigualdades se abra espa\u00e7o a uma maior justi\u00e7a e \u00abem vez da ind\u00fastria da guerra se afirme o artesanato da paz\u00bb. [221]<br \/>\n241. Olhando para o futuro, desejo evocar a imagem de Neemias, que no in\u00edcio deste percurso escolhemos como companheiro e figura de refer\u00eancia. Neemias ouve o clamor de uma cidade ferida, leva essa dor para a ora\u00e7\u00e3o, discerne perante Deus, pede ajuda, obt\u00e9m permiss\u00e3o para partir, organiza o trabalho, enfrenta resist\u00eancias internas e externas e, tijolo por tijolo, reconstr\u00f3i com o povo as muralhas de Jerusal\u00e9m. Reconhe\u00e7o nele uma par\u00e1bola luminosa da nossa voca\u00e7\u00e3o a ser, na era da transforma\u00e7\u00e3o digital, n\u00e3o resignados espectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas de ru\u00ednas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da hist\u00f3ria \u2013 laborat\u00f3rios de investiga\u00e7\u00e3o, empresas tecnol\u00f3gicas, escolas, meios de comunica\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es, comunidades locais \u2013 para reconstruir o que ruiu e proteger o que est\u00e1 exposto. Tal como Neemias, tamb\u00e9m n\u00f3s somos chamados a unir escuta e coragem, ora\u00e7\u00e3o e responsabilidade, para que a cidade dos homens se torne mais habit\u00e1vel, mesmo quando as l\u00f3gicas tecnocr\u00e1ticas e os interesses particulares parecem prevalecer.<br \/>\n242. A imagem da reconstru\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m remete para a promessa do Novo Testamento, da cidade santa que recebemos, em primeiro lugar, como dom. No Apocalipse, a nova Jerusal\u00e9m desce at\u00e9 n\u00f3s como um dom para todo o povo de Deus, \u00abpreparada, qual noiva adornada para o seu esposo\u00bb (Ap 21, 2). As muralhas de Jerusal\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o fortifica\u00e7\u00f5es defensivas, mas os ornamentos preciosos da Esposa do Cordeiro. As suas portas, que Neemias protegia com tanta aten\u00e7\u00e3o, est\u00e3o permanentemente abertas a todas as na\u00e7\u00f5es. A presen\u00e7a de Deus oferece a todos luz e vida. A cidade \u00e9 um novo \u00c9den, com a sua \u00e1gua viva oferecida aos sedentos e com a sua \u00e1rvore da vida, cujas folhas \u00abservem de medicamento para as na\u00e7\u00f5es\u00bb (Ap 22, 2). Na espera de plena realiza\u00e7\u00e3o, esta vis\u00e3o apresenta-se diante de n\u00f3s como uma exorta\u00e7\u00e3o, um apelo para superar as nossas divis\u00f5es e trabalhar juntos: este \u00e9 o caminho de Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.<br \/>\nO c\u00e2ntico da esperan\u00e7a: Magnificat<br \/>\n243. O quarto ponto deste programa de vida crist\u00e3 \u2013 depois da f\u00e9 que contempla o des\u00edgnio de amor do Pai, da caridade que nos une num \u00fanico corpo eclesial e da esperan\u00e7a que sustenta a nossa a\u00e7\u00e3o no mundo \u2013 \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o. O c\u00e2ntico de Maria acompanha o nosso empenho. Perante Isabel, que lhe anuncia que se tornou a m\u00e3e do Senhor, Maria irrompe num hino de louvor e de alegria: a sua alma glorifica o Senhor e o seu esp\u00edrito exulta em Deus, seu Salvador, porque Ele escolheu para o seu des\u00edgnio de salva\u00e7\u00e3o uma jovem, pobre e humilde. Improvisamente, Maria v\u00ea toda a hist\u00f3ria com os olhos desta descoberta. Nada mudou \u00e0 sua volta: a situa\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica da sua \u00e9poca permanece a mesma, com os romanos a dominarem a sua terra e o seu povo dividido e humilhado. No entanto, tudo mudou dentro dela, e isso permite-lhe ver o invis\u00edvel. Deus j\u00e1 manifestou o poder do seu bra\u00e7o, j\u00e1 dispersou os soberbos, derrubou os poderosos, exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos de m\u00e3os vazias. Ele j\u00e1 socorreu Israel, seu servo. Deus \u00abdeclara-se da parte dos \u00faltimos. O seu \u00e9 um projeto que com frequ\u00eancia est\u00e1 escondido sob o terreno obscuro das vicissitudes humanas, que veem triunfar \u201cos soberbos, os poderosos e os ricos\u201d. Contudo a sua for\u00e7a secreta est\u00e1 destinada a revelar-se no final\u00bb. [222]<br \/>\n244. A Virgem Maria n\u00e3o s\u00f3 ensina a ver a obra invis\u00edvel de Deus, como orienta o nosso olhar \u00abnas fraturas que marcam a humanidade, onde ocorre a distor\u00e7\u00e3o do mundo no contraste entre humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos\u00bb, educando-nos \u00aba adotar uma perspectiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e n\u00e3o com a \u00f3tica dos grandes; considerar a hist\u00f3ria sob o prisma dos pequenos, e n\u00e3o com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos da hist\u00f3ria a partir do ponto de vista da vi\u00fava, do \u00f3rf\u00e3o, do estrangeiro, da crian\u00e7a ferida, do exilado, do fugitivo\u00bb. [223] Assim, a Virgem torna-se \u00abpoetisa e profetisa da reden\u00e7\u00e3o\u00bb, porque dos seus l\u00e1bios jorra \u00abo hino mais forte e inovador que jamais foi entoado, o Magnificat; \u00e9 ela que revela o des\u00edgnio transformador da economia crist\u00e3, o resultado hist\u00f3rico e social, que continua a haurir do cristianismo a sua origem e a sua for\u00e7a\u00bb. [224]<br \/>\n245. Com a mesma f\u00e9 de Maria, tornemo-nos tecel\u00f5es de esperan\u00e7a no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presen\u00e7a de Jesus cres\u00e7a entre n\u00f3s e o seu Reino tome forma. Na humilde fidelidade de cada dia, tamb\u00e9m a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Esp\u00edrito faz amadurecer a civiliza\u00e7\u00e3o do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mant\u00e9m aberta, em cada \u00e9poca, a possibilidade de se tornar hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o \u00e0 luz da Encarna\u00e7\u00e3o. Confio este desejo \u00e0 M\u00e3e de Cristo, \u00e0 mulher do Magnificat, para que acompanhe os nossos passos no presente em mudan\u00e7a e guarde em cada um de n\u00f3s a confian\u00e7a no Evangelho, de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus.<br \/>\nDado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, a 15 de maio do ano 2026, segundo do meu Pontificado.<br \/>\nLE\u00c3O PP. XIV<br \/>\n________________________________________<br \/>\n[1] Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966), 1042.<br \/>\n[2] Cf. ibid., 11: AAS 58 (1966), 1033-1034.<br \/>\n[3] Idem, Cost. dogm. Lumen gentium, 1: AAS 57 (1965), 5.<br \/>\n[4] Cf. Le\u00e3o XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 15: ASS 23 (1890-1891), 653.<br \/>\n[5] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 69: AAS 101 (2009), 702.<br \/>\n[6] Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 104: AAS 107 (2015), 888.<br \/>\n[7] Ibidem.<br \/>\n[8] S. Agostinho, Confessiones, I, 1, 1: CCSL 27 (Turnhout 1981), 1.<br \/>\n[9] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 183: AAS 105 (2013), 1097.<br \/>\n[10] Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 36: AAS 58 (1966), 1054; cf. Idem, Decr. Apostolicam actuositatem, 7: AAS 58 (1966), 843-844.<br \/>\n[11] Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 44: AAS 58 (1966), 1065.<br \/>\n[12] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 257: AAS 105 (2013), 1123.<br \/>\n[13] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta ap. sob forma de Motu proprio Socialium scientiarum (1 de janeiro de 1994): AAS 86 (1994), 209.<br \/>\n[14] Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 61: AAS 107 (2015), 871.<br \/>\n[15] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 41: AAS 80 (1988), 570-572.<br \/>\n[16] Idem, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de novembro de 1994), 35: AAS 87 (1995), 27.<br \/>\n[17] Discurso aos membros da Funda\u00e7\u00e3o Centesimus Annus pro Pontifice (17 de maio de 2025): AAS 117 (2025), 696.<br \/>\n[18] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 222: AAS 105 (2013), 1111.<br \/>\n[19] Cf. ibid., 236: AAS 105 (2013), 1115; ID, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 215: AAS 112 (2020), 1045-1046.<br \/>\n[20] Conc. Ecum. Vaticano II, Cost. dogm. Lumen gentium, 13: AAS 57 (1965), 17.<br \/>\n[21] Cf. S. Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de maio de 1971), 4: AAS 63 (1971), 403.<br \/>\n[22] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 243: AAS 105 (2013), 1118.<br \/>\n[23] Cf. Pio XII, Exort. ap. Menti Nostrae (23 de setembro de 1950): AAS 42 (1950), 657-702.<br \/>\n[24] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 799.<br \/>\n[25] Pio XI, Carta enc. Quadragesimo anno (15 de maio de 1931), 39: AAS 23 (1931), 189; cf. Pio XII, Radiomensagem na Solenidade de Pentecostes. 50\u00ba anivers\u00e1rio da Carta Enc\u00edclica \u00abRerum novarum\u00bb: AAS 33 (1941), 198.<br \/>\n[26] Cf. Idem, Discurso ao Sagrado Col\u00e9gio dos Cardeais e \u00e0 Prelatura Romana (24 de dezembro de 1940): AAS 33 (1941), 13.<br \/>\n[27] Cf. S. Jo\u00e3o XXIII, Carta enc. Mater et magistra (15 de maio de 1961), 3-4: AAS 53 (1961), 402.<br \/>\n[28] Cf. Idem, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), 162: AAS 55 (1963), 301.<br \/>\n[29] Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 26: AAS 58 (1966), 1046-1047.<br \/>\n[30] Cf. Idem, Decl. Dignitatis humanae, 2: AAS 58 (1966), 930-931.<br \/>\n[31] S. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de mar\u00e7o de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264.<br \/>\n[32] Ibid., 87: AAS 59 (1967), 299.<br \/>\n[33] Cf. Idem, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de maio de 1971), 4-7: AAS 63 (1971), 404-406.<br \/>\n[34] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 36: AAS 80 (1988), 561.<br \/>\n[35] Cf. Idem, Carta enc. Laborem exercens (14 de setembro de 1981), 19: AAS 73 (1981), 625-629.<br \/>\n[36] Cf. ibid., 10: AAS 73 (1981), 600-602.<br \/>\n[37] Cf. Idem, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 14: AAS 80 (1988), 526-528.<br \/>\n[38] Cf. ibid., 16: AAS 80 (1988), 531.<br \/>\n[39] Cf. ibid., 31-33: AAS 80 (1988), 555-559.<br \/>\n[40] Cf. Idem, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 46: AAS 83 (1991), 850-851.<br \/>\n[41] Cf. ibid., 42: AAS 83 (1991), 845-846.<br \/>\n[42] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 21: AAS 101 (2009), 656.<br \/>\n[43] Cf. ibid., 22: AAS 101 (2009), 657.<br \/>\n[44] Cf. ibid., 24: AAS 101 (2009), 658-659.<br \/>\n[45] Cf. ibid., 36: AAS 101 (2009), 671-672.<br \/>\n[46] Ibid., 2: AAS 101 (2009), 642.<br \/>\n[47] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 198: AAS 105 (2013), 1103.<br \/>\n[48] Idem, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 49: AAS 107 (2015), 866.<br \/>\n[49] Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 127: AAS 112 (2020), 1013.&#8217;<br \/>\n[50] Idem, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 167: AAS 116 (2024), 1421.<br \/>\n[51] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (Cidade do Vaticano 2004), 32.<br \/>\n[52] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 24: AAS 58 (1966), 1045.<br \/>\n[53] Ibid., 22: AAS 58 (1966), 1042.<br \/>\n[54] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (Cidade do Vaticano 2004), 38.<br \/>\n[55] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de mar\u00e7o de 1979), 14: AAS 71 (1979), 284.<br \/>\n[56] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 11: AAS 101 (2009), 647-648.<br \/>\n[57] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de agosto de 1993), 31: AAS 85 (1993), 1159.<br \/>\n[58] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 26: AAS 58 (1966), 1046-1047.<br \/>\n[59] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 11: AAS 83 (1991), 806-807.<br \/>\n[60] Cf. Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9, Decl. Dignitas infinita (2 de abril de 2024), 7: AAS 116 (2024), 592-593.<br \/>\n[61] Cf. ibid., 8: AAS 116 (2024), 593-594.<br \/>\n[62] Ibid., 1: AAS 116 (2024), 589-590.<br \/>\n[63] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Angelus na Catedral de Osnabr\u00fcck (16 de novembro de 1980): L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 23 de novembro de 1980), 20.<br \/>\n[64] Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (Cidade do Vaticano 2004), 152.<br \/>\n[65] S. Jo\u00e3o Paulo II, Discurso na 50\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (5 de outubro de 1995), 2: L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 14 de outubro de 1995), 3.<br \/>\n[66] Idem, Discurso na 34\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (2 de outubro de 1979), 7: AAS 71 (1979), 1148.<br \/>\n[67] Idem, Mensagem para o XXXII Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 1999) 3: AAS 91 (1999), 379.<br \/>\n[68] Cf. S. Jo\u00e3o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963) 5: AAS 55 (1963), 259.<br \/>\n[69] S. Paulo VI, Mensagem \u00e0 Confer\u00eancia Internacional sobre os Direitos Humanos (15 de abril de 1968): AAS 60 (1968), 285.<br \/>\n[70] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de mar\u00e7o de 1995), 2: AAS 87 (1995), 402.<br \/>\n[71] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 27: AAS 58 (1966), 1047-1048; S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de agosto de 1993), 80: AAS 85 (1993), 1197-1198; Idem, Carta enc. Evangelium vitae (25 de mar\u00e7o de 1995), 7-28: AAS 87 (1995), 408-427.<br \/>\n[72] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 208: AAS 112 (2020), 1043.<br \/>\n[73] Cf. ibid., 209: AAS 112 (2020), 1043-1044.<br \/>\n[74] Ibid., 23: AAS 112 (2020), 977. Cf. Idem, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 212: AAS 105 (2013), 1108.<br \/>\n[75] Bento XVI, Exort. apost. Sacramentum caritatis (22 de fevereiro de 2007), 83: AAS 99 (2007), 169.<br \/>\n[76] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 26: AAS 58 (1966), 1046-1047.<br \/>\n[77] Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 164.<br \/>\n[78] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 235: AAS 105 (2013), 1115.<br \/>\n[79] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 105: AAS 112 (2020), 1005.<br \/>\n[80] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 564.<br \/>\n[81] Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 220: AAS 105 (2013), 1110.<br \/>\n[82] Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 169.<br \/>\n[83] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 16: AAS 112 (2020), 974.<br \/>\n[84] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Discurso na 50\u00aa Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (5 de outubro de 1995), 8: L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 14 de outubro de 1995), 4.<br \/>\n[85] Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 171.<br \/>\n[86] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 31: AAS 83 (1991), 831.<br \/>\n[87] Idem, Homilia na Missa celebrada para os trabalhadores rurais em Recife (7 de julho de 1980), 4: AAS 72 (1980), 926.<br \/>\n[88] Idem, Carta enc. Laborem exercens (14 de setembro de 1981), 19: AAS 73 (1981), 626.<br \/>\n[89] Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 93: AAS 107 (2015), 884; cf. Id. Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 120: AAS 112 (2020), 1010.<br \/>\n[90] Idem, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 189: AAS 105 (2013), 1099.<br \/>\n[91] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 187.<br \/>\n[92] Cf. Le\u00e3o XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 26: ASS 23 (1890-1891), 656.<br \/>\n[93] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 11: AAS 83 (1991), 806.<br \/>\n[94] Cf. ibidem.<br \/>\n[95] Cf. ibid., 48: AAS 83 (1991), 852-854.<br \/>\n[96] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 169: AAS 112 (2020), 1028.<br \/>\n[97] Cf. ibid., 168: AAS 112 (2020), 1027-1028.<br \/>\n[98] Cf. S. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de mar\u00e7o de 1967), 17: AAS 59 (1967), 265-266.<br \/>\n[99] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 32 e 54: AAS 112 (2020), 980 e 988.<br \/>\n[100] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 58: AAS 101\/8 (2009), 693-694.<br \/>\n[101] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 116: AAS 112 (2020), 1009.<br \/>\n[102] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 38: AAS 80 (1988), 564.<br \/>\n[103] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 116: AAS 112 (2020), 1009.<br \/>\n[104] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 48: AAS 101 (2009), 685.<br \/>\n[105] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 25: AAS 58 (1966), 1045.<br \/>\n[106] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572.<br \/>\n[107] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 53: AAS 105 (2013), 1042.<br \/>\n[108] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 36-37: AAS 80 (1988), 561-564.<br \/>\n[109] Francisco, Mensagem para o CX Dia Mundial do Migrante e do Refugiado (29 de setembro de 2024): AAS 116 (2024), 735.<br \/>\n[110] S. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de mar\u00e7o de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264.<br \/>\n[111] Cf. ibid., 17: AAS 59 (1967), 265-266; Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 125-127: AAS 112 (2020), 1012-1013.<br \/>\n[112] Cf. S. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de mar\u00e7o de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264; Bento XVI, Discurso ao Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto da Santa S\u00e9 (8 de janeiro de 2007): AAS 99 (2007), 73; Francisco, Discurso aos Representantes dos povos ind\u00edgenas por ocasi\u00e3o da 40\u00aa sess\u00e3o do Conselho de Governadores do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola (15 de fevereiro de 2017): AAS 109 (2017), 244-245.<br \/>\n[113] Documento Final da Segunda Sess\u00e3o da XVI Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos (26 de outubro de 2024), 17.<br \/>\n[114] Cf. ibid., 11.<br \/>\n[115] Cf. ibid., 103-108.<br \/>\n[116] Cf. ibid., 100-101.<br \/>\n[117] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 94: AAS 112 (2020), 1001.<br \/>\n[118] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 53.<br \/>\n[119] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 106-109: AAS 107 (2015), 889-891.<br \/>\n[120] R. Guardini, O fim dos tempos modernos (Lisboa 1964), 103.<br \/>\n[121] S. Paulo VI, Discurso por ocasi\u00e3o do XXV anivers\u00e1rio da FAO (16 de novembro de 1970): AAS 62 (1970), 833.<br \/>\n[122] Cfr. Francisco, Discurso ao Conselho para um Capitalismo Inclusivo (11 de novembro de 2019): L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 19 de novembro de 2019), 12.<br \/>\n[123] Cf. Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, Nota Antiqua et nova (14 de janeiro de 2025): AAS 117 (2025), 159-210; Francisco, Mensagem por ocasi\u00e3o do LVII Dia Mundial da Paz (8 de dezembro de 2023): AAS 116 (2024), 54-64; Idem, Mensagem para o LVIII Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais (24 de janeiro de 2024): AAS 116 (2024), 261-266;Idem, Discurso na Sess\u00e3o do G7 sobre intelig\u00eancia artificial. \u201cUm instrumento fascinante e tremendo\u201d (14 de junho de 2024): AAS 116 (2024), 866-875; Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, Quo vadis, humanitas? Reflex\u00e3o sobre a antropologia crist\u00e3 perante alguns cen\u00e1rios sobre o futuro do ser humano (9 de fevereiro de 2026); Mensagem para o LX Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais (24 de janeiro de 2026): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de fevereiro 2026), 76-79.<br \/>\n[124] Cf. Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, Nota Antiqua et nova (14 de janeiro de 2025), 96: AAS 117 (2025), 201.<br \/>\n[125] Francisco, Discurso aos participantes no encontro \u201cMinerva Dialogues\u201d (27 de mar\u00e7o de 2023): AAS 115 (2023), 465.<br \/>\n[126] Cf. Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, Nota Antiqua et nova (14 de janeiro de 2025), 41: AAS 117 (2025), 178.<br \/>\n[127] Cf. ibid., 44-45: AAS 117 (2025), 179-180.<br \/>\n[128] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 40: AAS 83 (1991), 843.<br \/>\n[129] Cf. Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, Quo vadis, humanitas? Reflex\u00e3o sobre a antropologia crist\u00e3 perante alguns cen\u00e1rios sobre o futuro do ser humano (9 de fevereiro de 2026), 63.<br \/>\n[130] Cf. S. Paulo VI, Discurso por ocasi\u00e3o do XXV anivers\u00e1rio da FAO (16 de novembro de 1970): AAS 62 (1970), 833.<br \/>\n[131] Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, Quo vadis, humanitas? Reflex\u00e3o sobre a antropologia crist\u00e3 perante alguns cen\u00e1rios sobre o futuro do ser humano (9 de fevereiro de 2026), 3.<br \/>\n[132] \u00abAo n\u00e3o se dar o devido valor ao cora\u00e7\u00e3o, desvaloriza-se tamb\u00e9m o que significa falar a partir do cora\u00e7\u00e3o, agir com o cora\u00e7\u00e3o, amadurecer e curar o cora\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o se consideram as especificidades do cora\u00e7\u00e3o, perdemos as respostas que a intelig\u00eancia por si s\u00f3 n\u00e3o pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a hist\u00f3ria e as nossas hist\u00f3rias, porque a verdadeira aventura pessoal \u00e9 aquela que se constr\u00f3i a partir do cora\u00e7\u00e3o. No fim da vida, s\u00f3 isto contar\u00e1\u00bb: Francisco, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 11: AAS 116 (2024), 1372.<br \/>\n[133] V. Frankl, O Homem em Busca de um Sentido (Alfragide 2022), 132.<br \/>\n[134] S. Tom\u00e1s de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 112, a. 1, co.; q. 114, a. 5, co: ed. Leonina, VII (Roma 1892), 323 e 349.<br \/>\n[135] Cf. ibid., q. 114, a. 1, co: ed. Leonina, VII, 344.<br \/>\n[136] Cf. S. Tom\u00e1s de Aquino, Super Boetium De Trinitate, q. 1, a. 2, ad 3: ed. Leonina, L (Roma 1992), 96; Summa Theologiae, I, q. 7, a. 1, ad 3: ed. Leonina, IV (Roma 1888), 72.<br \/>\n[137] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 8: AAS 105 (2013), 1022.<br \/>\n[138] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de mar\u00e7o de 1979), 15: AAS 71 (1979), 286-287.<br \/>\n[139] S. Agostino, De civitate Dei, XIV, 28: CCSL 48, Turnhout 1955, 451.<br \/>\n[140] Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 34: AAS 101 (2009), 668-669.<br \/>\n[141] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de agosto de 1993), 32: AAS 85 (1993), 1159.<br \/>\n[142] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 207: AAS 112 (2020), 1043.<br \/>\n[143] H. Arendt, As Origens do Totalitarismo (Alfragide 2024), 627.<br \/>\n[144] Discurso aos profissionais da comunica\u00e7\u00e3o (12 de maio de 2025): AAS 117 (2025), 681-682.<br \/>\n[145] Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais (24 de janeiro de 2013): AAS 105 (2013), 183.<br \/>\n[146] Francisco, Discurso por ocasi\u00e3o da entrega das ins\u00edgnias da Ordem Piano ao Sr. Philip Pullella e \u00e0 Sra. Valentina Alazraki (13 de novembro de 2021): L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 23 de novembro de 2021), 7.<br \/>\n[147] Cf. Plat\u00e3o, Carta VII, 344b-c: ed. SOUILH\u00c9, XIII\/1 (Paris 1931) [ CUF, S\u00e9rie grecque 63], 54.<br \/>\n[148] Cf. Discurso aos participantes no Congresso \u201cA dignidade das crian\u00e7as e dos adolescentes na era da intelig\u00eancia artificial\u201d (13 de novembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de dezembro de 2025), 102-103.<br \/>\n[149] Cf. Discurso aos membros do Conselho Consultivo da RCS Academy (7 de novembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano, 7 de novembro de 2025, 4.<br \/>\n[150] S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de setembro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 584.<br \/>\n[151] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 128: AAS 107 (2015), 898.<br \/>\n[152] Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, Nota Antiqua et nova (14 de janeiro de 2025), 67: AAS 117 (2025), 188-189.<br \/>\n[153] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de setembro de 1981), 18: AAS 73 (1981), 622-625.<br \/>\n[154] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 109: AAS 107 (2015), 891.<br \/>\n[155] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 32: AAS 101 (2009), 666.<br \/>\n[156] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 268.<br \/>\n[157] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 64: AAS 101 (2009), 698.<br \/>\n[158] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si\u2019 (24 de maio de 2015), 129: AAS 107 (2015), 899.<br \/>\n[159] Cf. ibid.<br \/>\n[160] Cf. Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 108: AAS 112 (2020), 1006.<br \/>\n[161] Cf. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicasterio para o Servi\u00e7o do Desenvolvimento Humano Integral, Oeconomicae et pecuniariae quaestiones. Considera\u00e7\u00f5es para um discernimento \u00e9tico sobre alguns aspetos do atual sistema econ\u00f3mico-financeiro (6 de janeiro de 2018), 6: AAS 110 (2018), 772.<br \/>\n[162] Francisco, Sauda\u00e7\u00f5es ao pessoal do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola (FIDA) (14 de fevereiro de 2019): AAS 111 (2019), 309. Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 22: AAS 101 (2009), 657.<br \/>\n[163] Cf. ibid., 36: AAS 101 (2009), 671-672.<br \/>\n[164] Cf. Francisco, Exort. apost. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 204: AAS 105 (2013), 1105-1106.<br \/>\n[165] Cf. S. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de mar\u00e7o de 1967), 87: AAS 59 (1967), 299.<br \/>\n[166] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de maio de 1991), 39: AAS 83 (1991), 841.<br \/>\n[167] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 211.<br \/>\n[168] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Carta Gratissimam Sane (2 de fevereiro de 1994), 17: AAS 86 (1994), 903-906.<br \/>\n[169] Cf. Confer\u00eancia dos Bispos Cat\u00f3licos dos Estados Unidos, Sons and Daughters of the Light. A Pastoral Plan for Ministry with Young Adults (12 de novembro de 1996), Washington D.C. 1996, I, 3.<br \/>\n[170] Cf. Pontif\u00edcio Conselho Justi\u00e7a e Paz, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, 290.<br \/>\n[171] Cf. ibid., 214.<br \/>\n[172] Cf. Francisco, Mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o da XLVIII Jornada Mundial da Paz (8 de dezembro de 2014), 4: AAS 107 (2015), 70-71.<br \/>\n[173] Cf. Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional, Mem\u00f3ria e reconcilia\u00e7\u00e3o: a Igreja e as culpas do passado, Cidade do Vaticano, 5.3.<br \/>\n[174] Assim nas Bulas Sicut dudum (13 de janeiro de 1435) e Etsi suscepti (9 de janeiro de 1442) de Eug\u00e9nio IV e nas Bulas Dum diversas (18 de junho de 1452) e Romanus Pontifex (8 de janeiro de 1455) de Nicolau V. As exig\u00eancias pol\u00edticas e, por vezes, tamb\u00e9m as econ\u00f3micas, prevaleceram sobre as exig\u00eancias evang\u00e9licas. A exig\u00eancia da evangeliza\u00e7\u00e3o foi frequentemente subjugada ou, pelo menos, mal interpretada de acordo com as exig\u00eancias dos poderes mundanos, relativizando assim a incompatibilidade da escravatura com a consci\u00eancia crist\u00e3.<br \/>\n[175] Cf. Le\u00e3o XIII, Carta enc. In plurimis (5 de maio de 1888): Acta Leonis XIII, VIII, Roma 1889, 169-192. Considere-se que ainda em 1866, o Santo Of\u00edcio distinguia entre os aspetos imorais e morais da servid\u00e3o, sem a condenar plenamente: Roma, Arquivo do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9, Istr. 1293: Instru\u00e7\u00e3o do Santo Of\u00edcio sobre diversas d\u00favidas de Monsenhor Massaia, Vig\u00e1rio Apost\u00f3lico no pa\u00eds dos Galla, abril de 1866, resposta \u00e0 quest\u00e3o n. 15.<br \/>\n[176] Cf. S. Jo\u00e3o Paulo II, Bula Incarnationis mysterium (29 de novembro de 1998), 11: AAS 91 (1999), 139-141.<br \/>\n[177] Cf. S. Paulo VI, Regina caeli (17 de maio de 1970): Insegnamenti di Paolo VI, vol. VIII, Citt\u00e0 del Vaticano 1971, 506.<br \/>\n[178] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 183: AAS 112 (2020), 1033-1034.<br \/>\n[179] Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 26: AAS 58 (1966), 1046-1047.<br \/>\n[180] S. Paulo VI, Discurso na sede da ONU (4 de outubro de 1965): AAS 57 (1965), 881.<br \/>\n[181] Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas (26 de junho de 1945), Pre\u00e2mbulo.<br \/>\n[182] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 258: AAS 112 (2020), 1061: \u00abDe facto, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, todas as guerras pretenderam ter uma \u00abjustifica\u00e7\u00e3o\u00bb. O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica fala da possibilidade duma leg\u00edtima defesa por meio da for\u00e7a militar, o que sup\u00f5e demonstrar a exist\u00eancia de algumas \u201ccondi\u00e7\u00f5es rigorosas de legitimidade moral\u201d. Mas cai-se facilmente numa interpreta\u00e7\u00e3o demasiado larga deste poss\u00edvel direito. Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques \u201cpreventivos\u201d ou a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas que dificilmente n\u00e3o acarretem \u201cmales e desordens mais graves do que o mal a eliminar\u201d\u00bb; cf. Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 2309.<br \/>\n[183] Cf. Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 \u2013 Dicast\u00e9rio para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o, Nota Antiqua et nova (14 de janeiro de 2025), 99: AAS 117 (2025), 202-203.<br \/>\n[184] Cf. ibid., 103: AAS 117 (2025), 204.<br \/>\n[185] Cf. Discurso aos participantes na Assembleia plen\u00e1ria da ROACO (26 de junho de 2025): AAS 117 (2025), 847-849.<br \/>\n[186] Cf. Francisco, Mensagem para o LIII Dia Mundial da Paz (8 de dezembro de 2019): AAS 112 (2020), 54-61.<br \/>\n[187] J.R.R. Tolkien, O Senhor dos An\u00e9is III, Mem Martins 1998, 166.<br \/>\n[188] Discurso aos agentes da comunica\u00e7\u00e3o (12 de maio de 2025): AAS 117 (2025), 682.<br \/>\n[189] Ibid.<br \/>\n[190] S. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o XXXI Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 1998), 1: AAS 90 (1998), 147.<br \/>\n[191] S. Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 84, 12: CCSL 39, Turnhout 1956, 1172-1173.<br \/>\n[192] Cf. Francisco, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), 22: AAS 116 (2024), 1375-1376.<br \/>\n[193] Cf. Idem, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 115: AAS 112 (2020), 1008-1009.<br \/>\n[194] Cf. ibid., 261: AAS 112 (2020), 1062.<br \/>\n[195] Cf. S. Paulo VI, Discurso na sede da ONU (4 de outubro de 1965): AAS 55 (1965), 878-879.<br \/>\n[196] Cf. Pio XII, Radiomensagem \u201cUn\u2019ora grave\u201d (24 de agosto de 1939): AAS 31 (1939), 334.<br \/>\n[197] G. La Pira, Riflessioni sul Concilio. Discorso del Sindaco di Firenze Prof. Giorgio La Pira alle \u00abGuides de France\u00bb (Roma, 4 de setembro de 1962), Floren\u00e7a 1962, 6.<br \/>\n[198] Discurso aos participantes no Jubileu das Igrejas Orientais (14 de maio de 2025): AAS 117 (2025), 686.<br \/>\n[199] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 271: AAS 112 (2020), 1066.<br \/>\n[200] Cf. Idem, Apelo a favor da paz na Jornada de ora\u00e7\u00e3o pela paz. \u201cSede de paz. Religi\u00f5es e culturas em di\u00e1logo\u201d (20 de setembro de 2016): AAS 108 (2016), 1124.<br \/>\n[201] Idem, Discurso aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico acreditado junto \u00e0 Santa S\u00e9 para as felicita\u00e7\u00f5es de ano novo (9 de janeiro de 2025): AAS 117 (2025), 110.<br \/>\n[202] Cf. Idem, Discurso \u00e0 Assembleia Geral por ocasi\u00e3o do 38\u00ba anivers\u00e1rio da FAO (20 de junho de 2013): AAS 105 (2013), 616-617.<br \/>\n[203] Primeira b\u00ean\u00e7\u00e3o \u201cUrbi et Orbi\u201d (8 de maio de 2025): AAS 117 (2025), 660.<br \/>\n[204] Ibid.<br \/>\n[205] Cf. Homilia nas Primeiras V\u00e9speras de Maria Sant\u00edssima, M\u00e3e de Deus e \u00abTe Deum\u00bb (31 de dezembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de janeiro 2026), 98-99.<br \/>\n[206] Cf. Homilia da Missa de Natal (25 de dezembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de janeiro 2026), 92-93.<br \/>\n[207] Cf. ibid.<br \/>\n[208] Cf. Angelus na Solenidade da Epifania do Senhor (6 de janeiro de 2026): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de fevereiro 2026), 45-46.<br \/>\n[209] Cf. Homilia da Missa da Noite de Natal (24 de dezembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de janeiro 2026), 91-92.<br \/>\n[210] P. de B\u00e9rulle, Discours de l\u2019\u00e9tat et des grandeurs de J\u00e9sus, Discours IV, Unit\u00e9 de Dieu en l\u2019incarnation: \u0152uvres compl\u00e8tes, Paris 1856, col 218.<br \/>\n[211] Ibid.<br \/>\n[212] Cf. Discurso numa Confer\u00eancia sobre \u201cIntelig\u00eancia artificial e cuidado da Casa comum\u201d (5 de dezembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de janeiro 2026), 59-60.<br \/>\n[213] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (29 de junho de 2005), 14: AAS 101 (2006), 228.<br \/>\n[214] S. Agostinho, Sermones, 272: In die Pentecostes ad infantes de sacramento: PL 38, Parigi 1865, col. 1247.<br \/>\n[215] Bento XVI, Homilia na Missa da Ceia do Senhor (21 de abril de 2011): AAS 103 (2011), 321.<br \/>\n[216] Discurso \u00e0 C\u00faria Romana por ocasi\u00e3o da troca dos bons votos de Natal (22 de dezembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de janeiro 2026), 89.<br \/>\n[217] Cf. supra, nn. 11-14.<br \/>\n[218] Cf. Discurso aos participantes na confer\u00eancia \u00abA dignidade das crian\u00e7as e dos adolescentes na era da intelig\u00eancia artificial\u00bb (13 de novembro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de dezembro 2025), 102-103.<br \/>\n[219] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29 de junho de 2009), 34: AAS 101 (2009), 668-670.<br \/>\n[220] Francisco, Exort. ap. Laudate deum (4 de outubro de 2023), 67: AAS 115 (2023), 1059.<br \/>\n[221] Angelus na Solenidade da Epifania do Senhor (6 de janeiro de 2026): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de fevereiro 2026), 46.<br \/>\n[222] Bento XVI, Audi\u00eancia geral (15 de fevereiro de 2006): L\u2019Osservatore Romano (ed. semanal em portugu\u00eas de 18 de fevereiro de 2006), 12.<br \/>\n[223] Medita\u00e7\u00e3o na vig\u00edlia de ora\u00e7\u00e3o e ros\u00e1rio pela paz no Jubileu da espiritualidade mariana (11 de outubro de 2025): L\u2019Osservatore Romano (ed. mensal em portugu\u00eas de novembro 2025), 84.<br \/>\n[224] S. Paulo VI, Homilia na Peregrina\u00e7\u00e3o ao Santu\u00e1rio Mariano de Nossa Senhora de Bon\u00e1ria na ilha da Sardenha (24 de abril de 1970): AAS 62 (1970), 301.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Carta-Enciclica-Magnifica-Humanitas-Papa-Leao-XIV-15-maio-2026.pdf\">Carta Enc\u00edclica Magnifica Humanitas &#8211; Papa Le\u00e3o XIV &#8211; 15 maio 2026<\/a> (PDF)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Magn\u00edfica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir  &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17152,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[104,68],"tags":[],"class_list":["post-17150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-papa-leao-xiv","category-ultimas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17150"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17153,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17150\/revisions\/17153"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/17152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}