{"id":17175,"date":"2026-06-01T10:07:26","date_gmt":"2026-06-01T09:07:26","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=17175"},"modified":"2026-06-01T10:07:26","modified_gmt":"2026-06-01T09:07:26","slug":"frederico-lourenco-e-o-evangelho-de-mateus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=17175","title":{"rendered":"Frederico Louren\u00e7o e o Evangelho de Mateus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Palavras que n\u00e3o est\u00e3o nos originais, tradu\u00e7\u00f5es erradas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>A proposta de Frederico Louren\u00e7o para uma nova tradu\u00e7\u00e3o do Pai Nosso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/setemargens.com\/author\/antoniomarujo\/\"><strong>Ant\u00f3nio Marujo<\/strong><\/a><strong>\u00a0e\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/setemargens.com\/author\/frederico-lourenco\/\"><strong>Frederico Louren\u00e7o<\/strong><\/a><strong>\u00a0| 15\/05\/2026|Margens<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem no evangelho de Mateus nem no de Lucas se fala em \u2018ofensas\u2019 no enunciado da ora\u00e7\u00e3o do Pai Nosso; tamb\u00e9m n\u00e3o se fala em \u2018tenta\u00e7\u00e3o\u2019 e o sentido original para o verbo que foi traduzido como \u2018perdoar\u2019 (as ofensas) deveria ser antes o de \u2018libertar\u2019 ou \u2018deixar ir embora ileso\u2019. E na tradu\u00e7\u00e3o das \u201cBem-aventuran\u00e7as\u201d, a palavra \u2018pobre\u2019 significa literalmente, no original, \u2018mendigo\u2019 ou \u2018pedinte\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frederico Louren\u00e7o, professor universit\u00e1rio que at\u00e9 final do ano dever\u00e1 concluir a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia a partir da vers\u00e3o dos\u00a0<em>Septuaginta<\/em>, enuncia v\u00e1rios problemas quando se traduz o texto sagrado de judeus e crist\u00e3os. Na noite da \u00faltima quarta-feira, numa interven\u00e7\u00e3o na Capela de S\u00e3o Miguel, da Universidade de Coimbra, prop\u00f4s mesmo uma vers\u00e3o diferente do Pai Nosso, numa interven\u00e7\u00e3o da qual reproduzimos dois excertos, no final deste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se uma \u201cpar\u00e1frase livre\u201d, n\u00e3o para ser rezada, mas \u201capenas para se reflectir sobre ela\u201d, explica ao 7MARGENS. Com duas frases entre par\u00eantesis rectos que se destinam apenas a serem subentendidas, a proposta de tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Pai nosso, que est\u00e1s nos c\u00e9us; seja santificado o Teu nome. Venha o Teu reino. Seja feita a Tua vontade: tal como no c\u00e9u, tamb\u00e9m assim na terra. D\u00e1-nos hoje o nosso p\u00e3o de amanh\u00e3; e perdoa as nossas d\u00edvidas, tal como nos j\u00e1 perdo\u00e1mos aos nossos devedores. E n\u00e3o nos leves [como fizeste aos israelitas no Antigo Testamento] para a prova\u00e7\u00e3o de termos de escolher entre Ti e aquilo que se Te op\u00f5e, mas livra-nos do mal [que consiste no proveito pr\u00f3prio em detrimento do Bem que \u00e9s Tu, Pai nosso].<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palavras que n\u00e3o existem nos originais, tradu\u00e7\u00f5es err\u00f3neas. Ao longo dos s\u00e9culos, houve tradu\u00e7\u00f5es e vers\u00f5es do texto b\u00edblico que se foram sedimentando, mas acabaram por adulterar o sentido primeiro das palavras \u2013 gregas ou hebraicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA refer\u00eancia a Deus como Pai leva-nos naturalmente \u00e0 sec\u00e7\u00e3o mais famosa e significativa do Discurso na Montanha: a ora\u00e7\u00e3o Pai Nosso\u201d, referiu o igualmente tradutor dos cl\u00e1ssicos gregos como a\u00a0<em>Il\u00edada<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>Odisseia<\/em>, de Homero. \u201cAs palavras que comp\u00f5em esta ora\u00e7\u00e3o fazem parte do quotidiano de milh\u00f5es de pessoas, todos os dias, no mundo inteiro. S\u00e3o palavras que todos pensamos conhecer, embora se tornem curiosamente enigm\u00e1ticas quando tentamos perceb\u00ea-las em grego e quando comparamos a formula\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o Pai Nosso que ocorre em Lucas com a formula\u00e7\u00e3o que ocorre em Mateus\u201d, acrescentou o classicista.<\/p>\n<h4><strong>Pecados ou d\u00edvidas, n\u00e3o ofensas<\/strong><\/h4>\n<figure id=\"attachment_17176\" aria-describedby=\"caption-attachment-17176\" style=\"width: 561px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17176 size-full\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img02.jpg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img02.jpg 561w, https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img02-300x221.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-17176\" class=\"wp-caption-text\">Fritz von Uhde, Orac\u0327a\u0303o Antes das Refeic\u0327o\u0303es (1885).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frederico Louren\u00e7o d\u00e1 v\u00e1rios exemplos: \u201cSe rez\u00e1ssemos o Pai Nosso de acordo com o texto de Lucas, estar\u00edamos a pedir a Deus que perdoe os nossos \u2018pecados\u2019; se o rez\u00e1ssemos segundo o texto de Mateus, pedir\u00edamos para Deus perdoar as nossas \u2018d\u00edvidas\u2019.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00edvidas? \u201cTer\u00e1 esta ora\u00e7\u00e3o a ver com dinheiro? Mas o que pedimos em portugu\u00eas \u00e9 que Deus perdoe as nossas \u2018ofensas\u2019, palavra que n\u00e3o est\u00e1 nem em Mateus nem em Lucas\u201d, explicou Frederico Louren\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o verbo para \u2018perdoar\u2019 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: em grego, significa \u2018libertar\u2019, \u2018deixar ir embora ileso\u2019. \u201cO que est\u00e1 verdadeiramente em causa no Pai Nosso \u00e9 \u2018deixar para l\u00e1\u2019 pecados ou d\u00edvidas (dependendo do Evangelho que estamos a ler).\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se fala de tenta\u00e7\u00e3o, falar-se-\u00e1 da \u201ccomida, do sexo, do vinho?\u201d \u2013 perguntava o professor universit\u00e1rio, recordando uma personagem de um romance de Evelyn Waugh \u201cque diz \u2018eu acredito que Deus prefere b\u00eabedos a muita gente respeit\u00e1vel\u2019\u201d. Mas \u201cnem Mateus nem Lucas falam em tenta\u00e7\u00e3o\u201d, antes em \u2018prova\u00e7\u00e3o\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comparando com uma frase do livro de Ju\u00edzes (3, 7), em que se encontra a mesma palavra que a do Pai Nosso, a \u2018prova\u2019 \u00e9 n\u00e3o fazer \u201co que \u00e9 in\u00edquo\u201d. In\u00edquo, no Antigo Testamento, acrescentou Frederico Louren\u00e7o na sua interven\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u201cseguir outros deuses; preferir outros deuses ao Senhor, Deus de Israel\u201d. E sobre a frase \u201clivrai-nos do mal\u201d, citando ainda\u00a0<em>Brideshead Revisited<\/em>, de Evelyn Waugh, o \u201c\u2018mal\u2019 consistiria em estabelecermos, montarmos, instalarmos para n\u00f3s mesmos um Bem rival de Deus \u2013 seja esse Bem o que for: sexo, vinho, dinheiro, etc. Ou seja, instalarmos no lugar de Deus um fals\u00edssimo rival de Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 sintom\u00e1tico que Jesus n\u00e3o diga \u2018n\u00e3o podeis servir a Deus e a outros deuses\u2019, \u00e0 maneira do Antigo Testamento. O que ele diz \u00e9 \u2018n\u00e3o podeis servir a Deus e ao dinheiro\u2019\u201d, referiu ainda. E acrescentava que nos Evangelhos, \u201co rival de Deus \u00e9 o\u00a0dinheiro\u201d \u2013 sobretudo \u201cos crimes que o dinheiro fomenta\u201d, como \u201co desmatamento da Amaz\u00f3nia por gan\u00e2ncia\u201d ou o \u201ccapitalismo ego\u00edsta que deixa milh\u00f5es na fome e na mis\u00e9ria\u201d.<\/p>\n<h4><strong>Felizes os pedintes<\/strong><\/h4>\n<figure id=\"attachment_17177\" aria-describedby=\"caption-attachment-17177\" style=\"width: 363px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17177 size-full\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img03.jpg\" alt=\"\" width=\"363\" height=\"645\" srcset=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img03.jpg 363w, https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img03-169x300.jpg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 363px) 100vw, 363px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-17177\" class=\"wp-caption-text\">Frederico Louren\u00e7o durante a sua interven\u00e7\u00e3o. Foto \u00a9 Pastoral do Ensino Superior da Diocese de Coimbra.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso das Bem-aventuran\u00e7as, a palavra grega habitualmente traduzida por \u2018pobres\u2019 \u201csignifica literalmente \u2018mendigo\u2019 ou \u2018pedinte\u2019\u201d. Um pormenor sem\u00e2ntico \u201cimportante\u201d, considera Frederico Louren\u00e7o, porque a partir dele pode fazer-se o contraste entre \u201ca car\u00eancia passiva de quem se conforma com a sua pobreza com a car\u00eancia activa de quem sai da passividade para pedir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admitindo o \u201cpreconceito negativo\u201d que envolve as realidades dos \u2018pedintes\u2019 e \u2018mendigos\u2019, o tradutor da B\u00edblia acrescentava: \u201cAchamos que deviam trabalhar em vez de pedir; e que, se dermos dinheiro, ser\u00e1 para \u00e1lcool ou droga; ou ent\u00e3o ir\u00e1 parar ao bolso das m\u00e1fias que controlam algumas redes de mendigos na Europa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro passo para compreender a primeira Bem-Aventuran\u00e7a, propunha Louren\u00e7o, \u201c\u00e9 conseguirmos olhar para a palavra \u2018pedinte\u2019 com atitude positiva\u201d. O que n\u00e3o se adequa, dizia, \u201c\u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o \u2018pobres de esp\u00edrito\u2019, sobretudo quando se entende a express\u00e3o \u2018pobres de esp\u00edrito\u2019 como significando pessoas limitadas na sua cogni\u00e7\u00e3o ou intelig\u00eancia ou a pessoas ofensivamente denominadas por meio de termos como \u2018simpl\u00f3rio\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes, \u201ca ideia parece ser que o reino dos c\u00e9us est\u00e1 aberto \u00e0queles que dele sentem falta e car\u00eancia; \u00e0queles que empreendem activamente um caminho de procura espiritual para l\u00e1 chegarem.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A interven\u00e7\u00e3o de quarta-feira em Coimbra inseriu-se num ciclo de confer\u00eancias sobre \u201cAs entrelinhas nos textos de Mateus \u2013 um poss\u00edvel itiner\u00e1rio espiritual\u201d. A pr\u00f3xima e \u00faltima sess\u00e3o deste ciclo ser\u00e1 no dia 9 de Junho, \u00e0s 18h, na mesma Capela de S\u00e3o Miguel, e tem entrada livre. Nesse dia, o tema ser\u00e1 \u201cO Noivo, as dez noivas e o Ju\u00edzo Final\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reproduzem-se a seguir dois excertos da interven\u00e7\u00e3o de Frederico Louren\u00e7o, sobre o Pai Nosso e as Bem-Aventuran\u00e7as.<\/p>\n<h4><strong>\u201cA\u00a0revolu\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s tratar Deus como Pai\u201d<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Texto de Frederico Louren\u00e7o<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_17178\" aria-describedby=\"caption-attachment-17178\" style=\"width: 365px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17178 size-full\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img04.jpg\" alt=\"\" width=\"365\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img04.jpg 365w, https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img04-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 365px) 100vw, 365px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-17178\" class=\"wp-caption-text\">James Tissot, Pai Nosso (A Orac\u0327a\u0303o do Senhor), 1886-1894. Aguarela sobre grafite em papel cinza. Brooklyn Museum<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A refer\u00eancia a Deus como Pai leva-nos naturalmente \u00e0 sec\u00e7\u00e3o mais famosa e significativa do Discurso na Montanha: a ora\u00e7\u00e3o \u2018Pai Nosso\u2019. As palavras que comp\u00f5em esta ora\u00e7\u00e3o fazem parte do quotidiano de milh\u00f5es de pessoas, todos os dias, no mundo inteiro. S\u00e3o palavras que todos pensamos conhecer, embora se tornem curiosamente enigm\u00e1ticas quando tentamos perceb\u00ea-las em grego e quando comparamos a formula\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o \u2018Pai Nosso\u2019 que ocorre em Lucas com a formula\u00e7\u00e3o que ocorre em Mateus. Acresce que, em Portugal (e provavelmente no Brasil), dizemos o \u2018Pai Nosso\u2019 de uma maneira diferente da forma como a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 dita noutros pa\u00edses. (\u2026)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se rez\u00e1ssemos o \u2018Pai Nosso\u2019 de acordo com o texto de Lucas, estar\u00edamos a pedir a Deus que perdoe os nossos \u2018pecados\u2019; se o rez\u00e1ssemos segundo o texto de Mateus, pedir\u00edamos para Deus perdoar as nossas \u2018d\u00edvidas\u2019. Sim, d\u00edvidas. Ter\u00e1 esta ora\u00e7\u00e3o a ver com dinheiro? Mas o que pedimos em portugu\u00eas \u00e9 que Deus perdoe as nossas \u2018ofensas\u2019, palavra que n\u00e3o est\u00e1 nem em Mateus nem em Lucas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verbo para \u2018perdoar\u2019 tamb\u00e9m \u00e9 dif\u00edcil de traduzir: em grego, \u00e9 um verbo que significa \u2018libertar\u2019, \u2018deixar ir embora ileso\u2019. O que est\u00e1 verdadeiramente em causa no Pai Nosso \u00e9 \u2018deixar para l\u00e1\u2019 pecados ou d\u00edvidas (dependendo do Evangelho que estamos a ler).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a quest\u00e3o da \u2018tenta\u00e7\u00e3o\u2019? Estamos a falar do prazer da comida, do sexo, do vinho? Bom, h\u00e1 uma personagem num dos romances de Evelyn Waugh que diz \u2018eu acredito que Deus prefere b\u00eabedos a muita gente respeit\u00e1vel\u2019 (\u2018I believe God prefers drunkards to a lot of respectable people\u2019). Mas a verdade \u00e9 que nem Mateus nem Lucas falam em tenta\u00e7\u00e3o. Falam em\u00a0prova\u00e7\u00e3o. Mas que prova\u00e7\u00e3o ser\u00e1 essa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma resposta poss\u00edvel foi-me sugerida h\u00e1 uns anos quando eu estava a trabalhar na tradu\u00e7\u00e3o para portugu\u00eas da vers\u00e3o grega do livro de Ju\u00edzes no Antigo Testamento. Qual n\u00e3o foi o meu espanto, quando deparei com uma passagem em Ju\u00edzes (Septuaginta) onde est\u00e3o todos os elementos da ora\u00e7\u00e3o \u2018Pai Nosso\u2019. Em Ju\u00edzes 2:21-22 LXX, Deus afirma que Josu\u00e9 PERDOOU (mesmo verbo de \u2018perdoai-nos as nossas ofensas\u2019 no Pai Nosso) alguns habitantes anteriores da terra ocupada pelos israelitas, para que atrav\u00e9s desses habitantes id\u00f3latras os israelitas fossem POSTOS \u00c0 PROVA (o verbo de que vem a palavra erradamente traduzida por \u2018tenta\u00e7\u00e3o\u2019 no Pai Nosso).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E que prova seria essa? Era n\u00e3o fazerem \u2018o que \u00e9 in\u00edquo\u2019 (Ju\u00edzes 3:7 LXX: em grego,\u00a0pon\u0113r\u00f3n: justamente a palavra final do Pai Nosso, \u2018livrai-nos do\u00a0mal\u2019, do\u00a0pon\u0113r\u00f3n).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, no contexto do Antigo Testamento, \u2018o in\u00edquo\u2019 \u00e9 seguir outros deuses; preferir outros deuses ao Senhor, Deus de Israel. Para citar outra frase de Evelyn Waugh em\u00a0Brideshead Revisited, o \u2018mal\u2019 em \u2018livrai-nos do mal\u2019 consistiria em estabelecermos, montarmos, instalarmos para n\u00f3s mesmos um Bem rival de Deus \u2014 seja esse Bem o que for: sexo, vinho, dinheiro, etc. Ou seja, instalarmos no lugar de Deus um fals\u00edssimo rival de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitas pessoas pensam que, quando rezam \u2018livrai-nos do mal\u2019, est\u00e3o a pedir para serem salvas de Satan\u00e1s. Mas, no contexto dos Evangelhos, Satan\u00e1s n\u00e3o \u00e9 rival de Deus e de Jesus, porque nos \u00e9 dito que Jesus viu Satan\u00e1s a despenhar-se do c\u00e9u (Lucas 10:18). A vinda de Jesus representou a queda de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o provocou a queda de outro deus. \u00c9 sintom\u00e1tico que Jesus n\u00e3o diga \u2018n\u00e3o podeis servir a Deus e a outros deuses\u2019, \u00e0 maneira do Antigo Testamento. O que ele diz \u00e9 \u2018n\u00e3o podeis servir a Deus e ao dinheiro\u2019 (Mateus 6:24).<\/p>\n<figure id=\"attachment_17179\" aria-describedby=\"caption-attachment-17179\" style=\"width: 444px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17179 size-full\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img05.jpg\" alt=\"\" width=\"444\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img05.jpg 444w, https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img05-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 444px) 100vw, 444px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-17179\" class=\"wp-caption-text\">Frederico Lourenc\u0327o a autografar um dos volumes da B\u00edblia, por ele traduzidos a partir da vers\u00e3o dos Septuaginta. Foto \u00a9 Ag\u00eancia Ecclesia\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu diria que, na vis\u00e3o dos Evangelhos, o rival de Deus \u00e9 o\u00a0dinheiro. Talvez n\u00e3o o dinheiro em si mesmo \u2013 na medida em que precisamos dele para pagar a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar (e \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus a dizer-nos que temos de o fazer) \u2013 mas os crimes que o dinheiro fomenta. E a\u00ed poder\u00edamos saltar para a realidade contempor\u00e2nea e desfiar um rol inteiro de horrores: desde o desmatamento da Amaz\u00f3nia por gan\u00e2ncia, ao capitalismo ego\u00edsta que deixa milh\u00f5es na fome e na mis\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falemos ainda da forma verbal \u2018perdoamos\u2019, na frase \u2018perdoai-nos as nossas ofensas, tal como n\u00f3s perdoamos a quem nos tem ofendido\u2019. A maioria dos manuscritos gregos que nos transmitem o Evangelho de Mateus colocam o verbo no presente: \u2018perdoamos\u2019 (isto com o sotaque de Lisboa). Mas os dois manuscritos mais antigos \u2013 o\u00a0<em>Codex Sinaiticus<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>Codex Vaticanus<\/em>\u00a0\u2013 colocam o verbo no passado, equivalente ao pret\u00e9rito perfeito em portugu\u00eas: \u2018perdo\u00e1mos\u2019 (no sotaque de Lisboa: estou consciente de que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a na pron\u00fancia se estivermos a dizer as duas formas com o sotaque nortenho, em que o presente \u2018perdoamos\u2019 e o perfeito \u2018perdo\u00e1mos\u2019 s\u00e3o formas hom\u00f3fonas: \u2018perdo\u00e1mos\u2019). Mas independentemente da quest\u00e3o do sotaque, que diferen\u00e7a existe entre \u2018tal como n\u00f3s\u00a0perdoamos\u00a0a quem nos tem ofendido\u2019 (presente) e \u2018tal como n\u00f3s\u00a0perdo\u00e1mos\u00a0a quem nos tem ofendido\u2019 (perfeito)? Eu diria que h\u00e1 uma diferen\u00e7a grande. Se usarmos o perfeito, estamos a garantir a Deus que j\u00e1 fizemos a nossa parte e que j\u00e1 nos mostr\u00e1mos bons crist\u00e3os pelo facto de termos perdoado aos outros: assim, merecemos o perd\u00e3o de Deus, porque somos merecedores da mesma generosidade que n\u00f3s pr\u00f3prios fomos capazes de mostrar aos outros. Se usarmos o presente, estamos praticamente a dizer a Deus que perdoaremos aos outros na condi\u00e7\u00e3o de Deus nos perdoar a n\u00f3s. Talvez seja prefer\u00edvel dizer a Deus que j\u00e1 fizemos o trabalho de casa; temos o perd\u00e3o em dia no que toca aos outros; e agora \u00e9 a nossa vez de recebermos o perd\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que estamos, ent\u00e3o, a pedir a Deus quando rezamos o Pai Nosso? Uma par\u00e1frase poss\u00edvel (entre muitas!) da inten\u00e7\u00e3o das palavras gregas que lemos em Mateus seria esta (e por favor n\u00e3o se escandalizem):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2018Pai nosso, que est\u00e1s nos c\u00e9us; seja santificado o Teu nome. Venha o Teu reino. Seja feita a Tua vontade: tal como no c\u00e9u, tamb\u00e9m assim na terra. D\u00e1-nos hoje o nosso p\u00e3o de amanh\u00e3; e perdoa as nossas d\u00edvidas, tal como nos j\u00e1 perdo\u00e1mos aos nossos devedores. E n\u00e3o nos leves [como fizeste aos israelitas no Antigo Testamento] para a prova\u00e7\u00e3o de termos de escolher entre Ti e aquilo que se Te op\u00f5e, mas livra-nos do mal [que consiste no proveito pr\u00f3prio em detrimento do Bem que \u00e9s Tu, Pai nosso]\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para finalizar, h\u00e1 um aspeto que tem de ser obrigatoriamente frisado, que \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o materializada na permissibilidade de cada um de n\u00f3s tratar Deus como Pai. O entendimento de Deus como Pai no Antigo Testamento corresponde a uma ideia que aflora muito raramente na Escritura judaica. E quando aflora, \u00e9 no sentido de Deus como pai de Israel \u2013 n\u00e3o propriamente como pai de cada israelita. Praticamente a \u00fanica passagem do Antigo Testamento em que vislumbramos o entendimento de Deus como Pai \u00e0 maneira do Novo Testamento \u00e9 uma passagem tardia de Isa\u00edas, no cap\u00edtulo 63:16. Nessa passagem, a express\u00e3o na Septuaginta \u03c0\u03b1\u03c4\u1f74\u03c1 \u1f21\u03bc\u1ff6\u03bd (\u2018Pai nosso\u2019) \u00e9 quase a mesma da que inicia a ora\u00e7\u00e3o \u2018Pai Nosso\u2019 em grego: \u03c0\u03ac\u03c4\u03b5\u03c1 \u1f21\u03bc\u1ff6\u03bd.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos evangelhos, por\u00e9m, a palavra carinhosa para \u2018Pai\u2019 (\u2018Paizinho\u2019, \u2018pap\u00e1\u2019) est\u00e1 ausente dos textos de Mateus, Lucas e Jo\u00e3o. Ocorre apenas uma vez no evangelho de Marcos, quando Jesus angustiado em Gets\u00e9mani chama por Deus (14:36) e o trata por \u2018Pap\u00e1\u2019 (\u1f08\u03b2\u03b2\u03ac). Mas S\u00e3o Paulo emprega este termo carinhoso duas vezes para referir o nosso estatuto de filhos em rela\u00e7\u00e3o a Deus. Ou\u00e7amos esta passagem da Carta aos Romanos: \u2018recebestes um esp\u00edrito de ado\u00e7\u00e3o enquanto filhos, no qual gritamos\u00a0Pap\u00e1, Pai!\u00a0O pr\u00f3prio esp\u00edrito testemunha com o nosso esp\u00edrito que somos filhos de Deus. Ora se somos filhos, somos tamb\u00e9m herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo\u2019 (Romanos 8:15-17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termino dizendo que, como o Evangelho de Mateus foi escrito v\u00e1rias d\u00e9cadas depois da morte de S\u00e3o Paulo, Deus teve a caridade de poupar S\u00e3o Paulo ao choque de ler neste evangelho afirma\u00e7\u00f5es de Jesus das quais Paulo teria veementemente discordado. Pensemos no balde de \u00e1gua fria que teria sido para Paulo ler o vers\u00edculo 19 do cap\u00edtulo 5 de Mateus: \u2018Aquele que afrouxar um dos mais insignificantes destes preceitos, e assim ensinar as pessoas, ser\u00e1 chamado o mais insignificante no reino dos c\u00e9us\u2019. Ora, o que Paulo faz na sua epistolografia \u00e9 justamente afrouxar o mais poss\u00edvel os preceitos da Lei judaica, mormente no que diz respeito \u00e0 circuncis\u00e3o. Confiemos que n\u00e3o seja por isso que, no reino dos c\u00e9us, S\u00e3o Paulo tenha ficado no lugar do \u2018mais insignificante\u2019. At\u00e9 porque S\u00e3o Paulo bem sabia que Deus n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o nosso Pai; \u00e9 literalmente o nosso Pap\u00e1.<\/p>\n<h4><strong>Evangelizar os pedintes,<br \/>\ncurar os que se sentem esmagados no cora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Texto de Frederico Louren\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17180\" src=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img06.jpg\" alt=\"\" width=\"345\" height=\"466\" srcset=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img06.jpg 345w, https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/img06-222x300.jpg 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gustave Dore\u0301, B\u00edblia \u2013\u00a0<em>Serma\u0303o da Montanha<\/em>. Reprodu\u00e7\u00e3o a partir da Wikimedia Commons<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No geral, a lista de Bem-Aventuran\u00e7as \u00e9 f\u00e1cil de compreender, pois a fraseologia grega \u00e9 perfeitamente clara. A \u00fanica Bem-Aventuran\u00e7a que suscita problemas de compreens\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 logo a primeira, cuja tradu\u00e7\u00e3o (na proposta da Difusora B\u00edblica) \u00e9 \u2018Felizes os pobres em esp\u00edrito\u2019. Em grego, lemos \u03bc\u03b1\u03ba\u03ac\u03c1\u03b9\u03bf\u03b9 \u03bf\u1f31 \u03c0\u03c4\u03c9\u03c7\u03bf\u1f76 \u03c4\u1ff7 \u03c0\u03bd\u03b5\u03cd\u03bc\u03b1\u03c4\u03b9. Temos de reconhecer que a express\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra grega habitualmente traduzida por \u2018pobres\u2019 \u00e9 interessante, porque significa literalmente \u2018mendigo\u2019 ou \u2018pedinte\u2019. Eu penso que \u00e9 importante valorizar esse pormenor sem\u00e2ntico, porque podemos contrastar a partir dele a car\u00eancia passiva de quem se conforma com a sua pobreza com a car\u00eancia ativa de quem sai da passividade para pedir. \u00c9 claro que estamos todos condicionados socialmente para olharmos para pedintes e mendigos com preconceito negativo: achamos que deviam trabalhar em vez de pedir; e que, se dermos dinheiro, ser\u00e1 para \u00e1lcool ou droga; ou ent\u00e3o ir\u00e1 parar ao bolso das m\u00e1fias que controlam algumas redes de mendigos na Europa. Portanto, o primeiro passo na compreens\u00e3o da primeira Bem-Aventuran\u00e7a \u00e9 conseguirmos olhar para a palavra \u2018pedinte\u2019 com atitude positiva. \u00c9 conhecida a frase de Jesus, que surge mais \u00e0 frente no Discurso da Montanha (7:7-8): \u2018Pedi e ser-vos-\u00e1 dado; procurai e encontrareis; batei \u00e0 porta e ela ser-vos-\u00e1 aberta. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando aos pedintes da primeira Bem-Aventuran\u00e7a: na passagem paralela de Lucas (6:20), Jesus diz apenas \u2018Felizes os pedintes\u2019. Mas Mateus acrescenta a especifica\u00e7\u00e3o \u2018Felizes os pedintes pelo esp\u00edrito\u2019, ou ent\u00e3o \u2018pedintes por causa do esp\u00edrito\u2019 ou ainda \u2018pedintes por a\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito\u2019. Todas estas tradu\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis. O que n\u00e3o se adequa ao original \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o \u2018pobres de esp\u00edrito\u2019 (pois o dativo aqui usado em grego n\u00e3o pode exprimir aquilo de que a pessoa carece: cf. Lohmeyer, p. 83), sobretudo quando se entende a express\u00e3o \u2018pobres de esp\u00edrito\u2019 como significando pessoas limitadas na sua cogni\u00e7\u00e3o ou intelig\u00eancia. N\u00e3o me parece que Jesus esteja aqui a prometer especificamente o reino dos c\u00e9us a pessoas com defici\u00eancia cognitiva ou a pessoas ofensivamente denominadas por meio de termos como \u2018simpl\u00f3rio\u2019; a ideia parece ser que o reino dos c\u00e9us est\u00e1 aberto \u00e0queles que dele sentem falta e car\u00eancia; \u00e0queles que empreendem ativamente um caminho de procura espiritual para l\u00e1 chegarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m \u00e9 importante recordarmos aqui algumas passagens do Antigo Testamento grego, que podem ter contribu\u00eddo para a express\u00e3o de Mateus. Uma dessas passagens \u00e9 uma express\u00e3o no Salmo 33:19, onde lemos \u2018O Senhor est\u00e1 perto dos que se sentem esmagados no cora\u00e7\u00e3o; e salvar\u00e1 os que s\u00e3o humildes pelo esp\u00edrito\u2019. A express\u00e3o grega que traduzi por \u2018humildes pelo esp\u00edrito\u2019 (\u03c4\u03b1\u03c0\u03b5\u03b9\u03bd\u03bf\u1f7a\u03c2 \u03c4\u1ff7 \u03c0\u03bd\u03b5\u03cd\u03bc\u03b1\u03c4\u03b9) \u00e9 muito semelhante aos \u2018pedintes pelo esp\u00edrito\u2019 (\u03c0\u03c4\u03c9\u03c7\u03bf\u1f76 \u03c4\u1ff7 \u03c0\u03bd\u03b5\u03cd\u03bc\u03b1\u03c4\u03b9) de Mateus. Poderia dizer-se que a frase do Salmo implica uma op\u00e7\u00e3o consciente pela humildade, do mesmo modo que a frase de Mateus implica uma op\u00e7\u00e3o consciente pela pobreza. Daqui poder\u00edamos saltar para a op\u00e7\u00e3o consciente pela pobreza e pela castidade que \u00e9 pr\u00f3pria das pessoas que escolhem a vida religiosa. Mas tamb\u00e9m podemos pensar noutras express\u00f5es do Antigo Testamento, como a frase que emprega concretamente a palavra \u2018pobre\u2019 no Salmo 9:10 na vers\u00e3o da Septuaginta, onde se diz que Deus \u00e9 \u2018ref\u00fagio para o pobre\u2019 (\u03ba\u03b1\u03c4\u03b1\u03c6\u03c5\u03b3\u1f74 \u03c4\u1ff7 \u03c0\u03ad\u03bd\u03b7\u03c4\u03b9). E acima de tudo, temos a maravilhosa passagem de Isa\u00edas, onde lemos as palavras que foram depois interpretadas como pren\u00fancio da vinda de Cristo: \u2018O esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim, porque me ungiu [Cristo = ungido]. Enviou-me para anunciar a boa nova [\u03b5\u1f50\u03b1\u03b3\u03b3\u03b5\u03bb\u03af\u03c3\u03b1\u03c3\u03b8\u03b1\u03b9: evangelizar] aos pedintes [\u03c0\u03c4\u03c9\u03c7\u03bf\u1fd6\u03c2] e para curar os que se sentem esmagados no cora\u00e7\u00e3o\u2019 (Isa\u00edas 61:1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como vimos j\u00e1 por esta amostra, o facto de Mateus ter acrescentado duas palavras \u00e0 express\u00e3o \u2018felizes os pobres\u2019 tal como a lemos em Lucas traz no seu encal\u00e7o reflex\u00f5es de grande densidade teol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Frederico-Lourenco-e-o-Evangelho-de-Mateus.pdf\">Frederico Louren\u00e7o e o Evangelho de Mateus<\/a> (PDF)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem no evangelho de Mateus nem no de Lucas se fala em \u2018ofensas\u2019 no enunciado da ora\u00e7\u00e3o do Pai Nosso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17182,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[68],"tags":[],"class_list":["post-17175","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=17175"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17183,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/17175\/revisions\/17183"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/17182"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=17175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=17175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=17175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}