{"id":9139,"date":"2021-05-27T09:16:42","date_gmt":"2021-05-27T08:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9139"},"modified":"2021-06-29T10:43:45","modified_gmt":"2021-06-29T09:43:45","slug":"de-uma-igreja-clerical-a-uma-igreja-sinodal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9139","title":{"rendered":"De uma Igreja clerical a uma Igreja sinodal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Reflex\u00e3o de Nathalie Becquart, religiosa francesa que em 2021 foi nomeada pelo papa Francisco subsecret\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, institui\u00e7\u00e3o permanente que tem como tarefa ajudar e aconselhar o papa no governo da Igreja cat\u00f3lica. Ser\u00e1 a primeira mulher a ter direito de voto no S\u00ednodo.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">In\u00edcio de 2020. Em poucos dias, ap\u00f3s a China e os pa\u00edses asi\u00e1ticos, a It\u00e1lia, a Fran\u00e7a, a Espanha e toda a Europa, depois os EUA, viram mudar completamente a sua situa\u00e7\u00e3o. Em toda a parte no mundo, com diferentes intervalos, tivemos de fazer frente a uma enorme crise sanit\u00e1ria que amea\u00e7a milhares de vidas humanas, em particular as dos pobres, dos mais idosos, dos mais vulner\u00e1veis, sem esquecer os jovens, primeiras v\u00edtimas da crise econ\u00f3mica e do desemprego. O nosso mundo ficou completamente devastado, revirado por um pequeno v\u00edrus de imensas consequ\u00eancias. Entr\u00e1mos num espa\u00e7o desconhecido, um tempo de incerteza, e tivemos de aprender uma nova maneira de viver, permanecendo em casa enquanto o pessoal sanit\u00e1rio e outros her\u00f3is invis\u00edveis eram chamados a um esfor\u00e7o laboral acrescentado. Como crist\u00e3os, vivemos tudo isto no meio de outros, solid\u00e1rios com todos os seres humanos, experimentando como esta crise nos diz respeito, qualquer que seja a nossa condi\u00e7\u00e3o, a nossa religi\u00e3o, ainda que esta crise revele e acentur ao mesmo tempo as desigualdades socioecon\u00f3micas j\u00e1 existentes. Experiment\u00e1mos assim como a Igreja est\u00e1 profundamente incarnada no mundo, radicada na hist\u00f3ria e inserida no concreto dos contextos sociais, pol\u00edticos e culturais da nossa sociedade. A Igreja \u00e9 uma realidade humano-divina, ainda que por vezes o possamos esquecer quando pensamos nela de maneira demasiado abstrata ou idealizada. Ela n\u00e3o pode escapar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es humanas, est\u00e1 sempre inserida e \u00e9 modelada por um contexto concreto. N\u00e3o pode negar a realidade nem situar-se fora do tempo e do espa\u00e7o. Desta maneira as medidas sanit\u00e1rias para travar a pandemia conduziram-nos a n\u00e3o poder rezar juntos nas nossas igrejas nem a celebrar juntos os sacramentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A diversidade de pr\u00e1ticas lit\u00fargicas suscitadas por esta pandemia fez-nos notar algumas tens\u00f5es em torno \u00e0 Eucaristia, tens\u00f5es que nos mostram como quer os leigos quer os padres est\u00e3o deveras divididos sobre estas tem\u00e1ticas. Tens\u00f5es reveladoras da complexidade de uma situa\u00e7\u00e3o em transi\u00e7\u00e3o, marcada pela coexist\u00eancia de dois modelos eclesiais<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s desta crise que se prolonga, e que p\u00f5e \u00e0 prova a nossa paci\u00eancia, temos de fazer frente a uma verdadeira mudan\u00e7a do mundo, que muda tamb\u00e9m a nossa Igreja. E este facto recorda-nos o quanto a Igreja est\u00e1 profundamente mergulhada no mundo, inserida no tecido nas nossas sociedades. Hoje mais do que nunca, talvez, percebemos como a Igreja e o mundo est\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade, como n\u00f3s pertencemos a esta comum humanidade e como a Igreja \u00e9 chamada a adaptar-se, a inculturar-se em contextos sempre novos e mut\u00e1veis, tentando discernir aquilo que o Senhor nos chama a viver nestas novas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A pandemia entre crise humanit\u00e1ria e crise eclesial<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As consequ\u00eancias da pandemia na vida eclesial, e as medidas p\u00fablicas seguidas, resultaram diversamente, mas sem d\u00favida que a mais vis\u00edvel e aquela que mais atingiu todos foi o da interrup\u00e7\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es em presen\u00e7a nas par\u00f3quias durante os per\u00edodos de quarentena. Precisamente como sucede em numerosos territ\u00f3rios rurais na Fran\u00e7a por causa da falta de padres, ou ainda mais dramaticamente em regi\u00f5es, como a Amaz\u00f3nia, onde algumas comunidades crist\u00e3s podem viver a Eucaristia apenas uma ou duas vezes ao ano, os crist\u00e3os praticantes europeus, em particular os das grandes cidades, habituados a ir facilmente \u00e0 missa, ficaram privados deste sacramento central, \u00abfonte e cume da vida crist\u00e3\u00bb. Um certo n\u00famero de crist\u00e3os experimentou uma verdadeira aus\u00eancia eucar\u00edstica, ao ponto de reclamarem a possibilidade de se comunicarem e\/ou a retoma o mais depressa poss\u00edvel das celebra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas a qualquer pre\u00e7o. Muitos rezaram de outra maneira, sozinhos ou em fam\u00edlia, atrav\u00e9s de liturgias dom\u00e9sticas ou ainda com a descoberta da liturgia das horas. Numerosas comunidades religiosas descobriram outras maneiras de celebrar, realizando, por exemplo, celebra\u00e7\u00f5es da Palavra com muita criatividade, e experimentando tamb\u00e9m a for\u00e7a de celebra\u00e7\u00f5es presididas por um ou outro membro da comunidade. Na aus\u00eancia de missas celebradas em conjunto na par\u00f3quia, assistiu-se, da parte dos pastores e dos fi\u00e9is, a uma pluralidade de rea\u00e7\u00f5es e propostas. Assim como aconteceu com as escolas e as universidades, que levaram de maneira maci\u00e7a os seus cursos para o \u201conline\u201d, a Igreja deu prova de reatividade e p\u00f4s-se a difundir rapidamente as suas propostas na internet: missas no YouTube ou por Zoom, ter\u00e7os no Facebook, ora\u00e7\u00f5es no Instagram, cadernos em \u201cpdf\u201d para liturgias familiares, medita\u00e7\u00f5es da Palavra de Deus sob forma de reuni\u00f5es por Skype\u2026 sem esquecer a possibilidade de ver as missas transmitidas ao domingo pelos maiores canais de televis\u00e3o. Para seguir a missa os crist\u00e3os dispunham, por isso, de uma escolha entre um grande n\u00famero de alternativas poss\u00edveis: alguns permaneceram fi\u00e9is \u00e0 sua par\u00f3quia e ao seu p\u00e1roco, outros aproveitaram para seguir a missa de um padre seu conhecido que podia encontrar-se a quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, ou ainda a do bispo da diocese. Por fim, houve aqueles que, no mundo inteiro, se ligaram \u00e0 missa di\u00e1ria do papa Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O modelo do Vaticano II extrai a sua origem da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja dos primeiros s\u00e9culos e dos escritos dos Padres da Igreja. Esta vis\u00e3o, atrav\u00e9s do movimento teol\u00f3gico do \u201cregresso \u00e0s fontes\u201d; considera a Igreja como um povo a caminho, peregrinante nesta Terra, e como uma realidade que deve sempre reformar-se<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O princ\u00edpio territorial que h\u00e1 muito modela a organiza\u00e7\u00e3o eclesial, da estrutura\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica com a par\u00f3quia, viu-se decisivamente baralhado. O que sem d\u00favida acentuou a tend\u00eancia para a queda da pr\u00e1tica, segundo uma l\u00f3gica que se dirige por vezes para uma forma de \u201cultraliberalismo\u201d, segundo a qual cada um escolhe os seus lugares de pr\u00e1tica religiosa e de atividade crist\u00e3 segundo um modelo consumista, ou seja, a op\u00e7\u00e3o pela oferta melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como for, se muitos puderam ser alimentados por estas propostas de celebra\u00e7\u00e3o na internet, que deram a alguns o sentimento de estar unidos aos outros e experimentar alguma coisa da comunidade crist\u00e3, durante a quarentena tamb\u00e9m percebemos, em geral, que nada pode substituir a missa \u201cem presen\u00e7a\u201d. esta crise sanit\u00e1ria, que coloca particularmente \u00e0 prova alguns de n\u00f3s, revelou-nos a nossa profunda necessidade de incarna\u00e7\u00e3o. Somos uma unidade, corpo, alma e esp\u00edrito. N\u00e3o podemos n\u00e3o fazer caso da riqueza de todos os nossos sentidos que pedem um encontro com os outros, que passa atrav\u00e9s de uma presen\u00e7a f\u00edsica que se torna concreta num mesmo arco esp\u00e1cio-temporal. Ainda que nos tenhamos tornado pr\u00f3ximos no Zoom, Facebook e Skype, experiment\u00e1mos num certo tempo o nosso forte desejo de um encontro verdadeiro e direto, a nossa necessidade de comunidade. Talvez tenhamos compreendido melhor a dimens\u00e3o constitutiva do nosso ser eclesial, que precisa de reunir-se num lugar concreto para celebrar. N\u00e3o podemos viver durante um longo tempo a nossa f\u00e9 somente ou unicamente pela internet. \u00abUm crist\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um crist\u00e3o em perigo\u00bb, repete-se muitas vezes aos jovens. \u00c9 preciso experimentar a presen\u00e7a real e concreta dos outros: ela fala-nos da presente de Deus entre n\u00f3s, este Deus que escolheu revelar-se plenamente a n\u00f3s atrav\u00e9s da incarna\u00e7\u00e3o do seu Filho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Encontramo-nos numa esp\u00e9cie de \u201cfluidez\u201d e n\u00e3o podemos permanecer parados em pr\u00e1ticas inamov\u00edveis. Este mundo marcado por um futuro incerto e imprevis\u00edvel chama-nos, mais que nunca, a ser uma Igreja em movimento, uma Igreja em caminho, \u00e0 escuta do Esp\u00edrito, para discernir dia ap\u00f3s dia como realizar a nossa miss\u00e3o nestas condi\u00e7\u00f5es sempre contingentes<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por este motivo, a liturgia \u00e9 um ato que implica a presen\u00e7a dos corpos. A Eucaristia, como a descreve o Conc\u00edlio Vaticano II, \u00e9 o ato de uma assembleia, uma a\u00e7\u00e3o do povo de Deus que, atrav\u00e9s da comunh\u00e3o no corpo de Cristo, torna-se ele pr\u00f3prio \u201ccorpo de Cristo\u201d, e n\u00e3o o ato solit\u00e1rio de um padre. Compreende-se porque \u00e9 que as celebra\u00e7\u00f5es \u201conline\u201d colocam aut\u00eanticas perguntas teol\u00f3gicas, ainda que possam ter um sentido no plano pastoral e espiritual, porque n\u00e3o se pode negar que serviram de ajuda a numerosos crist\u00e3os, em particular os mais isolados, no rezar e viver a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria inerente \u00e0 nossa f\u00e9. Assistiu-se assim nas redes sociais a diversos debates, assaz virulentos, entre aqueles que apoiavam a missa no YouTube celebrada por um padre sozinho, e aqueles para quem essa pr\u00e1tica se torna na realidade um problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, atrav\u00e9s desta experi\u00eancia de aus\u00eancia devida \u00e0 falta das Eucaristias celebradas na sua forma habitual, pudemos experimentar de modo diferente, e de maneira forte, a presen\u00e7a de Cristo que faz a Igreja. Deus n\u00e3o nos abandona. Torna-se presente a n\u00f3s de maneiras diversas, a sua gra\u00e7a n\u00e3o se limita aos sacramentos, ela \u00e9-nos dada j\u00e1 plenamente atrav\u00e9s do nosso Batismo, e d\u00e1-se a n\u00f3s dia ap\u00f3s dia segundo um princ\u00edpio importante a aprender de cor: \u00abDeus d\u00e1-nos sempre a gra\u00e7a daquilo que Ele nos chama a viver\u00bb. Devemos assim procurar e discernir as modalidades espirituais de que precisamos para atravessar esta situa\u00e7\u00e3o de incerteza e de prova\u00e7\u00e3o, para afirmar e viver a nossa f\u00e9 dia ap\u00f3s dia. N\u00e3o somos privados de nada na nossa vida crist\u00e3, podemos contemplar Deus em todas as coisas, descobri-lo atrav\u00e9s de cada aspeto da nossa vida quotidiana, receb\u00ea-lo atrav\u00e9s do livro da Palavra, o livro da Cria\u00e7\u00e3o, em cada encontro, em particular no servi\u00e7o ao irm\u00e3o. Talvez este per\u00edodo de aus\u00eancia tenha mudado o nosso olhar, nos abriu a descobertas insuspeitadas? Da minha parte, tendo tido a possibilidade de viver o primeiro per\u00edodo de quarentena no Boston College, nos EUA, num ambiente magn\u00edfico, mergulhado no verde, fui particularmente conduzida a nutrir-me da contempla\u00e7\u00e3o da natureza durante os meus pequenos passeios di\u00e1rios. Ver dia ap\u00f3s dia a natureza a retomar a vida na primavera ap\u00f3s a esta\u00e7\u00e3o invernal, observar aparecer os bot\u00f5es e depois ver desabrochar as flores, deixar-me tocar pela beleza dos raios do sol na margem de um lago de \u00e1gua diante da minha janela, tudo isso deu-me a possibilidade de compreender, como nunca me tinha acontecido, a nossa conex\u00e3o \u00edntima com a Cria\u00e7\u00e3o. Contemplei muito a presen\u00e7a do Criador na sua cria\u00e7\u00e3o e assim pude meditar em abund\u00e2ncia os ensinamentos da \u201cLaudato si\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Juntamente com outros, sinto tudo isto como um convite a ir ainda mais em frente na realiza\u00e7\u00e3o desta Igreja sinodal a que aspira n\u00e3o s\u00f3 o papa Francisco, mas tamb\u00e9m numerosos crist\u00e3os, disc\u00edpulos mission\u00e1rios desejosos de ser parte ativa das decis\u00f5es eclesiais, coisa que pedem com insist\u00eancia numerosos jovens e mulheres que nem sempre se sentem escutados e reconhecidos nos seus contextos eclesiais<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta experi\u00eancia da quarentena e as obriga\u00e7\u00f5es causadas por esta crise revelam-se, ao mesmo tempo, como uma forma de prova\u00e7\u00e3o que nos chama a uma paci\u00eancia resistente; e simultaneamente como um tempo favor\u00e1vel, uma oportunidade para pensar e viver de maneira diversa a nossa f\u00e9, realizando um discernimento sobre aquilo que o Senhor nos pede para viver hoje, quer a n\u00edvel pessoal quer como Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em conclus\u00e3o, podemos constatar que a diversidade de pr\u00e1ticas lit\u00fargicas suscitadas por esta pandemia fez-nos notar algumas tens\u00f5es em torno \u00e0 Eucaristia, tens\u00f5es que nos mostram como quer os leigos quer os padres est\u00e3o deveras divididos sobre estas tem\u00e1ticas. Tens\u00f5es reveladoras da complexidade de uma situa\u00e7\u00e3o em transi\u00e7\u00e3o, marcada pela coexist\u00eancia de dois modelos eclesiais. O primeiro, que tem as suas ra\u00edzes no tempo anterior ao Conc\u00edlio Vaticano II, e que se desenvolveu ao longo dos s\u00e9culos, prop\u00f5e uma vis\u00e3o do padre centrada no culto. Neste caso o padre \u00e9 definido antes de mais pela sua rela\u00e7\u00e3o com a Eucaristia, vista principalmente como um sacrif\u00edcio. Podemos seguramente fazer matizes, mas este modelo, para simplificar, desenvolveu-se particularmente na sequ\u00eancia do Conc\u00edlio de Trento, como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 Reforma protestante. A Igreja \u00e9 assim definida como uma sociedade perfeita e hier\u00e1rquica, e faz-se do padre um homem do sagrado, separado dos leigos. O segundo modelo, ancorado na eclesiologia do Conc\u00edlio Vaticano II, que torna a colocar no centro a comum voca\u00e7\u00e3o batismal de cada batizado, apresenta a Igreja como um mist\u00e9rio de comunh\u00e3o. Ele extrai a sua origem da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja dos primeiros s\u00e9culos e dos escritos dos Padres da Igreja. Esta vis\u00e3o, atrav\u00e9s do movimento teol\u00f3gico do \u201cregresso \u00e0s fontes\u201d; considera a Igreja como um povo a caminho, peregrinante nesta Terra, e como uma realidade que deve sempre reformar-se. Esta vis\u00e3o de Igreja situa o padre no meio do povo de Deus, numa rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a comunidade. O padre, no seguimento do bispo, cuja primeira tarefa \u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus, \u00e9 antes de tudo visto na sua rela\u00e7\u00e3o com a Palavra e n\u00e3o est\u00e1 separado por uma miss\u00e3o particular ao servi\u00e7o da comunidade. Todos s\u00e3o chamados \u00e0 santidade, todos s\u00e3o disc\u00edpulos mission\u00e1rios e devem construir juntos a comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A descoberta da dimens\u00e3o sist\u00e9mica desta crise e a derrota evidente da institui\u00e7\u00e3o eclesial, ao longo dos anos, no denunciar e prevenir n\u00e3o s\u00f3 abusos sobre menores, mas tamb\u00e9m qualquer esp\u00e9cie de abuso de poder que muitas vezes est\u00e3o na sua origem, a par do fim de um certo cristianismo sociol\u00f3gico, tudo isto obriga hoje a Igreja a redescobrir e reconhecer humildemente a sua fragilidade e a sua dimens\u00e3o de pecadora<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As diverg\u00eancias de ju\u00edzo sobre a aus\u00eancia eucar\u00edstica, e a diversidade de op\u00e7\u00f5es pastorais durante o per\u00edodo de quarentena em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es na aus\u00eancia de fi\u00e9is, mostram-nos que a rece\u00e7\u00e3o do Vaticano II est\u00e1 longe de estar terminada; n\u00e3o existe hoje um consenso sobre a maneira de compreender e viver a Eucaristia, nem uma \u00fanica vis\u00e3o comum da figura do minist\u00e9rio dos padres e tamb\u00e9m dos leigos. Mas esta situa\u00e7\u00e3o torna-se tamb\u00e9m, sem d\u00favida, reveladora de algumas tens\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao \u201ccorpus\u201d do Vaticano II e da sua rece\u00e7\u00e3o plural. A crise sanit\u00e1ria destacou \u2013 como uma lente de aumento \u2013 o conflito entre conce\u00e7\u00f5es diferentes de Igreja, sinais deste longo per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o no qual ainda nos encontramos. Transi\u00e7\u00e3o entre uma Igreja clerical e uma Igreja sinodal, isto \u00e9, uma Igreja de sujeitos ativos cujas palavras-chave s\u00e3o comunh\u00e3o, miss\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o, corresponsabilidade. Tentemos ent\u00e3o explorar qual pode ser esta vis\u00e3o e esta execu\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da sinodalidade, como perspetiva para a nossa Igreja hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rumo a um outro estilo de Igreja<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta crise de m\u00faltiplas dimens\u00f5es que se est\u00e1 a desdobrar num mundo que j\u00e1 era abundante em muta\u00e7\u00f5es coloca-nos dentro de um posterior contexto de incerteza. Enquanto a crise perdura, precisamente quando atravessamos as diferentes fases da pandemia, confrontando-nos com medidas em evolu\u00e7\u00e3o permanente, compreendemos bem at\u00e9 que ponto j\u00e1 n\u00e3o dispomos de um olhar para os meses que est\u00e3o \u00e0 nossa frente, e temos mais uma vez de estar prontos a reajustar os nossos projetos. Encontramo-nos numa esp\u00e9cie de \u201cfluidez\u201d e n\u00e3o podemos permanecer parados em pr\u00e1ticas inamov\u00edveis. Este mundo marcado por um futuro incerto e imprevis\u00edvel chama-nos, mais que nunca, a ser uma Igreja em movimento, uma Igreja em caminho, \u00e0 escuta do Esp\u00edrito, para discernir dia ap\u00f3s dia como realizar a nossa miss\u00e3o nestas condi\u00e7\u00f5es sempre contingentes. Juntamente com outros, sinto tudo isto como um convite a ir ainda mais em frente na realiza\u00e7\u00e3o desta Igreja sinodal a que aspira n\u00e3o s\u00f3 o papa Francisco, mas tamb\u00e9m numerosos crist\u00e3os, disc\u00edpulos mission\u00e1rios desejosos de ser parte ativa das decis\u00f5es eclesiais, coisa que pedem com insist\u00eancia numerosos jovens e mulheres que nem sempre se sentem escutados e reconhecidos nos seus contextos eclesiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma vis\u00e3o global da Igreja, vista como uma Igreja sinodal, ao contr\u00e1rio de uma Igreja clerical, pode ajudar-nos a entrever o caminho a tomar para responder a esta voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria de anunciar o Evangelho a todos. \u00c9 preciso fazer emergir juntos uma nova forma de Igreja, e juntos testemunhar Cristo na cultura e nas condi\u00e7\u00f5es concretas das nossas sociedades secularizadas e pluralistas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9 esta sinodalidade de que se fala cada vez mais hoje como eixo central do pontificado do papa Francisco e da atual reforma da Igreja que se est\u00e1 a levar por diante? Para compreender em que consiste a urg\u00eancia de desenvolver uma Igreja mais sinodal, ou seja \u2013 segundo a etimologia da palavra s\u00ednodo, \u00abcaminhar em conjunto \u2013 uma Igreja onde todos, leigos, pastores, bispo de Roma, caminham juntos, \u00e9 preciso ter em conta as medidas da execu\u00e7\u00e3o desta reforma da Igreja. Reforma que se torna ainda mais necess\u00e1ria e urgente no seguimento da crise dos abusos sexuais, da qual descobrimos cada vez mais a amplitude, facto que exige uma verdadeira mudan\u00e7a para fazer da Igreja uma casa segura, erradicando toda a forma de abuso. A descoberta da dimens\u00e3o sist\u00e9mica desta crise e a derrota evidente da institui\u00e7\u00e3o eclesial, ao longo dos anos, no denunciar e prevenir n\u00e3o s\u00f3 abusos sobre menores, mas tamb\u00e9m qualquer esp\u00e9cie de abuso de poder que muitas vezes est\u00e3o na sua origem, a par do fim de um certo cristianismo sociol\u00f3gico, tudo isto obriga hoje a Igreja a redescobrir e reconhecer humildemente a sua fragilidade e a sua dimens\u00e3o de pecadora. Esta din\u00e2mica chama a Igreja a reexaminar as suas estruturas, os processos e as modalidades de exerc\u00edcio do poder, com o prop\u00f3sito de conseguir encontrar caminhos novos para reencontrar uma maior credibilidade. E gra\u00e7as a isso, a sua capacidade para melhor realizar a sua miss\u00e3o, com ela autenticamente coerente. Neste sentido, uma vis\u00e3o global da Igreja, vista como uma Igreja sinodal, ao contr\u00e1rio de uma Igreja clerical, pode ajudar-nos a entrever o caminho a tomar para responder a esta voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria de anunciar o Evangelho a todos. \u00c9 preciso fazermos emergir em conjunto uma nova forma de Igreja, e juntos testemunhar Cristo na cultura e nas condi\u00e7\u00f5es concretas das nossas sociedades secularizadas e pluralistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O caminho da sinodalidade \u00e9 precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro mil\u00e9nio\u00bb. Dimens\u00e3o constitutiva da Igreja \u2013 S. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo afirma que \u00abIgreja e s\u00ednodo s\u00e3o sin\u00f3nimos \u2013, a sinodalidade desenvolveu-se particularmente nos primeiros s\u00e9culos. Ela redescobre-se hoje como um fruto do Conc\u00edlio Vaticano II e do facto de se colocar em primeiro plano a imagem da Igreja como \u00abpovo de Deus\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num dos textos mais importantes do seu pontificado \u2013 o discurso pronunciado a 17 de outubro de 2015 durante o segundo S\u00ednodo da fam\u00edlia, por ocasi\u00e3o dos 50 anos da institui\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo dos Bispos \u2013, o papa Francisco delineou claramente o caminho da sinodalidade como o cahamento de Deus para a Igreja no s\u00e9culo XXI: \u00abO mundo em que vivemos, e que somos chamados a amar e servir tamb\u00e9m nas suas contradi\u00e7\u00f5es, exige da Igreja o potenciamento de sinergias em todos os \u00e2mbitos da sua miss\u00e3o. O caminho da sinodalidade \u00e9 precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro mil\u00e9nio\u00bb. Dimens\u00e3o constitutiva da Igreja \u2013 S. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo afirma que \u00abIgreja e s\u00ednodo s\u00e3o sin\u00f3nimos \u2013, a sinodalidade desenvolveu-se particularmente nos primeiros s\u00e9culos. Ela redescobre-se hoje como um fruto do Conc\u00edlio Vaticano II e do facto de se colocar em primeiro plano a imagem da Igreja como \u00abpovo de Deus\u00bb, numa perspetiva que d\u00e1 protagonismo \u00e0 dimens\u00e3o comum da voca\u00e7\u00e3o batismal, quest\u00e3o mais fundamental do que qualquer diferencia\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00e3o ou de minist\u00e9rio. Com efeito, os padres conciliares, naquela importante Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica sobre a Igreja que \u00e9 a \u201cLumen gentium\u201d, realizaram a op\u00e7\u00e3o deliberada de colocar o cap\u00edtulo 2 sobre o povo de Deus a seguir ao cap\u00edtulo 1 sobre o mist\u00e9rio da Igreja, e antes do cap\u00edtulo 3 sobre o episcopado. \u00c9 assim particularmente real\u00e7ada a igual dignidade de todos os batizados, todos chamados \u00e0 santidade e ao exerc\u00edcio da miss\u00e3o (cf. o cap\u00edtulo 5 sobre os leigos). A sinodalidade pode assim ser considerada hoje como uma maneira de ser de agir da Igreja que favorece a participa\u00e7\u00e3o de todos os batizados e das pessoas de boa vontade no quadro de um processo de discernimento que favorece a corresponsabilidade e a comunh\u00e3o ao servi\u00e7o da miss\u00e3o. Isto traduz-se com o gesto do \u201ccaminhar juntos\u201d numa Igreja peregrina, uma Igreja em movimento, uma Igreja do povo de Deus, onde cada um possui uma voz, \u00e9 escutado e toma parte ativa, qualquer que seja a sua idade, o seu sexo ou o seu estado de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O papa Francisco articula os dois elementos-chave da teologia do povo de Deus e da convers\u00e3o pastoral para exprimir que o \u00fanico modo para a Igreja se desembara\u00e7ar dos males do clericalismo, e portanto reformar-se, \u00e9 o envolvimento de todos os fi\u00e9is. Ele considera que a pr\u00f3pria hierarquia n\u00e3o pode reformar-se sozinha<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o do papa Francisco, a sinodalidade est\u00e1 igualmente ligada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o pastoral da Igreja e \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de povo de Deus, tema-chave do seu pensamento teol\u00f3gico. Ele inspira-se numa teologia proveniente da Am\u00e9rica Latina que v\u00ea o povo como entidade din\u00e2mica que se constr\u00f3i atrav\u00e9s de um complexo conjunto de intera\u00e7\u00f5es pessoais; o povo torna-se o verdadeiro sujeito da hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da elabora\u00e7\u00e3o de uma cultura que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Para o papa Francisco, como ele pr\u00f3prio afirmou na entrevista a Antonio Spadaro publicada em setembro de 2013 na \u201cLa Civilt\u00e0 Cattolica\u201d, \u00aba imagem da Igreja que me agrada \u00e9 aquela do santo povo fiel de Deus. \u00c9 a defini\u00e7\u00e3o que uso muitas vezes, e \u00e9 depois aquela da \u201cLumen gentium\u201d no n\u00famero 12. A perten\u00e7a a um povo tem um forte valor teol\u00f3gico: Deus, na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, salvou um povo. N\u00e3o h\u00e1 identidade plena sem perten\u00e7a a um povo. Ningu\u00e9m se salva sozinho, como individuo isolado, mas Deus atrai-nos considerando a complexa trama de rela\u00e7\u00f5es interpessoais que se realizam na comunidade humana. Deus entra nesta din\u00e2mica popular. O povo \u00e9 sujeito. E a Igreja \u00e9 o povo de Deus em caminho na hist\u00f3ria, com alegrias e dores\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa Francisco articula os dois elementos-chave da teologia do povo de Deus e da convers\u00e3o pastoral para exprimir que o \u00fanico modo para a Igreja se desembara\u00e7ar dos males do clericalismo, e portanto reformar-se, \u00e9 o envolvimento de todos os fi\u00e9is. Ele considera que a pr\u00f3pria hierarquia n\u00e3o pode reformar-se sozinha: \u00ab\u00c9 imposs\u00edvel pensar numa convers\u00e3o da nossa atividade como Igreja que n\u00e3o inclua a participa\u00e7\u00e3o ativa de todos os membros do povo de Deus\u00bb (Carta aos cat\u00f3licos chilenos, 31 de maio de 2018). Daqui podemos deduzir um elemento muito importante para o exerc\u00edcio do poder da parte dos pastores. Eles devem escutar e integrar a voz dos fi\u00e9is, consultando-os para tomar decis\u00f5es. No cora\u00e7\u00e3o desta sinodalidade, o papa Francisco coloca a escuta, uma escuta rec\u00edproca atrav\u00e9s da qual se exerce a escuta do Esp\u00edrito Santo: \u00abUma Igreja sinodal \u00e9 uma Igreja da escuta, na consci\u00eancia que escutar \u201c\u00e9 mais que ouvir\u201d. \u00c9 uma escuta rec\u00edproca em que cada um tem alguma coisa a aprender. Povo fiel, col\u00e9gio episcopal, bispo de Roma: cada um \u00e0 escuta dos outros; e todos \u00e0 escuta do Esp\u00edrito Santo, o \u201cEsp\u00edrito da verdade\u201d (Jo\u00e3o 14, 17), para conhecer aquilo que Ele \u201cdiz \u00e0s Igrejas\u201d (Apocalipse 2, 7)\u00bb (Comemora\u00e7\u00e3o do 50.\u00ba anivers\u00e1rio da institui\u00e7\u00e3o do S\u00ecnodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A sinodalidade \u00e9 um processo, um caminho aberto que se desdobra no tempo. Esta vis\u00e3o sinodal apresenta a Igreja na sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica, num estado de permanente nascimento, num processo de reforma sempre em concretiza\u00e7\u00e3o. Faz-nos perceber a identidade da Igreja como uma comunh\u00e3o org\u00e2nica, como uma entidade din\u00e2mica, n\u00e3o est\u00e1tica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta vis\u00e3o din\u00e2mica e inclusiva da Igreja faz-nos, assim, sair de um modelo puramente hier\u00e1rquico. Convida-nos a ver a Igreja n\u00e3o de maneira est\u00e1tica, como uma fotografia que se fixa num momento X, mas de maneira din\u00e2mica e diacr\u00f3nica \u2013 como uma realidade incarnada, concreta, e portanto evolutiva. A sinodalidade permite-nos entrever uma Igreja em movimento, que se move, atrav\u00e9s de uma perspetiva que integra a dimens\u00e3o do tempo e da hist\u00f3ria. A sinodalidade \u00e9 um processo, um caminho aberto que se desdobra no tempo. Esta vis\u00e3o sinodal apresenta a Igreja na sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica, num estado de permanente nascimento, num processo de reforma sempre em concretiza\u00e7\u00e3o. Faz-nos perceber a identidade da Igreja como uma comunh\u00e3o org\u00e2nica, como uma entidade din\u00e2mica, n\u00e3o est\u00e1tica. Trata-se de uma identidade relacional, na comunh\u00e3o radicada no mist\u00e9rio trinit\u00e1rio e no eucar\u00edstico. Esta identidade de Igreja em rela\u00e7\u00e3o com o povo de Deus, que caminha no meio dos povos do mundo, manifesta-se atrav\u00e9s do conceito de sinodalidade como uma Igreja em peregrina\u00e7\u00e3o, em emerg\u00eancia, em g\u00e9nese permanente. Isto \u00e9, uma Igreja que cuida das pessoas, partindo da base para o alto, numa perspetiva generativa que v\u00ea a Igreja constantemente a renascer e a reinventar-se, permanecendo sempre a esma, fiel \u00e0quela das origens. E isto atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que cria a novidade na continuidade. Esta perspetiva, capaz de percecionar e representar a Igreja num mundo em movimento, l\u00edquido e em mudan\u00e7a, \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o particular para pensar e viver a Igreja neste tempo de crise e de identidade. Com efeito, a sinodalidade designa uma maneira de ser e de trabalhar na Igreja \u2013 jovens e idosos, leigos, consagrados e padres, homens e mulher\u2026 &#8211; no qual existem a escuta rec\u00edproca, a partilha e o discernimento, para chegar a especificar juntos op\u00e7\u00f5es pastorais a assumir diante da crise e das necessidades do mundo numa realidade sempre inst\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quando damos prioridade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o batismal, j\u00e1 n\u00e3o podemos separar clero e leigos, como faz o modelo clerical. O pastor \u00e9 aquele que de alguma forma \u201crepresenta\u201d a comunidade de que faz parte. Todos juntos s\u00e3o chamados a ser uma comunh\u00e3o em miss\u00e3o animada pelo Esp\u00edrito Santo, uma comunidade mission\u00e1ria onde cada um participa no discernimento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma Igreja sinodal \u00e9 uma Igreja relacional onde todo o povo de Deus caminha junto, onde todos, batizados disc\u00edpulos mission\u00e1rios, qualquer que seja a sua voca\u00e7\u00e3o e a sua posi\u00e7\u00e3o, se reencontram na interdepend\u00eancia e na mutualidade. O padre n\u00e3o existe, portanto, fora da comunidade. N\u00e3o est\u00e1 separado das pessoas junto das quais exerce o seu minist\u00e9rio. Quando damos prioridade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o batismal, j\u00e1 n\u00e3o podemos separar clero e leigos, como faz o modelo clerical. O pastor \u00e9 aquele que de alguma forma \u201crepresenta\u201d a comunidade de que faz parte. Todos juntos s\u00e3o chamados a ser uma comunh\u00e3o em miss\u00e3o animada pelo Esp\u00edrito Santo, uma comunidade mission\u00e1ria onde cada um participa no discernimento. Daqui deriva o facto de as decis\u00f5es pastorais deverem ser tomadas no \u00e2mbito de processos sinodais que exigem escutar e envolver todos os protagonistas na busca de um consenso. O ministro que conduz e acompanha o processo sinodal assume a decis\u00e3o final a partir de todos este trabalho espiritual de escuta e discernimento. Esta maneira de elaborar em conjunto as decis\u00f5es pode ser compreendida atrav\u00e9s da no\u00e7\u00e3o importante de \u201cconspirativo\u201d, para usar um termo latino (etimologicamente \u201crespirar juntos\u201d, \u201cser animados pelo mesmo esp\u00edrito\u201d), que podemos traduzir com a palavra \u201cconspira\u00e7\u00e3o\u201d no sentido de uni\u00e3o. No\u00e7\u00e3o que, segundo as palavras do te\u00f3logo John Henry Newman, se pode compreender como \u00abuma respira\u00e7\u00e3o comum dos fi\u00e9is e dos pastores\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Passar de uma Igreja clerical centrada no padre concebido como separado, isto \u00e9, superior aos leigos, a uma Igreja sinodal baseada na corresponsabilidade de todos os batizados, exige formar l\u00edderes e pastores colaborantes. Isto \u00e9, agentes pastorais capazes de trabalhar verdadeiramente em equipa e de escutar profundamente o conjunto dos batizados, mais ainda mais \u00abas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sinodalidade \u00e9 antes de tudo uma pr\u00e1tica, um estilo de Igreja, um modo de ser dos crist\u00e3os que se apoia em algumas atitudes a desenvolver: a escuta, a humildade, a confian\u00e7a, a liberdade, a f\u00e9 e a ora\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo e o encontro, a participa\u00e7\u00e3o ativa e a busca da comunh\u00e3o para a miss\u00e3o. Ela sup\u00f5e e produz uma Igreja humana e insculturada, uma Igreja plenamente imersa no mundo e em di\u00e1logo com a cultura contempor\u00e2nea, uma Igreja fr\u00e1gil e humilde que se reconhece simultaneamente santa e pecadora, que vive da miseric\u00f3rdia que ela pr\u00f3pria anuncia, uma Igreja corajosa e criativa que assume riscos e n\u00e3o tem medo de experimentar novos caminhos, inclusive acidentados. Em resumo, uma Igreja em sa\u00edda que n\u00e3o separa a liturgia do servi\u00e7o, indo sempre para as periferias de maneira a tornar-se este \u00abhospital de campanha\u00bb aberto a todos os feridos da vida que esta crise atual torna ainda mais necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passar de uma Igreja clerical centrada no padre concebido como separado, isto \u00e9, superior aos leigos, a uma Igreja sinodal baseada na corresponsabilidade de todos os batizados, exige formar l\u00edderes e pastores colaborantes. Isto \u00e9, agentes pastorais capazes de trabalhar verdadeiramente em equipa e de escutar profundamente o conjunto dos batizados, mais ainda mais \u00abas alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem\u00bb (\u201cGaudium et spes\u201d, 1). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o pr\u00f3ximo S\u00ednodo dos Bispos, anunciado para 2023 com o tema \u201cPor uma Igreja sinodal: comunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o\u201d, poder\u00e1 impelir-nos para a frente neste caminho de sinodalidade que a pandemia do coronav\u00edrus nos pede para intensificar, porque nos d\u00e1 a possibilidade de escutar neste \u201ckairos\u201d um forte convite \u00e0 renova\u00e7\u00e3o da Igreja e da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nathalie Becquart &#8211; <em>religiosa francesa que em 2021 foi nomeada pelo papa Francisco subsecret\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos<\/em><br \/>\nIn\u00a0<u><a href=\"https:\/\/www.msn.com\/it-it\/notizie\/mondo\/da-una-chiesa-clericale-a-una-chiesa-sinodale\/ar-AAKjYTB?li=BBqfUd8\">La Repubblica<\/a><\/u><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Rui Jorge Martins<br \/>\nPublicado em\u00a025.05.2021<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00e3o de Nathalie Becquart, religiosa francesa que em 2021 foi nomeada pelo papa Francisco subsecret\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-9139","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-2021"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9139"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9139\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9140,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9139\/revisions\/9140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}