{"id":9240,"date":"2021-06-29T10:52:23","date_gmt":"2021-06-29T09:52:23","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9240"},"modified":"2021-07-05T09:20:02","modified_gmt":"2021-07-05T08:20:02","slug":"sobre-o-fundamento-dos-apostolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9240","title":{"rendered":"SOBRE O FUNDAMENTO DOS AP\u00d3STOLOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro e Paulo \u2013 29 de junho<br \/>\n<\/strong><strong>D. Ant\u00f3nio Couto<\/strong><\/p>\n<p>Os Santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo s\u00e3o festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calend\u00e1rios, na mesma data, 29 de Junho. A Igreja do Oriente ainda hoje acomuna os dois Ap\u00f3stolos com o t\u00edtulo de\u00a0<em>Pr\u00f4t\u00f3thronoi<\/em>, os \u00abprimeiros na c\u00e1tedra\u00bb da doutrina divina e salv\u00edfica. A Igreja de Roma j\u00e1 existia antes da chegada de Pedro e Paulo, mas venera-os como verdadeiros \u00abfundadores\u00bb, pois s\u00f3 com eles se v\u00ea como Igreja \u00abApost\u00f3lica\u00bb, cora\u00e7\u00e3o de Pedro, cora\u00e7\u00e3o de Paulo. A pr\u00f3pria iconografia, em inumer\u00e1veis representa\u00e7\u00f5es, junta os dois Ap\u00f3stolos e M\u00e1rtires, j\u00e1 desde os s\u00e9culos II e III, sinal da venera\u00e7\u00e3o que os fi\u00e9is de Roma e do mundo inteiro lhes dedicavam. Venera\u00e7\u00e3o verific\u00e1vel, de resto, no facto de os t\u00famulos dos dois grandes Ap\u00f3stolos e M\u00e1rtires ser a meta da \u00fanica peregrina\u00e7\u00e3o do mundo crist\u00e3o antigo.<\/p>\n<p>Os textos da Escritura Santa hoje abertos diante de n\u00f3s p\u00f5em em relevo, naturalmente, as duas grandes figuras de Ap\u00f3stolos que hoje celebramos. O Evangelho \u00e9 de Mateus 16,13-19 p\u00f5e em destaque a figura de Pedro. Tamb\u00e9m a passagem do Livro dos Atos 12,1-11 lhe \u00e9 dedicada. O texto do final da 2 Carta a Tim\u00f3teo 4,6-8.17-18 p\u00f5e naturalmente em realce a figura de Paulo.<\/p>\n<p>Cesareia de Filipe, atual\u00a0<em>Banyas<\/em>, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, \u00e9 o lugar certo para se p\u00f4r a quest\u00e3o da identidade de JESUS, que atravessa o inteiro Evangelho (Mateus 16,13-19). Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jord\u00e3o, respirava o paganismo do deus P\u00e3 e tamb\u00e9m o culto do Imperador. A\u00ed construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador C\u00e9sar Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu \u00e0 cidade, antes conhecida por P\u00e2nias, em nome do deus P\u00e3, o nome de Cesareia, tamb\u00e9m em honra de C\u00e9sar Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus P\u00e3, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus p\u00f5e a quest\u00e3o da sua identidade. Um lugar assim, marcado pelos deuses do paganismo e pelo culto do Imperador, \u00e9 claramente o lugar certo para se p\u00f4r a quest\u00e3o da identidade de JESUS. Soberanamente Jesus pergunta: \u00abQuem dizem as pessoas que \u00e9 o Filho do Homem?\u00bb (Mateus 16,13), para acrescentar logo de seguida, de forma direta e enf\u00e1tica: \u00abE v\u00f3s, quem\u00a0<em>dizeis<\/em>\u00a0que Eu sou?\u00bb (Mateus 16,15). A esta pergunta, posta por Jesus aos seus disc\u00edpulos que de h\u00e1 muito o seguiam, Sim\u00e3o Pedro foi r\u00e1pido a responder: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho do Deus vivo!\u00bb (Mateus 16,16). Jesus declara \u00abFeliz\u00bb (<em>mak\u00e1rios<\/em>) Sim\u00e3o, filho de Jonas, n\u00e3o por achar que ele reunia compet\u00eancia humana para expressar aquele\u00a0<em>dizer<\/em>, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). E \u00e9 sobre este\u00a0<em>dizer<\/em>\u00a0de Sim\u00e3o Pedro,\u00a0<em>dizer<\/em>, n\u00e3o seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construir\u00e1 a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a asson\u00e2ncia \u00ab<em>P\u00e9tros<\/em>\u00bb \u2013 \u00ab<em>p\u00e9tra<\/em>\u00bb. Mas note-se tamb\u00e9m que quem constr\u00f3i a Igreja \u00e9 Jesus, e n\u00e3o Pedro, e a Igreja a construir tamb\u00e9m \u00e9 de Jesus, e n\u00e3o de Pedro: \u00absobre esta pedra (<em>p\u00e9tra<\/em>)\u00a0<em>construirei<\/em>\u00a0a\u00a0<em>minha<\/em>\u00a0Igreja\u00bb, diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, s\u00f3 Jesus e Pedro recebem o apelativo de \u00abpedra\u00bb. \u00abRocha\u00bb, \u00abrochedo\u00bb, \u00abpedra firme\u00bb diz-se, em hebraico,\u00a0<em>ts\u00fbr<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>sela\u2018<\/em>, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no cora\u00e7\u00e3o do Salmista: \u00abO Senhor \u00e9 a minha Rocha (<em>sela\u2018<\/em>) e a minha fortaleza (\u2026), nele me abrigo, meu Rochedo (<em>ts\u00fbr<\/em>), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu ref\u00fagio\u00bb (Salmo 18,3).<\/p>\n<p>Mas o hebraico conhece tamb\u00e9m o termo\u00a0<em>keph<\/em>, aramaico\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>, para designar a rocha, n\u00e3o tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, esp\u00e9cie de gruta que serve de lugar de ref\u00fagio e acolhimento, onde os p\u00e1ssaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, mas d\u00e1 solidez e prote\u00e7\u00e3o a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abra\u00e7ar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico:\u00a0<em>kaph<\/em>, palma da m\u00e3o;\u00a0<em>keph<\/em>, rochedo esburacado (grutas);\u00a0<em>k\u00eapha\u2019<\/em>\u00a0(aramaico), rochedo esburacado\u00a0<em>k\u00eaph\u00e3s<\/em>\u00a0(grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em Jo\u00e3o 1,42, \u00fanica vez nos Evangelhos, mas v\u00e1rias vezes em Paulo (1 Cor\u00edntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; G\u00e1latas 1,18; 2,9.11.14);\u00a0<em>kipah<\/em>, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabe\u00e7a para indicar a prote\u00e7\u00e3o de Deus;\u00a0<em>kaphar<\/em>, cobrir, perdoar;\u00a0<em>kaporet<\/em>, cobertura, perd\u00e3o. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composi\u00e7\u00e3o de voc\u00e1bulos em todas as l\u00ednguas. Esta terminologia abre para um Sim\u00e3o Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, pr\u00f3ximo, cuidadoso e carinhoso, fr\u00e1gil, com a miss\u00e3o pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa \u00e9 Deus, e s\u00e3o de Deus os filhos que nela s\u00e3o gerados, acolhidos e alimentados.<\/p>\n<p>Jesus declara de seguida: \u00abDar-te-ei as\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). As\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0representam um saber e um poder. Falamos de\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, pol\u00edtica, jur\u00eddica, econ\u00f3mica ou cient\u00edfica. \u00c9 esclarecedor o texto de Isa\u00edas 22,19-23, que fala do \u00abrito das\u00a0<em>chaves<\/em>\u00bb e do poder retirado a\u00a0<em>Shebna<\/em>\u00a0e conferido a\u00a0<em>Eliaq\u00eem<\/em>. As\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us s\u00e3o as\u00a0<em>chaves<\/em>\u00a0do amor e do perd\u00e3o, traves-mestras de uma comunidade unida e confiante, com os p\u00e9s na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica\u00a0<em>Lumen Gentium<\/em>: \u00abAprouve a Deus salvar e santificar os homens, n\u00e3o individualmente, exclu\u00edda qualquer liga\u00e7\u00e3o entre eles, mas constituindo-os em povo\u00bb (n.\u00ba 9).<\/p>\n<p>\u00c9 importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Conc\u00edlio Vaticano II. De facto, Pedro \u00e9 a\u00a0<em>Pedra<\/em>\u00a0e tem as\u00a0<em>Chaves<\/em>\u00a0do Reino dos C\u00e9us, e \u00e9-lhe ainda dada a autoridade de\u00a0<em>ligar-desligar<\/em>, isto \u00e9, de perdoar: \u00abTudo o que\u00a0<em>ligares<\/em>\u00a0(<em>d\u00eas\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre\u00a0<em>ligado<\/em>\u00a0(<em>dedem\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us, e tudo o que\u00a0<em>desligares<\/em>\u00a0(<em>l\u00fds\u00eas<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre\u00a0<em>desligado<\/em>\u00a0(<em>lelym\u00e9non<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) nos C\u00e9us\u00bb (Mateus 16,19). Todavia, no Evangelho de Mateus, e s\u00f3 no Evangelho de Mateus, esta autoridade de\u00a0<em>ligar-desligar<\/em>, isto \u00e9, de perdoar, \u00e9 tamb\u00e9m confiada \u00e0 inteira comunidade eclesial, exatamente nos mesmos termos em que \u00e9 confiada a Pedro: \u00abEm verdade vos digo: tudo o que\u00a0<em>ligardes<\/em>\u00a0(<em>d\u00eas\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) sobre a terra, ficar\u00e1 para sempre\u00a0<em>ligado<\/em>\u00a0(<em>dedem\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>d\u00e9\u00f4<\/em>) no c\u00e9u, e tudo o que\u00a0<em>desligardes<\/em>\u00a0(<em>l\u00fds\u00eate<\/em>: conj. aor. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) na terra, ficar\u00e1 para sempre\u00a0<em>desligado<\/em>\u00a0(<em>lelym\u00e9na<\/em>: part. perf. pass. de\u00a0<em>l\u00fd\u00f4<\/em>) no c\u00e9u\u00bb (Mateus 18,18). \u00c9 belo ver a inteira comunidade eclesial assente na\u00a0<em>Pedra<\/em>, que \u00e9 Pedro, como Pedro, com Pedro, n\u00e3o alijando responsabilidades, mas unida, reunida e operante na pr\u00e1tica quotidiana do Perd\u00e3o!<\/p>\n<p>Atos 12,1-11 \u00e9 uma p\u00e1gina assombrosa, que sai fora do estilo lucano, e se aproxima mais do estilo do evangelista Marcos. N\u00e3o admira. \u00c9 mesmo para casa de Maria, m\u00e3e de Jo\u00e3o Marcos, que Pedro se dirige no epis\u00f3dio seguinte (Atos 12,12-17). Na p\u00e1gina de hoje, Pedro \u00e9 salvo miraculosamente pela interven\u00e7\u00e3o do Anjo de Deus, do pr\u00f3prio Deus, portanto. S\u00e3o significativos os cinco imperativos que o Anjo dirige a Pedro: Levanta-te (1), cinge-te (2), cal\u00e7a as sand\u00e1lias (3), cobre-te com o teu manto (4) e segue-me! (5) (Atos 12,8). Com o primeiro imperativo, caem das m\u00e3os de Pedro as correntes de ferro. Assim come\u00e7a a liberdade! Passam depois, sem qualquer sobressalto, um ap\u00f3s outro, dois postos da guarda, e abre-se automaticamente (<em>autom\u00e1t\u00ea<\/em>) o port\u00e3o de ferro que dava para fora (Atos 12,10). Quando Pedro cai em si, est\u00e1 numa rua de Jerusal\u00e9m, e reconhece a m\u00e3o de Deus nesta espetacular a\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o em que \u00e9 libertado das m\u00e3os de Herodes (Atos 12,10-11). Trata-se agora de Herodes Agripa I, neto de Herodes o Grande. Favorecido, primeiro por Cal\u00edgula, depois por Cl\u00e1udio, foi vendo, a partir do ano 37, come\u00e7ar e aumentar o seu reinado de norte para sul: em 37, \u00e9 libertado das suas cadeias de ferro \u2013 estava preso em Roma \u2013 por Cal\u00edgula, que lhe entrega, juntamente com o t\u00edtulo de rei, as tetrarquias de Filipe e de Lis\u00e2nias; em 40, recebe a tetrarquia de Herodes Antipas, acabando de 41 a 44, ano da sua morte, por se tornar rei tamb\u00e9m sobre a Judeia, de certo modo refazendo o antigo reino de Herodes o Grande. \u00c9 no decurso destes \u00faltimos anos que se situam os acontecimentos relatados ou apenas acenados na li\u00e7\u00e3o de hoje, nomeadamente o mart\u00edrio de Tiago, filho de Zebedeu, e a pris\u00e3o de Pedro.<\/p>\n<p>A cena da liberta\u00e7\u00e3o de Pedro acontece na noite de P\u00e1scoa, em paralelismo com os hebreus que, no Egito celebraram a P\u00e1scoa da liberta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m a\u00ed acontece a interven\u00e7\u00e3o de Deus (\u00caxodo 12,8.12), tamb\u00e9m de noite, e os hebreus, como Pedro agora, comem a P\u00e1scoa com os rins cingidos e sand\u00e1lias nos p\u00e9s (\u00caxodo 12,11). E, de novo em paralelismo com os hebreus na sa\u00edda do Egito, que saem para as estradas do mundo, tamb\u00e9m Pedro deve caminhar pelas ruas da cidade e pelos caminhos do mundo. \u00c9 a\u00ed que Pedro e os Ap\u00f3stolos devem agora fazer falar a Palavra, e n\u00e3o j\u00e1 no Templo, como sucedeu no relato da liberta\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos narrado um pouco atr\u00e1s, em Atos 5,18-21.<\/p>\n<p>1\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na verdade, quando Pedro d\u00e1 por si, encontra-se na rua! Dirige-se ent\u00e3o para casa de Maria, m\u00e3e de Jo\u00e3o Marcos, onde era usual os crist\u00e3os se reunirem para rezar (Atos 12,12). Pedro bate insistentemente ao port\u00e3o exterior que d\u00e1 para o p\u00e1tio interior da casa, e, apercebendo-se, veio uma criada, de nome Rode [= Rosa] ver quem era (Atos 12,13). Mal reconheceu a voz de Pedro, ficou t\u00e3o contente que, em vez de abrir o port\u00e3o, correu para dentro anunciando que Pedro estava l\u00e1 fora (Atos 12,14). Responderam-lhe que estava maluca (<em>ma\u00edn\u00ea<\/em>) (Atos 12,15). Quando finalmente abriram o port\u00e3o, que n\u00e3o se abre automaticamente como o da cadeia, ficaram assombrados, fora de si (<em>ex\u00edst\u00eami<\/em>) (Atos 12,16). \u00c9 este o assombro maravilhoso que toma conta de Marcos, que enche o seu Evangelho, e esta p\u00e1gina de elei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Cheg\u00e1mos finalmente a Paulo e ao final da sua 2 Carta a Tim\u00f3teo 4,6-8.17-18, em que Paulo tra\u00e7a, por assim dizer, o seu testamento autobiogr\u00e1fico, recorrendo a tr\u00eas imagens. A primeira prov\u00e9m do culto, do rito de\u00a0<em>liba\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(2 Tim\u00f3teo 4,6), hebraico\u00a0<em>nesek<\/em>\u00a0(\u00caxodo 29,40; Lev\u00edtico 23,13), que consiste em derramar um pouco de vinho ou de mosto (cerca de 1,5 litros) sobre o altar, onde ser\u00e1 queimado juntamente com a oferenda (<em>minhah<\/em>), subindo o seu perfume para o alto, para Deus. Do mesmo modo, a inteira vida de Paulo foi uma incessante subida para o seu Senhor, nada retendo para si mesmo, c\u00e1 em baixo. A segunda prov\u00e9m do mundo militar. \u00c9 o\u00a0<em>combate<\/em>\u00a0(<em>ag\u00f4n<\/em>), que Paulo combateu a vida inteira, e que qualifica de \u00abbelo\u00bb e \u00abbom\u00bb (<em>kal\u00f3s<\/em>) (2 Tim\u00f3teo 4,7); de notar que a etimologia de\u00a0<em>ag\u00f4n<\/em>\u00a0(combate) \u00e9 a mesma de\u00a0<em>ag\u00e1p\u00ea<\/em>\u00a0(amor), sendo, na verdade, o amor verdadeiro uma guerra que requer combates di\u00e1rios. A terceira prov\u00e9m do mundo desportivo, concretamente do atletismo. \u00abCompletei a minha\u00a0<em>corrida<\/em>\u00a0(<em>dr\u00f3mos<\/em>)\u00bb (2 Tim\u00f3teo 4,7). Como o atleta sacrifica tudo para alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria, tamb\u00e9m Paulo despendeu todas as suas energias para alcan\u00e7ar \u00aba coroa da justi\u00e7a\u00bb que o Senhor lhe dar\u00e1 (2 Tim\u00f3teo 4,8), e que \u00e9 bem diferente da \u00abcoroa corrupt\u00edvel\u00bb que os atletas conquistam no est\u00e1dio (1 Cor\u00edntios 9,25). Seja-nos permitido ir buscar ainda uma quarta imagem ao mundo dos marinheiros. \u00abO tempo (<em>ho kair\u00f3s<\/em>) come\u00e7ou j\u00e1 a\u00a0<em>recolher as velas<\/em>\u00a0(<em>syst\u00e9ll\u00f4<\/em>)\u00bb (1 Cor 7,29). Paulo sabe que est\u00e1 a chegar ao porto, depois de ter atravessado tempestades de toda a ordem, sempre, no entanto, assistido pelo seu Senhor, para que se cumprisse o an\u00fancio (<em>k\u00earygma<\/em>) do Evangelho a todas as na\u00e7\u00f5es (2 Tim\u00f3teo 4,17). E termina tudo com uma bela doxologia: \u00abA Ele a gl\u00f3ria pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos. \u00c1men\u00bb (2 Tim\u00f3teo 4,18).<\/p>\n<p>O Salmo 34 p\u00f5e nos l\u00e1bios dos pobres a b\u00ean\u00e7\u00e3o (<em>b<sup>e<\/sup>rakah<\/em>), que os une a Deus para sempre, e o louvor jubiloso e intenso (<em>t<sup>e<\/sup>hillah<\/em>), que \u00e9 a sua verdadeira raz\u00e3o de viver (v. 2-3). O pobre enche o seu olhar de Deus e fica radiante, luminoso (v. 6), sabe que Deus o escuta e o salva, e convida a saborear a bondade de Deus (v. 9). Ou talvez mais do que isso. Na vers\u00e3o grega deste v. 9, muito utilizado no momento da comunh\u00e3o, tamb\u00e9m nas liturgias de rito bizantino, l\u00ea-se: \u00ab<em>ge\u00fasasthe ka\u00ec \u00eddete h\u00f3ti chr\u00east\u00f3s ho K\u00fdrios<\/em>\u00bb [\u00abSaboreai e vede que Bom \u00e9 o Senhor\u00bb], em que o adjetivo\u00a0<em>chr\u00east\u00f3s<\/em>, \u00abbom\u00bb, \u00e9 lido na pron\u00fancia viva:\u00a0<em>christ\u00f3s<\/em>, o que vem a resultar, na atualiza\u00e7\u00e3o crist\u00e3: \u00abSaboreai e vede que Cristo \u00e9 o Senhor\u00bb. Belo e saboroso, sem d\u00favida. Deus segue sempre o pobre de perto, cerca-o de amor (v. 8), protege at\u00e9 os seus ossos para n\u00e3o serem quebrados (v. 21), tal como \u00e9 dito do cordeiro pascal, o mais alto s\u00edmbolo de liberta\u00e7\u00e3o. No seu\u00a0<em>Caminho de perfei\u00e7\u00e3o<\/em>, Santa Teresa de \u00c1vila deixa-nos, talvez, um dos mais belos e incisivos discursos sobre a pobreza: \u00abA pobreza \u00e9 um bem que cont\u00e9m em si todos os bens do mundo; ela confere um imp\u00e9rio imenso, torna-nos verdadeiramente donos de todos os bens c\u00e1 de baixo desde o momento em que os faz cair aos p\u00e9s\u00bb.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Couto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo s\u00e3o festejados em todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos antigos, como nos novos calend\u00e1rios, na mesma data, 29 de Junho.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-9240","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-2021"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9240"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9241,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9240\/revisions\/9241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}