{"id":9402,"date":"2021-08-13T10:12:17","date_gmt":"2021-08-13T09:12:17","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9402"},"modified":"2021-09-06T15:28:11","modified_gmt":"2021-09-06T14:28:11","slug":"nova-traducao-da-biblia-pela-cep-conferencia-episcopal-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9402","title":{"rendered":"Nova tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia pela CEP &#8211; Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p><strong>O padre por tr\u00e1s da nova tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. Interpretar literalmente o G\u00e9nesis n\u00e3o \u00e9 apenas um erro acad\u00e9mico: \u00e9 um\u00a0&#8220;pecado&#8221;<br \/>\n<\/strong>A B\u00edblia est\u00e1 a ser traduzida de novo para portugu\u00eas, agora com car\u00e1cter oficial. Em entrevista ao Observador, o padre respons\u00e1vel explica o desafio e alerta para o perigo das interpreta\u00e7\u00f5es literais.<\/p>\n<p><strong>08 ago 2021 \u2013 Entrevista do Padre e Biblista M\u00e1rio de Sousa ao Observador<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A B\u00edblia \u00e9 o livro mais traduzido do mundo. Com pequenas varia\u00e7\u00f5es entre as vers\u00f5es usadas por cada confiss\u00e3o crist\u00e3, trata-se na verdade de uma\u00a0<strong>cole\u00e7\u00e3o de cerca de sete dezenas de livros<\/strong>, escritos por v\u00e1rios autores diferentes ao longo de um per\u00edodo de mais de mil anos (desde antes de 1000 a.C. at\u00e9 ao primeiro s\u00e9culo depois de Cristo), que re\u00fane diversos estilos liter\u00e1rios, incluindo descri\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas, relatos hist\u00f3ricos fundamentais para conhecer a hist\u00f3ria do M\u00e9dio Oriente e a civiliza\u00e7\u00e3o europeia contempor\u00e2nea, cartas de f\u00e9, poemas de amor e narra\u00e7\u00f5es de milagres e outros epis\u00f3dios extraordin\u00e1rios. Os seus textos foram escritos originalmente em tr\u00eas l\u00ednguas \u2014 hebraico, aramaico e grego \u2014 e, editados no seu conjunto, tornaram-se no livro fundamental da maior religi\u00e3o do mundo: s\u00e3o o\u00a0<strong>guia espiritual de mais de 2,2 mil milh\u00f5es de crist\u00e3os em todo o planeta<\/strong>\u00a0e podem ser encontrados na estante de uma grande parte das casas dos portugueses.<\/p>\n<p>Todavia, at\u00e9 hoje, ainda n\u00e3o existia uma tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para a l\u00edngua portuguesa com car\u00e1cter oficial, feita pela pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica. As tradu\u00e7\u00f5es que podem ser encontradas nas livrarias nacionais\u00a0<strong>foram feitas por editoras cat\u00f3licas independentes<\/strong>\u00a0\u2014 algumas a partir das l\u00ednguas originais, como o caso das populares edi\u00e7\u00f5es da Difusora B\u00edblica; outras a partir de tradu\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, como a importante\u00a0<em>B\u00edblia de Jerusal\u00e9m<\/em>, traduzida do franc\u00eas.<\/p>\n<p>A inexist\u00eancia de uma tradu\u00e7\u00e3o oficial da Igreja explica-se facilmente. \u00c9 que, ao contr\u00e1rio do que sucedeu na tradi\u00e7\u00e3o protestante desde a Reforma de Martinho Lutero, para a Igreja Cat\u00f3lica,\u00a0<strong>a tradu\u00e7\u00e3o em massa da B\u00edblia s\u00f3 se tornou uma realidade a partir da d\u00e9cada de 1960<\/strong>, quando o Conc\u00edlio Vaticano II determinou que as celebra\u00e7\u00f5es e as escrituras sagradas dos cat\u00f3licos deixariam o latim de lado para serem traduzidas para as l\u00ednguas maternas dos fi\u00e9is. No caso portugu\u00eas, s\u00f3 foram traduzidos os excertos habitualmente lidos nas missas \u2014 que est\u00e3o longe da totalidade da B\u00edblia. S\u00f3 em 2012 \u00e9 que a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo da Igreja Cat\u00f3lica no pa\u00eds, se lan\u00e7ou no desafio de produzir uma tradu\u00e7\u00e3o oficial e integral da B\u00edblia.<\/p>\n<p>O trabalho foi come\u00e7ado pelo antigo bispo de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira,\u00a0que morreu em 2020 num acidente rodovi\u00e1rio, e est\u00e1 hoje nas m\u00e3os do padre e biblista algarvio M\u00e1rio de Sousa. Natural de Vila Real de Santo Ant\u00f3nio, este sacerdote portugu\u00eas de 50 anos estudou os mist\u00e9rios b\u00edblicos no cora\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica, em Roma, onde se doutorou com uma tese sobre o Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o, hoje d\u00e1 aulas de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de \u00c9vora e \u00e9 o presidente da Associa\u00e7\u00e3o B\u00edblica Portuguesa. \u00c9, assim, um dos maiores conhecedores dos textos b\u00edblicos em Portugal \u2014 e nesta entrevista ao Observador\u00a0<strong>explica os meandros do complexo processo de traduzir o livro mais famoso do mundo para portugu\u00eas<\/strong>, no momento em que os resultados come\u00e7am a ser gradualmente publicados na internet.<\/p>\n<p>A nova tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia come\u00e7ou a ver a luz do dia em mar\u00e7o de 2019, altura em que a comiss\u00e3o respons\u00e1vel pelo processo\u00a0publicou um volume experimental\u00a0que inclui os quatro Evangelhos e o livro dos Salmos. Dois anos depois,\u00a0<strong>a comiss\u00e3o vai come\u00e7ar a publicar na internet a totalidade dos 73 livros da B\u00edblia cat\u00f3lica<\/strong>\u00a0\u2014 ao ritmo de um livro por m\u00eas. O primeiro, a\u00a0Primeira Ep\u00edstola de S\u00e3o Paulo aos Cor\u00edntios, saiu esta semana e j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel na\u00a0p\u00e1gina criada especificamente\u00a0para reunir os novos textos da B\u00edblia. O objetivo \u00e9 reunir coment\u00e1rios e opini\u00f5es dos leitores, crentes ou n\u00e3o crentes, que permitam melhorar o produto final, que o padre M\u00e1rio de Sousa espera colocar nas livrarias dentro de cinco anos.<\/p>\n<p>Na entrevista, o sacerdote e estudioso da B\u00edblia descreve o processo de tradu\u00e7\u00e3o dos textos sagrados, explica como se chega aos textos originais e adverte para os perigos das interpreta\u00e7\u00f5es literais do que est\u00e1 escrito nos diferentes textos da B\u00edblia. \u00c9 preciso, diz, parar de \u201cmanipular a palavra de Deus\u201d \u2014 e quem insiste em leituras literais\u00a0de textos como o G\u00e9nesis, negando a evolu\u00e7\u00e3o e apoiando teorias anticient\u00edficas,\u00a0<strong>n\u00e3o comete apenas um erro acad\u00e9mico, mas tamb\u00e9m um pecado teol\u00f3gico<\/strong>, avisa o padre.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que precisamos de traduzir outra vez a B\u00edblia? Qual \u00e9 o problema da tradu\u00e7\u00e3o atual?<br \/>\n<\/strong>A grande quest\u00e3o \u00e9 que, de facto, a seguir ao Conc\u00edlio Vaticano II, naturalmente foi necess\u00e1rio e urgente fazer uma primeira tradu\u00e7\u00e3o dos textos lit\u00fargicos \u2014 ou seja, dos textos que s\u00e3o usados na liturgia. Mas, com essa tradu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a que n\u00f3s atualmente utilizamos, h\u00e1 dois ou tr\u00eas problemas. O primeiro \u00e9 que apenas est\u00e3o traduzidos os textos que s\u00e3o usados na liturgia; n\u00e3o \u00e9 toda a B\u00edblia que est\u00e1 traduzida. E a orienta\u00e7\u00e3o da Santa S\u00e9, de facto, \u00e9 para que cada Confer\u00eancia Episcopal procure ter a B\u00edblia toda traduzida, e traduzida a partir dos originais. Ou seja, a partir do hebraico, do aramaico e do grego. Para ser utilizada a mesma tradu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas na liturgia, mas em todas as dimens\u00f5es da vida eclesial: na catequese, nos encontros de forma\u00e7\u00e3o, nos documentos oficiais, seja naquilo que for.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando diz que n\u00e3o temos toda a B\u00edblia traduzida, o que \u00e9 que falta? A ideia que tenho \u00e9 que temos a B\u00edblia completa em portugu\u00eas\u2026<br \/>\n<\/strong>A Confer\u00eancia Episcopal n\u00e3o a tem. Naturalmente, h\u00e1 editoras que promoveram a tradu\u00e7\u00e3o, mas uma tradu\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m tem outros crit\u00e9rios. Esta tradu\u00e7\u00e3o tem, sobretudo, de assentar num crit\u00e9rio: trata-se de um texto que, por um lado, tem de ser o mais fiel poss\u00edvel \u00e0s l\u00ednguas originais; mas, por outro lado, tem de ter uma outra dimens\u00e3o, que \u00e9 a sua finalidade. A finalidade primeira \u00e9 que \u00e9 um texto que se destina a ser proclamado. N\u00e3o \u00e9 apenas um texto para ser usado na academia, nas aulas de teologia \u2014 se bem que tamb\u00e9m \u2014, mas sobretudo um texto que se destina a ser proclamado. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio fazer aqui um balan\u00e7o entre estas duas grandes dimens\u00f5es. Quando digo que deve ser o mais literal poss\u00edvel, \u00e9 preciso ter em conta que, embora, por exemplo, o Novo Testamento tenha sido escrito em grego, o substrato, a mentalidade, o esquema mental que est\u00e1 por tr\u00e1s n\u00e3o \u00e9 a mentalidade grega, hel\u00e9nica. \u00c9 a mentalidade do homem do M\u00e9dio Oriente, do homem semita. A mentalidade do Antigo Testamento. Portanto, a tradu\u00e7\u00e3o, quando se diz ser o mais literal poss\u00edvel, por um lado tem de ter em conta as palavras, mas por outro lado tamb\u00e9m o facto de apesar de, neste caso concreto do Novo Testamento, as palavras serem gregas, o pensamento, o mundo do texto e o mundo por tr\u00e1s do texto, n\u00e3o ser grego. Dou-lhe um exemplo. Paulo, quando fala do ser humano, utiliza naturalmente palavras gregas. Utiliza a\u00a0<em>psyche<\/em>, que traduzimos naturalmente por alma,\u00a0<em>soma<\/em>\u00a0corpo e tamb\u00e9m\u00a0<em>pneuma<\/em>, esp\u00edrito. Ora, na mentalidade grega, trata-se de diversos compostos do homem \u2014 sobretudo a alma e o corpo. Mas, Paulo, embora utilize palavras gregas, a concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que est\u00e1 por tr\u00e1s destas palavras n\u00e3o \u00e9 a da filosofia grega, ou do pensamento grego. \u00c9 a ideia unit\u00e1ria, e n\u00e3o comp\u00f3sita, do ser humano. Naturalmente\u00a0\u2014 e volto ao que dizia \u2014, quando se fala em ser literal \u00e9 preciso ter em conta, por um lado, ser literal, mas por outro lado, ser compreens\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Antes de entrar nos detalhes da tradu\u00e7\u00e3o, deixe-me s\u00f3 perceber. A maioria dos portugueses provavelmente tem uma B\u00edblia em casa. Essa B\u00edblia, atualmente, poder\u00e1 ficar desatualizada?<br \/>\n<\/strong>N\u00e3o digo desatualizada. Esta tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o entra em concorr\u00eancia com nenhuma das outras. N\u00e3o \u00e9 nesse sentido. Trata-se de uma tradu\u00e7\u00e3o que brota de uma necessidade da Igreja em Portugal. Naturalmente, haver\u00e1 outras editoras que a promoveram, embora n\u00e3o seja assim t\u00e3o habitual termos uma tradu\u00e7\u00e3o a partir das l\u00ednguas originais. Em portugu\u00eas n\u00e3o h\u00e1 muitas. Por exemplo, temos uma boa tradu\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia, que \u00e9 a <em>B\u00edblia de Jerusal\u00e9m.\u00a0<\/em>Mas a\u00a0<em>B\u00edblia de Jerusal\u00e9m<\/em>\u00a0foi traduzida para o franc\u00eas. Para o portugu\u00eas, \u00e9 j\u00e1 uma tradu\u00e7\u00e3o do franc\u00eas. N\u00e3o temos assim tantas tradu\u00e7\u00f5es a partir dos originais.<\/p>\n<p><strong>E a maioria das B\u00edblias comuns que temos? Por exemplo,\u00a0as da Difusora B\u00edblica.<br \/>\n<\/strong>A da Difusora B\u00edblica, de facto, \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o feita a partir das l\u00ednguas originais, porque foi feita precisamente por biblistas portugueses. Naturalmente, depois tem uma \u00e1rea de interesse e de utiliza\u00e7\u00e3o que \u00e9 um bocado diferente desta que a Confer\u00eancia Episcopal quis promover. N\u00e3o se trata de tradu\u00e7\u00f5es que se anulem, mas que se enriquecem. \u00c0s vezes h\u00e1 um bocadinho esta conce\u00e7\u00e3o. Naturalmente, uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma trai\u00e7\u00e3o, como diziam os antigos. Duas pessoas a traduzir, traduzem sempre de modo diferente. N\u00f3s termos a possibilidade de comparar duas ou tr\u00eas tradu\u00e7\u00f5es, mais do que um conflito, \u00e9 uma riqueza. Como diz Jesus no Evangelho, a palavra \u00e9 um tesouro de onde se tiram sempre coisas antigas e coisas novas.<\/p>\n<p><em>&#8220;Uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma trai\u00e7\u00e3o, como diziam os antigos. Duas pessoas a traduzir, naturalmente que traduzem sempre de modo diferente. N\u00f3s termos a possibilidade de comparar duas ou tr\u00eas tradu\u00e7\u00f5es, mais do que um conflito, \u00e9 uma\u00a0riqueza.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Mas esta nova tradu\u00e7\u00e3o vai assumir um car\u00e1cter, digamos, oficial, por ser promovida pela pr\u00f3pria Confer\u00eancia Episcopal \u2014 o que as outras n\u00e3o t\u00eam.<br \/>\n<\/strong>Exatamente. De facto, a finalidade \u00e9 essa. Que o mesmo texto que escutamos na liturgia seja o mesmo texto que lemos em casa. Ou, pelo menos, que aparece nos documentos oficiais da Igreja e que \u00e9 utilizado nas catequeses. A ideia \u00e9 um bocadinho essa. Mas, por outro lado, al\u00e9m de n\u00e3o termos a B\u00edblia lit\u00fargica na sua totalidade traduzida, esta tradu\u00e7\u00e3o que se fez logo a seguir ao Conc\u00edlio, al\u00e9m de ser bonita, de ter a n\u00edvel do portugu\u00eas uma boa constru\u00e7\u00e3o e ser bela, apresenta algumas omiss\u00f5es e, \u00e0s vezes, at\u00e9 alguns erros. Portanto, era preciso ter tudo isto em considera\u00e7\u00e3o neste projeto que a Confer\u00eancia Episcopal iniciou.<\/p>\n<p><strong>Pode dar alguns exemplos de pequenos excertos que as pessoas conhe\u00e7am e que tenham agora uma formula\u00e7\u00e3o diferente?<br \/>\n<\/strong>Uma das diferen\u00e7as, que\u00a0deu grande brado na comunica\u00e7\u00e3o social\u00a0\u2014 que n\u00e3o \u00e9 diferen\u00e7a, mas \u00e9 uma curiosidade \u2014, quando saiu a primeira edi\u00e7\u00e3o dos Quatro Evangelhos e dos Salmos, foi o facto de se come\u00e7ar a tratar Deus por \u201ctu\u201d. Em lado nenhum da B\u00edblia se trata Deus por \u201cv\u00f3s\u201d. Na mentalidade semita e na forma de falar grega, n\u00e3o se diz \u201cPai Nosso, que estais nos c\u00e9us, venha a n\u00f3s o vosso reino\u201d. Isso \u00e9 a nossa forma cultural de n\u00f3s, portugueses, nos expressarmos. Trata-se de uma pessoa de rever\u00eancia. Na B\u00edblia, n\u00e3o. A B\u00edblia s\u00f3 utiliza, quando se dirige a Deus, o \u201ctu\u201d, a segunda pessoa do singular. Portanto, aquilo que de facto pareceu uma grande novidade n\u00e3o o \u00e9. \u00c9 a tradu\u00e7\u00e3o literal do grego.<\/p>\n<p><strong>N\u00f3s t\u00ednhamos ido buscar a forma de tratar os reis e as pessoas importantes e transpusemos essa forma para tratar Deus.<br \/>\n<\/strong>Exatamente. Trata-se de um tratamento de rever\u00eancia, que n\u00e3o est\u00e1 mal. Na liturgia, faz parte da nossa cultura. N\u00e3o digo isso. Digo \u00e9 que na B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 assim. Jesus n\u00e3o diz \u201cPai Nosso que estais nos c\u00e9us\u201d, diz \u201cPai Nosso que est\u00e1s nos c\u00e9us, venha o teu reino\u201d. \u00c9 assim que, nesta linguagem mais intimista e relacional, a B\u00edblia se expressa.<\/p>\n<p><strong>E essa \u00e9 uma diferen\u00e7a que encontraremos ao longo de toda esta tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia?<br \/>\n<\/strong>Sim, mas que j\u00e1 encontramos noutras. Se estamos a traduzir das l\u00ednguas originais, n\u00e3o podemos passar para a segunda pessoa do plural aquilo que na l\u00edngua original est\u00e1 no singular. \u00c9 uma das caracter\u00edsticas que deu grande brado e que, no entanto, n\u00e3o \u00e9 novidade nenhuma.<\/p>\n<p><strong>A B\u00edblia \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de mais de 70 livros, todos eles feitos em contextos diferentes, em tempos diferentes, com hist\u00f3rias e autores diferentes \u2014 e tr\u00eas l\u00ednguas originais diferentes. Este processo de ir buscar os textos originais, imagino que d\u00ea trabalho n\u00e3o apenas do ponto de vista da t\u00e9cnica da tradu\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m da pr\u00f3pria pesquisa. Que textos originais s\u00e3o esses, onde \u00e9 que est\u00e3o? Como sabemos qual \u00e9 a c\u00f3pia original de uma carta de S\u00e3o Paulo, de um livro do Antigo Testamento?<br \/>\n<\/strong>Quando n\u00f3s falamos dos textos originais, n\u00e3o falamos propriamente dos livros originais. O que se quer dizer com isto? N\u00f3s n\u00e3o temos nenhum original, de facto, da B\u00edblia. Naturalmente, pelos materiais que eram utilizados, e pela forma como o texto tamb\u00e9m era transmitido. Em primeiro lugar de uma forma mais oral. Sabemos que a tradi\u00e7\u00e3o oral tinha um forte peso na transmiss\u00e3o da cultura, e tamb\u00e9m naturalmente da B\u00edblia. Por outro lado, a qualidade dos materiais fazia com que a decomposi\u00e7\u00e3o fosse r\u00e1pida. Portanto, n\u00e3o temos nenhum texto que possamos dizer que \u00e9 o original. N\u00e3o acreditamos que os livros ca\u00edram do c\u00e9u. Ou seja, houve um livro original que Deus entregou ao seu povo \u2014 f\u00ea-lo, diz o livro do \u00caxodo, com os Dez Mandamentos. Mas a B\u00edblia \u00e9 um processo. \u00c9 um processo naturalmente inspirado, acreditamos n\u00f3s que temos f\u00e9, em que Deus \u00e9 verdadeiramente autor enquanto inspirador, mas que tamb\u00e9m tem um lado humano, do escritor sagrado, que tamb\u00e9m ele \u00e9 um verdadeiro autor. N\u00e3o utiliza apenas essa inspira\u00e7\u00e3o que recebeu, mas f\u00e1-lo tamb\u00e9m a partir de tudo aquilo de que \u00e9 feito: da sua cultura, da sua forma de se expressar e at\u00e9 das suas dificuldades.<\/p>\n<p><strong>E do seu talento liter\u00e1rio.<br \/>\n<\/strong>E o seu talento liter\u00e1rio, naturalmente. \u00c9 muito diferente. Se olharmos para os primeiros cap\u00edtulos do livro de Isa\u00edas, que s\u00e3o uma p\u00e9rola da literatura mundial, ou para um outro livro como por exemplo o G\u00e9nesis, que tem outra beleza, muito mais teol\u00f3gica do que propriamente liter\u00e1ria. Isto foi sendo transmitido com as possibilidades que na altura havia. N\u00f3s agora temos uma grande facilidade de uniformizar a transmiss\u00e3o das coisas. Naquele tempo, sabemos que n\u00e3o. Portanto, \u00e9 natural que surgissem diversas c\u00f3pias. Fazendo c\u00f3pias, \u00e9 natural que come\u00e7assem a surgir erros, a tenta\u00e7\u00e3o de algum copista de explicitar melhor uma determinada passagem, ou ent\u00e3o de saltar linhas quando estava a copiar determinado livro. Isto fez com que chegassem at\u00e9 n\u00f3s n\u00e3o um original, mas v\u00e1rios daquilo a que chamamos os testemunhos do texto. Ent\u00e3o, h\u00e1, de facto, um trabalho que \u00e9 important\u00edssimo, que \u00e9 estudar cada manuscrito dentro de determinado texto que nos chegou, considerar a sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica e a que tipo de tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que pertence. Embora o texto seja o mesmo, pode ter chegado at\u00e9 n\u00f3s atrav\u00e9s de escolas diferentes e a partir de c\u00f3pias diferentes. H\u00e1 este trabalho a que se chama a cr\u00edtica textual: tentar, a partir do estudo dos manuscritos, da cr\u00edtica interna e da cr\u00edtica externa \u2014 ou seja, da compara\u00e7\u00e3o com os outros manuscritos \u2014, tentar compor aquele que parece ser o texto que est\u00e1 na origem de todos estes manuscritos. Para isto, temos duas obras de refer\u00eancia. Para o hebraico, para o Antigo Testamento, aquela a que se chama a B\u00edblia \u00a0<em>Stuttgartensia<\/em>; e depois para o Novo Testamento, o trabalho feito por Nestle-Aland [o volume \u00e9 conhecido pelos apelidos dos principais editores, Eberhard Nestle e Kurt Aland] e por uma comiss\u00e3o da qual fez parte tamb\u00e9m o conhecido cardeal [Carlo Maria] Martini, e que s\u00e3o os textos nos quais os biblistas hoje se baseiam para poderem fazer as tradu\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p><strong>E esses textos est\u00e3o em hebraico, aramaico e grego.<br \/>\n<\/strong>Exatamente. E o texto sobre o qual n\u00f3s trabalhamos \u00e9 esta reconstru\u00e7\u00e3o feita pelos especialistas.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, hoje quando falamos em ir \u00e0s l\u00ednguas originais, n\u00e3o falamos em ir outra vez a manuscritos e a arquivos, mas sim a estes textos j\u00e1 consolidados.<br \/>\n<\/strong>Facilita muito a vida! N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o se possa fazer, mas de facto esse trabalho est\u00e1 feito e, portanto, facilita muito a vida. Estas edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas apresentam-nos aquele que, segundo a comiss\u00e3o que fez o estudo, parece ser o texto \u201coriginal\u201d, mas apresentam-nos tamb\u00e9m as chamadas variantes do texto. Ou seja, h\u00e1 outras tradi\u00e7\u00f5es que nos apresentam esta ou aquela leitura.<\/p>\n<p><strong>A B\u00edblia toda, desde o primeiro texto a ser escrito at\u00e9 ao \u00faltimo, ocupa um espa\u00e7o de tempo de, mais ou menos, quantos anos? Estamos a falar de largas centenas\u2026<br \/>\n<\/strong>As tradi\u00e7\u00f5es, naturalmente, s\u00e3o muito antigas. As tradi\u00e7\u00f5es que os livros apresentam s\u00e3o j\u00e1 tradi\u00e7\u00f5es orais que, depois, se tornaram uma tradi\u00e7\u00e3o escrita. Mas isto s\u00f3 p\u00f4de acontecer quando o povo de Israel ganhou alguma estabilidade depois da reconquista da terra e depois de uma certa pacifica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 que a cultura, como \u00e9 natural, come\u00e7a a impor-se e a desenvolver-se. A maior parte dos estudiosos da B\u00edblia aponta para um grande desenvolvimento na elabora\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es e no corpo escrito no tempo do rei Salom\u00e3o [que liderou o reino de Israel aproximadamente entre\u00a0960 e 922 a.C.], embora a B\u00edblia n\u00e3o nos relate apenas uma tradi\u00e7\u00e3o. Encontramos v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es, inclusivamente uma tradi\u00e7\u00e3o muito importante, que \u00e9 uma releitura da Hist\u00f3ria, a partir de um acontecimento que marcou para sempre o povo de Israel, que foi o ex\u00edlio na Babil\u00f3nia. Em 587 a.C., o rei\u00a0Nabucodonosor da Babil\u00f3nia invade a Terra Santa, destr\u00f3i o templo e leva deportado para a Babil\u00f3nia, por um per\u00edodo de mais ou menos cinquenta anos, o povo de Israel. Isto foi um acontecimento traum\u00e1tico, porque, como sabemos, para um israelita, a sua f\u00e9 assenta em duas promessas que Deus fez a Abra\u00e3o: uma terra \u2014 a Terra Prometida \u2014 e uma grande descend\u00eancia. Ora, no ex\u00edlio da Babil\u00f3nia, o povo pergunta-se: \u201cMas o que \u00e9 que aconteceu para as promessas de Deus, \u00e0 primeira vista, terem sido destru\u00eddas?\u201d Ent\u00e3o, \u00e0 luz deste acontecimento, o povo come\u00e7a a reler a sua hist\u00f3ria. Chama-se a esta hist\u00f3ria de releitura a escola Deuteronomista, que est\u00e1 muito presente de um modo particular no livro do Deuteron\u00f3mio [o quinto livro da B\u00edblia]. O Deuteron\u00f3mio fala-nos outra vez dos acontecimentos do \u00caxodo, mas j\u00e1 muito marcados por esta releitura de f\u00e9: \u201cO que \u00e9 que aconteceu? Porque \u00e9 que tal desgra\u00e7a sucedeu na nossa vida? Ah, porque fomos infi\u00e9is ao Senhor. N\u00e3o foi ele que nos foi infiel, mas fomos n\u00f3s.\u201d Tamb\u00e9m esta tradi\u00e7\u00e3o se encontra na B\u00edblia. Isto para dizer que n\u00e3o podemos dizer que a B\u00edblia foi escrita\u00a0<em>naquela fase.\u00a0<\/em>\u00c9 um livro vivo porque, acreditamos n\u00f3s, que temos f\u00e9, \u00e9 a palavra de Deus. E Deus fala sempre atrav\u00e9s daquela palavra, atualizando-a para iluminar a situa\u00e7\u00e3o concreta. O hoje, que \u00e9 o hoje da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;Uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 pegar no texto, traduz-se e pronto. Uma boa tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 pegar no texto, mas ter em conta n\u00e3o apenas o texto, mas o mundo do texto e o mundo que est\u00e1 por tr\u00e1s do texto \u2014 e que configura e se espelha naquelas palavras e naquela forma de\u00a0pensar.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Estamos a falar desses primeiros livros escritos nessa \u00e9poca \u2014 ou pelo menos uma tradi\u00e7\u00e3o consolidada nessa \u00e9poca \u2014, e depois a B\u00edblia inclui at\u00e9 ao Novo Testamento escrito j\u00e1 no primeiro s\u00e9culo. Quais s\u00e3o os principais desafios de pegar num texto t\u00e3o variado e diverso, com tantos estilos, feito ao longo de s\u00e9culos, e criar um volume que oriente a f\u00e9 dos cat\u00f3licos?<br \/>\n<\/strong>Penso que \u00e9 o que distingue uma tradu\u00e7\u00e3o de uma boa tradu\u00e7\u00e3o. Uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 pegar no texto, traduz-se e pronto. Uma boa tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 pegar no texto, mas ter em conta n\u00e3o apenas o texto, mas o mundo do texto e o mundo que est\u00e1 por tr\u00e1s do texto \u2014 e que configura e se espelha naquelas palavras e naquela forma de pensar. \u00c9 por isso que quem traduz o livro do G\u00e9nesis n\u00e3o pode estar a traduzi-lo na mesma perspetiva de quem traduz, por exemplo, o livro de Isa\u00edas. O livro do G\u00e9nesis \u00e9 muito simb\u00f3lico, vive muito de uma linguagem evocativa e n\u00e3o informativa. N\u00e3o ter isto em conta vai fazer com que de uma leitura teol\u00f3gica se possa cair numa leitura fundamentalista, que interpreta a linguagem que \u00e9 densamente oriental, que fala das realidades que nos ultrapassam a partir da experi\u00eancia, mas de uma experi\u00eancia que \u00e9 envolvida numa dimens\u00e3o simb\u00f3lica, como se fosse linguagem jornal\u00edstica. Naturalmente, quando o fazemos podemos estar a traduzir bem a n\u00edvel das palavras, mas n\u00e3o a n\u00edvel do mundo do texto e do mundo que est\u00e1 por tr\u00e1s do texto.<\/p>\n<p><strong>Da mensagem que ali est\u00e1, no fundo.<br \/>\n<\/strong>\u00c9 preciso ter em conta essa mensagem. Sen\u00e3o, perdemos a alma das palavras e a alma daquele texto.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 que tocou nesse ponto: enquanto estudioso da B\u00edblia, preocupa-o uma leitura literal e fundamentalista da B\u00edblia, sobretudo dos cap\u00edtulos mais antigos, por parte de correntes religiosas mais fundamentalistas, que pegam no texto e dizem \u201cisto \u00e9 mesmo assim\u201d?<br \/>\n<\/strong>Essa leitura, na minha perspetiva, al\u00e9m de ser academicamente errada, \u00e9 teologicamente um pecado. Porque se trata de manipular a palavra de Deus. H\u00e1 duas situa\u00e7\u00f5es na B\u00edblia que acho que nos podem ajudar. V\u00e1rias, mas dou dois exemplos. A B\u00edblia diz: \u201cDeus n\u00e3o existe.\u201d Diz! Se eu disser isto a algu\u00e9m, a pessoa fica espantada. Como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel a B\u00edblia dizer que Deus n\u00e3o existe? Estou a ser literalista, mas tamb\u00e9m estou a tirar a palavra do contexto, porque antes diz assim: \u201cDiz o \u00edmpio no seu cora\u00e7\u00e3o.\u201d Portanto, posso fazer uma leitura literalista, que \u00e9 sempre tendenciosa, e que normalmente \u00e9 feita para justificar conce\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. N\u00e3o posso ser eu a impor-me ao texto e a querer que o texto diga aquilo que quero.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 estava a pensar mais numa interpreta\u00e7\u00e3o demasiado mais literal do G\u00e9nesis, que durante algum tempo foi usada \u2014 e ainda hoje \u00e9\u00a0usada por algumas correntes mais radicais\u00a0\u2014 para negar pressupostos cient\u00edficos que j\u00e1 temos como mais ou menos consensuais, como a teoria da evolu\u00e7\u00e3o. Para um estudioso da B\u00edblia h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o de produzir hoje um texto que n\u00e3o deixe que as pessoas caiam nesse erro?<br \/>\n<\/strong>Por isso \u00e9 que dizia que \u00e9 o que distingue uma tradu\u00e7\u00e3o de uma boa tradu\u00e7\u00e3o. A boa tradu\u00e7\u00e3o tem de ter em conta o mundo do texto e o mundo por tr\u00e1s do texto. Por exemplo, n\u00f3s encontramos no livro do G\u00e9nesis uma serpente a falar. Ora, as serpentes nem falam agora nem nunca falaram. N\u00e3o estamos numa linguagem jornal\u00edstica, informativa, descritiva. Estamos numa linguagem evocativa, que utiliza naturalmente s\u00edmbolos, imagens figuradas, para nos falar de realidades que s\u00e3o muito mais profundas do que aquilo que a descri\u00e7\u00e3o pode dizer. Quando se diz que a serpente se aproxima e come\u00e7a a falar com Eva, fala-se de qu\u00ea? Da tenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 assim, que se aproxima, que sem darmos por isso se insinua, e que come\u00e7a a criar na nossa cabe\u00e7a racionaliza\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 o nosso esquema psicol\u00f3gico que a B\u00edblia explica daquela forma t\u00e3o bonita. Por exemplo, quando a B\u00edblia diz que a mulher foi criada a partir de uma costela do homem, naturalmente que nenhum homem que conte as suas costelas tem a falta de uma, penso eu. O que pretende significar \u2014 e isto \u00e9 revolucion\u00e1rio ser afirmado tantos s\u00e9culos antes de n\u00f3s \u2014, \u00e9 que a mulher tem a mesma dignidade do homem, mas que, por outro lado, o homem fica incompleto enquanto n\u00e3o encontrar aquela que lhe falta, e a mulher exatamente a mesma coisa: est\u00e1 incompleta enquanto n\u00e3o encontrar aquele que lhe d\u00e1 plenitude. Ent\u00e3o, termina o epis\u00f3dio dizendo: \u201cO homem deixar\u00e1 pai e m\u00e3e para se unir de novo \u00e0 sua esposa e ser\u00e3o os dois uma s\u00f3 carne.\u201d Ou seja, um s\u00f3 projeto de vida, um caminhar em conjunto e em profunda comunh\u00e3o. Isto \u00e9 t\u00e3o bonito quando temos a capacidade de perceber que se trata de uma linguagem evocativa, que \u00e9 muito mais bela e muito mais profunda do que a linguagem descritiva.<\/p>\n<p><em>&#8220;O livro do G\u00e9nesis \u00e9 muito simb\u00f3lico, vive muito de uma linguagem evocativa e n\u00e3o informativa. N\u00e3o ter isto em conta vai fazer com que de uma leitura teol\u00f3gica se possa cair numa leitura fundamentalista.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Mas h\u00e1, de facto, o risco, que n\u00f3s identificamos em algumas correntes, de cair nas leituras literais.<br \/>\n<\/strong>Isso \u00e9 sempre um risco.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 a dizer-me que uma s\u00e9rie de imagens que est\u00e3o nos textos da B\u00edblia n\u00e3o podem ser lidas de modo literal, mas que nos passam uma mensagem que temos de interpretar. Mas onde \u00e9 que desenhamos a linha entre o que \u00e9 obviamente uma imagem que temos de interpretar e aquilo que \u00e9, por exemplo, milagre? H\u00e1 coisas que a Igreja considera dogmas, como a virgindade de Maria ou alguns milagres feitos por Jesus. A\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o podemos dizer que, se calhar, \u00e9 uma imagem \u2014 j\u00e1 que contraria a ci\u00eancia \u2014 e que h\u00e1 uma mensagem a interpretar? Ou a\u00ed j\u00e1 \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o literal?<br \/>\n<\/strong>Esse \u00e9, de facto, o trabalho de um biblista. Ou seja, de algu\u00e9m que estuda n\u00e3o apenas o texto, mas o mundo do texto. Esta \u00e9 sempre uma quest\u00e3o \u00e0 qual volto porque, para mim, \u00e9 fundamental. \u00c9 essencial para n\u00e3o se cair nos fundamentalismos. Os milagres de Jesus, por exemplo, j\u00e1 que falou neles, s\u00e3o para um biblista dados hist\u00f3ricos. N\u00e3o foram inven\u00e7\u00f5es dos ap\u00f3stolos, porque ningu\u00e9m daria a sua vida por uma inven\u00e7\u00e3o. Trata-se, de facto, de dados hist\u00f3ricos, mas nos quais os ap\u00f3stolos conseguiram sempre ver a interven\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Deus. Quando Jesus faz um milagre, nunca \u00e9 para dar espet\u00e1culo. Jesus nunca faz um milagre para chamar as aten\u00e7\u00f5es sobre si. Jesus faz sempre um milagre como sinal dessa liberta\u00e7\u00e3o que Deus, atrav\u00e9s dele, quer trazer ao ser humano. Na B\u00edblia, as doen\u00e7as e tudo aquilo que diminui a dignidade humana s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do poder do mal. Portanto, as curas de Jesus n\u00e3o s\u00e3o para nos libertar daquilo que \u00e9 a conting\u00eancia da nossa biologia, daquilo de que somos feitos, mas para manifestar um acontecimento muito mais importante, que \u00e9 a finalidade da sua vinda, resgatar o homem de tudo aquilo que o diminui para o levar a essa plenitude para a qual Deus o criou. Portanto, por um lado temos o dado hist\u00f3rico \u2014 \u00e9 diferente daquilo que est\u00e1vamos a falar ainda h\u00e1 pouco, que \u00e9 uma linguagem que n\u00e3o se destina a relatar acontecimentos, mas realidades e verdades. Aqui \u00e9 diferente. Mas mesmo atr\u00e1s destes acontecimentos, e por isso \u00e9 que eles foram escritos, porque Jesus fez muitas outras coisas, h\u00e1 uma catequese. O evangelista escolheu aquele sinal precisamente para nos transmitir essa catequese, esse sentimento mais profundo, que aquele sinal ou milagre traz consigo.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, \u00e9 uma diferen\u00e7a entre relatos hist\u00f3ricos e mitos fundadores: hist\u00f3rias que n\u00e3o s\u00e3o exatamente relatos.<br \/>\n<\/strong>Sim, mas por outro lado \u00e9 preciso termos cuidado com esta distin\u00e7\u00e3o. Os mitos n\u00e3o s\u00e3o mentiras. A linguagem mitol\u00f3gica \u00e9 uma forma de falar sobre a verdade. \u00c0s vezes, na nossa forma de distinguir, podemos estar a excluir, a assumir que o relato \u00e9 verdadeiro e o mito \u00e9 qualquer coisa de constru\u00eddo. O mito, de facto, tem uma base, segundo n\u00f3s, hist\u00f3rica, que depois se desenvolve numa linguagem que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, para atrav\u00e9s dela transmitir uma verdade. Uma verdade que \u00e9 objetiva, n\u00e3o \u00e9 subjetiva. O relato tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 completamente verdade. Vou dizer de outra maneira: o relato tamb\u00e9m \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. Mesmo na linguagem cient\u00edfica, mesmo na linguagem de um historiador, trata-se sempre de uma interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. N\u00e3o \u00e9 por isso que deixa de ser verdade, mas \u00e9 uma verdade que, naturalmente, acaba por ter um bocadinho de subjetividade.<\/p>\n<p><strong>Da\u00ed que a B\u00edblia inclua quatro Evangelhos, e muitos epis\u00f3dios da vida de Jesus s\u00e3o relatados v\u00e1rias vezes, com pequenas diferen\u00e7as. Mas imagino que seja um equil\u00edbrio \u2014 o tal equil\u00edbrio da boa tradu\u00e7\u00e3o, a que vai voltar \u2014 dif\u00edcil de manter, n\u00e3o s\u00f3 para os biblistas, mas para os cat\u00f3licos e para a hierarquia cat\u00f3lica no geral, entre aquilo que se considera ser mat\u00e9ria de f\u00e9, mesmo que contradiga a ci\u00eancia, e aquilo que tem de ser interpretado. Ainda por cima, est\u00e1 tudo no mesmo volume. Por isso \u00e9 que h\u00e1 um argumento frequente entre os mais literalistas: porque hei de interpretar literalmente o que est\u00e1 numa parte da B\u00edblia e n\u00e3o o que est\u00e1 noutra parte? H\u00e1, de facto, subtilezas na B\u00edblia.<br \/>\n<\/strong>At\u00e9 porque a B\u00edblia, naturalmente, \u00e9 feita de v\u00e1rios g\u00e9neros liter\u00e1rios \u2014 e n\u00f3s sabemos que o g\u00e9nero liter\u00e1rio condiciona a forma como se apresenta, \u00e0s vezes, at\u00e9 a mesma verdade. Um acidente visto e relatado por um pol\u00edcia \u00e9 relatado de uma maneira. Por um jornalista, \u00e9 relatado de outra maneira. Por um humorista \u00e9 relatado de outra maneira. E por um popular ainda \u00e9 relatado de outra maneira. Algum destes g\u00e9neros liter\u00e1rios \u00e9 falso? N\u00e3o. Todos eles s\u00e3o verdadeiros. Agora, todos falam da mesma realidade a partir de esquemas mentais e de esquemas de constru\u00e7\u00e3o de descri\u00e7\u00e3o da realidade que s\u00e3o diferentes. E a B\u00edblia, naturalmente, porque \u00e9 tamb\u00e9m obra verdadeiramente humana \u2014 divina, mas tamb\u00e9m verdadeiramente humana, os escritores s\u00e3o seres humanos \u2014, utiliza estes esquemas, estas formas de falar. Portanto, \u00e9 preciso termos em conta que quando falamos do g\u00e9nero liter\u00e1rio \u201cmilagre\u201d, n\u00e3o estamos a falar do g\u00e9nero liter\u00e1rio \u201cpar\u00e1bola\u201d. S\u00e3o formas de construir, de relatar e de transmitir diferentes.<\/p>\n<p><strong>E o papel do tradutor tamb\u00e9m \u00e9 p\u00f4r-se no lugar do tal jornalista, do pol\u00edcia\u2026 quando vai escrever o texto.<br \/>\n<\/strong>Exatamente. Sobretudo, perceber que tipo de g\u00e9nero liter\u00e1rio \u00e9 aquele, porque isso \u00e9 muito importante para poder extrair o sentido profundo do texto.<\/p>\n<p><strong>A maioria das B\u00edblias que as pessoas t\u00eam em casa t\u00eam introdu\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, de contexto, sobre a vida do autor, antes de cada livro. Isto \u00e9 algo que planeiam manter nesta nova tradu\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>Sim. Numa primeira fase, de facto, quando o projeto come\u00e7ou em 2012, e levou algum tempo a arrancar, a ideia era traduzir apenas o texto b\u00edblico, sem qualquer tipo de notas ou de introdu\u00e7\u00f5es. Depois, numa segunda fase, considerou-se importante inserir notas que justificassem as op\u00e7\u00f5es de tradu\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 que se traduziu daquela maneira e n\u00e3o de outra. Depois \u2014 e, penso eu, muito bem \u2014 foi decidido que era importante seguir a nossa tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que \u00e9 ajudar o leitor a entender o mundo do texto atrav\u00e9s das introdu\u00e7\u00f5es e das notas. Os primeiros a entregar o trabalho das suas tradu\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham tido isto em considera\u00e7\u00e3o logo no in\u00edcio. Por isso, foi preciso rever outra vez os livros e introduzir-lhes essas anota\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o importantes para entender o mundo do texto e o mundo por tr\u00e1s do texto. Por exemplo, os protestantes n\u00e3o t\u00eam esta tradi\u00e7\u00e3o; normalmente, traduzem o mais literal poss\u00edvel e sem qualquer introdu\u00e7\u00e3o ou sem qualquer nota. A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 diferente. Basta comparar uma B\u00edblia e outra. O texto \u00e9 o mesmo, mas com crit\u00e9rios diferentes.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma equipa por tr\u00e1s disto, muitas horas de trabalho, imagino. Como tem sido feito este trabalho?<br \/>\n<\/strong>No princ\u00edpio considerou-se convidar n\u00e3o apenas biblistas da Associa\u00e7\u00e3o B\u00edblica Portuguesa, mas tamb\u00e9m dos PALOP. Porque esta tradu\u00e7\u00e3o, um dia mais tarde, vai destinar-se tamb\u00e9m aos pa\u00edses de l\u00edngua oficial portuguesa, exceto o Brasil, porque tem outra tradi\u00e7\u00e3o e outra forma de se expressar. Mas os livros lit\u00fargicos que v\u00e3o usar esta tradu\u00e7\u00e3o, e aquilo que dela resultar, v\u00e3o ser usados em Angola, em Cabo Verde, na Guin\u00e9, em Mo\u00e7ambique\u2026<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma parceria das Confer\u00eancias Episcopais?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o, tem sido assim. O missal que se utiliza em Portugal \u00e9 o missal que tamb\u00e9m todas estas Confer\u00eancias Episcopais utilizam nos seus pa\u00edses. Assim tamb\u00e9m como lecion\u00e1rio [livro com os textos para serem lidos durante a missa]. O mesmo que acontece neste momento \u00e9 aquilo que, porventura, acontecer\u00e1 tamb\u00e9m no futuro. Al\u00e9m disso, o senhor D. Anacleto [Oliveira], que era o presidente da comiss\u00e3o, respons\u00e1vel da Confer\u00eancia Episcopal por este projeto, considerou importante convidar-se tamb\u00e9m biblistas do Brasil. Isto fez com que o conjunto dos biblistas fosse de 34. Al\u00e9m de sermos 34, cada um com a sua sensibilidade e a sua forma de se expressar, \u00e9ramos biblistas de Portugal, do Brasil, de Angola e de Mo\u00e7ambique. Com culturas diferentes e formas de express\u00e3o diferentes. Quando as tradu\u00e7\u00f5es chegam, \u00e9 preciso fazer uma harmoniza\u00e7\u00e3o dos textos. Em primeiro lugar, ver se os textos correspondem a estes dois crit\u00e9rios de que fal\u00e1mos no in\u00edcio: por um lado, ser o mais literal poss\u00edvel, mas n\u00e3o literalista ao ponto de se tornar incompreens\u00edvel. Portanto, o segundo crit\u00e9rio \u00e9 a sua compreensibilidade. H\u00e1 a comiss\u00e3o coordenadora, mas dentro desta comiss\u00e3o h\u00e1 duas subcomiss\u00f5es cient\u00edficas, a do Antigo Testamento e a do Novo Testamento, que fazem a revis\u00e3o das tradu\u00e7\u00f5es e procuram fazer uma harmoniza\u00e7\u00e3o. Por exemplo, que a mesma palavra em Paulo seja, preferencialmente, sempre traduzida da mesma maneira, para que quem n\u00e3o tem acesso \u00e0s l\u00ednguas originais possa perceber, pela tradu\u00e7\u00e3o, que se trata, no original, da mesma palavra.<\/p>\n<p><strong>Como foi feito esse trabalho? Dividiram os textos pelos v\u00e1rios biblistas? Ou criaram grupos em que v\u00e1rias pessoas traduzem o mesmo texto e depois confrontam vers\u00f5es?<br \/>\n<\/strong>Os biblistas foram consultados e questionados sobre, dentro da sua \u00e1rea de especialidade, qual o livro para o qual sentiam maior apet\u00eancia e melhor prepara\u00e7\u00e3o para poderem participar e traduzir. Essa informa\u00e7\u00e3o chegou-nos e, a partir da\u00ed, os livros foram entregues aos diferentes biblistas. Depois dessa tradu\u00e7\u00e3o, que cada biblista fez do livro que lhe foi entregue, ent\u00e3o h\u00e1 este trabalho das subcomiss\u00f5es respetivas, de tentar ter em conta que a tradu\u00e7\u00e3o siga estes dois crit\u00e9rios \u2014 a literalidade e a compreensibilidade \u2014, e por outro lado que aquela tradu\u00e7\u00e3o seja harm\u00f3nica com todas as outras tradu\u00e7\u00f5es similares. Nos Evangelhos sin\u00f3pticos [como s\u00e3o conhecidos os de Marcos, Mateus e Lucas, que t\u00eam muita informa\u00e7\u00e3o em comum; deste grupo n\u00e3o faz parte o de Jo\u00e3o] foi um trabalho imenso, porque cada biblista traduziu um Evangelho e depois foi necess\u00e1rio uniformizar e harmonizar os textos que s\u00e3o iguais nos tr\u00eas Evangelhos. Al\u00e9m disto, tamb\u00e9m as palavras. Obviamente, isto \u00e9 um trabalho que exige muito tempo e que, por isso, tamb\u00e9m prolonga os trabalhos.<\/p>\n<p><em>&#8220;Os mitos n\u00e3o s\u00e3o mentiras. A linguagem mitol\u00f3gica \u00e9 uma forma de falar sobre a verdade. \u00c0s vezes, na nossa forma de distinguir, podemos estar a excluir, a assumir que o relato \u00e9 verdadeiro e o mito \u00e9 qualquer coisa de\u00a0constru\u00eddo.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Ou seja, isto numa primeira fase \u00e9 um trabalho individual: o biblista vai com o texto para casa e traduz. S\u00f3 depois, numa segunda fase, \u00e9 que h\u00e1 um trabalho que imagino que tamb\u00e9m inclua o tradutor, em que o texto v\u00e1 andando para cima e para baixo para haver essa harmoniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<\/strong>Depois dessa revis\u00e3o, ent\u00e3o a subcomiss\u00e3o faz chegar ao tradutor as suas anota\u00e7\u00f5es e considera\u00e7\u00f5es. Porque \u00e0s vezes o tradutor pode dizer que \u00e9 importante que certa express\u00e3o se traduza de determinada maneira \u2014 e fundamenta. E a subcomiss\u00e3o depois ter\u00e1 isso em conta. Agora, como \u00e9 um trabalho de muita gente, n\u00e3o podemos ter uma tradu\u00e7\u00e3o que acaba por n\u00e3o ter uma certa harmoniza\u00e7\u00e3o. O trabalho destas subcomiss\u00f5es \u00e9 sobretudo esse. Depois disto, o texto \u00e9 entregue a um especialista em l\u00edngua portuguesa, para que se possa pronunciar, e finalmente a um liturgista, para que tamb\u00e9m possa fazer considera\u00e7\u00f5es sobre o uso lit\u00fargico daquele livro ou daquela passagem. No meio disto tudo, e penso que ser\u00e1 a grande inova\u00e7\u00e3o do projeto, fazemos uma primeira edi\u00e7\u00e3o, ou uma primeira publica\u00e7\u00e3o\u00a0<em>ad experimentum<\/em>, como foi chamada aquela que foi f\u00edsica dos quatro Evangelhos e os Salmos, para que o povo de Deus \u2014 ou mesmo as pessoas que n\u00e3o s\u00e3o crentes, mas que tenham interesse em conhecer e aprofundar \u2014 se possa pronunciar, naturalmente n\u00e3o sobre a tradu\u00e7\u00e3o em si, no sentido de se o grego ou o hebraico est\u00e3o bem traduzidos, porque a maioria das pessoas n\u00e3o tem essa possibilidade, mas sobretudo sobre a compreensibilidade. N\u00f3s j\u00e1 estamos t\u00e3o habituados ao texto, depois de o termos trabalhado tanto, j\u00e1 estamos habituados a uma certa linguagem que para n\u00f3s \u00e9 natural. Mas pode ser academicamente irrepreens\u00edvel e, pastoralmente, n\u00e3o funcionar porque n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel. Ent\u00e3o o que \u00e9 que pedimos \u00e0s pessoas? Que nos digam isso. Que nos digam \u201colhem, esta express\u00e3o em portugu\u00eas n\u00e3o funciona\u201d, \u201cn\u00e3o conseguimos perceber muito bem o que se pretende dizer com esta constru\u00e7\u00e3o\u201d. Tendo esta sensibilidade, a subcomiss\u00e3o respetiva procurar\u00e1 reformular, mantendo a literalidade e o respeito literal pelos originais, e integrar esta dimens\u00e3o, que \u00e9 t\u00e3o importante quanto a primeira. Para n\u00f3s, crist\u00e3os, a B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 apenas um livro ou um conjunto de livros. Na B\u00edblia, encontramos aquela que para n\u00f3s \u00e9 a palavra de Deus. Ou, dito de outra maneira, atrav\u00e9s daqueles escritos, Deus continua a falar. Se a tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o for compreens\u00edvel, como \u00e9 que Deus pode fazer-se ouvir atrav\u00e9s de um portugu\u00eas que n\u00e3o funciona? Portanto, esta \u00e9 uma quest\u00e3o important\u00edssima, a n\u00edvel n\u00e3o apenas acad\u00e9mico, mas a n\u00edvel da f\u00e9.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, \u00e9 fundamental que tenha utilidade e sirva para alguma coisa. Vi que criaram um email atrav\u00e9s do qual as pessoas podem enviar sugest\u00f5es. T\u00eam recebido muitas? Pode dar algum exemplo de alguma coisa que tenha sido mudada?<br \/>\n<\/strong>Recebemos v\u00e1rias, bastantes. Algumas muit\u00edssimas v\u00e1lidas, mas outras muito generalistas. \u201cGosto muito desta tradu\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201cesta tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o me agrada\u201d. Este tipo de coment\u00e1rios n\u00e3o ajuda. O que ajuda \u00e9 um outro tipo de coment\u00e1rios que recebemos. Alguns apontam gralhas que existem no texto. Outros pronunciam-se precisamente sobre esta quest\u00e3o fundamental que \u00e9 a compreensibilidade: \u201cAcademicamente est\u00e1 muito bem, mas o que \u00e9 que isto significa verdadeiramente em portugu\u00eas? N\u00e3o conseguimos entender.\u201d H\u00e1 muitas considera\u00e7\u00f5es deste g\u00e9nero, que s\u00e3o important\u00edssimas n\u00e3o s\u00f3 para envolver o povo de Deus em algo que a todos diz respeito, mas sobretudo para aprimorar, para melhorar a compreensibilidade do texto. Tendo feito esta primeira experi\u00eancia, que foi positiva, pens\u00e1mos que seria tamb\u00e9m muito importante e interessante alargar a todos os outros livros da B\u00edblia. Da\u00ed este projeto de publicarmos um livro por m\u00eas \u2014 porque publicar um grande conjunto de livros pode ser desmobilizador e desmotivador.<\/p>\n<p><strong>O primeiro volume j\u00e1 saiu h\u00e1 dois anos. A partir deste m\u00eas v\u00e3o publicar um livro da B\u00edblia por m\u00eas na internet, para ir recolhendo\u00a0<em>feedback<\/em>. Quando \u00e9 que vamos ter a nova B\u00edblia finalizada? H\u00e1 um prazo para ter o novo livro nas livrarias?<br \/>\n<\/strong>A partir do processo que lhe expliquei, \u00e9 muito temer\u00e1rio da minha parte estar a apontar j\u00e1 uma data que esteja no horizonte. Pensamos que no final do pr\u00f3ximo ano teremos o Novo Testamento pronto e que dentro de mais dois ou tr\u00eas anos teremos o Antigo Testamento tamb\u00e9m pronto. Apontava para mais uns quatro ou cinco anos at\u00e9 o processo estar conclu\u00eddo. Mas pronto, tudo isto depende de muita gente e de conjuga\u00e7\u00f5es de agendas, o que nem sempre \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>Porque ningu\u00e9m est\u00e1 nisto a tempo inteiro \u2014 ou est\u00e1?<br \/>\n<\/strong>Temos, por exemplo, o professor Jos\u00e9 Ramos, que \u00e9 o coordenador do Antigo Testamento. \u00c9 catedr\u00e1tico em\u00e9rito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, portanto, est\u00e1 a dedicar-se a tempo inteiro aos livros do Antigo Testamento. No Novo Testamento, o coordenador sou eu \u2014 j\u00e1 o era antes de ter substitu\u00eddo o D. Anacleto nesta presid\u00eancia da equipa coordenadora \u2014, mas os outros dois s\u00e3o dois leigos, s\u00e3o professores da Faculdade de Teologia do Porto. Um \u00e9 classicista, outro \u00e9 biblista, e al\u00e9m de serem professores e terem as atividades acad\u00e9micas inerentes, s\u00e3o pais de fam\u00edlia. S\u00e3o limita\u00e7\u00f5es a n\u00edvel temporal, mas que s\u00e3o uma riqueza, porque tamb\u00e9m aportam muitas sensibilidades.<\/p>\n<p><strong>Ver anexo<br \/>\n<\/strong><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CEP-1Cor.pdf\"><strong style=\"color: inherit; font-family: inherit; font-size: inherit;\">Primeira Ep\u00edstola de S\u00e3o Paulo aos Cor\u00edntios<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A B\u00edblia est\u00e1 a ser traduzida de novo para portugu\u00eas, agora com car\u00e1cter oficial. Em entrevista ao Observador, o padre respons\u00e1vel explica o desafio e alerta para o perigo das interpreta\u00e7\u00f5es literais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-9402","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-2021"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9402","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9402"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9402\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9404,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9402\/revisions\/9404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9402"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9402"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9402"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}