{"id":9431,"date":"2021-08-23T16:37:00","date_gmt":"2021-08-23T15:37:00","guid":{"rendered":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9431"},"modified":"2021-09-13T10:12:21","modified_gmt":"2021-09-13T09:12:21","slug":"entrevista-presidente-caritas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/?p=9431","title":{"rendered":"Entrevista Presidente da C\u00e1ritas"},"content":{"rendered":"<p><strong>A presidente da direc\u00e7\u00e3o da C\u00e1ritas Portuguesa avisa que a crise social ainda est\u00e1 para chegar e, assumindo o seu receio pela gest\u00e3o dos milh\u00f5es do Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia, avisa que distribuir dinheiro n\u00e3o resolve as situa\u00e7\u00f5es de pobreza.<\/strong><!--more--><\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1lia Faria<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eunice Louren\u00e7o (Renascen\u00e7a)<\/strong><\/p>\n<p>29 de julho de 2021,<\/p>\n<p>A crise social que ir\u00e1 emergir desta pandemia tem vindo a ser adiada por for\u00e7a das morat\u00f3rias e dos apoios ao\u00a0<em>layoff<\/em>\u00a0simplificado, avisa a presidente da direc\u00e7\u00e3o da C\u00e1ritas Portuguesa. E porque a pobreza n\u00e3o se resolve atirando-lhe com milh\u00f5es em cima, Rita Valadas defende a cria\u00e7\u00e3o de medidas ajustadas \u00e0s necessidades de cada fam\u00edlia e de cada territ\u00f3rio e que o Rendimento Social de Inser\u00e7\u00e3o deve sair da al\u00e7ada exclusiva da Seguran\u00e7a Social para passar a ser uma medida interministerial.<\/p>\n<p><strong>Como avalia o risco de agravamento da pobreza em Portugal ao longo de 2021 e nos tempos que se seguem?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma fonte mais de d\u00favidas do que certezas, at\u00e9 porque as estat\u00edsticas e os estudos contradizem-se entre si e eu tenho duas perspectivas: uma perspectiva que adv\u00e9m dos dados do Eurostat, que referem que houve uma relativa estabiliza\u00e7\u00e3o do risco de pobreza ao longo de 2020, e depois tenho a percep\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio que mostra um agravamento das situa\u00e7\u00f5es e que nos aparecem muitas fam\u00edlias que n\u00e3o recorriam \u00e0 C\u00e1ritas e que precisam agora da nossa ajuda. Algumas dessas fam\u00edlias elas pr\u00f3prias ajudavam outras, o que \u00e9 um bocadinho assustador, mas corresponde \u00e0 realidade em que fam\u00edlias de classe m\u00e9dia se v\u00eaem agora.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o tipo de apoio mais procurado?<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do apoio alimentar normal, que mantivemos exactamente igual, refor\u00e7\u00e1mos o sistema de vales de bens essenciais, que podem ser descontados tanto em bens alimentares como em outros bens essenciais, e houve aqui um grande incremento. E depois, nos apoios econ\u00f3micos, o maior pedido foi para apoios \u00e0 renda de casa. O p\u00e2nico de ficar sem casa \u00e9 muito real e muitas pessoas que viram o seu rendimento baixar deixaram de ter condi\u00e7\u00f5es para resolver esse problema.<\/p>\n<p><strong>A diminui\u00e7\u00e3o de rendimentos nestas fam\u00edlias de classe m\u00e9dia decorre de que factor?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o aquelas fam\u00edlias que viviam, por exemplo, de pequenos neg\u00f3cios, ou que estavam dependentes do turismo e restaura\u00e7\u00e3o, cujos neg\u00f3cios foram suspensos. Isto come\u00e7ou logo em Abril de 2020, nessa altura j\u00e1 est\u00e1vamos a ter pedidos, e continua at\u00e9 hoje, tanto que este programa, que supostamente ia ter tr\u00eas meses, ainda est\u00e1 activo e ainda estar\u00e1, porque creio que\u00a0a crise social ainda n\u00e3o chegou. Esta crise sanit\u00e1ria teve algumas almofadas fortes, mas que n\u00e3o resolvem os problemas.<\/p>\n<p><strong>As\u00a0<\/strong><strong>morat\u00f3rias<\/strong><strong>?<\/strong><\/p>\n<p>E o\u00a0<em>layoff<\/em>. H\u00e1 v\u00e1rias empresas que s\u00f3 v\u00e3o perceber se conseguem fazer a retoma no momento em que as coisas estiverem mais normalizadas. Nessa altura, v\u00e3o perceber se podem manter o n\u00famero de empregos ou se v\u00e3o ter que passar a recrutar menos pessoas.<\/p>\n<p><strong>Por isso diz que a crise ainda n\u00e3o chegou?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, porque o tempo da crise social \u00e9 sempre diferente do tempo da crise econ\u00f3mica. A situa\u00e7\u00e3o das pessoas s\u00f3 come\u00e7a a ser visivelmente cr\u00edtica quando as empresas que lhes pagam o sal\u00e1rio n\u00e3o conseguem manter o emprego. E s\u00f3 quando o subs\u00eddio de\u00a0desemprego\u00a0acaba, sem que a economia tenha feito uma retoma, \u00e9 que as pessoas caem em crise.<\/p>\n<p><strong>A taxa de risco de pobreza em Portugal estava nos 16,2% em 2019. Corremos o risco de voltar aos 19,5% de 2013 e 2014?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que isso aconte\u00e7a, mas n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de adivinhar o que a\u00ed vem. Se conseguirmos fazer uma retoma segura, se utilizarmos os recursos que a\u00ed v\u00eam com muito prop\u00f3sito e muita inten\u00e7\u00e3o, talvez consigamos que as pessoas n\u00e3o caiam no desemprego.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>N\u00e3o \u00e9 com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O que quer dizer com uma \u201cretoma segura\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Significa que vamos ter que avaliar as necessidades e as potencialidades dos territ\u00f3rios. N\u00f3s somos um pa\u00eds pobre, mas n\u00e3o temos uma pobreza igual em todo o lado. H\u00e1 pessoas em zonas rurais que t\u00eam pens\u00f5es de duzentos euros e que conseguem aforrar. Se vivermos em Lisboa, duzentos euros n\u00e3o chegam para ningu\u00e9m sobreviver. Portanto, n\u00e3o \u00e9 com medidas iguais para todos que se luta contra a pobreza (e, ainda por cima, dizemos lutar contra a pobreza em vez de erradicar a pobreza, isto \u00e9, partimos derrotados) e essa \u00e9 uma luta desigual, se n\u00e3o tivermos muita consci\u00eancia do que \u00e9 que se passa no terreno.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Defende, portanto, medidas diferentes?<\/strong><\/p>\n<p>Medidas \u00e0 medida do que as fam\u00edlias precisam, das suas compet\u00eancias, e do que h\u00e1 no territ\u00f3rio. Porque h\u00e1 fam\u00edlias que nem que tenham muito dinheiro v\u00e3o alguma vez conseguir sair da pobreza. Se tiverem problemas de viol\u00eancia,\u00a0sa\u00fade mental,\u00a0etc., por muito dinheiro que tenham, n\u00e3o v\u00e3o conseguir resolver o problema. Portanto, medidas \u00e0 medida das situa\u00e7\u00f5es e das oportunidades.<\/p>\n<p><strong>Mas como \u00e9 que se consegue\u00a0<\/strong><strong>quebrar esta amarra da pobreza<\/strong><strong>\u00a0que, em Portugal, \u00e9 algo que se herda?<\/strong><\/p>\n<p>Herda-se mesmo e esse \u00e9 o problema. At\u00e9 agora, apesar de termos hoje medidas de pol\u00edtica social bastante mais intencionais, a verdade \u00e9 que n\u00e3o conseguimos combater a pobreza. E a altera\u00e7\u00e3o da taxa \u00e9 uma coisa relativamente pouco sentida no terreno: ser 16% ou 19% n\u00e3o \u00e9 uma diferen\u00e7a que se note muito no terreno.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>N\u00e3o ser\u00e1 por causa da l\u00f3gica assistencialista na luta contra a pobreza que as pessoas, mesmo subindo acima da linha da pobreza, que estava em 2019 nos 540 euros mensais, est\u00e3o demasiadamente expostas ao risco de voltarem a cair abaixo dessa linha?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que isto n\u00e3o tem nada a ver com assistencialismo. O que as pessoas apontam como assistencialismo (ou caridade, ou o que for que as pessoas queiram utilizar como adjectivo) \u00e9 um recurso que s\u00f3 pode deixar de existir quando a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o for cr\u00edtica. H\u00e1 dois ritmos de olhar para o problema: um \u00e9 o ritmo de dar de comer a quem tem fome e o outro \u00e9 promover, inserir. O\u00a0Rendimento Social de Inser\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, como o pr\u00f3prio valor de refer\u00eancia que anda \u00e0 volta dos 200 euros diz, n\u00e3o permite que ningu\u00e9m mude de situa\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m sabemos que foi e tem sido muito importante para algumas situa\u00e7\u00f5es de pobreza extrema. Mas n\u00e3o tirou ningu\u00e9m da pobreza. Na g\u00e9nese, a ideia era que houvesse uma contratualiza\u00e7\u00e3o com as pessoas e essa contratualiza\u00e7\u00e3o passava por um investimento transversal a v\u00e1rias \u00e1reas governamentais que ia retirar a pessoa da pobreza. Essa interven\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel do projecto de vida e da contratualiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o \u00e9 talvez uma falha do sistema porque, como dizia uma t\u00e9cnica da C\u00e1ritas que trabalha com o\u00a0RSI, no \u00faltimo momento, quem est\u00e1 a trabalhar com o\u00a0RSI\u00a0\u00e9 uma t\u00e9cnica sem recursos e uma fam\u00edlia sem condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>No \u00faltimo momento, quem est\u00e1 a trabalhar com o RSI \u00e9 uma t\u00e9cnica sem recursos e uma fam\u00edlia sem condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que se garante que o\u00a0<\/strong><strong>RSI\u00a0n\u00e3o se limita a aliviar aqui e ali as situa\u00e7\u00f5es de pobreza<\/strong><strong>, mas que \u00e9 efectivamente capaz de retirar as pessoas dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Este mecanismo devia envolver todas as \u00e1reas governamentais e n\u00e3o s\u00f3 uma. Se fizermos depender isto s\u00f3 da Seguran\u00e7a Social, por muito competente e capaz que a rede da Seguran\u00e7a Social seja no pa\u00eds, n\u00e3o consegue chegar \u00e0s quest\u00f5es da habita\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o. E sem agir nessas \u00e1reas todas n\u00e3o conseguimos tirar [as pessoas da pobreza] e vamos acabar por manter as fam\u00edlias no mesmo n\u00edvel do problema.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O\u00a0RSI\u00a0devia ent\u00e3o sair da al\u00e7ada exclusiva da Seguran\u00e7a Social e passar a ser interministerial?<\/strong><\/p>\n<p>Devia ser interministerial, sim. Seja qual for\u00a0o modelo que queiram\u00a0adoptar, o investimento tem de ser transversal. Na \u00e1rea da interven\u00e7\u00e3o social, o trabalho em rede \u00e9 uma necessidade absoluta. E a rede n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 por um, nem sequer \u00e9 manejada s\u00f3 por um. E n\u00f3s temos dificuldade em fazer rede com prop\u00f3sitos que \u00e0s vezes podem ser plurianuais e que t\u00eam uma dimens\u00e3o tempo bastante mais r\u00e1pida do que os ciclos pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O\u00a0RSI\u00a0j\u00e1 obriga a que as crian\u00e7as frequentem a escola e \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o dos benefici\u00e1rios nos centros de emprego. H\u00e1 outras condi\u00e7\u00f5es que deviam ser colocadas para garantir a efic\u00e1cia desta ajuda?<\/strong><\/p>\n<p>A obrigatoriedade de as crian\u00e7as frequentarem a escola foi um dos sucessos do\u00a0RSI. \u00c9 obrigat\u00f3rio estar registado no centro de emprego, no centro de sa\u00fade e frequentar o ensino. E isso fez diferen\u00e7a, mas estamos a falar da obrigatoriedade de cumprimento por parte de quem aufere do\u00a0RSI. O resto,\u00a0s\u00e3o caixas dos diversos servi\u00e7os, que garantem o apoio mas n\u00e3o conversam entre si. Na fase piloto do ent\u00e3o Rendimento M\u00ednimo Garantido (RMG), houve um grande investimento nas equipas, nas redes, no investimento com prop\u00f3sito de olhar para cada caso e ver qual era o modelo, mas, por alguma raz\u00e3o, isso foi-se perdendo, at\u00e9 se deixar ficar de facto a interven\u00e7\u00e3o reduzida a um\u00a0t\u00e9cnico\/uma\u00a0fam\u00edlia ou um\u00a0t\u00e9cnico\/um\u00a0utente. E isso n\u00e3o vai fazer reverter a situa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de podermos estar a sujeitar uma fam\u00edlia a 50 atendimentos em s\u00edtios diferentes e eventualmente ao abuso na utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Sendo verdade que o\u00a0RSI\u00a0s\u00f3 chegou a 5% da popula\u00e7\u00e3o pobre, dever-se-ia alargar a base de elegibilidade do\u00a0RSI, fazendo aproximar os seus valores da linha da pobreza, como vem defendendo Carlos Farinha Rodrigues?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que isto n\u00e3o chega, porque isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de falta de dinheiro. Distribuir dinheiro n\u00e3o resolve as situa\u00e7\u00f5es de pobreza, porque muitas s\u00e3o bastante mais subliminares do que s\u00f3 o dinheiro e o n\u00e3o poder comprar. Temos problemas de sa\u00fade mental graves &#8211;\u00a0se h\u00e1 \u00e1rea que tem de ser chamada a este problema \u00e9 a sa\u00fade mental\u00a0na comunidade, na proximidade, n\u00e3o \u00e9 a sa\u00fade mental de gabinete e de secret\u00e1ria. Depois temos depend\u00eancias, problemas legais, problemas de v\u00edtimas de viol\u00eancia v\u00e1ria, nomeadamente a dom\u00e9stica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Em que \u00e9 que os milh\u00f5es do\u00a0<\/strong><strong>Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia<\/strong><strong>\u00a0(PRR) devem ser usados para que sirvam para alguma coisa?<\/strong><\/p>\n<p>Confesso que ainda n\u00e3o consegui ultrapassar o medo que tenho do\u00a0PRR. Relembro o\u00a0EQUAL\u00a0[programa comunit\u00e1rio enquadrado na estrat\u00e9gia europeia de emprego visando as pessoas mais vulner\u00e1veis] e a quantidade de investimento na qualifica\u00e7\u00e3o dos profissionais que se fez: eu hoje, se quiser procurar uma das ferramentas do\u00a0EQUAL, nem sequer a encontro na Internet, porque as plataformas foram abaixo,\u00a0etc.. Portanto, n\u00f3s temos uma habilidade especial para o desperd\u00edcio. O que \u00e9 absolutamente contra a perspectiva que se devia ter quando temos tanta pobreza. Vivemos na abund\u00e2ncia, temos para tudo, mas depois criamos desperd\u00edcio sem resolver os problemas. Portanto, somos pobres a viver como ricos e temos pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas que, se assum\u00edssemos que vivemos numa sociedade escassa, far\u00edamos. Quem percebe a escassez sabe que tem que poupar aqui, guardar ali, n\u00e3o pode deitar fora. E n\u00f3s temos esta contradi\u00e7\u00e3o em tudo. E por isso este meu medo do\u00a0PRR. Acho que devemos todos ter muita consci\u00eancia da forma como gastamos aquele dinheiro, como se fosse nosso, e de avaliar o impacto de cada medida passo a passo, para ter a certeza que \u00e9 v\u00e1lida. E\u00a0se n\u00e3o for, h\u00e1 que, com toda a honestidade e coragem, dizer que n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o tenho a certeza se conseguimos suportar um aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Portugal soma quase\u00a0<\/strong><strong>10% de trabalhadores pobres<\/strong><strong>. Como \u00e9 que o Estado devia responder a estas inefici\u00eancias do mercado de trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Se isto acontece, alguma coisa est\u00e1 mal. Acho que h\u00e1 duas \u00e1reas em que dev\u00edamos investir. Uma \u00e9 saber como \u00e9 que se garante um rendimento est\u00e1vel e adequado e um trabalho digno. Como \u00e9 que dignificamos o trabalho de tal forma que quem trabalha n\u00e3o seja pobre? Pode ser por uma raz\u00e3o de rendimento desadequado, mas porqu\u00ea? Pode ser porque \u00e9 uma fam\u00edlia extensa, e uma das coisas que um estudo publicado este ano mostra \u00e9 que, quanto mais crian\u00e7as existem a cargo, maior \u00e9 a probabilidade de as fam\u00edlias ca\u00edrem na pobreza.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Mas e quais ser\u00e3o as respostas para que deixemos de ter uma percentagem t\u00e3o significativa de\u00a0<\/strong><strong>trabalhadores pobres<\/strong><strong>\u00a0e para responder ao facto de a taxa de risco de pobreza nas fam\u00edlias com tr\u00eas ou mais crian\u00e7as a cargo estar quase nos 40%?<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, juntando a escola, juntando a sa\u00fade, a Seguran\u00e7a Social e juntando o Instituto de Emprego.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional n\u00e3o seria um primeiro passo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se teremos capacidade para isso. Aumentar o n\u00edvel do\u00a0sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional\u00a0seria importante, assim como as pens\u00f5es muito baixas, mas n\u00f3s temos que garantir a sustentabilidade das medidas. E n\u00e3o tenho a certeza se conseguimos suportar um aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Em muitas empresas, associa\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es que sobrevivem de pessoas que ganham o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional, de cada vez que este aumenta, o sufoco de pagar sal\u00e1rios \u00e9 brutal.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O sector social \u00e9 um dos sectores em que h\u00e1 mais trabalhadores com o sal\u00e1rio m\u00ednimo. N\u00e3o acha poss\u00edvel mudar essa realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o tem que ser avaliada do ponto de vista da sustentabilidade. Claro que gostaria que o sal\u00e1rio m\u00ednimo fosse mais alto, mas pode estar a acontecer que uma pessoa est\u00e1 a receber o sal\u00e1rio m\u00ednimo e n\u00e3o consegue suportar a sua situa\u00e7\u00e3o familiar porque h\u00e1 outra pessoa desempregada ou porque tem muitas crian\u00e7as que precisam de determinado tipo de apoios que a fam\u00edlia n\u00e3o consegue garantir, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o levam os meninos a fazer avalia\u00e7\u00e3o precoce e estes chegam depois \u00e0 escola com problemas de audi\u00e7\u00e3o ou de vis\u00e3o. Seja qual for a pergunta, a matriz primeira \u00e9: em termos de resposta, tem de estar toda a gente junta, e temos que ir at\u00e9 ao limite das nossas possibilidades para garantir um sal\u00e1rio digno e um trabalho digno para as pessoas todas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O abono de fam\u00edlia n\u00e3o poderia ser um recurso para obviar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e das fam\u00edlias com crian\u00e7as a cargo em situa\u00e7\u00e3o de pobreza?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, se essa for a solu\u00e7\u00e3o para que as fam\u00edlias n\u00e3o ca\u00edam nesse n\u00edvel, sobretudo quanto t\u00eam um rendimento que poderia ser suficiente se n\u00e3o fossem as crian\u00e7as. [O que temos de analisar \u00e9] o que \u00e9 que leva \u00e0 pobreza de uma determinada fam\u00edlia. \u00c9 ter tr\u00eas crian\u00e7as e dois sal\u00e1rios baixos? \u00c9 ter tr\u00eas crian\u00e7as e s\u00f3 um sal\u00e1rio? Pode haver v\u00e1rias componentes que concorrem para resolver esta situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem que ser por matriz \u00fanica. Eu sei que isto \u00e9 dif\u00edcil, porque \u00e9 muito mais f\u00e1cil criar uma medida que seja universal e igual para todos, mas n\u00e3o h\u00e1 uma fam\u00edlia igual \u00e0 outra nem uma situa\u00e7\u00e3o de pobreza igual \u00e0 outra.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Como \u00e9 que se posiciona perante a discuss\u00e3o sobre a cria\u00e7\u00e3o de uma retribui\u00e7\u00e3o m\u00ednima garantida ou rendimento b\u00e1sico incondicional?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma coisa que merece a minha maior curiosidade. Tenho muita dificuldade em ver o impacto que isso pode ter. H\u00e1 experi\u00eancias destas com imenso sucesso e outras que tiveram que ser abandonadas, mas isso tamb\u00e9m aconteceu com o Rendimento M\u00ednimo Garantido, com pa\u00edses que come\u00e7aram com isto antes de n\u00f3s e que terminaram quando n\u00f3s est\u00e1vamos a come\u00e7ar. Mas, aparentemente, seria \u00f3ptimo, porque nos resolvia uma parte do problema. Se todas as pessoas tivessem um rendimento de refer\u00eancia e esse rendimento permitisse que elas n\u00e3o estivessem numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza, seria \u00f3ptimo, mas tudo depende das condi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o atribu\u00eddas, porque temo que possa haver muitas pessoas que nunca v\u00e3o procurar um trabalho.<\/p>\n<p>Quando veio o\u00a0RMG, tivemos uma crise nos primeiros meses com o recrutamento de ajudantes familiares. Porqu\u00ea? Porque as pessoas tinham crian\u00e7as e, com o valor do\u00a0RMG, preferiram ficar em casa a tomar conta das crian\u00e7as. N\u00e3o pagando as creches e recebendo aquilo, era mais\u00a0ben\u00e9fico ficarem\u00a0em casa e tomar conta das crian\u00e7as. Isso depois alterou-se um bocadinho com a obrigatoriedade de as crian\u00e7as irem para a escola &#8211; estas coisas tamb\u00e9m se v\u00e3o corrigindo -, mas acho que h\u00e1 cautelas que devemos ter ao pensar uma medida destas. Ser\u00e1 interessante ir trabalhar para as obras ou ser um ajudante de geriatria se houver um rendimento desse tipo? Ou n\u00f3s vamos assumir sal\u00e1rios mais baixos que somar\u00e3o a essa presta\u00e7\u00e3o? Tudo depende das condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Entrevista-Presidente-CARITAS.pdf\">Entrevista Presidente da C\u00e1ritas (formato PDF)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presidente da direc\u00e7\u00e3o da C\u00e1ritas Portuguesa avisa que a crise social ainda est\u00e1 para chegar e, assumindo o seu receio pela gest\u00e3o dos milh\u00f5es do Plano de Recupera\u00e7\u00e3o e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":9432,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rs_blank_template":"","rs_page_bg_color":"","slide_template_v7":"","footnotes":""},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-9431","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo-2021"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=9431"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9431\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9452,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/9431\/revisions\/9452"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/9432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=9431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=9431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paroquiavilarandorinho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=9431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}