Sessão nº 14
A simbologia e os significados na Bíblia (8)

  1. A “multidão”, a “casa” e a “mesa”:

Da ausência de liberdade à perfeita comunhão.

          Um bom dicionário define multidão como um grande número de pessoas. A Bíblia relata que Jesus sempre era seguido por uma grande multidão. Jesus tinha de procurar, e fê-lo por diversas vezes, um lugar reservado para o descanso (seu e dos seus).
          Mas, todas as pessoas para alcançarem Jesus tiveram de vencer essas multidões. Perseveraram, pois sabiam que Jesus podia mudar as suas vidas. Na Bíblia multidão significa ausência de liberdade. Impedimento para chegar até Ele. És mais um. Já reparaste que no meio da multidão pouco importa se és alto ou baixo, se gritas ou ficas calado. Na multidão és “tragado/a” por ela. Precisas de te libertar. Ficam, abaixo, três exemplos. E não se leia mal qualquer uma das passagens. Por exemplo, Zaqueu não via Jesus só por ser baixo. Se fosse alto, o mesmo aconteceria. Precisou de se libertar da multidão, correr à frente e então sim, depois, subir a um sicómoro (figueira pequena) pois era de baixa estatura.
Fiquemos atentos: na Bíblia, sempre que se fala em multidão, alguém vai destacar-se. E é preciso perceber porquê.

Os 3 exemplos:

          1) Os cegos de Jericó, Betsaida e outros, precisaram de vencer a multidão que queria calá-los (Mc 8,22-26; Mc 10,46-48; Mt 9,27-31; 20,29-34; Lc 18,35-43; Jo 9,1-41). Vencer a multidão que te impede de clamar a Deus é saltar para a liberdade do amor. Muitas vezes e de muitas formas na nossa vida, querem-nos calar. Precisamos de gritar mais alto;

          2) A mulher do fluxo de sangue precisou de vencer a multidão para receber a cura: Lc 8, 43-48;

          3) Zaqueu precisou de vencer a multidão para ver Jesus: Lc 19, 1-10. Não porque fosse de baixa estatura. Para vencer a multidão (falta de liberdade) é preciso lutar pelo que te impede de ter uma vida de intimidade com Deus.

          Na Bíblia, o contrário de MULTIDÃO (ausência de liberdade) é CASA (lugar de intimidade).

          CASA [בַּיִת] bayit: “casa ou construção, lar, casa (no sentido de família e domésticos), terra”.
          Em muitas passagens (sobretudo quando a palavra é unida com a palavra Deus) bayit representa lugar de adoração ou “santuário”: “As primícias, os primeiros frutos da tua terra, trarás à casa do SENHOR, teu Deus” Êx 23,19). Em outro lugar, o substantivo significa o Templo de Deus em Jerusalém: “Edificou ao redor da parede da casa câmaras, ao redor das paredes da casa, tanto do templo como do oráculo” (1 Rs 6.5). Às vezes, a palavra tem este significado, embora não tenha definição adicional cf. Ez 41,7). Em algumas passagens bayit significa “território” ou “país”: “Põe a trombeta à tua boca. Ele vem como águia contra a casa do SENHOR” (Os 8.1; 9.15; Jr 12.7; Zc 9.8).
          Também no NT casa quer significar lugar de intimidade. A casa significa lugar de estar, abrigo e repouso. Jesus quer habitar no nosso coração, quer fazer da nossa vida a sua casa. A Bíblia diz-nos que “Deus faz morada no nosso coração” e que somos “Templo do Espírito”. O templo em Jerusalém era conhecido como a “casa de Deus”. A igreja – como ponto de comunhão – também era chamada de ‘casa de oração’ ou ‘casa do Senhor’. Na casa do Senhor entramos em comunhão e nos sentimos em casa, assim como Deus habita no nosso coração e nele faz morada.

Jo 2, 13-17
13Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. 14Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas sentados. 15Então, depois de fazer um chicote de cordas, expulsou todos do templo, e também as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; 16e disse aos vendedores das pombas: «Tirai isto daqui! Não façais da casa do meu Pai casa de comércio!». 17Recordaram-se os seus discípulos do que está escrito: O zelo pela tua casa devorar-me-á.

…..  e, dentro desta (casa), o lugar ideal para fazer comunhão é, na Bíblia, a MESA. Também no louvor que é a Eucaristia (grego eukharistía, agradecimento, gratidão, ação de graças)

          Na Liturgia Cristã, todos os gestos devem ter um significado. Deve cuidar-se a beleza e a simplicidade de toda a gestualidade. A beleza e a simplicidade apontam para o Significado do que se faz. É importante a clareza dos sinais que se usam na celebração e a claridade dos gestos que se repetem.
          Dentro desta clareza dos sinais e claridade dos gestos, devemos manter unidas de forma visível “as duas Mesas” do Louvor Cristão: a Mesa-Ambão de Palavra/Verbo e a Mesa-Altar de Pão/Vinho.

  1. O simbolismo dos números 70 e 72 na Bíblia.

          O número 72 só aparece uma vez na Bíblia e no NT. Mas, como cristãos católicos, é importante perceber porque aparece e a que se refere.  De facto, temos de entender a Bíblia como uma unidade entre o Antigo e o Novo Testamentos. A nova aliança (ou Novo Testamento) é a promessa que Deus faz com a humanidade de que perdoará o pecado e restaurará a comunhão com aqueles cujos corações estão voltados para Ele. Jesus Cristo é o mediador da nova aliança, e a Sua morte na cruz é a base da promessa (Lucas 22,20). A nova aliança foi predita enquanto a antiga aliança ainda estava em vigor – os profetas Moisés, Jeremias e Ezequiel aludem à nova aliança. Somos, pois, resultado duma cultura judaico-cristã e o Deus dos Judeus é também o nosso Deus. Quando Jesus se refere ao envio de setenta e dois discípulos, dois a dois, a que se estará a referir?
          Comecemos por Moisés no Livro dos Números. Moisés estava cansado pela sobrecarga vivida e sofrida na condução do povo saído do Egito e a caminho de Canaã. Pede a Deus ajuda.

Livro dos números 11,16-17
Os setenta anciãos (ainda em Ex 18,17-26)
16O SENHOR disse a Moisés: «Reúne para mim setenta homens dos anciãos de Israel, que saibas serem anciãos do povo e terem autoridade sobre ele. Levá-los-ás à tenda da reunião e aí os farás esperar contigo. 17Então descerei ali, falarei contigo e tomarei do Espírito que está sobre ti para o pôr sobre eles; partilharão contigo o peso do povo e não terás de o suportar tu sozinho …

Reunidos os 70 anciãos e já na tenda, Deus derrama sobre todos eles o Seu Espírito.
Como aparece o número 72?

Livro dos Números 11, 27-29

27Um rapaz, porém, correu a anunciar isso a Moisés: «Eldad e Medad estão a profetizar no acampamento. 28Então Josué, filho de Nun, servo de Moisés desde a juventude, ripostou: «Moisés, meu senhor, não lho consintas.» 29Respondeu-lhe Moisés: «Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do SENHOR profetizasse, que o SENHOR enviasse o seu Espírito sobre ele!

A resposta de Moisés a Josué ….  eleva os eleitos para a missão de 70 para 72. É daqui que Jesus parte para a referência ao seu discipulado. E quando Jesus fala em 72 discípulos todos entendem ao que se refere, estão sintonizados com o que aconteceu no deserto e na ajuda à missão querida por Deus através de Moisés.

Lucas 10, 1-11
Missão dos setenta e dois discípulos (os outros sinópticos Mt 9,37-38; 10,5-16; Mc 6,7-11)
1Depois disto, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. 2Disse-lhes: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe. 3Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos. 4Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho. 5Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6E, se lá houver um homem de paz, sobre ele repousará a vossa paz; se não, voltará para vós. 7Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que lá houver, pois o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. 8Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei do que vos for servido, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: ‘O Reino de Deus já está próximo de vós.’ 10Mas, em qualquer cidade em que entrardes e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: 11‘Até o pó da vossa cidade, que se pegou aos nossos pés, sacudimos, para vo-lo deixar. No entanto, ficai sabendo que o Reino de Deus já chegou.’»

  1. O significado de “figueira” na Bíblia.

A FIGUEIRA, SÍMBOLO DA ESPERANÇA MESSIÂNICA

Recordando o episódio de Jesus com Zaqueu, o cobrador de impostos ao serviço de Roma, sabemos que trepou para cima de um sicómoro (figueira pequena) e daí foi convidado por Jesus para jantar em sua casa. A figueira é um símbolo bíblico muito forte para o povo de Israel. Representa a esperança messiânica. Jesus, que percorria as estradas de Jerusalém a caminho do Templo, ficava muito “zangado” quando via figueiras com muitas e grandes folhas e nenhum fruto. Recordemos que Jesus era judeu da Nazaré. A casta sacerdotal, os doutores da lei e os levitas era suposto serem os grandes dinamizadores da esperança messiânica. Simbolicamente eram “figueiras só com folhas”. Só folhas, só folhas e nenhum fruto. É daí que se conheça a “decisão” de Jesus que, vendo as figueiras sem frutos, as seca e manda para o lixo.

Encontramos outra referência à figueira em João 1, 46-50.

Jo 1, 46-50
Disse-lhe Filipe: «Vem e vê!». 47Jesus viu Natanael, que vinha ter com Ele, e disse acerca dele: «Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade». 48Disse-lhe Natanael: «De onde me conheces?». Respondeu Jesus e disse-lhe: «Antes de Filipe te ter chamado, quando estavas debaixo da figueira, Eu vi-te». 49Respondeu-lhe Natanael: «Rabi, Tu és o Filho de Deus, Tu és o rei de Israel!»[33]50Respondeu Jesus e disse-lhe: «Porque te disse que te vi sob a figueira acreditas? Verás coisas maiores que estas».

Jesus passa por um homem, Natanael e convoca-o. Segue-me, diz-lhe. Ele foi. Jesus diz: «Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade». Surpreso, Natanael diz a Jesus: De onde me conheces? Responde Jesus: “Eu vi-te, estavas debaixo da figueira”, isto é esperavas o Messias.

Ainda outra referência à figueira, agora figueira estéril.

Lc 13, 6-9
6Disse, então, esta parábola: «Alguém tinha uma figueira plantada na sua vinha e nela foi procurar fruto, mas não encontrou. 7Disse ao vinhateiro: “Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não encontro. Portanto corta-a; para que há de ocupar inutilmente a terra?”. 8Ele, porém, respondendo disse-lhe: “Senhor, deixa-a ainda este ano. Entretanto, cavarei à volta dela e deitarei estrume. 9Talvez venha a dar fruto no futuro; senão, cortá-la-ás”».

Na cultura hebraica, os figos dos primeiros 3 anos não eram colhidos, os do quarto ano eram oferecidos aos Senhor como primícias. Portanto, o proprietário da figueira da parábola referida por Lucas, analisava a situação da figueira no 7º ano de produção. Havia passado mais 3 anos que a figueira – símbolo da esperança messiânica – só produzia folhas  (os 3 anos da missão de Jesus pelas terras da Palestina.) Mas o vinhateiro pede mais um ano. E a paciência do “Alguém-Deus”, concede ao vinhateiro (Jesus) esse tempo. O vinhateiro promete adubar a terra à volta da figueira – todo o seu caminho para morrer e ressuscitar. Bela imagem.

  1. O significado de “vinha” na Bíblia.

A VINHA, SÍMBOLO DO REINO DE DEUS

Também neste assunto, Jesus seguiu a linguagem dos profetas, utilizando o símbolo da videira e da vinha para falar da atitude do Israel de então, relativamente ao seu projeto evangélico: Israel é uma vinha, cujos vinhateiros – os chefes do povo – não entregaram os frutos; é, portanto, uma vinha estéril, que não deu frutos. É o que nos diz a parábola dos vinhateiros homicidas:

«Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam. Os vinhateiros, porém, apoderaram-se dos servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram o terceiro.

Tornou a mandar outros servos, mais numerosos do que os primeiros, e trataram-nos da mesma forma. Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: “Hão de respeitar o meu filho.” Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: “Este é o herdeiro. Matemo-lo e ficaremos com a sua herança.” E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Ora bem, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros? Eles responderam-lhe: “Dará morte afrontosa aos malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos na altura devida.” […]. Por isso vos digo: O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será confiado a um povo que produzirá os seus frutos» 

(Mt 21,33-43) (ver também 20,1-16; Mc 12,1-12; Lc 20,9-19).

Aqui há quatro tipos de pessoas: o Pai, os servos (profetas), o Filho e os vinhateiros. A parábola exprime a relação entre eles, mas pretende falar sobretudo da responsabilidade dos vinhateiros.

Na boca de Jesus, esta parábola, cheia de precisões alegóricas, fala da destruição da vinha; na intenção de Mateus, também anda ligada à ideia do novo povo, novo Israel, e ao facto do Filho que deve morrer e ressuscitar: «O Reino de Deus ser-vos-á tirado e será confiado a um povo que produzirá os seus frutos.»

Na introdução, Jesus cita parte da parábola de Isaías (Is 5,2 grego), salientando o amor do proprietário pela sua vinha. Mateus sublinha que é necessário entregar os frutos da vinha, e não apenas uma parte dos mesmos; e assim destaca, mais que nos profetas, as exigências do novo Reino. Como a vinha designa o Reino de Deus, os vinhateiros representam o conjunto do povo de Israel, sobretudo os seus responsáveis.

Outra parábola sobre a vinha, para explicar o Reino de Deus, é a dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16). Dirige-se contra os fariseus e pretende mostrar que a bondade de Deus é a sua justiça, ultrapassando os critérios humanos da retribuição pelo trabalho na vinha.

In Capuchinhos

Jesus a cepa e os discípulos os ramos…. (ver Evangelho de João)

Jo 15, 1-8
1«Eu sou a verdadeira videira, e o meu Pai é o agricultor 2Todo o ramo que em mim não dá fruto Ele corta-o, e limpa todo o que dá fruto para que dê mais fruto. 3Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos disse. 4Permanecei em mim e Eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira, vós os ramos. O que permanece em mim e Eu nele, este dá muito fruto, porque sem mim nada podeis fazer. 6Se alguém não permanecer em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca; então recolhem-nos, lançam-nos ao fogo e são queimados. 7Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e acontecer-vos-á. 8Nisto é o meu Pai glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

A vinha e Israel – Salmo 80

            A História de Israel é mesmo apresentada através das vicissitudes a que uma vinha está sujeita. Destacamos os termos próprios da vinha:

«Arrancaste uma videira do Egito,
expulsaste outros povos para a plantar.
Preparaste-lhe o terreno; ela foi deitando raízes
e acabou por encher toda a terra.
As montanhas cobriram-se com a sua sombra,
e os seus ramos ultrapassaram os altos cedros.
As suas ramagens estenderam-se até ao mar
e os seus rebentos, até ao rio.
Porque derrubaste os seus muros,
deixando que a vindimem quantos passam no caminho?
É devastada pelo javali da selva,
serve de pasto aos animais dos campos.

Ó Deus do universo, volta, por favor,
olha lá do céu e vê:
cuida desta vinha!
Trata da cepa que a tua mão direita plantou,
dos rebentos que fizeste crescer para nós.
Aqueles que a queimaram e devastaram
pereçam diante do furor do teu rosto.
Mas estende a tua mão sobre o teu escolhido,
sobre o homem que para ti fortaleceste.» (Sl 80,9-18)