Sessão nº 15
Jesus de Nazaré, os nazarenos e os primeiros cristãos

          O Novo Testamento é o conjunto dos testemunhos de Fé, a Nova Aliança nascida de Jesus e gerada no seio da Antiga Aliança. Jesus, o Cristo, nasceu em Belém (talvez Nazaré) no ano 6/5 a.C. e viria a ser morto pelos homens (morte política e religiosa) em Jerusalém depois de julgado(?) no Sinédrio, senado maior do poder religioso judaico e às mãos do poder político romano liderado em Jerusalém por Pôncio Pilatos no ano 30/31 d. C.

          Este conjunto de testemunhos de Fé conhecido por Novo Testamento (de ora em diante NT), percorre um tempo cronológico que vai do ano 40/45 d. C. até 95/105 d.C. O mais antigo testemunho foi escrito cerca de 11 a 12 anos depois da morte de Jesus – a 1ª Carta de Paulo aos Tessalonicenses – aos seguidores jesuânicos /nazarenos que viviam em Tessalónica, povoado grego.  E o último dos escritos, testemunhos da Fé no Messias, o Filho de Deus feito homem e que habitou entre nós fazendo o bem, aconteceu por volta do ano 102/103 d.C.  – o livro do Apocalipse. Portanto, este conjunto de testemunhos da Fé no Cristo, de que somos herdeiros, cobre um tempo histórico de cerca de 60 anos.

          O NT foi todo escrito em grego, quando a quase totalidade do AT (Antigo Testamento) foi escrito em hebraico. O grego do NT não foi o grego literário/clássico, mas o grego da koiné, grego comum e mais simples. Fica assim esclarecido que a língua original do NT é o grego e deveria ser neste original que apoiaríamos sempre as traduções seguintes. E isto é importante referir, pois muitas traduções não revelam o verdadeiro conteúdo do testemunho do movimento jesuânico/ dos nazarenos mais tarde conhecidos por cristãos.

          Portanto, no princípio era o movimento dos de Jesus, dos nazarenos, antes de qualquer organização, Igreja ou daquilo que hoje se chama Cristianismo. Grande parte dos aderentes ao movimento do nazareno eram judeus não alinhados com os ditames da Lei exigida aos judeus do Templo. Eram conhecidos pelos judeus da diáspora já muito “banhados” por culturas e linguagens diferentes. O caso mais relevante é o de Estevão – de cultura e religião judaica, mas nascido na emigração em convivência com culturas novas e pagãs que os judeus ortodoxos detestavam. É fácil perceber o que estava destinado a Estêvão. Foi um protomártir – do grego prõtos, primeiro ou anterior e mártir (em gregoμάρτυςmártys, “testemunha“). E foi a partir daqui que cresceu, ainda mais, o dinamismo do movimento dos de Jesus. Novas comunidades eram criadas centradas no slogan “o sangue dos mártires é semente de cristãos”.

          Estas comunidades nascentes eram acompanhadas presencialmente pelos Apóstolos da primeira hora e discípulos entretanto “alinhados” e “mergulhados” na experiência viva da Nova Aliança. Um dos mais importantes foi Paulo, não uma testemunha direta de vivência com Jesus, mas a quem o Espírito Santo iluminou para um percurso enorme de Fé em Jesus.

          É neste contexto de testemunho apostólico que são escritas as primeiras cartas do NT, conhecidas por cartas apostólicas – aos Tessalonicenses, Coríntios, Efésios, Filipenses, etc., ou outras designadas por apostólicas/pastorais já que os seus destinatários não eram comunidades, mas os pastores/líderes dessas comunidades. Estamos a referir-nos a cartas a Timóteo, Tito, etc. Procurava-se, assim, vencer distâncias e esclarecer os agora chegados a um percurso de Fé centrado na mensagem do Jesus de Nazaré.

Com o passar dos tempos – por volta dos anos 60 – e em resultado de:

  1. Crescimento do número de comunidades;
  2. Envelhecimento e morte dos Apóstolos e primeiros discípulos;
  3. Forma e contexto do anúncio da Fé – tenha-se em conta que são muitos os contactos com culturas diferentes, linguagens diferentes, filosofias diferentes, … – começaram a surgir abordagens diferentes daquele Jesus – humano e divino – que passou pela Palestina da Galileia à Judeia. Estávamos perante narrativas que começavam a apresentar um Jesus que nada tinha a ver com o verdadeiro Jesus. A corrente do gnosticismo fazia escola e perturbava os testemunhos de Fé dos nazarenos. (os membros da Igreja primitiva foram chamados “cristãos” pela primeira vez, de acordo com o livro de Atos (cf. At 11, 26), em Antioquia).

Era necessário recuperar a memória do Jesus de Nazaré.

Acontece por esta altura a escritura da Boa Notícia – Evangelho (do Grego (evangelion), significa “Boa Notícia”, “Boa Nova”, “Boa Mensagem”). São escrituras das narrativas catequéticas que procuram dar resposta a questões do tipo:
– Quem é este Jesus de Nazaré que, dizem, Deus ressuscitou da morte?
– Quem é este Jesus de Nazaré que, dizem, Deus reconheceu como seu Filho?
– Quem é este Jesus de Nazaré que, dizem, se refere a Deus como o Pai, o “Abba”.

São 4, melhor 5, os Evangelhos (Boa Notícia) que são Escritura para dar resposta a estas perguntas.

  1. 4 Evangelhos (Boa Notícia) da vida e projeto de Jesus: Marcos ( o primeiro e mais curto – anos 60), Mateus e Lucas (anos 70/80), formando os sinóticos e João (anos 90/95), com uma nova narrativa testemunhal, um novo estilo, uma nova catequese, um novo perfume teológico, muito diferente dos anteriores mas com o objetivo de dar resposta às mesmas perguntas;
  2. Um 5º Evangelho (Boa Notícia) Atos dos Apóstolos, que são testemunho da vivência da Fé pós-morte e ressurreição de Jesus. Também é conhecido por Evangelho do Espírito Santo, pois a “enorme” vida e testemunho dos apóstolos é dom do Espírito que o Deus Pai lhes enviou.

          Quando chegamos à década de 80 a Igreja já começa a estar estruturada, já se fala de cristianismo como percurso de vida na Fé de Jesus de Nazaré, há alguma liderança e vinculação. Começa a sentir-se a necessidade de escrituras para todos aqueles que começam a experimentar a Fé no Jesus, mas carecem de catequese e informação. Surge um outro grupo de escritos/cartas designadas por Cartas Católicas (universais). Distinguem-se das Cartas Apostólicas pois já não se dirigem a comunidades ou pastores especificas(os) mas a todos – à Fé universal.
          Também é por esta altura que começam a surgir alguns problemas nas comunidades cristãs: o problema da Segunda Vinda. Os apóstolos e os discípulos aguardavam uma nova vinda prometida de Jesus para com Ele definitivamente serem libertos da morte e, ressuscitados, serem levados para o Pai. Paulo estava disso convencido e expressou-o desde a Carta aos Tessalonicenses. Não havia (m) entendido o tempo e o modo da vida para além da morte. E neste contexto, era importante, não deixar esmorecer a esperança do povo. Foram escritas as primeiras cartas católicas: 1ª e 2ª Carta de Pedro. O Senhor vem. Está a demorar, sim, mas certamente para dar tempo a todos para a conversão. A originalidade de ser cristão começa a exigir uma nova forma de vivência da Fé. É necessária uma diferenciação entre os cristãos e os outros. Há que criar um novo “modus vivendi”. São necessárias uma nova moral e uma nova ética. É isso que encontramos nas Cartas católicas de Tiago e Judas. Fé e obras; Fé e vivência na sociedade.
          Mas também é importante um tipo de cartas católicas dirigidas ao “centro do coração”. É isso que encontramos na 1ª, 2ª e 3ª Carta de João. Especialmente na 1ª Carta de João, uma verdadeira pérola do NT.

          E o NT conclui-se, por volta dos anos 95/105 com o Livro do Apocalipse. A palavra apocalipse, do grego αποκάλυψις, apokálypsis, significa “revelação”. Estamos num tempo de forte perseguição aos cristãos. Tendo começado com Nero, vive-se o tempo de Diocleciano. O Apocalipse é uma escritura na clandestinidade.  É preciso escrever em código para, caso fosse descoberta, a escritura não fosse conhecida dos romanos. Ao ser escrita em forma de código, precisa de uma tradução pare ser percebida. E porque por vezes não percebemos este tipo de linguagem. Precisamos de um trabalho de desencriptação para entender a bela mensagem de esperança lá contida. A linguagem apocalítica é sempre uma linguagem de Revelação. Foi assim, sempre. No AT e no NT. Era uma linguagem usada em tempos de enorme crise, como aqueles tempos de Diocleciano para os cristãos. Toda a evidência esmaga. É necessário olhar para o Céu em busca que este se abra e de lá venham boas notícias. É bom relembrar o tempo dos profetas.

          Em conclusão:
          Toda a Fé parte da Bíblia e para nós cristãos católicos em especial do NT. Mas sempre num contexto que urge perceber no que nos é dado a conhecer. Temos de perceber o movimento. Não basta a letra. No princípio não está o livro. No princípio está a vida de Jesus, a vida dos apóstolos. Movimento e Vida. Por baixo de cada texto está muita vida, problemas, perseguições, morte. No princípio era o movimento e a vida de gente concreta.

NOTA:
Texto apoiado em palestras de P. Rui Santiago, teólogo José Godoy López e D. António Couto.