Sessão 17
Os Evangelhos não foram escritos para pagãos ou não crentes.

Os Evangelhos (do latim tardio evangelium, do grego clássico εὐαγγέλιον, «boa nova, boa notícia») aparecem-nos como a história da Fé do Novo Testamento.

Como foram construídos os Evangelhos? Sempre com duas centralidades:

  1. Foram feitos em ambiente comunitário, e,
  2. Resultam de recolhas feitas pelas comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré.

          Não são obras ou textos de A, B ou C. Alguém que se lembrou de escrever uma biografia de Jesus de Nazaré. Os Evangelhos não são biografias de Jesus. São experiências vividas de/em comunidades. Ao longo dos tempos, pós-morte e ressurreição de Jesus, foram feitas recolhas das tradições da fé (oral e escrita) e feita a organização desses documentos. Estamos no período que decorre entre os anos 60 e 95. Um exemplo: O Sermão da Montanha que nos aparece nos capítulos 5,6 e 7 do Evangelho de Mateus é uma colagem de ensinamentos de Jesus e que foram trabalhados pelo evangelista com e para a sua comunidade (judeus aderentes ao projeto trazido por Jesus).

          Os primeiros documentos a serem organizados e publicados referem-se à narrativa da Paixão. “Aquela” morte tinha de ser muito bem explicada. Como ocorreu e o que a envolve. Houve necessidade de escrever bem para as comunidades nascentes. Era necessário “passar” o testemunho da vivência de fé desde os anos 30. Os Evangelhos não são obra de um autor solitário, sentado à secretária no seu gabinete. Antes a narrativa da liturgia, celebração, tradição comunitária de vivência e vitalidade da fé.

          O que está dentro de cada Evangelho?
O resultado da experiência comunitária em contexto de fé, uma fé firmada, confirmada e celebrada por quem aderiu ao Jesus que Se sentou à mesa com os pobres e os marginalizados, o Jesus que parte e reparte o pão, por quem foi capaz de testemunhar esta vivência até à morte (mártir. Os Evangelhos não foram escritos para quem quer saber quem era Jesus. Não se trata de escritos sobre o 1º anúncio. Por isso se deve dizer e perceber que foram escritos por e para crentes. Não foram escritos para pagãos ou para não crentes. E esta verdade implica para nós, cristãos do século XXI, a necessidade de um posicionamento de vivência da fé depois de sabermos Quem foi esse Jesus de Nazaré. Há etapas que não podem ser “queimadas” sob pena de vermos Jesus como um “mito de Hollywood” e não o Filho de Deus encarnado que passou entre nós fazendo o bem.
Temos de “interiorizar” que Deus interveio na História, ressuscitando Jesus. A história de Jesus – acontecimentos da vida de Jesus – não pode ser vista apenas como historiográfica. As narrativas que se encontram nos Evangelhos não são neutras, pois os evangelistas são viventes da fé que relatam nos textos. O que aparece nos textos (Evangelhos) são vivências concretas de comunidades. E é por isso que os Evangelhos são diferentes e, casos há, em que até parecem contraditórios. São vivências em contexto de Páscoa para os primeiros discípulos. Tudo está interligado como luz e sentido de vivência das comunidades. Mateus escreve no contexto das comunidades de judeus “convertidos” a Jesus de Nazaré. Lucas faz exatamente o mesmo, mas para comunidades diferentes – pagãos da antiga Grécia convertidos a Jesus. Já Marcos vive na comunidade romana e é nesse contexto que surge o seu Evangelho – uma narrativa mais próxima dos acontecimentos, mais despida de “enroupamentos” mais “politizada” porque “narrativa dura e cruel”  para aclarar a violência do poder de Roma na morte do galileu. Esclareceremos estes temas quando falarmos, individualmente de cada Evangelho e de cada evangelista.

Em resumo, cada Evangelho apresenta-se-nos como um entrelaçado de 3 histórias:

  1. A história dos acontecimentos da vida de Jesus de Nazaré;
  2. A história dos acontecimentos vividos pelos discípulos na sua experiência Pascal e pós-Pascal;
  3. A história das comunidades de cada vez mais e novos discípulos em que os acontecimentos da Páscoa fazem sentido para a sua vida.

Ou, por outras palavras, aparecem nos Evangelhos 3 linguagens que não se separam:

  1. Uma linguagem testemunhal de Jesus de Nazaré – Fez isto, aquilo, viveu assim, esteve aqui e ali, etc…
  2. Uma linguagem testemunhal da adesão dos discípulos à Fé Pascal;
  3. Uma linguagem catequética – a narrativa da linguagem 1 e 2 – dita em forma de catequese para a comunidade para a qual o Evangelho surge (é escrito). Este ponto é de enorme importância para nós, cristãos do século XXI. Se não entrelaçarmos as linguagens 1 e 2, não percebemos os Evangelhos.

          Que linguagem catequética é esta referida em 3?
          É o processo do catecumenado. Adesão à Fé Pascal pela presença na comunidade, vivência em contexto testemunhal e Batismo. Só depois de “nascer de novo” na Fé em Jesus, Aquele que os apóstolos deram a conhecer, é que surgem os Evangelhos. Só surgem, portanto, em ambiente comunitário.

          Pensemos, então, o como perceber e ler os Evangelhos hoje. Jesus está connosco, porque está vivo, está connosco como vivente na vitalidade e na energia do Espírito de Deus.
Qual é o jeito de Jesus estar connosco, hoje?
Como está connosco?
Este é o momento do Evangelho que temos de perceber para, também, compreender o que nos dizem os evangelistas. Como é que Jesus está hoje connosco caminhando sobre as águas e “puxando-nos” do pecado (já percebemos o que significa mar na linguagem bíblica), aproximando-Se e curando, libertando, resgatando-nos das “impurezas” segundo a Lei, salvando como a Lázaro e à menina de 12 anos…

          Ele está connosco, também hoje, porque é o Jesus Ressuscitado.

          A Ressurreição perpassa todo o Evangelho, qualquer que seja o texto dos evangelistas.

          Nos últimos tempos/séculos perdemos os contextos comunitários/catecumenais. Não tivemos o 1º anúncio. Fazemos o contacto com os relatos/narrativas evangélicas antes da hora e isso perverte a nossa Fé. Continuamos a achar que os Evangelhos são a história de Jesus e, por isso, somos incapazes de perceber bem os Evangelhos. Temos de estar já “bem mergulhados” num contexto de Fé em Jesus de Nazaré, Filho amado de Deus, para entendermos a boa notícia. É por isso que dizemos, como no título deste texto, que os Evangelhos não foram escritos para pagãos ou não-crentes. A sua linguagem não serve para pagãos e/ou não-crentes, para quem ainda não conhece Jesus e, por isso mesmo, ainda não pode aderir a ele.

          Hoje, muitos “cristãos” conhecem um Jesus mitológico porque leem os Evangelhos à letra. Como já dissemos acima, os Evangelhos em algumas partes, contradizem-se, o que nos deveria intrigar. Deveríamos ficar interessados em saber o porquê dessas “eventuais” contradições. Tal “despreocupação” só pode acontecer porque não fizemos um bom percurso de amadurecimento das verdades da Fé antes de ler os Evangelhos. Conhecer a vida de Jesus é muito mais que ler o Evangelho. Cuidado: hoje há muitos “cristãos” que são pagãos. Percebamos, neste contexto, como não é surpreendente que jovens que nunca leram os Evangelhos, os venham a perceber melhor que muitos “cristãos”. E isso acontece, pois fizeram um percurso de conhecimento do Jesus de Nazaré – antes de “mergulharem” no sentido da Fé a partir da morte e ressurreição de Jesus.

          Aqui chegados, teremos percebido que teremos, eventualmente, de desconstruir algumas “certezas” que consideramos inquestionáveis e, com humildade, chegaremos ao âmago do projeto de Jesus na construção do Reino de Deus.

NOTA:
Texto apoiado em palestras de P. Rui Santiago, cssr, na teologia pastoral do Papa Francisco, no teólogo Ariel Álvarez Valdés e em D. António Couto.