Sacerdócio e sinodalidade

2 abril, 2026

Homilia do bispo do Porto na Missa Crismal

Caros irmãos, nos três graus do sacerdócio ministerial,

para o bispo, é motivo de profundo contentamento, e até de alguma emoção, olhar para esta catedral e ver nela uma “multidão revestida de branco”, como refere o Apocalipse (Ap 7, 9), qual expressão da luz que vence a morte, da alegria originada na pureza, da vida nova santificada, da glória de Deus manifestada na ressurreição de Jesus, da eternidade que concede meta à materialidade. Como bons «pais de família», a nível espiritual, sois vós quem mais insere estes dons na existência da nossa gente. Motivo mais que suficiente para que todos vos agradecessem continuamente o vosso ministério. Mas porque não são muitos os que o fazem, aqui está o bispo para vos dizer: obrigado porque, na força do Espírito, sois vós quem edifica uma Igreja diocesana de luz, alegria, vida em plenitude, fé e eternidade. Obrigado e parabéns!

​Mas não me esqueço que a passagem do Apocalipse que citei também refere que os eleitos sustentavam “palmas na mão” e tinham vindo “da grande tribulação” (Ap 7, 14). Ora, como sabemos, a Igreja sempre ligou a palma à tribulação do martírio, como símbolo de fidelidade até ao fim e da consequente glória, de beleza espiritual associada ao triunfo definitivo de Deus e do seu Ungido. Ah, e quanto isto é atual! Quantos teimam em fazer de vós sofredores e mártires, excluídos e proscritos, ridículos e desprezados. Tende a certeza de que o povo simples está convosco. E, com ele, também está o bispo!

​Claro: temos de saber conquistar a simpatia dos nossos cristãos. Esta não acontece na rispidez, na receção fria, na complicação do que é simples, no mau humor, etc. Pelo contrário, dá-se naquela cordialidade que cativa, na vontade de um serviço sempre mais humanizado, numa familiaridade que se vai construindo, no fazer do crente um corresponsável dos assuntos da Igreja. A este propósito, vem-me à mente uma frase de um saudosista do passado, mas que nos deve levar a refletir: “Que figura de padre para o nosso tempo? O Cura de almas, passeando pelas ruas e praças da sua Paróquia, com sotaina e breviário na mão, saudando e recebendo saudações, ou os de agora, quais CEO’s de uma empresa, afastados do povo, a debitar ordens e regulamentos?”.

​Quem assim carateriza os padres deste nosso tempo é perfeitamente injusto e sectário. Não conhece a realidade. Não obstante, remete-nos para o estilo do Senhor Jesus, em cujo sacerdócio participamos. No dizer de Isaías, que o Salvador aplicou plenamente a Si mesmo, somos ungidos “para anunciar a Boa Nova aos pobres” e enviados “a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor”. Somos enviados às pessoas concretas. Quer dizer: a conceção do sacerdócio católico passa impreterivelmente por uma maior integração nossa na realidade da vida do povo de Deus e por uma maior participação do laicado nas tarefas e atividades das comunidades a que presidimos. Supõe um caminhar conjuntamente, uma compreensão relacional e comunitária, um exercício concreto de corresponsabilidade baseada na escuta, na reflexão e no discernimento partilhado no seio da Igreja.

​A nossa Diocese do Porto optou decididamente por um Sínodo diocesano. Terá este título ou mote: “SER PORTO: formar, reformar, transformar”. Como tem sido divulgado, muito trabalho já se fez e, se Deus quiser, no próximo dia de Pentecostes, será aberto solenemente, proposta a metodologia e linhas de força e apresentada a calendarização. Antevejo-o como uma consumação da esperança para a nossa Igreja. Oseu êxito ou fracasso dependerão, em parte determinante, do empenho dos ministros ordenados. Mas não duvido que todos daremos o mais generoso contributo. Como parte de uma Igreja concreta, cuja missão se faz em constante relação com os fiéis e as diversas vocações nela presentes, seremos motores, incentivadores, dinamizadores de todos os leigos e mesmo de outros homens e mulheres de boa vontade.

​O sacerdócio só se concebe como um serviço integrado no povo de Deus e partilhado na corresponsabilidade. Sabemos que, por motivos históricos, à medida que se acentuou o clericalismo, mais os leigos se tornaram meros «consumidores». E hoje, consumidores exigentes. Só ultrapassaremos isso promovendo a participação de todos. É necessária, de facto, uma Igreja mais «horizontal». Uma Igreja que não põe em causa a «hierarquia», mas na qual o ministro é irmão entre os irmãos, apesar do seu papel específico de líder. É urgente escutarmos mais o Espírito e com Ele e n’Ele, discernir o que Ele nos pede. Sem o Espírito, a Igreja fica uma mera organização humana. E esta, por mais importante e simpática que o seja, jamais ligará a terra ao céu.

​Para esta ligação do natural ao sobrenatural, muitos sacerdotes e diáconos têm dado um contributo a todos os títulos notável. Seja-me permitido assinalar aqueles que passaram para a Igreja triunfante ou celebram datas assinaláveis. Assim, desde 17 de abril de 2025, faleceram os seguintes sacerdotes: Cón. Arnaldo Cardoso de Pinho (15/05/2025); Pe. José da Silva Dias (26/07/2025); Pe. António de Brito Peres (25/10/2025); Pe. Fernando Silvestre Rosas Magalhães (26/10/2025); Pe. Albino de Almeida Fernandes (28/10/2025); Pe. Augusto Guedes Pinto (24/01/2026); Pe. Joaquim Valente Martingo (17/02/2026) e Pe. Joaquim Marques Ferreira (26/02/2026). E os seguintes diáconos: Diác. Orlando Lopes da Rocha (21/07/2025); Diác. Lírio da Rocha Ferreira (23/12/2025) e Diác. Adão Vieira (13/03/2026). O Senhor lhes conceda a plenitude da Luz que já acenderam na terra no coração e na mente de tantos fiéis.

Para o serviço no ministério, graças a Deus, também tivemos novos «reforços». Foram ordenados Diáconos em ordem ao sacerdócio (08/12/2025): Isaias Higuera; João Nuno Marques Silva; José Manuel Silvares Máximo e Rui Filipe Ribeiro Soares. A eles há que acrescentar o Diác. Permanente António Armindo Gomes de Sousa. E os seguintes novos sacerdotes (13/07/2025): P. Emanuel João Macedo da Mata; P. José Manuel Ferrão Abrantes e P. José Moisés Ramirez Guerra.

Ao longo deste ano civil, celebrarão Bodas sacerdotais os seguintes bons servidores do Evangelho. Em Bodas de Prata, teremos (ordenação em 2001): Pe. Arlindo Rafael da Silva Teixeira; Pe. Augusto Manuel Miranda Carneiro da Silva; Pe. Carlos Armindo Oliveira Felgueiras; Pe. Davide Carlos de Carvalho Matamá; Cón. José Alfredo Ferreira da Costa; Pe. José Augusto Ribeiro Ferreira; Pe. José Pedro da Silva Azevedo e Pe. Nelson António Vieira Soares. Em Bodas de diamante (1966), temos S.E.R. D. António Maria Bessa Taipa e Mons. Agostinho Cesário Jardim Moreira. E assinalamos ainda os belos setenta anos de sacerdócio (1956) dos caríssimos Pe. Domingos Gomes de Almeida; Pe. Joaquim Rodrigues Vieira Cavadas e Mons. Cón. Sebastião Martins Luís Brás. Curiosamente, não temos bodas de ouro, pois em 1976, no Porto, não houve ordenações, porventura efeito secundário da Revolução do 25 de abril de 1974.

​Caros sacerdotes e diáconos, projetamo-nos, para o nosso Sínodo diocesano. Projetamo-nos para o nosso povo e para uma Igreja que os inclua e os sirva. Constituirá uma das maiores ocupações e preocupações dos próximos tempos. Como tantas vezes tem sido proferido, o Sínodo não é um parlamento, uma panaceia, uma ilusão, mas um espaço para escutar o Espírito e discernir como ser Igreja hoje, ultrapassando zonas cinzentas para um renovado impulso missionário. Então, pelo amor que temos a Jesus e à sua Igreja, demos-lhe o relevo que ele merece. E que Deus permaneça convosco, vos abençoe, vos proteja e vos conceda força de ânimo para prosseguirdes nas vias do serviço e da dedicação apaixonada à tarefa da missão. E, por tudo, muito obrigado!

Manuel Linda
Bispo do Porto

 

 

Paixão e sinodalidade

3 abril, 2026

Homilia do bispo do Porto na Celebração da Paixão do Senhor

Depois da prostração, em silêncio, como tomada de consciência de quanto fez por nós Aquele que, a esta hora, expirou na cruz, começamos esta sagrada liturgia de sexta-feira santa com uma oração na qual se recorda uma dupla pertença presente no mundo: a da morte e do pecado, “transmitida a todo o género humano”, e a da vida sobrenatural, fruto da renovação à imagem do Filho de Deus, o “homem celeste”. Duas formas de ser e duas vias que separam a humanidade: a primeira diz respeito àquela grande parte que ainda permanece apenas no estado do “homem terreno”, egoísta e materialista, sem se preocupar com mais nada; a outra refere-se àqueles que sabem fazer caminho unidos aos irmãos, com Jesus e sob a guia de Jesus. Estes são os «sinodais», os que querem e sabem ser povo do Senhor, os que veem na Igreja a Mãe comum que a todos acolhe na fraternidade e na alegria, os dispostos a dar as mãos uns aos outros para que ninguém se disperse e todos colaborem em prol do bem comum.

​Este Evangelho da Paixão, agora religiosamente escutado, também nos falava destes dois grupos e das vias que seguiam. Um, o mais numeroso, não tinha qualquer outro objetivo de unidade que não fosse potenciar o rancor e o ódio e dar a morte Àquele que não reconheciam ou deixaram de reconhecer como Mestre, Senhor e Salvador. Um outro pequeno grupo, no qual sobressaem Maria e João, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena, as mulheres piedosas de Jerusalém, Verónica, Simão de Cirene, José de Arimateia e poucos mais, não abandonam Aquele em quem puseram a sua confiança e constituem um específico grupinho unido, destemido e colaborante até na sepultura do defunto em quem continuavam a acreditar. Une-os um Jesus sofredor e crucificado, como vão ser unidos pelo Cristo ressuscitado e glorificado. E constituem, certamente, o núcleo embrionário da Igreja, mais tarde servida pelos Apóstolos, a partir do Pentecostes. Pelo menos, são sua figura.

​Esta sinodalidade, este fazer caminho com Jesus, lembra-nos alguns dados que lhe são inerentes. Em primeiro lugar, apresenta-nos a Igreja como, simultaneamente, Corpo sofredor e glorioso: tal como Cristo, também a Igreja sinodal experimenta momentos de provação e conflito, de dúvidas e obscuridade. Mas, guiada pelo Espírito do Ressuscitado, supera-os na comunhão da mesma fé, na unidade de sentimentos, na escuta fraterna e no discernimento comunitário.

Depois, a sinodalidade remete-nos para a força de sermos capaz de partilhar pesos e suportar fardos: o peso da existência de tantos irmãos que carregam pesadas cruzes, incluindo a cruz da falta de uma meta e de fé e esperança para a atingir; e o fardo do serviço à Igreja enquanto tal, por vezes tão carente de ministros que a sirvam, de carismas que coloquem os seus dons a render para a vitalidade eclesial e de fiéis que se comprometam efetivamente nos ministérios e serviços com os quais se constrói o bem comum. Precisamos de mais colaboração e que todos os que têm fé vivam a Igreja como sua, a defendam e a alarguem. Então, viver a sinodalidade significa carregar, juntos, em união com o Cordeiro de Deus, o peso do pecado do mundo, aliviar os sofrimentos do presente e, em corpo organizado, juntar forças para levar a salvação a todo o mundo. É desta maneira que a Igreja se conforma ao seu Senhor, o “homem do sofrimento” e morto, mas ressuscitado e glorioso.

Irmãs e irmãos, esta Sexta-Feira Santa, vivida em ano do lançamento do Sínodo da Igreja do Porto, nos ajude no dom de nós mesmos a Deus, tal como Jesus se doou totalmente em nosso favor, e nos fortaleça numa comunhão indestrutível de uns com os outros, sob o seu modelo supremo do amor de Cristo. Caminhar juntos exige docilidade ao Espírito de Cristo, escuta mútua e vontade de ser incentivado à participação e ao compromisso. Redimidos pela cruz do Senhor, não o neguemos.

Manuel Linda
Bispo do Porto

 

Luz, Palavra e Sinodalidade

04.abril.2026

Homilia na Vigília Pascal de 2026

Esta vigília, que nos prepara e celebra já a luz radiante da Páscoa da Ressurreição, é imensamente rica de símbolos e palavras que mereciam longa reflexão. Não podendo tratá-los a todos, permitam uma referência à luz e da Palavra de Deus.

​Depois da bênção do lume novo, iniciamos uma procissão até ao altar, deixando-nos conduzir pela “Luz de Cristo”, tal como o Diácono propunha. O ideal seria que todos nós nos pudéssemos integrar fisicamente essa procissão. Mas como isso era difícil, deslocamo-nos alguns e todos seguiram esse movimento com o olhar e a intenção. E mantivemos as velas acesas enquanto se cantavam louvores à luz, símbolo da ressurreição do Senhor, no Precónio Pascal. Daqui a pouco, voltaremos a acender as velas para renovarmos as promessas do nosso Batismo.

Uma Igreja sinodal, tal como queremos ser na nossa Diocese do Porto, é isto mesmo: um povo de fraterna união que segue a Luz de Cristo, vigia para que essa Luz ilumine no máximo do seu esplendor, segue a Luz como esposa fiel do seu Esposo e, nessa Luz, revela o seu rosto sempre rejuvenescido, alegre e simpático. E ao renovar as promessas do Batismo, esta Igreja que nós somos, reconhece que todos fomos introduzidos na mesma dignidade de filhos de Deus, membros do mesmo corpo e participantes da relação de Jesus com o Pai, independentemente das nossas funções, carismas e ministérios. Faz-nos ver a necessidade de uma conversão permanente, um restaurar contínuo da vida nova em Cristo, rejeitando todo o mal e semeando o bem neste mundo a transformar em Reino de Deus. E que isso diz respeito a todos. A renovação das promessas batismais não é, pois, apenas um ato litúrgico, mas o motor de uma Igreja sinodal que escuta, caminha junta e se sente corresponsável pela missão.

Por outro lado, esta longa liturgia das leituras bíblicas e dos salmos que as acompanharam faz-nos tomar consciência de que o tal «caminhar juntos», inerente à ideia de sinodalidade, jamais se realizará se não colocarmos a Palavra de Deus no centro, promovendo uma Igreja que, tal como o velho povo de Deus do Antigo Testamento, segue em conjunto na história, abre o coração à escuta do que o Espírito tem a dizer-nos no hoje que nos é dado viver e faz dessa Palavra a base de todo o discernimento. É refletindo sobre ela e nela que se criam espaços de conversação fraterna e escuta mútua, superando a solidão e a indiferença, infelizmente muito típicas de alguns membros da Igreja. Só nessa Palavra seremos capazes de discernir os sinais dos tempos, escutar o Espírito que guia a Igreja, afastar os medos da mudança e renovar as estruturas e colocar todos os batizados nas sendas da missão.

Irmãs e irmãos, o Senhor ressuscitou. É este o centro e a consistência da nossa fé. E Ele continua a dizer-nos, tal como o Anjo a “Maria Madalena e à outra Maria” que ainda pensavam que era necessário embalsamar o corpo de Jesus: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como tinha dito!”. Ele vai à nossa frente para aquela Galileia da paz, da beleza e da felicidade. Ele formou um povo santo que caminha na história para solidificar as fraturas que a sociedade gera, para limpar as lágrimas dos que nada mais veem que não seja negrura e morte, para construir a paz a partir de dentro de um coração sensível e amoroso, para dar vista aos cegos e curar os mudos, enfim, para nos dar esperança e coragem para atingirmos esse grande «Porto» de abrigo que é a plenitude da graça e da felicidade.

Caminhemos com Ele e n’Ele. Celebremo-l’O e cantemos-lhe hossanas de vitória. Unamo-nos a Ele para participar da sua felicidade sem fim.

A todos, santa e feliz Páscoa!

Manuel Linda
Bispo do Porto

 

Páscoa, fé e sinodalidade

05.abril.2026

Homilia da Páscoa de 2026

Do Evangelho desta Solenidade da Páscoa do Senhor, chama-me a atenção os desencontros e encontros entre as primeiras testemunhas da ressurreição: Maria Madalena, João e Pedro. Certamente movidos por razões santas e de profunda amizade ao que tinha sido crucificado, todos se dirigem ao túmulo, já vazio. Mas cada um age por si. Maria Madalena, ainda escuro, vai ver o que se passa e se o corpo do defunto ainda está em condições de ser embalsamado. Não entende nada ao ver o sepulcro aberto e vazio. Corre ao encontro de Pedro que também fica profundamente confuso. João ouve e dispara em correria para ver o que se passa. Pedro, bem mais velho, não aguenta a velocidade e fica para trás. Quando João chega lembra-se do que o Mestre tinha dito a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta «Pedra» edificarei a minha Igreja” (Mt16, 18). Não entra no túmulo enquanto Pedro não chega, pois se todos são testemunhas da Ressurreição, importava que a primazia do seu anúncio fosse confiada à coluna vertebral da Igreja. É o que este vai fazer, pouco tempo depois, diante de pagãos, em casa do centurião Cornélio, como referia a primeira leitura.

Gostava de acentuar estas linhas de força, tão bem descritas pelo evangelista: antes da fé na Ressurreição, aliás, testemunhada pelos vários “sinais” com ela relacionados, temos individualidades que percorrem as suas próprias vias, movidos pelos seus afetos, certamente bons e assinaláveis; mas depois de assumirem a fé na ressurreição, desaparecem as meras individualidades e dá-se início a um grupo coeso, que tem a fé como base comum, anuncia a verdade que o Senhor está vivo, abre-se à força do Espirito que o faz compreender tantas coisas até aí obscuras, enfim, faz da fraqueza força para levar esta verdade até aos confins da terra. Este grupo constitui o núcleo originário do que viria a ser a Igreja da manhã de Pentecostes. Igreja jovem, simpática, atraente, de comunhão, participação e missão, tal como queremos que seja esta Diocese do Porto, em sintonia com o processo sinodal em curso.

Pelas referências bíblicas e pela nossa cultura religiosa, sabemos que o Senhor Ressuscitado deixou definitivamente de ser visto aos olhos do mundo. Mesmo aos dos discípulos, só lhes aparece para vincar aspetos ainda não suficientemente referidos. Por um lado, o valor insubstituível do Domingo; por outro, a Eucaristia que lhe dá a tónica. A passagem do culto judaico ao cristão supõe também a mudança do dia santo: não mais o sábado, o final da semana, comemorativo do acabamento da obra da criação, mas o Domingo, o primeiro dia da semana e expressão de uma nova criação, da nova humanidade lavada no Sangue do Cordeiro, família de todos e família de Deus. É sempre ao Domingo que o Senhor aparece aos Apóstolos. E é aí que os acontecimentos são sempre interpretados à maneira eucarística. Para nos dizer que o Domingo sem Eucaristia seria um mero feriado; com ela, com a Missa, é um dia santo.

Por isso, a partir desse momento, não há mais culto a Deus que não tenha a Eucaristia como seu centro e referência. O povo de Deus que O adora e venera, tem aí o ponto mais alto do seu encontro com o Ressuscitado. Hoje, é na Missa que «vemos» o Senhor. Mas é também aí que esse povo se encontra para se alimentar do mesmo Corpo e do mesmo Sangue, animar a sua fé na sua vivência coletiva, para escutar a Palavra e discernir o que o Espírito lhe propõe, imitar as atitudes de Jesus de ajuda e serviço aos frágeis e necessitados e munir-se de forças para comunicar a todos a alegria de ser cristão em plenitude.

Irmãs e irmãos, como diziam os mártires de Cartago, «o cristão não pode viver sem o Domingo». Mas o Domingo entendido nesta dimensão religiosa. Porque, desta forma, ele é transformador da pessoa, do mundo e da cultura. Somos cidadãos de uma sociedade que precisa cada vez mais dos ideais e da força da fé. Precisa de acreditar na paz e na fraternidade universal como possíveis; precisa de se caldear no amor de Deus e fazer do serviço a Ele e ao próximo, lei suprema da vida individual e social; precisa da força da fé e da verdade, portanto, da liberdade, que eleve as mil opiniões desenfreadas à colaboração de todos no bem e comum e não na desagregação social; precisa de levar bem a sério o que o Papa Leão XIV, dizia, recentemente, desde o Mónaco: “Não nos acostumemos ao estrondo das armas nem às imagens da guerra”.

Reavivemos a fé na Ressurreição. Celebremos a Ressurreição em cada Domingo, em cada Eucaristia. Restituamos ao Domingo o valor que é o seu. Façamos da Eucaristia dominical o centro e o cume da nossa fé. Uma fé construtora de uma nova cultura do diálogo, da fraternidade, da ajuda, da colaboração e da paz. Façamo-lo a partir da Eucaristia, memória viva e local de encontro com o Ressuscitado. Como escrevia Santo Ambrósio, a nível individual e social, “Temos tudo em Cristo … Cristo é tudo para nós. Se queres curar uma ferida, Ele é o médico; se estás a arder de sede, Ele é a fonte refrescante; se estás oprimido pela culpa, Ele é a justificação; se precisas de ajuda, Ele é a força; se temes a morte, Ele é a vida; se desejas o céu, Ele é o caminho; se foges das trevas, Ele é a luz; se precisas de alimento, Ele é a comida”.

Santa e feliz Páscoa!

Manuel Linda
Bispo do Porto

 

Triduo e Domingo de Páscoa 2026 – A voz do Bispo do Porto  (PDF)

A retórica inconsequente dos bispos católicos – uma leitura

António Marujo | 27 junho 2024 | 7Margens

Encontro do Papa e bispos portugueses no final da visita ad limina, em 24 de Maio: profissões de fé no que o Papa propõe, mas sem tradução. Foto © Vatican Media

Que encruzilhadas e horizontes se colocam hoje ao catolicismo português? Podemos olhar, por exemplo, para um documento da Igreja Católica em Portugal que refere a “complexa realidade social portuguesa”, a “inovação tecnológica, a internacionalização da economia, a integração europeia”, as “novas realidades culturais”, processos de mudança que “geram tensões” e agravam “desigualdades e injustiças”, com “efeitos graves em famílias, jovens, vários sectores profissionais, idosos e camadas sociais mais desfavorecidas. Finalmente, também “um estilo de vida marcado pelo hedonismo e pelo individualismo e um modelo económico e social excessivamente competitivo, reprodutor das desigualdades e que tende a menosprezar os valores da justiça e da solidariedade”.

Perante este diagnóstico, o que se propõem fazer os crentes? Vincar a importância da “dimensão comunitária”, pôr em prática as ideias do II Concílio do Vaticano (1962-65), encontrar a forma de presença dos cristãos nas realidades da política e da vida social.

Podemos recuar 36 anos, a Junho de 1988? Entre os dias 2 e 5, realizou-se em Fátima o Congresso Nacional de Leigos, que culminava um processo de três anos de debates, assembleias e congressos diocesanos. As citações são do texto de conclusão do Congresso, que procurava sintetizar os “sinais dos tempos no mundo” e “sinais dos tempos na Igreja”. O uso desses títulos são, porventura, a única expressão que dão ao texto um carácter datado: a expressão tinha sido recuperada pelo Papa João XXIII (1958-1963) e pelo Concílio e pretendia dizer que os católicos deveriam estar atentos à realidade e, em função dela, agir com propostas positivas de evangelização e humanização da vida e do mundo. Hoje, a expressão caiu em desuso ou, quando é utilizada, é de forma mecânica e nada convicta.

Vale a pena recuperar ainda algumas sugestões do texto, que pode ser consultado no livro com as actas do Congresso: nele se propõe um “plano global de formação permanente para todos os cristãos”; o estímulo ao “compromisso cristão” em todos os âmbitos da vida, “criando ou valorizando espaços eclesiais de diálogo e reflexão sobre as grandes questões que se põem na sociedade em que vivemos”; e também a “necessidade de cultivar uma espiritualidade ligada às realidades e situações do dia-a-dia, eliminando a separação entre a fé e a vida”.

Uma tese académica

Trinta e seis anos passaram. Mas estas longas citações estão plenas de actualidade, mas ficaram no papel. E servem para reflectir sobre o momento e várias incapacidades da Igreja Católica em Portugal – nomeadamente, das suas lideranças.

Há, desde há muito, uma retórica inconsequente do episcopado português, que não tem sido capaz de criar os dinamismos que os próprios bispos, ou instâncias por eles impulsionadas, sugerem ou propõem em múltiplas iniciativas.

O exemplo do Congresso de Leigos poderia ser desdobrado pelos congressos ou sínodos diocesanos, as ressuscitadas semanas sociais da década de 1990, o congresso da família de 2001, a dinâmica sobre “Repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal” (lançada em 2010), e muitas, muitas outras iniciativas, decisões, propostas, planos. [Falando em planos: são normalmente muito pobres os programas diocesanos de pastoral, que se limitam quase só a uma listagem de iniciativas, com muito pouca ou nenhuma reflexão prévia sobre a realidade, os objectivos que se pretendem atingir e as formas de envolvimento de agentes de pastoral nos vários momentos da reflexão e da execução.]

Jorge Pires Ferreira, director do Correio do Vouga, jornal da diocese de Aveiro (e um dos raros leigos a dirigir um meio de comunicação católico) resumia esta situação há dias na Ecclesia:

“E vem aí mais um sínodo. E um jubileu. Depois de uma ‘visita ad limina apostolorum’. E de uma JMJ. E de vários sínodos. E de um Ano da Misericórdia. E o Ano da Fé. O Paulino. O da Eucaristia. O Ano Sacerdotal… O que ficou de ‘Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal’, na sequência da ‘visita ad limina’ de 2007 (e depois ainda houve a de 2015)?

Mais, algumas propostas, com os seus ritmos, ritos e indulgências, parecem dirigir-se a um mundo que já não existe. Ou pelo menos não existe na nossa Europa. O mundo da cristandade. Mas ainda se vive nele por simulacro, por convenção, por tradição, por arrastamento. Por tudo menos por convicção.”

Seria um interessante tema para uma tese académica pegar em todas essas iniciativas que a dada altura mobilizaram a Igreja, muitas delas com documentos de conclusões e propostas, e ver o que se concretizou. A leitura do documento do Congresso dos Leigos não abre espaço ao optimismo.

Uma lista de enunciados

O exemplo mais recente destas inconsequências foi a recente visita ad limina, o encontro dos bispos portugueses com os responsáveis da Cúria Romana e com o Papa Francisco, no final de Maio, a que me referi nesta mesma coluna À Margem que na altura publiquei no 7MARGENS.

Durante a semana romana do episcopado, tivemos declarações sucessivas e enunciados genéricos sobre o que a Igreja deve fazer. Declarações e enunciados que repetem outras declarações e enunciados feitos nas últimas décadas, sem que se veja qualquer sequência no que se proclama.

Alguns exemplos, retirados do acompanhamento feito pela Ecclesia: o bispo do Porto, Manuel Linda afirmou que a pastoral do episcopado “tem de ser cada vez mais unitária”, quando se sabe que uma pecha da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) há décadas é precisamente a falta de unidade (não falo de unanimismo ou de falsa unidade, que são doentios). O que se passou com as decisões na sequência do Sínodo sobre a Família (2014-15), ou com as profundas divergências sobre o modo de enfrentar a tragédia dos abusos sexuais são os casos mais recentes.

O vice-presidente da CEP e bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, disse que “o espírito e a verdadeira renovação nascem das ideias, nascem da reflexão, nascem da teologia, nascem da doutrina”, precisamente alguns dos factores em falta no catolicismo português. E referiu ainda que o tema da sinodalidade está na “centralidade da vida da Igreja”, também em Portugal, quando é notório que a maior parte do episcopado cumpre apenas os mínimos para, sem qualquer entusiasmo, acompanhar o processo, como ainda há dias aqui recordava Manuel Pinto.

Noutro âmbito, o presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família e bispo de Bragança, Nuno Almeida, defendeu ser “necessário” acelerar o caminho de dar “um maior protagonismo aos leigos na nossa Igreja”, outra conversa recorrente há pelo menos quatro ou cinco décadas. Onde está o “plano de formação permanente para todos” ou o estímulo ao “compromisso cristão” e à reflexão sobre as grandes questões da sociedade pedidos em 1988? Onde está a espiritualidade que ligue a fé e a vida? Mais protagonismo? Porque não começam os bispos por colocar leigos a dirigir instituições sociais, a tratar das contas das dioceses e das paróquias, a dirigir meios de comunicação católicos? Pelo contrário: a Rádio Renascença, pela terceira vez consecutiva, tem um padre como presidente do conselho de gerência; e muitas vezes os bispos (ou alguns párocos) chamam a si decisões, por vezes controversas e mal explicadas de gestão, compra ou venda de propriedades.

Liturgia, jovens, comunicação e bispos

O presidente da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade e arcebispo de Braga, José Cordeiro, referiu também a sua satisfação com o “bom caminho” quanto ao trabalho de “reforma litúrgica”. Quando vemos liturgias cada vez mais frias, com cada vez menos jovens, menos participadas e rotineiras em tantos sítios, só se pode falar do com caminho da reforma dos livros litúrgicos. Isto apesar do recente Congresso Eucarístico Nacional, que pouco mobilizou as comunidades na base, ou apesar da Jornada Mundial da Juventude do ano passado, que não traduziu qualquer dinamismo de formação bíblica ou catequética dos jovens católicos que nela participaram, mantendo a adesão à fé apenas no nível da experiência emotiva – exactamente o que mais depressa se perde. Aliás, quase um ano depois, alguém ainda se recorda da JMJ para lá da bela experiência que ela constituiu? O plano de pastoral juvenil que os bispos prometiam para depois da Jornada (e que deveria ter sido lançado antes) está ainda à espera de ver a luz do dia. Em Roma, a CEP também prometia “protagonismo” aos jovens. Vamos colocar jovens a dirigir a pastoral juvenil (isso acontece em poucas dioceses)? E a organizar auscultações sobre o que deveria ser a Igreja na perspectiva dos mais novos? Talvez alguma mudança acontecesse.

O presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais e bispo do Funchal (que nesta sexta-feira deverá ser nomeado para a diocese da Guarda) afirmou ainda que é preciso “mudar” a forma de a Igreja comunicar e antecipar respostas antes de os jornalistas fazerem perguntas. Conhecendo o que se passa há mais de 30 anos; sabendo que houve tentativas de mudança apenas quando os bispos Januário Ferreira e Carlos Azevedo foram porta-vozes da CEP; e sabendo que vários bispos não gostam de jornalistas e os olham com profunda desconfiança, percebe-se que esta é mais uma declaração inconsequente. Mas oxalá me engane, a partir de agora.

Uma última referência – o texto já vai longo, mas a lista poderia ser maior – para as nomeações de bispos, que o presidente da CEP e bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, sublinhou ser necessário que “seja realmente uma consulta ao Povo de Deus”.

As nomeações de bispos nos últimos anos em Portugal (mesmo se surgiram dois ou três nomes que auguram boas perspectivas) foram tudo menos resultado de participação e respeito pelas propostas e sugestões do clero local – muito menos das comunidades e do povo de Deus. A nomeação do novo bispo da Guarda, que deverá acontecer esta sexta-feira, 28, é apenas o último caso de uma longa lista que traduz a absoluta ausência de participação dos católicos, incluindo dos padres, que se sentem postos de lado.

O que faz falta

Significam estas referências e reflexões que é tudo mau na Igreja Católica em Portugal? Não, de todo. Esta leitura pretende chamar a atenção para um problema grave e crónico, e não generalizar, porque há muitas e boas excepções a tudo isto. Há imensas pessoas generosas e verdadeiramente comprometidas com a sua fé e com o autêntico serviço ao bem comum. Nem estão em causa, sequer, as pessoas concretas dos bispos citados, que em alguns casos têm manifestado uma preocupação sincera com o devir da comunidade dos crentes (e com os quais mantenho, também em alguns casos, uma relação cordial e de respeito mútuo).

Está em causa, sim, o que a CEP vem manifestando há muito: falta de horizonte pastoral, de ousadia, de dinamismo, de criatividade, de abertura à reflexão plural e não apenas às mesmas vozes de sempre, ausência de uma estratégia pensada para os problemas que a sociedade vive. Há católicos empenhados em questões sociais como os refugiados e as migrações, mas onde estão eles em outros temas como o clima ou a não-violência e a construção da paz? Onde estão eles nos sindicatos (sabendo que houve uma forte corrente católica na fundação da CGTP)? E onde estão os crentes nos partidos, quando para muitos membros da Igreja as opções de voto se reduzem hoje ao PSD-CDS, Iniciativa Liberal e Chega? E quando quase não se veem católicos que como tal se assumam publicamente – e, se são de esquerda, são quase sempre ostracizados e mal vistos? Enfim, onde está a formação para a doutrina social da Igreja, desaparecidas que estão pessoas como Acácio Catarino, Adriano Moreira, Alfredo Bruto da Costa, José Dias da Silva, Manuela Silva, Maria de Lourdes Pintasilgo e outras, que a reflectiram e promoveram?

Sabemos que os bispos (ainda) são os principais responsáveis pelas decisões, dinamismos e iniciativas lançados na Igreja. Sabemos também que há uma reduzida capacidade de mobilização das pessoas em Portugal, na Igreja e não só. Mas há uma tremenda incapacidade não só de ser consequente com os princípios proclamados como de chamar pessoas (mesmo pessoas de fora) para exercitar a criatividade e criar dinamismos. O Sínodo Diocesano de Lisboa (2014-2016) tinha como lema “o sonho missionário de chegar a todos”. Mas será que enunciados como esse são mesmo assumidos? O que se faz de criativo para, de facto, chegar a todos? A todas as pessoas, muitas delas baptizadas, que já não se consideram parte da Igreja Católica? O exemplo serve para dizer que o círculo não se alarga e não há capacidade de renovar linguagens e métodos.

Há perto de quatro anos, ouvi uma homilia no dia da festa litúrgica de Santo Agostinho. O padre perdeu-se na enunciação de generalidades sobre a fé do bispo de Hipona, numa linguagem oca para quem o ouvia. Nunca foi capaz de dizer a quem o escutava que lessem as Confissões, essa obra maior da mística, da espiritualidade e da teologia cristãs, onde tanto se aprende sobre a fé e a dúvida, sobre a aproximação e o afastamento, sobre cada pessoa pode viver no seu tempo e no seu lugar a experiência mais funda de Deus.

E é precisamente tudo isso que falta: Bíblia, Concílio, pensamento social, magistério dos papas, ousadia, criatividade, abertura ao diálogo e ao testemunho dos grandes santos e dos grandes místicos. Sem nada disto, o catolicismo português prosseguirá o seu caminho para a irrelevância que já começou a viver. Trabalhar para evitar isso será pedir muito?

 

A retórica inconsequente dos bispos católicos – uma leitura António Marujo – 7 Margens – 27.06.2024

HOMILIA DEDICAÇÃO CATEDRAL – COROAR DE ESPIRITUALIDADE A MATÉRIA DO MUNDO

Como os ramos na videira

Manda a liturgia que se comemore o aniversário da dedicação das Sés e Igrejas paroquiais, tal como fazemos com o nosso dia de anos. E essa celebração tem a categoria de “festa” ou até de “solenidade”, como é o caso, agora. Deve contar com a participação do maior número possível de fiéis, ser presidida pelo bispo ou pelo Pároco, haver sinais exteriores de alegria e entoar-se o hino de “Glória”. Trata-se de uma recordação «obrigatória» que se sobrepõe a outros festejos como possíveis memórias dos santos, por exemplo.

Mas o que é a dedicação e donde vem este hábito piedoso? Dedicar um espaço ou objeto religioso a Deus é o mesmo que o declarar exclusivo para o serviço divino. Nesta catedral, por exemplo, cabe a dimensão cultural, artística, museológica. Em caso de cataclismo, poderia ser transformada em espaço de refúgio ou refeitório de emergência. Mas isso apenas em caso de extrema necessidade. O que, praticamente, nunca se verificou e, se Deus quiser, nunca acontecerá. Para a cultura e para o exercício habitual da caridade havemos de conseguir outros espaços mais apropriados. Aqui não. Este é primordialmente para o louvor divino. Até porque a disposição dos diversos materiais objetos criam um tal ambiente espiritual que o configuram como ideal para escutar o recado, a mensagem, que Deus tem para o homem. É por isso que, anualmente, recordamos o dia em que atribuímos ao serviço exclusivo de Deus uma partícula pequena do que Ele mesmo nos dá e que a cultura e a técnica de tantos elevou como espaço belo e emblemático. Como espaço digno de simbolizar este intercâmbio entre o divino e o humano.

Uma igreja, de facto, é sempre uma nota de poesia na prosa bárbara das nossas vidas. É um espaço de silêncio e interioridade no meio do bulício e dispersão da forma como tecemos a existência. É uma possibilidade de olhar para a construção e reconhecer que esta se apresenta como sentinela do divino, como chamada de atenção, contínua lembrança para que não nos esquecermos que, por cima de nós, está Deus. É também, de alguma maneira, como que a representação de mãos postas, mãos erguidas da «cidade dos homens» na direção da «cidade de Deus». É despertador das nossas consciências, recordando que é possível a santidade no meio das desordens morais, individuais e coletivas. É, enfim, o lugar dos afetos e dos sentimentos, pois neste espaço se vertem lágrimas de alegria num casamento e lágrimas de dor num funeral, exprime-se a ternura do encanto de um batismo ou primeira comunhão e a angústia de quem pede afincadamente uma graça.

Tudo isto é que reclama que este espaço seja diferente, único. Como tal, depois da dedicação, chamamos-lhe «espaço sagrado». De facto, nós, os cristãos, não construímos igrejas para deixar marcas de civilização nem para afirmarmos um qualquer poder: fazemo-lo porque estas construções, as igrejas ou templos, constituem uma imagem da nossa vida da fé e mesmo da relação da graça divina connosco e de nós com Deus. A primeira leitura, por exemplo, apresentava essa linda metáfora do templo como nascente de uma água viva que gera mais vida e, fundamentalmente, mais qualidade de vida: “Aonde esta água chegar, as outras águas tornar-se-ão sãs e haverá vida por toda a parte. [À sua beira crescerão árvores cujos] frutos servirão de alimento e as folhas de remédio”. E o Evangelho remete-nos para a ideia de que esta casa é o lugar onde acolhemos Deus e Deus nos acolhe: foi na sua casa, transformada em templo ou igreja, que Zaqueu acolheu Jesus. Mas é lá que Jesus o acolhe no reino de Deus ao garantir-lhe que “a salvação chegou a esta casa, porque o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Daqui a passagem para a ideia que dá forma a toda a segunda leitura: estas casas lembram-nos o necessário acolhimento de Cristo já não só dentro das suas paredes de pedra ou cimento, mas no sacrário mais íntimo que é o nosso coração. A ponto de se poder perguntar como S. Paulo: “Não sabeis que sois templos do Espírito Santo e que o Espírito de Deus habita em vós’”.

É aqui que reside o grande mistério e o segredo do nosso relacionamento com o divino: sermos ou não sermos os templos vivos de Deus. E muitos não querem ser. Foi assim em todos os tempos, mas torna-se mais visível no nosso. Queremos Deus perto de nós, como polícia a quem recorrer se nos sentimos atacados pela desgraça. Mas, na nossa casa e, muito mais, no nosso coração, podem entrar cães e gatos, cobras e lagartos, mas Deus… fica à porta. Que Deus habite na igreja, muito bem: Ele lá está para quando eu precisar, como o médico está nas urgências; mas que habite em nós, isso não, porque, assim, eu imagino que sou mais livre e que, dessa forma, posso fazer o bem ou o mal que me apetecer. É a terrível dicotomia fé/vida. O que, na prática, representa um voltar as costas a Deus. É isso: queremos igrejas belas e solenes e queremos meter lá Deus; mas nós não queremos ser templos onde Deus habite!

Porém, temos o exemp lo de Alguém que não procedeu assim: é a Bem-aventurada Virgem Maria, por sinal, Padroeira desta igreja catedral. Ela não se preocupou por arranjar um «templozinho» para Deus: trouxe-O sempre consigo. Na Anunciação, o Anjo ressalta isso mesmo ao dizer: “Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é [ou está] convosco”. Isso é que faz d’Ela diferente de toda a gente, a “bendita entre as mulheres”: porque Deus está sempre com Ela e Ela está sempre com Deus. Sempre! Quando as coisas correm mal, como por exemplo, quando é preciso fugir para o Egipto, e quando há triunfo, como quando enormes multidões seguem Jesus. Está com Jesus e Jesus está com Ela na ternura do nascimento, mesmo que tenha sido num presépio, e na dor do Calvário; na incompreensão das palavras de Simeão que lhe anuncia uma “espada de dor” e na manhã dos aleluias da Páscoa.

Que esta catedral, onde celebramos os momentos cimeiros da vida religiosa da Diocese, continue como metáfora do verdadeiro templo onde Deus quer habitar: em nós, no nosso coração, na nossa vida. Edificado bem no alto deste morro da Pena Ventosa, seja expressão de uma cidade viva e dinâmica que sabe levantar as mãos para Deus e receber d’Ele a fé, a esperança e a caridade com as quais se humaniza e se torna ainda mais aberta e solidária.

Manuel Linda, Bispo do Porto – 09 de setembro de 2020

DIOCESE do PORTO
NOTA PASTORAL
VIVER, CELEBRAR E CULTIVAR A FÉ EM TEMPO DE PANDEMIA

Como os ramos na videira

Viver, celebrar e cultivar a fé em tempo de pandemia

Aos Sacerdotes e aos Diáconos,
Aos Responsáveis das Associações, Movimentos e Obras
E a todos os Fiéis Leigos da Diocese do Porto

Para além de outros efeitos nefastos, a atual pandemia de Covid-19 não só não nos permite programar o futuro com alguma clarividência como nos abriga a uma prudência acrescida, pois as informações nem sempre são as mais otimistas. Uma coisa é certa: na Europa, em geral, e entre nós, em concreto, a transmissão do vírus está em aumento assustador e os técnicos falam já num outono/inverno fortemente problemáticos. E, evidentemente, queremos ser parte da solução e não do problema.

Por outro lado, no que a nós diz respeito, a vivência, formação e celebração da fé não está sujeita a épocas favoráveis ou inoportunas nem é compatível com intervalos: é para sempre e qualquer circunstância. Por isso mesmo, é necessário, por parte de todos nós (bispos, sacerdotes, diáconos, responsáveis pelos diversos setores de apostolado e leigos em geral), um esforço para encontrar, em cada ambiente e em cada circunstância, a atitude e a resposta pastoral mais adequada. É que, se a pandemia é muito séria, a efetiva presença pastoral missionária da Igreja (diocese, paróquias, capelanias, serviços, movimentos) não é menos séria e não se pode sujeitar à oscilação das condições de qualquer género.

Rezamos e esperamos que Deus nos conceda a graça de pôr cobro à pandemia, porventura por intermédio de vacinas que se aguardam ansiosamente. Mas tudo parece indicar que a tão referida «imunidade de grupo» ou vacinação em massa não aconteçam antes do final do primeiro trimestre de 2021. Vamos, portanto, colocar como referência a próxima Páscoa que esperamos já poder celebrar com toda a alegria e liberdade. De momento, temos que ir até onde pudermos ir, mas sempre com a preocupação de não ultrapassar os limites da prudência e da legalidade.

Assim sendo, após consulta e com o contributo dos senhores Bispos Auxiliares, apresento alguns princípios básicos orientadores, sem a pretensão de estabelecer regras gerais a aplicar cegamente. As normas das autoridades de Saúde e as que a Conferência Episcopal Portuguesa já formulou são para ter sempre como referência, mormente no que diz respeito ao uso de máscaras, distância social, arejamento dos espaços, desinfeções, etc. Tudo isso deve ser levado muito a sério, pelo menos até outras orientações a que as circunstâncias nos permitam ou nos obriguem.

Tendo isto presente, eis alguns âmbitos a considerar.

  1. Catequese.Deveremos ter como referência orientadora (não cega) os procedimentos da Escola, em todos os seus níveis. Deverá ser objetivo irrenunciável: a catequese não vai parar! Reforçar o apoio missionário, afetivo, formativo e logístico aos catequistas e, porventura, tentar aumentar o seu número. Tenha-se como referência o documento do Secretariado Nacional de Educação Cristã “Orientações para catequese em tempos de pandemia”. Aproveitar a circunstância para envolver mais os pais. Se se julgar conveniente, poder-se-ia propor não haver catequese presencial todas as semanas e continuá-la, porventura diariamente, no tempo de férias escolares que coincidem com os tempos fortes da liturgia e da vivência dos mistérios centrais da nossa fé. Caso a caso, poderão ser repensadas as festas, os modos e os prazos da Primeira Comunhão e Profissão de Fé. Uma questão para os vários setores implicados: como poderá ser minorada a ausência da participação na Eucaristia dominical? No mínimo, deve realizar-se uma sessão de catequese mensal, antecedida ou seguida da Missa.
  2. Confissões.Não podemos retrair a disponibilidade para este atendimento sacramental. Suposta esta disponibilidade, será viável encontrar espaços e condições em que se cumpram a distância necessária e a discrição imprescindível. Se existirem condições para isso, pode-se usar uma sala arejada com acrílico entre o confessor e o penitente.
  3. Crismas.Veja-se se é possível encontrar modos de recuperar os Crismas adiados e de os realizar até ao fim do ano civil. Depois se verá! Nesse caso, seria necessário dividir os grupos e multiplicar as celebrações: sextas à noite, sábados de manhã e de tarde, domingos à tarde. Será necessário limitar as presenças aos crismandos, padrinhos, pais e catequistas. Embora a grande regra seja a capacidade do local onde vão ser celebrados, de forma geral, pode colocar-se como referência o número de cerca de vinte crismandos por celebração. Quer isto dizer que, temporariamente, suspendemos a norma dos Crismas vicariais e passarão a ser, na sua maioria, paroquiais. Entretanto, se o número de crismandos for reduzido, devem associar-se várias Paróquias, particularmente se confiadas ao cuidado pastoral do mesmo Pároco.
  4. Visitas pastorais.Em princípio, suspendem-se. Porém, a juízo dos Párocos e das Vigararias, não é de excluir a possibilidade de levar por diante as que estavam programadas. Neste caso, evitar-se-iam as grandes aglomerações de pessoas e centrar-se-iam em âmbitos específicos: tempo passado com o Pároco e eventual Diácono Permanente para consideração sobre as condições socioeconómicas, pastorais e outras; avaliação do cartório, registos e dignidade dos espaços litúrgicos; reunião com setores muito restritos, tais como Conselho Económico Paroquial, Catequistas, crismandos, Leitores, Acólitos e Ministros Extraordinários da Comunhão; celebração do Crisma.
  5. Sacerdotes idosos ou de risco.Os Vigários deverão identificar estas situações e sugerir aos visados prudentes substituições. Sempre e só como sugestão. Porventura, poderiam ser substituídos pelos Diáconos Permanentes colocados nessa Paróquia ou mesmo pelos da zona. Mas que ninguém se sinta marginalizado. Quando, nessa região, não se encontrarem Diáconos Permanentes disponíveis, pode-se pedir o contributo (ocasional e temporário) de algum Ministro Extraordinário da Comunhão idóneo e especificamente formado para essa função. Se as circunstâncias assim obrigarem, pode, inclusivamente, presidir a uma Assembleia Dominical na Ausência do Presbítero, seguindo o ritual editado pela Conferência Episcopal Portuguesa. A “homilia” poderá ser lida a partir de algum bom texto disponível. Mas que não haja nenhuma Paróquia sem a celebração do Domingo: Missa, na forma habitual, ou, excecionalmente, Assembleia Dominical na Ausência do Presbítero. Se alguma comunidade paroquial ficasse privada, por longo tempo, da celebração da Eucaristia, o Vigário da Vara, com o respetivo pároco, providenciariam que algum sacerdote pudesse ir aí, de tempos a tempos, celebrar a Eucaristia e renovar a sagrada reserva.
  6. Centros de culto de pequenas dimensões.Com bom tempo, a alternativa podem ser as “missas campais”; no inverno, utilizar salões paroquiais ou providenciar espaços civis adequados.
  7. Comunhão aos doentes.Cumpridas todas as normas de segurança, não se esqueça este âmbito da pastoral confiado, primordialmente, aos Ministros Extraordinários da Comunhão.
  8. Reuniões.Sejam as diocesanas, sejam as paroquiais, alternar, como já se tem feito, o presencial com o virtual. Ou mesmo ficar só neste, se as circunstâncias o aconselharem.
  9. Reuniões de Vigararia.O ideal seria que fossem presenciais. Mas as conjunturas é que determinarão a modalidade. Deverá procurar-se, na medida do possível, que os que não podem ou não devem ir possam participar virtualmente. No mínimo, deverão ter acesso rápido a informação circunstanciada do teor da reunião.
  10. Ofertórios consignados.Sabemos bem da penúria geral, particularmente de muitas Paróquias. Não obstante, sem insistir muito, todos eles devem ser lembrados. Também eles representam uma forma de abertura e sintonia com uma Igreja que não é «paroquial», mas católica.

*****

Aproveito esta oportunidade para, mais uma vez, felicitar vivamente os agentes de pastoral desta nossa Diocese do Porto, com lógico destaque para os Párocos, Reitores, Capelães e Diáconos, pela forma absolutamente brilhante como têm respondido à crise da pandemia, com frequentes sacrifícios pessoais: seja na presença junto do seu povo, com forte e serena inovação, para que nunca lhe falte o ânimo, os sacramentos e os ritos religiosos; seja no empenho para minorar o sofrimento de tantos, mormente a nível dos Centros Sociais Paroquiais e estruturas similares. O mesmo poderia dizer a respeito do grande exemplo no cumprimento das normas de segurança, por vezes até com notório exagero. Bem-hajam! Continuaremos com igual determinação e afinco.

Esta epidemia é a primeira –e certamente será a única, se Deus quiser- que nos é dado sofrer. Mas, por esse mundo fora, há milhões e milhões que passaram por momentos ainda mais dramáticos. Pensemos nas atrocidades das guerras e nos regimes políticos que executaram extermínios em massa. E tudo isso passou, graças a Deus. Pois, o Covid-19, como todos os males, também passará. Até porque Deus está presente na história da humanidade e faz dela uma história de salvação. De muitos modos e por vários meios. Mas, agora, particularmente pela ciência e pelas tecnologias aplicadas ao bem. Para mais, já sabemos como se transmite o contágio, ao passo que, por exemplo, numa guerra, nunca se sabe quando uma bomba atinge as pessoas. Por isso, temos capacidade de «defesa» muitíssimo superior àquela que tantos experimentam em situação de conflito causado pela malvadez humana. Basta que não abrademos a vigilância.

Como tantas vezes pede o Papa Francisco, que esta situação nos obrigue a repensar mais a relação do homem com a natureza, a edificarmos uma civilização mais justa a nível planetário, a sermos mais solidários e afetivos para com os débeis, a exigir do Estado que respeite e acarinhe as boas iniciativas sociais, a colocar a economia ao serviço do bem comum, a revalorizar os laços inultrapassáveis da família unida e indissolúvel, a privilegiar o essencial em detrimento do acessório. E, de maneira fundamental, a reconhecer a nossa fragilidade estrutural e consequente necessidade do Deus da misericórdia e do amor. Até porque, como diria São Paulo, “é na nossa fraqueza que se manifesta a força de Cristo” (2 Cor 12, 10).

É esta força sanante e compadecida que pedimos por intermédio da Bem-aventurada Virgem Maria para esta sua “Diocese de coração”.

Porto, 28 de agosto de 2020
+ Manuel, Bispo do Porto

“Tempo da Criação”

O bispo do Porto convidou a diocese a celebrar o “Tempo da Criação”, que os cristãos assinalam entre 1 de setembro e 4 de outubro, numa “dimensão ética”, como “fonte de espiritualidade” e promovendo “ações de sensibilização ambiental”.

CONVITE

Jardineiros No Jardim De Deus

De 1 de setembro, início do ano pastoral e escolar, a 4 de outubro, memória litúrgica de São Francisco de Assis, Patrono da Ecologia, a Igreja Católica e as Igrejas Irmãs Evangélicas colocam como sua referência especial a ligação à “Casa comum”, ou seja, à natureza, sem a qual pessoas, animais, plantas e outros seres não poderíamos sobreviver. Numa dupla perspetiva: como dimensão ética que nos obriga a específicos comportamentos respeitosos para com esta grande e bela obra de um Deus que nos oferece semelhante dádiva; e como fonte de espiritualidade, pois a contemplação da beleza da criatura ajuda-nos a admirar e amar mais o seu Criador.

Desde que o Papa Francisco nos alertou para a urgência de novas atitudes para com a natureza, com a publicação da encíclica Laudato si, esta celebração universalizou-se e passou a entrar, mais autenticamente, no rol das nossas preocupações e vivências eclesiais. Como é sabido, para assinalar o quinto aniversário desta encíclica dedicada a uma temática absolutamente nova, o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, da Santa Sé, anunciou um ano celebrativo especial, de 24 de maio de 2020 a 24 de maio de 2021. Está a decorrer, embora o contexto de pandemia acabasse por ofuscar muitas ações que poderiam constituir grandes e motivadoras notícias.

Na Diocese do Porto, evidentemente, o tema também deu entrada no nosso Plano Pastoral. Nas “Emergências pastorais” refere-se, no nº 13, a necessidade do alargamento do “horizonte do nosso cuidado pela Casa Comum”, aliás, um dos quatro “Objetivos” para o ano de 2020/21, assim especificado: “Assumir a vocação de que Deus Pai e Criador nos confiou de guardiões da obra de Deus, como parte essencial de uma vida cristã virtuosa; acolher criativamente as propostas do Ano Laudato Si”.

Por tudo isto, convido amigavelmente os Sacerdotes e Diáconos, os Institutos Religiosos e Seculares, as Associações, Movimentos e Obras e todo o Povo de Deus, mormente por intermédio dos seus organismos mais representativos –escolas, universidades, hospitais, empresas, famílias, comunicação social, administração, autarquias, associações culturais e desportivas, artistas, etc.- a celebrarmos este tempo da Criação com ações de sensibilização ambiental, reflexão sobre a interligação da pessoa com a natureza e, se possível, com a oração de louvor pela magnífica oferta que o Criador nos concedeu.

Não faltam materiais para nos ajudar nesta vivência. Refiro, especialmente, os provenientes do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral em: (www.sowinghopefortheplanet.org/files/shftp_uploads/2020/6/Laudato_Si_Portuguese_compressed.pdf), ou da Comissão Ecuménica (seasonofcreation.org/pt/about-pt).
A nível local, entre nós, a Comissão Diocesana para o Ecumenismo (ecumenismodioceseporto.blogspot.com) já publicou válidas achegas.

O nosso Secretariado Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas, a quem confiei a tarefa da mobilização em favor da “Casa comum”, pretende viver o ano escolar à base deste slogan, jogando com as iniciais da sigla: “Dá cá mais 5 c’s: Crescer na Consciência do Cuidado da Casa Comum”. Creio que, com esta ou outra formulação, este desiderato deveria constituir uma preocupação de toda a Igreja diocesana.
E rezemos: “Senhor da Vida, durante este Tempo da Criação pedimos que nos deis coragem para guardar o shabat do nosso planeta. Fortalecei-nos com a fé para acreditarmos na Vossa providência. Inspirai-nos com a criatividade para compartilharmos aquilo que recebemos. Ensinai-nos a satisfazer-nos com aquilo que é suficiente. E enquanto proclamamos um Jubileu pela terra, enviai o Vosso Espírito a renovar a face da criação. Nós Vo-lo pedimos em nome de Jesus Cristo que veio proclamar a boa-nova para toda a criação”.

Porto, 27 de agosto de 2020
+ Manuel, Bispo do Porto