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Liturgia da Palavra
Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026

Viver a Palavra
Como cristãos somos chamados a habitar o mundo em que vivemos, vencendo a globalização da indiferença, libertando-nos do nosso comodismo e testemunhando com ousadia a felicidade de viver com os olhos e o coração abertos sobre o mundo.
Dirigindo-se aos discípulos de outrora, Jesus interpela cada um de nós, discípulos de hoje, neste lugar e tempo concreto da história humana: «Vós sois o sal da terra! Vós sois a luz do mundo!». Jesus diz precisamente «vós sois» e não «vós deveis ser». Ser sal e ser luz fazem parte da nossa identidade cristã e devem moldar todo o nosso querer e agir. Bem sabemos que muitas vezes a nossa vida é insípida e opaca, mas no nosso coração Deus derramou o sal que transforma e dá sabor e a luz que dissipa as trevas e ilumina mesmo os recantos mais recônditos da nossa existência.
Somos chamados a ser sal que não perde a força e luz que não se esconde. Como discípulos missionários somos convocados para ser verdadeiros protagonistas na construção da civilização do amor, apontando sempre para Jesus Cristo, meta das nossas vidas e garante da eficácia da nossa missão, não obstante a nossa fragilidade e pecado. Como Paulo, diante da missão que nos é confiada, somos tentados a dizer: «apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras». Contudo, devemos fixar o nosso olhar e a nossa atenção na confiança que Jesus deposita em cada um de nós: Ele conhecendo a nossa fragilidade e debilidade não hesita em fazer de nós sal e luz e faz das nossas vidas lugares luminosos e saborosos para que no mundo se possa saborear a misericórdia e a ternura de Deus e se possa contemplar a luz terna e suave do Seu amor. Não tenhamos medo da nossa fragilidade, nem tampouco deixemos que ela nos paralise. Escutemos o Papa Francisco: «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (EG 49). Vencendo o comodismo, somos chamados a lançar-nos ao caminho, a ser sal e luz, a ser testemunhas criativas de que só o amor pode transformar o mundo num lugar melhor e mais feliz.
O sal é, antes de tudo, um elemento saído das águas do mar, respondendo ao luminoso apelo do sol. Assim, cada um de nós é chamado a ascender pela força atrativa da Luz divina. Mas como o sal que depois deve descer aos alimentos e dissolver-se neles para que discreta e humildemente possa dar sabor na medida certa e ajustada, também cada cristão é chamado a ser no mundo e para mundo um testemunho discreto, mas eficaz do amor e da ternura de Deus.
A luz permite ver a realidade e os outros de um modo novo e diferente. Só Jesus é a Luz do Mundo, mas convocados pela sua palavra, somos chamados a irradiar no tempo e na história a luz terna e suave do Seu amor. Mas gosto de imaginar o nosso ser luz como um rasto luminoso que não encandeia aqueles com quem nos cruzamos, mas que os conduz à fonte de toda a Luz que é Jesus Cristo. A primeira leitura que escutamos neste Domingo aponta de modo claro as condições necessárias para ser luz: abrir o nosso coração e a nossa vida aos que precisam de nós com gestos concretos de amor e misericórdia. Transportando na fragilidade do nosso barro o precioso tesouro que é «Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado», seremos um sinal saboroso e um rasto luminoso do amor de Deus, fazendo ecoar no tempo e na história a mais bela melodia da bondade e da ternura pela prática concreta e exigente das obras de misericórdia. in Voz Portucalense.
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Ser sal e ser luz define a essência do nosso ser cristão e impele-nos a uma abertura missionária que nos coloca em permanente estado de missão. Por isso, este domingo é uma oportunidade apara ajudar os fiéis a redescobrir a sua dignidade batismal e o convite à santidade que ela encerra, numa dinâmica missionária que alarga as fronteiras da comunidade. Contudo, esta ontologia missionária não poderá ser apenas um refrão inconsequente, mas é necessário que ela transforme o nosso coração e a nossa vida e nos faça testemunhar o evangelho pela fraternidade e comunhão que se tornam sal e luz para os homens e mulheres de hoje. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 58, 7-10
Eis o que diz o Senhor:
«Reparte o teu pão com o faminto,
dá pousada aos pobres sem abrigo,
leva roupa ao que não tem que vestir
e não voltes as costas ao teu semelhante.
Então a tua luz despontará como a aurora
e as tuas feridas não tardarão a sarar.
Preceder-te-á a tua justiça
e seguir-te-á a glória do Senhor.
Então, se chamares, o Senhor responderá,
se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia».
CONTEXTO
Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica. Os biblistas designam esta coleção com o nome geral de “Trito-Isaías”. O poema que a liturgia deste quinto domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.
Em 538 a.C. o rei persa Ciro, depois de conquistar a Babilónia, autorizou os exilados judeus a regressar a Jerusalém. Alguns puseram-se imediatamente a caminho. Chegaram a Jerusalém cheios de entusiasmo; mas rapidamente ficaram desiludidos… A cidade estava destruída; o domínio persa recordava aos retornados que não eram livres. As profecias sobre a reconstrução de Jerusalém – que o Deutero-Isaías (cf. Is 40-55) tinha oferecido aos exilados quando ainda estavam na Babilónia – não se tinham concretizado. A intervenção definitiva de Deus para restabelecer as glórias passadas e para oferecer ao seu povo um futuro de vida abundante tardava em chegar.
No universo religioso de Jerusalém parece haver, por esta altura, uma forte tensão entre dois “partidos” ligados à vida cultual. De um lado, está o sacerdócio sadoquita (da linha de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que incluía sacerdotes recém-retornados do exílio na Babilónia, convencidos de que tinham sido provados e perdoados pelas suas faltas. Mantinham boas relações com o poder persa, estavam decididos a fazer valer os seus direitos e privilégios e pretendiam ser eles a definir as coordenadas do culto oficial. Do outro lado está o sacerdócio levítico, que incluía sacerdotes que se tinham mantido sempre em Jerusalém, presidindo à vida cultual da cidade durante os anos que tinha durado o Exílio. Tinham uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do texto que, neste domingo, nos é proposto como primeira leitura pertencem, provavelmente, a este último grupo.
O capítulo 58 – de onde é tirado o nosso texto – apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e o respeito pela santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).
A propósito do culto vazio e sem correspondência na vida aborda-se a questão do jejum (a raiz “jejuar” aparece sete vezes ao longo do capítulo). Como é que Deus vê a questão do jejum, uma das traves-mestras da vivência judaica da fé (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2Sm 12,16-17; 1Rs 21,27; Esd 8,21; Est 4,16; Dn 9,3)? Qual é como é o jejum que agrada a Deus? in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- O que é que Deus pretende de nós? Qual o papel que Ele nos destina no seu plano salvador? A estas perguntas poderão ser dadas múltiplas respostas. Uma das mais belas e mais desafiantes aparece nas palavras do Trito-Isaías que escutamos hoje: Deus pretende que sejamos uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta aos homens o caminho que leva à vida verdadeira. Sim, é uma boa resposta. Mas, como poderemos ser essa luz? Oferecendo a Deus rituais litúrgicos majestosos, que sejam expressão (mesmo que deslavada) da grandeza e da omnipotência de Deus? É oferecendo ao mundo o espetáculo de uma religião que se exprime em gestos e palavras carregados de história e de tradição, mas herméticos e incompreensíveis para os homens e mulheres que se movem à margem dos caminhos da fé? Ouçamos, outra vez, o Trito-Isaías: seremos luz de Deus no mundo se partilharmos o nosso pão com os famintos, se ficarmos do lado dos injustiçados, se cuidarmos daqueles que ninguém cuida, se formos testemunhas da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem. Dessa forma, todos nos verão e todos entenderão o nosso testemunho. Como é que vemos tudo isto? Como vivemos e expressamos a fé que nos anima?
- A história atual do nosso mundo está a ser escrita no meio de infinitas sombras… A cada instante, a guerra e a violência semeiam a morte e desumanizam agressores e agredidos; a cada momento há homens e mulheres humildes e bons, que não fazem mal a ninguém, mas que veem as suas vidas destruídas pela prepotência, pela injustiça e pela arrogância dos poderosos; a cada passo multiplicam-se os sinais de indiferença para com os sofredores, os frágeis, os que não têm pão, os que não têm casa, os que são obrigados a procurar num país estranho um futuro viável; a cada hora são maiores as feridas que deixamos na natureza, explorada e saqueada pelo nosso egoísmo e pela nossa ganância; a cada instante há mais homens e mulheres que não encontram lugar à mesa onde a humanidade come e que são abandonados nas bermas dos caminhos… Talvez estas “sombras” existam porque nós nos entrincheiramos atrás das portas do nosso egoísmo e não cuidamos de ser luz que brilha no mundo. Em concreto, o que podemos fazer para que o nosso mundo se torne menos sombrio? O que é que Deus nos estará a pedir para fazer neste momento da história do mundo? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 111 (112)
Refrão 1: Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.
Refrão 2: Aleluia.
Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
o homem misericordioso, compassivo e justo.
Ditoso o homem que se compadece e empresta
e dispõe das suas coisas com justiça.
Este jamais será abalado;
o justo deixará memória eterna.
Ele não receia más notícias:
seu coração está firme, confiado no Senhor.
O seu coração é inabalável, nada teme;
reparte com largueza pelos pobres,
a sua generosidade permanece para sempre
e pode levantar a cabeça com altivez.
LEITURA II – 1 Coríntios 2, 1-5
Quando fui ter convosco, irmãos,
não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria
a anunciar-vos o mistério de Deus.
Pensei que, entre vós, não devia saber nada
senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.
Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor
e a tremer deveras.
A minha palavra e a minha pregação
não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana,
mas na poderosa manifestação do Espírito Santo,
para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana,
mas no poder de Deus.
CONTEXTO
Corinto, a capital da província romana da Acaia, era uma cidade cosmopolita e próspera, de população heterogénea. Na época neotestamentária, devia ter à volta de meio milhão de habitantes, dos quais dois terços eram escravos. Servida por dois portos de mar – um virado para ocidente, outro para oriente – era a cidade onde a cada momento desembarcavam marinheiros chegados de todos os portos do Mediterrâneo, ávidos de prazeres depois de semanas passadas no mar. Os mais diversos cultos religiosos estavam ali representados. Mas a grande referência religiosa de Corinto era Afrodite, a deusa do amor, da beleza, da sexualidade e da fertilidade, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada.
Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Instalou-se na cidade e começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos há pouco chegado de Roma. Ao sábado Paulo frequentava a sinagoga e aí falava aos judeus sobre Jesus. No entanto, o apóstolo não tardou a entrar em choque com os líderes da comunidade judaica da cidade. Expulso da sinagoga (cf. At 18,6), Paulo decidiu dedicar-se à evangelização dos pagãos. O apóstolo permaneceu em Corinto cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52). Quando deixou a cidade, já havia em Corinto uma comunidade cristã numerosa e entusiasta.
Mesmo fisicamente afastado da comunidade, Paulo não perdeu o contacto com os seus queridos filhos de Corinto. Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes sobre a comunidade. Após a sua partida de Corinto, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Co 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.
Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. No entanto, como é que a salvação e a realização plena do homem podem manifestar-se nessa estranha história de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um maldito? Para demonstrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens e que Deus pode agir através da fraqueza humana, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: os cristãos que compõem a comunidade são gente pobre e débil, muitos deles na situação de escravos; mas, apesar disso, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo (cf. 1Co 1,26-31). No segundo (é precisamente esse exemplo que a segunda leitura deste domingo nos apresenta), Paulo refere o seu próprio caso. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Em meados do séc. I, os cristãos de Corinto procuravam encher de sentido as suas vidas correndo atrás daquilo a que o apóstolo Paulo chamava a “sabedoria do mundo”. Os belos discursos, os argumentos construídos com lógica inatacável, a fascínio dos sistemas filosóficos bem construídos seduziam-nos e mantinham-nos agarrados a valores perecíveis. Dois mil anos depois, ainda continuamos a funcionar numa lógica semelhante: colocamos a nossa esperança e a nossa segurança no progresso científico, nas conquistas da medicina, nos sistemas económicos, nas promessas dos políticos, nas ideologias, nos discursos sedutores dos manipuladores da opinião pública, até mesmo na publicidade que nos promete por preços módicos a realização de todos os nossos sonhos… Nada disso seria especialmente grave se não nos fechasse num mundo de autossuficiência que nos afasta de Deus e da salvação que Ele nos oferece. Onde é que a “sabedoria do mundo” nos leva? A prescindir de Deus e dos seus dons? A uma vida virada apenas para os valores efémeros? Conseguiremos dar pleno sentido à nossa vida e saciar a nossa sede de eternidade simplesmente correndo atrás da “sabedoria do mundo”?
- À “sabedoria do Mundo” Paulo contrapõe a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria de Deus pode parecer algo de estranho e de incongruente à luz da nossa lógica humana; mas ela é, segundo o apóstolo Paulo, fonte de vida verdadeira e eterna. O que aconteceu com Jesus aponta exatamente nesse sentido: Ele aceitou prescindir das suas prerrogativas divinas, desceu até nós, assumiu a nossa humanidade, experimentou a nossa fragilidade, solidarizou-se connosco e partilhou as nossas dores, enfrentou corajosamente a injustiça e a maldade, foi condenado e sofreu uma morte maldita; mas, da Sua entrega brotou vida nova que inundou o mundo e transformou a história dos homens. Jesus mostrou-nos uma coisa que, mesmo depois de dois mil anos, ainda temos dificuldade em entender: o amor até às últimas consequências, o serviço aos outros, a vida “dada” até ao extremo, a renúncia a si próprio, são fonte de vida. Quem vive dessa forma não fracassa, não passa ao lado da vida, não é um vencido; quem vive dessa forma dá sentido pleno à sua existência. O que vale para nós a “sabedoria de Deus”? É a partir dela que construímos o nosso projeto de vida?
- O apóstolo Paulo – um homem limitado, que não possuía as qualidades humanas que os coríntios apreciavam nem o brilho arrebatador dos grandes “sedutores” de massas – é a prova provada de uma realidade mil vezes repetida na história da salvação: a força de Deus revela-se na fraqueza, na fragilidade, na pequenez. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes. Ele aproxima-se de nós em “pezinhos de lã”, sem nos assustar com a exibição da sua grandeza, e transforma o mundo e a história através de gente “improvável”, de gente que não figura entre os grandes do mundo. Estamos conscientes disto? Somos capazes de reconhecer a presença e a ação de Deus em tantas pessoas simples e bondosas que, sem darem nas vistas, iluminam o mundo e acrescentam humanidade à história dos homens? Uma vez conscientes do método de Deus para intervir na história dos homens, não percebemos como são ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de exibicionismo?
- Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem sempre ter presente que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Temos consciência de que, para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 5, 13-16
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».
CONTEXTO
Depois de nos dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confia (cf. Mt 4,12-18,35). No centro de tal missão está o anúncio de uma realidade a que Jesus chama o “Reino de Deus”. Esse anúncio é feito com palavras e com gestos.
As palavras de Jesus sobre o Reino de Deus ocupam um espaço bem significativo no Evangelho de Mateus. O evangelista agrupou a maior parte das palavras – ou “ditos” – de Jesus em cinco discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel recebeu na montanha do Sinai e guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).
O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.
Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. Em qualquer caso, a indicação geográfica não é inocente: lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade do Reino de Deus.
O “sermão da montanha” começa com as “bem-aventuranças” – um elenco dos valores fundamentais que devem ser assumidos para todos os interessados em seguir Jesus e em integrar a comunidade do Reino de Deus (cf. Mt 5,1-12). Mas Jesus não se fica por aí: completa o exórdio do “sermão da montanha” com duas parábolas (ou “ditos”) que indicam a missão daqueles que estão dispostos a viver segundo o espírito das “bem-aventuranças”. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Para que vivemos, cinquenta, setenta, noventa, cem anos? Que marca deixamos no mundo e na memória daqueles que se cruzam connosco no caminho da vida? A nossa ação e intervenção tem vindo a acrescentar alguma coisa à história dos homens? O que é que determina o êxito ou o fracasso da nossa existência? A nossa realização passará apenas por viver o mais comodamente possível, com um mínimo de complicações, de aborrecimentos e de contrariedades? As coisas corriqueiras e fúteis, a mediocridade e a banalidade, as diversões e os bens materiais, os prazeres e as satisfações efémeras, os triunfos e os aplausos, bastarão para dar sentido à nossa vida e para saciar a nossa sede de felicidade? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos o seu chamamento e que nos apaixonamos pelo seu projeto, em que moldes construímos a nossa existência de forma que ela faça pleno sentido?
- Jesus convida os seus discípulos a serem “sal da terra”. É uma imagem expressiva e desafiante. O sal serve, sobretudo, para dar sabor aos alimentos. Vivemos num mundo cada vez mais insípido, onde tudo é feito à medida da nossa pressa (até mesmo a “comida de plástico”), do nosso comodismo, do nosso egoísmo, da nossa instalação, da nossa alienação, da nossa dificuldade em assumir compromissos exigentes. Buscamos uma existência indolor e evitamos tudo aquilo que exige sacrifício, renúncia, esforço, entrega, verdadeira dedicação. “Sermos sal” seria, neste contexto, não termos medo do que é difícil, estarmos disponíveis para servir e para “curar” as feridas dos irmãos magoados pelas vicissitudes da vida, envolvermo-nos sem medo na luta contra as injustiças, gastarmos tempo a cuidar daqueles que ninguém quer e que ninguém ama, semearmos bondade e compaixão na vida daqueles que são marginalizados e condenados pelas sociedades ou pelas igrejas, darmos testemunho da bondade e do amor de Deus em todos os lados onde a vida nos levar. Estamos disponíveis para “fazer a diferença”, como o sal faz quando se mistura com os alimentos e faz sobressair o seu sabor?
- Jesus também pediu aos seus discípulos que fossem “luz do mundo” e que brilhassem diante dos homens. Mais de dois mil anos depois, o pedido de Jesus continua a fazer sentido. Apesar de todas as nossas conquistas e de todos os nossos êxitos, são muitas as sombras que escurecem o mundo e que obrigam os homens a perderem-se em caminhos sem saída, a tropeçarem no medo e no desespero, a ficarem prisioneiros de frivolidades e bagatelas, a não acertarem com o sentido da existência, a permanecerem parados no erro, a caminharem às apalpadelas sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Os seguidores de Jesus, iluminados pela luz que d’Ele brota e pela verdade do Evangelho, são chamados a dissipar, com as suas “boas obras”, as sombras que cobrem o mundo; são enviados por Jesus a apontar aos homens os caminhos luminosos que conduzem à vida verdadeira. Aceitamos o convite de Jesus para sermos testemunhas da luz? A luz de Deus brilha no mundo através das nossas boas obras?
- Durante muitos séculos vigorou um modelo de organização social e política conhecido como “regime de cristandade”: a filosofia e os valores do cristianismo permeavam e governavam todas as esferas da sociedade, incluindo as leis, as instituições, os costumes e as relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja exercia uma influência dominante, que ia além do domínio espiritual, moldando a totalidade da vida social e cultural. Entretanto, os tempos mudaram. Atualmente já não existe esse modelo. Os seguidores de Jesus estão mais diluídos na massa e têm menos visibilidade. Por outro lado, uma boa parte da sociedade parece menos interessada nos valores propostos por Jesus. Poderão ainda os discípulos de Jesus, neste novo cenário, serem “sal da terra” e “luz do mundo”? Jesus não hesitou em pedir isso ao seu pequeno grupo de discípulos quando eles eram um grupo ridiculamente insignificante no vasto e hostil império romano. Ele sabia que a força de Deus é capaz de se manifestar na fraqueza e na pequenez. Como nos sentimos quando somos chamados a dar testemunho de Jesus no meio dos nossos irmãos que seguem modelos diferentes dos nossos? Deixamo-nos dominar pelo desânimo, ou contagiamos os que nos rodeiam com a nossa paixão por Jesus?
- Para que o sal possa cumprir o seu papel, tem de ser misturado com os alimentos; para que uma luz possa iluminar “todos os que estão em casa”, não pode estar escondida debaixo do alqueire. Tudo isto parece-nos demasiado evidente. Mas temos sempre tirado daí as consequências que se impõem? Há entre nós quem, desagradado com a indiferença ou até mesmo a hostilidade do mundo, ache que a comunidade de Jesus deve fechar-se ao mundo, condenar o mundo e “cortar relações” com uma sociedade que não entende a proposta cristã. Poderemos ser “sal da terra” e “luz do mundo” fechados dentro das nossas igrejas ou dos espessos muros dos nossos conventos, limitados a atirar condenações lá para fora? Poderemos alhear-nos dos problemas e angústias, alegrias e esperanças dos homens, renunciando a contagiar o mundo com a proposta de Jesus? Uma Igreja que gasta todas as energias com os seus solenes rituais litúrgicos ou com a arrumação harmoniosa do calendário paroquial poderá dar sabor à vida moderna e oferecer aos homens a luz genuína do Evangelho?in Dehonianos.
Para os leitores
A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom exortativo que está presente em todo o texto. Na segunda parte do texto deve ter-se em atenção as diversas frases condicionais, aproveitando a expressividade que elas pretendem transmitir.
Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases mais longas e com diversas orações respeitando as pausas e respirações, articulando bem as diversas frases para uma clara compreensão do texto.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 (Isaías 58, 7-10)
- Leitura II do Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 ( 1 Coríntios 2, 1-5)
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – Lecionário
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – Oração Universal
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026

Viver a Palavra
Uma das imagens neotestamentárias que mais me impressiona é contemplar Jesus rodeado pelas multidões. Num contexto onde as notícias não tinham o suporte de comunicação que conhecemos hoje, ver como eram tantos os homens e mulheres que iam ao encontro de Jesus, diz-nos como a palavra e a ação de Jesus eram portadoras de uma força absolutamente transformadora. Com toda a certeza, naquelas imensas multidões estavam presentes as mais diversas motivações: os que se abeiravam movidos pela curiosidade dos milagres e feitos narrados, os doentes e fragilizados movidos pelo interesse nalguma cura ou milagre, os desanimados com tantas palavras banais que buscavam uma palavra de alento e de esperança doadora de sentido para a sua vida…. Tantos homens e mulheres, portadores de tão díspares motivações. Dois mil anos volvidos, integramos esta multidão de homens e mulheres que se colocam em torno de Jesus e, por isso, devemos também interrogar-nos quais são as motivações que invadem o nosso coração: porque quero seguir Jesus? O que me move a escutar a Sua palavra? Quais as motivações e interrogações que habitam o meu coração e me fazem ir ao encontro de Jesus e da comunidade?
Como as multidões de outrora colocamo-nos em torno de Jesus e Ele conduz-nos ao cimo do monte. O ensino de Jesus conduz-nos ao centro da vida cristã: as bem-aventuranças. A palavra de Jesus fala-nos da felicidade plena e verdadeira que exige atravessar o limiar da frágil condição humana: a pobreza, a humildade, as lágrimas, a fome e a sede, a necessidade da misericórdia, a exigente tarefa da construção da paz, a perseguição e o insulto.
As bem-aventuranças são o como afirmava o Papa Francisco: «o bilhete de identidade do cristão» e, por isso, continua o Santo Padre: «se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão?”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida. A palavra «feliz» ou «bem-aventurado» torna-se sinónimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (GE 63-64).
Jesus é o Bem-aventurado por excelência: é o pobre em Espírito que inaugura no tempo e na história o Reino dos Céus. Ele é Manso e Humilde de coração e, assim, o Seu coração torna-se uma escola onde queremos aprender em cada dia. Ele assume sobre si as nossas dores e angústias e chorando connosco enxuga as nossas lágrimas e anuncia o mistério da consolação. Ele que teve fome no deserto e sede no alto da Cruz sacia a nossa fome e sede e oferece o Seu Corpo como alimento e o Seu Sangue como bebida verdadeira. Ele é o rosto da misericórdia do Pai e faz-nos alcançar a misericórdia que o Seu coração cheio de amor e ternura distribui sobre cada um de nós. Ele é o puro de coração que pelo Sangue da Sua Cruz nos purifica de toda a imundice. Ele é o Príncipe da Paz que nos convida a viver como construtores da paz nova que o Seu amor veio trazer. Ele que foi perseguido, maltratado e insultado por amor do Reino dos Céus fortalece a nossa caminhada na exigente tarefa de ser testemunha do Seu amor.
Movidos pela proposta exigente das bem-aventuranças, reconhecemos como «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios», reconhecemos como a nossa pequenez e fraqueza só pode ser testemunho de graça e misericórdia, quando se deixa conduzir por Jesus até ao cimo do monte e, guiado pelas suas palavras, olha o mundo e a história com esse horizonte de plenitude que o amor de Deus oferece à nossa vida. in Voz Portucalense.
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O Evangelho deste Domingo propõe à nossa reflexão um texto absolutamente decisivo para a construção da nossa identidade cristã. Na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco oferece-nos uma belíssima meditação e interpelação acerca deste texto nos números 63 a 94. A leitura deste texto é um ótimo instrumento para o aprofundamento deste evangelho e pode ser um importante ponto de partida para um exercício de exame de consciência. Chamados à santidade, somos chamados ao caminho exigente das bem-aventuranças para que a nossa vida se conforme cada vez mais e melhor com a vontade de Deus. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Sofonias 2,3; 3,12-13
Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos.
Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor.
Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
que buscará refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
não tornará a dizer mentiras,
nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
Por isso, terão pastagem e repouso,
sem ninguém que os perturbe.
CONTEXTO
Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria (cf. 2Rs 16,7). Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios (cf. 2Rs 16,10-18). Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte (cf. 2Rs 21,3-9). Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá estava a precisar urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.
Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.
A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra (cf. Sf 1,2-2,3). Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.
O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- Os profetas são a voz de Deus que ecoa no mundo. Eles trazem-nos o sonho de Deus para o mundo e para os homens. Escutá-los é, frequentemente, questionarmo-nos sobre a forma como temos distorcido o projeto de Deus. Andamos há muitos séculos a construir um mundo e uma história onde os que “contam”, os que têm visibilidade, os que toda a gente inveja e aplaude, os que conduzem os destinos dos povos são os “fortes”, os ricos, os poderosos, os que se impõem aos outros, os que têm sede de poder e de protagonismo… Contudo, o profeta Sofonias diz-nos hoje que Deus não se revê nas lógicas, nas atitudes e nos valores dos ricos, dos orgulhosos, dos prepotentes, dos que dominam o mundo e pretendem construir a história dos homens sobre a injustiça, a mentira, a violência, a corrupção, a ganância. Sofonias, com a linguagem típica dos pregadores da sua época, garante: chegará o dia em que os orgulhosos e os prepotentes perceberão a estupidez das suas escolhas e se arrependerão pela forma como construíram as suas vidas. Nesse dia, Deus ficará do lado dos humildes e dos pobres e sentar-se-á com eles à mesa da vida eterna. O que achamos disto? O que nos sugere a preferência de Deus pelos humildes e pobres? A que tipo de gente queremos confiar a condução dos destinos dos homens e do mundo?
- Sofonias, traduzindo em linguagem humana as indicações de Deus, deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como “pobres”. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus. A catequese de Israel, talvez com alguma ingenuidade, apresenta-os como pessoas humildes, simples, pacíficas, bondosas, piedosas, generosas, justas, tementes a Deus, que vivem na escuta de Deus, que confiam incondicionalmente em Deus, que caminham na obediência às indicações de Deus. Deus ama-os como filhos muito queridos. O “pobre” é, no universo bíblico, o crente verdadeiro, o crente perfeito, o crente “modelo”. Identificamo-nos com este “modelo”?
- O profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um forte apelo à conversão. Diz mesmo que não há outra saída – para quem quer viver uma vida com sentido – senão optar por uma mudança efetiva, uma mudança radical na maneira de pensar e de agir. A “conversão”, na teologia profética, significa abandonar os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da mentira, da injustiça e “voltar para trás”, ao encontro de Deus; significa reencontrar-se com Deus, escutar e acolher novamente as indicações de Deus, passar a trilhar outra vez os caminhos de Deus, deixar-se guiar por Deus e pelos seus mandamentos. Pessoalmente, estamos dispostos a renunciar, na construção da nossa vida, a uma lógica de prepotência, de orgulho, de ambição, de autoritarismo, de autossuficiência? Estamos dispostos a voltar para Deus e a viver “segundo Deus”? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10
Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.
Refrão 2: Aleluia.
O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.
O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.
O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.
O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.
LEITURA II – 1 Coríntios 1, 26-31
Irmãos:
Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».
CONTEXTO
Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.
Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.
Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.
Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- O que é que dá sentido à nossa vida? O que é que determina o nosso êxito ou o nosso fracasso? O que é que faz que a nossa vida valha a pena? Muitos acreditam que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos: a família em que se nasceu, a escola que se frequentou, os títulos que se obtiveram, o poder que se conquistou, a capacidade intelectual, a competência profissional, o reconhecimento social, o bem-estar económico… O apóstolo Paulo avisa que colocar a própria esperança e a própria segurança em fatores de âmbito puramente humano é apostar no “cavalo errado”. Os fatores humanos falham, são contingentes, têm validade limitada, são incapazes de saciar a nossa sede de vida eterna. Paulo propõe, em contrapartida, que nos dispúnhamos a acolher a “loucura da cruz” e que optemos por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. O que pensamos disto? A indicação de Paulo fará sentido? Dispomo-nos a abraçar a lógica de Deus e a buscar a nossa plena realização nos valores de Jesus e do Evangelho?
- Paulo afirma que Deus escolhe os pequenos, os pobres, os humildes, os mais frágeis, aqueles que tantas vezes a sociedade não valoriza, aqueles que não são mencionados nos livros de história, aqueles que nunca são convidados para os eventos sociais, aqueles que são invisíveis aos olhos dos homens para, através deles, concretizar a sua obra de salvação. É precisamente nessa fragilidade que se revela a força de Deus. Somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos nossos irmãos mais humildes, mais esquecidos, naqueles que na sua humildade passam despercebidos, naqueles que não têm voz nem vez? Que valor lhes damos?
- Paulo convida os cristãos de Corinto a não perderem de vista Cristo Jesus, “o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção”. Com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor até ao extremo, com a sua obediência ao Pai, com o seu anúncio do Reino de Deus, Cristo apontou-nos o caminho que conduz à vida verdadeira. Cristo é, para nós, o mestre da verdadeira sabedoria? Caminhamos atrás d’Ele sem o perder de vista? Abraçamos sem hesitar a sabedoria que Ele nos propõe, mesmo quando ela está em contradição com a sabedoria do mundo? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 5,1-12
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
CONTEXTO
Depois de nos apresentar Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou (cf. Mt 4,12-18,35). No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.
Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).
O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias (cf. Mt 4,25), conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, ao fumo, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo (cf. Ex 19,16.18), nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação (cf. Ex 19,12.21): na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo (cf. Mt 5,1). Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.
As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Dois mil anos depois de Jesus ter feito o “sermão da montanha”, as “bem-aventuranças” continuam a soar aos nossos ouvidos de uma forma estranha e paradoxal. Deixam-nos perplexos e algo desconcertados, pois apontam num sentido que parece ir contra o senso comum. Parecem subverter todas as nossas lógicas e contradizer tudo aquilo que sabemos sobre êxito e fracasso. São um desafio que ameaça todas as nossas certezas e seguranças, a nossa sabedoria convencional e a nossa organização social. Poderão realmente ser um caminho para a felicidade e para a plena realização do ser humano? Jesus tem razão quando garante que a verdadeira felicidade se alcança por caminhos completamente diferentes dos que a sociedade atual propõe? As “bem-aventuranças” serão uma desculpa de fracassados, conversa de gente que não tem coragem para competir, para se impor, para triunfar, ou serão uma forma de construir um mundo diferente, mais justo, mais humano e mais fraterno? O nosso mundo ganharia alguma coisa se abandonássemos a competitividade e a luta feroz pelo êxito humano e optássemos por viver na lógica das “bem-aventuranças”? Seríamos mais livres e mais felizes se renunciássemos a certos valores que a sociedade impõe e passássemos a viver de acordo com os valores propostos por Jesus?
- “Felizes os pobres em espírito”. Os “pobres em espírito” são aqueles que, sem bens materiais, sem a proteção dos poderosos, sem seguranças humanas, se entregam confiadamente nas mãos de Deus, colocam toda a sua esperança em Deus, acolhem de braços abertos as indicações de Deus. Apresentam-se com humildade, desconhecem a arrogância e a autossuficiência, estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos, são uma luz que brilha na noite do mundo. É assim que vivemos?
- “Felizes os que choram”. Na verdade, Deus não gosta de nos ver sofrer e chorar. O choro que resulta da doença sem remédio, das ofensas contra a nossa dignidade, das feridas que as injustiças deixam, não é uma coisa boa. Mas Jesus diz que Deus irá consolar os que choram, dar-lhes força para vencer as dificuldades, ficar do lado deles, eliminar as causas do seu sofrimento. Então, vencidos os motivos das lágrimas, os que choram voltarão a rir. Confiamos em Deus, no seu cuidado, no seu amor, mesmo quando as lágrimas não nos deixam ver as estrelas?
- “Felizes os mansos” (os “humildes”). Vivemos num mundo competitivo e agressivo, onde a violência explode pelas razões mais fúteis. O não responder à violência com uma violência igual ou maior será uma estupidez, ou será sinal de que somos filhos de um Deus misericordioso e compassivo? Se não desarmarmos a espiral de violência e de ódio que envolve tantos problemas e povos, qual o futuro da humanidade? Como é que nós, pessoalmente, reagimos quando somos atropelados pela violência e pela injustiça?
- “Felizes os que têm fome e sede de justiça”. Os “que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se preocupam genuinamente em acertar, em serem fiéis aos compromissos que têm com Deus, em fazerem aquilo que é “de justiça”. Passamos ao lado da vida se vivemos de forma ligeira, distraída, perdendo oportunidades, sem cumprir a missão que nos foi confiada. Somos gente que leva a sério os compromissos que tem com Deus e com os irmãos, que procura estar sempre atento para fazer o que deve fazer?
- “Felizes os misericordiosos”. Nunca, em nenhuma outra época da história, estivemos tão conectados uns com os outros; nunca, em nenhuma outra época da história, pudemos acompanhar tão de perto, em tempo real, os dramas e as angústias dos nossos irmãos; e nunca, em qualquer outra época da história, nos fechamos tanto aos sofrimentos dos outros. Globalizou-se a indiferença; fechamo-nos no nosso egoísmo e passamos ao lado de quem sofre sem nos determos. Sentimo-nos responsáveis pelos nossos irmãos? Somos testemunhas, junto deles, do Deus misericordioso e compassivo?
- “Felizes os puros de coração”. Os “puros de coração” são aqueles que não vivem escravizados a deuses efémeros, não pactuam com coisas duvidosas, não constroem as suas vidas sobre mentiras e enganos. Num mundo de onde o que é verdade de manhã é mentira à tarde e o “chico-espertismo” é um modo de vida, os “puros de coração” representam a honestidade, a verticalidade, a fidelidade aos valores e aos compromissos. Somos fiáveis, “de confiança”, na nossa relação com Deus e com os irmãos? Somos testemunhas do Deus sempre fiel, que nunca nos trai nem engana?
- “Felizes os que promovem a paz”. Os conflitos, as guerras, as violências eclodem por todo o lado, causam um sofrimento indizível e erguem barreiras de ódio que separam os homens. Alguns, no entanto, os que “são chamados filhos de Deus”, procuram derrubar esses muros, construir pontes de entendimento e de diálogo, fomentar a fraternidade, a solidariedade, o encontro, a comunhão. Somos construtores de muros que separam, ou de pontes que aproximam? Aceitamos ser, no meio dos nossos irmãos, arautos da reconciliação e promotores da paz?
- “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça”. Hoje como ontem, aqueles que se mantêm fiéis a Deus e lutam para que o plano de Deus se concretize no mundo e na história desagradam aos donos do mundo; por isso são perseguidos, desautorizados, ridicularizados condenados, silenciados… Alguns desistem e preferem não correr riscos, não andar contra a corrente, não incomodar os fazedores de opinião que ditam o certo e o errado; outros insistem a tempo e fora de tempo, em serem sinais e testemunhas da vida de Deus. E nós, de que lado ficamos?
- As “bem-aventuranças” dão-nos um retrato bem bonito do coração paternal e maternal de Deus. Garantem-nos que Deus é sensível ao sofrimento dos seus filhos e que sente um carinho especial pelos que sofrem mais. Ele está sempre disponível para confortar os que estão feridos e magoados e para os ajudar a sair da sua triste situação. Como é que vemos e sentimos esta “sensibilidade” de Deus pelos mais frágeis e pequenos? Agrada-nos? É para nós fonte de esperança? O carinho de Deus pelos que precisam mais de amor inspira-nos e leva-nos a cuidar especialmente dos nossos irmãos que a vida maltrata? in Dehonianos.
Para os leitores
A primeira leitura exige uma acurada preparação das pausas e respirações, articulando as diferentes frases e orações para uma correta proclamação do texto.
Na segunda leitura, deve prestar-se atenção ao tom exortativo que Paulo emprega e ter especial cuidado na expressão «naturalmente falando» que indica o tom coloquial do discurso. A frase final que se encontra entre aspas marca o culminar do texto e deve ser pronunciada com especial cuidado.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 (Sofonias 2, 3_3, 12-13)
- Leitura II do Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 (1 Coríntios 1, 26-31)
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – Lecionário
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – Oração Universal
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026
- O que ficou do 7º Domingo da Palavra de Deus
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026
7º Domingo da Palavra de Deus

Viver a Palavra
A Liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a olhar a nossa vida como um lugar dinâmico, onde seguir Jesus implica uma permanente conversão que abre a nossa vida ao desígnio de salvação que Deus nos oferece em Cristo.
As trevas são vencidas pela luz esplendorosa que brota do Coração de Deus: «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou». Na verdade, peregrinando os trilhos da história são muitas as sombras que nos assaltam no caminho, contudo, elas não têm a última palavra. No provisório da dor e do sofrimento, irrompe a certeza incorruptível de que o amor de Jesus e a Sua luz são mais fortes que as trevas e sombras que nos envolvem. Uma doença, a partida de alguém que amamos, a falta de esperança diante das dificuldades e tantos outros desafios e obstáculos fazem parte da nossa condição humana e esta difícil e exigente condição seriam catastróficas se estivéssemos abandonados unicamente à nossa capacidade humana. Somos obra das mãos de Deus, salvos e redimidos pelo amor de Jesus Cristo e olhamos a nossa existência e as vicissitudes da história com o olhar amoroso Daquele que por nós morreu e ressuscitou.
Como outrora Simão e André, Tiago e João também nós contemplamos Jesus que atravessa o nosso quotidiano, vem ao nosso encontro, às fadigas e canseiras das nossas redes tantas vezes vazias. Irrompendo no concreto da nossa história, Jesus propõem-nos um novo rumo e um novo sentido: «Vinde e segui-Me».
Parece tão vaga a proposta. Contudo, seguir Jesus é a escolha decisiva que inaugura um tempo novo na nossa existência. Não quer dizer que por seguirmos Jesus as dificuldades deixarão de fazer parte da nossa vida. Contudo, elas ganharão uma forma diferente, pois diante das contingências da nossa história, está Jesus, Aquele que quando nos toma pela mão nunca nos abandona.
No texto do Evangelho que escutamos neste Domingo estão intrinsecamente unidos o seguimento e a conversão. Seguir Jesus implica entrar num processo de permanente conversão e, por isso, sentimos ecoar no nosso coração as primeiras palavras de Jesus dirigidas à humanidade no Evangelho de S. Mateus: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».
A proximidade de Deus revelada em Jesus Cristo impele-nos a uma permanente revisão de vida, onde o reconhecimento da nossa condição frágil e pecadora em nada nos inferioriza, mas se torna precisamente a oportunidade de crescimento e amadurecimento rumo à santidade, ao cumprimento das promessas do Reino que já está no meio de nós, mas que ainda não se realizou em plenitude.
Sem qualquer complexo de inferioridade reconhecemos que não somos perfeitos e tomamos consciência que esta fragilidade e debilidade são um caminho e um lugar constante de mudança e de aperfeiçoamento. Por isso, a conversão e o arrependimento dão lugar à salvação. A conversão é a arte de afinar o coração com a vontade de Deus e, neste permanente afinar do coração, encontramos o caminho da verdadeira felicidade.
Contudo, a tarefa da conversão e do seguimento de Jesus não é uma aventura isolada. Jesus convoca estes primeiros discípulos dois a dois, recordando que não partimos sozinhos, mas partilhando a aventura da fé com tantos outros homens e mulheres que partilhando a mesma condição frágil e pecadora, partilham também a certeza de terem encontrado em Jesus Cristo Aquele que dando um sentido novo à sua vida, os impele a deixar tudo, para abrirem o coração à novidade do Seu Evangelho. Por isso, Paulo escrevendo à comunidade de Corinto recorda que a comunhão e unidade devem ser a marca distintiva daqueles que querem seguir Jesus. Convocados pelo Seu amor, partimos unidos para que a nossa fraternidade seja o mais belo anúncio de que a Luz que despontou nas trevas nos aponta o horizonte luminoso da salvação que nos é oferecido em Jesus Cristo. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 8,23b-9,3
Assim como no tempo passado
foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali,
também no futuro será coberto de glória
o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam nas sombras da morte
uma luz se levantou.
Multiplicastes a sua alegria,
aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença,
como os que se alegram no tempo da colheita,
como exultam os que repartem despojos.
Vós quebrastes, como no dia de Madiã,
o jugo que pesava sobre o povo,
o madeiro que ele tinha sobre os ombros
e o bastão do opressor.
CONTEXTO
O profeta Isaías (autor dos caps. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.
Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos. Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza” (Is 8,3).
O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irónico com as mulheres da classe alta de Jerusalém (cf. Is 3,16-24; 32,9-14). Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).
Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., altura em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.
Em 721 a.C. o rei assírio Sargão II invadiu o reino do Norte (Israel), tomou a Samaria e deportou uma parte da sua população para a Assíria. As melhores terras da Samaria foram ocupadas por colonos assírios que se instalaram na região e se misturaram com a população local. Esse acontecimento histórico inaugurou uma época de desolação e de trevas para as tribos do Povo de Deus que ocupavam a região setentrional da Palestina, nomeadamente os antigos territórios de Zabulão e de Neftali, e toda a região da Galileia.
No sul do país, Ezequias (716-687 a.C.) subiu ao trono de Judá alguns anos depois da queda da Samaria. Era a época em que o poder militar assírio se impunha em toda a região. Durante algum tempo, Ezequias evitou envolver-se nos jogos da política internacional, a fim de não proporcionar aos assírios pretextos para invadir Judá. Mas em 705 a.C., após a morte de Sargão II, Ezequias, desdenhando as indicações do profeta Isaías (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros eram sintoma de grave infidelidade para com Javé, pois significavam colocar a confiança e a esperança nos homens), enviou embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia, procurando consolidar uma frente política e militar capaz de lutar contra os desígnios imperialistas dos assírios. Senaquerib, o sucessor de Sargão II no trono assírio, dispôs-se imediatamente a castigar as nações que desafiavam o poderio assírio. Tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, invadiu finalmente Judá, devastou o país e pôs cerco a Jerusalém (701 a.C.). O rei Ezequias teve de submeter-se e ficou a pagar um pesado tributo à Assíria.
Nesta circunstância, o profeta Isaías assumiu uma atitude bastante crítica em relação aos dirigentes de Judá, considerando-os incapazes de governar de forma sensata e de conduzir o povo de Deus em direção à paz e à prosperidade. Desiludido com os líderes humanos, o profeta começou a pensar numa intervenção de Deus que derrotasse os opressores e devolvesse a Israel e a Judá a liberdade e a paz. O texto que a liturgia deste terceiro domingo comum nos propõe como primeira leitura poderia entender-se neste contexto. in Dehoniano
INTERPELAÇÕES
- Os dramáticos acontecimentos históricos da época de Isaías não foram um caso isolado. Infelizmente, a história dos homens – a mais recuada, mas também a dos nossos dias – regista a cada instante situações intoleráveis de opressão, de injustiça, de violência, que trazem sofrimento a milhões de inocentes, vítimas da prepotência e da ambição dos poderosos. No meio de tudo isto, onde está Deus? Ele passa ao lado do sofrimento dos seus filhos que sofrem sem lhes fazer justiça? Ele deixa que os grandes, os violentos, os poderosos, atuem impunemente? Deus fica indiferente quando os seus queridos filhos gemem sob o peso insuportável da maldade de outros homens? O profeta Isaías tinha a certeza de que Deus se importa com o sofrimento dos seus filhos e intervirá para lhe pôr cobro. O oráculo de Isaías que ouvimos hoje deixa-nos essa garantia. Deus sempre esteve e sempre estará do lado dos oprimidos, dos injustiçados, dos sofredores. Talvez Deus, por razões que só Ele sabe, não atue logo e demore algum tempo a repor a justiça; talvez nós, que queremos sempre tudo “para ontem”, nem sempre consigamos entender os vagares de Deus; mas Deus – o Deus que preside à história e que não ignora o sofrimento dos seus filhos – há de atuar e mudar as trevas em luz, a opressão em liberdade, a morte em vida. Acreditamos nisto? É com essa certeza que enfrentamos as “sombras” do nosso tempo?
- O nosso texto não explica como é que Deus vai atuar no sentido de restabelecer a justiça e mudar as trevas em luz (o oráculo de Isaías irá dizê-lo mais à frente, nuns versículos que a leitura deste domingo não conservou: Deus irá enviar à humanidade um “menino”, o “Príncipe da paz”, que inaugurará um reino novo de prosperidade e de vida para todos os homens – cf. Is 9,5-6). Nós, contudo, percebemos logo que Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para nos anunciar e propor o “Reino de Deus”, tem um papel fundamental no projeto de Deus. Ele veio acender uma luz que ilumina as trevas que cobrem a Galileia e o resto do mundo. Porque é que, dois mil anos depois de Jesus, a luz que Jesus trouxe ainda não ilumina as sombras que cobrem o mundo? Jesus não foi claro quando nos disse o que devemos fazer para vencer a violência, a injustiça, a morte? Será que temos levado a sério tudo o que Jesus nos ensinou? Depois de Deus ter feito tudo o que fez para nos indicar o caminho da justiça, do amor e da paz, podemos culpá-lo pelas sombras que ameaçam o nosso mundo?
- Jesus reuniu à sua volta um grupo de discípulos e ensinou-os a viver na lógica do Reino de Deus. Mostrou-lhes os valores sobre os quais, segundo Deus, deve assentar a ordem do mundo – a justiça que traz paz, o perdão sem limites, o serviço simples e humilde, o amor sem fronteiras, o dom da própria vida em benefício de todos – e enviou-os a anunciar a todos os homens o Reino de Deus. Nós, que aderimos a Jesus, que nos dispusemos a segui-l’O, que aceitamos ser suas testemunhas, temos sido arautos do Reino de Deus? Esforçamo-nos, dia a dia, por tornar realidade esse mundo novo de justiça, de amor e de paz? Como lidamos com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do Reino de Deus entre os homens?
- O profeta Isaías conhecia bem os notáveis de Judá: frequentava os ambientes da corte e participava nas decisões relativas ao Reino; falava com autoridade aos altos funcionários e mesmo aos reis. No entanto descobriu, a certa altura, que os homens são falíveis, que os dirigentes se equivocam, que as desilusões esperam-nos ao virar da esquina, que nem tudo o que reluz é ouro. Isaías descobriu que só Deus é absoluto, só Deus não falha; é n’Ele e só n’Ele que podemos colocar, com plena certeza, a nossa confiança e a nossa esperança. Trata-se de uma boa dica para nós. Em quem ou em quê colocamos a nossa confiança? Em quem ou em quê assentamos as nossas vidas? Onde está a “rocha segura” a que podemos agarrar-nos sem vacilar no meio das tempestades e das crises que temos de enfrentar ao longo do nosso caminho na terra? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 26 (27)
Refrão 1: O Senhor é minha luz e salvação.
Refrão 2: O Senhor me ilumina e me salva.
O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei de temer?
O Senhor é protetor da minha vida:
de quem hei de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.
LEITURA II – 1 Coríntios 1,10-13.17
Irmãos:
Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma linguagem
e que não haja divisões entre vós,
permanecendo bem unidos,
no mesmo pensar e no mesmo agir.
Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé,
que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga:
«Eu sou de Paulo», «eu de Apolo»,
«eu de Pedro», «eu de Cristo».
Estará Cristo dividido?
Porventura Paulo foi crucificado por vós?
Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo?
Na verdade, Cristo não me enviou para batizar,
mas para anunciar o Evangelho;
não, porém, com sabedoria de palavras,
a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.
CONTEXTO
Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos, e aos sábados usava da palavra na sinagoga. Como resultado da sua pregação, nasceu a comunidade cristã de Corinto. Paulo ficou na cidade cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52).
A dada altura, porém, os líderes da comunidade judaica reprovaram o testemunho que Paulo dava sobre Jesus e expulsaram-no da sinagoga (cf. At 18.6). Paulo decidiu então dedicar-se à evangelização dos pagãos. Os judeus, no entanto, acusaram-no de atividades contrárias à fé judaica e levaram-no diante de Galião, procônsul da Acaia, para ser julgado. Galião, a quem essas questões religiosas típicas dos judeus não interessavam, recusou-se a tomar posição. De Corinto, Paulo foi para Éfeso e de lá voltou a Antioquia da Síria, a cidade de onde tinha partido em missão.
Paulo continuou, contudo, em contacto com a comunidade cristã de Corinto. Sempre solícito, sempre interessado, Paulo recebia notícias e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus amigos de Corinto enfrentavam.
Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes (levadas “pela gente de Cloé” – 1Co 1,11) sobre a comunidade de Corinto. Após a sua partida da cidade, tinha aparecido em Corinto um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Na pregação, Apolo era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1Cor 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, o “apóstolo” que levou o Evangelho de Jesus ao encontro do mundo greco-romano, tinha ideias absolutamente claras sobre aquilo que é decisivo na experiência cristã: o encontro, a adesão, o seguimento de Jesus Cristo. Isso é algo que há muito assumimos? Talvez. Isso é algo que temos sempre presente diante dos olhos e que marca cada passo que damos no caminho da fé? Talvez não. Por vezes falamos mais de leis canónicas e de rituais litúrgicos do que da Palavra de Jesus; por vezes preocupamo-nos mais com a organização de uma estrutura paroquial eficiente do que com o conhecimento e a escuta de Jesus; por vezes confiamos mais em líderes religiosos ou políticos do que em Jesus; por vezes ligamos a nossa experiência de fé mais a figuras humanas (veneráveis e santas, claro, mas humanas) do que a Jesus. Cristo é, de facto, a nossa referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a nossa experiência de fé se constrói? Os erros e as falhas das pessoas que encontramos na comunidade cristã são para nós razão para nos afastarmos do caminho da fé? A nossa participação na vida da comunidade eclesial é condicionada ao facto de “estar lá” determinada pessoa?
- Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que acreditar em Cristo e fazer parte do “Corpo” de Cristo (a Igreja) é incompatível com os “partidos”, as querelas, as disputas, os ciúmes, os conflitos que fraturam a comunidade e deixam feridas incuráveis no tecido comunitário. Poderá Cristo estar dividido? Os conflitos e as divisões serão compatíveis com a proposta de Jesus? As guerras e rivalidades dentro de uma comunidade cristã não serão um sinal evidente de que estamos a ser conduzidos não por Cristo, mas sim pelos nossos interesses, pelo nosso orgulho, pela nossa vaidade, pela nossa autossuficiência, pelo nosso egoísmo? A nossa comunidade cristã dá testemunho de harmonia, de comunhão, de entendimento, de concórdia, de solidariedade, de amor verdadeiro? Alguma vez fomos, na comunidade, fator de desunião, de conflito, de divisão?
- A Igreja de Jesus é santa e pecadora. As pessoas que a constituem são chamadas à santidade, mas experimentam a cada instante a fragilidade inerente à condição humana. Por isso, casos de abuso de poder, de prepotência, de culto da personalidade, de ambição, podem aparecer, aqui e ali, em pessoas a quem foram atribuídas funções de responsabilidade na animação das comunidades cristãs. Embora compreendamos as falhas que a esse nível possamos testemunhar, convém também saber que isso não é “normal” ou “aceitável”. Ninguém tem o direito de se apresentar como “dono da comunidade” e de tratar os irmãos com sobranceria; ninguém tem o direito de desviar o foco de Cristo para o dirigir para si próprio. Como vemos essas situações? Como lidamos com elas? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 4,12-23
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
CONTEXTO
Depois de ter recebido o batismo no rio Jordão, Jesus permaneceu algum tempo no deserto, talvez ligado a João Batista. O tempo passado no deserto foi, para Jesus, um tempo de preparação para a missão. É natural que, durante esse tempo, Jesus tenha refletido sobre a missão que o Pai Lhe confiava e tenha definido as grandes linhas do seu ministério. Sentiu que o tempo de preparação para a intervenção de Deus, de que João falava, tinha terminado e que começava um tempo novo, o tempo da salvação. Jesus achava que essa nova etapa da história da salvação estava ligada à sua pessoa e ao seu ministério: Deus enviava-O a anunciar a presença de Deus na história dos homens – o “Reino de Deus”.
Então, Jesus deixou o deserto onde tinha passado algum tempo e deslocou-se para a terra habitada de Israel. A salvação de Deus ia ao encontro dos homens nos lugares onde eles viviam e trabalhavam. Transformado em profeta itinerante, Jesus pretendia percorrer as aldeias e vilas da Galileia para anunciar a todos a chegada de Deus, desse Deus misericordioso e bom, que vinha oferecer uma vida mais digna e mais humana a todos os seus queridos filhos. Estávamos no ano 28 e Jesus teria uns trinta e dois anos.
Jesus dirigiu-se para a Galileia, a região que conhecia bem pois aí tinha passado a maior parte da sua vida. A Galileia tinha a vantagem de ficar longe de Jerusalém, havendo por isso menos controle por parte das autoridades religiosas judaicas. Jesus, no entanto, não se instalou na pequena aldeia de Nazaré, onde vivia a sua família, mas estabeleceu-se em Cafarnaum, cidade situada na margem do lago de Tiberíades, também chamado Mar da Galileia. A cidade tinha entre 1.000 e 1.500 habitantes. Parte dos habitantes de Cafarnaum viviam da agricultura; os outros eram pescadores, comerciantes e artesãos. Em Cafarnaum funcionava uma alfândega onde os funcionários – os cobradores de impostos – controlavam o movimento de uma importante via comercial pela qual chegavam mercadorias de grande valor vindas do oriente. A cidade contava ainda com uma guarnição romana constituída por cerca de cem soldados. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Hoje como ontem, há sempre homens e mulheres que habitam “na sombria região da morte”. São as vítimas da prepotência, da maldade e da ambição dos poderosos; são os condenados à fome, à violência, à miséria, à escravatura; são aqueles que deixamos para trás, abandonados nas bermas da estrada da vida; são os despojados dos seus direitos e da sua dignidade pelo egoísmo dos seus irmãos; são aqueles que as sociedades e as igrejas ignoram e marginalizam; são aqueles que se sentem malditos e indignos, abandonados por Deus e pelos homens… A vida deles estará perdida? Deus não tem nada para lhes oferecer? É a esses que, em primeiro lugar, é dirigida a Boa Notícia que Jesus apregoou por toda a Galileia e que mandou os seus discípulos espalhar por todo o mundo: “Deus não se conforma com o vosso sofrimento e não vos abandona; Ele vem ao vosso encontro para mudar a vossa triste situação e para vos oferecer a possibilidade de viverdes uma vida nova, uma vida com sentido; Deus vai atuar para fazer nascer um mundo novo, um mundo que seja construído conforme o seu projeto”. Talvez este anúncio, diante da realidade que vemos todos os dias, nos pareça apenas uma bela quimera sem concretização… Mas Jesus não mente: a verdade é que Deus está empenhado em fazer aparecer um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, onde os seus queridos filhos possam viver felizes e em paz. Acreditamos que Deus está a trabalhar para fazer nascer, aqui e agora, o Reino de Deus? O que falta para que o projeto de Deus se concretize e mude a face da terra? Aceitamos ser colaboradores de Deus na construção desse mundo novo?
- Jesus enlaçou o anúncio da chegada do Reino com um convite à conversão. Ele tinha razão. O Reino de Deus só será possível se fizermos uma “inversão de marcha” na nossa vida, se mudarmos os nossos esquemas e comportamentos, a nossa maneira de pensar, a nossa forma de agir, o nosso olhar sobre o mundo e sobre os nossos irmãos, os valores que colocamos no centro da nossa existência… Convertermo-nos implica despirmo-nos do egoísmo, da ambição mesquinha, da vaidade, dos tiques de autoritarismo e de intolerância; implica vencermos o comodismo, a instalação, a preguiça, a indiferença face às necessidades dos irmãos; implica a superação da autossuficiência, do isolamento, do orgulho que nos impedem de ver os nossos irmãos sofredores; implica a renúncia a qualquer tipo de violência, de dominação do outro, de compromisso com a injustiça; implica deixarmos de colocar no centro da nossa vida os bens efémeros; implica renunciarmos à mentira, à corrupção, à desonestidade, às trevas… O que é que na nossa vida, nas nossas opções, nos nossos comportamentos constitui um obstáculo à chegada do Reino de Deus?
- Jesus, pouco depois de começar a propor o Reino de Deus, encontrou Simão Pedro, André, Tiago e João nas margens do Mar da Galileia, junto de Cafarnaum, e convidou-os a segui-l’O. Começou assim a constituir-se, de forma muito modesta, a comunidade do Reino de Deus. Neste “seguimento” de Jesus está o núcleo central que define a experiência cristã. Ser cristão não é confessar um “credo”, ou aderir a uma proposta moral, ou cumprir determinados ritos, ou recitar determinadas fórmulas; mas é, antes de mais, seguir atrás de Jesus, escutá-l’O a cada instante, inspirar-se n’Ele, viver ao seu estilo; seguir Jesus é acreditar no que Ele acreditava, interessar-se pelas coisas que O interessavam, defender as causas que Ele defendia, olhar os homens como Ele olhava, amar as pessoas como Ele amava, confiar em Deus como Ele confiava… Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Jesus e para segui-l’O sem reservas, com a mesma decisão e a mesma convicção de Pedro, André, Tiago e João? O nosso caminho de fé é um caminho “de discípulos”, um caminho que nos faz avançar tendo sempre Jesus como referência? Como é que vivemos, hoje, o seguimento de Jesus?
- Quando chamou os seus primeiros discípulos e os convidou a segui-l’O, Jesus disse-lhes que contava com eles para serem “pescadores de homens”. O que é que Ele queria dizer? Há muita gente mergulhada num imenso mar de sofrimento, de angústia, de medo, de injustiça, de privações, de morte. Ontem como hoje, é tarefa dos discípulos de Jesus libertá-los desse mar, devolvê-los à vida, curá-los das suas feridas, abrir-lhes as portas da esperança. Trata-se de continuar a missão de Jesus, que andava pela Galileia “curando todas as doenças e enfermidades entre o povo”; trata-se de construir o Reino de Deus”, de fazer nascer um mundo mais justo, mais são, mais fraterno, mais solidário, mais belo e mais feliz. Nós, os que escutamos o chamamento de Jesus e nos dispusemos a segui-l’O, estamos disponíveis para colaborar com Ele na construção do Reino de Deus e para sermos “pescadores de homens”, arautos da salvação de Deus? in Dehonianos.
Para os leitores
Na primeira leitura, deve ter-se em atenção a pronunciação dos nomes das regiões «Zabulão», «Neftali» e «Madiã». Além disso, a proclamação desta leitura deve ser marcada pela alegria e esperança da luz que desponta nas trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça, do sofrimento, do desespero.
Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases longas e com diversas orações que requerem um especial cuidado nas pausas e respirações para uma leitura mais articulada do texto. Devem ter presente o tom exortativo que marca todo o texto e uma correta pronunciação das frases interrogativas, evitando a acentuação interrogativa das frases apenas no final de cada oração.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 (Isaías 8, 23b-9,3 (9,1-4))
- Leitura II do Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 (1 Coríntios 1, 10-13.17)
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – Lecionário
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – Oração Universal
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo III do Tempo Comum – Ano A -25.01.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026

Viver a Palavra
A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao cerne da nossa vida cristã: sonhados e amados por Deus desde o seio materno, somos chamados a viver a experiência única e pessoal do encontro com Jesus Cristo que nos desafia a encontrar na Sua vontade um caminho de realização e felicidade que nos constitui como apóstolos da alegria do Evangelho, para que a Igreja seja um rasto de luz para todos os povos e nações. Deste modo, os diversos textos proclamados neste Domingo apresentam-nos a dinâmica da nossa vida cristã, num horizonte responsorial, isto é, chamados e convocados pela misericórdia de Deus que nos precede sempre, somos convidados a responder generosamente ao seu projeto de amor.
A disponibilidade para o acontecer de Deus nas nossas vidas nasce da certeza de que o Seu amor nos precede, acompanha e aponta um horizonte de realização e felicidade absolutamente novo. Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade». A vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo como nos testemunha S. Paulo quando afirma que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4). Quantas vezes na procura de uma razão diante de uma desgraça, já ouvimos dizer: «foi a vontade de Deus». Na verdade, a vontade de Deus não pode ser a justificação para aquilo que não conseguimos responder. A vontade de Deus é um desígnio amoroso de salvação e, por isso, responder com generosidade e disponibilidade à Sua vontade é caminhar pela estrada da felicidade verdadeira que tem como nome a santidade.
O caminho de descoberta da vontade de Deus a nosso respeito brota da experiência que João Baptista nos testemunha no Evangelho: «eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». João Baptista testemunha aquilo que viu e experimentou e não apenas uma noção teórica e abstrata. Seguir Jesus Cristo implica necessariamente fazer esta experiência do Seu amor, tal como afirma o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus caristas est: «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).
Este encontro decisivo transforma a vida e o coração de tal modo que toda a nossa vida se molda a partir desta experiência. É assim que aparece João Baptista como figura de charneira, apontando o «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo», testemunhando a presença Daquele que os profetas anunciaram e que a humanidade esperava. João Baptista está do outro lado do Jordão, no lugar onde o Povo de Israel se deteve para preparar a entrada na Terra Prometida. Ele é referência fundamental do nosso ser cristão porque nos ensina a arte de apontar para Jesus, de se saber retirar para que Ele tenha lugar, de proporcionar aos outros a experiência do encontro com Aquele que dá sentido à nossa vida.
Com toda a certeza, lendo a nossa história, encontramos pessoas que foram para nós lugares de encontro com Jesus, pessoas capazes de sair de si mesmas para apontar esse horizonte de realização e felicidade que só em Cristo se pode encontrar. Louvando o Senhor pela vida de tantos e tantas que nos mostraram o rosto de Jesus, comprometemo-nos em ser também nós testemunhas de Jesus com a humildade e a ousadia de João Baptista, anunciando ao mundo que não há aventura mais bela do que fazer das nossas vidas lugares de beleza que testemunham a presença Daquele que dá sentido às nossas vidas. in Voz Portucalense
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João Baptista testemunha diante dos seus contemporâneos a presença do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e aponta, assim, o caminho da verdadeira felicidade. Na nossa vida, foram ou são muitos os que, na nossa vida, como João Baptista nos apontaram o caminho de Jesus. Por isso, este Domingo pode ser uma boa oportunidade para agradecer a tantos e tantas por esse importante papel na nossa vida. No contexto da liturgia dominical pode colocar-se esta intenção de louvor e agradecimento pela vida daqueles e daquelas que são para nós presença que aponta para Jesus e pode lançar-se o desafio de ao longo desta semana terem um gesto de gratidão para com essas pessoas. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 49,3.5-6
Disse-me o Senhor:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti a luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
CONTEXTO
A primeira leitura do segundo domingo do tempo Comum vem do “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?
O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz (cf. Is 49-55).
Lado a lado com a proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que se referem a um personagem misterioso e enigmático, designado pelos biblistas como o “servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus no cenário difícil do Exílio? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Será o povo de Israel, no seu conjunto, chamado a dar testemunho de Deus na Babilónia? Não sabemos ao certo. Mas esse “servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus com uma missão universal. A missão desse “servo” cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do “servo de Javé” (cf. Is 49,1-13). Neste cântico, esse “servo” é explicitamente identificado com Israel (embora alguns comentadores pensem que a determinação “Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma interpretação): poderia ser a figura do povo de Deus, chamado a dar testemunho de Javé no meio dos outros povos. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A escolha do “servo” e a sua designação por Deus, “desde o seio materno”, para assumir uma missão, convida-nos hoje a olhar para esse mistério sempre pessoal, mas sempre insondável que é a vocação. Deus chama homens e mulheres para, através deles, intervir no mundo e concretizar o seu plano de salvação. Provavelmente nunca chegaremos a compreender cabalmente as razões e os critérios de Deus nas escolhas que faz. De resto, não nos compete questionar as escolhas de Deus, mas sim tentar descobrir o lugar que Deus nos reserva no seu projeto e acolher com obediência e disponibilidade o seu chamamento. Deus conta com cada um de nós. Também a nós Ele diz: “tu és o meu servo, por quem manifestarei a minha glória”. Como nos situamos diante do mistério da vocação? Temos procurado, através da escuta de Deus e do diálogo com Ele, descobrir o lugar e o papel que Ele nos tem destinado? Estamos disponíveis para colocar a nossa vida ao serviço do projeto de Deus, num “sim” total e comprometido?
- O “relato da vocação” do “servo de Javé” que a liturgia deste domingo nos oferece lembra-nos que na origem da vocação está sempre Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada pessoa uma missão. Sendo assim, a vocação é algo que só se entende à luz de Deus e a partir de Deus. O “chamado” não age em nome próprio, mas age em nome de Deus e por mandato de Deus; o “chamado” não proclama as suas ideias ou teorias, mas sim a Palavra que ouviu de Deus; o “chamado” não faz aquilo que lhe apetece fazer, mas sim aquilo que Deus o encarregou de fazer; o “chamado” não dá testemunho de si próprio, mas procura ser um sinal vivo de Deus no meio dos seus irmãos. Esse “testemunho” de Deus só é possível se o “chamado” cultivar uma grande proximidade com Deus, viver na escuta de Deus, aprofundar cada vez mais a sua comunhão com Deus. A nossa ação, o nosso testemunho e a nossa intervenção no mundo são alimentados por Deus? Procuramos, no diálogo com Deus e na escuta de Deus, descobrir o sentido da nossa missão?
- Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39(40)
Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.
Esperei no senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.
Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».
«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».
Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.
LEITURA II – 1 Coríntios 1,1-3
Irmãos:
Paulo, por vontade de Deus
escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus
e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto,
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados à santidade,
com todos os que invocam, em qualquer lugar,
o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco.
CONTEXTO
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (cf. 2Co 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Não tardou, no entanto, a entrar em conflito com os líderes da comunidade judaica de Corinto e foi expulso da sinagoga.
Corinto era uma cidade nova e muito próspera, capital da Província romana da Acaia. Distinguia-se como centro comercial importante. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).
Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios quando estava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem missionária. O apóstolo teve conhecimento de notícias alarmantes, chegadas de Corinto, que davam conta de problemas graves na comunidade: divisões, conflitos e diversos escândalos. Paulo, compenetrado do seu papel enquanto fundador da comunidade, escreveu aos coríntios exortando-os a corrigir todas essas situações. No entanto, para além das questões particulares, transparece na Carta uma questão mais ampla: a dificuldade de inserção do cristianismo numa realidade cultural muito diferente da realidade palestina.
O trabalho missionário de Paulo de Tarso, em meados do séc. I, levou o cristianismo ao encontro do mundo grego. Paulo, depois de um certo discernimento, tinha concluído que a proposta de Jesus era para todos os povos da terra e não exclusivamente para os judeus. No entanto, o contexto judaico – de onde o cristianismo era originário – e o contexto grego eram realidades culturais e religiosas bastante diferentes. Como é que a proposta cristã se aguentaria quando mergulhasse num mundo que funcionava com dinamismos que lhe eram estranhos? Iria a brilhante cultura grega absorver ou desvirtuar os valores cristãos? Como é que os cristãos de origem grega integrariam a sua fé na realidade cultural em que estavam inseridos? Esta problemática é, em última análise, o cenário de fundo da reflexão de Paulo nesta carta.
O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura faz parte da introdução à carta (1Co 1,1-9). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, o rabi judeu que encontrou Jesus na estrada de Damasco, entendeu toda a sua vida à luz do chamamento que Deus lhe dirigiu. Por mandato de Deus, tornou-se “apóstolo”, enviado a dar testemunho de Jesus e a ser arauto da Boa Notícia que Jesus veio oferecer ao mundo e aos homens. Paulo assumiu essa missão com total compromisso e com uma dedicação sem limites. Foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por causa do seu testemunho e da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada. Evidentemente, a nossa história de vida não é igual à do apóstolo Paulo. Talvez Deus não exija que vivamos ao mesmo ritmo e que percorramos o mesmo caminho de Paulo de Tarso. Mas todos nós, talvez de formas diversas, somos chamados a dar testemunho de Jesus e do seu Evangelho neste mundo e neste tempo que nos tocou viver. Assumimos essa missão com dedicação, com entrega, com compromisso, independentemente dos obstáculos, das resistências e das incompreensões que encontramos?
- Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?
- Paulo também lembra aos cristãos da cidade de Corinto que não estão sozinhos na vivência e no testemunho da vocação a que foram chamados. Eles fazem parte de uma grande família, espalhada pela terra inteira, e que é constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nessa família não há distinções baseadas na cor da pele, no lugar de nascimento, nas categorias sociais, nas diferenças culturais, nos títulos honoríficos, nos bens materiais que cada um possui… Trata-se de uma família de irmãos e de irmãs, reunida à volta de Jesus, animada e conduzida pelo Espírito Santo. Todos os membros dessa família, de formas diversas, participam da mesma missão: dar testemunho, no meio do mundo, da proposta salvadora de Deus. É desta forma que vemos a Igreja nascida de Jesus? Sentimo-nos plenamente membros dela? Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que esta família viva unida e testemunhe o amor de Deus no meio dos homens? in Dehonianos
EVANGELHO – João 1,29-34
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
CONTEXTO
Este trecho integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, a principal preocupação do autor é apresentar a figura de Jesus.
João, o autor do Quarto Evangelho, dispõe os materiais que tem à sua disposição como se estivéssemos num teatro. Diante dos nossos olhos, diversas personagens vão entrando no palco e apresentam-nos Jesus. As “falas” que lhes são atribuídas são afirmações categóricas, carregadas de significado teológico, que nos convidam a mergulhar no mistério de Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista tem um lugar especial neste cenário de apresentação de Jesus. O seu testemunho aparece no início e no fim da secção (cf. Jo 1,19-37; 3,22-36), como se o seu testemunho fosse decisivo. De facto, a catequese cristã sempre viu João Batista como “o precursor do Messias”, aquele que Deus enviou para preparar os homens para acolherem Jesus.
Neste quadro que o Evangelho deste domingo nos apresenta, o narrador não define o auditório ao qual João se dirige. Com isso, ele pretende possivelmente sugerir que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens e mulheres de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.
A cena narrada pelo autor do Quarto Evangelho passa-se em Betânia, na margem oriental do rio Jordão (cf. Jo 1,28), uma povoação situada perto de Jericó e até agora não identificada (Orígenes fala de “Bethabara”, ou “Casa da Passagem”). Alguns séculos antes, tinha sido da margem oriental do rio Jordão que os hebreus, libertados do Egito e conduzidos por Josué, “passaram” para a Terra Prometida. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- A liturgia deste domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco a olhar para esse facto espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta connosco – com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?
- João Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus, irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador cujo programa é restringir a liberdade dos seus súbditos; mas é um Pai cheio de amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós, esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não ajuda a construir uma vida com pleno sentido?
- Apesar da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens. O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença, de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?
- João Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que, apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus. Fazemo-lo? Somos sinais de Deus e testemunhas da vida de Deus no meio dos nossos irmãos? Quem olha para nós, para o que dizemos e fazemos, encontra a realidade de Deus?
- Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”? in Dehonianos.
Para os leitores
A proclamação da primeira leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto. A frase final – «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» – deve ser sublinhada como conclusão de todo o texto.
A segunda leitura é constituída por um único parágrafo com longas frases e orações. Deste modo, é necessária uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma correta articulação do texto.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 (Isaías 49, 3.5-6)
- Leitura II do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 (1Coríntios 1, 1-3)
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – Lecionário
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – Oração Universal
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – refletindo
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
Domingo I do Tempo Comum – Ano A – 11.01.2026
Domingo do Batismo do Senhor

Viver a Palavra
A liturgia deste dia – 11.01.2026 – celebra o Batismo de Jesus. Evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado aos homens como “Filho Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai lhe entregou: recriar o mundo, fazer nascer um Homem Novo. E propõe-nos, a todos nós que fomos batizados em Cristo, que tiremos desse facto as consequências que se impõem. in Dehonianos.
A Igreja do Oriente já celebrava a Epifania e o Batismo de Jesus, no ano 300, em 6 de janeiro, enquanto a Igreja do Ocidente comemorava esta festa apenas na Liturgia das Horas. Em 1969, com a Reforma litúrgica, esta festa foi marcada no Domingo após a Epifania. Onde a Solenidade da Epifania não puder ser celebrada no dia 6 de janeiro, pode ser no domingo entre 2 e 8 de janeiro e a Festa do Batismo, na segunda-feira após a Epifania. Com esta festa, termina o ciclo de Natal, embora permaneça a possibilidade de celebrar, em 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor ao Templo, “Luz dos povos” (também conhecida como festa das “Candeias”). In Vatican News
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 42,1-4.6-7
Diz o Senhor:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo,
o meu eleito, enlevo da minha alma.
Sobre ele fiz repousar o meu espírito,
para que leve a justiça às nações.
Não gritará, nem levantará a voz,
nem se fará ouvir nas praças;
não quebrará a cana fendida,
nem apagará a torcida que ainda fumega:
proclamará fielmente a justiça.
Não desfalecerá nem desistirá,
enquanto não estabelecer a justiça na terra,
a doutrina que as ilhas longínquas esperam.
Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça;
tomei-te pela mão, formei-te
e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações,
para abrires os olhos aos cegos,
tirares do cárcere os prisioneiros
e da prisão os que habitam nas trevas».
CONTEXTO
O texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?
O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia-lhes, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de um personagem misterioso e enigmático, que os biblistas designam como o “Servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus num cenário tão difícil? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Não sabemos ao certo. Mas esse “Servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus aos homens de todo o mundo. A sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
O texto que hoje nos é proposto é parte do primeiro cântico do “Servo” (cf. Is 42,1-9). in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A história do “Servo de Javé”, que recebeu a plenitude do Espírito para ser “luz das nações”, abrir “os olhos aos cegos”, tirar “do cárcere os prisioneiros” e “da prisão os que habitam nas trevas”, lembra-nos, desde logo, que Deus age através de “profetas” a quem confia a transformação do mundo e a libertação dos homens. No dia em que fomos batizados, recebemos, também nós, o Espírito que nos capacitou para uma missão semelhante à desse “Servo”. Tenho consciência de que cada batizado é um instrumento de Deus na renovação e transformação do mundo? Estou disposto a corresponder ao chamamento de Deus e a assumir a minha responsabilidade profética? Os pobres, os oprimidos, os que “jazem nas trevas e nas sombras da morte”, os que não têm eira nem beira, nem voz nem vez, nem convite para se sentar à mesa da humanidade podem contar com a minha solidariedade ativa, com a minha ajuda fraterna, com o meu abraço, com a minha partilha generosa?
- A missão profética só faz sentido à luz de Deus: é sempre Ele que toma a iniciativa, que escolhe, que chama, que envia e que capacita para a missão… Aquilo que fazemos, por mais válido que seja, não é obra nossa, mas sim de Deus; o nosso êxito na missão não resulta das nossas qualidades, mas da iniciativa de Deus que age em nós e através de nós. Somos apenas colaboradores de Deus, “humildes trabalhadores da vinha do Senhor”. É sempre Deus que projeta e que age, através da nossa fragilidade, para oferecer ao mundo a Vida e a salvação. Esquecer isto pode conduzir-nos à arrogância, à autossuficiência, à vaidade, ao convencimento; e, sempre que isso acontece, a nossa intervenção no mundo acaba por desvirtuar o projeto de Deus. Em que atitudes se concretiza a minha missão profética no acolhimento do projeto de Deus?
- Atentemos ainda na forma de atuar do “Servo”: ele não se impõe pela força, pela violência, pelo dinheiro, ou pelos amigos poderosos; mas atua com suavidade, com mansidão, com humildade, no respeito pela liberdade dos irmãos e irmãs a quem é enviado… É esta lógica – a lógica de Deus – que eu utilizo no desempenho da missão profética que Deus me confiou? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)
Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.
Tributai ao Senhor, filhos de Deus,
tributai ao Senhor Glória e poder.
Tributai ao Senhor a glória do seu nome,
adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
A vos do Senhor ressoa sobre as nuvens,
o Senhor está sobre a vastidão das águas.
A voz do Senhor é poderosa,
a voz do Senhor é majestosa.
A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão
e no seu templo todos clamam: Glória!
Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,
o Senhor senta-Se como rei eterno.
LEITURA II – Atos 10,34-38
Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Na verdade,
eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas,
mas, em qualquer nação,
aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável.
Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel,
anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.
Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio,
porque Deus estava com Ele».
CONTEXTO
Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram ou continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. At 1-12), a reflexão centra-se na difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; na segunda (cf. At 13-28), conta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (sobretudo por ação de Paulo): no Mediterrâneo, na Ásia Menor, na Grécia, até atingir Roma, o coração do império.
O texto de hoje está integrado na primeira parte dos “Atos”. Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon (cf. At 9,32-11,18) – isto é, na planície junto da orla mediterrânica palestina. Em concreto, o texto propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é a primeira pessoa completamente pagã (o etíope evangelizado e convertido por Filipe e de que se fala em At 8,26-40 era “prosélito” e por isso já estava ligado ao judaísmo) admitida na comunidade cristã por um dos Doze. Admite-se, assim, que o Evangelho de Jesus não deve ficar circunscrito às fronteiras étnicas judaicas, mas é uma Boa Notícia destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas.
Cesareia Marítima, cidade reconstruída por Herodes, o Grande, ficava na costa palestina. Era a sede do poder romano, pois era aí que residiam os governadores romanos da Judeia (como Pôncio Pilatos, o governador que, pelo ano 30, autorizou a morte de Jesus). A cidade foi evangelizada pelo diácono Filipe (cf. At 8,40). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Jesus recebeu o Batismo e foi ungido com a força do Espírito; depois, “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio”. Em cada passo do caminho que percorreu, Ele distribuiu, em gestos concretos, bondade, misericórdia, perdão, solidariedade, amor… Nós, cristãos, que “acreditamos” em Jesus, que nos comprometemos com Ele e O seguimos, assumimos este “programa”? Nós, que fomos batizados e ungidos com a força do Espírito, testemunhamos também, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, o perdão e o amor de Deus pelos homens? Empenhamo-nos em libertar todos os que são oprimidos pelo demónio do egoísmo, da injustiça, da exploração, da exclusão, da solidão, da doença, do analfabetismo, do sofrimento?
- “Reconheço que Deus não faz aceção de pessoas” – diz Pedro no seu discurso em casa de Cornélio. E nós, filhos desse Deus que ama a todos da mesma forma e que a todos oferece igualmente a salvação, aceitamos todos os irmãos da mesma forma, reconhecendo a igualdade fundamental de todos os homens em direitos e dignidade? Temos consciência de que a discriminação de pessoas por causa da cor da pele, da raça, do sexo, da orientação sexual ou do estatuto social é uma grave subversão da lógica de Deus? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 3,13-17
Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».
CONTEXTO
Em dia da celebração da festa do Batismo do Senhor, o Evangelho leva-nos até ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá. A tradição identifica esse lugar com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio Jordão, a cerca de 10 quilómetros do Mar Morto. Era um local de passagem para os peregrinos que vinham da Galileia para Jerusalém.
O rio Jordão é o rio mais emblemático da terra de Israel. Atravessa-a de alto a baixo, desde o sopé do monte Hermon até ao mar Morto, num percurso de cerca de 300 quilómetros (104 em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio que os hebreus, conduzidos por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra Prometida (cf. Js 3-4). No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da lepra ao mergulhar nas águas do Jordão (cf. 2Rs 5,10-14).
Alguns séculos mais tarde, no final do ano 27 ou princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do rio Jordão um profeta original e independente com uma mensagem nova e verdadeiramente interpelante. A mensagem proposta por João estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.
O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um ritual usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para uma vida nova, um novo nascimento, um novo começo. No que diz respeito ao Batismo proposto por João, estamos provavelmente diante de um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade que esperava o Messias.
Jesus, que vivia na sua aldeia de Nazaré, na Galileia, ouviu a certa altura falar de João e da sua pregação. Procurou-o nas margens do rio Jordão e escutou o seu apelo à conversão. Na sequência, Jesus quis também receber o batismo. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar da morte e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Uma vez mais se confirma uma realidade que a cada instante reaparece ao longo da história da salvação: o cuidado de Deus com seus queridos filhos que peregrinam na história, o imenso amor que Ele nos dedica, a vontade que Ele tem de levar-nos ao encontro da vida verdadeira… Apesar das nossas fragilidades e das nossas leviandades, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa ingratidão e da nossa inconsciência, Deus continua a chamar-nos, a falar connosco, a escrever-nos cartas de amor, a vir ao nosso encontro e a acompanhar-nos no caminho, a oferecer-nos a possibilidade de integrar a Sua família. E nós, que temos de fazer em resposta ao dom de Deus? O que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhamos a sua oferta de salvação, nos dispúnhamos a seguir Jesus no caminho do amor, da entrega, do dom da vida. Como vemos e como sentimos esta história de comunhão que Deus insiste em viver connosco? Como é que respondemos ao amor de Deus?
- O episódio do batismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-Se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Nós crentes, filhos deste Deus, aceitamos ir ao encontro dos nossos irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilhamos a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofremos na alma as suas dores, aceitamos identificar-nos com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não temos medo de nos sujarmos ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para os promover e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?
- Depois de ser batizado no rio Jordão, Jesus foi ungido pelo Espírito de Deus e abraçou, sem reticências, a missão que o Pai lhe confiava: propor e construir o Reino de Deus. Todos nós que fomos batizados em Cristo recebemos o mesmo Espírito de Deus que Ele recebeu e entramos na comunidade do Reino. No dia do nosso batismo recebemos a missão de colaborar com Jesus na construção de um mundo mais fraterno e mais humano. Temos sido fiéis a essa missão? O nosso compromisso batismal é uma realidade que procuramos renovar a cada passo, ou é letra morta que não toca a forma como vivemos? Somos batizados “de assinatura” (porque o nosso nome aparece num qualquer livro de registos de Batismo), ou somos cristãos de facto, que procuram seguir Jesus em cada passo do caminho e colaborar com Ele no sentido de curar o mundo das suas feridas?
- Jesus sempre levou muito a sério aquela declaração de Deus que se escutou junto do rio Jordão: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Esse amor que o Pai lhe dedicava sempre sustentou as opções de Jesus e sempre iluminou o caminho que Ele ia percorrendo (mesmo quando no horizonte estava a cruz, o abandono dos amigos, o aparente fracasso da missão). Sustentado pelo amor de Deus, Jesus assumiu incondicionalmente o projeto do Pai de dar vida à humanidade. Obedeceu em tudo ao Pai, sem reticências de qualquer espécie. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu – filho amado de Deus – assumo na minha relação com o Pai? O projeto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projetos pessoais ou do que os desafios que o mundo me lança? Como Jesus, confio plenamente no Pai, nas suas propostas, no seu cuidado, no seu amor?
- Depois de batizado e de ser ungido pelo Espírito, Jesus não se instalou numa crença religiosa de meias tintas ou de serviços mínimos. Animado pela força do Espírito, partiu para a Galileia a anunciar o Reino de Deus e a testemunhar – com palavras e com gestos – o projeto libertador do Pai. É dessa forma – coerente, comprometida, apaixonada – que eu procuro viver a missão que Deus me confiou no dia em que eu fui batizado? Os meus irmãos e irmãs maltratados pela vida e pelos homens podem contar com o meu empenho em levar-lhes a carícia do Deus que cura e que dá Vida? in Dehonianos.
ANEXOS:
-
- Leitura I do Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 (Isaías 42, 1-4.6-7)
- Leitura II do Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 (Atos 10, 34-38)
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – Lecionario
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – Oração Universal
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026

Viver a Palavra
A liturgia deste dia – Epifania do Senhor – celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… O Menino do presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Essa “luz” encarnou na nossa história e no nosso mundo, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. in Dehonianos.
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 60,1-6
Levanta-te e resplandece, Jerusalém,
porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor.
Vê como a noite cobre a terra,
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor,
e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz,
e os reis ao esplendor da tua aurora.
Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro;
os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços.
Quando o vires ficarás radiante,
palpitará e dilatar-se-á o teu coração,
pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações.
Invadir-te-á uma multidão de camelos,
de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.
CONTEXTO
Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja proveniência não é, entre os estudiosos da Bíblia, totalmente consensual… Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de diversos autores pós-exílicos e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI e V a.C.).
Em geral, estas profecias situam-nos em Jerusalém, a cidade que os Babilónios deixaram em ruínas, em 586 a.C., e que agora começa a reerguer-se. As marcas do passado ainda se notam nas pedras calcinadas da cidade; os filhos e filhas de Jerusalém que regressaram do exílio na Babilónia são ainda em número reduzido; a pobreza geral obriga a que a reconstrução seja lenta e muito modesta; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada… Sonha-se, no entanto, com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade para trazer a salvação definitiva ao seu Povo. Então, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.
O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até ao pôr do sol). in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- É bela esta imagem de Deus como uma luz que se acende nas nossas vidas e nas nossas cidades, iluminando os caminhos que temos de percorrer, aquecendo os nossos corações cansados e abatidos e transformando o nosso pessimismo e derrotismo em esperança e vida nova. Às vezes temos a sensação de que este mundo onde peregrinamos se tornou um lugar sombrio e triste, onde o ódio pode mais do que o amor, a guerra se impõe aos esforços pela paz, o egoísmo é mais apreciado do que a comunhão… Mas a verdade é que, quando parecemos perdidos em becos sem saída, a luz de Deus vem iluminar o mapa dos caminhos que devemos andar para encontrar Vida. Não vivamos de olhos postos no chão, afogados numa escuridão que nos rouba a esperança; ousemos, mesmo em momentos complicados da história do mundo e da nossa história pessoal, levantar os olhos e perceber a presença desse Deus que nunca desistirá de iluminar todos os passos do nosso caminho rumo à Vida. Estamos dispostos a deixarmo-nos iluminar pela luz de Deus?
- Podemos, naturalmente, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos fale, nos aponte caminhos de vida nova e nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Estamos disponíveis para dar testemunho dessa luz junto dos irmãos que compartilham o caminho connosco?
- Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25). Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora de Jesus? Elas são, pelo seu brilho, uma luz que atrai os homens? As nossas desavenças e conflitos, a nossa falta de amor e de partilha, os nossos ciúmes e rivalidades, a nossa passividade e conformismo não contribuirão para embaciar o brilho dessa luz de Deus que devíamos refletir?
- Será que na nossa comunidade cristã há espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de Deus? Os irmãos cuja vida é considerada irregular ou pouco condizente com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados? As diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar, ou são rejeitadas porque ameaçam a uniformidade? A nossa comunidade cristã é o “hospital” onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a vida lhes infligiu? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)
Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.
Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.
Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.
Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes,
os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas.
Prostrar-se-ão diante dele todos os reis,
todos os povos o hão de servir.
Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.
LEITURA II – Efésios 3,2-3a.5-6
Irmãos:
Certamente já ouvistes falar
da graça que Deus me confiou a vosso favor:
por uma revelação,
foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo.
Nas gerações passadas,
ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens
como agora foi revelado pelo Espírito Santo
aos seus santos apóstolos e profetas:
os gentios recebem a mesma herança que os judeus,
pertencem ao mesmo corpo
e participam da mesma promessa,
em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.
CONTEXTO
A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).
É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta, talvez uma “carta circular” enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino.
O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, oculto durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.
Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe ainda como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. Ef 2,11-22)… O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Segundo Paulo, a salvação oferecida por Deus e revelada em Jesus não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para todos os povos, sem distinção de raça, de cor, de cultura ou de estatuto social. Todos os homens e mulheres são filhos e filhas queridos de Deus. A todos Deus ama, todos fazem parte de uma família universal. Será que conseguimos ver em cada pessoa, independentemente das diferenças e particularismos que apresenta, um irmão ou uma irmã? Conseguimos apreciar devidamente a beleza de pertencer a uma família onde as diferenças não dividem, mas são um bem acrescentado que a todos enriquece?
- A fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade…. Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças?
- A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Esta comunidade é um espaço privilegiado onde se revela o projeto salvador que Deus tem para oferecer a todos os homens. É isso que, de facto, acontece? Na vida das nossas comunidades transparece realmente o amor de Deus? As nossas comunidades são verdadeiras comunidades fraternas, onde todos se amam sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, ou de história de vida? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 2,1-12
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado,
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.
CONTEXTO
O episódio da visita dos magos ao Menino de Belém, narrado no evangelho de Mateus, é um episódio de grande beleza, que rapidamente se tornou muito popular entre os cristãos. Ao longo dos séculos a piedade popular não cessou de o embelezar com acrescentos que, na maior parte dos casos, não encontram eco no texto de Mateus.
Os biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever uma visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas sim apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra.
Na base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do Crescente Fértil, de que cada criança que nascia tinha a sua própria estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que iria mudar a história humana. É provável também que Mateus se tenha inspirado, para construir esta bonita narrativa, num texto do livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio teve sempre, para os teólogos de Israel, um claro sabor messiânico.
Finalmente, o relato de Mateus faz uma referência ao rei que governava a Palestina na altura do nascimento de Jesus: Herodes, chamado “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o seu trono. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Em primeiro lugar, atentemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, a “luz salvadora” enviada por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?
- Os “magos” são os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da luz libertadora de Deus. Talvez hoje, com toda a pressão que a vida nos coloca, não consigamos ter tempo para olhar para o céu, à procura dos sinais de Deus; talvez a vida nos obrigue a andar de olhos no chão, ocupados em coisas bem rasteiras e materiais… Mas a aventura da existência terá mais cor se arranjarmos tempo para parar, para meditar, para falar com Deus, para escutar as suas indicações, para tentar ler os sinais que Ele vai colocando ao longo do nosso caminho… A nossa peregrinação pela terra não fará mais sentido se aprendermos a ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus?
- O relato de Mateus sublinha, por outro lado, a “desinstalação” dos “magos”: eles descobriram a “estrela” e, imediatamente, deixaram tudo para procurar Jesus. O risco da viagem, a incomodidade do caminho, o confronto com o desconhecido, nada os impediu de partir. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, ao nosso comando da televisão, ao nosso computador, à nossa zona de conforto, à nossa segurança, ao nosso comodismo? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz, muitas vezes através dos irmãos que necessitam da nossa ajuda e do nosso cuidado?
- Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?
- Os “magos”, depois de se encontrarem com Jesus e de o reconhecerem como “o Senhor”, “regressaram ao seu país por outro caminho”. O encontro com o Menino do presépio tem sido, nestes dias, um momento de confronto que nos leva a reequacionar a nossa vida, os nossos valores e opções, e a enveredar por um caminho novo, mais simples, mais humilde, mais fraterno, mais humano? in Dehonianos.
ANEXOS:
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- Santa Maria, Mãe de Deus – Ano A – 01.01.2026 – Lecionário
- Santa Maria, Mãe de Deus – Ano A – 01.01.2026 -Oração Universal
- Leitura I do Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 (Isaías 60, 1-6)
- Leitura II do Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 (Efésios 3, 2-3a.5-6)
- Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 – Lecionário
- Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 – Oração Universal
- Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026
- Mensagem do Papa Leão XIV – 59º Dia Mundial da Paz
- Ano A – O ano do evangelista Mateus