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Liturgia da Palavra

Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao cerne da nossa vida cristã: sonhados e amados por Deus desde o seio materno, somos chamados a viver a experiência única e pessoal do encontro com Jesus Cristo que nos desafia a encontrar na Sua vontade um caminho de realização e felicidade que nos constitui como apóstolos da alegria do Evangelho, para que a Igreja seja um rasto de luz para todos os povos e nações. Deste modo, os diversos textos proclamados neste Domingo apresentam-nos a dinâmica da nossa vida cristã, num horizonte responsorial, isto é, chamados e convocados pela misericórdia de Deus que nos precede sempre, somos convidados a responder generosamente ao seu projeto de amor.

            A disponibilidade para o acontecer de Deus nas nossas vidas nasce da certeza de que o Seu amor nos precede, acompanha e aponta um horizonte de realização e felicidade absolutamente novo. Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade». A vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo como nos testemunha S. Paulo quando afirma que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4). Quantas vezes na procura de uma razão diante de uma desgraça, já ouvimos dizer: «foi a vontade de Deus». Na verdade, a vontade de Deus não pode ser a justificação para aquilo que não conseguimos responder. A vontade de Deus é um desígnio amoroso de salvação e, por isso, responder com generosidade e disponibilidade à Sua vontade é caminhar pela estrada da felicidade verdadeira que tem como nome a santidade.

            O caminho de descoberta da vontade de Deus a nosso respeito brota da experiência que João Baptista nos testemunha no Evangelho: «eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». João Baptista testemunha aquilo que viu e experimentou e não apenas uma noção teórica e abstrata. Seguir Jesus Cristo implica necessariamente fazer esta experiência do Seu amor, tal como afirma o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus caristas est: «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).

            Este encontro decisivo transforma a vida e o coração de tal modo que toda a nossa vida se molda a partir desta experiência. É assim que aparece João Baptista como figura de charneira, apontando o «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo», testemunhando a presença Daquele que os profetas anunciaram e que a humanidade esperava. João Baptista está do outro lado do Jordão, no lugar onde o Povo de Israel se deteve para preparar a entrada na Terra Prometida. Ele é referência fundamental do nosso ser cristão porque nos ensina a arte de apontar para Jesus, de se saber retirar para que Ele tenha lugar, de proporcionar aos outros a experiência do encontro com Aquele que dá sentido à nossa vida.

            Com toda a certeza, lendo a nossa história, encontramos pessoas que foram para nós lugares de encontro com Jesus, pessoas capazes de sair de si mesmas para apontar esse horizonte de realização e felicidade que só em Cristo se pode encontrar. Louvando o Senhor pela vida de tantos e tantas que nos mostraram o rosto de Jesus, comprometemo-nos em ser também nós testemunhas de Jesus com a humildade e a ousadia de João Baptista, anunciando ao mundo que não há aventura mais bela do que fazer das nossas vidas lugares de beleza que testemunham a presença Daquele que dá sentido às nossas vidas. in Voz Portucalense

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            João Baptista testemunha diante dos seus contemporâneos a presença do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e aponta, assim, o caminho da verdadeira felicidade. Na nossa vida, foram ou são muitos os que, na nossa vida, como João Baptista nos apontaram o caminho de Jesus. Por isso, este Domingo pode ser uma boa oportunidade para agradecer a tantos e tantas por esse importante papel na nossa vida. No contexto da liturgia dominical pode colocar-se esta intenção de louvor e agradecimento pela vida daqueles e daquelas que são para nós presença que aponta para Jesus e pode lançar-se o desafio de ao longo desta semana terem um gesto de gratidão para com essas pessoas. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 49,3.5-6

Disse-me o Senhor:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti a luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».

 

CONTEXTO

            A primeira leitura do segundo domingo do tempo Comum vem do “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?

            O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz (cf. Is 49-55).

            Lado a lado com a proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que se referem a um personagem misterioso e enigmático, designado pelos biblistas como o “servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus no cenário difícil do Exílio? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Será o povo de Israel, no seu conjunto, chamado a dar testemunho de Deus na Babilónia? Não sabemos ao certo. Mas esse “servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus com uma missão universal. A missão desse “servo” cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do “servo de Javé” (cf. Is 49,1-13). Neste cântico, esse “servo” é explicitamente identificado com Israel (embora alguns comentadores pensem que a determinação “Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma interpretação): poderia ser a figura do povo de Deus, chamado a dar testemunho de Javé no meio dos outros povos. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • A escolha do “servo” e a sua designação por Deus, “desde o seio materno”, para assumir uma missão, convida-nos hoje a olhar para esse mistério sempre pessoal, mas sempre insondável que é a vocação. Deus chama homens e mulheres para, através deles, intervir no mundo e concretizar o seu plano de salvação. Provavelmente nunca chegaremos a compreender cabalmente as razões e os critérios de Deus nas escolhas que faz. De resto, não nos compete questionar as escolhas de Deus, mas sim tentar descobrir o lugar que Deus nos reserva no seu projeto e acolher com obediência e disponibilidade o seu chamamento. Deus conta com cada um de nós. Também a nós Ele diz: “tu és o meu servo, por quem manifestarei a minha glória”. Como nos situamos diante do mistério da vocação? Temos procurado, através da escuta de Deus e do diálogo com Ele, descobrir o lugar e o papel que Ele nos tem destinado? Estamos disponíveis para colocar a nossa vida ao serviço do projeto de Deus, num “sim” total e comprometido?
  • O “relato da vocação” do “servo de Javé” que a liturgia deste domingo nos oferece lembra-nos que na origem da vocação está sempre Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada pessoa uma missão. Sendo assim, a vocação é algo que só se entende à luz de Deus e a partir de Deus. O “chamado” não age em nome próprio, mas age em nome de Deus e por mandato de Deus; o “chamado” não proclama as suas ideias ou teorias, mas sim a Palavra que ouviu de Deus; o “chamado” não faz aquilo que lhe apetece fazer, mas sim aquilo que Deus o encarregou de fazer; o “chamado” não dá testemunho de si próprio, mas procura ser um sinal vivo de Deus no meio dos seus irmãos. Esse “testemunho” de Deus só é possível se o “chamado” cultivar uma grande proximidade com Deus, viver na escuta de Deus, aprofundar cada vez mais a sua comunhão com Deus. A nossa ação, o nosso testemunho e a nossa intervenção no mundo são alimentados por Deus? Procuramos, no diálogo com Deus e na escuta de Deus, descobrir o sentido da nossa missão?
  • Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39(40)

Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Esperei no senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».

«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».

Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.

 

 

LEITURA II – 1 Coríntios 1,1-3

Irmãos:
Paulo, por vontade de Deus
escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus
e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto,
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados à santidade,
com todos os que invocam, em qualquer lugar,
o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco.

CONTEXTO

            No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (cf. 2Co 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Não tardou, no entanto, a entrar em conflito com os líderes da comunidade judaica de Corinto e foi expulso da sinagoga.

            Corinto era uma cidade nova e muito próspera, capital da Província romana da Acaia. Distinguia-se como centro comercial importante. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

            Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).

            Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios quando estava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem missionária. O apóstolo teve conhecimento de notícias alarmantes, chegadas de Corinto, que davam conta de problemas graves na comunidade: divisões, conflitos e diversos escândalos. Paulo, compenetrado do seu papel enquanto fundador da comunidade, escreveu aos coríntios exortando-os a corrigir todas essas situações. No entanto, para além das questões particulares, transparece na Carta uma questão mais ampla: a dificuldade de inserção do cristianismo numa realidade cultural muito diferente da realidade palestina.

            O trabalho missionário de Paulo de Tarso, em meados do séc. I, levou o cristianismo ao encontro do mundo grego. Paulo, depois de um certo discernimento, tinha concluído que a proposta de Jesus era para todos os povos da terra e não exclusivamente para os judeus. No entanto, o contexto judaico – de onde o cristianismo era originário – e o contexto grego eram realidades culturais e religiosas bastante diferentes. Como é que a proposta cristã se aguentaria quando mergulhasse num mundo que funcionava com dinamismos que lhe eram estranhos? Iria a brilhante cultura grega absorver ou desvirtuar os valores cristãos? Como é que os cristãos de origem grega integrariam a sua fé na realidade cultural em que estavam inseridos? Esta problemática é, em última análise, o cenário de fundo da reflexão de Paulo nesta carta.

            O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura faz parte da introdução à carta (1Co 1,1-9). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Paulo de Tarso, o rabi judeu que encontrou Jesus na estrada de Damasco, entendeu toda a sua vida à luz do chamamento que Deus lhe dirigiu. Por mandato de Deus, tornou-se “apóstolo”, enviado a dar testemunho de Jesus e a ser arauto da Boa Notícia que Jesus veio oferecer ao mundo e aos homens. Paulo assumiu essa missão com total compromisso e com uma dedicação sem limites. Foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por causa do seu testemunho e da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada. Evidentemente, a nossa história de vida não é igual à do apóstolo Paulo. Talvez Deus não exija que vivamos ao mesmo ritmo e que percorramos o mesmo caminho de Paulo de Tarso. Mas todos nós, talvez de formas diversas, somos chamados a dar testemunho de Jesus e do seu Evangelho neste mundo e neste tempo que nos tocou viver. Assumimos essa missão com dedicação, com entrega, com compromisso, independentemente dos obstáculos, das resistências e das incompreensões que encontramos?
  • Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?
  • Paulo também lembra aos cristãos da cidade de Corinto que não estão sozinhos na vivência e no testemunho da vocação a que foram chamados. Eles fazem parte de uma grande família, espalhada pela terra inteira, e que é constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nessa família não há distinções baseadas na cor da pele, no lugar de nascimento, nas categorias sociais, nas diferenças culturais, nos títulos honoríficos, nos bens materiais que cada um possui… Trata-se de uma família de irmãos e de irmãs, reunida à volta de Jesus, animada e conduzida pelo Espírito Santo. Todos os membros dessa família, de formas diversas, participam da mesma missão: dar testemunho, no meio do mundo, da proposta salvadora de Deus. É desta forma que vemos a Igreja nascida de Jesus? Sentimo-nos plenamente membros dela? Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que esta família viva unida e testemunhe o amor de Deus no meio dos homens? in Dehonianos

EVANGELHO – João 1,29-34

Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

 

CONTEXTO

            Este trecho integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, a principal preocupação do autor é apresentar a figura de Jesus.

            João, o autor do Quarto Evangelho, dispõe os materiais que tem à sua disposição como se estivéssemos num teatro. Diante dos nossos olhos, diversas personagens vão entrando no palco e apresentam-nos Jesus. As “falas” que lhes são atribuídas são afirmações categóricas, carregadas de significado teológico, que nos convidam a mergulhar no mistério de Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.

            João Baptista tem um lugar especial neste cenário de apresentação de Jesus. O seu testemunho aparece no início e no fim da secção (cf. Jo 1,19-37; 3,22-36), como se o seu testemunho fosse decisivo. De facto, a catequese cristã sempre viu João Batista como “o precursor do Messias”, aquele que Deus enviou para preparar os homens para acolherem Jesus.

            Neste quadro que o Evangelho deste domingo nos apresenta, o narrador não define o auditório ao qual João se dirige. Com isso, ele pretende possivelmente sugerir que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens e mulheres de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.

            A cena narrada pelo autor do Quarto Evangelho passa-se em Betânia, na margem oriental do rio Jordão (cf. Jo 1,28), uma povoação situada perto de Jericó e até agora não identificada (Orígenes fala de “Bethabara”, ou “Casa da Passagem”). Alguns séculos antes, tinha sido da margem oriental do rio Jordão que os hebreus, libertados do Egito e conduzidos por Josué, “passaram” para a Terra Prometida. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • A liturgia deste domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco a olhar para esse facto espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta connosco – com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?
  • João Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus, irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador cujo programa é restringir a liberdade dos seus súbditos; mas é um Pai cheio de amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós, esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não ajuda a construir uma vida com pleno sentido?
  • Apesar da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens. O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença, de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?
  • João Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que, apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus. Fazemo-lo? Somos sinais de Deus e testemunhas da vida de Deus no meio dos nossos irmãos? Quem olha para nós, para o que dizemos e fazemos, encontra a realidade de Deus?
  • Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”? in Dehonianos.

Para os leitores

            A proclamação da primeira leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto. A frase final – «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» – deve ser sublinhada como conclusão de todo o texto.

            A segunda leitura é constituída por um único parágrafo com longas frases e orações. Deste modo, é necessária uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma correta articulação do texto.

 

ANEXOS:

Domingo I do Tempo Comum – Ano A – 11.01.2026

Domingo do Batismo do Senhor

Viver a Palavra

            A liturgia deste dia – 11.01.2026 – celebra o Batismo de Jesus. Evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado aos homens como “Filho Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai lhe entregou: recriar o mundo, fazer nascer um Homem Novo. E propõe-nos, a todos nós que fomos batizados em Cristo, que tiremos desse facto as consequências que se impõem. in Dehonianos.

            A Igreja do Oriente já celebrava a Epifania e o Batismo de Jesus, no ano 300, em 6 de janeiro, enquanto a Igreja do Ocidente comemorava esta festa apenas na Liturgia das Horas. Em 1969, com a Reforma litúrgica, esta festa foi marcada no Domingo após a Epifania. Onde a Solenidade da Epifania não puder ser celebrada no dia 6 de janeiro, pode ser no domingo entre 2 e 8 de janeiro e a Festa do Batismo, na segunda-feira após a Epifania. Com esta festa, termina o ciclo de Natal, embora permaneça a possibilidade de celebrar, em 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor ao Templo, “Luz dos povos” (também conhecida como festa das “Candeias”). In Vatican News

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 42,1-4.6-7

Diz o Senhor:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo,
o meu eleito, enlevo da minha alma.
Sobre ele fiz repousar o meu espírito,
para que leve a justiça às nações.
Não gritará, nem levantará a voz,
nem se fará ouvir nas praças;
não quebrará a cana fendida,
nem apagará a torcida que ainda fumega:
proclamará fielmente a justiça.
Não desfalecerá nem desistirá,
enquanto não estabelecer a justiça na terra,
a doutrina que as ilhas longínquas esperam.
Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça;
tomei-te pela mão, formei-te
e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações,
para abrires os olhos aos cegos,
tirares do cárcere os prisioneiros
e da prisão os que habitam nas trevas».

 

CONTEXTO

            O texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?

            O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia-lhes, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).

            No meio desta proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de um personagem misterioso e enigmático, que os biblistas designam como o “Servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus num cenário tão difícil? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Não sabemos ao certo. Mas esse “Servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus aos homens de todo o mundo. A sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

O texto que hoje nos é proposto é parte do primeiro cântico do “Servo” (cf. Is 42,1-9). in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • A história do “Servo de Javé”, que recebeu a plenitude do Espírito para ser “luz das nações”, abrir “os olhos aos cegos”, tirar “do cárcere os prisioneiros” e “da prisão os que habitam nas trevas”, lembra-nos, desde logo, que Deus age através de “profetas” a quem confia a transformação do mundo e a libertação dos homens. No dia em que fomos batizados, recebemos, também nós, o Espírito que nos capacitou para uma missão semelhante à desse “Servo”. Tenho consciência de que cada batizado é um instrumento de Deus na renovação e transformação do mundo? Estou disposto a corresponder ao chamamento de Deus e a assumir a minha responsabilidade profética? Os pobres, os oprimidos, os que “jazem nas trevas e nas sombras da morte”, os que não têm eira nem beira, nem voz nem vez, nem convite para se sentar à mesa da humanidade podem contar com a minha solidariedade ativa, com a minha ajuda fraterna, com o meu abraço, com a minha partilha generosa?
  • A missão profética só faz sentido à luz de Deus: é sempre Ele que toma a iniciativa, que escolhe, que chama, que envia e que capacita para a missão… Aquilo que fazemos, por mais válido que seja, não é obra nossa, mas sim de Deus; o nosso êxito na missão não resulta das nossas qualidades, mas da iniciativa de Deus que age em nós e através de nós. Somos apenas colaboradores de Deus, “humildes trabalhadores da vinha do Senhor”. É sempre Deus que projeta e que age, através da nossa fragilidade, para oferecer ao mundo a Vida e a salvação. Esquecer isto pode conduzir-nos à arrogância, à autossuficiência, à vaidade, ao convencimento; e, sempre que isso acontece, a nossa intervenção no mundo acaba por desvirtuar o projeto de Deus. Em que atitudes se concretiza a minha missão profética no acolhimento do projeto de Deus?
  • Atentemos ainda na forma de atuar do “Servo”: ele não se impõe pela força, pela violência, pelo dinheiro, ou pelos amigos poderosos; mas atua com suavidade, com mansidão, com humildade, no respeito pela liberdade dos irmãos e irmãs a quem é enviado… É esta lógica – a lógica de Deus – que eu utilizo no desempenho da missão profética que Deus me confiou? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)

Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.

 

Tributai ao Senhor, filhos de Deus,
tributai ao Senhor Glória e poder.
Tributai ao Senhor a glória do seu nome,
adorai o Senhor com ornamentos sagrados.

A vos do Senhor ressoa sobre as nuvens,
o Senhor está sobre a vastidão das águas.
A voz do Senhor é poderosa,
a voz do Senhor é majestosa.

A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão
e no seu templo todos clamam: Glória!
Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,
o Senhor senta-Se como rei eterno.

LEITURA II – Atos 10,34-38

Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Na verdade,
eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas,
mas, em qualquer nação,
aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável.
Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel,
anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.
Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio,
porque Deus estava com Ele».

 

CONTEXTO

            Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram ou continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.

            O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. At 1-12), a reflexão centra-se na difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; na segunda (cf. At 13-28), conta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (sobretudo por ação de Paulo): no Mediterrâneo, na Ásia Menor, na Grécia, até atingir Roma, o coração do império.

            O texto de hoje está integrado na primeira parte dos “Atos”. Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon (cf. At 9,32-11,18) – isto é, na planície junto da orla mediterrânica palestina. Em concreto, o texto propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é a primeira pessoa completamente pagã (o etíope evangelizado e convertido por Filipe e de que se fala em At 8,26-40 era “prosélito” e por isso já estava ligado ao judaísmo) admitida na comunidade cristã por um dos Doze. Admite-se, assim, que o Evangelho de Jesus não deve ficar circunscrito às fronteiras étnicas judaicas, mas é uma Boa Notícia destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas.

            Cesareia Marítima, cidade reconstruída por Herodes, o Grande, ficava na costa palestina. Era a sede do poder romano, pois era aí que residiam os governadores romanos da Judeia (como Pôncio Pilatos, o governador que, pelo ano 30, autorizou a morte de Jesus). A cidade foi evangelizada pelo diácono Filipe (cf. At 8,40). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Jesus recebeu o Batismo e foi ungido com a força do Espírito; depois, “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio”. Em cada passo do caminho que percorreu, Ele distribuiu, em gestos concretos, bondade, misericórdia, perdão, solidariedade, amor… Nós, cristãos, que “acreditamos” em Jesus, que nos comprometemos com Ele e O seguimos, assumimos este “programa”? Nós, que fomos batizados e ungidos com a força do Espírito, testemunhamos também, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, o perdão e o amor de Deus pelos homens? Empenhamo-nos em libertar todos os que são oprimidos pelo demónio do egoísmo, da injustiça, da exploração, da exclusão, da solidão, da doença, do analfabetismo, do sofrimento?
  • “Reconheço que Deus não faz aceção de pessoas” – diz Pedro no seu discurso em casa de Cornélio. E nós, filhos desse Deus que ama a todos da mesma forma e que a todos oferece igualmente a salvação, aceitamos todos os irmãos da mesma forma, reconhecendo a igualdade fundamental de todos os homens em direitos e dignidade? Temos consciência de que a discriminação de pessoas por causa da cor da pele, da raça, do sexo, da orientação sexual ou do estatuto social é uma grave subversão da lógica de Deus? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 3,13-17

Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».

 

CONTEXTO

            Em dia da celebração da festa do Batismo do Senhor, o Evangelho leva-nos até ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá. A tradição identifica esse lugar com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio Jordão, a cerca de 10 quilómetros do Mar Morto. Era um local de passagem para os peregrinos que vinham da Galileia para Jerusalém.

            O rio Jordão é o rio mais emblemático da terra de Israel. Atravessa-a de alto a baixo, desde o sopé do monte Hermon até ao mar Morto, num percurso de cerca de 300 quilómetros (104 em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio que os hebreus, conduzidos por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra Prometida (cf. Js 3-4). No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da lepra ao mergulhar nas águas do Jordão (cf. 2Rs 5,10-14).

            Alguns séculos mais tarde, no final do ano 27 ou princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do rio Jordão um profeta original e independente com uma mensagem nova e verdadeiramente interpelante. A mensagem proposta por João estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.

            O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um ritual usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para uma vida nova, um novo nascimento, um novo começo. No que diz respeito ao Batismo proposto por João, estamos provavelmente diante de um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade que esperava o Messias.

Jesus, que vivia na sua aldeia de Nazaré, na Galileia, ouviu a certa altura falar de João e da sua pregação. Procurou-o nas margens do rio Jordão e escutou o seu apelo à conversão. Na sequência, Jesus quis também receber o batismo. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar da morte e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Uma vez mais se confirma uma realidade que a cada instante reaparece ao longo da história da salvação: o cuidado de Deus com seus queridos filhos que peregrinam na história, o imenso amor que Ele nos dedica, a vontade que Ele tem de levar-nos ao encontro da vida verdadeira… Apesar das nossas fragilidades e das nossas leviandades, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa ingratidão e da nossa inconsciência, Deus continua a chamar-nos, a falar connosco, a escrever-nos cartas de amor, a vir ao nosso encontro e a acompanhar-nos no caminho, a oferecer-nos a possibilidade de integrar a Sua família. E nós, que temos de fazer em resposta ao dom de Deus? O que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhamos a sua oferta de salvação, nos dispúnhamos a seguir Jesus no caminho do amor, da entrega, do dom da vida. Como vemos e como sentimos esta história de comunhão que Deus insiste em viver connosco? Como é que respondemos ao amor de Deus?
  • O episódio do batismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-Se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Nós crentes, filhos deste Deus, aceitamos ir ao encontro dos nossos irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilhamos a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofremos na alma as suas dores, aceitamos identificar-nos com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não temos medo de nos sujarmos ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para os promover e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?
  • Depois de ser batizado no rio Jordão, Jesus foi ungido pelo Espírito de Deus e abraçou, sem reticências, a missão que o Pai lhe confiava: propor e construir o Reino de Deus. Todos nós que fomos batizados em Cristo recebemos o mesmo Espírito de Deus que Ele recebeu e entramos na comunidade do Reino. No dia do nosso batismo recebemos a missão de colaborar com Jesus na construção de um mundo mais fraterno e mais humano. Temos sido fiéis a essa missão? O nosso compromisso batismal é uma realidade que procuramos renovar a cada passo, ou é letra morta que não toca a forma como vivemos? Somos batizados “de assinatura” (porque o nosso nome aparece num qualquer livro de registos de Batismo), ou somos cristãos de facto, que procuram seguir Jesus em cada passo do caminho e colaborar com Ele no sentido de curar o mundo das suas feridas?
  • Jesus sempre levou muito a sério aquela declaração de Deus que se escutou junto do rio Jordão: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Esse amor que o Pai lhe dedicava sempre sustentou as opções de Jesus e sempre iluminou o caminho que Ele ia percorrendo (mesmo quando no horizonte estava a cruz, o abandono dos amigos, o aparente fracasso da missão). Sustentado pelo amor de Deus, Jesus assumiu incondicionalmente o projeto do Pai de dar vida à humanidade. Obedeceu em tudo ao Pai, sem reticências de qualquer espécie. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu – filho amado de Deus – assumo na minha relação com o Pai? O projeto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projetos pessoais ou do que os desafios que o mundo me lança? Como Jesus, confio plenamente no Pai, nas suas propostas, no seu cuidado, no seu amor?
  • Depois de batizado e de ser ungido pelo Espírito, Jesus não se instalou numa crença religiosa de meias tintas ou de serviços mínimos. Animado pela força do Espírito, partiu para a Galileia a anunciar o Reino de Deus e a testemunhar – com palavras e com gestos – o projeto libertador do Pai. É dessa forma – coerente, comprometida, apaixonada – que eu procuro viver a missão que Deus me confiou no dia em que eu fui batizado? Os meus irmãos e irmãs maltratados pela vida e pelos homens podem contar com o meu empenho em levar-lhes a carícia do Deus que cura e que dá Vida? in Dehonianos.

 

ANEXOS:

Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026

Viver a Palavra

            A liturgia deste dia – Epifania do Senhor – celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… O Menino do presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Essa “luz” encarnou na nossa história e no nosso mundo, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. in Dehonianos.

                                                                + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + 

            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 60,1-6

Levanta-te e resplandece, Jerusalém,
porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor.
Vê como a noite cobre a terra,
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor,
e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz,
e os reis ao esplendor da tua aurora.
Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro;
os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços.
Quando o vires ficarás radiante,
palpitará e dilatar-se-á o teu coração,
pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações.
Invadir-te-á uma multidão de camelos,
de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.

CONTEXTO

Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja proveniência não é, entre os estudiosos da Bíblia, totalmente consensual… Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de diversos autores pós-exílicos e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI e V a.C.).

Em geral, estas profecias situam-nos em Jerusalém, a cidade que os Babilónios deixaram em ruínas, em 586 a.C., e que agora começa a reerguer-se. As marcas do passado ainda se notam nas pedras calcinadas da cidade; os filhos e filhas de Jerusalém que regressaram do exílio na Babilónia são ainda em número reduzido; a pobreza geral obriga a que a reconstrução seja lenta e muito modesta; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada… Sonha-se, no entanto, com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade para trazer a salvação definitiva ao seu Povo. Então, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.

O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até ao pôr do sol). in Dehonianos

 

INTERPELAÇÕES

  • É bela esta imagem de Deus como uma luz que se acende nas nossas vidas e nas nossas cidades, iluminando os caminhos que temos de percorrer, aquecendo os nossos corações cansados e abatidos e transformando o nosso pessimismo e derrotismo em esperança e vida nova. Às vezes temos a sensação de que este mundo onde peregrinamos se tornou um lugar sombrio e triste, onde o ódio pode mais do que o amor, a guerra se impõe aos esforços pela paz, o egoísmo é mais apreciado do que a comunhão… Mas a verdade é que, quando parecemos perdidos em becos sem saída, a luz de Deus vem iluminar o mapa dos caminhos que devemos andar para encontrar Vida. Não vivamos de olhos postos no chão, afogados numa escuridão que nos rouba a esperança; ousemos, mesmo em momentos complicados da história do mundo e da nossa história pessoal, levantar os olhos e perceber a presença desse Deus que nunca desistirá de iluminar todos os passos do nosso caminho rumo à Vida. Estamos dispostos a deixarmo-nos iluminar pela luz de Deus?
  • Podemos, naturalmente, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos fale, nos aponte caminhos de vida nova e nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Estamos disponíveis para dar testemunho dessa luz junto dos irmãos que compartilham o caminho connosco?
  • Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25). Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora de Jesus? Elas são, pelo seu brilho, uma luz que atrai os homens? As nossas desavenças e conflitos, a nossa falta de amor e de partilha, os nossos ciúmes e rivalidades, a nossa passividade e conformismo não contribuirão para embaciar o brilho dessa luz de Deus que devíamos refletir?
  • Será que na nossa comunidade cristã há espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de Deus? Os irmãos cuja vida é considerada irregular ou pouco condizente com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados? As diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar, ou são rejeitadas porque ameaçam a uniformidade? A nossa comunidade cristã é o “hospital” onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a vida lhes infligiu? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.

 

Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.

Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.

Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes,
os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas.
Prostrar-se-ão diante dele todos os reis,
todos os povos o hão de servir.

Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.

 

LEITURA II – Efésios 3,2-3a.5-6

Irmãos:
Certamente já ouvistes falar
da graça que Deus me confiou a vosso favor:
por uma revelação,
foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo.
Nas gerações passadas,
ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens
como agora foi revelado pelo Espírito Santo
aos seus santos apóstolos e profetas:
os gentios recebem a mesma herança que os judeus,
pertencem ao mesmo corpo
e participam da mesma promessa,
em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.

 

CONTEXTO

A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).

É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta, talvez uma “carta circular” enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino.

O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, oculto durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.

Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe ainda como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. Ef 2,11-22)… O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Segundo Paulo, a salvação oferecida por Deus e revelada em Jesus não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para todos os povos, sem distinção de raça, de cor, de cultura ou de estatuto social. Todos os homens e mulheres são filhos e filhas queridos de Deus. A todos Deus ama, todos fazem parte de uma família universal. Será que conseguimos ver em cada pessoa, independentemente das diferenças e particularismos que apresenta, um irmão ou uma irmã? Conseguimos apreciar devidamente a beleza de pertencer a uma família onde as diferenças não dividem, mas são um bem acrescentado que a todos enriquece?
  • A fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade…. Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças?
  • A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Esta comunidade é um espaço privilegiado onde se revela o projeto salvador que Deus tem para oferecer a todos os homens. É isso que, de facto, acontece? Na vida das nossas comunidades transparece realmente o amor de Deus? As nossas comunidades são verdadeiras comunidades fraternas, onde todos se amam sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, ou de história de vida? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 2,1-12

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado,
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

 

CONTEXTO

O episódio da visita dos magos ao Menino de Belém, narrado no evangelho de Mateus, é um episódio de grande beleza, que rapidamente se tornou muito popular entre os cristãos. Ao longo dos séculos a piedade popular não cessou de o embelezar com acrescentos que, na maior parte dos casos, não encontram eco no texto de Mateus.

Os biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever uma visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas sim apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra.

Na base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do Crescente Fértil, de que cada criança que nascia tinha a sua própria estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que iria mudar a história humana. É provável também que Mateus se tenha inspirado, para construir esta bonita narrativa, num texto do livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio teve sempre, para os teólogos de Israel, um claro sabor messiânico.

Finalmente, o relato de Mateus faz uma referência ao rei que governava a Palestina na altura do nascimento de Jesus: Herodes, chamado “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o seu trono. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Em primeiro lugar, atentemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, a “luz salvadora” enviada por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?
  • Os “magos” são os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da luz libertadora de Deus. Talvez hoje, com toda a pressão que a vida nos coloca, não consigamos ter tempo para olhar para o céu, à procura dos sinais de Deus; talvez a vida nos obrigue a andar de olhos no chão, ocupados em coisas bem rasteiras e materiais… Mas a aventura da existência terá mais cor se arranjarmos tempo para parar, para meditar, para falar com Deus, para escutar as suas indicações, para tentar ler os sinais que Ele vai colocando ao longo do nosso caminho… A nossa peregrinação pela terra não fará mais sentido se aprendermos a ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus?
  • O relato de Mateus sublinha, por outro lado, a “desinstalação” dos “magos”: eles descobriram a “estrela” e, imediatamente, deixaram tudo para procurar Jesus. O risco da viagem, a incomodidade do caminho, o confronto com o desconhecido, nada os impediu de partir. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, ao nosso comando da televisão, ao nosso computador, à nossa zona de conforto, à nossa segurança, ao nosso comodismo? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz, muitas vezes através dos irmãos que necessitam da nossa ajuda e do nosso cuidado?
  • Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?
  • Os “magos”, depois de se encontrarem com Jesus e de o reconhecerem como “o Senhor”, “regressaram ao seu país por outro caminho”. O encontro com o Menino do presépio tem sido, nestes dias, um momento de confronto que nos leva a reequacionar a nossa vida, os nossos valores e opções, e a enveredar por um caminho novo, mais simples, mais humilde, mais fraterno, mais humano? in Dehonianos.

ANEXOS:

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