Liturgia da Palavra

Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 19.07.2026

Viver a Palavra

            Diante de um mundo onde tudo corre a passo lesto, onde procuramos resoluções rápidas e imediatas e onde as soluções radicais são bastante tentadoras e populistas, emerge a paciência fecunda da metáfora agrícola de um campo de trigo que parece ameaçado pelo joio que cresce conjuntamente ou da pequena semente de mostarda que cresce para se tornar uma árvore grande e frondosa onde as aves do céu se podem abrigar ou até da imagem doméstica da mulher que junta o fermento à farinha para levedar toda a massa.

A paciência fecunda é uma nobre arte que parece passada de moda, pois diante das nossas urgências quotidianas parece quietude, inércia ou até relativismo. Como afirma o P. Nuno Tovar de Lemos, as «soluções radicais» parecem muito tentadoras, quer em nós mesmos («saio de casa e acaba-se com isto de uma vez por todas!), quer em relação ao mundo («o que isto está a precisar é de um bom ditador!», «se não vai a bem, vai a mal!»), quer em relação à religião (com os fundamentalismos religiosos).

Na verdade, continuando a narrar as parábolas evangélicas que ocupam o centro geográfico e teológico do Evangelho de Mateus, Jesus ensina-nos que a pressa de acabar de vez com todo o mal pode destruir o bem. Que o desejo de ver a semente germinar e tornar-se uma grande árvore exige a espera e o cuidado paciente que é tanto mais frutuosa quanto mais discreta e humilde como o fermento, que pequeno e discreto leveda toda a massa.

Importa ressalvar que a parábola do trigo e do joio não é um convite ao relativismo. O dono da casa não afirma que trigo e joio são a mesma coisa. Para ele, o joio é claramente mau e claramente distinto do trigo. Num mundo relativista, facilmente perdemos a exigência e deixamos de ter ideais elevados, contudo é essencial ter grandes ideais e lutar por eles. Mas temos de distinguir a necessidade de termos ideais da tentação de sermos idealistas. Uma coisa é ter um ideal como meta que orienta o nosso agir e nos indica a direção do nosso caminho, outra coisa são os idealismos que possuem uma grande dose de impaciência e irritação para connosco e com o mundo pelo facto de a realidade ainda não ser aquilo que devia ser. Esta impaciência e irritação conduzem a duas saídas, ambas erradas: as soluções radicais ou o relativismo.

Contudo, não é assim com o dono deste campo que tolera até à colheita a presença do joio a crescer com o trigo. Se permite isto, é porque não quer que algum trigo se perca na ânsia desesperada de arrancar o joio, isto é, ele está muito mais preocupado com o trigo que com o joio. Na verdade, os nossos perfeccionismos e soluções radicais são muito mais centrados no joio que no trigo.

Jesus sabe que na nossa vida e no nosso coração crescem trigo e joio, bem e mal. Esta mansidão de Deus no seu agir com os homens e mulheres, como narra a primeira leitura, e que aparece descrita pelo dono do campo na parábola constituem um apelo à arte da paciência e da convivência onde cada batizado indigente da paciência e benevolência de Deus converte o seu coração para que se torne manso, humilde e paciente para com as fraquezas e limitações do próximo. Contudo, a misericórdia e bondade de Deus não são um convite ao comodismo, mas apelo permanente à conversão para que a semente lançada no coração de cada homem e cada mulher germine e cresça como aquele pequeno grão de mostarda, de modo que as nossas vidas sejam ótimo fermento a levedar toda a massa e a fazer ecoar no mundo a mais bela melodia do amor de Deus. in Voz Portucalense.                      

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            Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA ISabedoria 12,13.16-19

Leitura do Livro da Sabedoria

Não há Deus, além de Vós,
que tenha cuidado de todas as coisas;
a ninguém tendes de mostrar que não julgais injustamente.
O vosso poder é o princípio da justiça
e o vosso domínio soberano
torna-Vos indulgente para com todos.
Mostrais a vossa força
aos que não acreditam na vossa omnipotência
e confundis a audácia daqueles que a conhecem.
Mas Vós, o Senhor da força, julgais com bondade
e governais-nos com muita indulgência,
porque sempre podeis usar da força quando quiserdes.
Agindo deste modo, ensinastes ao vosso povo
que o justo deve ser humano
e aos vossos filhos destes a esperança feliz
de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento.

CONTEXTO

O “Livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira metade do séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e concepções do mundo helénico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.

O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do livro (cf. Sab 10,1-19,22). Nessa parte, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o autor faz a comparação entre os castigos que Deus lançou contra os “ímpios” (os pagãos) e a salvação reservada aos “justos” (o Povo de Deus).

O autor começa por mostrar como a “sabedoria” de Deus se manifestou na história de Israel (cf. Sab 10,1-11,14). Em contraste, vai descrever como é que Deus tratou os egípcios (cf. Sab 11,15-20) e os idólatras cananeus (cf. Sab 12,3-19). O texto que nos é proposto faz parte desta última perícope.

Os cananeus eram, na perspetiva dos israelitas, uma raça maldita e perversa, que cometiam crimes especialmente hediondos: “praticavam obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos” (Sab 12,4-5). Deus podia tê-los eliminado rapidamente (cf. Sab 12,9); no entanto, retardou o mais possível o castigo (cf. Sab 12,8), dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida (cf. Sab 12,10). in Dehonianos.

 

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

  • O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam ações erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada… Mas já o interiorizámos suficientemente?
  • Interiorizar esta “fotografia” de Deus significa “empapar-nos” da lógica do amor e da misericórdia e deixar que ela transpareça em gestos para com os nossos irmãos. Isso acontece realmente? Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos comportamentos nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam ações erradas?
  • Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como “castigos” de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores… Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 85 (86)

Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

Vós, Senhor, sois bom e indulgente,
cheio de misericórdia para com todos os que Vos invocam.
Ouvi, Senhor, a minha oração,
atendei a voz da minha súplica.

Todos os povos que criastes virão adorar-vos, Senhor,
e glorificar o vosso nome,
porque Vós sois grande e operais maravilhas,
Vós sois o único Deus.

Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo,
paciente e cheio de misericórdia e fidelidade.
Voltai para mim os vossos olhos
e tende piedade de mim.

 

LEITURA II – Romanos 8,26-27

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
O Espírito Santo vem em auxilio da nossa fraqueza,
porque não sabemos que pedir nas nossas orações;
mas o próprio Espírito intercede por nós
com gemidos inefáveis.
E Aquele que vê no íntimo dos corações
conhece as aspirações do Espírito,
sabe que Ele intercede pelos santos
em conformidade com Deus.

CONTEXTO

Há já alguns domingos que Paulo nos vem propondo uma catequese sobre o caminho a seguir para poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,21-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39) – a comunidade do Reino.

No passado domingo, Paulo convidava os crentes a decidirem-se pela vida “segundo o Espírito”. Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de Deus. Trata-se, no entanto, segundo Paulo, de um caminho difícil, que exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.

Como é que o cristão pode fazer essa opção? Como é que ele percebe, claramente, qual é o caminho? Donde recebe ele a força para viver “segundo o Espírito”? in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

A reflexão poderá ter em conta as seguintes questões:

  • Antes de mais, há neste texto um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.
  • O Espírito de Deus, vivo e atuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a “prova provada” do amor de Deus por nós. O Espírito oferece-nos cada dia a vida de Deus, leva-nos ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.
  • O ritmo da vida moderna é estonteante… As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para refletir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida “segundo a carne” ou “segundo o Espírito”.
  • O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projeto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele? in Dehonianos.

 

EVANGELHO – Mateus 13,24-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’.
Disseram-lhe os servos:
‘Queres que vamos arrancar o joio?’
‘Não! – disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro'”.

Jesus disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos”.
Disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado”.
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: “Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo”.

Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe:
“Explica-nos a parábola do joio no campo”.
Jesus respondeu:
“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.
Quem tem ouvidos, oiça”.

CONTEXTO

Continuamos em contacto com as “parábolas do Reino”. O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de três imagens ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do “Reino”.

Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por “parábolas”: porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante; porque a “parábola” é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em contextos polémicos; porque a “parábola” faz as pessoas pensar e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as “parábolas” são uma linguagem privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o Reino e para as levar a aderir ao Reino.

Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”).

Também desta vez percebe-se – tanto nas parábolas, como nas explicações que as acompanham – a preocupação “pastoral” de Mateus: ele não é um jornalista a transcrever o que Jesus disse; mas é um “pastor” que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige. in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

  • O Evangelho deste domingo garante-nos, antes de mais, que o “Reino” é uma realidade irreversível, que está em processo de crescimento no mundo. É verdade que é difícil perceber essa semente a crescer ou esse fermento a levedar a massa, quando vemos multiplicarem-se as violências, as injustiças, as prepotências, as escravidões… É difícil acreditar que o “Reino” está em processo de construção, quando o materialismo, a futilidade, o comodismo, a procura da facilidade, o efémero, sobressaem, de forma tão marcada, na vida de grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo… A Palavra de Deus convida-nos, contudo, a não perder a confiança e a esperança. Apesar das aparências, o dinamismo do “Reino” está presente, minando positivamente a história e a vida dos homens.
  • Na verdade, falar do “Reino” não significa falarmos de um “condomínio fechado”, ao qual só tem acesso um grupo privilegiado constituído pelos “bons”, pelos “puros”, pelos perfeitos”, e de onde está ausente o mal, o egoísmo e o pecado… Falar do “Reino” é falar de uma realidade em processo de construção, onde cada homem e cada mulher têm o direito de crescer ao seu ritmo, de fazer as suas escolhas, de acolher ou não o dom de Deus, até à opção final e definitiva. É falarmos de uma realidade onde o amor de Deus, vivo e atuante, vai introduzindo no coração do homem um dinamismo de conversão, de transformação, de renascimento, de vida nova.
  • Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não preveem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem “todo o tempo do mundo” para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a “paciência” de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.
  • A “paciência de Deus” com o joio convida-nos também a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O “senhor” da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos “servos” que pretendem “cortar o mal pela raiz” e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro… A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorretos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.
  • Convém termos sempre presente o seguinte: não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro… Mal e bem misturam-se no mundo, na vida e no coração de cada um de nós. Dividir as nações em boas (as que têm uma política que serve os nossos interesses) e más (as que têm uma política que lesa os nossos interesses), os grupos sociais em bons (os que defendem valores com os quais concordamos) e maus (os que defendem valores que não são os nossos), os indivíduos em bons (os amigos, aqueles que nos apoiam e que estão sempre de acordo connosco) e maus (aqueles que nos fazem frente, que nos dizem verdades que são difíceis de escutar, que não concordam connosco)… é uma atitude simplista, que nos leva frequentemente a assumir atitudes injustas, que geram exclusão, marginalização, sofrimento e morte. Mais uma vez: saibamos olhar para o mundo, para os grupos, para as pessoas sem preconceitos, com a mesma bondade, compreensão e tolerância que Deus manifesta face a cada homem e a cada mulher, independentemente das suas escolhas e do seu ritmo de caminhada. in Dehonianos.

Para os leitores:

            As leituras propostas para este Domingo não apresentam nenhuma dificuldade aparente na sua preparação. Contudo, um texto curto, como o caso da segunda leitura, exige um cuidado ainda maior para uma eficaz proclamação do texto. Em ambos os textos, pede-se o cuidado nas pausas e respirações, porque possuem frases longas com diversas orações.

  

  

ANEXOS:

Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 12.07.2026

Viver a Palavra

A forma longa do Evangelho proposto para este Domingo impele-nos mais à contemplação do que à explicação. Ao contrário das demais parábolas evangélicas, Jesus não narra apenas a parábola à imensa multidão que o rodeia, mas no círculo restrito dos discípulos explica-lhes o sentido da parábola.

            Em primeiro lugar, emerge a pergunta: quem somos nós como destinatários desta parábola? Somo apenas mais um elemento desta imensa multidão que se reúne em torno de Jesus que «veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender» ou somos discípulos que se sentam com o Mestre a quem é «dado conhecer os mistérios do reino dos Céus» na consciência de que o Senhor nos oferece em abundância o pão da Sua Palavra para que possamos dar fruto abundante, não obstante a fragilidade do terreno que somos.

            Como é belo contemplar o nosso bom Deus como semeador que sai a semear pelas estradas do mundo e no coração dos homens e mulheres que por amor criou. O nosso Deus é um semeador de mão cheia e com gesto largo para que a semente possa chegar a todos os lugares. Não é um desastrado que desperdiça semente, lançando-a fora do terreno fértil, desistindo de todos os outros lugares que aparentemente não estão preparados para a sementeira, mas um semeador generoso, que enche a mão e estende o braço ao longo e ao largo para que a todos possa chegar o gérmen de vida que poderá gerar fruto abundante.

            O semeador generoso e ousado arrisca e espera pacientemente a sua colheita. A paciência é uma virtude fundamental da arte de semear. Temos tanto a aprender com o nosso bom Deus como agentes pastorais ao serviço da evangelização. Quanta pressa temos ao lançar a semente querendo ver de imediato os seus frutos! Quanto tempo perdemos a julgar o terreno! Como o Pai do Céu, somos chamados a semear abundantemente, sem desistir de ninguém, sem dar nenhum terreno por perdido, esperando numa paciência ativa que me faz colaborar com o semeador, sendo terreno fértil onde permito que Deus atue.

            Como a chuva faz regar o chão e faz germinar o pão, a Palavra de Deus rega o coração e faz germinar a conversão, cumprindo assim a sua missão. A parábola do semeador é um verdadeiro ensinamento sobre a arte da escuta, sobre a responsabilidade humana que a Palavra de Deus suscita na vida de cada um de nós. Contudo, importa referir que o centro da parábola não são os erros do homem e as suas limitações e fragilidades, mas Deus que semeia e espera pacientemente. Por mais que eu seja terreno árido, pedregoso e com espinhos, Deus continua a semear sem descanso para que eu possa dar fruto.

            Comove-me sempre um Deus que semeia assim abundantemente para colher tão pouco. Deus sabe que por três vezes como diz a parábola e, tantas outras vezes como me diz a minha experiência, não respondo e não permito que a semente floresça. Mas Deus também sabe que, quando sou terreno fértil, a semente germina cem, sessenta e trinta por um.

            É a ousadia de quem ama e espera sempre o melhor do outro, para lá dos seus limites e fracassos. É a desmedida confiança paternal que espera sempre mais dos seus filhos e que não desiste deles até que sejam homens e mulheres maduros que pelos seus frutos se tornam também boa semente para que o mundo possa ser o canteiro florido que proclama a beleza e a grandeza do Eterno Semeador.

            Como S. Paulo nos recorda, estamos sujeitos «à vã situação do mundo». Somos frágeis e à superficialidade da escuta, como a semente lançada no caminho, temos de responder com a interioridade que permite que a palavra penetre o nosso íntimo. Somos terreno pedregoso que se alegra de modo efémero, mas depressa desvanece e, por isso, temos de responder com a perseverança que resiste às dificuldades. Vivemos rodeados por espinhos que nos querem sufocar e temos de responder com a luta espiritual que nos faz progredir na estrada da santidade. Deste modo, haveremos de nos tornar terra fértil e boa, não por mérito nosso, mas pela grandeza Daquele que em nós continua a semear em abundância. in Voz Portucalense.

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            Embora no calendário litúrgico oficial da Igreja Católica, não existe uma solenidade fixa chamada “Dia do Mar”, a Igreja celebra o Domingo do Mar (Sea Sunday) no segundo domingo de julho, dedicado a rezar pelos marinheiros e suas famílias. Este ano, acontecerá em 12 de julho. Publicamos, em anexo, a mensagem do prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Michael Czerny. in vatican news

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            Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IIsaías 55,10-11

Leitura do Livro de Isaías

Eis o que diz o Senhor:
“Assim como a chuva e a neve que descem do céu
não voltam para lá sem terem regado a terra,
sem a terem fecundado e feito produzir,
para que dê a semente ao semeador e o pão para comer,
assim a palavra que sai da minha boca
não volta sem ter produzido o seu efeito,
sem ter cumprido a minha vontade,
sem ter realizado a sua missão”.

CONTEXTO

            O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e dececionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.
Na primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e um “novo êxodo” do Povo de Deus rumo à Terra Prometida; na segunda parte (cf. Is 49-55), o profeta fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém.

            Estes três versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do “Livro da Consolação”. Depois de convidar o Povo (que ainda está na Babilónia) a buscar e invocar o Senhor (cf. Is 55,6-9), o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus que acabou de ser proclamada aos exilados (cf. Is 55,10-11).

            Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade exilada está farta de belas palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se… A impaciência, a dúvida e o ceticismo vão minando lentamente a resistência e a fé dos exilados… Será que as promessas de Deus se concretizarão? Deus não está a ser demasiado lento, em relação a algo que exige uma intervenção imediata? Deus ter-se-á esquecido da situação do seu Povo? in Dehonianos.

 

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

  • Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, otimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efetivamente, um caminho de felicidade e de vida plena… “Que bom é estarmos aqui” – dizemos… Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.
  • A Palavra de Deus não poderá ser uma espécie de ópio do Povo, no sentido de que projeta em Deus as esperanças e os sonhos que nos competem a nós concretizar? Atenção: é preciso estarmos bem conscientes de que Deus não prescinde de nós para atuar na história humana… A sua Palavra dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. A Palavra de Deus não só não adormece a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projetos de Deus para o mundo e para os homens e convida-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do mundo.
  • Vivemos na era do relógio. “Tempo é dinheiro” – dizemos. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos, sem tempo para as pessoas, sem tempo para Deus, sem tempo para nós. Tornamo-nos impacientes e exigentes; achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos. Queremos que Ele aja imediatamente, que nos resolva logo os problemas, que actue de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projetos. É preciso, no entanto, aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Não nos basta saber que a Palavra de Deus é sempre eficaz (embora não tenha os nossos prazos) e que não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem ter realizado a sua missão? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 64 (65)

Refrão: A semente caiu em boa terra e de
u muito fruto.

Visitastes a terra e a regastes,
enchendo-a de fertilidade.
As fontes do céu transbordam em água
e fazeis brotar o trigo.

Assim preparais a terra;
regais os seus sulcos e aplanais as leivas,
Vós a inundais de chuva
e abençoais as sementes.

Coroastes o ano com os vossos benefícios,
por onde passastes brotou a abundância.
Vicejam as pastagens do deserto
e os outeiros vestem-se de festa.

Os prados cobrem-se de rebanhos
e os vales enchem-se de trigo.
Tudo canta e grita de alegria.

 

LEITURA II – Romanos 8,18-23

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Eu penso que os sofrimentos do tempo presente
não têm comparação com a glória
que se há de manifestar em nós.
Na verdade, as criaturas esperam ansiosamente
a revelação dos filhos de Deus.
Elas estão sujeitas à vã situação do mundo,
não por sua vontade,
mas por vontade d’Aquele que as submeteu,
com a esperança de que as mesmas criaturas
sejam também libertadas da corrupção que escraviza,
para receberem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
Sabemos que toda a criatura geme ainda agora
e sofre as dores da maternidade.
E não só ela, mas também nós,
que possuímos as primícias do Espírito,
gememos interiormente,
esperando a adoção filial e a libertação do nosso corpo.

CONTEXTO

            Paulo continua a oferecer-nos a sua catequese sobre o caminho que é preciso seguir para se poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39).

            Nos versículos anteriores ao texto que hoje nos é proposto (cf. Rom 8,1-17), Paulo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou os cristãos a seguirem o mesmo percurso. De forma especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a carne” (isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência) e aderir à vida “segundo o Espírito” (isto é, a vida de escuta de Deus, de obediência aos projetos de Deus, de doação aos homens). in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

A reflexão poderá ter em conta as seguintes questões:

  • Antes de mais, Paulo exorta os crentes a decidirem-se por uma vida “segundo o Espírito”. Essa opção terá uma dimensão cósmica e afetará a relação do homem com os outros homens e com toda a criação. Uma vida conduzida de acordo com critérios de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de pecado, gera escravidão, injustiça, arbitrariedade, morte, sofrimento, que se refletem na vida de todos os outros seres criados e criam desequilíbrios que desfeiam este mundo que Deus quis “bom”… Ao contrário, uma vida conduzida de acordo com os critérios de Deus gera respeito, amor, solidariedade, que se refletem na vida dos outros seres criados e criam harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade. Tenho consciência de que as minhas opções afetam os outros meus irmãos, bem como o mundo que me rodeia? Tenho consciência de que o mundo será melhor ou pior, de acordo com as opções que eu fizer?
  • No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a ideia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o “novo céu e a nova terra”.
  • Muitas vezes sentimo-nos confusos com certas novidades que nos desconcertam e que parecem pôr em causa os velhos esquemas sobre os quais o mundo se tem edificado. Criticamos os mais jovens pela sua ousadia, pelos seus valores, pelas suas preocupações, pela sua visão do mundo… Não sabemos para onde vamos e parece que nada faz sentido…. Sentimo-nos abalados e inseguros; lamentamo-nos porque tudo parece ir de mal a pior e não sabemos “onde isto vai parar”. Não é possível que, em muitos casos, a nossa rigidez esconda o comodismo, a instalação, o aburguesamento de quem tem medo da novidade?
  • Aconteça o que acontecer, somos convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com os óculos da esperança. Não caminhamos para o holocausto, para a destruição, para o nada, mas para o “novo céu e a nova terra”, que já estão em gérmen presentes na nossa história e que, cada dia, se manifestam um pouco mais.
  • Atenção: esse “novo céu e nova terra” não podem ser projetados para um futuro ideal, no céu… Eles estão já a construir-se na terra, na nossa história, sempre que os seguidores de Jesus aceitam o seu convite e se dispõem a viver “segundo o Espírito”. in Dehonianos.

 

EVANGELHO – Mateus 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
“Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça”.

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
“Porque lhes falas em parábolas?”
Jesus respondeu-lhes:
“Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure’.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque veem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.

 

CONTEXTO

            Hoje e nos próximos dois domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A “parábola” é uma imagem ou comparação, através da qual se ilustra uma determinada mensagem ou ensinamento.
A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É uma linguagem habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de falar e de instruir através de imagens, de comparações e de alegorias, do que através dos discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.

            A linguagem parabólica tem várias vantagens em relação a um discurso mais lógico e impositivo. Em primeiro lugar, porque a imagem ou comparação que caracteriza a linguagem parabólica é muito mais rica em força de comunicação e em poder de evocação, do que a simples exposição teórica: é mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora e, por isso, mexe mais com os ouvintes. Em segundo lugar, porque é uma excelente arma de controvérsia: a linguagem figurada permite levar o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, nunca mereceriam a sua concordância. Em terceiro lugar, porque é um verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a refletir, a medir os prós e os contras, a encontrar soluções para os dilemas que a vida põe: espicaça a curiosidade, incita à busca, convida a descobrir a verdade.

            No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, através das quais Jesus revela aos discípulos a realidade do “Reino”: são as “parábolas do Reino”.

            Dessas sete parábolas, três procedem da tradição sinóptica (o semeador, o grão de mostarda, o fermento); as outras quatro (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram nem em Marcos, nem em Lucas. Provavelmente, são originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou abundantemente na composição do seu Evangelho.

            A preocupação do evangelista Mateus é sempre a vida da sua comunidade. Nestas sete parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação de um pastor que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé desses crentes a quem o Evangelho se destina. in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

  • No seu “estado atual”, a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a refletir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?
  • A semente que caiu em terrenos duros, de terra batida, faz-nos pensar em corações insensíveis, egoístas, orgulhosos, onde não há lugar para a Palavra de Jesus e para os valores do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que veem no Evangelho um caminho para fracos e vencidos, e que preferem um caminho de independência e de autossuficiência, à margem de Deus e das suas propostas. Este caminho de orgulho e de autossuficiência alguma vez foi “o meu caminho”?
  • A semente que caiu em sítios pedregosos, que brota nessa pequena camada de terra que aí há, mas que morre rapidamente por falta de raízes profundas, faz-nos pensar em corações inconstantes, capazes de se entusiasmarem com o “Reino”, mas incapazes de suportarem as contrariedades, as dificuldades, as perseguições. É a realidade de tantos homens e mulheres que veem em Jesus uma verdadeira proposta de salvação e que a ela aderem, mas que rapidamente perdem a coragem e entram num jogo de cedências e de meias tintas quando são confrontados com a radicalidade do Evangelho. A Palavra de Deus é, para mim, uma realidade que eu levo a sério, ou algo que eu deixo cair quando me dá jeito?
  • A semente que caiu entre os espinhos e que foi sufocada por eles, faz-nos pensar em corações materialistas, comodistas, instalados, para quem a proposta do “Reino” não é a prioridade fundamental. É a realidade de tantos homens e mulheres que, sem rejeitarem a proposta de Jesus (muitas vezes são “muito religiosos” e têm “a sua fé”) fazem do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro Deus a que tudo sacrificam. As propostas de Jesus são a referência fundamental à volta da qual a minha vida se constrói, ou deixo que outros interesses e valores sufoquem os valores do Evangelho?
  • A semente que caiu em boa terra e que deu fruto abundante faz-nos pensar em corações sensíveis e bons, capazes de aderirem às propostas de Jesus e de embarcarem na aventura do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que encontraram na proposta de Jesus um caminho de libertação e de vida plena e que, como Jesus, aceitam fazer da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos homens. Este é o quadro ideal do verdadeiro discípulo; e é esta a proposta que o Evangelho de hoje me faz.
  • A parábola, na sua forma original (vers. 1-9) refere-se à inevitável erupção do “Reino”, à sua força e aos resultados maravilhosos que o “Reino” alcançará… Com frequência, olhamos o mundo que nos rodeia e ficamos desanimados com o materialismo, a futilidade, os falsos valores que marcam a vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Perguntamo-nos se vale a pena anunciar a proposta libertadora de Jesus num mundo que vive obcecado com as riquezas, com os prazeres, com os valores materiais… O Evangelho de hoje responde: “coragem! Não desanimeis, pois, apesar do aparente fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”. in Dehonianos.

 

 

 

Para os leitores:

            A primeira leitura é constituída pela palavra dirigida por Deus ao Seu Povo e o discurso direto presente nesse texto é uma longa frase com diversas orações. Apesar de ser uma leitura breve e sem palavras de difícil pronunciamento, exige especial cuidado nas pausas e articulação das diversas orações.

            Tal como a primeira leitura, a dificuldade da segunda leitura reside nas frases longas e com diversas orações. A preparação do texto deve ter em atenção a articulação das diversas frases para uma eficaz comunicação da mensagem. in Voz Portucalense

  

  

ANEXOS:

Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 05.07.2026

Viver a Palavra

Ouvimos muitas vezes dizer que a Boa Notícia que o Evangelho nos traz aparece em clara contracorrente com aquilo que são as nossas pretensões humanas e aquilo que o mundo apresenta como modelo e paradigma. Contudo, importa não fazer destas palavras um mero refrão ou slogan inconsequente, mas procurar compreender como o Evangelho nos desinstala e nos desafia a moldar a nossa existência a partir da beleza e da exigência das palavras de Jesus.

            Ser «sábio e inteligente», aparecer nas primeiras páginas dos jornais e revistas, ocupar lugares de destaque social e eclesial são pretensões muito humanas e que facilmente conseguimos identificar em tantas pessoas que conhecemos e até em nós próprios. Porém, antes de tudo, é necessário que o nosso modo de olhar o mundo e a realidade não nos descarte do cenário que analisamos. Somos parte integrante deste mundo que nos educa para sermos os vencedores, os mais bem-sucedidos, os primeiros e os que se destacam dos demais.

            Em contracorrente aparece Jesus, que diante da incredulidade de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, entra em oração e diálogo com Deus. Invocando-O como Abbá, Pai, ensina-nos a dirigir a Deus, estabelecendo um colóquio íntimo e próximo com Aquele que sabemos que nos ama.

            Jesus louva e bendiz o Pai porque o segredo de uma vida feliz e realizada reside na pequenez evangélica daqueles que reconhecem que a sua fragilidade não é um obstáculo ao amor e à graça de Deus, mas precisamente o lugar onde eles atuam. A nossa pequenez feita oração confiante ao Pai, ao jeito de Jesus, transforma-se em confiança e renova no nosso coração a esperança.

            Jesus não rejeita a sabedoria e a inteligência, nem está de modo algum a exortar-nos à baixa autoestima ou ao menosprezo das nossas capacidades e qualidades. Pelo contrário, desafia-nos a colocar as nossas capacidades e qualidades ao serviço do Reino, cultivando no nosso coração a verdadeira sabedoria e inteligência que não se traduz na acumulação de muitos conhecimentos, mas na sublime arte de colocar em prática aquilo que aprendemos na alegria nova que apenas o serviço por amor nos pode oferecer. É a vida segundo o Espírito a que nos exorta S. Paulo, convidando-nos a fazer da nossa humanidade o substrato onde a graça atua e nos permite entrar em comunhão com Deus. Também Jesus assumindo a nossa humanidade não a desprezou, mas fez dela lugar de comunhão e intimidade com o Pai. Aquele que foi enviado pelo Pai, que é conhecido por Ele e que O conhece é Aquele que nos revela o Seu rosto terno e misericordioso.

«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas». Nestas palavras de Jesus encontramos o itinerário discipular que somos chamados a percorrer. Antes de mais somos chamados: «vinde a mim». Jesus conhece as nossas canseiras e dificuldades, as nossas fragilidades e limitações, mas chama-nos e convida-nos a encontrar força e alento no Seu coração manso e humilde. Oferece-nos o Seu coração como escola da arte de amar. Curiosamente, esta é a única passagem evangélica em que Jesus nos diz claramente «aprendei de Mim» e junta-lhe «que sou manso e humilde de coração». Mansidão e humildade serão caminho seguro para acolher a grandeza e a força do Reino de Deus.

Deste modo, como discípulos somos chamados a afinar o nosso coração com o coração do Mestre, para que também as nossas vidas se tornem lugar de anúncio da beleza do amor de Deus e se constituam como lugares de acolhimento, disponibilidade e conforto para quantos caminham cansados e atribulados os trilhos da história. in Voz Portucalense.

                                              + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

            O mês de julho na nossa diocese marca a celebração dos aniversários de ordenação de muitos dos nossos presbíteros. Este ano as ordenações serão no dia 12 de julho. Esta ocasião é oportunidade para dar graças a Deus pelo dom do ministério presbiteral, invocando sobre aqueles que vão ser ordenados o dom do Espírito Santo. Nas comunidades paroquiais pode também ser oportuno a realização de uma vigília de oração ou alguma atividade vocacional com os jovens ou adolescentes, propondo o ministério ordenado como caminho de realização e felicidade, servindo a Igreja e o mundo. in Voz Portucalense.

            Também, e embora no calendário litúrgico oficial da Igreja Católica, não existe uma solenidade fixa chamada “Dia do Mar”, a Igreja celebra o Domingo do Mar (Sea Sunday) no segundo domingo de julho, dedicado a rezar pelos marinheiros e suas famílias. Este ano, acontecerá em 12 de julho e, na próxima semana, publicaremos a mensagem do prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Michael Czerny. in vatican news

                                               + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +´

                         Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IZacarias 9,9-10

Leitura da Profecia de Zacarias

Eis o que diz o Senhor:
“Exulta de alegria, filha de Sião,
solta brados de júbilo, filha de Jerusalém.
Eis o teu Rei, justo e salvador, que vem ao teu encontro,
humildemente montado num jumentinho, filho duma jumenta.
Destruirá os carros de combate de Efraim
e os cavalos de guerra de Jerusalém;
e será quebrado o arco de guerra.
Anunciará a paz às nações:
o seu domínio irá de um mar ao outro mar
e do Rio até aos confins da terra.

CONTEXTO

            O Livro de Zacarias é um livro profético com catorze capítulos. Atualmente, os estudiosos da Bíblia são unânimes em reconhecer que entre os oito primeiros capítulos e os restantes há uma diferença tão grande em contextos, estilo, vocabulário e temática, que devemos falar de dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não conhecemos o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se chamar-lhe o “Deutero-Zacarias”. É ao “Deutero-Zacarias” que pertence este texto que hoje nos é proposto.

            Em que época foram escritos esses textos atribuídos ao Deutero-Zacarias? As opiniões são divergentes; no entanto, a maioria dos comentadores coloca estes oráculos no final do séc. IV ou princípios do séc. III a.C… O ambiente é claramente pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedónia, quando o Povo de Deus estava integrado no império helénico.

            O livro do “segundo Zacarias” está marcado por um forte acento messiânico. Refere-se, com frequência, à figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (cf. Zac 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do Messias; na segunda parte (cf. Zac 12,1-14,21), os oráculos descrevem a salvação e a glória futura de Jerusalém. in Dehonianos.

 

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

  • Em primeiro lugar, o Deutero-Zacarias deixa clara a preocupação de Deus com a salvação do seu Povo. Na fase em que o profeta leva a cabo a sua missão, o Povo de Deus conhece uma relativa tranquilidade; mas é um Povo subjugado, manipulado, impedido de escolher livremente o seu destino e de construir o seu futuro. É nesse contexto que o profeta anuncia a chegada de um rei “justo e salvador”, que vem ao encontro do Povo para o libertar e para lhe oferecer a paz (“shalom” – no sentido de harmonia, bem-estar, felicidade plena). Ora, Deus não perdeu qualidades, nem mudou a sua essência. O Deus que assim atuou ontem é o Deus que assim atua hoje e que assim atuará sempre. Ao longo da nossa caminhada de todos os dias, fazemos frequentemente a experiência do desencanto, da frustração, da privação de liberdade. Sentimo-nos, tantas vezes, perdidos, sem esperança, incapazes de tomar nas mãos o nosso futuro e de dar um sentido à nossa vida… Nessas circunstâncias, somos convidados a redescobrir esse Deus que vem ao nosso encontro, que restaura a nossa esperança e nos oferece a paz.
  • Uma certa visão “americanizada” do mundo e da vida defende a necessidade de armar exércitos formidáveis, de gastar uma considerável fatia do orçamento das nações em instrumentos de morte cada vez mais sofisticados, para impor, pela força e pelo medo, a paz e a segurança do mundo. O Deutero-Zacarias diz-nos que a lógica de Deus é outra: Ele chega desarmado, pacífico, humilde, sem arrogância e é, dessa forma, que Ele salva e liberta os homens. Para mim, qual faz mais sentido: a lógica desarmada de Deus ou a lógica musculada dos senhores do mundo?
  • A história da salvação mostrou, muitas vezes, que é através dos pequenos, dos humildes, dos pobres, dos insignificantes que Deus atua no mundo e o transforma. Deus está mais na viúva que lança no tesouro do Templo umas pobres moedas do que no capitalista que preenche um cheque chorudo para pagar os vitrais da nova igreja da paróquia; Deus está mais no gesto simples do pacifista que oferece uma flor a um soldado do que na violência daqueles que lutam de armas na mão contra os “maus”; Deus está mais no olhar límpido de uma criança do que na palavra poderosa de um pregador inflamado que “sabe tudo” sobre Deus… Já aprendi a descobrir esse Deus que se manifesta na humildade, na pobreza, na simplicidade? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão 1: Louvarei para sempre o vosso nome,
Senhor, meu Deus e meu Rei.

Refrão 2: Aleluia.

Quero exaltar-Vos, meu Deus e meu Rei,
e bendizer o vosso nome para sempre.

 

Quero bendizer-Vos, dia após dia,
e louvar o vosso nome para sempre.

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas.

Graças Vos deem, Senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos.

O Senhor é fiel à sua palavra
e perfeito em todas as suas obras.
O Senhor ampara os que vacilam
e levanta todos os oprimidos.

 

LEITURA II – Romanos 8,9.11-13

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence.
Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós.
Assim, irmãos, não somos devedores à carne,
para vivermos segundo a carne.
Se viverdes segundo a carne, morrereis;
mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras da carne,
vivereis.

CONTEXTO

            Continuamos a ler a Carta aos Romanos. Ela apresenta-nos um Paulo amadurecido que, depois de vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação (numa altura em que a questão da salvação era uma questão teológica “quente”: os judeo-cristãos acreditavam que, para chegar à salvação, era preciso continuar a cumprir a Lei de Moisés; e os judeo-pagãos não manifestavam nenhuma vontade de se submeter aos ritos da Lei judaica).

            Na perspetiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado – cf. Rom 1,18-3,20), que Deus oferece por pura bondade aos homens, a todos os homens (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito (cf. Rom 8,1-39).
O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos (o projeto salvador de Deus em favor dos homens; a ação libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus) se cruzam aqui.

            O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual Paulo não se cansa de dar testemunho. in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

A reflexão poderá ter em conta as seguintes questões:

  • À luz dos critérios que hoje presidem à construção do mundo, a vida de Jesus foi um rotundo fracasso. Ele nunca desempenhou qualquer cargo público nem teve jamais conta num banco qualquer; mas viveu na simplicidade, na humildade, no serviço, sem ter para si próprio uma pedra onde reclinar a cabeça. Ele nunca foi apoiado pelos “cabeças pensantes” da sua terra; apenas foi escutado pela gente humilde, marginalizada, condenada a uma situação de escravidão, de pobreza, de debilidade. Ele nunca se proclamou chefe de um movimento popular; apenas ensinou, àqueles que O seguiam, que Deus os ama e que quer fazer deles seus filhos. Ele nunca se sentou num trono, a dar ordens e a distribuir benesses; mas foi abandonado por todos, condenado a uma morte infame e pregado numa cruz. No entanto, Ele venceu a morte e recebeu de Deus a vida plena e definitiva. Paulo diz aos crentes a quem escreve: não vos preocupeis com aqueles valores a que o mundo chama êxito, realização, felicidade; mas tende a coragem de gastar a vida do mesmo jeito de Jesus, a fim de encontrardes a vossa realização plena, a vida definitiva.
  • Paulo ensina que a vida “segundo a carne” gera morte; e que a vida “segundo o Espírito” gera vida. O que é viver “segundo a carne”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo a carne”? O que é viver “segundo o Espírito”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo o Espírito”?
  • O cristão tem de viver “segundo o Espírito”. É desse jeito que eu vivo? Estou aberto à ação renovadora e libertadora do Espírito que recebi no dia do meu Batismo? in Dehonianos.

 

EVANGELHO – Mateus 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
“Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

CONTEXTO

            Após o “discurso da missão” e o envio dos discípulos ao mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus (cf. Mt 9,36-11,1), Mateus coloca no seu esquema de Evangelho uma secção sobre as reações e as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e à sua proposta de “Reino” (cf. Mt 11,2-12,50). O nosso texto integra esta secção.

            Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto (cf. Mt 11,20-24), Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus.

            Agora, Jesus manifesta-Se convicto de que essa proposta rejeitada pelos habitantes das cidades do lago encontrará acolhimento entre os pobres e marginalizados, desiludidos com a religião “oficial” e que anseiam pela libertação que Deus tem para lhes oferecer.

            O nosso texto consta de três “sentenças” que, provavelmente, foram pronunciadas em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses “ditos” (cf. Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22) e devem provir de um documento que reuniu os “ditos” de Jesus e que tanto Mateus como Lucas utilizaram na composição dos seus evangelhos. O terceiro (cf. Mt 11,28-30) é exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria. in Dehonianos.

ATUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

  • Na verdade, os critérios de Deus são bem estranhos, vistos de cá de baixo, com as lentes do mundo… Nós, homens, admiramos e incensamos os sábios, os inteligentes, os intelectuais, os ricos, os poderosos, os bonitos e queremos que sejam eles (“os melhores”) a dirigir o mundo, a fazer as leis que nos governam, a ditar a moda ou as ideias, a definir o que é correto ou não é correto. Mas Deus diz que as coisas essenciais são muito mais depressa percebidas pelo “pequeninos”: são eles que estão sempre disponíveis para acolher Deus e os seus valores e para arriscar nos desafios do “Reino”. Quantas vezes os pobres, os pequenos, os humildes são ridicularizados, tratados como incapazes, pelos nossos “iluminados” fazedores de opinião, que tudo sabem e que procuram impor ao mundo e aos outros as suas visões pessoais e os seus pseudo-valores… A Palavra de Deus ensina: a sabedoria e a inteligência não garantem a posse da verdade; o que garante a posse da verdade é ter um coração aberto a Deus e às suas propostas (e com frequência, com muita frequência, são os pobres, os humildes, os pequenos que “sintonizam” com Deus e que acolhem essa verdade que Ele quer oferecer aos homens para os levar à vida em plenitude).
  • Como é que chegamos a Deus? Como percebemos o seu “rosto”? Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus? É através da filosofia? É através de um discurso racional coerente? É passando todo o tempo disponível na igreja a mudar as toalhas dos altares? O Evangelho responde: “conhecemos” Deus através de Jesus. Jesus é “o Filho” que “conhece” o Pai; só quem segue Jesus e procura viver como Ele (no cumprimento total dos planos de Deus) pode chegar à comunhão com o Pai. Há crentes que, por terem feito catequese, por irem à missa ao domingo e por fazerem parte do conselho pastoral da paróquia, acham que conhecem Deus (isto é, que têm com Ele uma relação estreita de intimidade e comunhão) … Atenção: só “conhece” Deus quem é simples e humilde e está disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos “filhos” de Deus.
  • Como nos situamos face a Deus e à proposta que Ele nos apresenta em Jesus? Ficamos fechados no nosso comodismo e instalação, no nosso orgulho e autossuficiência, sem vontade de arriscar e de pôr em causa as nossas seguranças, ou estamos abertos e atentos à novidade de Deus, a fim de perceber as suas propostas e seguir os seus caminhos?
  • Cristo quis oferecer aos pobres, aos marginalizados, aos pequenos, a todos aqueles que a Lei escravizava e oprimia, a libertação e a esperança. Os pobres, os débeis, os marginalizados, aqueles que não encontram lugar à mesa do banquete onde se reúnem os ricos e poderosos, continuam a encontrar – no testemunho dos discípulos de Jesus – essa proposta de libertação e de esperança? A Igreja dá testemunho da proposta libertadora de Jesus para os pobres? Como é que os pequenos e humildes são acolhidos nas nossas comunidades? Como é que acolhemos aqueles que têm comportamentos social ou religiosamente incorretos? in Dehonianos.

 

Para os leitores:

            A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom alegre e feliz de quem comunica uma boa notícia, convidando ao júbilo e ao louvor.

            A segunda leitura apesar de não apresentar nenhuma dificuldade aparente na sua proclamação requer uma acurada preparação nas pausas e respirações e sobretudo nas frases condicionais presentes no texto para uma eficaz transmissão da mensagem. in Voz Portucalense

  

  

ANEXOS:

Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 28.06.2026

Viver a Palavra

Habituamo-nos de tal modo à radicalidade da proposta de Jesus que porventura a dureza das Suas palavras quando nos convida a segui-Lo pode muitas vezes soar a mera poesia: «quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim».

            A repetição destes «Mim’s» fazem sempre retornar ao meu coração as palavras do Papa Bento XVI quando recorda que na origem do ser cristão não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro íntimo, único e decisivo com Jesus Cristo (Deus caritas est, 1). Seguir Jesus implica conjugar a intimidade do encontro com Ele com a missão de ir ao encontro dos irmãos, numa radicalidade única que implica toda a vida e a vida toda.

            Não se trata de uma competição de amores para saber quem amamos mais: o pai, a mãe, os filhos, a própria vida ou Jesus Cristo. Antes de tudo, trata-se de saber qual o centro unificador da nossa vida e o lugar onde depositamos a nossa confiança e a nossa esperança. Amar Jesus e segui-Lo de todo o coração nunca nos permitirá desvalorizar os outros, muito menos os nossos pais, os nossos filhos ou até a nossa própria vida. Contudo, abraçar a radicalidade do chamamento que o Senhor dirige a cada um de nós levar-nos-á sempre a olhar o mundo, os outros e as relações de um modo novo e diferente.

            Encontrar a vida verdadeira implica inscrever a nossa existência nesse horizonte maior do amor de Deus e entrar numa lógica de amar e servir que nos faz redescobrir que a vida é tanto mais nossa quanto mais for dos outros e que a vida é verdadeiramente vida quando entregue sem medida.

Abraçar a cruz para seguir Jesus não é um ato masoquista de quem procura o sofrimento para alcançar a recompensa. Para compreender e acolher estas palavras de Jesus, teremos sempre de olhar para o crucificado e contemplar o imenso amor que Dele brota. Jesus vai até à morte e até à cruz porque nos ama. Por isso, abraçar a cruz significa sempre abraçar o amor na sua maior radicalidade. Significa amar até ao fim e com todas as nossas forças.

            Não deixa de ser curioso que na mesma página evangélica onde Jesus nos propõe a radicalidade do seguimento, nos apresente o gesto mais simples, pequeno e banal da oferta de um copo de água fresca. Seguir Jesus na totalidade da nossa vida e com a radicalidade que Ele nos propõe, começa a partir dos gestos mais simples e vive-se precisamente na atenção para com os mais pequenos e frágeis. Dar a vida toda ou ter um pequeno gesto de amor, a cruz ou um simples copo de água fresca, são os extremos de um mesmo movimento: o amor que se faz entrega, a certeza de que no Evangelho o verbo amar não significa um mero sentimento ou simples afeição, mas que se conjuga sempre com o verbo dar e sobretudo na sua forma reflexiva: dar-se.

            Nas palavras que Jesus nos dirige neste evangelho está presente a necessidade de uma liberdade interior em relação às nossas seguranças, sejam elas materiais ou afetivas. O pai, a mãe, os filhos ou a própria vida são bens preciosos que devemos amar e estimar. Contudo, Jesus adverte-nos para o perigo da dependência das relações afetivas e familiares que se podem tornar um obstáculo à liberdade para O seguir de todo o coração. Seguir Jesus e depositar Nele toda a nossa confiança ajudar-nos-á a amar os outros e a vida de um modo absolutamente novo que nos fará entrar num horizonte maior de realização e felicidade que nos projeta para a eternidade. in Voz Portucalense.

                                              + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

                         Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I2 Reis 4,8-11.14-16a

Leitura do Segundo Livro dos Reis

Certo dia, o profeta Eliseu passou por Sunam.
Vivia lá uma distinta senhora,
que o convidou com insistência a comer em sua casa.
A partir de então, sempre que por ali passava,
era em sua casa que ia tomar a refeição.
A senhora disse ao marido:
“Estou convencida de que este homem,
que passa frequentemente pela nossa casa,
é um santo homem de Deus.
Mandemos-lhe fazer no terraço um pequeno quarto
com paredes de tijolo,
com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada.
Quando ele vier a nossa casa, poderá lá ficar”.
Um dia, chegou Eliseu
e recolheu-se ao quarto para descansar.
Depois perguntou ao seu servo Giezi:
“Que podemos fazer por esta senhora?”
Giezi respondeu:
“Na verdade, ela não tem filhos
e o seu marido é de idade avançada”.
“Chama-a” – disse Eliseu.
O servo foi chamá-la e ela apareceu à porta.
Disse-lhe o profeta:
“No próximo ano, por esta época,
terás um filho nos braços”.

CONTEXTO

            Após a morte de Salomão (932 a.C.), o Povo de Deus dividiu-se em dois reinos: Israel, a norte, e Judá, a sul. Os dois reinos viveram, a partir daqui histórias separadas e, quase sempre, antagónicas.
O nosso texto situa-nos no reino de Israel, em meados do séc. IX a.C., durante o reinado de Jorão (853-842 a.C.). As relações económicas, políticas e culturais que Israel insiste em estabelecer com outros países da zona tornam-no vulnerável às influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada no país de cultos diversos. É, portanto, uma época de sincretismo e de confusão religiosa.

            Eliseu é um profeta, discípulo de Elias (cf. 1 Re 19,16b.19-21) que, continuando a obra do mestre, luta contra o sincretismo religioso e procura trazer de novo os israelitas aos caminhos da fidelidade à aliança. Faz parte, segundo parece, de uma comunidade de “filhos de profetas” (“benê nebi’im” – cf. 2 Re 2,3; 4,1), isto é, de seguidores incondicionais de Jahwéh, que vivem na absoluta fidelidade aos mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos valores religiosos estrangeiros. Estes “filhos de profetas” vivem pobremente (cf. 2 Re 4,1-7) e são regularmente consultados pelo Povo, que neles busca apoio face aos abusos dos poderosos.
Eliseu é chamado, com muita frequência (29 vezes), o “homem de Deus” (‘ish Elohim). O título designa um homem que é intérprete da Palavra de Jahwéh junto dos outros homens; mas a Palavra que o “homem de Deus” transmite é, sobretudo, uma Palavra poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de transformar a realidade.

            Os “milagres” atribuídos a Eliseu (o grande “milagreiro” do Antigo Testamento”) são a expressão viva da força de Deus, que através do profeta intervém na história e salva os pobres.

            Este episódio situa-nos em Sunam, uma pequena cidade situada no sul da Galileia, não longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre’el, em casa de uma mulher rica e sem filhos. A história da sunamita tem duas partes distintas: a descrição da hospitalidade que a mulher oferece ao profeta e que é recompensada por este com o anúncio do nascimento de um filho (cf. 2 Re 4,8-17) e a repentina doença e morte desse filho, que exigirá uma nova intervenção do profeta no sentido de devolver a vida ao menino (cf. 2 Re 8,18-37). A nossa leitura apresenta-nos apenas a primeira parte. in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

  • Antes de mais, o texto sugere que o projeto de salvação que Deus tem para os homens e para o mundo envolve toda a gente e é uma responsabilidade que a todos compromete. Uns são chamados a estar mais na “linha da frente” e a desenvolver uma ação mais exclusiva e mais exposta; outros são chamados a desenvolver uma ação menos exclusiva e mais discreta, mas nem por isso menos importante. Mas uns e outros têm de sentir a responsabilidade de colaborar com Deus. Estou consciente disso? Empenho-me verdadeiramente em descobrir o papel que Deus me confia no seu projeto e em cumpri-lo com generosidade?
  • Numa altura em que a Europa se tornou uma espécie de condomínio fechado, do qual é excluída essa imensa multidão de pobres sem futuro e sem esperança, que mendigam a possibilidade de construir um futuro sem miséria, este episódio convida-nos a refletir sobre o sentido da hospitalidade e do acolhimento. É evidente para todos que não temos os recursos suficientes para acolher, de forma indiscriminada, todos aqueles que batem à nossa porta; mas a política que o nosso mundo segue em relação aos imigrantes não esconderá também uma boa dose de egoísmo e de falta de vontade de partilhar? Como nos situamos face a isto?
  • A nossa leitura deixa também claro que o dar não nos despoja, nem nos faz perder seja o que for. O dar é sempre uma fonte de vida e de bênção. A dádiva não deve, no entanto, ser interesseira, mas desinteressada e gratuita.
  • Há pessoas que são chamadas por Deus a deixar a terra, a família, os pontos de referência culturais e sociais, a fim de dedicar a sua vida ao anúncio da Palavra. Não são super-homens ou supermulheres, mas são homens e mulheres como quaisquer outros, com as mesmas necessidades de afeto, de apoio, de solidariedade, de compreensão. É nossa responsabilidade ajudá-los, não apenas com meios materiais, mas também com compreensão, com solidariedade, com amor. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 89 (89)

Refrão 1: Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

Refrão 2: Eu canto para sempre a bondade do Senhor.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor
e para sempre proclamarei a sua fidelidade.
Vós dissestes: “A bondade está estabelecida para sempre”,
no céu permanece firme a vossa fidelidade.

Feliz do povo que sabe aclamar-Vos
e caminha, Senhor, à luz do vosso rosto.
Todos os dias aclama o vosso nome
e se gloria com a vossa justiça.

Vós sois a sua força,
com o vosso favor se exalta a nossa valentia.
Do Senhor é o nosso escudo
e do Santo de Israel o nosso rei.

 

LEITURA II – Romanos 6,3-4. 8-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo
fomos batizados na sua morte.
Fomos sepultados com Ele na sua morte,
para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos,
para glória do Pai,
também nós vivamos uma vida nova.
Se morremos com Cristo,
acreditamos que também com Ele viveremos,
sabendo que, uma vez ressuscitado dos mortos,
Cristo já não pode morrer;
a morte já não tem domínio sobre Ele.
Porque na morte que sofreu,
Cristo morreu para o pecado de uma vez para sempre;
mas a sua vida, é uma vida para Deus.
Assim, vós também, considerai
-vos mortos para o pecado
e vivos para Deus, em Cristo Jesus.

CONTEXTO

            Continuamos a explorar essa carta aos romanos, na qual Paulo propõe a todos os crentes – judeus e não judeus – o essencial da mensagem cristã… Fundamentalmente, Paulo está interessado em sugerir aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais correto para “conquistar” a salvação) que a salvação é sempre um dom de Deus e não uma conquista do homem. Apesar do pecado dos homens (cf. Rom 1,18-3,20), Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.

            O texto que nos é proposto faz parte desse bloco em que Paulo descreve como é que a vida de Deus se comunica aos homens através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39). De acordo com a perspetiva de Paulo, Cristo – ao contrário de Adão, o homem do orgulho e da autossuficiência – escolheu viver na obediência a Deus e aos seus planos; e foi a obediência de Cristo – isto é, o seu cumprimento incondicional da vontade do Pai – que fez chegar a todos os homens a graça da salvação (cf. Rom 5,12-20).

            Isso significará, então, que pecar ou não pecar é indiferente, pois a obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional? O cristão pode pecar tranquilamente (cf. Rom 6,1-2), porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá sempre derramar-se sobre o pecador? in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar os seguintes elementos:

  • Nesta leitura sugere-se, antes de mais, que o cristão é aquele que se identifica com Cristo. Enxertado em Cristo pelo Batismo, o cristão faz de Cristo a sua referência e segue-O incondicionalmente, renunciando ao pecado e escolhendo o amor e o dom da vida. Ora, todos os discípulos estão conscientes que ser cristão passa por aqui; mas, dia a dia, são desafiados por outras referências, por outros valores, por outros modelos de vida… Qual é o modelo e a referência fundamental à volta da qual a minha vida se ordena e se constrói?
  • Em termos concretos, o que é que implica a nossa adesão a Cristo? Paulo responde: significa morrer para o pecado e viver para Deus. O que é que significa “pecar”? Significa fechar-se no próprio egoísmo e recusar Deus e os outros. “Pecar” é recusar a comunhão com Deus e ignorar conscientemente as suas propostas; é recusar fazer da vida um dom, um serviço, uma partilha de amor com os irmãos… Os homens do nosso tempo acham que falar de “pecado” não faz sentido e que o discurso sobre o pecado é um discurso antiquado, repressivo, alienante. No entanto, o “pecado” existe: é o egoísmo que gera injustiça e exploração; é o orgulho que gera conflito e divisão; é a vingança que gera violência e morte. O que se pede ao discípulo de Jesus é que renuncie a esta realidade e oriente a sua vida de acordo com outros critérios – os critérios e os valores de Jesus. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mateus 10,37-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,
não é digno de Mim;
e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,
não é digno de Mim.
Quem não toma a sua cruz para Me seguir,
não é digno de Mim.
Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;
e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.
Quem vos recebe, a Mim recebe;
e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou.
Quem recebe um profeta por ele ser profeta,
receberá a recompensa de profeta;
e quem recebe um justo por ele ser justo,
receberá a recompensa de justo.
E se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,
em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.

CONTEXTO

            O Evangelho deste domingo apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus e que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão (é chamado, por isso, o “discurso da missão”). Mais do que um discurso histórico, que Jesus pronunciou de uma única vez e num único lugar, é uma catequese que Mateus compôs a partir de diversos materiais (o autor combina aqui relatos de envio, “ditos” de Jesus acerca dos “doze” e várias outras “sentenças” que, originalmente, tinham um outro contexto).

            Qual o objetivo de Mateus, ao compor este texto e ao pô-lo na boca de Jesus?

            Estamos na década de 80. Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição missionária estava bem enraizada (a comunidade cristã de Antioquia da Síria?). No entanto, as condições políticas do final do séc. I (reinado de Domiciano e hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo) trazem a comunidade confusa e desorientada. Vale a pena “remar contra a maré”? Não é um risco imprudente continuar a anunciar Jesus? Vale a pena arriscar tudo por causa do Evangelho, quando as condições são tão desfavoráveis?
Mateus compõe então uma espécie de “manual do missionário cristão”, destinado a revitalizar a opção missionária da sua comunidade. Nele sugere que a missão dos discípulos é anunciar Jesus e continuar a percorrer o caminho de Jesus – mesmo que esse caminho leve ao dom total da vida. Apresenta, nesse sentido, um conjunto de valores e atitudes que devem orientar a ação dos missionários cristãos.in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

  • Jesus não é um demagogo que faz promessas fáceis e cuja preocupação é juntar adeptos ou atrair multidões a qualquer preço. Ele veio ao nosso encontro com uma proposta de salvação e de vida plena; no entanto, essa proposta implica uma adesão séria, exigente, radical, sem “paninhos quentes” ou “meias tintas”. O caminho que Jesus propõe não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica; e isso não é para todos, mas apenas para os discípulos que fazem, séria e conscientemente, essa opção. Como é que eu me situo face a isto? O projeto de Jesus é, para mim, uma opção radical, que eu abracei com convicção, a tempo inteiro e a “fundo perdido”, ou é um projeto em que eu “vou estando”, sem grande esforço ou compromisso, por inércia, por comodismo, por tradição?
  • Dentro do quadro de exigências que Jesus apresenta aos discípulos, sobressai a exigência de preferir Jesus à própria família. Isso não significa, evidentemente, que devamos rejeitar os laços que nos unem àqueles que amamos… No entanto, significa que os laços afetivos, por mais sagrados que sejam, não devem afastar-nos dos valores do “Reino”? As pessoas têm mais importância, para mim, do que o “Reino”? Já me aconteceu renunciar aos valores de Jesus por causa de alguém?
  • Outra exigência que Jesus faz aos discípulos é a renúncia à própria vida e o tomar a cruz do amor, do serviço, do dom da vida. O que é mais importante para mim: os meus interesses, os meus valores egoístas, ou o serviço dos irmãos e o dom da vida?
  • A forma exigente como Jesus põe a questão da adesão ao “Reino” e à sua dinâmica, faz-nos pensar na nossa pastoral – vocacionada para ser uma pastoral de “massas” – e na tentação que sentem os agentes da pastoral no sentido de facilitar as coisas, de não ser exigentes… Às vezes, interessa mais que as estatísticas da paróquia apresentem um grande número de batizados, de casamentos, de crismas, de comunhões, do que propor, com exigência, a radicalidade do Evangelho e dos valores de Jesus… O caminho cristão é um caminho de facilidade, onde cabe tudo, ou é um caminho verdadeiramente exigente, onde só cabem aqueles que aceitam a radicalidade de Jesus? A nossa pastoral deve facilitar tudo, ou ir pelo caminho da exigência?
  • Às vezes, as pessoas procuram os ritos cristãos por tradição, por influências do meio social ou familiar, porque “a cerimónia religiosa fica bonita nas fotografias…”. Sem recusarmos nada devemos, contudo, fazê-las perceber que a opção pelo batismo ou pelo casamento religioso é uma opção séria e exigente, que só faz sentido no quadro de um compromisso com o “Reino” e com a proposta de Jesus.
  • Integrar a comunidade cristã é assumir o imperativo do testemunho. Sinto verdadeiramente que isso é algo que me diz respeito – seja qual for o lugar que eu ocupo na organização da comunidade?
  • Como é que, na minha comunidade, são vistos aqueles que se dão, de forma mais plena e mais total, ao anúncio do Evangelho: são reconhecidos e apoiados, ou são injustamente criticados e vítimas de maledicência, de invejas e de ciúmes? in Dehonianos.

 

 

 

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção o tom narrativo e a articulação das diversas frases em discurso direto. Além disso, deve preparar-se bem as palavras «Sunam» (deve ler-se suname) e «Giezi» (deve ler-se jiézi) e ter em atenção o imperativo «Chama-a», tendo cuidado para não ilidir o pronome «a».

            A complexidade da segunda leitura reside nas frases longas com diversas orações. Este texto exige uma acurada atenção nas pausas e respirações para que se compreenda bem a mensagem do texto

  

  

ANEXOS:

Domingo XII do Tempo Comum – Ano A – 21.06.2026

“Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se.”

Viver a Palavra

            A experiência do medo faz parte da nossa condição humana e traduz-se num estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. É verdade, que a experiência do medo, em muitas circunstâncias, é a possibilidade de evitarmos o perigo e impedir que algo de grave aconteça. Contudo, o medo pode ser também paralisador e impedir de avançar e progredir.

Neste Domingo, continuamos a escutar o Discurso Missionário do Evangelho de Mateus onde Jesus exorta os Seus discípulos a vencer o medo. Enviando os Doze em missão porque «a seara é grande e os trabalhadores são poucos», por três vezes Jesus os desafia a não temer. Mas não se trata, apenas, de um reforço positivo ou de uma palmada nas costas para dar ânimo e fazer avançar. Jesus desafia-os à confiança que está alicerçada na certeza de que não caminham sozinhos, que valem muito mais do que todos os passarinhos e que Aquele que os criou por amor e os envia em missão, por amor, continua a recriá-los e a cuidar deles.

Jesus sabe que os medos habitam a nossa casa e o nosso coração e que a nossa existência está suspensa entre tantos limites que condicionam a nossa ação. Quanto mais o medo ganha espaço, mais nos tornamos inseguros, fechados em nós próprios e, porventura, desconfiados e agressivos. O medo faz-nos sentir cercados como Jeremias que sentia as invetivas da multidão. Mas como o profeta haveremos de renovar no nosso coração a certeza: «o Senhor está comigo como herói poderoso, e os meus perseguidores cairão vencidos». O medo não pode ter a última palavra e, por isso, aos discípulos de ontem tal como a nós, discípulos de hoje, Jesus continua a exortar: «não tenhais medo».

Não ter medo não significa ser irresponsável, mas significa não se deixar paralisar pelas dificuldades e exigências do caminho. Os discípulos enviados por Jesus sofrerão perseguições, obstáculos e inimizades, mas são convidados a vencer o medo e a exigência da missão com o amor que se faz entrega e serviço.

É necessário pregar sobre os telhados e nas praças a mensagem do amor e da esperança. É urgente comunicar a todos que o Pai cuida de nós e que até o mais ínfimo cabelo não é descuidado. Contudo, este desvelo e cuidado do Pai não deve ser apenas um dom a saborear e a agradecer, mas constitui-se como uma escola da arte de amar. Amados e cuidados por Deus somos chamados a cuidar e amar aqueles que se cruzam connosco. Jesus adverte que todo aquele que se declarar por Ele diante dos homens será declarado por Ele diante do Pai e bem sabemos que não há melhor confissão de fé do que aquela que se revela com palavras e gestos que unidos entre si comunicam o amor.

Só o amor oferece a possibilidade de uma vida nova e a construção de um mundo novo e diferente, porque foi precisamente o amor feito entrega generosa até ao fim na Cruz que nos abriu as portas da vida eterna e venceu o nosso maior medo: o pecado e a morte. Como nos recorda S. Paulo «se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».

Conscientes desta certeza, podemos caminhar com mais confiança e segurança, mas também com maior responsabilidade, pois chamados a comunicar a quantos vivem desanimados e sem esperança a certeza de que a nossa vida se inscreve num horizonte de graça que nos projeta para a eternidade e que nos faz saborear já, no aqui e agora do tempo e da história, o amor e a misericórdia que viveremos em plenitude no Céu. in Voz Portucalense.

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            Tal como indica o diretório litúrgico, dele lembrar-se os fiéis que no próximo Domingo, Domingo XIII do Tempo Comum – 28.06.2026 – em todas as dioceses de Portugal, realiza-se o Ofertório para a Santa Sé ou Cadeira de S. Pedro. Este ofertório, para lá dos bens materiais partilhados, é sinal da comunhão com a Sé de Pedro e da comunhão da Igreja Universal. in Voz Portucalense.

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                         Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IJeremias 20,10-13

Leitura do Livro de Jeremias

Disse Jeremias:
“Eu ouvia as invetivas da multidão:
‘Terror por toda a parte! Denunciai-o, vamos denunciá-lo!’
Todos os meus amigos esperavam
que eu desse um passo em falso:
‘Talvez ele se deixe enganar
e assim poderemos dominar e nos vingaremos dele’.
Mas o Senhor está comigo como herói poderoso
e os meus perseguidores cairão vencidos.
Ficarão cheios de vergonha pelo seu fracasso,
ignomínia eterna que não será esquecida.
Senhor do Universo,
que sondais o justo e perscrutais os rins e o coração,
possa eu ver o castigo que dareis a essa gente,
pois a Vós confiei a minha causa.
Cantai ao Senhor, louvai o Senhor,
que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos”.

CONTEXTO

            Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).

            A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei – preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus – leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.

            No entanto, em 609 a.C., Josias é morto em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilónica que castigará os pecados do Povo de Deus. É sobretudo isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém… As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilónia uma parte da população de Jerusalém.

            No trono de Judá, fica então Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias desenrola-se precisamente durante este reinado.

            Após alguns anos de calma submissão à Babilónia, Sedecias volta a experimentar a velha política das alianças com o Egipto. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh. Mas nem o rei nem os notáveis lhe prestam qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado um amargo “profeta da desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.

            Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilónios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jer 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jer 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jer 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de facto, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilónia (586 a.C.).

            Jeremias é o paradigma dos profetas que sofrem por causa da Palavra. De natureza sensível e cordial, homem de paz, que anseia pelo sossego da família e pelo convívio com os amigos, Jeremias não foi feito para o confronto, a agressão, a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir” (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar, com violência, destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, foi continuamente objeto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam. Os familiares, os amigos, os reis, os sacerdotes, os falsos profetas, o povo inteiro, todos se afastavam, mal ele abria a boca. E esse homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o condenava.

            Jeremias estava verdadeiramente apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Dirigia-se a Deus e censurava-o asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia. Chegou a comparar-se a uma jovem inocente e ingénua, de quem Deus se apoderou e a quem forçou a fazer algo que o profeta não queria (cf. Jer 20,7-9).

~          No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões de Jeremias” e são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jer 11,18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas “confissões de Jeremias”.. in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

  • Ser profeta não é um caminho fácil: o exemplo de Jeremias é elucidativo (como também o é o testemunho de Óscar Romero, Luther King, Gandhi e tantos outros profetas do nosso tempo). O “mundo” não gosta de ver ser posta em causa a sua “paz podre”, não está disposto a aceitar que se questionem os esquemas de exploração e injustiça instituídos em favor dos poderosos, nem que se critiquem os “valores” de alguns “iluminados” fazedores da opinião pública. O “caminho do profeta” é, portanto, um caminho onde se lida permanentemente com a incompreensão, com a solidão, com o risco… É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir esse caminho? As “bocas” dos outros, as críticas injustas, a solidão que dói mais do que tudo, alguma vez nos impediram de cumprir a missão que o nosso Deus nos confiou?
  • No batismo, fomos ungidos como “profetas”, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e Se dirige aos homens?
  • A experiência profética é um caminho de luta, de sofrimento, muitas vezes de solidão e de abandono; mas é também um caminho onde Deus está. O testemunho de Jeremias confirma que Deus nunca abandona aqueles que procuram testemunhar no mundo, com coragem e verdade, as suas propostas. Esta certeza deve trazer ânimo e dar esperança a todos aqueles que assumem, com coerência, a sua missão profética. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 68 (69)

Refrão: Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.

 

Por Vós tenho suportado afrontas,
cobrindo-se meu rosto de confusão.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos,
um desconhecido para a minha família.
Devorou-me o zelo pela vossa casa
e recaíram sobre mim os insultos contra Vós.

A Vós, Senhor, elevo a minha súplica,
no momento propício, meu Deus.
Pela vossa grande bondade, respondei-me,
em prova da vossa salvação.
Tirai-me do lamaçal, para que não me afunde,
livrai-me dos que me odeiam e do abismo das águas.

Vós, humildes, olhai e alegrai-vos,
buscai o Senhor e o vosso coração se reanimará.
O Senhor ouve os pobres
e não despreza os cativos.
Louvem-n’O o céu e a terra,
os mares e quanto neles se move.

 

LEITURA II – Romanos 5,12-15
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
e pelo pecado a morte,
assim também a morte atingiu todos os homens,
porque todos pecaram.
De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo.
Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
mesmo para aqueles que não tinham pecado
por uma transgressão à semelhança de Adão,
que é figura d’Aquele que havia de vir.
Mas o dom gratuito não é como a falta.
Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
se concedeu com abundância a muitos homens.

 

CONTEXTO

            No final da década de 50 (a carta aos Romanos apareceu por volta de 57/58), a “crise” entre os cristãos oriundos do mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão acentua-se. Os cristãos de origem judaica consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras da Lei de Moisés, a fim de ter acesso à salvação; mas os cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja.

            Neste cenário, Paulo procura mostrar a todos os crentes a unidade da revelação e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus.

            O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rom 5,12-8,39). in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, podem considerar-se as seguintes questões

  • A história do nosso tempo está cheia de exemplos de homens e mulheres que entregaram a vida para realizar o projeto libertador de Deus no mundo e que foram considerados pela cultura dominante gente vencida e fracassada (embora, com alguma frequência, depois de mortos sejam “recuperados” e apresentados como heróis). Jesus Cristo mostra, contudo, que fazer da vida um dom a Deus aos homens não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho libertador, que introduz no mundo dinamismos de vida nova, de vida autêntica, de vida definitiva. Eu estou disposto a arriscar, a fazer da minha vida um dom, para que a vida plena atinja e liberte os meus irmãos?
  • Alguns acontecimentos que marcam o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem de Deus e das suas propostas é uma história marcada pelo egoísmo, pela injustiça e, portanto, é uma história de sofrimento e de morte. Quando o homem deixa de dar ouvidos a Deus, dá ouvidos ao lucro fácil, destrói a natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em proveito próprio a vida dos seus irmãos. Qual o nosso papel de crentes neste processo? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da história e as suas propostas sejam acolhidas?
  • A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Exaltou o individualismo e a autossuficiência e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho e o nosso destino. No entanto, onde nos leva esta cultura que prescinde de Deus e das suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz, ou tem potenciado o aparecimento de homens perdidos e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mateus 10,26-33
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos:
“Não tenhais medo dos homens,
pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se,
nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia;
e o que escutais ao ouvido proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo,
mas não podem matar a alma.
Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda?
E nem um deles cairá por terra
sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais:
valeis muito mais do que os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim
diante dos homens
também Eu Me declararei por ele
diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que me negar diante dos homens,
também Eu o negarei
diante do meu Pai que está nos Céus”.

CONTEXTO

            Continuamos no mesmo ambiente em que o Evangelho do passado domingo nos situava. Os discípulos – que Jesus chamou e que responderam positivamente a esse chamamento, que escutaram os ensinamentos e que testemunharam os sinais de Jesus – vão ser enviados ao mundo, a fim de continuarem a obra libertadora e salvadora de Jesus. Contudo, antes de partir, recebem as instruções de Jesus: é o “discurso da missão”, que se prolonga de 9,36 a 11,1.

            Mateus escreve durante a década de 80. No império romano reina Domiciano (anos 81 a 96), um imperador que não está disposto a tolerar o cristianismo. No horizonte imediato das comunidades cristãs, está uma hostilidade crescente, que rapidamente se converterá em perseguição organizada contra o cristianismo (no ano 95, por iniciativa de Domiciano, começa uma terrível perseguição contra os cristãos em todos os territórios do império romano).

            A comunidade cristã a quem Mateus destina o seu Evangelho (possivelmente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria) é uma comunidade com grande sensibilidade missionária, verdadeiramente empenhada em levar a Boa Nova de Jesus a todos os homens. No entanto, os missionários convivem, dia a dia, com as dificuldades e as perseguições e manifestam um certo desânimo e uma certa frustração. Os crentes não sabem que caminho percorrer e estão perturbados e confusos.

            Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de “manual do missionário cristão”, que é o nosso “discurso da missão”. Para mostrar que a atividade missionária é um imperativo da vida cristã, Mateus apresenta a missão dos discípulos como a continuação da obra libertadora de Jesus. Define também os conteúdos do anúncio e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir, enquanto testemunhas do “Reino”. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, podem considerar-se as seguintes questões:

  • O projeto de Jesus, vivido com radicalidade e coerência, não é um projeto “simpático”, aclamado e aplaudido por aqueles que mandam no mundo ou que “fazem” a opinião pública; mas é um projeto radical, questionante, provocante, que exige a vitória sobre o egoísmo, o comodismo, a instalação, a opressão, a injustiça… É um projeto capaz de abalar os fundamentos dessa ordem injusta e alienante sobre a qual o mundo se constrói. Há um certo “mundo” que se sente ameaçado nos seus fundamentos e que procura, todos os dias, encontrar formas para subverter e domesticar o projeto de Jesus. A nossa época inventou formas (menos sangrentas, mas certamente mais refinadas do que as de Domiciano) de reduzir ao silêncio os discípulos: ridiculariza-os, desautoriza-os, calunia-os, corrompe-os, massacra-os com publicidade enganosa de valores efémeros… Como a comunidade de Mateus, também nós andamos assustados, confusos, desorientados, interrogando-nos se vale a pena continuar a remar contra a maré… A todos nós, Jesus diz: “não temais”.
  • O medo – de parecer antiquado, de ficar desenquadrado em relação aos outros, de ser ridicularizado, de ser morto – não pode impedir-nos de dar testemunho. A Palavra libertadora de Jesus não pode ser calada, escondida, escamoteada; mas tem de ser vivamente afirmada com palavras, com gestos, com atitudes provocatórias e questionantes. Viver uma fé “morninha” (instalada, cómoda, que não faz ondas, que não muda nada, que aceita passivamente valores, esquemas, dinâmicas e estruturas desumanizantes), não chega para nos integrar plenamente na comunidade de Jesus.
  • De resto, o valor supremo da nossa vida não está no reconhecimento público, mas está nessa vida definitiva que nos espera no final de um caminho gasto na entrega ao Pai e no serviço aos homens; e Jesus demonstrou-nos que só esse caminho produz essa vida de felicidade sem fim que os donos do mundo não conseguem roubar.
  • A Palavra de Deus que nos foi hoje proposta convida-nos também a fazer a descoberta desse Deus que tem um coração cheio de ternura, de bondade, de solicitude. Se nos entregarmos confiadamente nas mãos desse Deus, que é um pai que nos dá confiança e proteção e é uma mãe que nos dá amor e que nos pega ao colo quando temos dificuldade em caminhar, não teremos qualquer receio de enfrentar os homens. in Dehonianos.

 

Para os leitores:

            A primeira leitura é uma longa intervenção de Jeremias que deve ser proclamada tendo em atenção os diversos tons que o discurso apresenta: ameaçador, vingativo, esperança e o louvor. Este crescendo desde o cenário de terror e ameaça até ao júbilo e louvor deve ser evidente na proclamação do texto.

            A segunda leitura requer uma acurada preparação. Devido às frases longas com diversas orações e à sua construção frásica, o leitor deve perceber bem a mensagem a transmitir e proceder a uma leitura articulada e pausada do texto para que possa eficazmente proclamar este texto.

 

  

ANEXOS:

Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 14.06.2026

Viver a Palavra

            Os textos evangélicos referem-nos algumas vezes o olhar de Jesus que se eleva para o Céu (Jo 17,1), que olha o horizonte e contempla os reinos do universo (Lc 4,5), que olha para o chão (Jo 8,6). Contudo, ao ler os evangelhos fica sempre gravado no meu coração o modo como Jesus olha para aqueles que se cruzam com Ele. Tem a capacidade de olhar as multidões e dirigir a todos palavras de alento e esperança. Mas não se detém apenas a olhar para as multidões como uma massa anónima e indiscriminada, mas fixa alguns em particular, chama-os pelo nome, entra na sua história e oferece-lhes um sentido novo.

            Jesus olha realmente a realidade não para a julgar e condenar, mas para a conhecer e amar. Jesus, o Enviado do Pai, não é portador de um plano predeterminado, mas diante de cada pessoa, de cada realidade e de cada circunstância faz presente o amor que salva, redime e oferece vida nova.

            Seguir Jesus é entrar nesta nova lógica de ser e de estar que se traduz numa nova lógica de servir e amar. Quantas vezes, de modo individual ou coletivo, perdemos tanto tempo a julgar a realidade ou a lutar contra ela ao invés de cultivar um olhar compadecido e misericordioso capaz de dialogar com a realidade, oferecendo a vida nova que nasce da única proposta que temos para levar ao mundo: Jesus Cristo.

            Diante das multidões que andam desorientadas e abatidas «como ovelhas sem pastor», Jesus enche-se de compaixão e alerta-nos para a desproporção entre o imenso trabalho a fazer e a escassez dos meios disponíveis: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». O anúncio do Reino de Deus há-de ter sempre esta marca da desproporção entre a imensa missão a realizar e a fragilidade das nossas forças. Contudo, será precisamente esta desproporção a recordar-nos em cada dia que somos operários da seara e que a obra é de Deus e que através das nossas frágeis mãos e das nossas vidas, tantas vezes vacilantes, Deus atua no mundo para lá das nossas capacidades.

            Da compaixão pelas multidões e do pedido de oração para que o Senhor envie trabalhadores para a Sua seara nasce a missão dos doze que são chamados cada um pelo seu nome com instruções e recomendações precisas. Na verdade, a missão nasce da compaixão e da oração.

            Olhar o mundo com o olhar de Jesus, contemplando «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem» (GS 1) é o ponto de partida para a missão. Mas sabemos que não vamos sozinhos. Não somos senhores da seara nem trabalhadores por conta própria, por isso, unimo-nos a Deus pela oração e nela encontramos a fonte da missão, a força para o caminho e a garantia de que é Deus que age no mundo para que o Reino de Deus aconteça através de nós e em nós. Neste envio dos doze, Jesus convida os seus discípulos a olhar o outro na totalidade da sua vida e a socorrer as suas necessidades: acolher, amar, curar, expulsar os demónios.

            Muitas vezes a ação da Igreja centra-se apenas nos sacramentos e, de modo particular, na celebração da Eucaristia e bem sabemos a falta da Eucaristia na vida de uma comunidade. Nos tempos exigentes de pandemia que atravessámos, experimentámos e reconhecemos como a celebração comunitária da fé se constitui como fonte e cume da vida cristã. Contudo, enviados por Jesus como os doze, somos chamados a alargar o nosso horizonte e partir como discípulos missionários para contagiar o mundo com o amor misericordioso de Deus. A compaixão e a oração serão pilares seguros e ponto de partida fundamental para repensar a nossa pastoral e para fazer ecoar no mundo a certeza do amor de Deus que transforma a vida e torna o mundo um lugar melhor e mais feliz. in Voz Portucalense.

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            No dia de 12 de junho, Sexta-feira depois do segundo Domingo depois do Pentecostes, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Este dia é também dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes. Deste modo, celebrando o amor misericordioso de Jesus revelado pelo Seu coração cheio de amor, somos convidados a rezar pela santificação daqueles a quem o Senhor confiou o ministério ordenado. As comunidades cristãs são convidadas a dinamizar este dia, através dos mais diversos meios, exortando sempre à oração e podendo fazer desta data também uma oportunidade para um trabalho de sensibilização vocacional. in Voz Portucalense.

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            O mês de junho é marcado pelas festas dos Santos Populares que enchem as nossas terras de alegria, música e comemorações típicas. Na verdade, a celebração das festas dos santos deve ser sempre marcada pela alegria e pela festa, pois recordamos o testemunho gaudioso daqueles que seguiram a Cristo de todo o coração. A Liturgia da Palavra deste Domingo recorda-nos que, tal como os santos que celebramos, Jesus nos chama pelo nome e convida-nos a abraçar a missão de fazer de cada realidade, por mais exigente que seja, o lugar de anúncio do evangelho da compaixão e da misericórdia. A alegria e a felicidade cristã não se constroem pela ausência de dificuldades e obstáculos, mas abraçando a totalidade da nossa vida como lugar de seguimento do Mestre. Deste modo, acolhendo os desafios da Liturgia da Palavra deste Domingo, esta celebração pode constituir-se como oportunidade para recordar que os santos que celebramos entre gestos e tradições festivas são homens que souberam viver a partir da sabedoria da cruz a missão de partir ao encontro dos irmãos

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             Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IÊxodo 19,2-6a

Leitura do Livro do Êxodo

Naqueles dias,
os filhos de Israel partiram de Refidim
e chegaram ao deserto do Sinai,
onde acamparam, em frente da montanha.
Moisés subiu à presença de Deus.
O Senhor chamou-o da montanha e disse-lhe:
«Assim falarás à casa de Jacob,
isto dirás aos filhos de Israel:
‘Vistes o que Eu fiz ao Egipto,
como vos transportei sobre asas de águia
e vos trouxe até Mim.
Agora, se ouvirdes a minha voz,
se guardardes a minha aliança,
sereis minha propriedade especial entre todos os povos.
Porque toda a terra Me pertence;
mas vós sereis para Mim um reino de sacerdotes,
uma nação santa’».

CONTEXTO

            O texto que nos é proposto faz parte das “tradições sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel teria assumido com Jahwéh.

            O texto situa-nos no deserto do Sinai, “em frente do monte”. No texto bíblico, não temos indicações geográficas suficientes para identificar o “monte da aliança”. Em si, o nome Sinai não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura.

            Uma tradição cristã do séc. IV d.C., no entanto, identifica o “monte da aliança” com o “Gebel Musah” (o “monte de Moisés”), um monte com 2244 metros de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da aliança” com este lugar levante problemas, o “Gebel Musah” é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.

            Vai ser, pois, aqui, no Sinai, diante de “um monte” que Jahwéh e Israel se vão comprometer numa “aliança”. A palavra hebraica “berit”, usada neste contexto, define um pacto entre duas partes, que implica direitos e obrigações, muitas vezes recíprocos. A “berit” raramente era escrita, mas tinha sempre valor jurídico. Habitualmente, o compromisso era selado por um ritual consagrado pelo uso, que incluía um juramento e a imolação de animais em sacrifício.

            Será à luz deste esquema jurídico que Israel vai representar o seu compromisso com Jahwéh. in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões:

  • Vivemos num tempo em que não é fácil – no meio da azáfama em que a vida decorre – reconhecer a presença, o amor e o cuidado de Deus com essa humanidade que Ele criou; alguns dos nossos contemporâneos chegam mesmo a falar da “morte de Deus”, para exprimir a realidade de uma história de onde Deus parece estar totalmente ausente. O nosso texto, no entanto, revela um Deus empenhado em caminhar ao lado dos homens, em estabelecer com eles laços de familiaridade e de comunhão, em apresentar-lhes propostas de salvação, de libertação, de vida definitiva. É Deus que está ausente da história dos homens, ou são os homens que apostam noutros deuses (isto é, noutros esquemas de felicidade) e não têm tempo nem disponibilidade para encontrar o Deus da “aliança” e da comunhão? Deus ter-Se-á tornado indiferente e insensível ao destino dos homens, ou são os homens que preferem trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência à margem de Deus? Deus terá renunciado a estabelecer laços familiares connosco, ou somos nós que, em nome de uma pretensa liberdade, preferimos construir a história do mundo longe de Deus e das suas propostas?
  • Os autores do nosso texto definem a resposta do Povo aos desafios do Deus da “aliança” em termos de “ouvir a voz” de Deus e “guardar a aliança”. “Ouvir a voz” de Deus significa escutar as suas propostas, acolhê-las no coração e transformá-las em gestos na vida diária; “guardar a aliança” significa comprometer-se com as propostas de Deus e viver de forma coerente com os mandamentos… Objetivamente, o que é que as propostas feitas por Deus significam na minha vida? O “caminho”, que eu percorro dia a dia, está de acordo com esse “caminho” de felicidade e de vida plena que Deus definiu e que me apresentou? As propostas de Deus interpelam-me e interferem com as minhas opções ou, na hora das decisões, eu escolho de acordo com os meus interesses pessoais, prescindindo das indicações de Deus?
  • O Povo que aceita o compromisso com Deus e que “embarca” na aventura da “aliança” é um Povo que é propriedade de Deus, que aceita ficar ao serviço de Deus. A sua missão é testemunhar o projeto salvador de Deus diante de todos os povos da terra. Tenho consciência de que, no dia do meu batismo, eu entrei na comunidade do Povo de Deus e assumi o compromisso de testemunhar Deus e o seu projeto de salvação diante do mundo? A minha vida tem sido coerente com esta opção? Tenho sido um sinal vivo do amor e da bondade de Deus diante dos homens e mulheres com quem me cruzo todos os dias? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 99 (100)

Refrão: Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.

Aclamai o Senhor, terra inteira,
servi o Senhor com alegria,
vinde a Ele com cânticos de júbilo.

Sabei que o Senhor é Deus,
Ele nos fez, a ele pertencemos,
somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

Porque o Senhor é bom,
eterna é a sua misericórdia,
a sua fidelidade estende-se de geração em geração.

 

LEITURA II – Romanos 5,6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Quando ainda éramos fracos,
Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado.
Dificilmente alguém morre por um justo;
por um homem bom,
talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
Mas Deus prova assim o seu amor para connosco.
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
E agora, que fomos justificados pelo seu sangue,
com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina.
Se, na verdade, quando éramos inimigos,
fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho,
com muito mais razão, depois de reconciliados,
seremos salvos pela sua vida.
Mais ainda: também nos gloriamos em Deus,
por Nosso Senhor Jesus Cristo,
por quem alcançámos agora a reconciliação.

CONTEXTO

            A Carta aos Romanos – já o dissemos atrás – é um texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo por volta do ano 57/58 e no qual o apóstolo apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto para a carta é um projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha (cf. Rom 16,23-24): Paulo sente que terminou a sua missão no oriente e quer anunciar o Evangelho de Jesus no ocidente.

            No entanto, a opinião da maioria dos estudiosos da Carta aos Romanos é que Paulo se serve deste pretexto para lembrar, quer aos cristãos vindos do judaísmo (e para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés), quer aos cristãos vindos do paganismo (e para quem a Lei de Moisés constituía um empecilho) o essencial da mensagem cristã. Paulo insiste, sobretudo, no facto de a salvação não ser uma conquista do homem, mas um dom do amor de Deus. Na verdade, todos os homens vivem mergulhados no pecado, pois o pecado é uma realidade universal (cf. Rom 1,18-3,20); mas Deus, na sua bondade, a todos “justifica” e salva (cf. Rom 3,1-5,11); e essa salvação é oferecida por Deus ao homem através de Jesus Cristo; ao homem, resta aderir a essa proposta de salvação, na fé (cf. Rom 5,12-8,39).

            O texto que nos é proposto é a parte final de uma perícope que começa em Rom 5,1. Nessa perícope, Paulo explica o que brota dessa “justificação” que Deus nos ofereceu: em primeiro lugar, a paz, que é a plenitude dos bens (cf. Rom 5,1); em segundo lugar, a esperança, que nos permite caminhar por este mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude (cf. Rom 5,2-4). in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes questões:

  • O cristão é fundamentalmente alguém que descobriu que Deus o ama. Por isso, enfrenta cada dia com a serenidade, a alegria, a esperança que brotam dessa certeza fundamental. A certeza do amor de Deus condiciona a minha vida, a minha forma de enfrentar as dificuldades, o meu jeito de responder aos desafios que a vida me coloca?
  • O amor de Deus é totalmente gratuito, incondicional e eterno. Não espera nada em troca; não põe condições para se derramar sobre o homem; não é descartável… Numa época em que a cultura dominante (não só a “cultura das telenovelas”, mas também a cultura de certas elites pretensamente iluminadas) vende a imagem do amor interesseiro, condicionado e efémero, o amor de Deus constitui um tremendo desafio aos crentes.
  • O amor de Deus é universal. Não marginaliza nem discrimina ninguém, não distingue entre amigos e inimigos, não condena irremediavelmente os que falharam nem os afasta do convívio de Deus. Nós, discípulos de Jesus, somos testemunhas deste amor? Como é que tratamos e acolhemos aqueles que não concordam connosco, que assumem atitudes problemáticas, que fracassaram no seu casamento, que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorretos? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mateus 9,36-10,8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão,
porque andavam fatigadas e abatidas,
como ovelhas sem pastor.
Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos
e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros
e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos:
primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão;
Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes Doze, dando-lhes as seguintes instruções:
«Não sigais o caminho dos gentios,
nem entreis em cidade de samaritanos.
Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios.
Recebestes de graça, dai de graça».

CONTEXTO

            Depois de ter apresentado Jesus (cf. Mt 1,1-4,22) e de ter mostrado Jesus a anunciar o “Reino” em palavras e em obras (cf. Mt 4,23-9,35), Mateus vai descrever o envio dos discípulos em missão (cf. Mt 9,36-11,1). Os discípulos são aqueles que Jesus chamou, que responderam positivamente a esse chamamento e seguiram Jesus; durante a caminhada que fizeram com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Formados por Jesus na “escola do Reino”, eles podem agora ser enviados ao mundo, a fim de anunciar a todos os homens a chegada do “Reino dos Céus”.

            Os estudiosos do Evangelho segundo Mateus costumam chamar ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o “discurso da missão”: nele, Jesus envia os discípulos e define a missão desses discípulos – anunciar a chegada do “Reino”. Este “discurso da missão” consta de várias partes: uma introdução (cf. Mt 9,36-38); o chamamento e o envio dos discípulos (cf. Mt 10,1-15); uma instrução sobre o “caminho” que os discípulos têm de percorrer (cf. 10,16-42); uma conclusão (cf. Mt 11,1).

            Trata-se de um discurso composto por Mateus a partir de diversos materiais. O autor combinou aqui relatos de envio, “ditos” de Jesus acerca dos “doze” e várias outras “sentenças” de Jesus que originalmente não foram proferidas neste contexto concreto.

            Mateus escreve o seu Evangelho durante a década de 80. Dirige-o a uma comunidade viva e entusiasta, profundamente empenhada na atividade missionária (poderá ser a comunidade cristã de Antioquia da Síria). No entanto, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a perseguição traziam essa comunidade algo desorientada e perturbada. Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de “manual do missionário cristão”, que enraíza a missão em Jesus Cristo, apresenta os conteúdos do anúncio que os discípulos são chamados a proclamar e define as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes questões e desenvolvimentos:

  • Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Não esqueçamos isto: Deus nunca Se ausentou da história dos homens; Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira liberdade, da verdadeira felicidade, da vida definitiva.
  • Como é que Deus age hoje no mundo? A resposta que o Evangelho deste domingo dá é: através desses discípulos que aceitaram responder positivamente ao chamamento de Jesus e embarcaram na aventura do “Reino”. Eles continuam hoje no mundo a obra de Jesus e anunciam – com palavras e com gestos – esse mundo novo de felicidade sem fim que Deus quer oferecer aos homens.
  • Atenção: Jesus não chama apenas um grupo de “especialistas” para O seguir e para dar testemunho do “Reino”. Os “doze” representam a totalidade do Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus (os “doze”) que é enviada, a fim de continuar a obra de Jesus no meio dos homens e anunciar-lhes o “Reino”. Tenho consciência de que isto me diz respeito e que eu pertenço à comunidade que Jesus envia em missão?
  • Qual é a missão dos discípulos de Jesus? É lutar objetivamente contra tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de ser feliz. Hoje há estruturas que geram guerra, violência, terror, morte: a missão dos discípulos de Jesus é contestá-las e desmontá-las; hoje há “valores” (apresentados como o “último grito” da moda, do avanço cultural ou científico) que geram escravidão, opressão, sofrimento: a missão dos discípulos de Jesus é recusá-los e denunciá-los; hoje há esquemas de exploração (disfarçados de sistemas económicos geradores de bem-estar) que geram miséria, marginalização, debilidade, exclusão: a missão dos discípulos de Jesus é combatê-los. A proposta libertadora de Jesus tem de estar presente (através dos discípulos) em qualquer lado onde houver um irmão vítima da escravidão e da injustiça. É isso que eu procuro fazer?
  • As obras que eu realizo são verdadeiramente um anúncio do mundo novo que está para chegar? Eu procuro transmitir alegria, coragem e esperança àqueles que vivem imersos no abatimento, na frustração, no desespero? Eu procuro ser um sinal do amor e da ternura de Deus para aqueles que vivem sozinhos, abandonados, marginalizados?
  • O nosso serviço ao “Reino” é um serviço totalmente gratuito, ou é um serviço que serve para promover os nossos interesses, a nossa pessoa, os nossos esquemas de realização pessoal? in Dehonianos.

 

Para os leitores:

            A primeira leitura deve ter-se em atenção as palavras «Refidim» e «Sinai» para uma correta pronunciação. Além disso, ter em conta a articulação entre a parte narrativa e o discurso direto em que Deus se dirige a Moisés.

            A segunda leitura exige uma aturada preparação, assinalando as pausas e respirações. A falta de atenção na proclamação deste texto pode distorcer completamente a sua mensagem e torná-la impercetível. Pede-se uma especial atenção nesta frase: «Dificilmente alguém morre por um justo; /// por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer». Depois da palavra «justo», deve haver uma clara separação da frase seguinte.

 

  

ANEXOS:

Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 07.06.2026

Viver a Palavra

Desconcerta-me sempre a prontidão com que respondem os que são chamados por Jesus nos relatos evangélicos. Mateus está sentado, no posto de cobrança dos impostos, Jesus passa, vê-o, diz-lhe «segue-Me» e «ele levantou-se e seguiu Jesus». A sobriedade do relato, aliada à decidida e pronta resposta de Mateus que se faz seguimento, revela a radicalidade que implica seguir Jesus. Se por um lado nos espanta a pronta resposta àquele chamamento, por outro, interpela-nos a ausência de questões e resistências. É humanamente legítimo sentir dúvidas, colocar questões e sentir dificuldade em sair da nossa zona de conforto, mas um relato vocacional não é uma narrativa de horizonte meramente humano. É a narrativa do olhar divino sobre a nossa humanidade, revelando muito mais do coração misericordioso de Deus que da nossa frágil humanidade.

            Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente e tudo aquilo que Dele podemos dizer para falar da Sua total e radical separação do que é frágil e tangível assume a natureza humana em Jesus Cristo e faz da nossa humanidade lugar de manifestação da Sua divindade. A frágil condição humana não é necessariamente um obstáculo à graça de Deus, mas o lugar escolhido por Deus para revelar a Sua divindade. Se em Mateus, Pedro e André ou Tiago e João a resposta ao chamamento do Mestre se faz pronta e decidida, percorrendo os evangelhos percebemos como esta resposta se traduziu num processo contínuo e progressivo de acolhimento da pessoa e da mensagem de Jesus. Acolher a iniciativa de Jesus na nossa vida implica uma adesão decidida e pronta, mas consciente do processo permanente de conversão a que somos chamados. A vida da fé é tarefa sempre inacabada e um processo contínuo, onde a tarefa primeira é deixar-se olhar por Jesus.

            Percorrendo os caminhos da Judeia e da Galileia, Jesus cruza a vida de Deus com a vida da humanidade. Nos gestos e palavras de Jesus, a Igreja é chamada a encontrar as coordenadas fundamentais para a sua ação no mundo. Ser Igreja em Saída e Hospital de Campanha, partir ao encontro de quantos permanecem longe e sendo hábil na arte de curar as feridas do coração e da vida. Não nos serve uma ação eclesial distante do mundo, tampouco um cristianismo que não seja desenhado na lógica da incarnação. Não somos os sadios que não precisam de médico, mas os pecadores que necessitam da medicinal misericórdia de Deus e, curados pelo Seu amor e pela Sua graça, tornamo-nos curadores feridos. Temos de aprender esta arte de sair ao encontro de quantos vivem nas periferias existenciais e propor um evangelho que se faz caminho e proximidade, misericórdia e encontro. Habitar o sentido do humano e o horizonte antropológico contemporâneo implica deixar-se olhar por Jesus e ser portador desse olhar para quantos se cruzam connosco no caminho.

            Jesus Cristo revindica a misericórdia, preterindo-a aos sacrifícios e holocaustos. Jesus reivindica o coração humano, mais do que qualquer sacrifício de touros e carneiros. A nossa frágil condição humana só pode ser curada pela misericórdia do Deus que nos convoca para a missão: «segue-Me!». A nós cabe-nos confiar na promessa de Deus a nosso respeito, mesmo quando parece desafiar o humano nos seus limites, tal como Abraão que é chamado a ser pai de uma numerosa descendência na idade avançada da sua vida e sendo a sua esposa estéril.

            Deus torna fecunda a terra árida do nosso coração «com a chuva da Primavera sobre a face da terra» e rasga horizontes de esperança na misericordiosa e acolhedora mesa da Eucaristia: a mesa da festa e da alegria, onde os pecadores se abrem à graça. in Voz Portucalense.

                                         + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

            No dia de 12 de junho, Sexta-feira depois do segundo Domingo depois do Pentecostes, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Este dia é também dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes. Deste modo, celebrando o amor misericordioso de Jesus revelado pelo Seu coração cheio de amor, somos convidados a rezar pela santificação daqueles a quem o Senhor confiou o ministério ordenado. As comunidades cristãs são convidadas a dinamizar este dia, através dos mais diversos meios, exortando sempre à oração e podendo fazer desta data também uma oportunidade para um trabalho de sensibilização vocacional. in Voz Portucalense.

                                              + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

Catequese. 27 maio 2026

Os Documentos do Concílio Vaticano II 

III. Constituição Sacrosanctum Concilium 

  1. A reforma da liturgia: tradição e desenvolvimento

 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

Na Encíclica Mediator Dei, o Venerável Pio XII escreve que «a Igreja é um organismo vivo e, por isso, também no que diz respeito à sagrada liturgia, confirmando a integridade do seu ensinamento, cresce e desenvolve-se, adaptando-se e conformando-se às circunstâncias e às exigências que se verificam ao longo do tempo» (I, V).

Em plena continuidade com este princípio, o Concílio Vaticano II, no Proémio da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC), reconhece como seu «dever interessar-se de modo particular também pela reforma e o incremento da liturgia» (n. 1). Com efeito, a assembleia conciliar reuniu-se com a finalidade de «fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja» (ibid.).

Naquele momento histórico, sentia-se fortemente a necessidade de uma renovação das formas rituais, mediante as quais desde há séculos a Igreja tinha realizado a glorificação de Deus e a santificação do povo cristão. Graças ao Movimento litúrgico amadureceu a convicção, expressa sucessivamente por São João Paulo II, de que «existe uma ligação muito íntima e orgânica entre a renovação da liturgia e a renovação de toda a vida da Igreja. A Igreja não só age, mas também se exprime na liturgia […] e haure da liturgia as energias para a vida» (Carta Dominicae Cenae, 13).

Portanto, para favorecer o acesso dos fiéis à riqueza dos dons da graça dispensados pela sagrada liturgia, a Constituição Sacrosanctum Concilium indica com uma fórmula muito eficaz o caminho a seguir: «Conservar a sã tradição e abrir […] o caminho a um progresso legítimo» (SC, 23).

Papa Bento XVI identificou nesta declaração de intenções o «programa de reforma» dos Padres conciliares, «em equilíbrio com a grande tradição litúrgica do passado e com o futuro», observando que «muitas vezes tradição e progresso se contrapõem de maneira inadequada» enquanto, «na realidade, os dois conceitos se integram: a tradição inclui, ela mesma, de certa forma o progresso. Como se dissesse que o rio da tradição tem em si também a sua nascente e tende para a foz» (Discurso aos participantes no diálogo por ocasião do 50º aniversário de fundação do Pontifício Instituto Litúrgico de Santo Anselmo, 6 de maio de 2011).

O Concílio afirma a legitimidade deste progresso enraizado na autêntica Tradição distinguindo, no seio da liturgia, «uma parte imutável, porque de instituição divina», das «partes suscetíveis de modificação, que podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondem tão bem à natureza íntima da liturgia, ou se tenham tornado menos apropriados» (SC, 21). Mudanças deste tipo ocorreram constantemente ao longo dos séculos, a fim de permitir aos fiéis uma fecunda participação, através das ações rituais, no mistério pascal de Cristo, fundamento da fé cristã. Por conseguinte, o culto da Igreja “encarnou-se” nas formas culturais de cada época e foi capaz de as influenciar e até de as transformar. Assim, durante séculos a liturgia foi um motor de evangelização. Hoje é necessário renovar esta energia, em continuidade com a autêntica e viva tradição católica, ou seja, segundo uma dinâmica destinada a introduzir os crentes na plenitude da verdade.

Então, compreende-se por que motivo os Padres conciliares recomendaram que a revisão dos ritos, quando corresponder a «uma utilidade autêntica e certa da Igreja», seja sempre realizada «com a preocupação de que as novas formas, de certo modo, surjam a partir das já existentes» (SC, 23). Para o bem de toda a Igreja, qualquer reforma deve ser sempre precedida de «uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral» (ibid.). Deste modo, o Magistério conciliar convida a evitar a desorientação dos fiéis, dissuadindo qualquer pessoa de acrescentar, suprimir ou modificar algo por sua iniciativa em matéria litúrgica (cf. SC, 22). O progresso evocado pela Constituição conciliar não compromete de maneira alguma a comunhão eclesial: pelo contrário, tenciona confirmá-la e favorecê-la.

Por conseguinte, exorto todos aqueles que são chamados a preparar a celebração dos divinos mistérios, em particular os sacerdotes que exercem o ministério da presidência litúrgica, a manter sempre o respeito pelos textos e pelas normas da liturgia que brota de uma atitude interior de disponibilidade e confiança em Deus, manifestando humildade perante a sua grandeza e sincera fidelidade à comunhão eclesial. in vatican

                                               + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

             Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IOseias 6,3-6

Leitura da Profecia de Oseias

Procuremos conhecer o Senhor.
A sua vinda é certa como a aurora.
Virá a nós como o aguaceiro de Outono,
como a chuva da Primavera sobre a face da terra.
«Que farei por ti, Efraim? Que farei por ti, Judá?»
– diz o Senhor –
«O vosso amor é como o nevoeiro da manhã,
como o orvalho da madrugada, que logo se evapora.
Por isso vos castiguei por meio dos Profetas
e vos matei com palavras da minha boca;
e o meu direito resplandece como a luz.
Porque Eu quero a misericórdia e não o sacrifício,
o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos».

CONTEXTO

            Oseias exerceu o seu ministério profético no reino do Norte (Israel), a partir de 750 a.C., numa época bastante conturbada.

            Em termos políticos, é uma fase marcada pela violência, pela insegurança e pelo derramamento de sangue. Os reinados são curtos e terminam invariavelmente em revoluções, assassínios, massacres… Por outro lado, o aventureirismo dos dirigentes e os jogos de alianças políticas com as potências da época causam grande instabilidade e anunciam o desastre nacional e a perda da independência (o que acontece alguns anos mais tarde, em 721 a.C., quando a Samaria é arrasada por Salamanasar V, da Assíria).

            Em termos religiosos, é uma época de grande confusão… Exposto à influência cultural e religiosa dos povos circunvizinhos, Israel acolhe diversos deuses estrangeiros que coabitam com Jahwéh, no coração do Povo e nos centros religiosos. Mistura-se o Jahwismo com os cultos de Baal e Astarte; embora Jahwéh continue a ser oficialmente o Deus nacional, é, a nível popular, bastante preterido em favor dos deuses cananeus. Por outro lado, as alianças políticas com os povos estrangeiros significam que Israel já não confia em Deus e que prefere pôr a sua confiança e a sua esperança nos guerreiros, nos cavalos, nos carros de guerra das superpotências; dessa forma, a Assíria e o Egipto deixam de ser realidades terrenas e humanas, para se tornarem – aos olhos dos israelitas – novos deuses, capazes de salvar. O Povo passa a confiar neles, prescindindo de Jahwéh.
Oseias sente profundamente o drama do sincretismo religioso que está a pôr em perigo a fé do seu Povo. A sua mensagem apela a que Israel não se deixe dominar pela idolatria (a que Oseias chama “prostituição”: o Povo é como uma “esposa” que abandonou o “marido” para correr atrás dos “amantes”). O profeta convida o seu Povo a redescobrir o amor de Jahwéh – sempre presente na história de Israel – e a responder-Lhe com uma vontade sincera de viver em comunhão com Ele. in Dehonianos.

 

ATUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se a partir das seguintes questões:

  • O problema principal que aqui nos é posto é o da nossa relação com Deus. Deus chama-nos a viver em aliança com Ele… Como é que nós respondemos ao “chamamento” de Deus? Com uma adesão verdadeira e sincera, que implica a totalidade da nossa vida, ou com um compromisso de “meias tintas”, sem exigência nem radicalidade?
  • Como numa relação humana, também na nossa relação com Deus a rotina, a monotonia e o cansaço podem descolorir o amor. Entramos então num esquema religioso de resposta a Deus, que se baseia em gestos rituais, talvez corretos do ponto de vista litúrgico, mas que não são a expressão dos sentimentos do nosso coração. A minha oração é um repetir fielmente uma cassete gravada de antemão, ou é um momento íntimo de encontro com o Senhor e de resposta ao seu amor? A Eucaristia é, para mim, um ritual obrigatório, que eu cumpro diária ou semanalmente porque está no horário, ou é esse momento fundamental de encontro com o Deus que me dá a sua Palavra e o seu Pão?
  • O culto a Deus, sem o amor ao irmão, não faz sentido. O nosso compromisso com Deus tem de se concretizar em obras em favor dos homens e em gestos libertadores, que levem ternura, misericórdia, à vida de todos aqueles que Deus coloca no nosso caminho. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 49 (50)

Refrão 1: A quem segue o caminho recto
darei a salvação de Deus.

Refrão 2: A quem procede rectamente
farei ver a salvação de Deus.

Falou o Senhor, Deus soberano,
e convocou a terra, do Oriente ao Ocidente:
«Não é pelos sacrifícios que Eu te repreendo:
os teus holocaustos estão sempre na minha presença.

Se tivesse fome, não to diria,
porque meu é o mundo e tudo o que nele existe.
Comerei porventura as carnes dos touros
ou beberei o sangue dos cabritos?

Oferece a Deus sacrifícios de louvor
e cumpre os votos feitos ao Altíssimo.
Invoca-Me no dia da tribulação:
Eu te livrarei e tu Me darás glória».

 

LEITURA II – Romanos 4,18-25

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos

Irmãos:
Contra toda a esperança, Abraão acreditou
que havia de tornar-se pai de muitas nações,
como tinha sido anunciado:
«Assim será a tua descendência».
Sem vacilar na fé,
não tomou em consideração nem a falta de vigor do seu corpo,
pois tinha quase cem anos,
nem a falta de vitalidade do seio materno de Sara.
Perante a promessa de Deus,
não se deixou abalar pela desconfiança,
antes se fortaleceu na fé, dando glória a Deus,
plenamente convencido
de que Deus era capaz de cumprir o que tinha prometido.
Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».
Não é só por causa dele que está escrito «Foi-lhe atribuído»,
mas também por causa de nós,
que acreditamos n’Aquele que ressuscitou dos mortos,
Jesus, Nosso Senhor,
que foi entregue à morte por causa das nossas faltas
e ressuscitou para nossa justificação.

CONTEXTO:

            Quando Paulo escreveu aos romanos, preocupava-o bastante a ameaça de cisão da Igreja: os cristãos oriundos do judaísmo e os cristãos oriundos do paganismo tinham perspetivas diferentes da salvação e pareciam em rota de colisão. As crises recentes em Corinto e na Galácia convenceram Paulo da gravidade da situação.
Esse problema também era sentido em Roma? No ano 49, um édito do imperador Cláudio obrigara os judeus a deixar Roma; a comunidade cristã ficara então totalmente entregue aos cristãos de origem pagã… Mas em 57/58, muitos judeus tinham já regressado e a comunidade cristã contava outra vez com um grupo significativo de judeo-cristãos. Estes, ao retornarem, encontraram uma comunidade cristã com características diferentes da que tinham deixado, dirigida por cristãos convertidos diretamente do paganismo e completamente emancipada em relação às tradições judaicas. É de crer que os cristãos de origem judaica não se sentissem bem acolhidos e que não se coibissem de criticar as novas orientações. A questão provocou uma certa instabilidade na comunidade.
Dirigindo-se aos romanos e à Igreja em geral, o apóstolo vai procurar sublinhar aquilo que deve unir todos os crentes – judeus, gregos ou romanos. Para Paulo, apesar da universalidade do pecado (nesse espeto, judeus e não judeus estão em pé de igualdade), Deus oferece a todos, de forma gratuita, a mesma salvação e de todos faz, em igualdade de circunstâncias, seus filhos. É por Cristo que essa salvação é oferecida aos homens. O cumprimento da Lei não salva, pois, a salvação é um dom de Deus. Ao homem, resta-lhe acolher esse dom na fé (a fé é, neste contexto, entendida como adesão à proposta de salvação que, em Cristo, Deus oferece aos homens).
Como exemplo, Paulo apresenta a figura de Abraão (cf. Rom 4,1-12). O apóstolo demonstra que essa figura modelar para judeus e pagãos não foi salva pela Lei nem pelas obras, mas pela fé. O texto que nos é proposto insere-se neste ambiente. in Dehonianos.

 

ATUALIZAÇÃO

A reflexão pode fazer-se a partir das seguintes linhas:

  • Este texto convida-nos a tomar consciência daquilo que deve ser a essência da nossa experiência religiosa. Manter uma relação verdadeira e forte com Deus não é primordialmente praticar todos os actos de piedade que conhecemos ou que inventamos, observar escrupulosamente os mandamentos da santa Igreja, ou cumprir à letra cada parágrafo do código de direito canónico… A “justificação” não está na Lei, mas na fé; por isso, a nossa experiência religiosa deve ser um encontro com esse Deus do amor, que nos oferece gratuitamente a salvação; e desse encontro deve resultar um abraçar a proposta de Deus, com total confiança e com total entrega.
  • Se a salvação é sempre um dom do amor de Deus e não uma conquista nossa, não se justifica qualquer atitude de arrogância ou de exigência do homem face a Deus. Temos de aprender a ver tudo o que somos e temos, não como a retribuição pelo nosso bom comportamento, mas como um dom gratuito de Deus – dom que nunca merecemos, por mais “bonzinhos” que sejamos. Diante dos dons de Deus, resta-nos o louvor e o agradecimento, por um lado, e a confiança, a entrega e a obediência, por outro.
  • A reflexão de Paulo convida-nos, na mesma linha, a corrigir a imagem que fazemos de Deus… Ele não é um comerciante esperto, que paga com a mercadoria que tem em stock (a salvação) uma outra mercadoria que nós lhe vendemos (o nosso bom comportamento). Deus não precisa do nosso bom comportamento para nada… A salvação que Ele nos oferece é algo totalmente gratuito, que resulta do seu amor infinito e da sua vontade de nos ver plenamente felizes e realizados.
  • Como é que eu respondo ao dom de Deus? Com o orgulho e a auto-suficiência de quem não precisa de Deus para ser feliz e para se realizar? Com a “esperteza saloia” de quem pretende negociar com Deus para obter a salvação? Ou com o reconhecimento de que a salvação é um dom não merecido que, apesar de tudo, Deus me oferece e me convida a acolher? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mateus 9,9-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus ia a passar,
quando viu um homem chamado Mateus,
sentado no posto de cobrança dos impostos,
e disse-lhe: «Segue-Me».
Ele levantou-se e seguiu Jesus.
Um dia em que Jesus estava à mesa em casa de Mateus,
muitos publicanos e pecadores
vieram sentar-se com Ele e os seus discípulos.
Vendo isto, os fariseus diziam aos discípulos:
«Por que motivo é que o vosso Mestre
come com os publicanos e os pecadores?».
Jesus ouviu-os e respondeu:
«Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes.
Ide aprender o que significa:
‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.
Porque Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores».

CONTEXTO

            O nosso texto faz parte de uma longa secção, na qual Mateus põe Jesus – com as suas palavras e as suas ações – a anunciar o “Reino”. Essa secção vai de Mt 4,23 a 9,35.

            Na primeira parte da secção (cf. Mt 5-7), Mateus apresenta o “sermão da montanha”: num discurso magnífico, Jesus apresenta a “lei” e o programa desse “Reino” que Ele veio propor: é o anúncio do “Reino” por palavras.

            Na segunda parte da secção (cf. Mt 8-9), Mateus apresenta o anúncio do “Reino” através das ações de Jesus. O autor coloca-nos diante de três conjuntos de ações ou “milagres” de Jesus que tornam presente a realidade do “Reino” (cf. Mt 8,1-15; 8,23-9,8; 9,18-31); entre cada um desses conjuntos aparecem reflexões sobre o significado dos “gestos” de Jesus e apelos ao seu seguimento… O nosso texto (cf. Mt 9,9-13) insere-se precisamente neste esquema: é um apelo ao seguimento de Jesus

            Em resumo, temos nesta secção o anúncio do “Reino” nas palavras e nos gestos de Jesus. As palavras de Jesus anunciam a chegada desse mundo novo no qual os pobres e os débeis receberão a salvação de Deus; os gestos de Jesus mostram a realidade desse tempo novo de felicidade, de alegria, de libertação para todos. Os discípulos, evidentemente, são convidados a aderir a esse “Reino” que Jesus vem propor e a tornarem-se testemunhas desse mundo novo.

            O texto que nos é proposto apresenta dois episódios distintos. No primeiro, temos o chamamento do publicano Mateus (vers. 9); no segundo, temos a descrição de um banquete em casa de Mateus e de uma controvérsia com os fariseus (cf. vers. 10-13).

            Os publicanos estavam catalogados como pecadores públicos notórios. Eram os cobradores de
impostos que, além de estarem ao serviço do opressor romano, tinham a fama (e é preciso dizer, também o proveito) de explorarem os pobres. A linguagem oficial associava-os aos ladrões, aos pagãos, aos assassinos e às prostitutas. Os publicanos eram considerados, para todos os efeitos, pecadores públicos, permanentemente afetados de impureza e que nem sequer podiam fazer penitência, pois eram incapazes de reconhecer todos aqueles a quem tinham defraudado. Os fariseus, muito ciosos da sua santidade, mudavam de passeio quando, na rua, viam um publicano vir ao seu encontro.

            Eram, portanto, gente desclassificada (apesar de rica), impura, considerada amaldiçoada por Deus e, portanto, completamente à margem da salvação.

            Tudo isto nos permite perceber o inaudito da situação criada por Jesus: Ele não só chama um publicano para o seu grupo de discípulos, como também aceita sentar-Se à mesa com ele (estabelecendo assim com ele laços de familiaridade, de fraternidade, de comunhão). O comportamento de Jesus é, não só atentatório da moral e dos bons costumes, mas uma verdadeira provocação. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão e a partilha desta Palavra podem fazer-se contando com os seguintes dados:

  • A questão essencial é esta: Deus tem um projeto de salvação e de vida plena que oferece, de forma gratuita, a todos os homens. Essa salvação é um dom e não algo que nós podemos exigir de Deus. Todos os homens são chamados a fazer parte da comunidade do “Reino”: Deus não exclui nem discrimina ninguém. O que é decisivo não é o cumprimento das leis e das regras, mas a forma como respondemos ao chamamento que Deus nos faz. Podemos ficar numa atitude de autossuficiência, achando que não precisamos do dom de Deus porque cumprimos os mandamentos e achamos que Deus não tem outra solução senão salvar-nos; ou podemos escutar o chamamento de Deus, aderir à sua proposta, tornarmo-nos discípulos, seguir confiadamente Jesus no seu caminho de amor e de entrega. De acordo com a catequese de Mateus, a primeira atitude exclui-nos da comunidade da salvação, enquanto a segunda atitude nos integra na comunidade do “Reino”. Em que atitude estou eu?
  • A história de Mateus dá-nos algumas indicações acerca da forma como responder ao chamamento de Deus. Mateus, convidado por Jesus a integrar a comunidade do “Reino”, considerou tudo como secundário, abandonou os projetos pessoais (que passavam pela aposta nos bens materiais, mesmo se conseguidos com recurso à exploração e à injustiça) e correu atrás de Jesus. É esta resposta pronta, decidida, radical, plena, que eu dou aos desafios de Deus? O “Reino” é, para mim, algo de fundamental, que se sobrepõe a todos os outros valores, ou um projeto secundário, que me ocupa nas horas vagas, mas não é uma prioridade na minha vida?
  • A Palavra de Deus que aqui nos é proposta sugere também que na comunidade do “Reino” não há cristãos de primeira e cristãos de segunda (conforme cumprem ou não as leis e as regras). O que há é pessoas a quem Deus chama e que respondem ou não ao seu convite. De qualquer forma, não pode haver, na comunidade cristã, qualquer tipo de discriminação ou de marginalização… in Dehonianos.

 

Para os leitores:

            A primeira leitura tem a marca da esperança que deve transparecer, na proclamação da leitura. Além disso, devem ter cuidado na proclamação das duas perguntas presentes no texto, evitando a entoação no final da frase que é um vocativo.

            Na segunda leitura, devem ter cuidado nas pausas e respirações, sobretudo nas frases mais longas e com diversas orações.

 

  

ANEXOS:

Solenidade da Santíssima Trindade – Ano A – 31.05.2026

Viver a Palavra

            Retomando os Domingos do Tempo Comum, o calendário litúrgico convida-nos a celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade. Os diversos textos eucológios apresentados pelo missal sublinham a profundidade e a densidade teológica do mistério que celebramos, tal como rezamos por exemplo no prefácio proposto para esta solenidade: «Senhor Pai Santo, Deus eterno e omnipotente (…) Com o vosso Filho unigénito e o Espírito Santo, sois um só Deus, um só Senhor, não na singularidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza.».

Partindo da revelação bíblica e apoiada na tradição da Igreja e no Magistério, a teologia dogmática, nos seus mais diversos autores, foi desenvolvendo e aprofundando ao longo dos séculos, o modo como nos abeiramos deste mistério de amor e como podemos falar dele evitando heresias e cismas. Deste modo, a celebração da solenidade da Santíssima Trindade pode parecer longe do concreto da nossa vida e ficar apenas pela celebração do Mistério de Deus em si mesmo e do modo como Ele se revela para nós, na descrição teórica e especulativa que a ciência teológica nos legou.

            Contudo, a celebração da solenidade da Santíssima Trindade tem tudo que ver com a nossa vida e apresenta-se para nós como uma janela aberta com vista direta para o coração de Deus. Deixamos de parte a nossa lógica matemática e abrimos o coração ao mistério de um Deus que se revela em três pessoas. O nosso Deus não é um deus solitário, um divino solteirão que habita no cimo de uma nuvem. O nosso Deus, o Deus revelado em Jesus Cristo na força do Espírito Santo, é comunhão de amor e não só subsiste como tal, como se revela deste modo: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna».

            O nosso Deus é comunhão de amor e constitui a Igreja como Povo reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo (LG 4). A Igreja como ícone da Santíssima Trindade é chamada a contemplar o mistério de amor que é o próprio Deus e a realizar a sua ação no mundo como testemunha da comunhão e da unidade. Deste modo, a solenidade da Santíssima Trindade, revelando-nos o modo como Deus se relaciona connosco, convida-nos a viver à imagem da Santíssima Trindade.

            Diante deste imenso mistério, como Moisés prostramo-nos em adoração e sentimos sussurrar no nosso coração: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade». Moisés coloca-se de joelhos e prostra-se em adoração e estava ainda muito longe da revelação oferecida em Jesus Cristo, onde este amor e misericórdia seriam levados à plenitude.

            No silêncio da noite, neste diálogo noturno entre Jesus e Nicodemos, contemplamos o amor superabundante de Deus que apesar dos nossos pecados não nos abandona à nossa sorte. Verdadeiramente apaixonado por cada homem e cada mulher, Deus envia o Seu Filho, para que na força do Espírito Santo o mundo possa ser salvo: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Deste modo, como afirmou o Padre Virgínio Rotondi: «o mundo amado apaixonadamente por Deus não pode deixar de ser amado por nós desse modo». O amor derramado por Deus nos nossos corações envia-nos como testemunhas da alegria ao serviço da bondade e da ternura como nos exorta S. Paulo.

O amor que revela a essência de Deus e nos permite entrever o mistério da Sua comunhão e unidade constitui-se como ontologia da ação eclesial e envia-nos como verdadeiros discípulos missionários para que o mundo acredite em Jesus Cristo e Nele encontre a fonte da salvação e da paz. in Voz Portucalense.

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            No Domingo da Santíssima Trindade somos convidados pela Liturgia da Palavra a viver como artífices da comunhão e da unidade. A Igreja é Povo de Deus reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo (LG 4) e, por isso, chamada a testemunhar esta comunhão de amor. Deste modo, ao celebrar esta solenidade, cada família e cada comunidade cristã são desafiadas a renovar o seu compromisso de ser testemunhas da alegria da comunhão e da beleza de caminhar juntos. No contexto desta celebração, podem ser apresentadas alguns desafios concretos e ações de saída missionária que em família ou em comunidade se podem levar a cabo para que a comunhão e unidade que somos chamados a testemunhar não sejam apenas um conjunto de boas intenções, mas uma realidade concreta na vida e na missão de cada batizado. in Voz Portucalense.

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“Magnifica Humanitas”: encíclica de Leão XIV será apresentada no dia 25 de maio

18 maio, 2026 Rui Saraiva – Vaticano – Voz Portucalense

“Magnifica humanitas”, “Humanidade Magnífica”, é a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Um documento sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial. Assinada a 15 de maio, na data dos 135 anos da encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII, a apresentação do texto do Papa Leão XIV será na manhã de 25 de maio e contará com uma novidade: a presença do Santo Padre na sessão.

A apresentação será na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano e será proposta pelos cardeais Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e Michael Czerny, S.J., prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

Estão previstas intervenções de Anna Rowlands, teóloga e professora da Durham University, no Reino Unido; Christopher Olah, cofundador da Anthropic (EUA) e responsável pela pesquisa sobre a interpretabilidade da inteligência artificial; Leocadie Lushombo i.t., docente de teologia política e pensamento social católico na Jesuit School of Theology de Santa Clara, Califórnia.

A conclusão da apresentação estará a cargo do cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin. No final, haverá um discurso e uma bênção do Papa Leão XIV.

Durante a semana publicaremos, com o devido destaque, a encíclica do Papa Leão XIV

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            Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IÊxodo 34,4b-6.8-9

Leitura do Livro do Êxodo

Naqueles dias,
Moisés levantou-se muito cedo e subiu ao monte Sinai,
como o Senhor lhe ordenara,
levando nas mãos as tábuas de pedra.
O Senhor desceu na nuvem, ficou junto de Moisés,
que invocou o nome do Senhor.
O Senhor passou diante de Moisés e proclamou:
«O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo,
sem pressa para Se indignar
e cheio de misericórdia e fidelidade».
Moisés caiu de joelhos e prostrou-se em adoração.
Depois disse:
«Se encontrei, Senhor, aceitação a vossos olhos,
digne-Se o Senhor caminhar no meio de nós.
É certo que se trata de um povo de dura cerviz,
mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades
e fareis de nós a vossa herança».

CONTEXTO

            O nosso texto faz parte das “tradições sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel teria assumido com Jahwéh.

            O texto situa-nos no deserto do Sinai, “em frente do monte” (cf. Ex 19,1). No texto bíblico, não temos indicações geográficas suficientes para identificar o “monte da aliança”. Em si, o nome “Sinai” não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura.

            Segundo alguns autores, este texto pode ter sido a primitiva versão jahwista da aliança do Sinai (séc. X a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (sécs. V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a renovação da primeira aliança, entretanto rompida pelo pecado do Povo. No estado atual do Pentateuco, o esquema é o seguinte: Israel comprometeu-se com Jahwéh (cf. Ex 19); mas, durante a ausência de Moisés, no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro de ouro para representar Jahwéh – o que lhe estava interdito pelos mandamentos da aliança (cf. Ex 32,1-29); então, Moisés intercedeu pelo Povo e Deus renovou a aliança com Israel (cf. Ex 34,1-10). in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta as seguintes linhas:

  • Deus é sempre, para o homem, o mistério que a “nuvem” esconde e revela: detetamos a sua presença, mas sem O ver; percebemos a sua proximidade, sem conseguirmos definir os contornos do seu rosto. A ânsia do homem em penetrar o mistério de Deus leva-o, com frequência, a inventar rostos de Deus; mas, muitas vezes, esses rostos são apenas a projeção dos sonhos, dos anseios, das necessidades e até dos defeitos dos homens e têm pouco a ver com a realidade de Deus. Para entrarmos no mistério de Deus, é preciso estabelecermos com Ele uma relação de proximidade, de comunhão, de intimidade que nos leve ao encontro da sua voz, dos seus valores, dos seus desafios (“subir ao monte”). Procuro, dia a dia, “subir ao monte” da “aliança” e estabelecer comunhão com Deus através do diálogo com Ele (oração) e da escuta da sua Palavra?
  • No nosso texto, Deus apresenta-Se. Fundamentalmente, Ele define-Se como o Deus da relação e da comunhão. Deixa claro que é um Deus “com coração” – e com um coração cheio de amor, de bondade, de ternura, de misericórdia, de fidelidade. Apesar de o seu Povo ter violado os compromissos que assumiu, Deus não só perdoa o pecado do Povo, mas propõe o refazer da “aliança”: é que, acima de tudo, este Deus do amor preza a comunhão com o homem: o seu objetivo é integrar os homens na família de Deus. É este Deus em que eu acredito? É deste Deus que eu dou testemunho?
  • Deus, da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem. Eu sou livre de aceitar, ou não, a proposta de “aliança” que Deus me faz. Como é que eu respondo ao Deus da “aliança”? Eu aceito esta vontade que Ele manifesta de viver em relação de comunhão comigo? O que é que eu faço para responder a este desafio? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Daniel 3,52-256

Refrão 1: Digno é o Senhor
de louvor e de glória para sempre.

Refrão 2: Louvor e glória ao Senhor para sempre.

Bendito sejais, Senhor, Deus dos nossos pais:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito o vosso nome glorioso e santo:
digno de louvor e de glória para sempre.

Bendito sejais no templo santo da vossa glória:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito sejais no trono da vossa realeza:
digno de louvor e de glória para sempre.

Bendito sejais, Vós que sondais os abismos
e estais sentados sobre os Querubins:
digno de louvor e de glória para sempre.
Bendito sejais no firmamento dos céus:
digno de louvor e de glória para sempre.

LEITURA II – 2 Cor 13,11-13

Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição,
animai-vos uns aos outros,
tende os mesmos sentimentos,
vivei em paz.
E o Deus do amor e da paz estará convosco.
Saudai-vos uns aos outros com o ósculo santo.
Todos os santos vos saúdam.
A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus
e a comunhão do Espírito Santo
estejam convosco.

CONTEXTO

            A Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Este, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.

            Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.

            Reconfortado, Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma colecta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Estamos nos anos 56/57.

            O texto que nos é proposto é, precisamente, a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1 Cor 16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e impessoalidade. Não parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas antes uma despedida entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar:

  • A comunidade cristã é convidada a descobrir que Deus é amor. A fórmula “Pai, Filho e Espírito Santo” expressa essa realidade de Deus como amor, como família, como comunidade.
  • Os membros da comunidade cristã, que pelo batismo aderiram ao projeto de salvação que Deus apresentou aos homens em Jesus e cuja caminhada é animada pelo Espírito, são convidados a integrarem esta comunidade de amor. O fim último da nossa caminhada é a pertença à família trinitária.
  • Esta “vocação” deve expressar-se na nossa vida comunitária. A nossa relação com os irmãos deve refletir o amor, a ternura, a misericórdia, a bondade, o perdão, o serviço, que são as consequências práticas do nosso compromisso com a comunidade trinitária. É isso que acontece? As nossas relações comunitárias refletem esse amor que é a marca da “família de Deus”? in Dehonianos

EVANGELHO – João 3,16-18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
disse Jesus a Nicodemos:
«Deus amou tanto o mundo
que entregou o seu Filho Unigénito,
para que todo o homem que acredita n’Ele
não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo,
mas para que o mundo seja salvo por Ele.
Quem acredita n’Ele não é condenado,
mas quem não acredita n’Ele já está condenado,
porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

CONTEXTO

            O nosso texto pertence à secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, o autor apresenta Jesus e procura – através dos contributos dos diversos personagens que vão sucessivamente ocupando o centro do palco e declamando o seu texto – dizer quem é Jesus.

            Mais concretamente, o trecho que nos é proposto faz parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado Nicodemos (cf. Jo 3,1). Nicodemos foi visitar Jesus “de noite” (cf. Jo 3,2), o que parece indicar que não se queria comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica. Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo 7,48-52); também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cf. Jo 19,39).

            A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases.

            Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai.

            Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”.
Na terceira (cf. Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. O nosso texto pertence a esta terceira parte. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

  • João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… No dia em que celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.
  • O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte, “inferno”. Quais são as manifestações desta recusa da vida plena que eu observo, na vida das pessoas, nos acontecimentos do mundo, e até na vida da Igreja?
  • Nós, crentes, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário. É isso que acontece? Que contributo posso eu dar para que a minha comunidade – cristã ou religiosa – seja sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?
  • A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o indizível, não consegue definir o mistério de Deus. in Dehonianos.

Para os leitores:

            A brevidade das leituras que são propostas para este Domingo não deve fazer descurar o cuidado colocado na sua preparação.

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção as frases em discurso direto e,

            na segunda leitura, o carácter exortativo do texto reforçado pelas diferentes formas verbais na forma imperativa

 

ANEXOS:

Solenidade de Pentecostes – Ano A – 24.05.2026

Viver a Palavra

Cinquenta dias depois da Páscoa os Apóstolos continuam fechados com medo. Como discípulos de Jesus de Nazaré que foi crucificado estão recolhidos em casa e, com certeza, começam a pensar o que farão para vencer o temor e avançar para o desconfinamento. Contudo, algo de surpreendente e inesperado acontece. No lugar onde se encontravam «fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam».

            Este grupo que estava fechado, amedrontado e barricado em casa, subitamente encontra a audácia para enfrentar a multidão e corajosamente sai para a rua, proclamando as maravilhas de Deus nas mais variadas línguas, conforme o Espírito lhes inspirava. Estes homens não estavam habituados a fazer discursos, nem eram profissionais da palavra. São homens simples que não apoiavam os seus discursos na eloquência humana, mas em qualquer coisa de novo e diferente que os fazia anunciar de modo apaixonado e desassombrado as maravilhas de Deus. É o Espírito Santo, o Paráclito que o Mestre prometera e que agora desce sobre eles para os enviar em missão. Cheios do Espírito Santo, o medo deu lugar à coragem e o silêncio e o recolhimento deram lugar à proclamação da Palavra na praça pública.

            A primeira leitura situa estes acontecimentos no dia de Pentecostes, isto é, cinquenta dias após a Páscoa. Por seu lado, a narrativa evangélica situa a descida do Espírito Santo «na tarde daquele dia, o primeiro da semana», isto é, no dia de Páscoa. Na verdade, a aparente contradição na descrição temporal destes acontecimentos permite-nos unir a Páscoa e o Pentecostes, recordando que o Espírito Santo é dom de Jesus Ressuscitado à Sua Igreja para que iluminados e guiados pelo Seu Espírito possam continuar no tempo e na história a Sua obra redentora.

            «Recebei o Espírito Santo». O Espírito Santo é dom gratuito do amor de Deus que nos faz participar na Sua obra de amor. Deste modo, o Espírito Santo é um dom a invocar e a agradecer. Mas juntamente com o Seu Espírito, o Ressuscitado concede também a Sua paz e envia os discípulos em missão para que sejam anunciadores da Boa Nova da Paz e da reconciliação. Jesus une à missão que o Pai lhe confiou a missão de cada um de nós: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».

            Somos enviados tal como o Pai enviou o Seu Filho muito amado e unimo-nos assim à missão de Jesus para que o rosto de misericórdia e perdão do Pai continue a brilhar no mundo. Jesus envia os discípulos mostrando-lhes as mãos e o lado e confiando-lhes a missão de perdoar os pecados. Perdoar é dar através das feridas recebidas, é fazer do mal sofrido uma oportunidade para o amor e a reconciliação, é criar paz com uma superabundância de amor que vence o ódio e a violência sofridos.

            Unido ao Espírito Santo, o perdão é um acontecimento muito mais escatológico do que ético, porque nos faz participar no aqui e agora do tempo e da história da comunhão e da paz que se viverá em plenitude no céu. Vinde Espírito Santo! Vinde e rasgai horizontes de esperançam e tornai-nos anunciadores da nova civilização do amor para que o mundo possa ser esse lugar que Deus sonhou para nós. in Voz Portucalense.

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            O diretório litúrgico recorda que o Domingo de Pentecostes é «Dia do Apostolado Organizado dos Leigos e do contributo para o mesmo Apostolado (por decisão da Conferência Episcopal)». O Espírito Santo dom de Jesus Ressuscitado à Sua Igreja constitui cada batizado como um verdadeiro discípulo missionário e protagonista responsável para a construção do Reino de Deus no Mundo. Apesar desta indicação aparecer discretamente no diretório, este dia pode ser uma oportunidade para recordar a importante tarefa de cada fiel leigo na missão da Igreja e o desafio para repensar a pastoral das nossas comunidades, não apenas numa perspetiva sacramental e como garantia de serviços onde os leigos são apenas destinatários passivos da missão dos pastores, mas como uma comunidade corresponsável onde todos partilham a tarefa e a missão de anunciar Jesus Cristo. in Voz Portucalense.

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                        Concluímos neste Domingo Tempo Pascal. Acabamos de percorrer os 50 dias que nos levam do Domingo de Páscoa até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IAtos 2,1-11

Leitura dos Atos dos Apóstolos

Quando chegou o dia de Pentecostes,
os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar.
Subitamente, fez se ouvir, vindo do Céu,
um rumor semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo,
que se iam dividindo,
e poisou uma sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo
e começaram a falar outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Residiam em Jerusalém judeus piedosos,
procedentes de todas as nações que há debaixo do céu.
Ao ouvir aquele ruído, a multidão reuniu se
e ficou muito admirada,
pois cada qual os ouvia falar na sua própria língua.
Atónitos e maravilhados, diziam:
«Não são todos galileus os que estão a falar?
Então, como é que os ouve cada um de nós
falar na sua própria língua?
Partos, medos, elamitas,
habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia,
do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília,
do Egipto e das regiões da Líbia, vizinha de Cirene,
colonos de Roma, tanto judeus como prosélitos,
cretenses e árabes,
ouvimo los proclamar nas nossas línguas
as maravilhas de Deus».

CONTEXTO

            Já vimos, no comentário aos textos dos domingos anteriores, que o livro dos “Atos” não pretende ser uma reportagem jornalística de acontecimentos históricos, mas sim ajudar os cristãos – desiludidos porque o “Reino” não chega – a redescobrir o seu papel e a tomar consciência do compromisso que assumiram, no dia do seu batismo.
No que diz respeito ao texto que nos é proposto e que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes, não existem dúvidas de que é uma construção artificial, criada por Lucas com uma clara intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Resta-nos descodificar os símbolos para chegarmos à interpelação essencial que a catequese primitiva, pela palavra de Lucas, nos deixa. Uma interpretação literal deste relato seria, portanto, uma boa forma de passarmos ao lado do essencial da mensagem; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, no folclore, e ignorar o fundamental. Ora, o interesse fundamental do autor é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projeto libertador do Pai. in Dehonianos

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

  • Temos, neste texto, os elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor ressuscitado e que testemunha na história o projeto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta a comunidade universal da salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das diferenças culturais e étnicas. A Igreja de que fazemos parte é uma comunidade de irmãos que se amam, apesar das diferenças? Está reunida por causa de Jesus e à volta de Jesus? Tem consciência de que o Espírito está presente e que a anima? Testemunha, de forma efetiva e coerente, a proposta libertadora que Jesus deixou?
  • Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja… Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à ação do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?
  • Para se tornar cristão, ninguém deve ser espoliado da própria cultura: nem os africanos, nem os europeus, nem os sul-americanos, nem os negros, nem os brancos; mas todos são convidados, com as suas diferenças, a acolher esse projeto libertador de Deus, que faz os homens deixarem de viver de costas voltadas, para viverem no amor. A Igreja de que fazemos parte é esse espaço de liberdade e de fraternidade? Nela todos encontram lugar e são acolhidos com amor e com respeito – mesmo os de outras raças, mesmo aqueles de quem não gostamos, mesmo aqueles que não fazem parte do nosso círculo, mesmo aqueles que a sociedade marginaliza e afasta? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 103 (104)

Refrão 1: Enviai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a face da terra.

Refrão 2: Mandai, Senhor, o vosso Espírito
e renovai a terra.

Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Senhor, meu Deus, como sois grande!
Como são grandes, Senhor, as vossas obras!
A terra está cheia das vossas criaturas.

Se lhes tirais o alento, morrem
e voltam ao pó donde vieram.
Se mandais o vosso espírito, retomam a vida
e renovais a face da terra.

Glória a Deus para sempre!
Rejubile o Senhor nas suas obras.
Grato Lhe seja o meu canto
e eu terei alegria no Senhor.

LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios

Irmãos:
Ninguém pode dizer «Jesus é o Senhor»
a não ser pela acção do Espírito Santo.
De facto, há diversidade de dons espirituais,
mas o Senhor é o mesmo.
Há diversas operações,
mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.
Em cada um se manifestam os dons do Espírito
para o bem comum.
Assim como o corpo é um só e tem muitos membros
e todos os membros, apesar de numerosos,
constituem um só corpo,
assim também sucede com Cristo.
Na verdade, todos nós
– judeus e gregos, escravos e homens livres –
fomos baptizados num só Espírito,
para constituirmos um só Corpo.
E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

CONTEXTO

            A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contratestemunho. As questões à volta dos “carismas” (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses dons carismáticos consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como “iluminados” e assumiam com frequência atitudes de autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade; por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem voz na comunidade.
Paulo não pode ignorar esta situação. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é proposto, Paulo aborda a questão dos “carismas”. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Para refletir e atualizar a Palavra, considerar os seguintes elementos:

  • Temos todos consciência de que somos membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é o mesmo Espírito que nos alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não mais dignas ou mais importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com alguma frequência, cristãos com uma consciência viva da sua superioridade e da sua situação “à parte” na comunidade (seja em razão da função que desempenham, seja em razão das suas “qualidades” humanas), que gostam de mandar e de fazer-se notar. Às vezes, vêem-se atitudes de prepotência e de autoritarismo por parte daqueles que se consideram depositários de dons especiais; às vezes, a Igreja continua a dar a impressão – mesmo após o Vaticano II – de ser uma pirâmide no topo da qual há uma elite que preside e toma as decisões e em cuja base está o rebanho silencioso, cuja função é obedecer. Isto faz algum sentido, à luz da doutrina que Paulo expõe?
  • Os “dons” que recebemos não podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir para o bem comum e para reforçar a vivência comunitária. As nossas comunidades são espaços de partilha fraterna, ou são campos de batalha onde se digladiam interesses próprios, atitudes egoístas, tentativas de afirmação pessoal?
  • É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito? in Dehonianos

SEQUÊNCIA DO PENTECOSTES

Vinde, ó santo Espírito,
vinde, Amor ardente,
acendei na terra
vossa luz fulgente.

Vinde, Pai dos pobres:
na dor e aflições,
vinde encher de gozo
nossos corações.

Benfeitor supremo
em todo o momento,
habitando em nós
sois o nosso alento.

Descanso na luta
e na paz encanto,
no calor sois brisa,
conforto no pranto.

Luz de santidade,
que no Céu ardeis,
abrasai as almas
dos vossos fiéis.

Sem a vossa força
e favor clemente,
nada há no homem
que seja inocente.

Lavai nossas manchas,
a aridez regai,
sarai os enfermos
e a todos salvai.

Abrandai durezas
para os caminhantes,
animai os tristes,
guiai os errantes.

Vossos sete dons
concedei à alma
do que em Vós confia:

Virtude na vida,
amparo na morte,
no Céu alegria.

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

CONTEXTO

            Este texto (lido já no segundo domingo da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos a comunidade da nova aliança, nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. No entanto, esta comunidade ainda não se encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de fazer a experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua missão no mundo e dar testemunho do projeto libertador de Jesus.
Nos “Atos”, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus); mas João situa no anoitecer do dia de Páscoa a receção do Espírito pelos discípulos.in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar as seguintes coordenadas:

  • A comunidade cristã só existe de forma consistente, se está centrada em Jesus. Jesus é a sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os nossos medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à aventura de testemunhar a vida nova do Homem Novo. As nossas comunidades são, antes de mais, comunidades que se organizam e estruturam à volta de Jesus? Jesus é o nosso modelo de referência? É com Ele que nos identificamos, ou é num qualquer ídolo de pés de barro que procuramos a nossa identidade? Se Ele é o centro, a referência fundamental, têm algum sentido as discussões acerca de coisas não essenciais, que às vezes dividem os crentes?
  • Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os “sinais” do amor de Jesus?
  • As comunidades construídas à volta de Jesus são animadas pelo Espírito. O Espírito é esse sopro de vida que transforma o barro inerte numa imagem de Deus, que transforma o egoísmo em amor partilhado, que transforma o orgulho em serviço simples e humilde… É Ele que nos faz vencer os medos, superar as cobardias e fracassos, derrotar o ceticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor, sonhar com um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas indicações, aos seus questionamentos. in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura apresenta uma dinâmica narrativa preenchida de movimentos, símbolos e imagens. A proclamação desta leitura requer uma cuidada preparação para que toda a força narrativa possa ser aproveitada. Além disso, pede-se especial cuidado na proclamação da lista de proveniências das pessoas presentes em Jerusalém. Algumas dessas palavras, além de desconhecidas, são de difícil pronunciação.            

            Na segunda leitura, pede-se especial cuidado aos leitores na proclamação das frases com a expressão «há diversidade». Não só a repetição da expressão, mas também o contraponto com a expressão «o mesmo» requerem uma especial atenção para uma mais eficaz proclamação da leitura.

ANEXOS:

Domingo da Ascensão do Senhor – Ano A – 17.05.2026

60º Dia Mundial das Comunicações Sociais

Viver a Palavra

            O ser humano é por natureza curioso. Gosta de saber e conhecer o mundo e a realidade à sua volta. Esta ânsia de saber mais possui também muitas vezes o desejo de conhecer o futuro, de saber como se desenvolverão os acontecimentos do mundo e as suas vicissitudes, como será a nossa vida e até a vida dos outros. Alguns até procuram os caminhos do esoterismo para satisfazer essa necessidade de saber aquilo que está para vir. Em momentos difíceis e exigentes da história, pensamos como seria útil saber o que estava para vir e em algumas decisões difíceis de tomar, como seria bom saber um pouco mais do que nos espera. Contudo, respondendo àqueles que lhe perguntavam se estava prestes a restauração do Reino de Israel, Jesus adverte os Seus discípulos e neles dirige-se a cada um de nós: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade».

            Deus Pai é Criador e Senhor de todas as coisas. Criou com amor e para a liberdade. Não é um programador do universo que o determinou com coordenadas precisas para que tudo decorra deterministicamente tal como Ele projetou. É o Deus da liberdade que tem um desígnio de amor: um projeto de realização e felicidade para o mundo e para cada homem e cada mulher. Mas um projeto que respeita a nossa liberdade e se constrói numa relação dialógica de um Deus que ama, chama e convoca para a missão e pacientemente espera a nossa resposta frágil e limitada. Por isso, somos colaboradores da construção da civilização do amor e protagonistas responsáveis da instauração do Reino de Deus no mundo. Não nos compete saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a Sua autoridade, mas acolher a Sua Palavra, seguir as Suas instruções, depositar Nele a nossa vida e as nossas esperanças e confiar que com Ele o caminho ganha um sentido absolutamente novo.

            Desconhecer o futuro, aquilo que poderá acontecer no amanhã das nossas vidas, poderia ser angustiante pelo medo ou incerteza. Contudo, somos portadores da mais bela e boa notícia: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos». Jesus Ressuscitado, enviando os seus discípulos em missão, garante-lhes a Sua presença terna e amorosa. Diante das alegrias e conquistas, das dificuldades e vicissitudes que são próprias da existência humana e da missão que nos é confiada, levamos connosco a mais bela certeza: Ele está connosco, Ele caminha connosco, Ele precede-nos, acompanha-nos e aponta-nos o caminho. Prefiro desconhecer o futuro e a sucessão dos acontecimentos da história que estão para vir e poder contar com a presença amorosa do Pai, que em Jesus Cristo e na força do Espírito Santo se faz presente na minha vida.

            Jesus sobe ao Céu, mas não nos abandona. Por isso, fazemos festa e celebramos a Ascensão do Senhor. Não é a festa da partida de Jesus, mas a celebração de uma presença absolutamente nova na força do Espírito Santo, que Ele tinha prometido aos seus discípulos. Se percorrendo os caminhos da Judeia e da Galileia Jesus se encontrou com tantos homens e mulheres e a todos anunciou o amor do Pai, agora, ressuscitado e na força do Espírito Santo sobe ao Céu e está connosco em qualquer tempo e lugar, renovando no nosso coração a certeza de que fomos sonhados e pensados para o Reino de Deus, para a vida nova e eterna que só Ele nos pode oferecer.

            Mas a Sua obra de amor tem de continuar: «Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo». Jesus conta connosco para que o Reino de Deus se continue a fazer presente no mundo. Somos os braços que devem continuar a abraçar e a consolar, os lábios que devem continuar a anunciar a Boa Nova da paz e da esperança, as vidas que devem fazer ecoar no tempo e na história as maravilhas do amor de Deus. A Ascensão do Senhor não nos pode deixar imóveis e de olhar fito no Céu, mas envia-nos em missão e faz de nós discípulos missionários, suas «testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria, e até aos confins da terra».in Voz Portucalense.

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            No dia 17 de maio, Domingo da Ascensão do Senhor, a Igreja celebra o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Para este ano, o Papa Leão XIV escreveu uma mensagem intitulada: «Preservar vozes e rostos humanos» (ver a mensagem do Papa Leão XIV em anexo). A comunicação é inerente ao homem, enquanto ser em relação, contudo, alguns dedicam a sua vida ao serviço da comunicação e devem ser promotores de uma cultura de diálogo e de verdade. Que este Domingo das comunicações sociais seja uma oportunidade para valorizar o trabalho daqueles que se dedicam à comunicação dentro e fora da Igreja e, sobretudo, ao serviço do mundo na Igreja. Como afirma o Papa: «é necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica».

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Semana da Vida | 10 a 17 de maio de 2026

A Semana da Vida de 2026 convida-nos à reflexão sobre a proteção da Vida, enquanto forma concreta de pacificação: cuidar, acolher, defender, promover e acompanhar. Entre os dias 10 e 17 de maio, somos convidados a rezar com o tema “Bem-aventurados os que Protegem a Vida”.

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IAtos 1,1-11

Leitura dos Acos dos Apóstolos

No meu primeiro livro, ó Teófilo,
narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar,
até ao dia em que foi elevado ao Céu,
depois de ter dado, pelo Espírito Santo,
as suas instruções aos Apóstolos que escolhera.
Foi também a eles que, depois da sua paixão,
Se apresentou vivo com muitas provas,
aparecendo lhes durante quarenta dias
e falando lhes do reino de Deus.
Um dia em que estava com eles à mesa,
mandou lhes que não se afastassem de Jerusalém,
mas que esperassem a promessa do Pai,
«do Qual disse Ele Me ouvistes falar.
Na verdade, João batizou com água;
vos, porém, sereis batizados no Espírito Santo,
dentro de poucos dias».
Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar:
«Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?»
Ele respondeu lhes:
«Não vos compete saber os tempos ou os momentos
que o Pai determinou com a sua autoridade;
mas recebereis a força do Espírito Santo,
que descerá sobre vós,
e sereis minhas testemunhas
em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria
e até aos confins da terra».
Dito isto, elevou Se à vista deles
e uma nuvem escondeu O a seus olhos.
E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava,
apresentaram se lhes dois homens vestidos de branco,
que disseram:
«Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu?
Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu,
virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».

CONTEXTO

            O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projeto salvador de Deus?

~          É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu. in Dehonianos

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, para a reflexão e atualização, os seguintes elementos:

  • A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos, antes de mais, que uma vida, vivida na fidelidade aos projetos do Pai, é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.
  • A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?
  • O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa atividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?
  • É relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 46 (47)

Refrão 1: Por entre aclamações e ao som da trombeta,
ergue Se Deus, o Senhor.

Refrão 2: Ergue-Se Deus, o Senhor,
em júbilo e ao som da trombeta.

Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra.

Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai.

Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado.

LEITURA II – Efésios 1,17-23

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios

Irmãos:
O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória,
vos conceda um espírito de sabedoria e de luz
para O conhecerdes plenamente
e ilumine os olhos do vosso coração,
para compreenderdes a esperança a que fostes chamados,
os tesouros de glória que encerra a sua herança entre os santos
e a incomensurável grandeza que representa o seu poder
para nós os crentes.
Assim o mostra a eficácia da poderosa força
que exerceu em Cristo,
que Ele ressuscitou dos mortos
e colocou à sua direita nos Céus,
acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania,
acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo,
mas também no mundo que há de vir.
Tudo submeteu aos seus pés e pô 1’O acima de todas as coisas
como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo,
a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.

CONTEXTO

            A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.

            Alguns veem nesta Carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada no oriente.

            Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, as seguintes linhas:

  • Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição/ascensão/glorificação de Jesus é a garantia da nossa própria ressurreição/ glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta perspetiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu.
  • Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo “corpo”, alimentados pela mesma vida. Estas duas coordenadas estão presentes na nossa existência?
  • Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude a projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”. in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 28,16-20

Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus.

Naquele tempo,
os onze discípulos partiram para a Galileia,
em direcção ao monte que Jesus lhes indicara.
Quando O viram, adoraram n’O;
mas alguns ainda duvidaram.
Jesus aproximou Se e disse lhes:
«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.
Ide e ensinai todas as nações,
baptizando as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
ensinando as a cumprir tudo o que vos mandei.
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

CONTEXTO

            O texto situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus (embora não se diga se é muito ou pouco tempo após a descoberta do túmulo vazio – cf. Mt 28,1-15). De acordo com Mateus, Jesus – pouco antes de ser preso – havia marcado encontro com os discípulos na Galileia (cf. Mt 26,32); na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro (cf. Mt 28,7) e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Mt 28,10), renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrar o Senhor.

            A Galileia – região setentrional da Palestina – era uma região próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A sua situação geográfica fazia desta região o ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos fazia parte da sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia, certamente, com que os judeus da Galileia vivessem a religião de uma maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos conduzia, provavelmente, os galileus a suavizar a sua prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas pelo contacto com os não judeus. No entanto, isto fazia com que os judeus de Jerusalém desprezassem os judeus da Galileia e considerassem que da Galileia “não podia sair nada de bom”.

            No entanto, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida. Foi, também, na Galileia que Ele começou a anunciar o Evangelho do “Reino” e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos (cf. Mt 4,12-22). Para Mateus, esse facto sugere que o anúncio libertador de Jesus tem uma dimensão universal: destina-se a judeus e pagãos.

            Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”. Trata-se, no entanto, de uma montanha da Galileia que é impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação (cf. Mt 4,8) e com a montanha da transfiguração (cf. Mt 17,1). De qualquer forma, o “monte” é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus se revela aos homens.in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

  • Jesus foi ao encontro do Pai, depois de uma vida gasta ao serviço do “Reino”; deixou aos seus discípulos a missão de anunciar o “Reino” e de torná-lo uma proposta capaz de renovar e de transformar o mundo. Celebrar a ascensão de Jesus significa, antes de mais, tomar consciência da missão que foi confiada aos discípulos e sentir-se responsável pela presença do “Reino” na vida dos homens. Estou consciente de que a Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus, a que eu também pertenço – é, hoje, a presença libertadora e salvadora de Jesus no meio dos homens? Como é que eu procuro testemunhar o “Reino” na minha vida de todos os dias – em casa, no trabalho ou na escola, na paróquia, na comunidade religiosa?
  • A missão que Jesus confiou aos discípulos é uma missão universal: as fronteiras, as raças, a diversidade de culturas, não podem ser obstáculos para a presença da proposta libertadora de Jesus no mundo. Tenho consciência de que a missão confiada aos discípulos é uma missão universal? Tenho consciência de que Jesus me envia a todos os homens – sem distinção de raças, de etnias, de diferenças religiosas, sociais ou económicas – a anunciar-lhes a libertação, a salvação, a vida definitiva? Tenho consciência de que sou responsável pela vida, pela felicidade e pela liberdade de todos os meus irmãos – mesmo que eles habitem no outro lado do mundo?
  • Tornar-se discípulo é, em primeiro lugar, aprender os ensinamentos de Jesus – a partir das suas palavras, dos seus gestos, da sua vida oferecida por amor. É claro que o mundo do século XXI apresenta, todos os dias, desafios novos; mas os discípulos, formados na escola de Jesus, são convidados a ler os desafios que hoje o mundo coloca, à luz dos ensinamentos de Jesus. Preocupo-me em conhecer bem os ensinamentos de Jesus e em aplicá-los à vida de todos os dias?
  • No dia em que fui batizado, comprometi-me com Jesus e vinculei-me com a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A minha vida tem sido coerente com esse compromisso?
  • É um tremendo desafio testemunhar, hoje, no mundo os valores do “Reino” (esses valores que, muitas vezes, estão em contradição com aquilo que o mundo defende e que o mundo considera serem as prioridades da vida). Com frequência, os discípulos de Jesus são objeto da irrisão e do escárnio dos homens, porque insistem em testemunhar que a felicidade está no amor e no dom da vida; com frequência, os discípulos de Jesus são apresentados como vítimas de uma máquina de escravidão, que produz escravos, alienados, vítimas do obscurantismo, porque insistem em testemunhar que a vida plena está no perdão, no serviço, na entrega da vida. O confronto com o mundo gera muitas vezes, nos discípulos, desilusão, sofrimento, frustração… Nos momentos de deceção e de desilusão convém, no entanto, recordar as palavras de Jesus: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. Esta certeza deve alimentar a coragem com que testemunhamos aquilo em que acreditamos. in Dehonianos.

Para os leitores:

            Na primeira leitura, além das frases longas com diversas orações deve ter-se um especial cuidado na proclamação das frases em discurso direto que se encontram entre aspas. Estas frases para que sejam bem lidas devem ser bem preparadas com as respetivas pausas e respirações e sobretudo numa especial atenção às frases interrogativas.

            A segunda leitura, tal como a primeira, possui longas frases com diversas orações que requerem uma acurada preparação para uma clara e articulada proclamação do texto.

ANEXOS:

Domingo VI do Tempo Pascal – Ano A – 10.05.2026

Viver a Palavra

            Aquele que encontra em Jesus Cristo a fonte de sentido para a sua vida é chamado, em cada tempo e em cada lugar, a dar testemunho alegre e generoso da sua fé. Como afirma o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: «não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa» (EG 266).

            Deste modo, vivendo o Tempo Pascal em que celebramos e saboreamos a presença ressuscitada e ressuscitadora de Jesus Cristo, somos chamados a ser portadores da esperança e anunciadores do evangelho da alegria, tal como nos desafia S. Pedro: «venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança». Como seria belo se cada cristão pudesse ser, no seu campo de ação e para aqueles com quem se cruza na estrada da vida, um sinal de esperança e um apelo a encontrar um sentido novo, mesmo diante dos desafios mais sombrios e exigentes.

            Os cristãos são chamados a ser narradores da esperança e não apenas para com os outros homens e mulheres. Ainda antes de o ser em relação aos outros homens e mulheres, a esperança é responsabilidade dos cristãos em relação a Deus como resposta Àquele que nos chamou à fé e à esperança (cf. Ef 1,18). Assim, a esperança como responsabilidade cristã situa-se entre o chamamento de Deus e a demanda dos homens. É uma responsabilidade única e dupla ao mesmo tempo, tal como o mandamento de amar a Deus e ao próximo é único e duplo concomitantemente.

            Além disso, esta esperança não é uma esperança desencarnada como mero otimismo utópico ou uma projeção dos nossos sonhos ou desejos mais íntimos. A nossa esperança tem um rosto: Jesus Cristo, vivo e ressuscitado. Como S. Paulo podemos afirmar: «a esperança não nos engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Na força do Espírito prometido por Jesus Cristo e enviado pelo Pai como «paráclito», somos enviados como testemunhas da esperança, anunciando com a vida e nos gestos concretos de amor e misericórdia a esperança que recebemos do Pai.

«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos».

            Como é bom escutar a liberdade com que Jesus nos propõe o Seu projeto de amor: «se me amardes». Jesus não se impõe porque o amor é uma adesão livre. Fomos criados para a verdadeira liberdade e para a felicidade plena que só o amor de Jesus nos pode oferecer e garantir. Acolher o mandamento novo do amor significa abraçar a perene novidade que dá sentido à nossa vida: a comunhão com Jesus Cristo que o Espírito Santo realiza em nós. Na verdade, a novidade do mandamento do amor não reside no convite a amar a Deus e o próximo, pois bem sabemos que esse convite estava já presente nas páginas do Antigo Testamento. Além disso, esta novidade também não é apenas amar «como Jesus nos amou», porque deste modo o cristianismo seria apenas uma espécie de esforço moral extremo. A novidade do mandamento novo do amor está precisamente na dinâmica de comunhão que ele estabelece com Cristo e do viver Nele e para Ele: «se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele». in Voz Portucalense.

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Semana da Vida | 10 a 17 de maio de 2026

A Semana da Vida de 2026 convida-nos à reflexão sobre a proteção da Vida, enquanto forma concreta de pacificação: cuidar, acolher, defender, promover e acompanhar. Entre os dias 10 e 17 de maio, somos convidados a rezar com o tema “Bem-aventurados os que Protegem a Vida”.

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IAtos 8,5-8.14-17

Leitura dos Atos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Filipe desceu a uma cidade da Samaria
e começou a pregar o Messias àquela gente.
As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe,
ao ouvi las e ao ver os milagres que fazia.
De muitos possessos saíam espíritos impuros,
soltando enormes gritos,
e numerosos paralíticos e coxos foram curados.
E houve muita alegria naquela cidade.
Quando os Apóstolos que estavam em Jerusalém
ouviram dizer que a Samaria recebera a palavra de Deus,
enviaram lhes Pedro e João.
Quando chegaram lá, rezaram pelos samaritanos,
para que recebessem o Espírito Santo,
que ainda não tinha descido sobre eles.
Então impunham lhes as mãos
e eles recebiam o Espírito Santo.

CONTEXTO

            Durante os primeiros anos, o cristianismo praticamente não saiu de Jerusalém: os primeiros sete capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos apresentam-nos a Igreja de Jerusalém e o testemunho dado pelos primeiros cristãos no espaço restrito da cidade.

            Por volta do ano 35, no entanto, desencadeou-se uma perseguição contra os membros da comunidade cristã de Jerusalém. Pode supor-se, com grande probabilidade, que esta perseguição (desencadeada após a morte de Estêvão) não afetou de igual forma todos os membros da comunidade (os apóstolos continuam em Jerusalém), mas dirigiu-se, de forma especial, contra os judeo-helenistas do círculo de Estêvão (os cristãos “hebreus”, que mantêm uma fidelidade relativa à Lei e ao judaísmo, ficam – até nova ordem – ao abrigo da perseguição). Estes, contudo, não se conformaram com uma morte inútil: deixaram Jerusalém e espalharam-se pelas outras regiões da Palestina. Tratou-se de um facto providencial (porque não ver nele a ação do Espírito?), que permitiu a difusão do Evangelho pelas outras regiões palestinas.

            A primeira leitura deste domingo fala-nos de Filipe – um dos sete diáconos, do mesmo grupo do mártir Estêvão (cf. Act 6,1-7) – que, deixando Jerusalém foi anunciar o Evangelho aos habitantes da região central da Palestina, a Samaria.

            É curioso que a difusão do Evangelho fora de Jerusalém ocorra, precisamente, na Samaria. A Samaria era, para os judeus, uma terra praticamente pagã. Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista. O anúncio do Evangelho aos samaritanos mostra que a Igreja não tem fronteiras e anuncia o passo seguinte: a evangelização do mundo pagão. in Dehonianos

 

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão, considerar os seguintes dados:

  • Uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma fé. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma fé, que se manifesta a vida do Espírito. Cada crente precisa de desenvolver a consciência de que não é um caso isolado, independente, autónomo: afirmações como “eu cá tenho a minha fé” não fazem sentido, se traduzem a vontade de percorrer um caminho à margem da comunidade, sem aceitar confrontar-se com os irmãos… Cada comunidade precisa de desenvolver a consciência de que não é um grupo autónomo e sem ligações, mas uma parcela de uma Igreja universal, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma fé.
  • Constitui, para nós, um tremendo desafio a ação evangelizadora de Filipe… Apesar dos riscos corridos em Jerusalém, Filipe não desistiu, não sentiu que já tinha feito o possível, não se acomodou; mas simplesmente partiu para outras paragens a dar testemunho de Jesus. É o mesmo entusiasmo que nos anima, quando temos de dar testemunho do Evangelho de Jesus?
  • O nosso texto deixa claro, ainda, que “Deus escreve direito por linhas tortas”: de uma situação má (perseguição aos crentes), nasce a possibilidade de levar a Boa Nova da libertação a outras comunidades. Às vezes, Deus tem que usar métodos drásticos para nos obrigar a sair do nosso cantinho cómodo e levar-nos ao compromisso. Muitas vezes, os aparentes dramas da nossa vida fazem parte dos projetos de Deus. É necessário aprender a olhar para os acontecimentos da vida com os olhos da fé e aprender a confiar nesse Deus que, do mal, tira o bem. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 65 (66)

Refrão 1: A terra inteira aclame o Senhor.

Refrão 2: Aleluia.

Aclamai a Deus, terra inteira,
cantai a glória do seu nome,
celebrai os seus louvores,
dizei a Deus: «Maravilhosas são as vossas obras».

«A terra inteira Vos adore e celebre,
entoe hinos ao vosso nome».
Vinde contemplar as obras de Deus,
admirável na sua acção pelos homens.

Todos os que temeis a Deus, vinde e ouvi,
vou narrar vos quanto Ele fez por mim.
Bendito seja Deus que não rejeitou a minha prece,
nem me retirou a sua misericórdia.

 

 

 

LEITURA II – 1 Pedro 3,15-18

Leitura da Primeira Epístola de São Pedro

Caríssimos:
Venerai Cristo Senhor em vossos corações,
prontos sempre a responder, a quem quer que seja,
sobre a razão da vossa esperança.
Mas seja com brandura e respeito,
conservando uma boa consciência,
para que, naquilo mesmo em que fordes caluniados,
sejam confundidos os que dizem mal
do vosso bom procedimento em Cristo.
Mais vale padecer por fazer o bem,
se for essa a vontade de Deus,
do que por fazer o mal.
Na verdade, Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados
o Justo pelos injustos
para nos conduzir a Deus.
Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito.

CONTEXTO

            A primeira carta de Pedro tem-nos acompanhado nos últimos domingos… Por isso, já sabemos que se trata de um texto exortativo, enviado às comunidades cristãs estabelecidas em certas zonas rurais da Ásia Menor. Os cristãos que compõem essas comunidades pertencem maioritariamente às classes menos favorecidas. Apresentam, portanto, um quadro de fragilidade, que os torna bastante vulneráveis às perseguições que se aproximam.

            O objetivo do autor é animar esses cristãos e exortá-los à fidelidade aos compromissos que assumiram com Cristo, no dia do seu Batismo. Para isso, o autor lembra-lhes o exemplo de Cristo, que percorreu um caminho de cruz, antes de chegar à ressurreição. in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes pontos:

  • Mais uma vez (tem sido um tema que tem aparecido, volta não volta, na liturgia deste tempo pascal), põe-se-nos o problema do sentido de uma vida feita dom e entrega aos outros, até à morte (sobretudo se esses “outros” são os nossos perseguidores e detratores). É possível “dar o braço a torcer” e triunfar? O amor e o dom da vida não serão esquemas de fragilidade, que não conduzem senão ao fracasso? Esta história de o amor ser o caminho para a felicidade e para a vida plena não será uma desculpa dos fracos? Não – responde a Palavra de Deus que nos é proposta. Reparemos no exemplo de Cristo: Ele deu a vida pelos pecadores e pelos injustos e encontrou, no final do caminho, a ressurreição, a vida plena.
  • Diante das dificuldades, das propostas contrárias aos valores cristãos, é em Cristo – o Senhor da vida, do mundo e da história – que colocamos a nossa confiança e a nossa esperança? Ou é noutros esquemas mais materiais, mais imediatos, mais lógicos, do ponto de vista humano?
  • Diante dos ataques – às vezes incoerentes e irracionais – daqueles que não concordam com os valores de Jesus, como nos comportamos? Com a mesma agressividade com que nos tratam? Com a mesma intolerância dos nossos adversários? Tratando-os com a lógica do “olho por olho, dente por dente”? Como é que Jesus tratou aqueles que o condenaram e mataram? in Dehonianos

EVANGELHO – João 14,15-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos.
E Eu pedirei ao Pai, que vos dará outro Defensor,
para estar sempre convosco:
o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê nem O conhece,
mas que vós conheceis,
porque habita convosco e está em vós.
Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós.
Daqui a pouco o mundo já não Me verá,
mas vós ver Me eis, porque Eu vivo e vós vivereis.
Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai
e que vós estais em Mim e Eu em vós.
Se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre,
esse realmente Me ama.
E quem Me ama será amado por meu Pai
e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

CONTEXTO

            Continuamos no mesmo contexto em que nos colocava o Evangelho do passado domingo. A decisão de matar Jesus já está tomada pelas autoridades judaicas e Jesus sabe-o. A morte na cruz é mais do que uma probabilidade: é o cenário imediato.

            Nessa noite de quinta-feira do ano trinta, na véspera da sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os seus discípulos numa “ceia”. No decurso da “ceia”, Jesus despediu-Se dos discípulos e fez-lhes as últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala-lhes, então, do caminho que percorreu (e que ainda tem de percorrer, até à consumação da sua missão e até chegar ao Pai); e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de Deus” (cf. Jo 14,1-12).

            Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doar, dia a dia, a própria vida? in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão e atualização da Palavra podem fazer-se a partir dos seguintes desenvolvimentos:

  • A paixão de Jesus continua a acontecer, todos os dias, na vida de cada um de nós e na vida de tantos irmãos nossos. Sentimo-nos impotentes face à guerra e ao terrorismo; não conseguimos prever e evitar as catástrofes naturais; sofremos por causa da injustiça e da opressão; vemos o mundo construir-se de acordo com critérios de egoísmo e de materialismo; não podemos evitar a doença e a morte… Acreditamos no “Reino de Deus”, mas ele parece nunca mais chegar, e caminhamos, desanimados e frustrados, para um futuro que não sabemos aonde conduzirá a humanidade. No entanto, nós os crentes temos razões para ter esperança: Jesus garantiu-nos que não nos deixaria órfãos e que estaria sempre a nosso lado. Na minha leitura do mundo e da história, o que é que prevalece: o pessimismo de quem se sente só e perdido no meio de forças de morte, ou a esperança de quem está seguro de que Jesus ressuscitado continua presente, a acompanhar a caminhada da sua comunidade pela história?
  • O “caminho” que Jesus propõe aos seus discípulos (o “caminho” do amor, do serviço, do dom da vida) parece, à luz dos critérios com que a maior parte dos homens do nosso tempo avaliam estas coisas, um caminho de fracasso, que não conduz nem à riqueza, nem ao poder, nem ao êxito social, nem ao bem estar material – afinal, tudo o que parece dar verdadeiro sabor à vida dos homens do nosso tempo. No entanto, Jesus garantiu-nos que era no caminho do amor e da entrega que encontraríamos a vida nova e definitiva. Na minha leitura da vida e dos seus valores, o que é que prevalece: o pessimismo de alguém que se sente fraco, indefeso, humilde e que vai passar ao lado das grandes experiências que fazem felizes os grandes do mundo, ou a esperança de alguém que se identifica com Jesus e sabe que é nesse “caminho” de amor e de dom da vida que se encontra a felicidade plena e a vida definitiva?
  • Jesus garantiu aos seus discípulos o envio de um “defensor”, de um “consolador”, que havia de animar a comunidade cristã e conduzi-la ao longo da sua marcha pela história. Nós acreditámos, portanto, que o Espírito está presente, animando-nos, conduzindo-nos, criando vida nova, dando esperança aos crentes em caminhada. Quais são as manifestações do Espírito que eu vejo na vida das pessoas, nos acontecimentos da história, na vida da Igreja?
  • A comunidade cristã, identificada com Jesus e com o Pai, animada pelo Espírito, é o “templo de Deus”, o lugar onde Deus habita no meio dos homens. Através dela, o Deus libertador continua a concretizar o seu projecto de salvação. A Igreja é, hoje, o lugar onde os homens encontram Deus? Ela dá testemunho (em gestos de amor, de serviço, de humanidade, de liberdade, de compreensão, de perdão, de tolerância, de solidariedade para com os pobres) do Deus que quer oferecer aos homens a salvação? O que é que nos falta – a nós, “família de Deus” – para sermos verdadeiros sinais de Deus no meio dos homens? in Dehonianos.

 

Para os leitores:

            A aparente facilidade na proclamação da primeira leitura não deve descurar a sua preparação com uma especial atenção ao seu tom narrativo e descritivo, bem como às pausas e respirações. Pede-se ainda especial cuidado na proclamação do verbo «pregar» que se deve ler «prégar».

            Na segunda leitura, deve ter-se em atenção o carácter exortativo do texto e, por isso, deve ter-se um especial cuidado nas formas verbais no imperativo.

 

ANEXOS:

Domingo V do Tempo Pascal – Ano A – 03.05.2026

Dia da Mãe

Viver a Palavra

A missão de anunciar o Evangelho e de o fazer presente no tempo e na história é tarefa permanente e primeira da Igreja e nunca deve ser descurada. Contudo, é urgente em cada tempo um acurado e aturado discernimento para que saibamos responder às exigências da pregação evangélica. Fixando o nosso olhar na comunidade nascente e de modo concreto na primeira leitura proposta para este Domingo, verificamos como o anúncio do evangelho não pode ignorar as reais necessidades dos homens e mulheres do nosso tempo.

            Continuadora da obra redentora de Cristo no mundo, a Igreja tem a missão de proclamar o Evangelho que é o próprio Jesus Cristo. Contudo, deve fazê-lo num permanente exercício de kairologia, isto é, numa atenta leitura dos sinais dos tempos, que nos permite projetar uma ação pastoral como verdadeira resposta ao chamamento do Senhor para colaborar na Sua obra. A perene novidade que deve revestir a ação eclesial não decorre apenas da mutabilidade do tempo e das transformações da realidade humana, mas também da perene novidade de que se reveste o Evangelho que deve incarnar a história humana em cada tempo e em cada lugar. É esta relação dialética e assimétrica entre a Palavra revelada e a realidade que somos chamados a responder que deve presidir à ação evangelizadora da Igreja para que sejamos efetivamente «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável».

            Assim encontramos a comunidade nascente apresentada pela narrativa dos Atos dos Apóstolos. Os Doze convocam a assembleia dos discípulos, renovam a certeza da primazia do anúncio da Palavra de Deus que não deve descurado, mas reforçam também a necessidade de responder às necessidades concretas dos mais pobres e, para isso, escolhem «sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiar esse cargo». Reside aqui a verdadeira criatividade da Igreja que não é excentricidade, mas fidelidade criativa ao Espírito Santo, discernindo comunitariamente o que o Senhor nos pede aqui e agora.

            É certo que como Tomé perguntamos muitas vezes: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Mas esta deve ser precisamente a primeira pergunta. Invocar o Senhor para saber para onde Ele nos chama, descobrir aquilo que Ele nos pede e simultaneamente ter a ousadia do discernimento pessoal e comunitário, eclesial e articulado que nos permite responder com criatividade e autenticidade à missão evangelizadora da Igreja. Se esta missão é urgente e necessária em cada tempo, tanto mais no tempo que vivemos. Este tempo reclama o exercício de um discernimento pastoral e evangélico que nos permita sinodalmente rasgar caminhos novos de evangelização para que saibam habitar o horizonte antropológico do nosso tempo.

            Esta é uma tarefa urgente e necessária, mas concomitantemente árdua e exigente que não nos atemoriza, pois recordaremos sempre as palavras de Jesus: «não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. (…) Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim». Com Jesus e como Jesus, escutando a Sua Palavra, contemplando os seus gestos de amor e misericórdia e iluminados pela força do Espírito Santo, seremos capazes de anunciar a permanente novidade do Evangelho nos tempos sempre novos que vivemos. in Voz Portucalense.

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            O mês de maio é tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora e as comunidades cristãs reúnem-se para levar a cabo as mais variadas práticas de piedade popular marianas, sobretudo a recitação comunitária do terço e as procissões de velas. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco falava da «força evangelizadora da piedade popular». Através das diversas iniciativas e atividades, é importante ajudar os fiéis a redescobrir a beleza e a centralidade da fé, em Jesus Cristo, e a necessidade de uma vida consentânea com a fé professada e celebrada. Neste primeiro Domingo de Maio, assinala-se, também, o Dia da Mãe. Na Eucaristia deste Domingo pode dirigir-se uma palavra especial a todas as mães, acompanhada de algum gesto que assinale este dia. Pode dirigir-se uma bênção especial às mães presentes na celebração, bem como um envolvimento da catequese e da pastoral familiar para que este dia seja valorizado como lugar de ação de graças pelo dom da maternidade. in Voz Portucalense

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IAtos dos Apóstolos 6,1-7

Naqueles dias,
aumentando o número dos discípulos,
os helenistas começaram a murmurar contra os hebreus,
porque no serviço diário não se fazia caso das suas viúvas.
Então os Doze convocaram a assembleia dos discípulos
e disseram:
«Não convém que deixemos de pregar a palavra de Deus
para servirmos às mesas.
Escolhei entre vós, irmãos,
sete homens de boa reputação,
cheios do Espírito Santo e de sabedoria
para lhes confiarmos esse cargo.
Quanto a nós, vamos dedicar-nos totalmente
à oração e ao ministério da palavra».
A proposta agradou a toda a assembleia;
e escolheram Estêvão,
homem cheio de fé e do Espírito Santo,
Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão,
Parmenas e Nicolau, prosélito de Antioquia.
Apresentaram-nos aos Apóstolos
e estes oraram e impuseram as mãos sobre eles.
A palavra de Deus ia-se divulgando cada vez mais;
o número dos discípulos
aumentava consideravelmente em Jerusalém
e submetia-se à fé também grande número de sacerdotes.

 

CONTEXTO

            O episódio dos Atos dos Apóstolos narrado pela primeira leitura deste domingo integra a primeira parte do livro (cf. At 1,12-6,7). Propõe-nos mais um quadro sobre a vida e o testemunho da primitiva comunidade cristã de Jerusalém.

            Os cristãos de Jerusalém viviam com entusiasmo o seu compromisso com Jesus e davam um belo testemunho da fé que os animava (cf. At 2,42-47); mas não eram perfeitos: aqui e ali vinham ao de cima problemas e tensões inerentes à convivência de pessoas com ideias e experiências de vida nem sempre coincidentes. O texto refere-se, concretamente, a um clima de tensão entre dois grupos: os “judeus” e os “helenistas”. Quem são estes grupos e o que é que os dividia?

            Trata-se, sempre, de membros da comunidade cristã de Jerusalém. Os “judeus” são cristãos de origem judaica, originários da Palestina, que falam o aramaico, que leem a Escritura em hebraico e que teriam sido convertidos pela pregação de Jesus e dos apóstolos. Continuam, no entanto, muito apegados às suas tradições e têm um alto apreço pela Lei de Moisés e pelas interpretações dos rabis.

            Os “helenistas” são cristãos de origem judaica, também, mas originários da “diáspora” israelita – isto é, das comunidades judaicas espalhadas por todo o império romano e até por fora dele. Falam o grego e leem as Escrituras em grego. Residem em Jerusalém temporariamente. O seu contacto com outras realidades culturais torna-os, ordinariamente, mais tolerantes e abertos à novidade.

            Com dois grupos tão diversos – do ponto de vista cultural, religioso e social – a conviver dentro da mesma comunidade, era natural que, mais tarde ou mais cedo, surgissem tensões e conflitos. Aparentemente, aquilo que provoca a questão evocada no nosso texto é um problema de ordem material: na distribuição dos alimentos aos membros necessitados da comunidade, as viúvas helenistas sentiam-se prejudicadas. O facto provocou queixas, levando à intervenção dos líderes da comunidade.in Dehonianos

 

INTERPELAÇÕES

  • Dois mil anos depois de ter nascido e de se ter imposto ao mundo, a Igreja de Jesus continua a ser um autêntico “sinal de contradição”: suscita paixões e ódios, simpatias e antipatias, aprovações e condenações, respeitos e censuras, confianças e desconfianças, fé e descrença… Uns defendem-na intransigentemente, justificando até as falhas mais injustificáveis; outros atacam-na cegamente, culpando-a de todos os males do mundo. Para uns e para outros, o episódio dos Atos dos Apóstolos narrado na primeira leitura deste domingo garante: a Igreja é uma comunidade que vem de Jesus e é animada pelo Espírito, mas formada por homens falíveis e imperfeitos; a Igreja é a testemunha no mundo do plano de salvação de Deus, mas é também (dada a sua faceta humana) uma realidade “a fazer-se”, em contínuo processo de conversão. Os homens do nosso tempo devem exigir que a Igreja seja fiel à sua missão no mundo; mas devem também compreender as suas falhas, dificuldades e infidelidades. E nós, como nos posicionamos face à Igreja? Compreendemos a sua realidade, ao mesmo tempo de santidade e de pecado?
  • A “fotografia” que o autor dos Atos dos Apóstolos hoje nos mostra da primitiva Igreja de Jerusalém, revela uma comunidade em que as estruturas de coordenação da vida comunitária não estão ainda completamente definidas e organizadas. No entanto, há já um grupo investido do serviço da autoridade (os “Doze”); e a comunidade confia aos membros desse grupo o encargo de resolver as tensões e conflitos que podem colocar em causa o equilíbrio e a harmonia comunitários. Reparemos, além disso, na forma como os “Doze” assumem o serviço da autoridade: eles não parecem interessados em serem os “senhores absolutos” do projeto comunitário, ou em impor aos outros as suas ideias, preconceitos ou visões pessoais. Na “crise” descrita neste episódio, os “Doze” convocam a comunidade, convidam-na a escolher as pessoas a quem devem ser confiados certos serviços, envolvem-na na busca do caminho comunitário. Infelizmente, ao longo dos séculos esquecemos, muitas vezes, este dinamismo de comunhão e participação: a Igreja nascida de Jesus estruturou-se frequentemente como uma sociedade de desiguais, em estilo piramidal, onde uns eram chamados a mandar e outros convidados a obedecer em silêncio. É preciso redescobrir o valor do diálogo e da participação, na Igreja. Não se trata de discutir se a Igreja deve ou não funcionar segundo os mecanismos de uma sociedade democrática; trata-se de termos consciência de que somos uma família onde todos devem ter voz, porque em todos habita o mesmo Espírito; trata-se de potenciar mecanismos de escuta, de diálogo e de participação, a fim de que todos os membros da família eclesial se envolvam na definição e na construção do projeto comum. O que achamos disto? No que nos diz respeito, estamos disponíveis para nos envolvermos numa procura sincera dos caminhos que o Espírito inspira a Igreja a percorrer?
  • A instituição dos sete diáconos da Igreja de Jerusalém para o “serviço das mesas” (isto é, para o “serviço da caridade”) lembra-nos que a Igreja não é uma mera comunidade de consumidores de bens espirituais, mas sim uma “comunidade de servidores”: os membros da comunidade cristã são convidados a seguir Jesus, que fez da sua vida uma entrega total ao serviço de Deus, ao serviço do Reino e ao serviço dos homens. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens, não “para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos”, é a referência para todos aqueles que integram a comunidade cristã. O nosso compromisso cristão, vivido em comunidade, inclui o serviço à comunidade, a partilha com a comunidade dos dons que Deus colocou à nossa disposição? O nosso compromisso cristão inclui o serviço simples e humilde, ao estilo de Jesus, em favor dos irmãos que caminham ao nosso lado, especialmente dos mais pobres, dos mais débeis, dos mais necessitados? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)

Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

Refrão 2: Venha sobre nós a vossa bondade, porque em Vós esperamos, Senhor.

 

Justos, aclamai o Senhor,
os corações retos devem louvá-l’O.
Louvai o Senhor com a cítara,
cantai Lhe salmos ao som da harpa.

A palavra do Senhor é reta,
da fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

 

LEITURA II – Primeira Carta de Pedro 2,4-9

Caríssimos:
Aproximai vos do Senhor, que é a pedra viva,
rejeitada pelos homens,
mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus.
E vós mesmos, como pedras vivas,
entrai na construção deste templo espiritual,
para constituirdes um sacerdócio santo,
destinado a oferecer sacrifícios espirituais,
agradáveis a Deus por Jesus Cristo.
Por isso se lê na Escritura:
«Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa;
e quem nela puser a sua confiança não será confundido».
Honra, portanto, a vós que acreditais.
Para os incrédulos, porém,
«a pedra que os construtores rejeitaram
tornou se pedra angular»,
«pedra de tropeço e pedra de escândalo».
Tropeçaram por não acreditarem na palavra,
à qual foram destinados.
Vós, porém, sois «geração eleita, sacerdócio real,
nação santa, povo adquirido por Deus,
para anunciar os louvores»
d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável.

 

CONTEXTO

            A primeira Carta de Pedro é endereçada aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). Não sabemos exatamente quem é o seu autor. É verdade que ele, logo no início da carta, se apresenta com o nome do apóstolo Pedro; contudo, a análise literária e teológica da carta não confirma essa indicação. Em termos literários, a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria a maneira de escrever de um pescador pouco instruído, como era o caso de Pedro; em termos teológicos, a “catequese” apresentada parece situar-nos numa época bem posterior à de Pedro, quando a reflexão cristã já tinha conhecido uma significativa evolução. A tudo isto devemos acrescentar um outro dado significativo: o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação das comunidades cristãs nos últimos anos do século primeiro. Ora, se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anónimo culto e que conhece profundamente a difícil situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.

            Os destinatários desta carta parecem ser comunidades cristãs das zonas rurais da Ásia Menor. A maioria dos membros dessas comunidades são camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente que economicamente débil e vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.

            O autor da carta exorta esses cristãos a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.

            O texto que nos é proposto faz parte de uma secção parenético-doutrinal (cf. 1Pe 2,1-10), que tem como finalidade exortar os cristãos a crescer na fé, de forma a chegarem à salvação. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • No final do séc. I o autor da primeira Carta de Pedro referia-se a Cristo como a “pedra angular” do projeto salvador de Deus. Hoje, dois mil anos depois, os cristãos são cerca de trinta por cento dos habitantes do mundo; apesar disso, nem sempre se nota a presença efetiva de Cristo nesses caminhos em que se constrói a história do mundo e dos homens. O verniz cristão de que revestimos a nossa civilização ocidental não tem impedido a corrida aos armamentos, os genocídios, os atos bárbaros de terrorismo, as guerras religiosas, o tráfico de pessoas, o desrespeito pelos mais elementares direitos humanos, as injustiças gritantes contra os mais fracos, a indiferença para com os mais necessitados, a apropriação por alguns dos recursos que pertencem a todos, a exploração abusiva da natureza… Os critérios que presidem à construção do mundo estão, demasiadas vezes, longe dos valores do Evangelho de Jesus. Porque é que isto acontece? Podemos efetivamente dizer que Cristo é, para os cristãos, a referência fundamental? Nós cristãos fizemos d’Ele, efetivamente, a “pedra angular” sobre a qual construímos a nossa vida e a história do nosso tempo?
  • O autor da primeira Carta de Pedro refere-se aos cristãos como “pedras vivas” de um “templo espiritual” do qual Cristo é a “pedra angular”. A imagem traduz a realidade de uma comunidade de crentes que se reúne à volta de Cristo, que recebe d’Ele vida, que caminha com Ele, que vive em comunhão com Ele, que assume totalmente o projeto que Ele veio propor aos homens, que é chamada a dar testemunho de Cristo no mundo. A esta comunidade chamamos “Igreja”. Nós que um dia nos encontrámos com Cristo e que acolhemos o seu chamamento, sentimo-nos parte desse “edifício espiritual”? Procuramos, todos os dias, limar as arestas que nos impedem de aderir plenamente a Cristo e de construir a nossa vida a partir d’Ele e em referência a Ele? Procuramos, todos os dias, revitalizar o “cimento” que nos une às outras pedras do edifício – os irmãos que partilham a mesma fé e o mesmo caminho?
  • As “pedras vivas” do Templo do Senhor formam um Povo de sacerdotes, cuja missão é “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo”. Podemos dizer isto de uma forma mais simples: aqueles que aceitam integrar a comunidade da salvação são chamados a viver de forma coerente com os compromissos que assumiram no dia em que foram batizados; compete-lhes cumprir o projeto de Deus e testemunhar no meio dos seus irmãos a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. Quais são os “sacrifícios espirituais” que oferecemos a Deus? Limitamo-nos a entregar-lhe uma “ração diária” de orações mil vezes repetidas e de rituais religiosos que a tradição impõe? Ou oferecemos a Deus, a cada momento do nosso dia, uma vida digna, verdadeira, coerente, comprometida, cheia de gestos de amor, de bondade e de misericórdia?
  • O “mestre” cristão que redigiu a primeira Carta de Pedro promete que “quem puser a sua confiança” no Senhor Jesus “não será confundido”. É um convite a que os discípulos de Jesus não se deixem abater pelo desânimo ou pelo medo que resultam da incompreensão e da perseguição. Aliás, eles devem ter sempre diante dos olhos o exemplo de Cristo: Ele foi rejeitado pelos homens, mas a sua fidelidade aos projetos do Pai fez d’Ele a “pedra angular” da construção de Deus. Como lidamos com a oposição e a contestação daqueles que se recusam a acolher o projeto de Jesus? Estamos convencidos de que a verdade de Deus não pode ser calada? in Dehonianos

EVANGELHO – João 14,1-12

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Não se perturbe o vosso coração.
Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim.
Em casa de meu Pai há muitas moradas;
se assim não fosse, Eu vo-lo teria dito.
Vou preparar vos um lugar
e virei novamente para vos levar comigo,
para que, onde Eu estou, estejais vós também.
Para onde Eu vou, conheceis o caminho».
Disse Lhe Tomé:
«Senhor, não sabemos para onde vais:
como podemos conhecer o caminho?»
Respondeu lhe Jesus:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao Pai senão por Mim.
Se Me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai.
Mas desde agora já O conheceis e já O vistes».
Disse Lhe Filipe:
«Senhor, mostra nos o Pai e isto nos basta».
Respondeu lhe Jesus:
«Há tanto tempo que estou convosco
e não Me conheces, Filipe?
Quem Me vê, vê o Pai.
Como podes tu dizer: ‘Mostra nos o Pai’?
Não acreditas que Eu estou no Pai e o Pai está em Mim?
As palavras que Eu vos digo, não as digo por Mim próprio;
mas é o Pai, permanecendo em Mim, que faz as obras.
Acreditai Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim;
acreditai ao menos pelas minhas obras.
Em verdade, em verdade vos digo:
quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço
e fará ainda maiores que estas,
porque Eu vou para o Pai».

 

CONTEXTO

            Pouco depois de ter entrado em Jerusalém, montado num jumentinho e aclamado por uma multidão (cf. Jo 11,12-19), Jesus entendeu que tinha chegado a “hora”, o momento de entregar a sua vida “até ao extremo” para que o projeto do Pai se concretizasse (cf. Jo 12,20-36). A paixão, morte e glorificação estavam no horizonte próximo de Jesus de Nazaré.

            Consciente, portanto, de que o seu tempo estava a esgotar-se, Jesus propôs-se celebrar uma ceia de despedida com os seus discípulos. Essa ceia realizou-se numa noite de quinta-feira, véspera da Páscoa judaica, numa sala emprestada por um amigo, na cidade de Jerusalém. Jesus viria a ser preso nessa mesma noite num horto situado no vale do Cédron, junto do monte das Oliveiras. Levado pela polícia do templo para casa do sumo-sacerdote, aí foi julgado, condenado e torturado. Na manhã do dia seguinte foi conduzido diante do Pôncio Pilatos, o governador romano, o qual confirmou a sentença de morte a que os líderes judaicos tinham determinado. Morreu na tarde de sexta-feira, pregado numa cruz, na colina do Gólgota, fora das muralhas de Jerusalém.
Aquela inolvidável ceia de despedida celebrada na quinta-feira é dominada por este cenário. Enquanto comiam e conversavam, pairavam na mente e no coração de todos os convivas algumas questões verdadeiramente decisivas: que seria do projeto do Reino de Deus sem Jesus? Que deveriam fazer e como deveriam viver aqueles discípulos, deixados “órfãos” pela “partida” do seu “Mestre”? Onde haveriam eles de alimentar, futuramente, a sua esperança na vinda do reino de Deus? Como poderiam os discípulos manterem-se em comunhão com Jesus?

            Durante a ceia, Jesus falou longamente com os discípulos e referiu-se às questões que os inquietavam. Acalmou-lhes os medos e transmitiu-lhes paz; lembrou-lhes, com gestos e palavras, os valores do reino de Deus; recordou-lhes o essencial do que lhes tinha dito e ensinado enquanto percorria com eles os caminhos da Galileia e da Judeia; prometeu-lhes que lhes enviaria o Espírito Santo e garantiu-lhes a sua presença e a sua assistência em todos os passos do caminho que iam percorrer; alertou-os para as dificuldades que iam encontrar, mas assegurou-lhes a vitória sobre as forças da morte…

            Tudo o que foi dito e vivido nessa noite soou a testamento final e deixou uma impressão profunda nos discípulos que participaram na ceia. As palavras de Jesus que o Evangelho do quinto domingo do tempo pascal nos oferece integram o “testamento de Jesus” e devem ser colocadas e entendidas neste cenário. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Todos nós ansiamos pela vida em plenitude; todos nós corremos atrás da felicidade verdadeira; todos nós andamos a tentar construir uma vida que faça sentido… Como chegar lá? Que caminho devemos percorrer para chegar à plena realização? Haverá um “mapa” que nos diga por onde ir e evite que andemos às voltas, a malbaratar a vida por atalhos que não levam a lado nenhum? Jesus, quando se despede dos discípulos e lhes deixa o seu “testamento”, oferece-lhes uma indicação clara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”. É evidente que Ele não está a falar de um “caminho” físico, feito de terra, de pedras ou de alcatrão, mas está a falar de uma maneira de viver, de valores sobre os quais assentar a existência, de verdades que não são destruídas pela passagem do tempo ou pela ditadura das modas. Segundo Jesus, é por esse “caminho” que chegaremos à comunhão com Deus, que encontraremos a “casa do Pai”, que alcançaremos a vida verdadeira e eterna. Estamos disponíveis para seguir o “caminho” que Jesus nos mostra com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor? Dispomo-nos a sonhar os sonhos que Ele sonhou, a abraçar os projetos que Ele abraçou, a defender as causas que Ele defendeu?
  • Aqueles e aquelas que se identificam com Jesus, que aceitam comprometer-se com Ele, que percorrem o caminho que Ele indica, passam a integrar a família de Deus – uma família animada pelo Espírito, que dá testemunho de Jesus e que, como Jesus, vive na obediência a Deus e no amor aos irmãos. No dia do nosso batismo, fomos integrados nesta família: passamos a fazer parte da Igreja de Jesus, da comunidade do Reino de Deus. Sentimos que a Igreja nascida de Jesus é, enquanto peregrinamos na terra, a nossa casa? Sentimo-nos plenamente integrados na família eclesial? Participamos na vida da comunidade e, no “Dia do Senhor”, reunimo-nos em comunidade à volta da mesa eucarística? Pomos ao serviço da comunidade, com espírito de serviço, os dons que Deus nos concedeu? Quando a comunidade falha e nos dececiona, afastamo-nos, ou esforçamo-nos para que ela viva de forma mais coerente e verdadeira?
  • Jesus, no “testamento” que deixou aos discípulos, lembrou-lhes que contava com eles para fazer as mesmas obras que Ele fazia. “Fazer as obras” de Jesus é, através de gestos concretos, levar a salvação de Deus aos pobres, aos pequenos, aos humildes, aos desprezados, aos doentes, aos prisioneiros, aos sem voz e sem vez, aos condenados pela sociedade e pelas Igrejas, às vítimas de todas as injustiças, aos que caminham sem rumo, aos que vivem sem esperança; “fazer as obras” de Jesus é mostrar ao mundo, através de gestos concretos, o caminho que Jesus percorreu e, assim, oferecer a todos os homens e mulheres a possibilidade de irem ao encontro de Deus e de integrarem a família de Deus. E nós, fazemos as obras de Jesus?
  • Na noite em que se despediu dos discípulos, Jesus quis animá-los e confortá-los: “não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim”. “Acreditar em Jesus” é confiar que Ele estará sempre presente, atento aos seus, acompanhando-os em cada passo, ajudando-os a superar as crises e os obstáculos, apontando-lhes o caminho que conduz à vida verdadeira. Todos nós já experimentamos como este mundo pode ser um lugar assustador e como a nossa caminhada pela terra está marcada por um sem número de dificuldades e de incertezas; todos nós já experimentamos a injustiça, a rejeição, a condenação, a incompreensão, a perseguição, a maldade daqueles que se sentem incomodados com o nosso testemunho… Mas, para além disso, não sentimos que Jesus vai ao nosso lado e que nos dá a força para enfrentar tudo? Não sentimos que, sejam quais forem as vicissitudes com que tivermos de lidar, o nosso irmão Jesus estará à nossa espera, no final do caminho, para nos acolher na morada eterna que nos preparou? in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura exige uma acurada preparação sobretudo pelo conjunto de palavras de difícil pronunciação que não fazem parte do nosso vocabulário corrente. No verbo «pregar», pronunciar «prégar» porque se trata da evangelização e do anúncio e proclamação solene da Boa Nova e não do ato de fixar um prego. Além disso, deve ter-se em atenção os nomes dos sete homens escolhidos e a designação atribuída a Nicolau de «prosélito».

            A segunda leitura está marcada por um forte tom exortativo sublinhado pelo conjunto de verbos na forma imperativa. A leitura deste texto deve ter em atenção esta particularidade para uma mais eficaz proclamação do texto.

 

ANEXOS:

Domingo IV do Tempo Pascal – Ano A – 26.04.2026

Domingo do Bom Pastor

Jesus continuou: «Em verdade, em verdade vos digo:
Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram.
Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo:

Viver a Palavra

No quarto ano de catequese, quando os catequizandos abordam as Cartas de S. Paulo são convidados a escrever uma carta ao pároco onde lhe agradecem o seu serviço à comunidade e onde lhe fazem algumas perguntas. Apesar da minuta que o guia do catequista propõe para a resposta do pároco, sempre fiz questão de responder a cada um de acordo com o seu texto e com as perguntas que me dirigia. Não consigo esquecer as muitas cartas que li e respondi, mas hoje recordo particularmente uma delas em que um dos miúdos me agradecia porque sempre que se encontrava comigo, eu o chamava pelo seu nome. Para o pequeno Tiago chamá-lo pelo nome manifestava a proximidade, a atenção e o carinho que tinha por ele. Ele não era mais um numa massa indistinta a quem o padre era chamado a servir, mas alguém que era conhecido pelo seu próprio nome, reconhecido na sua individualidade e irrepetibilidade. Ao ler esta carta era inevitável não recordar as palavras de Jesus em que se apresenta como Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e chama cada uma pelo seu nome. Como recorda o biblista Raymond Brown no seu comentário ao Evangelho de João, os rebanhos que pastavam nas montanhas da Judeia pertenciam a diversos proprietários e, assim, cada pastor fazia-se reconhecer junto das suas ovelhas através da sua voz e pelo nome com que as chamava.

            A imagem do pastor apresentada por Jesus fazia parte do quotidiano daqueles que o escutavam e esta figura bucólica do pastor descrevia o modo solícito, disponível e total que caracteriza a arte de cuidar. Não se pode ser pastor de segunda a sexta, com folgas e feriados. Ser pastor implica uma disponibilidade e atenção constantes, uma ternura e desvelo que cuida, ama, conhece, nutre e protege.

            É muito curioso que apesar de Jesus sublinhar esta atenção e cuidado em chamar cada ovelha pelo seu nome, os evangelhos falam sempre de rebanhos e não de ovelhas isoladas. Quando se fala de uma ovelha sozinha ou separada é para descrever uma situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida que se afastou do rebanho, que deixou de seguir o pastor e ouvir a sua voz.

            Fixando o nosso olhar em Jesus, Bom, Belo e Perfeito Pastor, somos chamados a reconhecer o cuidado e o desvelo com que o Senhor cuida de nós. Como cantávamos no Salmo: «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma». Somos amados e agraciados pelo Deus do amor e da misericórdia que em Jesus Cristo se entrega todo e até ao fim para salvar o Seu rebanho da morte e do pecado.

            «Eu sou a porta das ovelhas». Jesus é a «Porta» pela qual entramos em comunhão com o Pai e descobrimos um novo horizonte de sentido para as nossas vidas. Não é uma porta para o isolamento e fechamento, mas uma «Porta» que nos faz verdadeiramente livres e nos aponta a plenitude para a qual somos chamados. Deste modo, Jesus é a «Porta» de ingresso por onde entramos para saborear a bondade e a ternura do Pai e a «Porta» de saída de onde partimos ao encontro dos irmãos como testemunhas da alegria do serviço por amor que transforma a vida e o mundo num lugar mais belo e mais feliz.

            Salvos e redimidos pelo amor misericordioso do Bom Pastor, como a multidão que na manhã de Pentecostes escutava a Boa Nova da Ressurreição, também nós perguntamos: «Que havemos de fazer, irmãos?». Na verdade, temos consciência que a vida cristã não é apenas uma doutrina a saber ou uma moral a cumprir, mas um amor a acolher como dom e a concretizar em obras de ternura e misericórdia que fazem presente o acontecer de Deus no mundo, no fazer das nossas mãos generosas e operantes que se abrem à conversão e à vida nova. in Voz Portucalense.

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            O IV Domingo do Tempo da Páscoa é tradicionalmente designado como Domingo do Bom Pastor e nele celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Assinalando o Domingo do Bom Pastor recordamos aqueles que seguindo Jesus, Bom e Belo Pastor, pelo dom do ministério sacerdotal, exercem o seu ministério em favor do Povo de Deus. Agradecendo, também, o dom de tantas vidas que se fazem pão partido e repartido em favor dos irmãos, rezamos para que o Senhor conceda à Igreja o dom de homens e mulheres comprometidos com a sua vocação, na variedade de serviços e ministérios para os quais o Senhor os chama.

            O tema deste ano para esta semana é «Eu estou contigo (Is 41,10)» e os materiais já estão disponíveis no site (www.euestoucontigo.pt). Deixamos em anexo a Mensagem do Papa Leão XIV para este dia.

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA IAtos dos Apóstolos 2,14a.36-41

No dia de Pentecostes,
Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
ergueu a voz e falou ao povo:
«Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel
que Deus fez Senhor e Messias
esse Jesus que vós crucificastes».
Ouvindo isto, sentiram todos o coração trespassado
e perguntaram a Pedro e aos outros Apóstolos:
«Que havemos de fazer, irmãos?»
Pedro respondeu lhes:
«Convertei vos e peça cada um de vós o Batismo
em nome de Jesus Cristo,
para vos serem perdoados os pecados.
Recebereis então o dom do Espírito Santo,
porque a promessa desse dom é para vós,
para os vossos filhos e para quantos, de longe,
ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus».
E com muitas outras palavras os persuadia e exortava,
dizendo: «Salvai-vos desta geração perversa».
Os que aceitaram as palavras de Pedro
receberam o Batismo,
e naquele dia juntaram se aos discípulos
cerca de três mil pessoas.

 

CONTEXTO

            De acordo com o autor do Quarto Evangelho, Jesus teria prometido repetidamente aos discípulos, naquela inolvidável ceia de despedida que antecedeu a sua prisão, condenação à morte e execução, que ia enviar-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 14,15,17; 14,25-26; 15,26-27; 16,5-11; 16,12-15). E Lucas põe Jesus ressuscitado, quando se despede dos discípulos, antes de ir ao encontro do Pai, a dizer-lhes: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Para o autor doa Atos dos Apóstolos, essa promessa de Jesus cumpre-se precisamente na manhã do dia de Pentecostes.

            A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas-vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.

            Ora, no dia em que os judeus celebravam a festa judaica do Pentecostes, os discípulos de Jesus “encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar” quando, “viram aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,1.3-4). Depois, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.
O texto que a liturgia do quarto domingo pascal nos propõe como primeira leitura apresenta-nos a última frase do discurso de Pedro e, logo de seguida, a reação da multidão a esse discurso. in Dehonianos

 

INTERPELAÇÕES

  • As palavras de Pedro no dia de Pentecostes recordam aos habitantes de Jerusalém algo que a catequese de Israel conhecia perfeitamente: a vontade salvífica de Deus, mil vezes manifestada na história. É nesse enquadramento que Pedro lê a própria presença de Jesus no meio dos homens: Deus enviou-O ao mundo como “Senhor e Messias”, para apresentar aos homens, em discurso direto, o plano salvador do Pai. Apesar de tudo nós, seres humanos, nunca facilitamos a ação de Deus: ignorámo-l’O, desafiámo-l’O, enveredámos por caminhos de egoísmo e de autossuficiência, chegámos até a tentar silenciar Jesus dando-lhe uma morte abominável; mas Deus nunca abandonou o seu projeto de salvação e continuou sempre a apontar-nos os caminhos que conduzem à vida verdadeira. Este Deus, maravilhosamente “teimoso”, é verdadeiramente o Pastor bom que cuida de nós e que nos conduz para as nascentes de água-viva. Como nos posicionamos diante da iniciativa de Deus? Estamos disponíveis para abraçar a sua oferta de salvação?
  • Perante a interpelação que Deus faz, por intermédio de Pedro e dos outros apóstolos, os habitantes de Jerusalém perguntam: “que havemos de fazer, irmãos?” É a atitude de quem toma, bruscamente, consciência dos caminhos errados que tem trilhado, percebe o sem sentido de certas opções, comportamentos e valores, aceita questionar as certezas e seguranças em que estava instalado, para aceitar os desafios de Deus. Trata-se de uma atitude corajosa: é mais fácil continuar comodamente instalado na sua autossuficiência, do que “dar o braço a torcer” e reconhecer, com humildade, a necessidade de eliminar os preconceitos, de refazer os velhos e anquilosados esquemas mentais, de admitir as falhas, os limites, as incoerências. Aceitamos questionar-nos, estamos dispostos a admitir os nossos limites, procuramos humildemente o caminho certo, ou somos daqueles que nunca nos enganamos e raramente temos dúvidas?
  • Aos interessados em acolher a salvação de Deus, Pedro propõe um caminho de conversão. Converter-se é abandonar os velhos caminhos de egoísmo, de prepotência, de orgulho, de autossuficiência que nos levam para longe de Deus e voltar para trás, para que possamos escutar novamente Deus, aceitar outra vez os seus desafios, viver de acordo com as suas indicações, numa entrega obediente nas mãos de Deus; é abraçar a proposta de vida nova que Jesus nos veio oferecer, seguir atrás de Jesus, viver ao seu estilo, abraçar o seu Evangelho, comprometer-se com o Reino de Deus. Estamos disponíveis para encarar a nossa vida sob o signo da conversão? O que é que, na nossa vida, mais necessita de ser transformado, em termos de ideias, valores, comportamentos? O que temos de corrigir para viver de forma coerente com o nosso batismo e com a nossa opção por Jesus? min Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

Refrão 2: Aleluia.

 

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e o meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão de acompanhar me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

 

LEITURA II – Primeira Carta de Pedro 2,20b-25

Caríssimos:
Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência,
isto é uma graça aos olhos de Deus.
Para isto é que fostes chamados,
porque Cristo sofreu também por vos,
deixando vos o exemplo,
para que sigais os seus passos.
Ele não cometeu pecado algum
e na sua boca não se encontrou mentira.
Insultado, não pagava com injúrias;
maltratado, não respondia com ameaças;
mas entregava Se Àquele que julga com justiça.
Ele suportou os nossos pecados
no seu Corpo, no madeiro da cruz,
a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça:
pelas suas chagas fomos curados.
Vós éreis como ovelhas desgarradas,
mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.

 

CONTEXTO

            O autor da designada “Primeira Carta de Pedro” apresenta-se como “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). O apóstolo Pedro conhecido da tradição cristã é, naturalmente, Simão Pedro, o pescador do Mar da Galileia, irmão de André, que habitava na cidade de Cafarnaum e a quem Jesus certo dia, chamou para ser “pescador de homens” (cf. Mc 1,16-18).

            No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia, tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como seria o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (segundo a tradição cristã, o apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).
A partir destes dados, o mais provável é que o autor da referida carta seja um cristão cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã – empenhado em fortalecer o compromisso dos cristãos que viviam em algumas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).

            Os destinatários da missiva seriam ainda, de acordo com o texto, os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). Trata-se de comunidades cristãs de âmbito rural, constituídas maioritariamente por camponeses pobres, que cultivam as propriedades de gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, fora dos grandes centros urbanos. São pessoas economicamente débeis, vulneráveis à hostilidade que o império romano começa a manifestar em relação ao cristianismo.

            Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã.

            O texto que nos é proposto integra uma perícope em que o autor apresenta aos destinatários da carta um conjunto de conselhos práticos sobre a conduta que os cristãos devem assumir em várias situações da vida (cf. 1 Pe 2,11-5,11). Mais especificamente, o nosso texto reflete sobre os deveres dos servos (cf. 1 Pe 2,18) face aos seus senhores.in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • A injustiça, a prepotência, a arbitrariedade, são realidades que, desde sempre, estiveram presentes na relação entre os humanos. Pensou-se que a consciência progressiva da dignidade e dos direitos de cada pessoa poderia tornar obsoletos todos os comportamentos desrespeitosos e desumanos; mas isso não aconteceu e, provavelmente, nunca acontecerá. Em pleno séc. XXI, a violência, a tirania, o despotismo, o desprezo pelos direitos dos mais frágeis, a imposição de visões e interesses egoístas por parte dos poderosos, continuam a manchar a história dos homens. Como devemos lidar com tudo isso? Faz sentido responder à violência recorrendo à solução da violência? É a este tipo de questões que a nossa leitura responde. O autor não está interessado em grandes argumentações filosóficas, sociológicas ou teológicas: propõe apenas aos “batizados” o exemplo de Cristo, que passou pelo mundo fazendo o bem e foi preso, torturado, assassinado sem resistir, sem se revoltar, sem responder “na mesma moeda” aos seus assassinos. É uma lógica incompreensível, até mesmo incongruente aos olhos do mundo… Mas é a lógica de Deus, desse Deus misericordioso e paciente, que nos propõe transformar o mundo e a história através do amor; e Jesus demonstrou que só este caminho conduz à ressurreição, à vida nova, a um dinamismo gerador de um mundo novo. O cristão é chamado a ser testemunha no meio dos homens desta novidade absoluta: só o amor gera vida nova e transforma o mundo. Seremos suficientemente “fortes” para abraçar o caminho que Jesus veio propor-nos?
  • O autor da primeira Carta de Pedro refere-se a Jesus como “o Pastor” que reúne as suas ovelhas, as guarda e as conduz para as pastagens eternas onde há vida em abundância. Seguir esse “Pastor” é tornar-se seu discípulo e ir atrás d’Ele pelos caminhos que Ele indica, imitar os seus gestos, fazer o bem a todos, perdoar sem condições, testemunhar a todos a misericórdia de Deus, responder à injustiça e à violência com o amor. Cristo é, de facto, o nosso “Pastor”, a nossa referência fundamental, o modelo de vida que temos sempre diante dos olhos, aquele que seguimos sem hesitar? Como Cristo, estamos disponíveis para dar testemunho no mundo – mesmo que “contra a corrente” – da ternura, da misericórdia e da bondade de Deus? in Dehonianos

EVANGELHO – João 10,1-10

Naquele tempo, disse Jesus:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta,
mas entra por outro lado,
é ladrão e salteador.
Mas aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
0 porteiro abre lhe a porta e as ovelhas conhecem a sua voz.
Ele chama cada uma delas pelo seu nome e leva as para fora.
Depois de ter feito sair todas as que lhe pertencem,
caminha à sua frente
e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz.
Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele,
porque não conhecem a voz dos estranhos».
Jesus apresentou lhes esta comparação,
mas eles não compreenderam o que queria dizer.
Jesus continuo: «Em verdade, em verdade vos digo:
Eu sou a porta das ovelhas.
Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores,
mas as ovelhas não os escutaram.
Eu sou a porta.
Quem entrar por Mim será salvo:
é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.
O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida
e a tenham em abundância».

 

CONTEXTO

            O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a Vida em plenitude.

            A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do Quarto Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente o texto de Ez 34, onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”. Falando aos exilados da Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de sofrimento, de injustiça e de morte; mas – diz também Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele irá colocar à frente do seu “rebanho” um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à Vida. A catequese que o 4º Evangelho nos oferece sobre o “Bom Pastor” sugere que a promessa de Deus – veiculada por Ezequiel – se cumpre em Jesus.

            De acordo com o Evangelho de João, Jesus teria pronunciado o “discurso do Bom Pastor” (cf. Jo 10) em Jerusalém, em contexto da “festa da Dedicação do Templo” (cf. Jo 10,22). Esta festa (chamada, em hebraico, “Hanûkkah”) celebra a purificação do Templo de Jerusalém (164 a.C.), por Judas Macabeu, depois de o rei selêucida Antíoco IV Epifânio o ter profanado (167 a.C.), construindo um altar em honra de Zeus dentro do espaço sagrado. É a festa da Luz. O símbolo por excelência dessa festa é um candelabro de oito braços (“hanûkkiyyah”). Os braços desse candelabro vão sendo progressivamente acesos, um a um, ao longo dos oito dias em que se celebra a festa. Jesus tinha, pouco antes, curado um cego de nascença, assumindo-se como “a Luz” que veio para iluminar as trevas do mundo (cf. Jo 8,12; 9,1-41).

            Apesar do ambiente festivo, a relação entre Jesus e os líderes judaicos é de grande tensão (cf. Jo 9,40; 10,19-21.24.31-39). Depois de ver a pressão que esses líderes colocaram sobre um cego de nascença para que ele não abraçasse a luz (cf. Jo 9,1-41), Jesus denuncia a forma como eles tratam a comunidade: estão apenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o Povo em benefício próprio; são, pois, “ladrões e salteadores” (Jo 10,1.8.10), que tomaram de assalto o rebanho que lhes foi confiado e roubam ao Povo a oportunidade de encontrar Vida.  in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Todos nós temos os nossos heróis, os nossos mestres, os nossos modelos. São figuras que consideramos como referências, figuras que respeitamos e de quem esperamos orientações, figuras cujas opiniões acolhemos e seguimos. Os povos antigos, ainda muito ligados a contextos agrários e pastoris, facilmente designavam uma figura dessas como “o Pastor” (nós hoje utilizamos outras palavras: “presidente”, “rei”, “diretor”, “superior”, “chefe”, “professor”, “guru”, guia). Será que todas essas figuras que admiramos e cujas opiniões seguimos merecem a nossa confiança? Todas elas estarão realmente interessadas no nosso bem? Todas elas terão como objetivo fundamental conduzir-nos à vida verdadeira?
  • Para o autor do Quarto Evangelho, “o Pastor” por excelência é Jesus: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o “rebanho” de Deus das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. “Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância” – diz Jesus. É, portanto, em Jesus que devemos confiar, é à volta d’Ele que nos devemos juntar, são as suas indicações e propostas que devemos seguir… O nosso “Pastor” é, de facto, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construímos a nossa existência? Quem é que define os caminhos em que andamos: Jesus Cristo, ou um qualquer “influencer” que a sociedade do nosso tempo adotou e impôs? Quem é que dita os valores sobre os quais construímos a nossa vida: Jesus Cristo, ou os valores consagrados por uma sociedade materialista, desumana e desumanizadora?
  • Reparemos na forma como Jesus desempenha a sua missão de “Pastor”: Ele ama as ovelhas, interessa-se por elas, conhece-as e chama-as pelo nome, estabelecendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal; Ele dirige às “ovelhas” um convite a deixarem a escuridão, mas não força ninguém a segui-l’O pois, para Ele, a liberdade de cada pessoa é um valor inalienável… Jesus manifesta de maneira sublime, na forma como se relaciona connosco, o amor, a bondade, a tolerância, a misericórdia que Deus tem por todos os seus queridos filhos. É esse o paradigma para as relações que nos ligam aos irmãos e irmãs que caminham connosco? Aqueles que receberam de Deus a missão de presidir a um grupo, de animar uma comunidade, exercem a sua missão no respeito absoluto pela pessoa, pela sua dignidade, pela sua individualidade?
  • No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem há um número restrito de vagas. A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. O que é decisivo para fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Jesus, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo… Isso significa, concretamente, ir atrás de Jesus, aderir ao projeto de salvação que Ele veio propor, viver ao seu estilo, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, numa entrega total aos projetos de Deus e numa doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Jesus) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho é apenas um caminho de derrota e de fracasso, que não leva aonde nós pretendemos ir?
  • Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam, pessoas a quem foi confiado o serviço da autoridade. Podemos aceitar, sem problemas, que elas receberam essa missão de Jesus e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições. Mas convém igualmente ter presente que o único “Pastor verdadeiro”, aquele que nunca falha, aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Jesus. Procuremos escutar e acolher, com humildade, mas também com consciência crítica, as indicações que nos são dadas pelos líderes das nossas comunidades; mas não nos esqueçamos de as confrontar, para aquilatar da sua validade, com as indicações que nos foram deixadas por Jesus, o Bom Pastor, o nosso único Pastor. Como me posiciono diante daqueles a quem foi confiado, na comunidade cristã, o serviço da autoridade?
  • Para que distingamos a “voz” de Jesus de outros apelos, de propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena, é preciso um permanente diálogo íntimo com “o Pastor” (Jesus), um confronto permanente com a sua Palavra e a participação ativa nos sacramentos onde se nos comunica essa vida que “o Pastor” nos oferece. Procuro manter um diálogo frequente com Jesus, a fim de ter sempre vivas as suas indicações? in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura é a continuação do longo discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Além do tom exortativo que deve caracterizar a proclamação desta leitura, o leitor deve ter em atenção a interpelação que a multidão faz a Pedro e o modo como essa questão desperta o convite de Pedro à conversão e ao Batismo.

            A segunda leitura sendo de fácil proclamação requer apenas um especial cuidado nas pausas e respirações para uma articulada e eficaz leitura do texto.

 

 

ANEXOS:

Domingo III do Tempo Pascal – Ano A – 18.04.2026

Jesus aproximou-Se deles e pôs Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou lhes. «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»

Viver a Palavra

            A Boa Notícia que brota do sepulcro aberto ecoa no tempo e na história para renovar a esperança e fortalecer a confiança de todos quantos trilham os caminhos tortuosos e exigentes da nossa existência. A proclamação alegre e jubilosa da manhã de Páscoa prolonga-se liturgicamente ao longo de cinquenta dias como oportunidade de aprofundar e saborear a presença de Jesus Cristo Ressuscitado.

            O Evangelho deste terceiro Domingo do Tempo da Páscoa oferece-nos uma das mais belas viagens narradas pela Sagrada Escritura. Doze quilómetros de estrada, onde o céu e a terra se tocam, onde o Ressuscitado se coloca a caminho para iluminar a esperança e renovar a confiança no coração daqueles discípulos que tristes e desanimados regressam à sua terra.

            «Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Deus precede-nos sempre e em Jesus Cristo vem ao nosso encontro. Nas angústias e incertezas, nas dores e nos sofrimentos, Jesus vem ao nosso encontro, vestido de humanidade, percorrendo as nossas estradas e fazendo caminho connosco. A fé cristã não é um rito mágico que elimina do nosso caminho as dificuldades e desafios, mas a certeza de que, não obstante os desafios e dificuldades do caminho, Deus está connosco, Deus caminha connosco, Deus oferece-nos a força e a coragem necessárias para caminhar, mesmo quando parecem fraquejar as forças e o ânimo parece desvanecer.

            A Páscoa deste ano declina-se inevitavelmente com o estado de emergência e a pandemia que nos assola. Contudo, bem sabemos, que Páscoa deriva do verbo hebraico pesach que significa passar. Celebram e vivem a Páscoa aqueles que são capazes de rasgar brechas de esperança e abrir caminhos que nos permitem alargar os nossos horizontes e compreender que o amor é mais forte do que a morte e que a dor e o sofrimento se abrem ao horizonte maior e mais largo da esperança e da confiança.

            Estes dois discípulos vão a caminho de Emaús. Vão desanimados e desalentados. Eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Escutaram as Suas palavras cheias de novidade e de vida, viram os Seus milagres e contemplaram o Seu amor que se fazia perdão, encontro e entrega. Contudo, «os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado». Por isso, apesar de terem depositado Nele a sua esperança e acreditado que poderia ser Ele quem libertaria Israel, «afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu». Nem a palavra das mulheres que tinham ido ao sepulcro de madrugada era suficiente para lhes oferecer qualquer réstia de esperança. Apesar de elas terem dito que o sepulcro estava vazio e que uns anjos lhes tinham anunciado que Ele estava vivo, a Ele não o viram.

            Como é desconcertante a pedagogia de Jesus! Coloca-se a caminho, quer ouvir pela boca dos discípulos as razões do seu desânimo e desalento. Recorda-lhes a história de amor que Deus construiu com o Seu Povo «começando por Moisés e passando pelos Profetas». Preparado e abrasado o coração dos discípulos pela Palavra, senta-se com eles à mesa e parte o Pão. Contemplando o gesto do pão partido e repartido, os discípulos recordam aquela outra ceia em que se sentaram com Jesus à mesa e reconhecem, naquele gesto, Jesus Vivo Ressuscitado.

            Diante das nossas dores e sofrimentos, das nossas dúvidas e incertezas, Jesus continua a colocar-se no meio de nós, a querer escutar a nossa vida com as suas dificuldades e faltas de esperança e convida-nos a recordar a história de amor que Deus constrói connosco. Dirige-nos a Sua palavra de amor e recorda-nos que a Sua vida feita pão partido e repartido continuará a abrir os nossos olhos para uma nova esperança que só a Sua Páscoa nos pode oferecer e garantir. in Voz Portucalense. in Voz Portucalense.

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IAtos dos Apóstolos 2,14.22-33

No dia de Pentecostes,
Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
ergueu a voz e falou ao povo:
«Homens de Israel, ouvi estas palavras:
Jesus de Nazaré
foi um homem acreditado por Deus junto de vós
com milagres, prodígios e sinais,
que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio,
como sabeis.
Depois de entregue,
segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus,
vós destes-Lhe a morte,
cravando-O na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou O, livrando O dos laços da morte,
porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio.
Diz David a seu respeito:
‘O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.
Destes me a conhecer os caminhos da vida,
a alegria plena em vossa presença’.
Irmãos, seja-me permitido falar vos com toda a liberdade:
o patriarca David morreu e foi sepultado
e o seu túmulo encontra se ainda hoje entre nós.
Mas, como era profeta
e sabia que Deus lhe prometera sob juramento
que um descendente do seu sangue
havia de sentar-se no seu trono,
viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo,
dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos,
nem a sua carne conheceu a corrupção.
Foi este Jesus que Deus ressuscitou
e disso todos nós somos testemunhas.
Tendo sido exaltado pelo poder de Deus,
recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo,
que Ele derramou, como vedes e ouvis».

 

CONTEXTO

            O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura situa-nos em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.

            Após a Ascensão os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo (cf. At 2,1-12). Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.

            A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas-vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.

~          Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 13,16-41). Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • Desde os alvores da humanidade insistimos em trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência, julgando encontrar aí a nossa plena realização, o sucesso inquestionável da nossa existência; mas só conseguimos, com as nossas opções egoístas, trazer à história humana mentira, violência, infelicidade e morte. Então Deus enviou-nos Jesus. Ele veio dizer-nos cara a cara, na nossa linguagem e em gestos humanos bem claros, que a nossa plena realização passa pelo amor, pela vida dada até às últimas consequências, pela partilha, pelo perdão, pelo serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos. No entanto, não acreditamos n’Ele; e convocamos a injustiça, a violência, a mentira, para o calar e para o fechar num túmulo onde Ele não pudesse incomodar-nos com os seus desafios… Caso arrumado? Não. Deus ressuscitou Jesus; e, ao ressuscitá-l’O, deu-lhe razão. Disse-nos que Ele falava verdade quando nos dizia que uma vida gasta ao serviço do plano do Pai, na entrega aos homens, não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida nova. Entretanto, passaram-se dois mil anos… Há dois mil anos que sabemos, de fonte segura, que o egoísmo, o orgulho, a maldade, a violência, nos arrastam para caminhos de morte e infelicidade; há dois mil anos que temos diante de nós o exemplo de Jesus e que sabemos que só a proposta que Ele nos apresentou é geradora de vida verdadeira e eterna. Mas ainda não conseguimos “digerir” tudo aquilo que a vida, a morte e a ressurreição de Jesus nos mostrou. O que mais será necessário para levarmos a sério as indicações de Deus? Quando nos disporemos a acolher, sem desculpas nem hesitações, a lição de Jesus?
  • Pedro, dirigindo-se à multidão no dia de Pentecostes, diz: “foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas”. Esse “todos nós” inclui, naturalmente, todos aqueles que, por aqueles dias, fizeram a experiência de encontrar Jesus vivo e atuante e se sentiram desafiados a continuar a aventura do Reino de Deus; mas também inclui todos os outros que, pelos séculos fora, continuam a encontrar-se com Jesus vivo, a escutar as suas indicações, a viver ao seu estilo, a sentarem-se com Ele à mesa eucarística, a caminhar com Ele pelos caminhos do mundo. A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão 1: Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.

Refrão 2: Aleluia.

 

Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.

 

LEITURA II – 1 Pedro 1,17-21

Caríssimos:
Se invocais como Pai
Aquele que, sem aceção de pessoas,
julga cada um segundo as suas obras,
vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo.
Lembrai vos que não foi por coisas corruptíveis,
como prata e oiro,
que fostes resgatados da vã maneira de viver,
herdada dos vossos pais,
mas pelo sangue precioso de Cristo,
Cordeiro sem defeito e sem mancha,
predestinado antes da criação do mundo
e manifestado nos últimos tempos por vossa causa.
Por Ele acreditais em Deus,
que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.

 

CONTEXTO

            A primeira Carta de Pedro oferece-nos um conjunto de indicações que, à partida, poderiam deixar perfeitamente definida a questão do seu autor e dos seus destinatários. O autor apresenta-se como “Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). Os destinatários seriam os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). A Carta seria escrita “desde Babilónia” (designativo frequentemente usado pelos primeiros cristãos para falar de Roma), onde o autor está acompanhado por Marcos (1Pe 5,13).

            No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia que Jesus chamou para ser “pescador” de homens (cf. Mc 1,16-18), tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como era o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (o Apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).

            Sendo assim, o mais natural é que o autor da primeira Carta dita “de Pedro” seja um cristão culto cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã –, empenhado em fortalecer o compromisso cristão de algumas comunidades instaladas nas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).

            Os destinatários desta carta são, maioritariamente, camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente do meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.

            Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Deus dispôs-se a “pagar” um alto preço para nos libertar da nossa vã maneira de viver: enviou-nos o seu Filho Jesus, apesar de saber que nós não somos “de confiança” e que, na nossa insensatez, O condenaríamos a uma morte infame. Jesus cumpriu o projeto do Pai: fez-se um de nós, caminhou connosco, falou-nos do amor do Pai, curou as nossas feridas, lutou contra a mentira e a injustiça, mostrou-nos como viver, deixou-se matar para nos libertar do pecado e da morte. Isto dá-nos bem a medida do imenso amor que Deus nos tem. Esta história de amor deixa o autor da primeira Carta de Pedro maravilhado. E a nós? Conseguimos medir, a partir desta realidade, a importância que temos para Deus? Deixamo-nos “tocar” e maravilhar por este “amor maior”?
  • Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?
  • Jesus não anda hoje, em pessoa, pelas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades, a propor-nos o Reino de Deus e a dizer-nos, com palavras e com gestos concretos, como devemos viver para que a nossa vida faça sentido. No entanto, antes de voltar para o Pai, Ele encarregou os seus discípulos de serem suas testemunhas no mundo. A sua proposta tem de continuar hoje a chegar aos homens. Sentimos que isso nos diz respeito? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos a sua mensagem, que decidimos segui-l’O, que aceitamos viver ao seu estilo, damos testemunho dessa Boa Notícia que Ele nos deixou? A nossa vida é um anúncio, ao vivo e a cores, dessa vida nova que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas? in Dehonianos

EVANGELHO – Lucas 24,13-35

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

CONTEXTO

            A narração de uma aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que iam a caminho de uma povoação chamada Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. Discute-se, no entanto, se se trata de uma criação de Lucas, ou de um relato que Lucas recebeu da tradição e que o evangelista terá trabalhado e adaptado. O mais provável é que Lucas utilize uma tradição prévia, que ele retoca e completa.

            A menção de um lugar chamado Emaús (lugar de destino dos dois discípulos) levanta diversas interrogações… Que lugar é esse? O nome não identifica um lugar conhecido na geografia do mundo palestino. A indicação da distância de Jerusalém a Emaús poderia constituir um fator adicional para ajudar na identificação da referida localidade; contudo, esse dado também não é conclusivo, uma vez que os mais importantes códices antigos situam a povoação a “sessenta estádios” de Jerusalém (o equivalente a cerca de onze quilómetros), mas outros falam de “cento e sessenta estádios” (o que equivaleria a cerca de trinta quilómetros). Os partidários da “maior distância” (cento e sessenta estádios) falam de Amwas-Nicópolis (uma localidade situada a cerca de trinta quilómetros de Jerusalém) como o local da Emaús evangélica; mas os partidários da “menor distância” preferem falar da atual El-Qubeibeh (uma localidade palestina que conserva a memória do acontecimento), ou então de Abu Gosh, uma localidade situada a cerca de dez quilómetros de Jerusalém.

            Os comentadores destacam frequentemente a intenção teológica de Lucas ao dar-nos este relato. Que é que isto significa? Significa que a narrativa lucana não é uma reportagem factual de uma viagem geográfica, mas é uma catequese sobre Jesus. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e coerente (se o evangelista estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e explicaria melhor algumas incongruências do texto, nomeadamente porque é que aqueles dois discípulos partiram para Emaús na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – em meados da década de oitenta do primeiro século – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma verdadeira experiência de encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Aquele quadro de desencanto e de desânimo em que se movem os dois discípulos que caminham de Jerusalém para Emaús não nos é completamente estranho. Experimentamo-lo também nós, mais vírgula menos vírgula, diante das crises que a vida traz, do carácter transitório das nossas conquistas, da debilidade que nos habita, da falência dos nossos projetos mais queridos, dos sonhos que se evaporam e nos deixam de mãos vazias, das nossas certezas derrubadas, das nossas seguranças com pés de barro… Abalados e magoados sentimos a tentação de baixar os braços, de abandonar a luta, de nos demitirmos das nossas responsabilidades, de nos fecharmos em nós próprios, de “aguentarmos” a vida sem arriscar, de vivermos para o trivial que não encanta mas também não fere excessivamente. Talvez pensemos até, muitas vezes, que Deus nos virou as costas e nos deixou “sem rede”, abandonados à nossa sorte; e damos por nós a arrastar-nos pela vida sem rumo nem horizontes. Ora, hoje um catequista chamado Lucas vem dizer-nos: “Garanto-vos que não estais sozinhos; Jesus, vivo e ressuscitado, está e estará sempre convosco. Talvez nem sempre reconheçais a sua presença; mas Ele apanha-vos no caminho, conversa convosco, esclarece as vossas dúvidas, pacifica o vosso coração, dirige os vossos passos em direção a um horizonte de esperança. Já fizemos esta experiência? Dispomo-nos, em cada passo do nosso caminho, a detetar a presença consoladora e vivificante de Jesus ao nosso lado?
  • Como é que Cléofas e o outro discípulo conseguem encontrar sentido no sem sentido da cruz e da morte? Como é que os homens e as mulheres que caminham afogados em angústias e desencantos podem perceber o projeto salvador que Deus tem para lhes propor? Como é que podemos escutar Jesus e receber d’Ele esse suplemento de esperança que nos permite continuar? Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. A Palavra de Deus ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva e a definir o sentido correto da nossa existência; a Palavra de Deus incendeia-nos o coração (“não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”), faz-nos vencer o desânimo e o pessimismo, leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo e da história; a Palavra de Deus mostra-nos perspetivas novas e renova a nossa esperança; a Palavra de Deus diz-nos como chegar à vida verdadeira e eterna… Que lugar e que papel desempenha a Palavra de Deus nas nossas vidas? No nosso caminho de fé encontramos espaço para escutar a Palavra de Deus, para partilhá-la, para orar a partir dela, para contemplá-la?
  • Para os dois discípulos que vão em direção a Emaús, o viajante que se lhes junta no caminho é um perfeito desconhecido. No entanto, quando se sentam à mesa com ele e o veem tomar o pão, recitar a bênção, parti-lo e partilhá-lo, percebem imediatamente que esse viajante desconhecido é Jesus. Como podemos nós, homens e mulheres do séc. XXI, fazer uma experiência de encontro com Jesus vivo? O evangelista Lucas não tem dúvidas: é quando nos sentamos com Ele à mesa da eucaristia. Todos os domingos, reunidos em comunidade à volta da mesa eucarística, damo-nos conta que o Ressuscitado continua vivo, a caminhar ao nosso lado, a alimentar-nos com a sua Palavra e o seu Pão; sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica. Que lugar e que papel tem, na nossa experiência de fé, a participação na eucaristia?
  • Depois de se encontrarem com Jesus, vivo e ressuscitado, à mesa eucarística, os dois discípulos deixaram a comida na mesa, esqueceram o cansaço, enfrentaram os perigos da noite e regressaram imediatamente a Jerusalém, decididos a partilhar a sua descoberta com os outros discípulos. Não ficaram em casa, felizes e repousados, a gozar beatificamente uma experiência inolvidável; mas sentiram que aquilo que tinham experimentado devia ser partilhado com urgência. Os discípulos de Emaús perceberam que quando alguém encontra Jesus tem de tornar-se sua testemunha. Nós, que todos os domingos nos sentamos à mesa eucarística, que descobrimos a presença de Jesus vivo no meio da comunidade reunida, que nos alimentamos da sua Palavra e do seu Pão, damos testemunho d’Ele? Sentimos a urgência de o levar ao encontro do mundo? Os nossos gestos são um anúncio vivo desse Jesus que, ainda hoje, quer oferecer a todos os homens e mulheres a vida nova e definitiva?
  • Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?
  • Os dois discípulos de Emaús, dececionados com um projeto que parecia ter falido, abandonaram a comunidade e fugiram para Emaús. Aquela comunidade triste e amedrontada, fechada dentro de uma casa de Jerusalém, afundada na inércia e no pessimismo, já não lhes dizia nada. Hoje há, também, muitos irmãos e irmãs que fazem uma experiência semelhante. Veem a Igreja nascida de Jesus como uma comunidade imóvel e estacionada no passado, com um discurso pomposo, mas pouco atraente, mais preocupada com a liturgia do que com o cuidado dos pobres, mais interessada nas leis e nas normas do que no Evangelho da misericórdia; e, sentindo-se dececionados, rompem com a comunidade. Afastar-se da comunidade, viver à margem, desistir do projeto cristão, será a solução? A “lição de Emaús” diz-nos que, apesar de tudo, é na comunidade cristã que reside e se revela Jesus ressuscitado. Por isso, os dois discípulos transviados voltaram a toda a pressa ao encontro da comunidade que tinham abandonado. A solução para o nosso desencanto passará por cortar os laços com a comunidade, ou por revitalizar a vinculação comunitária com Jesus e com o Evangelho? Se Jesus ainda nos apaixona, poderemos abandonar a comunidade e perder-nos em caminhos que não levam a nenhum lado? in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura é um longo discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Deste modo, a proclamação desta leitura deve ter presente o tom jubiloso e desassombrado com que Pedro proclama a ressurreição de Jesus Cristo.

            A segunda leitura requer uma acurada preparação das pausas e respirações porque apresenta longas frases e com diversas orações. Atenção que as vírgulas podem não ser necessariamente lugares de pausa.

 

 

ANEXOS:

Domingo II do Tempo Pascal – Domingo da Divina Misericórdia – Ano A – 12.04.2026

Viver a Palavra

A fé cristã não é uma aventura isolada, mas vive-se e concretiza-se na forma comunitária que a sustenta. Se a adesão a Jesus Cristo nasce do encontro íntimo e pessoal com Ele, esta adesão abre-nos a um modo novo de ser e viver em comunidade. Na verdade, se Jesus afirmou: «quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há de recompensar-te» (Mt 6,6), também declarou: «onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20). O encontro íntimo e pessoal com Jesus Cristo desafia-nos a reforçar os laços da adesão a Ele na partilha e no encontro com aqueles que comungam a mesma fé.

O Evangelho deste Domingo situa-se: «na tarde daquele dia, o primeiro da semana». Os discípulos estavam reunidos com medo dos judeus, mas Jesus coloca-se no meio deles e saúda-os com a Sua Paz, mostra-lhes as marcas da Paixão e concede-lhes o dom do Espírito Santo para que eles sejam sinal de reconciliação e de paz, junto daqueles a quem são enviados.

Mas Tomé, aquele a quem chamavam Dídimo, não estava com o grupo neste momento e, tendo regressado, afirma que só acreditará se vir com os seus próprios olhos e tocar com as suas mãos. Por isso, Jesus volta a aparecer aos Seus discípulos e o Evangelho indica que tudo isto aconteceu «oito dias depois».

As indicações temporais que o Evangelho nos apresenta não são apenas as anotações jornalísticas para situar a ação descrita. Nestas indicações temporais encontramos o ritmo da vida da Igreja: «o primeiro da semana» e «oito dias depois». Este é o ritmo da assembleia cristã que hebdomadariamente, isto é, semanalmente, se reúne, Domingo após Domingo, para celebrar a sua fé e proclamar a certeza de que o Ressuscitado acompanha a Sua Igreja, oferecendo-lhe a Sua Paz e concedendo-lhe o dom do Espírito.

Por isso, cada Domingo é o Dia do Senhor, dia de festa e de alegria, onde a comunidade cristã reunida à volta da mesa do altar, escutando a Palavra do Senhor e partilhando o Seu pão, renova a certeza desse amor maior que se faz entrega total e plena na Cruz. Ninguém está dispensado desta reunião festiva dos filhos de Deus. A aventura da Fé não é uma aventura isolada à qual nos propomos sozinhos. Como Tomé, quando nos afastamos da comunidade, o desafio de acreditar torna-se mais difícil e exigente. Aquele que se afasta da comunidade afasta-se da experiência comunitária de Jesus, do lugar privilegiado onde Deus se revela e manifesta como Rosto da misericórdia do Pai.

O Evangelho apresenta Tomé como Dídimo, isto é, gémeo. Na verdade, Tomé não está sozinho. Também nós duvidamos, vacilamos e titubeamos, sobretudo quando nos propomos a caminhar sozinhos, quando nos afastamos da comunidade ou quando ferimos a comunhão e unidade pelas divisões e discórdias que nos afastam dos outros e que afastam os outros. O melhor testemunho que a Igreja pode oferecer ao mundo é a sua comunhão e unidade, com comunidades acolhedoras, geradoras de relações fraternas, para que guiadas e iluminadas pelo Espírito Santo se tornem lugares da Paz que só o Ressuscitado e o Seu infinito amor podem oferecer e garantir.

Somos discípulos missionários. Somos enviados ao jeito de Jesus, para que as nossas vidas se tornem feliz anúncio da misericórdia de Deus. Não basta sermos crentes, precisamos ser credíveis, proclamando com a vida aquilo que os nossos lábios professam. in Voz Portucalense.

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            No ano 2000, o Papa S. João Paulo II canonizou Santa Faustina e declarou que daquele dia em diante, o segundo Domingo da Páscoa seria também designado como Domingo da Misericórdia. Além disso, S. João Paulo II «estabeleceu que o citado Domingo seja enriquecido com a Indulgência Plenária, para que os fiéis possam receber mais amplamente o dom do conforto do Espírito Santo e desta forma alimentar uma caridade crescente para com Deus e o próximo e, obtendo eles mesmos o perdão de Deus, sejam por sua vez induzidos a perdoar imediatamente aos irmãos» (Decreto da Penitenciaria Apostólica, 2002). Deste modo, este Domingo constitui-se como uma oportunidade para recordar a Divina Misericórdia quer na celebração da Eucaristia, quer por meio de outros momentos de oração que ajudem os fiéis a meditar e refletir em Jesus, Rosto da Misericórdia do Pai. in Voz Portucalense.

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

E fizemos isso….

Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IAct 2,42-47

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos,
à comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações.
Perante os inumeráveis prodígios e milagres
realizados pelos Apóstolos,
toda a gente se enchia de terror.
Todos os que haviam abraçado a fé
viviam unidos e tinham tudo em comum.
Vendiam propriedades e bens
e distribuíam o dinheiro por todos,
conforme as necessidades de cada um.
Todos os dias frequentavam o templo,
como se tivessem uma só alma,
e partiam o pão em suas casas;
tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração,
louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo.
E o Senhor aumentava todos os dias
o número dos que deviam salvar se.

CONTEXTO

Depois de descrever a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos no cenáculo (cf. Act 2,1-13) e de apresentar (através de um discurso posto na boca de Pedro) um resumo do testemunho dado pelos primeiros discípulos sobre Jesus (cf. Act 2,14-36), Lucas refere o resultado da pregação dos apóstolos: as pessoas aderem em massa (Lucas fala de três mil pessoas que, nesse dia, se juntaram aos discípulos) e nasce a comunidade cristã de Jerusalém (cf. Act 2,37-41). São os primeiros passos de um caminho que a Igreja de Jesus vai percorrer, desde Jerusalém a Roma (o coração do mundo antigo).

O nosso texto faz parte de um conjunto de três sumários, através dos quais Lucas descreve aspetos fundamentais da vida da comunidade cristã de Jerusalém. Este primeiro sumário é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade (os outros dois sumários tratam da partilha dos bens – cf. Act 4,32-35 – e do testemunho da Igreja através da atividade miraculosa dos apóstolos – Act 5,12-16).
Naturalmente, este sumário não é um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possa ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve este relato (década de 80), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus” e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Para a reflexão e atualização, considerar as seguintes linhas:

  • A comunidade cristã é uma família de irmãos, reunida à volta de Cristo, animada pelo Espírito e que tem por missão testemunhar na história a salvação. Os homens do séc. XXI podem acreditar ou não na ressurreição de Cristo; mas têm de descobrir a vida nova e plena que Deus lhes oferece, através do testemunho dos discípulos de Jesus. A comunidade cristã tem de ser uma proposta diferente, que mostra aos homens como o amor, a partilha, a doação, o serviço, a simplicidade e a alegria são geradores de vida e não de morte.
  • A comunidade cristã é uma comunidade de irmãos. A minha comunidade cristã é uma comunidade de irmãos que vivem no amor, ou é um grupo de pessoas isoladas, em que cada um procura defender os seus interesses, mesmo que para isso tenha de magoar os outros? No que me diz respeito, esforço-me por amar todos, por respeitar a liberdade e a dignidade de todos, por potenciar os contributos e as qualidades de todos?
  • A comunidade cristã é, também, uma comunidade assídua à catequese dos apóstolos. A minha comunidade cristã é uma comunidade que se constrói à volta da Palavra de Deus, que escuta e que partilha a Palavra de Deus? Da minha parte, procuro descobrir as propostas de Deus num diálogo comunitário e numa partilha com os irmãos, ou deixo-me levar por pretensas “revelações” pessoais, convicções pessoais, impressões pessoais – que muitas vezes não são mais do que formas de manipular a Palavra de Deus para “levar a água ao meu moinho”?
  • A comunidade cristã é, ainda, uma comunidade que celebra liturgicamente a sua fé. A celebração da fé comunitária dá-nos a dimensão de um povo peregrino, que caminha unido, voltado para o seu Senhor e tendo Deus como a sua referência. Da celebração comunitária da fé, sai uma comunidade mais fortalecida, mais consciente da vida que une todos os seus membros, mais adulta e com mais força para ser testemunha da salvação. O que é que significa, para mim, a celebração comunitária da fé? A celebração eucarística é um rito aborrecido, a que “assisto” por obrigação, ou uma verdadeira experiência de encontro com o Jesus do amor e do dom da vida e uma experiência de amor partilhado com os meus irmãos de fé?
  • A comunidade cristã é uma comunidade de partilha. No centro dessa comunidade está o Cristo do amor, do serviço, do dom da vida… O cristão não pode, portanto, viver fechado no seu egoísmo, indiferente à sorte dos outros irmãos. Em concreto, o nosso texto fala na partilha dos bens… Uma comunidade onde alguns esbanjam os bens e onde outros não têm o suficiente para viver dignamente será uma comunidade que testemunha, diante dos homens, esse mundo novo de amor que Jesus veio propor? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão: Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Aarão:
é eterna a sua misericórdia.
Digam os que temem o Senhor:
é eterna a sua misericórdia.

Empurraram me para cair,
mas o Senhor me amparou.
O Senhor é a minha fortaleza e a minha glória,
foi Ele o meu Salvador.
Gritos de júbilo e de vitória nas tendas dos justos:
a mão do Senhor fez prodígios.

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.
Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.

 

LEITURA II – 1 Pedro 1,3-9

Leitura da Primeira Epístola de São Pedro

Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer,
pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos,
para uma esperança viva,
para uma herança que não se corrompe,
nem se mancha, nem desaparece,
reservada nos Céus para vós
que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé,
para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos.
Isto vos enche de alegria,
embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo,
passar por diversas provações,
para que a prova a que é submetida a vossa fé
– muito mais preciosa que o ouro perecível,
que se prova pelo fogo –
seja digna de louvor, glória e honra,
quando Jesus Cristo Se manifestar.
Sem O terdes visto, vós O amais;
sem O ver ainda, acreditais n’Ele.
E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa,
porque conseguis o fim da vossa fé,
a salvação das vossas almas.

CONTEXTO

A primeira Carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que Pedro seja o autor deste texto: em termos literários, a qualidade literária da carta não corresponde à maneira de escrever de um pescador do lago de Tiberíades, pouco instruído; a teologia apresentada demonstra uma reflexão e uma catequese bem posteriores à época de Pedro; e o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação da comunidade cristã no final do séc. I. Se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anónimo culto – provavelmente um responsável de alguma comunidade cristã – e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.

Os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria destes cristãos são pastores ou camponeses que cultivam as propriedades das classes dominantes. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. De qualquer forma, trata-se de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável a um ambiente que começa a manifestar alguma hostilidade para com o cristianismo.

O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã. in Dehonianos

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, os seguintes dados:

  • Antes de mais, a Palavra de Deus convida-nos a tomar consciência de que, pelo batismo, nos identificamos com Cristo. A nossa vida tem de ser, como a de Cristo, vivida na obediência ao Pai e na entrega aos homens nossos irmãos: é esse o caminho que conduz à ressurreição. A lógica do mundo diz-nos que servir e dar a vida é um caminho de fracos e perdedores; a lógica de Deus diz-nos que a vida plena resulta do amor que se faz dom. Em quem é que acreditamos? De acordo com que lógica é que conduzimos a nossa vida e fazemos as nossas opções?
  • A questão do sentido do sofrimento (sobretudo do sofrimento que atinge o justo) é tão antiga como o homem; as respostas que o homem foi encontrando para essa questão foram sempre parciais e insatisfatórias… A Palavra de Deus que hoje nos é proposta não esclarece definitivamente a questão, mas acrescenta mais uma achega: o sofrimento ajuda-nos, muitas vezes, a crescer, a amadurecer, a despirmo-nos de orgulhos e autossuficiências, a confiar mais em Deus… Somos convidados a tomar consciência de que o sofrimento pode ser, também, um caminho para ressuscitarmos como homens novos, para chegarmos à vida plena e definitiva.
  • De qualquer forma, somos convidados a percorrer a nossa vida com esperança, olhando para além dos problemas e dificuldades que dia a dia nos fazem tropeçar e vendo, no horizonte, a salvação definitiva. Isto não significa alhearmo-nos da vida presente; mas significa enfrentar as contrariedades e os dramas de cada dia com a serenidade e a paz de quem confia em Deus e no seu amor. in Dehonianos.

 

EVANGELHO – João 20,19-31

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo,
não estava com eles quando veio Jesus.
Disseram lhe os outros discípulos:
«Vimos o Senhor».
Mas ele respondeu lhes:
«Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos,
se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado,
não acreditarei».
Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa
e Tomé com eles.
Veio Jesus, estando as portas fechadas,
apresentou Se no meio deles e disse:
«A paz esteja convosco».
Depois disse a Tomé:
«Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos;
aproxima a tua mão e mete a no meu lado;
e não sejas incrédulo, mas crente».
Tomé respondeu Lhe:
«Meu Senhor e meu Deus!»
Disse lhe Jesus:
«Porque Me viste acreditaste:
felizes os que acreditam sem terem visto».
Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Estes, porém, foram escritos
para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus,
e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

CONTEXTO

Continuamos na segunda parte do Quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez, referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.

A comunidade criada a partir da ação de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do facto de não terem ainda feito a experiência de Cristo ressuscitado. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

Ter em conta, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

  • A comunidade cristã gira em torno de Jesus, constrói-se à volta de Jesus e é d’Ele que recebe vida, amor e paz. Sem Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude; sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos, em conflito, e não seremos uma comunidade de irmãos… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte?
  • A comunidade tem de ser o lugar onde fazemos verdadeiramente a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. É isso que a nossa comunidade testemunha? Quem procura Cristo, encontra-O em nós?
  • Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas e egoístas que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida. O que é que significa, para mim, a Eucaristia? in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura é a descrição da vitalidade e comunhão vivida na comunidade nascente. A proclamação desta leitura deve ter presente o tom narrativo, mas também o entusiasmo e a maravilha do modo como cresciam em número e santidade os primeiros cristãos.

A segunda leitura é um hino de ação de graças ao Pai pela salvação revelada em Jesus Cristo. Ao tom de louvor e ação de graças que deve caracterizar a proclamação desta leitura, junta-se a recomendação de uma acurada preparação das pausas e respirações, sobretudo, nas frases mais longas e com diversas orações.

 

 

 

ANEXOS:

Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor – Ano A – 05.04.2026

Viver a Palavra

            No Tríduo Pascal a Igreja celebra os máximos mistérios da redenção humana. Se toda a vida do Senhor Jesus foi uma “páscoa – “saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16, 28) – foi-o, porque, num momento determinado da sua existência, Jesus como que se concentrou e viveu uma páscoa tornando-se “páscoa”: “antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13, 1). Foi então que Jesus realizou de forma total, plena e definitiva a obra da salvação que o Pai lhe confiou. Cumprindo a antiga festa, inaugurou a nova. Ele é a “nossa Páscoa, imolada” (cf. 1 Cor 5, 7).

            Também a Igreja, que nasce deste mistério, dele deve viver permanentemente. «Todas as vezes que celebramos o memorial deste sacrifício realiza-se a obra da nossa redenção» (oração SO da Missa da Ceia do Senhor). Celebrando continuamente o memorial da Páscoa, a Igreja vai experimentando que ela mesma é feita na Eucaristia que faz. Neste contexto ganha relevo a celebração anual do mistério pascal. Como já convidava o Apóstolo: «celebremos a festa, … com pães ázimos: na pureza e na verdade» (1Cor 5, 8).

            O Tríduo consta da celebração da Paixão e Morte (Sexta-Feira Santa), Sepultura (Sábado) e Ressurreição (Domingo, começando na Vigília e terminando nas II Vésperas). Mais do que uma sucessão de momentos autónomos, trata-se de um “contínuo” celebrativo com uma profunda unidade, culminando na Vigília Pascal, a “mãe de todas as Vigílias”, a mais importante de todas as liturgias do ano. Essa Eucaristia era, originariamente, a única do Tríduo, pondo termo ao jejum sacramental dos dois primeiros dias. Atualmente, não é assim, porque a celebração da Missa da Ceia do Senhor (Quinta-Feira Santa, último dia da Quaresma) passou a ser considerada como a abertura e introdução do Tríduo. Isso quer dizer que, em termos litúrgicos, essa Missa já pertence à Sexta-Feira. Caso contrário, teríamos um “tríduo” com quatro dias!

            Procuremos, pois, evidenciar a unidade das celebrações e a sua progressão. Essa dinâmica ajuda a sentir a Páscoa como passagem. Assim, por exemplo, a celebração da Ceia do Senhor não deve aparecer como uma festa isolada da Eucaristia e do Sacerdócio (que também é), mas como uma verdadeira introdução à celebração pascal no seu todo, o que transparece logo desde o cântico de entrada (“Toda a nossa glória está na Cruz.…”). Significativamente, a primeira leitura apresentará a instituição da Páscoa do AT (Ex 12, 1-8.11-14). E a celebração termina sem despedida da assembleia; o mesmo acontecerá em 6.ª Feira Santa. Como se estivessem em assembleia contínua, os fiéis só serão despedidos solenemente no final da Vigília pascal!

            O Tríduo põe problemas pastorais não indiferentes. À sua principalidade no ordenamento litúrgico deveria corresponder a excelência da realização celebrativa: deveriam intervir todos os ministros previstos, escolhendo-se aqueles que, objetivamente, são os mais capazes e apostando, em geral na qualidade de todas as propostas: os melhores leitores, os melhores salmistas, os melhores acólitos, a melhor música, as melhores homilias… Infelizmente, porém, estamos longe desse ideal: as férias e mobilidade (“nomadismo”?), que caracterizam a nossa época, dispersam as comunidades. Em alguns casos, quase que as dissolvem. Geralmente – sobretudo em ambiente urbano – impedem-nas de poder contar com todos aqueles que nelas se costumam integrar. E na hora de programar a celebração, a lista das disponibilidades coloca sérios obstáculos à concretização do ideal.

            Que solução para este problema pastoral? Com quem vamos celebrar a Páscoa? Ou/e, falando na perspetiva de quem tem emigrantes-ausentes a par de imigrantes-visitantes, quem vem celebrar a Páscoa connosco? Não temos soluções no bolso para partilhar, apenas sugestões modestas e, porventura, utópicas:

            – Há que aprofundar o sentido da pertença dos cristãos às respetivas comunidades e, no caso daqueles que desempenham ministérios e serviços litúrgicos, apelar ao sentido da responsabilidade para com a assembleia.

            – Há que antecipar com realismo a situação mediante uma preparação e programação mais antecipada das celebrações mais importantes.

            – Há que apostar, corajosamente na concentração das assembleias, contrariando hábitos arreigados e supostos “direitos adquiridos”. E doi muito, nomeadamente quando várias paróquias, que “sempre” foram autárquicas e com direito a tudo, de repente se sentem anexadas e confiadas a um só pastor! As resistências e inércias são tenazes e, às vezes, agressivas. Não basta sabedoria, pedagogia, prudência: é preciso uma grande dose de fortaleza e paciência. Os párocos sentem-no bem, no coração e na pele e, perante a oposição, por vezes, desistem. Aqui recordamos que, em princípio as celebrações são únicas, tanto para as comunidades como para os celebrantes. Os paroquianos das várias paróquias confiadas ao mesmo pároco, os membros das diferentes comunidades religiosas, grupos e associações são convidados a participar nas celebrações realizadas nas igrejas principais (ou de turno), reunindo esforços e congregando disponibilidades.

            Todos os gruposassociações e obras, paroquiais ou inter-paroquiais, deveriam ser ajudados a viver com a Igreja ao ritmo da Liturgia. No seu plano anual de atividades não deveria faltar a exigência de uma participação consciente e responsável nas celebrações do Tríduo Pascal. in Voz Portucalense.

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Lava-pés: introdução à Páscoa

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

  1. João diz-nos que Jesus, sabendo que chegara a hora de “passar” deste mundo para o Pai, tirou o manto, pôs uma toalha à cintura, deitou água numa bacia e lavou os pés aos discípulos (Jo13, 1-15). Este gesto de Jesus é repetido e lembrado pela Igreja, na Missa Vespertina da Ceia do Senhor (Quinta-Feira Santa).

Hoje, como ontem, é um gesto impressionante e, até, chocante. Lavar os pés a alguém era para os judeus (e para os orientais, em geral) um gesto de grande hospitalidade. Abraão ofereceu água aos três misteriosos visitantes (Gn 18, 4) para lavar os pés e descansarem. E seria prática comum lavar os pés ao peregrino, a esposa ao marido, os filhos ao pai. A pecadora (Lc 7, 36 ss.) lavou e perfumou os pés de Jesus. Muito embora não fosse tarefa exclusiva de escravos, não deixava de ser, contudo, um gesto de humilde submissão. Por isso, até podemos compreender a estranheza e oposição de Pedro à provocante inversão de funções imposta por Jesus. O gesto de Jesus era mais que um sinal de hospitalidade, adquiria um profundo sentido profético: Jesus sempre compreendera toda a Sua vida como um serviço e agora dispunha-Se a entregá-la no ato supremo do Seu sacrifício pascal. Em S. João, o lava-pés inaugura a 2.ª parte do seu evangelho em que se narra a sua glorificação, o Seu regresso ao Pai, a “subida”, com a Sua Páscoa (passagem), através da Morte na Cruz, expressão máxima do seu «amor até ao fim» e nascente do Espírito.

O simbolismo do gesto, na história da Liturgia, sofreu uma outra interpretação. Documentos dos primeiros séculos apresentam-no ligado ao Bautismo. Inclusivamente, em várias igrejas, realizava-se na Vigília Pascal, quer antes quer depois do batismo. Cedo esta prática foi superada (cf. Conc. Elvira, ano 305, can 48: AL 2153; contudo, Ambrósio de Milão e Cromácio de Aquileia ainda conhecem tal prática). O sentido do serviço e da humildade (e também da hospitalidade) acabou por prevalecer, também por influência do ambiente monástico. A ele se juntou o hino “Ubi caritas”, sublinhando o mandato do Senhor (mandamento novo).

Mas apesar dos diversos sentidos (daí a riqueza simbólica), importa situá-lo no contexto – a Páscoa do Senhor – e no conjunto celebrativo: o Tríduo Pascal. A Celebração litúrgica de Quinta-Feira Santa é o prólogo do Tríduo, com os dois gestos indissociáveis: lava-pés (João) e instituição do memorial eucarístico (Sinóticos). Convidamos à contemplação dos famosos mosaicos de São Marcos, Veneza, com a reprodução paralela de ambos os episódios. Um e outro, em diferentes níveis, introduzem e como que antecipam a celebração pascal com a entrega total de Cristo. Determo-nos exclusivamente num, desligado do outro, é não captar a densidade mistérica que o símbolo evoca e põe em movimento.

Esta consideração impele-nos a uma interpretação simbólico-sacramental e não mimética (reprodução cénica, representação teatral em contexto litúrgico). Já com Paulo VI, ao omitir-se, no novo Missal, a restrição numérica – passou a falar-se em «homens designados» e não em «doze homens designados», como na reforma de 1955 – se insinuava que o objetivo não era o de reproduzir uma cena evangélica, mas sim o de reviver a atitude de Jesus. Na mesma linha se situou a alteração de 21 de janeiro de 2016, ao superar a restrição de sexo. O novo Missal português, posterior a essa reformulação, limita-se a dizer: «As pessoas escolhidas entre o povo de Deus…». Pretendeu-se, com tal revisão da rubrica, que «o modo de realizar o rito do Lava-pés fosse melhorado em ordem a exprimir mais plenamente o sentido do gesto realizado por Jesus no Cenáculo, o seu dar-se “até ao fim” pela salvação do mundo, a sua caridade sem limites». Explica o Decreto que os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis representativo da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus: homens e mulheres, jovens e anciãos, pessoas saudáveis e enfermas, do clero, consagrados e leigos… O Comentário, então publicado pelo Dicastério, explicou o que se pretendia com a mudança: «não a imitação exterior daquilo que Jesus fez, mas sim ao significado daquilo que realizou com dimensão universal, isto é, o dar-se “até ao fim” pela salvação do género humano, naquela caridade que abraça a todos e os torna irmãos na prática do seu exemplo».

Concluindo: o lava-pés, não sendo obrigatório, é conveniente. A rubrica explicita: «onde razões pastorais o aconselhem» (n. 10). Se possível, não se perca um gesto tão rico e expressivo que, sendo bem realizado, diz mais que muitas palavras. Não é necessário que sejam doze os escolhidos para o rito (não se trata de reposição teatral), mas é conveniente que sejam representativos da comunidade celebrante. Prepare-se muito bem o lugar (visível), a bacia e a toalha (expressivas e belas) e todo o desenvolvimento do rito (com sobriedade e ritmo). Este gesto forte, símbolo da caridade daquele que nos amou ilimitadamente, disporá a comunidade a celebrar o Mistério da Cruz, a suprema entrega do nosso Redentor. Bem a propósito, a rubrica 14 sugere que imediatamente a seguir, na procissão de oferendas, com o pão e o vinho para a Eucaristia, se levem oferendas para os pobres, enquanto se canta o hino Ubi caritas: «Onde a caridade é verdadeira, aí habita Deus».

                                                + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IAtos 10,34a.37-43

Leitura dos Atos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio,
porque Deus estava com Ele.
Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez
no país dos Judeus e em Jerusalém;
e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz.
Deus ressuscitou-O ao terceiro dia
e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo,
mas às testemunhas de antemão designadas por Deus,
a nós que comemos e bebemos com Ele,
depois de ter ressuscitado dos mortos.
Jesus mandou-nos pregar ao povo
e testemunhar que ele foi constituído por Deus
juiz dos vivos e dos mortos.
É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho:
quem acredita n’Ele
recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

CONTEXTO

            A obra de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) aparece entre os anos 80 e 90, numa fase em que a Igreja já se encontra organizada e estruturada, mas em que começam a surgir “mestres” pouco ortodoxos, com propostas doutrinais estranhas e, às vezes, pouco cristãs. Neste ambiente, as comunidades cristãs começam a necessitar de critérios claros que lhes permitam discernir a verdadeira doutrina de Jesus, da falsa doutrina dos falsos mestres.

            Lucas apresenta, então, a Palavra de Jesus, transmitida pelos apóstolos sob o impulso do Espírito Santo: é essa Palavra que contém a proposta libertadora que Deus quer apresentar aos homens. Nos Atos, em especial, Lucas mostra como a Igreja nasce da Palavra de Jesus, fielmente anunciada pelos apóstolos; será esta Igreja, animada pelo Espírito, fiel à doutrina transmitida pelos apóstolos, que tornará presente o plano salvador do Pai e o fará chegar a todos os homens.

            Neste texto, em concreto, Lucas propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. Act 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. Act 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze (o etíope de que se fala em Act 8,26-40 já era “prosélito”, isto é, simpatizante do judaísmo). Significa que a vida nova que nasce de Jesus é para todos os homens. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir das seguintes coordenadas:

  • A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”. Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta, em gestos concretos, a sua entrega aos irmãos, está a construir vida nova e plena. Eu estou a ressuscitar (porque caminho pelo mundo fazendo o bem e libertando os oprimidos), ou a minha vida é um repisar os velhos esquemas do egoísmo, do orgulho, do comodismo?
  • A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, a injustiça, deixam de ter poder sobre o homem que ama, que se dá, que partilha a vida. Ele tem assegurada a vida plena – essa vida que os poderes do mundo não podem destruir, atingir ou restringir. Ele pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé. Estou consciente disto, ou deixo-me dominar pelo medo, sempre que tenho de agir para combater aquilo que rouba a vida e a dignidade, a mim e a cada um dos meus irmãos?
  • Aos discípulos pede-se que sejam as testemunhas da ressurreição. Nós não vimos o sepulcro vazio; mas fazemos, todos os dias, a experiência do Senhor ressuscitado, que está vivo e que caminha ao nosso lado nos caminhos da história. A nossa missão é testemunhar essa realidade; no entanto, o nosso testemunho será oco e vazio se o nosso testemunho não for comprovado pelo amor e pela doação (as marcas da vida nova de Jesus). in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão: Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.

A mão do Senhor fez prodígios,
a mão do Senhor foi magnífica.
Não morrerei, mas hei-de viver,
para anunciar as obras do Senhor.

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.

 

LEITURA II – Colossenses 3,1-4

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos:
Se ressuscitastes com Cristo,
aspirai às coisas do alto,
onde está Cristo, sentado à direita de Deus.
Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.
Porque vós morrestes,
e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar,
também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

CONTEXTO:

            Quando escreveu a Carta aos Colossenses, Paulo estava na prisão (em Roma?). Epafras, seu amigo, visitou-o e falou-lhe da “crise” por que estava a passar a Igreja de Colossos. Alguns doutores locais ensinavam doutrinas estranhas, que misturavam especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18), práticas ascéticas, rituais legalistas, prescrições sobre os alimentos e a observância de determinadas festas (cf. Col 2,16.21): tudo isso deveria (na opinião desses “mestres”) completar a fé em Cristo, comunicar aos crentes um conhecimento superior de Deus e dos mistérios cristãos e possibilitar uma vida religiosa mais autêntica. Contra este sincretismo religioso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo.

            O texto que nos é proposto como segunda leitura é a introdução à reflexão moral da carta (cf. Col 3,1-4,6). Depois de apresentar a centralidade de Cristo no projeto salvador de Deus (cf. Col 1,13-2,23), Paulo recorda aos cristãos de Colossos que é preciso viver de forma coerente e verdadeiro o compromisso assumido com Cristo. in Dehonianos

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar as seguintes questões, na reflexão:

  • O batismo introduz-nos numa dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado. Tenho consciência de que o meu batismo significou um compromisso com Cristo? Quando, de alguma forma, tenho um papel ativo na preparação ou na celebração do sacramento do batismo, tenho consciência – e procuro passar essa mensagem – de que o sacramento não é um ato tradicional ou social (que, por acaso, até proporciona fotografias bonitas), mas um compromisso sério e exigente com Cristo?
  • A minha vida tem sido uma caminhada coerente com esta dinâmica de vida nova que começou no dia em que fui batizado? Esforço-me, realmente, por me despojar do “homem velho”, egoísta e escravo do pecado, e por me revestir do “homem novo”, que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço, na doação aos irmãos? in Dehonianos.

SEQUÊNCIA DA PÁSCOA

À Vítima pascal
ofereçam os cristãos
sacrifícios de louvor.

O Cordeiro resgatou as ovelhas:
Cristo, o Inocente,
reconciliou com o Pai os pecadores.

A morte e a vida
travaram um admirável combate:
Depois de morto,
vive e reina o Autor da vida.

Diz-nos, Maria:
Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo
e a glória do Ressuscitado.
Vi as testemunhas dos Anjos,
vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:
precederá os seus discípulos na Galileia.

Sabemos e acreditamos:
Cristo ressuscitou dos mortos:
Ó Rei vitorioso,
tende piedade de nós.

 

EVANGELHO – João 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predileto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro,
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

CONTEXTO:

            Na primeira parte do Quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42), João descreve a atividade criadora e vivificadora do Messias (o último passo dessa atividade destinada a fazer surgir o Homem Novo é, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresenta a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para si, mas faz da sua vida um dom radical ao Pai e aos irmãos); na segunda parte (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da ação de Jesus: a comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé n’Ele. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

  • A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro: o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida, só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar realização, felicidade, vida plena. É verdade que é esta a perspetiva da cultura dominante; é verdade que é esta a perspetiva de muitos cristãos (representados na figura de Simão Pedro). Como me situo face a isto?
  • A ressurreição de Jesus prova, precisamente, que a vida plena, a vida total, a transfiguração total da nossa realidade finita e das nossas capacidades limitadas passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências. Tenho consciência disso? É nessa direção que conduzo a caminhada da minha vida?
  • Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositada na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.
  • A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante, ao incompreensível. O Evangelho de hoje sugere que é, precisamente aí que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova. in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura é marcada por um longo discurso de Pedro anunciando a ressurreição de Jesus. A proclamação desta leitura deve ter em atenção as longas frases com diversas orações que exigem um especial cuidado na respiração e nas pausas.

            A brevidade da segunda leitura tirada da Carta aos Colossenses, não deve diminuir o cuidado na sua preparação. A ressurreição de Cristo é fonte de transformação da vida dos fiéis. Deste modo, a proclamação desta leitura deve ser marcada pelo tom exortativo, valorizando as formas verbais no imperativo:” aspirai e “afeiçoai-vos”.

 

ANEXOS:

Domingo de Ramos na Paixão do Senhor – Ano A – 29.03.2026

Viver a Palavra

            Com a celebração do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor damos início à Semana Santa onde somos convidados a fixar o nosso olhar na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. A Semana Santa inicia e termina com um evangelho de festa, marcado pela alegria. Iniciamos a celebração deste Domingo com a proclamação do Evangelho que narra a entrada de Jesus em Jerusalém onde é aclamado com brados de alegria e de júbilo que ainda hoje repetimos na celebração da Eucaristia: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» e na soleníssima noite de Páscoa haveremos de escutar o solene anúncio da Ressurreição gloriosa. Contudo, esta moldura de alegria e de festa encerra no seu interior a paixão e morte, o duro caminho da paixão que escutamos no Evangelho da missa.

            No atual contexto social e eclesial que estamos a atravessar, nas dificuldades pessoais ou alheias com que nos deparamos no quotidiano, haveremos de ter sempre presente esta moldura de alegria e de festa que encerra a paixão e morte de Jesus. Diante das dificuldades, exigências e sofrimentos, com toda a certeza, levantamos tantas perguntas e assaltam ao nosso coração tantas dúvidas e incertezas. Podemos até fazer a nossa oração a partir das palavras que Jesus proclama na cruz e que cantávamos no salmo: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». Alguns exegetas afirmam que uma tradução mais fiel deste versículo deveria ser: «Meu Deus, meu Deus, porque me fizeste chegar até aqui?». Na verdade, estas palavras podem muito bem ser o ecoar da nossa oração, em tantas circunstâncias que atravessamos, e quão bom seria se elas traduzissem a atitude de quem se coloca humildemente diante do mistério da dor e do sofrimento. Não temos respostas, nem fórmulas mágicas e instantâneas, mas temos a humilde confiança de quem se sabe amado por um Deus que não é indiferente às nossas dores e angústias e podemos proclamar como escutávamos na primeira leitura: «o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido».

            O nosso Deus não nos desilude e a confiança que depositamos nele há-de abrir-nos ao horizonte de alegria e de festa que a Páscoa do Senhor nos aponta. Se Jesus nos convida à alegria e à felicidade, à conversão e à santidade, também desce à dor e ao sofrimento para nos ensinar a arte de estar ali onde o amor se faz mais exigente. Jesus sobe até à cruz, abraça a dor e sofrimento, porque o amor é tanto mais verdadeiro, quanto mais se realiza em gestos concretos de compaixão e misericórdia. Entre os muitos deveres do amor está aquele primeiro de estar ali, precisamente ali, onde está o amado. Por isso, Jesus vai até ao sofrimento e à morte, porque Ele sabe bem que a nossa frágil humanidade atravessa caminhos de dor e de sofrimento. Contudo, também aprendemos com Jesus que a nossa dor e sofrimento se abrem à alegria pascal que a manhã de Páscoa nos há-de trazer.

            Sobre a terra, no meio dos nossos limites e fracassos, é tempo de caminhar humilde e confiadamente a estrada da fragilidade fortalecida pelo amor e pela graça e, um dia, haveremos de compreender ou pelo menos entrever não o «porquê?», mas o «para quê?» destes tempos difíceis e exigentes. Durante a paixão e morte de Jesus os discípulos não foram capazes de compreender o modo livre, disponível e confiante com que Jesus se entregava à vontade do Pai, mas na manhã de Páscoa e na força transformadora do dia de Pentecostes os discípulos viram abrir-se os seus olhos e os seus corações para alegria nova que o amor transporta. Por isso, que as horas exigentes de dor e desilusão nos conduzam sempre ao dia esplendoroso, onde celebraremos juntos a alegria do amor que vence as trevas e que enche de esperança as nossas vidas. in Voz Portucalense.

+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

           

            No dia 25 de março a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor. Neste dia, recordamos o anúncio do Arcanjo Gabriel a Maria, comunicando-lhe o desígnio do Pai de que Ela foi escolhida para acolher no Seu seio virginal o Salvador do Mundo. Neste dia, somos convidados a meditar no mistério de amor que esta solenidade encerra: o nosso Deus não é indiferente às nossas dores e sofrimentos, mas compadecido da nossa frágil humanidade vem ao nosso encontro e em Jesus Cristo faz-se homem no seio de Maria. A recitação dos mistérios gozosos do Rosário, a Liturgia das Horas ou a meditação dos textos litúrgicos desta solenidade são algumas das formas com que podemos dinamizar este dia. in Voz Portucalense.

                                               + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 50,4-7

Leitura do Livro de Isaías

O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,
para que eu saiba dizer uma palavra de alento
aos que andam abatidos.
Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos,
para eu escutar, como escutam os discípulos.
O Senhor Deus abriu-me os ouvidos
e eu não resisti nem recuei um passo.
Apresentei as costas àqueles que me batiam,
e a face aos que me arrancavam a barba;
não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.
Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio,
e, por isso, não fiquei envergonhado;
tornei o meu rosto duro como pedra,
e sei que não ficarei desiludido.

CONTEXTO

            No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um “servo de Jahwéh”, que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem carácter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projetos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detratores e adversários.

            Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.

            O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode tocar os seguintes aspetos:

  • Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens… A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.
  • Jesus, o “servo” sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?
  • Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 21 (22)

Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me veem escarnecem de mim,
estendem os lábios e meneiam a cabeça:
«Confiou no Senhor, Ele que o livre,
Ele que o salve, se é seu amigo».

Matilhas de cães me rodearam,
cercou-me um bando de malfeitores.
Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,
posso contar todos os meus ossos.

Repartiram entre si as minhas vestes
e deitaram sortes sobre a minha túnica.
Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,
sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,
hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.
Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,
glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob,
reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

LEITURA II – Filipenses 2,6-11

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Filipenses

Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.

CONTEXTO

A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afeto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita… O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.

            É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajetória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes desenvolvimentos:

  • Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com autossuficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
  • Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?
  • Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de “perdedores” e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena. in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 26,14 – 27,66

N Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

N Naquele tempo,
um dos doze, chamado Judas Iscariotes,
foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:
R «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»
N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
E a partir de então,
Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos,
os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:
R «Onde queres que façamos os preparativos
para comer a Páscoa?»
N Ele respondeu:
J «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe:
‘O Mestre manda dizer:
O meu tempo está próximo.
É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa
com os meus discípulos’».
N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado,
e prepararam a Páscoa.

N Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze.
Enquanto comiam, declarou:
J «Em verdade vos digo:
Um de vós há-de entregar-Me».
N Profundamente entristecidos,
começou cada um a perguntar-Lhe:
R «Serei eu, Senhor?»
N Jesus respondeu:
J «Aquele que meteu comigo a mão no prato
é que há-de entregar-Me.
O Filho do homem vai partir,
como está escrito acerca d’Ele.
Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue!
Melhor seria para esse homem não ter nascido».
N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:
R «Serei eu, Mestre?»
N Respondeu Jesus:
J «Tu o disseste».

N Enquanto comiam,
Jesus tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:
J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».
N Tomou em seguida um cálice,
deu graças e entregou-lho, dizendo:
J «Bebei dele todos,
porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança,
derramado pela multidão,
para remissão dos pecados.
Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira,
até ao dia em que beberei convosco
o vinho novo no reino de meu Pai».

N Cantaram os salmos
e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N Então, Jesus disse-lhes:
J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa,
como está escrito:
‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’.
Mas, depois de ressuscitar,
preceder-vos-ei a caminho da Galileia».
N Pedro interveio, dizendo:
R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa,
eu não me escandalizarei».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Em verdade te digo:
Esta mesma noite, antes do galo cantar,
Me negarás três vezes».
N Pedro disse-lhe:
R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».
N E o mesmo disseram todos os discípulos.

N Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade,
chamada Getsémani
e disse aos discípulos:
J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».
N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu,
começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.
Disse-lhes então:
J «A minha alma está numa tristeza de morte.
Ficai aqui e vigiai comigo».
N E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra,
enquanto orava e dizia:
J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice.
Todavia, não se faça como Eu quero,
mas como Tu queres».
N Depois, foi ter com os discípulos,
encontrou-os a dormir e disse a Pedro:
J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo!
Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.
O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N De novo Se afastou, pela Segunda vez, e orou, dizendo:
J «Meu Pai,
se este cálice não pode passar sem que Eu o beba,
faça-se a tua vontade».
N Voltou novamente e encontrou-os a dormir,
pois os seus olhos estavam pesados de sono.
Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez,
repetindo as mesmas palavras.
Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:
J «Dormi agora e descansai.
Chegou a hora em que o Filho do homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores.
Levantai-vos, vamos.
Aproxima-se aquele que Me vai entregar».
N Ainda Jesus estava a falar,
quando chegou Judas, um dos Doze,
e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus,
enviada pelos príncipes dos sacerdotes
e pelos anciãos do povo.
O traidor tinha-lhes dado este sinal:
R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».
N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:
R «Salve, Mestre!».
N E beijou-O.
Jesus respondeu-lhe:
J «Amigo, a que vieste?».
N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus
e prenderam-n’O.
Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada,
desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote,
cortando-lhe uma orelha.
Jesus disse-lhe:
J «Mete a tua espada na bainha,
pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada.
Pensas que não posso rogar a meu Pai
que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos?
Mas como se cumpririam as Escrituras,
segundo as quais assim tem de acontecer?».
N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:
J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender
como se fosse um salteador!
Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar
e não Me prendestes…
Mas, tudo isto aconteceu
para se cumprirem as Escrituras das profetas».
N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N Os que tinham prendido Jesus
levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás,
onde os escribas e os anciãos se tinham reunido.
Pedro foi-O seguindo de longe,
até ao palácio do sumo sacerdote.
Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas,
para ver como acabaria tudo aquilo.
Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio
procuravam um testemunho falso contra Jesus
para O condenarem à morte,
mas não o encontravam,
embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas.
Por fim, apresentaram-se duas que disseram:
R «Este homem afirmou:
‘Posso destruir o templo de Deus
e reconstruí-lo em três dias’».
N Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:
R «Não respondes nada?
Que dizes ao que depõem contra Ti?»
N Mas Jesus continuava calado.
Disse-Lhe o sumo sacerdote:
«Eu Te conjuro pelo Deus vivo,
que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».
N Jesus respondeu-lhe:
J «Tu o disseste.
E Eu digo-vos:
vereis o Filho do homem
sentado à direita do Todo-poderoso,
vindo sobre as nuvens do céu».
N Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:
R «Blasfemou.
Que necessidade temos de mais testemunhas?
Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»
N Eles responderam:
R «É réu de morte».
N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas.
Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:
R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio.
Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:
R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».
N Mas ele negou diante de todos, dizendo:
R «Não sei o que dizes».
N Dirigindo-se para a porta,
foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:
R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».
N E, de novo, ele negou com juramento:
R «Não conheço tal homem».
N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam
e disseram a Pedro:
R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».
N Começou então a dizer imprecações e a jurar:
R «Não conheço tal homem».
N E, imediatamente, um galo cantou.
Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera:
«Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes».
E, saindo, chorou amargamente.

Ao romper da manhã,
todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo
se reuniram em conselho contra Jesus,
para Lhe darem a morte.
Depois de Lhe atarem as mãos,
levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos.

Então Judas, que entregara Jesus,
vendo que Ele tinha sido condenado,
tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:
R «Pequei, entregando sangue inocente».
N Mas eles replicaram:
R «Que nos importa? É lá contigo».
N Então, arremessou as moedas para o santuário,
saiu dali e foi-se enforcar.
Mas os príncipes dos sacerdotes
apanharam as moedas e disseram:
R «Não se podem lançar no tesouro,
porque são preço de sangue».
N E, depois de terem deliberado,
compraram com elas o Campo do Oleiro.
Por este motivo se tem chamado àquele campo,
até ao dia de hoje, «Campo de Sangue».
Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta:
«Tomaram trinta moedas de prata,
preço em que foi avaliado
Aquele que os filhos de Israel avaliaram
e deram-nas pelo Campo do Oleiro,
como o Senhor me tinha ordenado».

N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador,
que lhe perguntou:
R «Tu és o Rei dos judeus?»
N Jesus respondeu:
J «É como dizes».
N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes
e pelos anciãos, nada respondeu.
Disse-Lhe então Pilatos:
R «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»
N Mas Jesus não respondeu coisa alguma,
a ponto de o governador ficar muito admirado.

Ora, pela festa da Páscoa,
o governador costumava soltar um preso,
à escolha do povo.
Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás.
E, quando eles se reuniram, disse-lhes:
R «Qual quereis que vos solte?»
Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»
N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.
Enquanto estava sentado no tribunal,
a mulher mandou-lhe dizer:
R «Não te prendas com a causa desse justo,
pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».

N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos
persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás
e fizesse morrer Jesus.
O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:
R «Qual dos dois quereis que vos solte?»
N Eles responderam:
R «Barrabás».
N Disse-lhes Pilatos:
R «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»
N Responderam todos:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?»
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos insistiu:
R «Que mal fez Ele?»
N Mas eles gritavam cada vez mais:
R «Seja crucificado».
N Pilatos, vendo que não conseguia nada
e aumentava o tumulto,
mandou vir água
e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:
R «Estou inocente do sangue deste homem.
Isso é lá convosco».
N E todo o povo respondeu:
R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».
N Soltou-lhes então Barrabás.
E, depois de ter mandado açoitar Jesus,
entregou-lh’O para ser crucificado.
Então os soldados do governador
levaram Jesus para o pretório
e reuniram à volta d’Ele toda a coorte.
Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho.
Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça
e colocaram uma cana na sua mão direita.
Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:
R «Salve, rei dos judeus!»
N Depois, cuspiam-Lhe no rosto
e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.
Depois de O terem escarnecido,
tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas
e levaram-n’O para ser crucificado.

N Ao saírem,
encontraram um homem de Cirene, chamado Simão,
e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus.
Chegados a um lugar chamado Gólgota,
que quer dizer lugar do Calvário,
deram-Lhe a beber vinho misturado com fel.
Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber.
Depois de O terem crucificado,
repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte,
e ficaram ali sentados a guardá-l’O.
Por cima da sua cabeça puseram um letreiro,
indicando a causa da sua condenação:
«Este é Jesus, o rei dos judeus».

Foram crucificados com Ele dois salteadores,
um à direita e outro à esquerda.
Os que passavam insultavam-n’O
e abanavam a cabeça, dizendo:
R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias,
salva-Te a Ti mesmo;
Se és Filho de Deus, desce da cruz».
N Os príncipes dos sacerdotes,
juntamente com os escribas e os anciãos,
também troçavam d’Ele, dizendo:
R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo!
Se é o Rei de Israel,
desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele.
Confiou em Deus:
Ele que O livre agora, se O ama,
porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».
N Até os salteadores crucificados com Ele o insultavam.

Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
as trevas envolveram toda a terra.
E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eli, Eli, lema sabachtani!»,
N que quer dizer:
«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»
Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:
R «Está a chamar por Elias».
N Um deles correu a tomar uma esponja,
embebeu-a em vinagre,
pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber.
Mas os outros disseram:
R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».
N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes,
de alto a baixo;
a terra tremeu e as rochas fenderam-se.
Abriram-se os túmulos
e muitos dos corpos de santos que tinham morrido
ressuscitaram;
e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus,
entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus,
ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer,
ficaram aterrados e disseram:
R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres
que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.
Entre elas encontrava-se Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago e de José,
e a mãe dos filhos de Zebedeu.
Ao cair da tarde,
veio um homem rico de Arimateia, chamado José,
que também se tinha tornado discípulo de Jesus.
Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus.
E Pilatos ordenou que lho entregassem.
José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo
e depositou-o no seu sepulcro novo
que tinha mandado escavar na rocha.
Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro,
e retirou-se.
Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria,
sentadas em frente do sepulcro.

No dia seguinte, isto é, depois da Preparação,
os príncipes dos sacerdotes e os fariseus
foram ter com Pilatos e disseram-lhe:
R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse
quando ainda era vivo:
‘Depois de três dias ressuscitarei’.
Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança
até ao terceiro dia,
para que não venham os discípulos roubá-lo
e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’.
E a última impostura seria pior do que a primeira».
N Pilatos respondeu:
R «Tendes à vossa disposição a guarda:
ide e guardai-o como entenderdes».
N Eles foram e guardaram o sepulcro,
selando a pedra e pondo a guarda.

CONTEXTO

            O Evangelho segundo Mateus começa por apresentar Jesus (cf. Mt 1,1-4,22). Descreve, depois, o anúncio central de Jesus: nas suas palavras e nos seus gestos, Jesus anuncia esse mundo novo a que Ele chama “o Reino dos céus” (cf. Mt 4,23-9,35). Do anúncio do “Reino” nasce a comunidade dos discípulos,  isto é, nasce um grupo que assimila as propostas de Jesus (cf. Mt 9,36-12,50). Os discípulos são a “comunidade do Reino”: instruídos por Jesus, formados na mentalidade do “Reino”, os discípulos recebem a missão de testemunhar o “Reino”, após a partida de Jesus (cf. Mt 13,1-17,27). Na parte final do seu Evangelho, Mateus descreve a rutura final de Jesus com o judaísmo (cf. Mt 18,1-25,46) e o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição (cf. Mt 26,1-28,15).

            A leitura que hoje nos é proposta é o relato da paixão de Jesus. Descreve como o anúncio do Reino choca com a mentalidade da opressão e, portanto, conduz à cruz e à morte; no entanto, não podemos dissociar os acontecimentos da paixão daqueles que celebraremos no próximo domingo: a ressurreição é a prova de que Jesus veio de Deus e tinha um mandato do Pai para tornar realidade no mundo o “Reino dos céus”. in Dehonianos.

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

  • Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil… Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes.
  • Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor… Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente na sua proclamação. Requer uma leitura pausada e atenta que exprima toda a densidade e intensidade dramática do texto. A última frase exige uma especial atenção para que se possa transmitir a confiança e esperança que o auxílio de Deus oferece.

            A segunda leitura é um hino litúrgico e poético e apresenta duas partes distintas: uma primeira mais dramática e uma segunda mais jubilosa e marcada pela exaltação de Jesus. A proclamação desta leitura deve ter presente todos estes elementos. A narrativa evangélica da Paixão do Senhor, na ausência de diáconos, pode ser lida por mais dois leitores, reservando a parte de Cristo ao sacerdote. Tendo em conta os diversos diálogos e a dimensão do texto, aqueles que participam na leitura devem fazer uma acurada preparação das diversas intervenções ao longo do texto.

  

 

ANEXOS:

Domingo V do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.03.2026

Viver a Palavra

            Betânia aparece no Evangelho como a cidade da amizade. A casa de Marta, Maria e Lázaro é sinal de acolhimento e descanso, de proximidade e cuidado: Maria tinha ungido o Senhor com perfume e tinha-lhe enxugado os pés com os cabelos, Maria sentada aos pés de Jesus escutava com docilidade e alegria a palavra do Mestre, Marta enchia-se de cuidados para que nada faltasse Aquele que a visitava e Lázaro é aquele que tem o nome de amigo de Jesus.

            A amizade é um dos mais belos sinais do amor de Deus e a escritura afirma que «um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, descobriu um tesouro» (Sir 6,14). A amizade permite multiplicar e celebrar as vitórias e conquistas da vida, mas também dividir o peso das dificuldades e encontrar forças para o caminho, quando se torna exigente e difícil.

            A Liturgia da Palavra deste quinto Domingo da Quaresma apresenta-nos também um quadro raro da narrativa evangélica, que só a grande amizade que une Jesus e Lázaro consegue explicar: Jesus chora. Nos evangelhos, encontramos apenas dois momentos em que Jesus chora: a morte do seu amigo Lázaro (Jo 11,35) e sobre a cidade de Jerusalém (Lc 19,41).

            Diante do túmulo de Lázaro, Jesus chorou, levando os presentes a afirmar: «vede como era seu amigo». As Suas lágrimas, junto ao túmulo de Lázaro e sobre a cidade de Jerusalém são sinal do amor que sente pela humanidade. Jesus ama-nos e não quer que nenhum se perca, por isso, veio ao nosso encontro, assumiu a nossa humanidade, desceu às águas do Jordão para ser batizado, acolheu com ternura e misericórdia os doentes e os marginalizados, foi ao encontro dos pecadores e rejeitados e levou esse amor às últimas consequências abraçando a cruz e abrindo para nós as portas da ressurreição e da vida nova.

            Jesus chora e ensina-nos a arte da compaixão. As lágrimas não são sinal de desespero ou de incapacidade de reagir diante do mal e do sofrimento, mas sinal de amor e compaixão diante das situações dramáticas da história. Jesus chora, mas não se detém no choro e no lamento. Dirige-se ao túmulo, pede que removam a pedra, dá graças ao Pai e brada com voz forte para que Lázaro saia do túmulo.

            Diante das situações de dor e sofrimento pessoais e alheias não devemos ficar presos às nossas lágrimas e lamentos. Choramos e compadecemo-nos, mas devemos assumir uma atitude proactiva, capaz de responder com ousadia e coragem aos desafios que se colocam diante de nós. A misericórdia e a compaixão despertam o nosso coração e as nossas emoções, mas devem despertar também a nossa vida e a nossa ação. Com Jesus e como Jesus, acreditamos que o Pai nos escuta e, por isso, partimos na aventura do amor, na certeza de que a nossa ação unida à sua graça pode realizar maravilhas no aqui e agora do tempo e da história.

            Contudo, diante de nós coloca-se o grande desafio da fé que nos convida a depositar toda a nossa esperança em Jesus Cristo e no Seu amor. Como naquele dia a Marta, Jesus pergunta a cada um de nós: «acreditas nisto?». Acreditas que comigo os impossíveis se podem tornar possíveis? Acreditas que a fé abre diante de nós um caminho de esperança que vai muito para lá dos limites do visível e do palpável? Acreditas que quem caminha com Jesus recebe um modo novo de olhar o tempo e a história?

            Como nos recorda S. Paulo, batizados em Cristo somos já herdeiros da vida nova que brota da Páscoa do Senhor e, habitados pelo Espírito Santo, somos chamados a semear no aqui e agora do tempo e da história a certeza de que os sofrimentos e incertezas do tempo presente se hão-de abrir à plenitude do amor e da graça que brotam do coração de Deus. in Voz Portucalense.

+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IEzequiel 37,12-14

Assim fala o Senhor Deus:
«Vou abrir os vossos túmulos
e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo,
para vos reconduzir à terra de Israel.
Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor,
quando abrir os vossos túmulos
e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo.
Infundirei em vós o meu espírito e revivereis.
Hei de fixar-vos na vossa terra
e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei».

CONTEXTO

            Em 598 a.C. Nabucodonosor, rei da Babilónia, irritado pelas tentativas de Joaquim, rei de Judá, para se libertar do domínio babilónico, pôs cerco à cidade de Jerusalém. O rei Joaquim parece ter morrido durante o cerco da cidade (na versão de 2 Cr 36, contudo, Joaquim foi aprisionado e levado prisioneiro para a Babilónia). Sucedeu-lhe, no trono de Judá, o seu filho Joiaquin, que reinou apenas três meses (cf. 2Re 24,8-9), antes de cair nas mãos dos babilónios (cf. 2Re 24,10-16). O rei, a classe dirigente e todos aqueles que tinham alguma influência em Jerusalém foram deportados para a Babilónia (597 a.C.).

            Nabucodonosor instalou, então, no trono de Judá um tal Sedecias. Durante algum tempo, Judá manteve-se tranquilo, pagando pontualmente os tributos devidos aos babilónios; mas, ao fim de algum tempo, aproveitando a conjuntura política favorável, Sedecias aliou-se com os egípcios e deixou de pagar o tributo. Nabucodonosor enviou imediatamente um exército que cercou novamente Jerusalém. Apesar do socorro de um exército egípcio, Jerusalém teve de se render aos babilónios (586 a.C.). Sedecias tentou fugir da cidade; mas foi feito prisioneiro, viu os seus filhos serem assassinados e ele próprio foi levado prisioneiro para a Babilónia, onde acabou os seus dias.

            Ezequiel, chamado “o profeta da esperança”, deve ser colocado neste cenário. Pertencendo a uma família com alguma influência em Jerusalém, fez parte do primeiro grupo de exilados de Judá, levados para a Babilónia em 597 a.C. (no reinado de Joiaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém, pela primeira vez). Será na Babilónia que Ezequiel irá exercer a sua missão profética.

            A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades contra Javé) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

            A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou. As palavras que, nesta fase, Ezequiel dirige aos seus concidadãos são palavras de ânimo e de esperança.

            O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase do ministério profético de Ezequiel. Faz parte da famosa de um conjunto de “oráculos de salvação” (cf. Ez 33,1-39,29) que inclui a famosa “visão dos ossos calcinados” (cf. Ez 37). Nessa visão Ezequiel fala de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, esses ossos, vivificados pelo Espírito do Senhor, são revestidos de pele, de músculos e ganham nova vida. Nesta parábola, esses ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro no meio da planície mesopotâmica. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • O desânimo, a frustração, o desalento que, no séc. VI a.C. afetaram os habitantes de Judá exilados na Babilónia não são experiências completamente desconhecidas para nós. São realidades que a cada passo nos esperam ao virar da esquina. Sentimo-las quando somos obrigados a encarar a morte de alguém que nos é querido, quando enfrentamos o desmoronar dos laços familiares, quando somos surpreendidos pela traição de um amigo ou de alguém a quem amamos, quando carregamos o peso da solidão, quando temos de deixar para trás os nossos sonhos, quando nos sentimos afogados pelo medo, quando os nossos melhores esforços resultam em nada… A constatação da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa impotência paralisa-nos. Olhamos à volta à procura de Deus e Ele parece infinitamente distante; interpelamo-lo e Ele parece não nos responder… Estamos sozinhos, sem apoio e sem defesa? Deus não se interessa minimamente por nós? O profeta Ezequiel garantia aos exilados de Judá que Deus iria ajudá-los a “sair do sepulcro” e trazê-los de volta à terra nova da liberdade e da esperança. Como é que isto nos soa? Acreditamos que Deus é capaz de “escrever direito por linhas tortas” e tirar vida da morte? Apesar dos “acidentes” que a vida insiste em trazer-nos, conseguimos sentir a mão de Deus que nos segura e que nos dá confiança?
  • Pela voz profética de Ezequiel, Deus dizia ao seu povo: “infundirei em vós o meu espírito e revivereis”. Sim, Deus está mesmo disposto a fazer-nos “sair do sepulcro” em que muitas vezes nos deixamos encerrar. Esse espírito que Ele nos promete pode renovar-nos e transformar-nos: é o Espírito de Deus que elimina dos nossos corações o egoísmo, o orgulho, a ambição, a autossuficiência, a maldade, tudo isso que estraga a nossa vida; é o Espírito de Deus que gera nos nossos corações sentimentos de bondade, de generosidade, de misericórdia, de amor… Deus, no entanto, nunca forçará a nossa vontade, nunca nos obrigará a uma transformação que não queremos aceitar. Queremos acolher o Espírito de Deus? Existe em nós uma vontade sincera de nos deixarmos transformar por Ele?
  • É Deus que vem em nosso auxílio para nos tirar dos “túmulos” onde estamos encerrados; é Deus que infunde em nós o seu Espírito, esse Espírito que nos transforma, que nos renova, que nos faz reviver… No entanto Deus, tantas e tantas vezes, vem ao nosso encontro através de pessoas – como Ezequiel – que nos oferecem, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, a vida e o amor de Deus. Deus age no mundo e na vida dos homens através dos seus enviados. Talvez Deus também conte connosco para sermos, junto dos nossos irmãos, testemunhas e sinais da sua bondade e do seu amor. Dispomo-nos a colaborar com Deus e a gastar algum do nosso tempo a “curar” os males que ferem os irmãos que caminham ao nosso lado? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 129 (130)

Refrão 1: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

Refrão 2: No Senhor está a misericórdia, no Senhor está a plenitude da redenção.

 

Do profundo abismo chamo por Vós, Senhor,
Senhor, escutai a minha voz.
Estejam os vossos ouvidos atentos
à voz da minha súplica.

 

Se tiverdes em conta as nossas faltas,
Senhor, quem poderá salvar-se?
Mas em Vós está o perdão,
para Vos servirmos com reverência.

Eu confio no Senhor,
a minha alma espera na sua palavra.
A minha alma espera pelo Senhor
mais do que as sentinelas pela aurora.

Porque no Senhor está a misericórdia
e com Ele abundante redenção.
Ele há de libertar Israel
de todas as suas faltas.

 

LEITURA II – Romanos 8,8-11

Irmãos:
Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito,
se é que o Espírito de Deus habita em vós.
Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo,
não Lhe pertence.
Se Cristo está em vós,
embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado,
o espírito permanece vivo por causa da justiça.
E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos
habita em vós,
Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos,
também dará vida aos vossos corpos mortais,
pelo seu Espírito que habita em vós.

CONTEXTO

            Em meados do séc. I, Roma era a maior cidade do mundo, com aproximadamente um milhão de habitantes. Neste número estavam incluídos cerca de 50.000 judeus.

            Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

            Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. Depois disso, Paulo tinha a intenção de anunciar o Evangelho no ocidente: queria passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí dar testemunho de Jesus (cf. Rm 15,24-28).

            Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

            Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna.

            O nosso texto integra a primeira parte da Carta. Refere-se à “vida nova” daqueles que aderiram a Jesus e vivem “no Espírito”. Todo o capítulo oitavo é dedicado à vida no Espírito. É uma das mais ricas e mais belas páginas da catequese paulina. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Jesus, ao despedir-se dos discípulos, enviou-os a “batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (“ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado” – Mt 28,19). O momento do batismo ficou a ser, para os que seguidores a Jesus, o momento da opção pela proposta de Jesus, pela “vida no Espírito”. É possível que tenhamos sido batizados quando ainda não tínhamos consciência das coisas e que, mais tarde, não tenhamos tido vontade ou oportunidade de “validar” essa opção inicial; é possível, também, que as nossas opções de vida nos tenham levado por caminhos diferentes e que hoje, de forma consciente nos sintamos afastados dessa “vida no Espírito” de que fala Paulo… Nós, os que fomos batizados e que estamos contentes com essa opção, temos procurado viver de forma coerente a nossa vocação batismal e caminhamos “no Espírito”? Nós os que fomos batizados, mas depois nos desleixamos e deixamos de dar importância ao seguimento de Jesus, não gostaríamos de renovar o nosso compromisso batismal, de retomar o nosso contacto com Jesus e de viver de forma coerente com a opção que fizemos quando fomos batizados? Nós os que desistimos de Jesus e optamos conscientemente por outros caminhos, não estaríamos interessados em redescobrir a beleza de “viver no Espírito”, de procurar um sentido e uma realização mais completa da nossa vida?
  • O apóstolo Paulo assegura aos cristãos de Roma que quem escolheu identificar-se com Cristo – isto é, viver na obediência aos planos do Pai e no dom da vida em favor dos irmãos – está destinado a encontrar uma vida nova e plena, uma “vida eterna”. Aquilo que aconteceu com Cristo aponta exatamente nesse sentido. Ele recusou o egoísmo e a autossuficiência e escolheu cumprir o plano do Pai até às últimas consequências; Ele amou os seus irmãos até ao extremo e quis dar a própria vida para derrotar a injustiça, a violência, a maldade, a arrogância, a morte. Apesar de ter sofrido o vexame da cruz, na manhã de Páscoa saiu vitorioso do túmulo, foi glorificado e sentou-se à direita do Pai. Jesus mostrou-nos que uma vida vivida “no Espírito” não termina no fracasso e na morte, mas aponta à vida definitiva, à realização plena, à vida eterna. Evidentemente, a nossa vida nesta terra há de ter um fim; mas o Espírito que ressuscitou Jesus far-nos-á viver eternamente como filhos de Deus. Acreditamos nisto? A certeza dessa vida nova que nos espera dá-nos ânimo para, ao longo do caminho que percorremos na terra, fazermos escolhas segundo o Espírito? in Dehonianos

EVANGELHO – João 11,1-45

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus,
para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro.
Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te
e voltas para lá?»
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».
Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, está salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:
«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas, vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.
Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.
Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição, no último dia».
Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
E todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá.
Acreditas nisto?»
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.
Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.
Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,
ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.
Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,
comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?»
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?»
Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.
Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?»
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».
Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,
ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

 

CONTEXTO

            O Quarto Evangelho, escrito por volta do ano 100, é um belo ponto de chegada da reflexão cristológica feita ao longo do séc. I. Na sua génese estará, certamente, o testemunho do apóstolo João; mas o livro conserva a reflexão que a comunidade joânica (provavelmente a comunidade cristã de Éfeso) desenvolveu sobre Jesus a partir do testemunho deixado pelo apóstolo.

            O livro é de uma grande riqueza e não é fácil definir a sua estrutura. Mas diversos estudiosos do Quarto Evangelho fazem questão de dividi-lo em duas partes: o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,54) e o “Livro da Hora” (cf. Jo 11,55-19,42). No “Livro dos Sinais” são-nos apresentadas diversas “catequeses” – recorrendo a “sinais” como a água (cf. Jo 4,1-5,47), o pão (cf. Jo 6,1-71), a luz (cf. Jo 7,1-9,41), o pastor (cf. Jo 10,1-42), a vida que vence a morte (cf. Jo 11,1-56) – que mostram como o Messias, agindo de acordo com o projeto de Deus, faz nascer um Homem Novo, um Homem que vive segundo Deus. No “livro da Hora”, o Messias encaminha-se para a cruz e, oferece a própria vida por amor. Com a sua entrega, Ele mostra aos homens como devem viver e como devem amar. Os que aprendem com Jesus a lição do amor e se dispõem a viver como Ele viveu, formarão a nova comunidade, a Igreja de Jesus, vivificada pela água (batismo) e pelo sangue (eucaristia) que brotam do coração de Cristo.

            A narrativa da ressurreição de Lázaro integra o “Livro dos Sinais”. É a quinta “catequese” que esse “livro” nos oferece. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos. Propõe Jesus como aquele que é capaz de dar aos que a Ele aderem uma vida que supera a morte.

A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia situada no lado oriental do monte das Oliveiras, a cerca de 2.700 metros de Jerusalém. Atualmente a localidade tem o nome de El-Azariyeh, nome derivado de Lázaro. Quem a visita pode descer, ainda hoje, os vinte e quatro degraus que conduzem a um espaço onde a tradição situa o túmulo de Lázaro.

            O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família em questão, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: em Jo 11,5 diz-se que Jesus “era amigo” de Marta, de sua irmã (Maria) e de Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (cf. Jo 11,2, cf. Jo 12,1-8). in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Há em cada um de nós um desejo insaciável de vida e, por isso, passamos cada instante a lutar por mais e mais vida. Agarramo-nos à ciência e, sobretudo, à medicina para prolongarmos a nossa vida biológica tanto quanto possível. Contudo, apesar de todas as possibilidades que a ciência nos oferece para vencer as dores e enfermidades, deparamo-nos a cada instante com a nossa finitude, os nossos limites, o “tempo curto” da nossa caminhada aqui na terra. Sentimo-nos impotentes diante de uma realidade – a morte – que não podemos controlar e que parece pôr um ponto final nos nossos melhores sonhos, anseios, desejos, projetos e realizações. Porque é que não podemos prolongar para sempre a nossa vida? Porque é que temos de a certa altura, deixar aqueles que mais amamos? Que vai ser de nós quando se esgotar o nosso tempo aqui na terra? O que podemos fazer diante da realidade da morte? Muitos recusam-se a pensar nestas questões e limitam-se a aproveitar cada instante da existência o melhor possível, sem terem em conta qualquer horizonte futuro. Mas podemos, simplesmente, viver cada dia sem assumirmos uma atitude consciente e responsável sobre o nosso fim último, a realidade que nos espera depois da nossa peregrinação pela terra? Como equacionamos estas questões? Como nos situamos face a elas?
  • O autor do Quarto Evangelho oferece-nos hoje uma catequese sobre a temática da morte e da vida. A partir dos acontecimentos que enlutaram uma família amiga de Jesus (a morte de um homem chamado Lázaro, um dos membros dessa família), o nosso catequista diz-nos que a nossa vida nesta terra terá um fim e que isso é inevitável. Trata-se de algo que resulta da nossa finitude, dos nossos limites, da nossa debilidade, da nossa condição de criaturas. Mas a incontornável morte biológica não será o nosso fim, a última palavra de Deus sobre nós. Aquilo a que chamamos “morte” será uma espécie de “sono” do qual acordaremos nos braços amorosos do nosso Pai do céu. O crente não sabe mais do que os outros homens, nem tem uns óculos especiais para ver aquilo que os outros homens não conseguem ver; mas o crente aproxima-se da morte física com uma confiança radical na bondade, na misericórdia e no amor de Deus… Portanto, o crente acredita que a morte física não é destruição e aniquilação, mas sim a passagem para Deus, para a vida definitiva. Jesus, depois de dialogar com Marta, irmã de Lázaro, sobre esse horizonte de eternidade, perguntava-lhe: “acreditas nisto?” E nós, acreditamos nisto?
  • O “catequista” que nos conta a história de Lázaro, está convicto do poder salvador de Jesus. A sua certeza de que Jesus é fonte de vida é tão grande que, a certa altura, põe na boca de Jesus as seguintes palavras: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. O que é “acreditar” em Jesus? É aderir a Ele, escutar e acolher as suas palavras, viver ao seu estilo, assumir os seus valores, segui-l’O no caminho do amor, do serviço, do dom da própria vida. Ora, foi precisamente essa a opção que fizemos no dia do nosso batismo: “acreditar” em Jesus; e, ao fazê-lo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a vida eterna. Já agora: temos vivido de forma coerente com essa opção? Vivemos conscientes de que a fidelidade a Jesus é fonte de vida eterna?
  • O adeus definitivo a uma pessoa que nos é querida e que a morte nos arrebata mergulha-nos sempre numa dor sem remédio. Porque temos de perder aqueles que amamos e que enchem as nossas vidas de luz? A ausência, a saudade, deixam-nos um enorme vazio, um vazio que não conseguimos preencher senão com lágrimas. É mesmo assim: essas lágrimas são o preço do amor. O próprio Jesus, diante da “partida” do seu amigo Lázaro, chorou. A nossa relação com aquela pessoa que amávamos estará definitivamente terminada? O adeus que lhe dissemos será um adeus até nunca mais? Jesus, depois de chorar pelo seu amigo Lázaro, chegou ao sepulcro onde Lázaro estava e mandou tirar aquela pedra que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos. Queria, talvez, dizer que essa separação não tinha sentido. Avisaram-no de que Lázaro estava morto há quatro dias e que “já cheirava mal”. Jesus limita-se a gritar: “Lázaro, sai. E, à voz de Jesus, Lázaro sai para mostrar a todos que está vivo. Tem os pés e as mãos “enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário”. Traz consigo os sinais e as ligaduras da morte. No entanto, sai do sepulcro pelo seu próprio pé. Lázaro, sepultado há quatro dias, está vivo. O que é que o nosso “catequista” quer dizer com isto? Simplesmente que os nossos queridos mortos, aqueles de quem nos despedimos e abandonamos num sepulcro, estão vivos! Deus não os abandonou. Conscientes disso, retiremos a “pedra” que nos afasta dos que já partiram. Não os perdemos. Eles estão vivos. De junto de Deus, eles continuam a acompanhar-nos e a amar-nos. Isso não será, para nós, motivo de consolação e de esperança?
  • Estamos a percorrer o “caminho quaresmal”, o caminho que nos leva em direção à Páscoa, à vida nova, à Ressurreição. É uma boa oportunidade para redescobrirmos o compromisso que assumimos no dia do nosso batismo e para redirecionarmos o sentido da nossa existência. Talvez as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, estejam enfaixados por ligaduras que nos prendem na morte e que nos impedem de sair dos túmulos sujos em que nos deixamos encerrar pelo nosso egoísmo, pelo nosso comodismo, pelo nosso orgulho, pela nossa ambição, pela nossa autossuficiência… Talvez necessitemos de prestar atenção à voz de Jesus que nos chama (“Lázaro, sai) e que nos convida a começar uma vida nova, uma vida gloriosa e cheia de sentido. Quais são as “ataduras” que nos mantêm agarrados a uma vida de sombras e de escravidões? Nesta Páscoa, estamos dispostos a ressuscitar com Jesus e a passar com Ele da morte para a vida? in Dehonianos.

Para os leitores:

                        A brevidade da primeira leitura não deve permitir descurar a sua preparação. Deus dirige-se ao Seu povo e a proclamação desta leitura deve ter isso em conta. Além disso, pede-se atenção à repetição do vocativo «ó meu povo».

                        A segunda leitura exige uma acurada preparação tendo em conta as pausas e respirações. É necessário ter em atenção as frases longas, com diversas orações, bem como as diversas frases condicionais.

 

 

 

ANEXOS:

Domingo IV do Tempo da Quaresma – Ano A – 15.03.2026

“Dito isto, cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.”

Viver a Palavra

            O ser humano pela sua contingência faz a experiência do limite e da insatisfação. Quantas vezes já nos lamentamos por algo que nos faz falta ou por vermos alguns irmãos nossos que muitas vezes não possuem o necessário para uma vida digna. Contudo, não obstante esta experiência, ousamos cantar com o salmista: «O Senhor é meu pastor: nada me faltará». Este aparente paradoxo deve conduzir-nos à raiz das nossas insatisfações e renovar no nosso coração a certeza que o salmista proclama. O caminho quaresmal que estamos a percorrer e que nos conduzirá à Páscoa do Senhor recorda-nos a nossa condição de peregrinos e este itinerário de conversão e penitência deve ajudar-nos a fazer a passagem de uma condição de insatisfação a uma renovada confiança Naquele que conduz o curso da nossa história.

            Revestidos desta confiança podemos caminhar iluminadas pela luz que brota do coração de Jesus Cristo e abrir a nossa vida à alegria nova que só Jesus e o Seu infinito amor nos podem oferecer e garantir. Este quarto Domingo da Quaresma quer renovar no nosso coração o chamamento à alegria e, por isso, a antífona de entrada da missa deste Domingo proclama: «Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos». O tempo da Quaresma é o tempo alegre e feliz de quem vê a sua vida renovada pela certeza do amor de Deus que nos escolhe para lá das nossas aparências. Deus conhece bem o nosso coração, conhece a cegueira que tantas vezes nos impede de olhar o mundo e os outros. Contudo, Jesus não se detém a olhar o nosso pecado e a nossa miséria, mas fixa-se sobretudo naquilo que o amor e a graça podem realizar em nós.

            Sempre me fascinou ler o Evangelho fixando a atenção no olhar de Jesus. Aquele olhar misericordioso que diante das multidões se compadece delas porque são como ovelhas sem pastor (Mt 9,36). O olhar que se volta para o Céu para louvar o Pai que revela as verdades do Reino aos humildes e aos simples (Mt 11,25). O erguer do olhar para o cimo da árvore e procurar Zaqueu para que a salvação possa entrar em sua casa (Lc 19,5). E poderíamos continuar a percorrer o Evangelho para nos deixarmos fascinar por este olhar que nos seduz e encanta porque nos olha com misericórdia e ternura.

            Bem diferente do olhar de Jesus é o olhar dos discípulos e dos fariseus. Os discípulos olham para aquele homem e procuram o pecado que tenha desencadeado aquela cegueira: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». Os fariseus, diante de um homem que pela primeira vez consegue ver o mundo e os outros, olham-no com desconfiança porque foi curado em dia de Sábado.

            Por seu lado, aquele cego de nascença, curado por Jesus, começa a ver de um modo novo e diferente e progressivamente deixa-se iluminar pela luz nova que Jesus lhe oferece. Quando lhe perguntam, pela primeira vez, quem o curou, responde com prontidão que foi um homem chamado Jesus. Interpelado pelos fariseus declara Jesus como um profeta e interrogado de novo reafirma a sua origem divina: «Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». Interpelado por Jesus, professa a sua fé no Filho do Homem: «Eu creio, Senhor». Deste modo, este homem não recupera apenas a sua visão física, mas pode contemplar o mundo e os outros com o olhar novo que brota do encontro com Cristo.

            No nosso caminho quaresmal, somos convidados a renovar no nosso coração a alegria do encontro com Jesus, a acolher a luz que Ele derrama sobre os nossos corações e a olhar de um modo novo aqueles que se cruzam connosco na estrada da vida, porque como nos recorda S. Paulo: «outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade in Voz Portucalense.

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA I1 Sam 16,1b.6-7.10-13a

Leitura do Primeiro Livro de Samuel

Naqueles dias,
o Senhor disse a Samuel:
«Enche o corno de óleo e parte.
Vou enviar-te a Jessé de Belém,
pois escolhi um rei entre os seus filhos».
Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo:
«Certamente é este o ungido do Senhor».
Mas o Senhor disse a Samuel:
«Não te impressiones com o seu belo aspecto,
nem com a sua elevada estatura,
pois não foi esse que Eu escolhi.
Deus não vê como o homem;
o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».
Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel,
mas Samuel declarou-lhe:
«O senhor não escolheu nenhum destes».
E perguntou a Jessé:
«Estão aqui todos os teus filhos?»
Jessé respondeu-lhe:
«Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho».
Samuel ordenou: «Manda-o chamar,
porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar».
Então Jessé mandou-o chamar:
era loiro, de belos olhos e agradável presença.
O Senhor disse a Samuel:
«Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo».
Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos.
Daquele dia em diante,
o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.

CONTEXTO

            Na segunda metade do séc. XI a.C., os filisteus constituíam uma ameaça bastante séria para as tribos do Povo de Deus. Instalados na orla costeira, os filisteus pressionavam cada vez mais os outros grupos que habitavam a terra de Canaã, nomeadamente as tribos do Povo de Deus que ocupavam as montanhas do interior do país. A necessidade de uma liderança única e forte levou os anciãos das tribos a equacionar, pela primeira vez, a possibilidade da união política das tribos sob a autoridade de um rei, à imagem do que sucedia com os outros povos da zona.

            A primeira experiência monárquica aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do país. Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus, por volta do ano 1010 a.C.

            Era preciso encontrar um outro “herói”, capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las vitoriosamente ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos – tanto das tribos do norte, como das tribos do sul – recaiu, então, num jovem chamado David.

            David nasceu por volta de 1040 a.C., em Belém de Judá, no sul do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de forma a ser considerado uma solução para o problema da realeza?

            O Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta David como um admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a sua vitória sobre o gigante filisteu Golias (cf. 1 Sm 17). A segunda tradição apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa (segundo esta tradição – bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia reencontrar a calma e o bem-estar quando David o acalmava com a sua música – cf. 1 Sm 16,14-23. Aos poucos, o poeta/cantor David foi ganhando adeptos na corte, tornando-se amigo de Jónatas, o filho de Saúl, e casando mesmo com Mical, a filha do rei). Finalmente, a terceira tradição – a menos verificável historicamente, mas a de maior importância teológica – apresenta a realeza de David como uma escolha de Jahwéh. É esta terceira tradição que o nosso texto nos apresenta. in Dehonianos

ACTUALIZAÇÃO

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

  • Se olharmos para o mundo com olhos de esperança, vemos muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência… Não há mal nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu empenho e compromisso. No entanto, nós os crentes somos convidados a olhar mais além e a ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para colaborarem com Ele na salvação do mundo.
  • A nossa leitura mostra, mais uma vez, que Deus tem critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem sempre coincide com a nossa. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” – diz o texto. É preciso entrar na lógica de Deus e aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do “curriculum” profissional ou académico; é preciso aprender a ver com o coração e a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes e sem pretensões… É preciso, sobretudo, aprender a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes. É isso que acontece nos “guichets” dos nossos serviços públicos? É isso que acontece nas receções das nossas igrejas? É isso que acontece nas portarias das nossas casas religiosas? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão 1: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

Refrão 2: O Senhor me conduz: nada me faltará.

 

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida,
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.

 

LEITURA II – Ef 5,8-14

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios

Irmãos:
Outrora vós éreis trevas,
mas agora sois luz no Senhor.
Vivei como filhos da luz,
porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade.
Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor.
Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis;
tratai antes de condená-las abertamente,
porque o que eles fazem em segredo
até é vergonhoso dizê-lo.
Mas, todas as coisas que são condenadas
são postas a descoberto pela luz,
e tudo que assim se manifesta torna-se luz.
É por isso que se diz:
«Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos
e Cristo brilhará sobre ti».

CONTEXTO

 

            A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma? em Cesareia?). O seu portador é um tal Tíquico.

            Estamos por volta dos anos 58/60. Alguns veem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo sente ter terminado a sua missão apostólica na Ásia e não sabe exatamente o que o futuro próximo lhe reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não sabe como vai terminar o cativeiro).
O tema central da Carta aos Efésios é aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projeto) salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos aos homens, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto faz parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas tradicionais da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef 4,17-31), imitando Deus (cf. Ef 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef 5,3-20). in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Na reflexão, ter em conta os seguintes dados:

  • “Luz” e “trevas” são, nesta passagem, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto, é aquele que optou por “viver na luz”. Para mim, o que significa, em concreto, “viver na luz”? O que é que isso, em termos práticos, implica? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da minha vida, a fim de que eu seja um testemunho da “luz”?
  • Para Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e decidida – as “trevas” que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos. Na minha perspetiva, quais são os gestos, comportamentos e atitudes que contribuem para apagar a “luz” de Deus e para manter este mundo nas “trevas”? Com que é que eu devo pactuar e o que é que eu devo denunciar?
  • A expressão “desperta tu que dormes”, citada por Paulo, convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços cruzados diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contravalores que enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de manter uma atitude de vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa. Diante dos contravalores, qual a minha atitude: é a atitude comodista de quem deixa correr as coisas porque não está para se chatear, ou é a atitude de quem se sente realmente incomodado com a escuridão do mundo e pretende intervir para que o mundo se construa de uma forma diferente? in Dehonianos

EVANGELHO – Jo 9,1-41

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego?
Ele ou os seus pais?
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;
mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,
nas obras d’Aquele que Me enviou.
Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.
Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.
Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado».
Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?»
Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?»
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo,
ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?»
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizeram lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».
Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?»
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizias d’Aquele que te deu a vista?»
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.
Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:
«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?
Como é que agora vê?»
Os pais responderam:
«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;
mas não sabemos como é que ele agora vê,
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder: perguntai-lho vós».
Foi por medo que eles deram esta resposta,
porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga
quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».
Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido curado
e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?»
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?»
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo; nós somos discípulos de Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?»
E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?»
Ele respondeu-Lhe:
«Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?»
Disse-lhe Jesus;
«Já O viste: é Quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:
«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse-lhe:
«Eu vim para exercer um juízo:
os que não veem ficarão a ver;
os que veem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto,
perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?»
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Não vemos’,
o vosso pecado permanece».

CONTEXTO

            Já vimos, na semana passada, que o Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Também vimos que, no chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

            O nosso texto é, exatamente, a terceira catequese (a da luz) do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da “luz”, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. A catequese sobre a “luz” é colocada no contexto da “Festa de Sukkot” (a festa das colheitas); um dos ritos mais populares dessa festa era, exatamente, a iluminação dos quatro grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém.
No centro do quadro aparece-nos (além de Jesus) um cego. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas – pela teologia oficial – como resultado do pecado (os rabbis da época chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe).

            Segundo a conceção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimónias religiosas no Templo. in Dehonianos.

 

ACTUALIZAÇÃO

Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:

  • Nós, os crentes, não podemos fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão… No entanto, também não podemos esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há, objetivamente, situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. O que é que, no nosso mundo, gera escuridão, trevas, alienação, cegueira e morte? O que é que impede o homem de ser livre e de se realizar plenamente, conforme previa o projeto de Deus?
  • A catequese que João nos propõe hoje garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e autossuficiência que geram “trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor. Aderir a esta proposta é viver na “luz”. Como é que eu me situo face ao desafio que, em Jesus, Deus me faz?
  • O Evangelho deste domingo descreve várias formas de responder negativamente à “luz” libertadora que Jesus oferece. Há aqueles que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados na mentira e a “luz” de Jesus só os incomoda; há aqueles que têm medo de enfrentar as “bocas”, as críticas, que se deixam manipular pela opinião dominante, e que, por medo, preferem continuar escravos do que arriscar ser livres; há aqueles que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, deixam que o comodismo e a inércia os prendam numa vida de escravos… Eu identifico-me com algum destes grupos?
  • O cego que escolhe a “luz” e que adere incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora é o modelo que nos é proposto. A Palavra de Deus convida-nos, neste tempo de Quaresma, a um processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que nos escraviza, nos aliena, nos oprime – no fundo, tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de Deus e que impede a nossa plena realização. Para que a celebração da ressurreição – na manhã de Páscoa – signifique algo, é preciso realizarmos esta caminhada quaresmal e renascermos, feitos Homens Novos, que vivem na “luz” e que dão testemunho da “luz”. O que é que eu posso fazer para que isso aconteça?
  • Receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo. O que é que eu faço para eliminar as “trevas” que geram sofrimento, injustiça, mentira e alienação? A “luz” de Cristo que os padrinhos me passaram no dia em que fui batizado brilha em mim e ilumina o mundo? in Dehonianos.

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção os diversos diálogos presentes no texto. Além disso, deve preparar-se bem as palavras menos usuais e que podem ser de difícil pronunciação: «âmbula», «Jessé» e «unge-o». Estas palavras devem pronunciar-se tal como estão escritas respeitando a sua acentuação.

            Na segunda leitura, é importante ter presente o tom exortativo presente no texto e que é sublinhado pelas diferentes formas verbais no imperativo

 

 

ANEXOS:

Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026

“Uma fonte de água que jorra para a vida eterna – João 4,5-42”

Viver a Palavra

            Na nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor somos convidados a sentarmo-nos com Jesus à beira do poço. Passamos os nossos dias a correr entre os múltiplos afazeres do nosso quotidiano e às vezes parece tão escasso o tempo para serenar e descansar. Neste frenesim quotidiano marcado pelas rotinas, pela sucessão de tarefas a realizar e horários a cumprir, irrompe Jesus, o enviado do Pai, o Deus das surpresas que enche e preenche de novidade os nossos dias. O tempo da Quaresma é o tempo favorável e especialíssimo para abrir o nosso coração ao Deus que nos visita e surpreende sempre com o Seu amor e o Seu perdão. Por isso, se o tempo da Quaresma é tempo de penitência e conversão, é também «tempo para cantar a alegria do perdão» (Ir. Roger). A experiência da penitência e da conversão abre a nossa vida à alegria da vida reencontrada, à experiência feliz da transformação do coração.

            «Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço». Esta poderia ser apenas uma indicação cénica para situar Jesus no contexto desta passagem evangélica. Contudo, as ações de Jesus devem ser sempre lidas em chave teológica, mesmo quando parecem ser apenas subsidiárias da narrativa. Na Sagrada Escritura, a ação de sentar apresenta diferentes significados: a ação de ensinar na relação mestre/discípulo (Mt 5,1), a evocação da majestade de Deus (Dn 7,9) ou a referência escatológica do Filho do Homem na sua glória (Mt 25,31). Contudo, aqui Jesus senta-se cansado e pede água à Samaritana. No evangelho estão bem identificados aqueles que se sentam para pedir: são os mendigos. Mendigos como aqueles que estão sentados à beira da estrada, na saída de Jericó, que ao ouvirem que Jesus está a passar começam a gritar (Mt 20,30-31) ou então Bartimeu, um mendigo cego, sentado na beira do caminho (Mc 10,46).

            Jesus, cansado do caminho, senta-se à beira do poço e pede de beber à samaritana. Este pedido como que antecipa aquele grito da Cruz: «tenho sede». Misterioso Senhor que, para dar, pede! Jesus apresenta-se como mendigo do homem, com uma sede de salvação que nos desconcerta. Assim nos recorda Simon Weil quando afirma: «Deus espera como um mendigo, imóvel e silencioso, diante de qualquer um que lhe estenda um bocado de pão. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso amor».

            Jesus tem sede. Sede da água que dessedenta os que caminham nas estradas poeirentas, mas também sede de salvação. Sede de tocar as nossas sedes, de contactar com os nossos desertos e as nossas feridas. Ele quer salvar cada homem e cada mulher e, independentemente da sua vida de pecado ou do seu errado caminho, Ele quer oferecer uma oportunidade nova de vida plena e cheia de sentido.

            Jesus encontra-se com a Samaritana ao meio-dia, precisamente a mesma hora em que Jesus é apresentado por Pilatos à multidão (Jo 19,13-14). Como afirma o Cardeal Tolentino de Mendonça: «só compreenderemos verdadeiramente o diálogo entre Jesus com a Samaritana se tivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz»Na verdade, o meio-dia é a hora central do dia, o ponto que determina a passagem de uma parte para outra da jornada. O meio do tempo assinala um antes e um depois, o meio do caminho e a encruzilhada da vida.

            O encontro com Jesus marca assim um rumo novo na nossa história, pois sempre que abrimos o nosso coração ao verdadeiro encontro com Jesus é «meio-dia», é hora decisiva para avançar com um alento renovado e uma vontade nova de fazer da nossa vida doação. in Voz Portucalense.

 

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            O III Domingo da Quaresma é Dia Nacional da Cáritas, por isso, a semana que antecede este dia é Semana Nacional Cáritas e multiplicam-se, em vários lugares, atividades de reflexão sobre a ação social, atividades de animação pastoral e também iniciativas de angariação de fundos. Está previsto que o ofertório das missas deste Domingo em todas as dioceses de Portugal reverta para este fim. A Cáritas em Portugal quer ser testemunho da fraternidade da comunidade cristã para com os mais pobres a partir da Ação Social da Igreja construtora de uma sociedade solidária e participativa, onde prevaleça a justiça, a paz, a liberdade e a solidariedade ao serviço da dignidade humana.

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IÊxodo 17,3-7

 

Naqueles dias,

o povo israelita, atormentado pela sede,

começou a altercar com Moisés, dizendo:

«Porque nos tiraste do Egipto?

Para nos deixares morrer à sede,

a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»

Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:

«Que hei de fazer a este povo?

Pouco falta para me apedrejarem».

O Senhor respondeu a Moisés:

«Passa para a frente do povo

e leva contigo alguns anciãos de Israel.

Toma na mão a vara com que fustigaste o rio

e põe-te a caminho.

Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.

Baterás no rochedo e dele sairá água;

então o povo poderá beber».

Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.

E chamou àquele lugar Massa e Meriba,

por causa da altercação dos filhos de Israel

e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:

«O Senhor está ou não no meio de nós?»

CONTEXTO

            Um dos grandes temas do livro do Êxodo é a marcha pelo deserto dos hebreus libertados por Javé da escravidão do Egito. A secção de Ex 15,22-18,27 refere as vicissitudes da primeira etapa dessa marcha: a que vai desde a passagem do mar até à chegada do povo diante da montanha do Sinai.

            Nesta primeira fase do caminho do deserto, está bem presente a imaturidade daquele grupo de homens e mulheres que ainda funcionam com mentalidade de escravos e ainda não assumiram o risco da liberdade. As dificuldades do caminho desorganizam-nos e incomodam-nos; e eles, perante as contrariedades, não se coíbem de criticar Moisés e de murmurar contra Deus (cf. Ex 15,22-27; 16,1-21; 17,1-7). O esquema é sempre o mesmo: diante das dificuldades que encontra no caminho, o Povo murmura, revolta-se contra Moisés e acusa Deus pelos desconfortos da caminhada; Moisés intervém e intercede junto de Deus; finalmente, Deus acaba por conceder ao Povo os bens de que este sente necessidade. Os relatos apresentam-se sempre de uma forma dramática, num crescendo de intensidade até ao desfecho final.

            Provavelmente, estes relatos têm por base dificuldades concretas sentidas pelos hebreus no seu caminho pelo deserto em direção à Terra Prometida. Não é fácil sobreviver nas condições hostis do deserto. No entanto, os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes permitiam enfrentar com êxito a sua luta diária pela existência. Um desses “truques” consistia em procurar água em rochas porosas que, quando quebradas em certo lugar, proporcionavam o acesso à água que armazenavam no seu interior. É possível que o episódio narrado no texto que a liturgia hoje nos propõe como primeira leitura nos situe neste cenário.

            Seja como for, a verdade é que os teólogos de Israel recolheram essas tradições e utilizaram-nas com um objetivo catequético. Os catequistas que nos legaram estes relatos não se propuseram fazer uma reportagem factual dos acontecimentos históricos vividos ao longo do caminho percorrido pelos hebreus, mas sim fazer catequese. Percebe-se nas entrelinhas que a grande preocupação de quem compôs estes relatos é pôr o Povo de sobreaviso contra a tentação de procurar refúgio e segurança longe de Javé.

            Portanto, a dado passo da sua caminhada pelo deserto, os hebreus deparam-se com a falta de água e queixam-se a Moisés. O episódio é situado em Refidim (cf. Ex 17,1), no sul da península do Sinai (cf. Nm 33,14-15). Curiosamente uma outra tradição refere um episódio muito semelhante e coloca-o a norte, nos arredores de Kadesh (cf. Nm 20,7-11). Serão dois episódios semelhantes, ligados a grupos distintos de nómadas que, em épocas diferentes, fugiram do Egito, ou tratar-se-á do mesmo episódio narrado por duas tradições diferentes? Não o sabemos. O que é evidente é que os teólogos de Israel utilizaram esta história para reafirmar o empenho de Deus em “salvar” o seu povo e em conduzi-lo em segurança da escravidão para a liberdade. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

            Talvez a nota mais decisiva e interpelante, neste episódio de Massá e Meribá, seja a confirmação da fidelidade de Deus aos seus desígnios de amor e de vida, ao seu projeto de salvação. O comportamento imaturo daquele grupo de hebreus que ainda não se libertaram de uma mentalidade de escravos não fazem Deus desistir do seu projeto de salvação; as contínuas desconfianças daqueles caminhantes que parecem não saber o que querem, não desarmam a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. É uma perspetiva reconfortante, que talvez nos ajude a olhar com mais esperança para as nossas pobres vidas, para as nossas hesitações, dúvidas e incongruências, para as nossas contradições e para os nossos passos mal dados… Se Deus não nos condena definitivamente, se Ele se conserva ao nosso lado apesar das nossas decisões estúpidas, se Ele continua a olhar para nós com amor apesar das nossas desconfianças e cobardias, se a nossa futilidade e as nossas aspirações rasteiras O não dececionam definitivamente, então não caminhamos em direção a um desastre anunciado. Deus vai connosco, assiste-nos e ampara-nos em cada passo do caminho, dá-nos uma e outra vez a oportunidade de recomeçar… Como é que isso nos faz sentir? Que implicações tem isso na nossa vida?

            Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 94 (95)

 

Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

não fecheis os vossos corações.

 

Vinde, exultemos de alegria no Senhor,

aclamemos a Deus nosso salvador.

Vamos à sua presença e dêmos graças,

ao som de cânticos aclamemos o Senhor.

 

Vinde, prostremo-nos em terra,

adoremos o Senhor que nos criou.

Pois Ele é o nosso Deus

e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.

 

Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:

«Não endureçais os vossos corações,

como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,

onde vossos pais Me tentaram e provocaram,

apesar de terem visto as minhas obras.

 

LEITURA II – Romanos 5,1-2.5-8

 

Irmãos:

Tendo sido justificados pela fé,

estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo,

pelo qual temos acesso, na fé,

a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,

apoiados na esperança da glória de Deus.

Ora, a esperança não engana,

porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações

pelo Espírito Santo que nos foi dado.

Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

Dificilmente alguém morre por um justo;

por um homem bom,

talvez alguém tivesse a coragem de morrer.

Deus prova assim o seu amor para connosco:

Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

CONTEXTO

            Roma era, na altura em que o apóstolo Paulo escreve a sua carta à comunidade cristã da cidade, o centro do mundo antigo. Roma tinha, por essa altura, cerca de um milhão de habitantes, dos quais 50.000 eram judeus.

            Não sabemos como foi fundada a Igreja de Roma. A tradição diz que foi o apóstolo Pedro que, de passagem pela cidade, aí teria anunciado o Evangelho de Jesus. O mais provável, contudo, é que a comunidade tenha nascido a partir do testemunho de judeo-cristãos que deixaram Jerusalém e se estabeleceram em Roma poucos anos após a morte de Jesus.

            Quando escreve aos Romanos, por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a deixar Corinto, a caminho de Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. O apóstolo sente que terminou a sua missão no oriente (cf. Rm 15,19-20) e quer agora levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).

            Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que o pecado é uma realidade que atinge todos os homens, sem exceção, e que ninguém está de fora desse cenário (cf. Rm 1,18-3,20). É Deus que, na sua imensa misericórdia, “justifica” o homem pecador e lhe oferece um perdão não merecido. A salvação não vem do mérito do homem, mas sim da “justiça de Deus” que a todos dá a vida (cf. Rm 3,1-5,11).

            No texto que a segunda leitura do terceiro Domingo da Quaresma nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.in Dehonianos.

 

 

INTERPELAÇÕES

            Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?

            Então podemos viver como nos apetecer, sem medo de sermos penalizados pela “justiça” de Deus? Na realidade, aquilo que muitas vezes consideramos “castigos” pelos nossos pecados não são punições que Deus inventa para nos fazer pagar pelo mal que praticamos; são, simplesmente, as consequências naturais das nossas decisões erradas, das nossas atitudes egoístas, da má semente que semeamos, da nossa irresponsabilidade, da nossa futilidade, da nossa aposta no que é efémero e sem sentido. Quando escolhemos caminhos sem saída, somos nós que perdemos e que nos auto-castigamos: a nossa autossuficiência isola-nos, priva-nos de estar em paz com Deus e de usufruir dos seus dons; a nossa falta de fé afunda-nos no desespero e torna-nos prisioneiros do medo e da morte; a falta de confiança no amor de Deus faz com que nos arrastemos sem rumo, perdidos e órfãos, sentindo-nos lixo abandonado na berma dos caminhos… É dessa forma que queremos viver e dar sentido à nossa vida?

            O apóstolo Paulo garante-nos que o amor de Deus não é inconstante, não varia conforme os “estados de espírito” de Deus, não depende dos comportamentos inconstantes do homem. É um amor inquestionável, infalível, absolutamente inabalável. Segundo Paulo, “Deus provou assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Deus não ama apenas os bons, os que se portam bem; ama todos os seus filhos, sem exceção. Nem a nossa insistência no pecado nos afasta do amor de Deus. É difícil entender e aceitar isto? Talvez o seja para alguns, incapazes de entender a lógica de Deus, o alcance do verdadeiro amor. Que Deus anunciamos e testemunhamos? Um deus castigador e vingativo, sempre pronto a fazer cair sobre o homem pecador as suas punições, ou um Deus terno e compassivo, misericordioso e bom, que olha para os seus queridos filhos com a compreensão e o amor de um pai ou de uma mãe? in Dehonianos

EVANGELHO – João 4,5-42

 

Naquele tempo,

chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,

junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,

onde estava a fonte de Jacob.

Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.

Era por volta do meio-dia.

Veio uma mulher da Samaria para tirar água.

Disse lhe Jesus: «Dá-Me de beber».

Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.

Respondeu-Lhe a samaritana:

«Como é que Tu, sendo judeu,

me pedes de beber, sendo eu samaritana?»

De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.

Disse lhe Jesus:

«Se conhecesses o dom de Deus

e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’,

tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água-viva».

Respondeu-Lhe a mulher:

«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:

donde Te vem a água-viva?

Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,

que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,

com os seus filhos a os seus rebanhos?»

Disse Lhe Jesus:

«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.

Mas aquele que beber da água que Eu lhe der

nunca mais terá sede:

a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente

que jorra para a vida eterna».

«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,

para que eu não sinta mais sede

e não tenha de vir aqui buscá-la».

Disse-lhe Jesus:

«Vai chamar o teu marido e volta aqui».

Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».

Jesus replicou:

«Disseste bem que não tens marido,

pois tiveste cinco

e aquele que tens agora não é teu marido.

Neste ponto falaste verdade».

Disse-lhe a mulher:

Senhor, vejo que és profeta.

Os nossos antepassados adoraram neste monte

e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».

Disse lhe Jesus:

«Mulher, podes acreditar em Mim:

Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.

Vós adorais o que não conheceis;

nós adoramos o que conhecemos,

porque a salvação vem dos judeus.

Mas vai chegar a hora – e já chegou –

em que os verdadeiros adoradores

hão de adorar o Pai em espírito a verdade,

pois são esses os adoradores que o Pai deseja.

Deus é espírito

e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».

Disse-Lhe a mulher:

«Eu sei que há de vir o Messias,

isto é, Aquele que chamam Cristo.

Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».

Respondeu lhe Jesus:

«Sou Eu, que estou a falar contigo».

Nisto, chegaram os discípulos

e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,

mas nenhum deles Lhe perguntou:

«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»

A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:

«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.

Não será Ele o Messias?»

Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.

Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:

«Mestre, come».

Mas Ele respondeu-lhes:

«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».

Os discípulos perguntavam uns aos outros:

«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»

Disse-lhes Jesus:

«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou

e realizar a sua obra.

Não dizeis vós que dentro de quatro meses

chegará o tempo da colheita?

Pois bem, Eu digo-vos:

Erguei os olhos e vede os campos,

que já estão loiros para a ceifa.

Já o ceifeiro recebe o salário

e recolhe o fruto para a vida eterna

e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.

Nisto se verifica o ditado:

‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.

Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.

Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,

por causa da palavra da mulher, que testemunhava:

«Ele disse-me tudo o que eu fiz».

Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,

pediram-Lhe que ficasse com eles.

E ficou lá dois dias.

Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:

«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.

Nós próprios ouvimos

e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

CONTEXTO

            A narração do evangelista João leva-nos até junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.

            Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade com raízes bem antigas entre samaritanos e judeus. A divisão entre as duas comunidades começou logo após a morte de Salomão (932 a.C.), quando as tribos do Norte e do centro se recusaram a aceitar Roboão, filho de Salomão, como seu rei. O país dividiu-se: as tribos do Norte e do centro escolheram para rei um tal Jeroboão e constituíram o reino de Israel, com capital em Siquém (cf. 1Rs 12); as tribos do Sul permaneceram sob a autoridade de Roboão, filho de Salomão, constituindo o reino de Judá, com capital em Jerusalém. A partir daqui os dois grupos seguiram caminhos separados.

            A situação piorou quando, em 721 a.C., o reino de Israel foi tomado pelos assírios e uma parte da população da Samaria (cerca de quatro por cento) foi deportada para a Assíria. Foi o fim do reino de Israel. Na Samaria instalaram-se, por essa altura, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29). Em 586 a.C. foi a vez de Judá sofrer uma derrota às mãos dos babilónios e de a maior parte da população de Jerusalém ter sido levada para o cativeiro, para a Babilónia.

            A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio na Babilónia (538 a.C.), estes recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano 333 a.C., um novo fator veio agravar o conflito: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, um templo que pretendia fazer concorrência ao templo de Jerusalém. O Templo samaritano do monte Garizim viria a ser destruído em 128 a.C., por João Hircano.

            As picardias continuaram entre os dois grupos. A mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.

            Na época neotestamentária era ponto assente, para os judeus, que os samaritanos eram hereges, pois tinham sangue de povos estrangeiros e praticavam uma religião sincretista, que misturava elementos da fé javista com elementos religiosos herdados de outros povos. Os samaritanos, por sua vez, desprezavam profundamente os judeus.

            O poço referido na narrativa joânica era conhecido como o “poço de Jacob”. Estava situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).

            Na tradição religiosa de Israel, o “poço” é um elemento mítico, que parece referido em numerosos textos e evoca a presença de Deus que acompanha o seu povo ao longo da sua peregrinação pela história. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água-viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.

            O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

            O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

            A modernidade criou-nos grandes expectativas de progresso, de emancipação individual, de realização pessoal, e prometeu-nos um futuro de liberdade e felicidade através da razão, da ciência e da tecnologia. Disse-nos que tinha na manga a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida verdadeira estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem o controle de Deus; disse-nos que os avanços científicos e tecnológicos iriam tornar a nossa existência cómoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a nossa segurança estava numa conta bancária recheada, no reconhecimento social, no êxito profissional, na adesão às indicações dos líderes de opinião, na conformação com o movimento geral das massas… No entanto, todas as nossas vitórias e conquistas não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes e para nos sentirmos plenamente realizados. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Precisamos de escutar Jesus e de abraçar o seu projeto. O que pensamos disso? O que é que Jesus significa para nós? Ele é “a água” sem a qual não conseguimos viver? A sua proposta sacia a nossa sede de vida? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência da proposta de vida plena que Ele oferece a todos?

            “Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água-viva” – diz Jesus à mulher samaritana. A “água-viva” de que Jesus fala evoca imediatamente em nós a fonte batismal. Para cada um de nós, o dia do nosso batismo foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nesse momento aderimos a Jesus e à vida que Ele oferece, acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que nos capacita para vivermos como “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. Depois disso, percorremos um caminho, fizemos opções, elegemos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida. A nossa vida tem sido verdadeiramente coerente com as opções que fizemos no dia em que recebemos o batismo? Temos procurado deixar-nos conduzir pelo Espírito? O compromisso que assumimos no dia em que fomos batizados é uma realidade que continua a marcar a nossa vida, os nossos gestos, os nossos valores, as nossas opções?

            Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de busca de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena, a proposta que nos vem de Jesus. Neste tempo de quaresma – tempo de “conversão”, de mudança, de refazer a nossa vida, de reequacionar as nossas opções, de “voltar ao encontro de Deus” – estamos dispostos a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o nosso coração ao Espírito que Jesus nos oferece e que exige de nós uma vida nova?

            Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descoberta com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida? in Dehonianos.

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve haver um especial cuidado com as palavras de mais difícil pronunciação: «altercar», «altercação», «Massa» (deve pronunciar-se Mássá) e «Meriba» (deve pronunciar-se Méribá). Neste texto, deve ainda ter-se em atenção o texto em discurso direto, articulando bem as diferentes interrogações, que devem ser proclamadas evitando a exagerada acentuação interrogativa no final de cada frase, mas acentuando a partícula interrogativa ou a forma verbal.

            A segunda leitura exige uma aturada preparação assinalando as pausas e as respirações, pois o texto é marcado por frases longas e com várias orações.

 

 

ANEXOS:

Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026

“E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias»”

Viver a Palavra

A vida cristã envolve a vida toda e toda a vida e o convite à conversão que se torna mais incisivo neste tempo quaresmal recorda-nos precisamente que a conversão exige uma transformação do coração e da vida que chegue a todos os âmbitos da nossa ação. A conversão não é apenas uma adesão intelectual à proposta de Jesus Cristo, nem um conjunto de boas intenções para a prática de boas obras, mas o encontro decisivo com Jesus que nos faz entrar na dinâmica sempre nova de conformar a nossa vida com a Sua vontade.

No nosso itinerário quaresmal, o segundo Domingo da Quaresma irrompe luminosamente, apresentando Jesus sobre o monte com Pedro, Tiago e João. Assim como estes três discípulos foram escolhidos e chamados, também nós, somos convocados pelo amor misericordioso de Jesus que gratuitamente nos escolhe para nos fazer experimentar a luz nova que só o Seu amor e Sua graça nos podem oferecer. Assim nos testemunha S. Paulo, escrevendo a Timóteo e recordando-lhe a livre, gratuita e generosa ação de Deus nas nossas vidas: «sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça». Deste modo, agradecidos pelo dom generoso da vida divina que nos é concedida para lá das nossas boas obras, somos convidados a conformar a nossa vida com este mistério de amor que nos inquieta, desinstala e coloca a caminho. Partir é palavra de ordem para quem encontra em Jesus o sentido da sua vida.

Jesus não se detém nem nos detém, mas envia-nos: «levantai-vos e não temais». Como é importante recordar aqui o convite dirigido por Deus a Abraão para deixar a sua terra e a sua família. Mais importante ainda porque Deus não lhe indica uma meta geográfica, mas apenas a certeza da sua presença: «vai para a terra que Eu te indicar». Se é o Senhor Deus que lhe vai indicar o caminho, então Ele caminhará com Ele, estará com Ele para o guiar, proteger e defender. Por isso, Abraão parte confiado na palavra do Senhor, ainda que humanamente tivesse razões para desconfiar, pois a promessa de Deus é de fazer dele uma grande nação e oferecer-lhe uma inúmera descendência, mas Abraão e sua mulher Sara são de idade avançada. Todavia, «Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado» e a promessa de Deus realizou-se para nos testemunhar a certeza que quando somos capazes de abandonar os nossos comodismos, as nossas certezas fundadas apenas nas nossas capacidades humanas e nos abrimos à livre, gratuita e generosa iniciativa de Deus a nossa vida se torna lugar de bênção que difunde ao longe e ao largo o suave perfume da ternura e da bondade do Pai.

Neste Domingo subimos com Jesus ao Monte e como Pedro, Tiago e João somos chamados a contemplar a luz nova que brota da Sua presença no meio de nós. Aos discípulos é antecipada a luz nova da Páscoa que será plena e definitiva na manhã da Ressurreição. Na narrativa que nos apesenta S. Mateus surpreende-me sempre a descrição da experiência que os discípulos fazem de Jesus. Eles contemplam Jesus resplandecente como o sol e com vestes brancas como a luz. Vêm Moisés e Elias e a nuvem luminosa. Escutam a voz do Pai e são tocados por Jesus que os desafia a colocar-se ao caminho. É curioso que apenas a narrativa da Transfiguração no Evangelho de Mateus nos oferece este pormenor de Jesus que toca os seus discípulos. A experiência pascal de encontro com Jesus Cristo, experimentada por antecipação, no episódio da transfiguração, convida-nos a contemplar, a ver, a escutar, a ser tocados, a caminhar, isto é, convida-nos a uma transformação da vida toda, implicando todos os sentidos e desafiando a uma conversão cada vez mais total e totalizante das nossas vidas. in Voz Portucalense.

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IGénesis 12,1-4

Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado
.

CONTEXTO

A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.

Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto deambulava de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceite pelo clã seria, para cada um destes grupos, o garante da concretização desses sonhos.

Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • A figura de Abraão que nos é apresentada pela catequese de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência plena e com uma entrega total… Abraão, o homem que vive de Deus e para Deus, continua hoje a questionar o homem moderno, esse homem atarefado e autossuficiente que não tem tempo para “perder” com Deus pois está demasiado ocupado a conquistar o mundo, a ganhar dinheiro, a construir uma carreira recheada de êxitos, ou a aproveitar todos os “gozos” que a vida lhe pode proporcionar. Há lugar para Deus no nosso projeto de vida? No meio do ruído ensurdecedor que preenche as nossas idas e vindas, conseguimos escutar a voz de Deus? Como respondemos aos desafios que Deus a cada passo nos coloca?
  • Abraão escuta a voz de Deus. Deus manda-o partir e Abraão simplesmente põe-se a caminho. Não discute, não argumenta, não pede garantias, não põe condições. Não pede nenhum “sistema de posicionamento global” (GPS) para se orientar, nem solicita mapas atualizados dos caminhos que terá de percorrer. Não pergunta qual é o seu destino final, não exige saber se vai ao encontro de uma vida mais fácil. Simplesmente entrega-se nas mãos de Deus e vai. Com confiança absoluta, com total disponibilidade. A atitude de Abraão questiona o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estamos dispostos a mudar os nossos horizontes, a “pormo-nos a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica que Deus nos aponta, ou preferimos continuar prisioneiros dos nossos esquemas pré-concebidos, dos nossos medos, dos nossos velhos hábitos, das nossas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
  • O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)

 

Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

Refrão 2: Desça sobre nós a vossa misericórdia,

porque em Vós esperamos, Senhor.

 

A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.

Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.

A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.

 

LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10

Caríssimo:
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade,
não em virtude das nossas obras,
mas do seu próprio desígnio e da sua graça.
Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus,
desde toda a eternidade
manifestou-se agora pelo aparecimento
de Cristo Jesus, nosso Salvador,
que destruiu a morte
e fez brilhar a vida e a imortalidade,
por meio do Evangelho.

CONTEXTO

De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.

A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).

Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.

Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.

MENSAGEM

O autor do escrito – que refere, de passagem, a sua situação de “prisioneiro” por causa do Evangelho (vers. 8a) – exorta Timóteo a ser, para a comunidade cristã cuja responsabilidade lhe foi confiada, um modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza no testemunho da fé. Foi para isso que ele recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da sua missão apostólica (cf. 2Tm 1,6-7). O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e dê testemunho de Cristo e do seu Evangelho.

De resto, Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto salvador de Deus em favor dos homens. Recorrendo, provavelmente, a um fragmento de um velho hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o autor da Carta lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância; sem ter em conta as faltas e as indignidades dos homens, Deus quis oferecer-lhes gratuitamente a sua salvação; ora, essa salvação “apresentou-se“ na história humana na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “desceu” ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação de Deus, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade por meio do Evangelho que propôs (vers. 9-10). Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da história dos homens. Nesse longo caminho que a humanidade vem percorrendo pela história, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que este projeto de Deus.

Ora, tanto Paulo como Timóteo foram escolhidos por Deus para “ministros” deste projeto. É uma vocação sublime! Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e tantos outros que Deus escolheu e enviou – são arautos da salvação de Deus. Não podem, de forma nenhuma, “esconder-se”, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar essa “Boa Notícia” que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a terra.

Sim, aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para todos aqueles que aderiram à proposta de salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho de Jesus. Por todo o lado, as comunidades cristãs sentem enfraquecer a sua coragem e diminuir o seu compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente, escolhem viver sem problemas, optam pela facilidade. Nestes tempos difíceis, contudo, aqueles que, como Paulo ou como Timóteo, têm a responsabilidade de presidir às comunidades e animar os seus irmãos na fé, devem levar muito a sério a missão que lhes foi confiada. Têm de manter-se fortes; têm de ser, no meio dos seus irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Quando olhamos para a história da humanidade com olhos de “crentes”, conseguimos com alguma facilidade detetar a presença e a ação salvadora de Deus em cada passo do caminho que os homens vão percorrendo. Formados na escola da fé, talvez isso nos pareça bem “normal”: o Deus no qual acreditamos é um Deus que ama incondicionalmente os seus queridos filhos e que, por isso, está sempre disposto a oferecer-lhes a possibilidade de chegarem à vida verdadeira. O que talvez nos pareça mais estranho é o facto de Deus nos chamar a colaborar com Ele nesse projeto: apesar da nossa pequenez e dos nossos limites, da nossa debilidade e da nossa tibieza, da nossa inclinação para a preguiça e da nossa apetência pelo comodismo, apesar de não sermos “de fiar”, Deus oferece-nos um papel na concretização do seu projeto de salvação. É através de nós que Deus vem ao encontro dos homens e lhes oferece a sua salvação. Paulo e Timóteo fizeram essa experiência. Talvez se tenham sentido indignos e talvez tenham desconfiado das suas frágeis forças; mas sentiram que não podiam defraudar as expetativas de Deus e levaram a sério o papel que Deus entendeu confiar-lhes enquanto arautos da Boa Nova da salvação. E nós, sentimos que isto também nos diz respeito? Sentimos que Deus nos chama a ser arautos da sua salvação no meio dos nossos irmãos?
  • Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 17,1-9

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

CONTEXTO

O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras (cf. Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (cf. 8,1-9,34) – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus (cf. Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (cf. Mt 16,13-20).

No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16,21-22). Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’” (Mt 16,22). Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte (cf. Mt 16,24-26).

É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.

O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Neste segundo domingo da Quaresma façamos, também nós, a experiência de subir com Jesus ao monte… Enquanto subimos, podemos conversar com Ele e, com toda a sinceridade, dizer-Lhe as nossas dúvidas e inquietações. Podemos dizer-Lhe que, por vezes, nos sentimos perdidos e desanimados diante da forma como o nosso mundo se constrói; podemos dizer-lhe que o caminho que Ele aponta é duro e exigente e que não sabemos se teremos a coragem de o percorrer até ao fim; podemos até dizer-lhe, talvez com alguma vergonha, que às vezes duvidamos dele e corremos atrás de outras apostas, mais cómodas, mais atraentes e menos arriscadas… E, depois de lhe dizermos isso tudo, deixemos que Jesus nos fale, nos explique o seu projeto, nos renove o seu desafio… E vamos, também, prestar atenção à voz de Deus que nos garante: “olhem que esse Jesus que Eu enviei ao vosso encontro é o meu Filho, o meu eleito, aquele a quem Eu entreguei o projeto de um mundo mais humano e mais fraterno… Confirmo a verdade do caminho que Ele vos propõe. Escutai-O, ide com Ele, acolhei as suas propostas e indicações, mesmo que tenhais de remar contra a maré. O caminho que Ele vos aponta pode passar pela cruz, mas conduz à Vida verdadeira, à ressurreição”. Há espaço na nossa vida para ouvir essa “voz de Deus” e para caminharmos na direção que ela aponta?
  • “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. É verdade: precisamos de escutar Jesus mais e melhor. Quando o “escutamos” – quer dizer, quando ouvimos o que Ele nos diz, quando acolhemos no coração as suas indicações e quando procuramos concretizá-las na vida – começamos a ver tudo com uma luz mais clara. Começamos a perceber qual é a maneira mais humana de enfrentar os problemas da vida e os males do nosso mundo; damos conta dos grandes erros que os seres humanos podem cometer e descobrimos as soluções que Deus nos aponta… Escutar Jesus pode curar-nos das nossas cegueiras seculares, dos preconceitos que nos impedem de acolher a novidade de Deus, dos medos que nos paralisam; escutar Jesus pode libertar-nos de desalentos e cobardias, e abrir o nosso coração à esperança. A escuta de Jesus está no centro da nossa experiência de fé? Nas nossas comunidades cristãs damos espaço suficiente à escuta de Jesus?
  • O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?
  • É verdade que, para muitos dos nossos contemporâneos, o caminho proposto por Jesus não parece muito entusiasmante… Não assegura bem-estar, nem bens materiais, nem triunfos, nem reconhecimento, nem fama, nem poder, nem tranquilidade, nem qualquer outro valor que muitos dos homens e mulheres do nosso tempo consideram fundamentais para que as suas vidas tenham algum sentido. Contudo, nós, discípulos de Jesus, acreditamos que só o amor – o amor vivido como serviço, como dom de si próprio, ao estilo de Jesus – dá sentido à vida; acreditamos que a construção de um mundo novo – mais humano, mais são, mais verdadeiro – depende de acolhermos e vivermos as propostas de Jesus. O que poderemos fazer para contagiar os nossos irmãos e irmãs com o nosso entusiasmo por Jesus e pelo seu projeto de um mundo novo?
  • Pedro, Tiago e João, testemunhas da transfiguração de Jesus, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e de enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Propõem fazer três tendas e ficar no cimo daquele monte, onde tudo parece tão fácil e tão indolor. Representam aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga-nos a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens, mesmo contra a corrente, que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. O nosso compromisso com Jesus e com a construção do Reino de Deus concretiza-se na luta diária pela construção de um mundo mais justo, mais humano, mais cheio de amor? in Dehonianos.

Para os leitores:

A brevidade da primeira leitura não deve fazer descurar a sua preparação com uma atenção especial aos verbos no futuro que constituem a promessa de Deus a Abraão. Mais do que uma ordem, os verbos no imperativo constituem uma proposta que Deus faz a Abraão.

A segunda leitura, tal como é habitual no epistolário Paulino, apresenta frases longas que requerem uma especial atenção nas pausas e respirações.

 

ANEXOS:

Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026

Viver a Palavra

            A liberdade é o maior [dom]. Deus cria o homem livre e respeita-lhe a liberdade. Chama feliz àquele que pode fazer o mal e não o faz; ao que pode transgredir e não transgride» (Venerável Padre Américo Aguiar). A verdadeira liberdade, como afirma o Pai Américo, nasce da exigente tarefa de discernir, optar e decidir pelo caminho do bem, da verdade e da justiça. Ninguém é livre pelo caminho da mentira, pois o mal escraviza-nos e impede-nos de experimentar a verdadeira realização e felicidade.

Fomos criados pelo amor misericordioso de Deus, que nos formou do pó da terra e nos moldou com as Suas mãos, soprou em nós o Seu hálito de ternura e de bondade, para que possamos participar da Sua vida divina. Como recordamos na celebração de Quarta-Feira de Cinzas com que damos início ao Tempo da Quaresma, somos pó da terra, criatura frágil e débil, mas pó amado por Deus e sustentado pelas Suas mãos ternurentas que não cessam de moldar a nossa vida. Contudo, Deus não se impõe, mas tudo propõe.

Deus quer-nos verdadeiramente livres e, para isso, dota-nos de liberdade para podermos escolher o caminho a seguir, mas adverte-nos diante do perigo como fez com Adão e Eva: «podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem lhe tocar, senão morrereis». Apesar da indicação dada por Deus, cabe ao homem e à mulher decidir se comerão ou não do fruto da árvore que está no meio do jardim. Na verdade, discernir e decidir são experiências humanas exigentes, mas absolutamente necessárias para uma vida mais feliz. Ao longo do nosso caminho são muitas as ocasiões onde temos de tomar decisões e nem sempre entre algo bom e algo mau, pois se assim fosse, aparentemente pareceria mais fácil. Decidir significa tomar uma opção, arriscar um caminho e renunciar, deixando algo para trás.

À luz do Evangelho deste Domingo, diríamos que somos permanentemente expostos à tentação, que implica uma decisão pronta e ousada, capaz de romper com o mal que nos afasta de Deus e dos irmãos. Tal como Jesus, também nós somos tentados, mas conscientes que é o Espírito Santo que nos conduz aos desertos exigentes e dramáticos da história: será Ele a iluminar o caminho que somos chamados a trilhar. As tentações são uma ocasião fundamental na nossa vida, pois são a oportunidade de voltar a escolher Deus e o Seu infinito amor. Três vezes tentado pelo diabo, por três vezes Jesus renova a Sua fidelidade ao Pai. Ser tentado é ser colocado à prova exigente de voltar a escolher Deus, de renovar o nosso desejo de O seguir, sustentados pela Sua Palavra.

É certo que pela nossa fragilidade muitas vezes nos afastamos do projeto que Deus tem para nós e diante de escolhas exigentes optamos pelo mal e pelo que divide. Contudo, este não é um caminho sem saída, pois «se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».

Tempo de Quaresma é tempo de conversão, tempo de transformação do coração, uma oportunidade para voltar a escolher Deus e o Seu amor. Que ao longo deste tempo, a leitura frequente e atenta da Palavra de Deus nos ajude a recentrar a vida, a estabelecer prioridades e a descobrir a verdadeira felicidade, que se experimenta pelo amor recebido e oferecido, pela prática da misericórdia e do perdão. in Voz Portucalense.

                                                  + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +

O Diretório litúrgico recorda que se deve «lembrar aos fiéis que, em união com a Paixão do Senhor e em espírito de penitência mais visível, nas sextas-feiras da Quaresma se deve escolher uma alimentação simples e pobre, que poderá concretizar-se na abstenção de carne. Lembrar-lhes também a finalidade das Renúncias Quaresmais deste ano, proposta pelo Bispo da Diocese». Além disso, deve também recordar-se as atitudes fundamentais características deste tempo da Quaresma – jejum, oração e esmola – que ajudam a promover o espírito de verdadeira conversão. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IGénesis 2,7-9;3,1-7

O Senhor Deus formou o homem do pó da terra,
insuflou em suas narinas um sopro de vida,
e o homem tornou-se um ser vivo.
Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente,
e nele colocou o homem que tinha formado.
Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
de frutos agradáveis à vista e bons para comer,
entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim,
e a árvore da ciência do bem e do mal.
Ora, a serpente era o mais astucioso
de todos os animais do campo
que o Senhor Deus tinha feito.
Ela disse à mulher:
«É verdade que Deus vos disse:
“Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?»
A mulher respondeu:
«Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus avisou-nos:
“Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”».
A serpente replicou à mulher:
«De maneira nenhuma! Não morrereis.
Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,
ficando a conhecer o bem e o mal».
A mulher viu então que o fruto da árvore
era bom para comer e agradável à vista,
e precioso para esclarecer a inteligência.
Colheu o fruto e comeu-o;
depois deu-o ao marido, que estava junto dela,
e ele também comeu.
Abriram-se então os seus olhos
e compreenderam que estavam despidos.
Por isso, entrelaçaram folhas de figueira
e cingiram os rins com elas.

 

CONTEXTO

O texto de Gn 2,4b-3,24 – conhecido como relato “javista” da criação – é um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. É “javista” porque utiliza o nome “Javé” para referir Deus. Apresenta-se num estilo exuberante, pitoresco, cheio de vida e parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes. Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem realista e factual de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Deus. Trata-se, portanto, de uma página de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens do mundo e da vida.

Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os teólogos javistas utilizaram elementos simbólicos e literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Por outras palavras: a linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são significativamente diferentes: mais maduras, mais ponderadas, mais profundas, mais consistentes.

A liturgia selecionou dois quadros do relato javista da criação para no-los propor, neste domingo, como primeira leitura. O primeiro quadro oferece-nos uma catequese sobre a origem do homem e o desígnio de Deus para o homem (cf. Gn 2,7-9); no segundo quadro, o autor javista propõe-nos uma reflexão sobre a origem desse mal que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à história dos homens (cf. Gn 3,1-7). in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia?
  • Como é que concretizamos essa vocação à felicidade que está inscrita no projeto que Deus tem para nós? De acordo com a mais genuína catequese de Israel, é obedecendo às indicações de Deus e vivendo de acordo com as suas propostas. Deus é um Pai bom, que nada nos impõe e que respeita sempre a nossa liberdade; mas insiste em mostrar-nos, a cada passo, o caminho para essa plenitude de vida que Ele sonhou para todos os seus queridos filhos. Quando aceitamos a nossa condição de criaturas, reconhecemos o amor de Deus e nos dispomos a acolher humildemente as indicações que Ele nos dá, construímos uma existência harmoniosa, um “paraíso” onde encontramos vida, harmonia, felicidade e plena realização. Como é que nos situamos diante de Deus? Na construção da nossa história de vida, a “voz” de Deus tem primazia sobre todas as outras vozes que ecoam à nossa volta? Vivemos atentos ao que Deus nos diz e caminhamos na direção que Ele nos indica?
  • Ao longo do caminho que estamos a percorrer, tropeçamos a cada instante com o “mal”, nas suas mil e uma formas. É uma experiência que sempre nos desconcerta e que muitas vezes nos deixa revoltados. O mal será uma inevitabilidade? Esse mal que desfeia o mundo e que deixa feridas profundas na vida de tantas pessoas, vem de Deus ou vem do homem? A Palavra de Deus que escutamos neste domingo responde sem hesitações: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de ambição, de violência, de sofrimento, de pecado… Olhemos para o nosso mundo e para a história dos homens: a realidade que vemos não confirma tudo isso? Olhemos também para nós e para a nossa história pessoal: quais são os caminhos que escolhemos? As propostas de Deus fazem sentido e são, para nós, indicações seguras para a felicidade, ou preferimos ser nós próprios a fazer as escolhas que nos interessam, prescindindo das indicações de Deus? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – SALMO 50 (51)

Refrão 1: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

 

Refrão 2: Tende compaixão de nós, Senhor,
porque somos pecadores.

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor

 

 

LEITURA II – Romanos 5,12-19

Irmãos:

Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
e pelo pecado a morte,
assim também a morte atingiu todos os homens,
porque todos pecaram.
De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo.
Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
mesmo para aqueles que não tinham pecado
por uma transgressão à semelhança de Adão,
que é figura d’Aquele que havia de vir.
Mas o dom gratuito não é como a falta.
Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
se concedeu com abundância a muitos homens.
E esse dom não é como o pecado de um só:
o julgamento que resultou desse único pecado
levou à condenação,
ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas,
leva à justificação.
Se a morte reinou pelo pecado de um só homem,
com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância
a graça e o dom da justiça,
reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.
Porque, assim como pelo pecado de um só,
veio para todos os homens a condenação,
assim também, pela obra de justiça de um só,
virá para todos a justificação que dá a vida.
De facto, como pela desobediência de um só homem,
muitos se tornaram pecadores,
assim também, pela obediência de um só,
muitos se tornarão justos.

CONTEXTO

O apóstolo Paulo não está ligado ao nascimento da comunidade cristã de Roma. Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.

Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. O olhar de Paulo dirigia-se agora para ocidente. O apóstolo pensava passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí anunciar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28).

Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.

Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com o Evangelho de Jesus.

O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rm 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos – judeus e não judeus – vivem imersos numa realidade que é a realidade do pecado (cf. Rm 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rm 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rm 5,12-8,39). in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Disse-nos que aquilo que os crentes veem como “propostas de Deus” são apenas resquícios de uma época pré-científica, obscurantista, ultrapassada, e que a plenitude da vida está no corte radical com qualquer autoridade exterior à nossa Razão – inclusive com Deus. Exaltou o individualismo, o antropocentrismo, e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho, o nosso destino, o sentido da nossa vida. Contudo, o apóstolo Paulo diz-nos o que pode acontecer quando nos instalamos na autossuficiência e deixamos Deus à margem do nosso projeto de vida. Poderemos, como Adão, prescindir de Deus e construir a nossa vida sem Ele ou contra Ele? Onde nos tem conduzido esta cultura que insiste em ignorar Deus e as suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz e mais realizado, ou tem potenciado o aparecimento de homens desorientados e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados, mais frustrados, mais vazios, mais desencantados?
  • Alguns acontecimentos que têm marcado o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem das propostas de Deus é uma história que caminha em direção a um desastre anunciado. Se escutássemos Deus, o nosso tempo conheceria as guerras que tingem de sangue os caminhos que percorremos? Se escutássemos Deus, teríamos tantos homens e mulheres sem voz e sem vez abandonados nas bermas dos caminhos que a humanidade percorre? Se escutássemos Deus estaríamos hoje a construir narrativas onde entram palavras como “genocídio”, “massacre”, “chacina”, “extermínio”, “horror”? Se escutássemos Deus, viveríamos num precário equilíbrio de terror e embarcaríamos numa estúpida corrida aos armamentos que ninguém sabe como vai terminar? Se escutássemos Deus, continuaríamos a destruir irresponsavelmente os recursos do planeta, pondo em causa a sobrevivência da humanidade? Qual é o nosso papel de crentes, em toda esta história? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da vida dos homens, as suas propostas sejam acolhidas e a história humana entre nos carris?
  • Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 4,1-11

Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou se e disse lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu lhe Jesus:
«Vai te, Satanás, porque esta escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

 

CONTEXTO

Nos Evangelhos Sinópticos, a cena das “tentações de Jesus” está encaixada entre o episódio do batismo e o início da pregação do Reino de Deus (cf. Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).

No batismo Jesus, o “Filho muito amado” de Deus”, é ungido pelo Espírito, como os profetas (cf. Mt 3,16). No mundo bíblico, a unção anda sempre associada a uma missão. Jesus tem consciência disso: quando o ungiu com o Espírito, o Pai estava a dizer-Lhe que contava com Ele para concretizar um projeto de salvação em favor dos homens.

Como é que Jesus se posiciona diante da missão que o Pai pretende confiar-Lhe? Como irá concretizá-la? Privilegiará os seus interesses pessoais, ou o projeto de Deus? O episódio das “tentações de Jesus” propõe-se responder a estas questões.

Trata-se de um episódio real, descrito de forma estritamente histórica, com um “diabo” a disputar a Jesus o centro do palco? Trata-se, fundamentalmente, de uma página de catequese. É muito provável que Jesus, após o seu batismo no rio Jordão, se tenha internado no deserto de Judá e passado alguns dias a meditar sobre a missão que Deus queria confiar-lhe. Nesse tempo de “retiro”, Jesus confrontou-se com uma luta interior, com opções fundamentais, com a definição do seu projeto de vida. É natural também que, mais tarde, Jesus tenha falado com os seus discípulos sobre o que sentiu quando teve de escolher, a fim de que eles percebessem que, diante da proposta do Reino de Deus, também eles tinham de tomar decisões. Esse diálogo deve ter causado uma profunda impressão nos discípulos. O facto de o relato das “tentações de Jesus” ser conhecido desde o início nas comunidades cristãs primitivas mostra isso mesmo.

O episódio é situado “no deserto”. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”, onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono de Deus e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à tentação e dizer “não” ao projeto de Deus, como aconteceu com os israelitas alguns séculos antes?

As “tentações de Jesus” não são contadas da mesma forma por todos os Sinópticos. Marcos limita-se a referir que Jesus “foi tentado”, sem entrar em pormenores; as narrativas que Mateus e Lucas fazem das “tentações” de Jesus são muito semelhantes entre si, embora a segunda e a terceira “tentação” apareçam, nos dois Evangelhos, em ordem diferente. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?
  • Uma das “tentações” com que Jesus teve de se debater foi a dos bens materiais. É uma “tentação” que conhecemos bem, pois temos de lidar com ela a todos os instantes. Apelando à nossa apetência pelo conforto, pelo bem-estar, pela segurança, ela convida-nos a acumular coisas, a priorizar o dinheiro, a fazer dos bens materiais o grande objetivo da nossa vida. É, no entanto, uma “tentação” que pode desvirtuar completamente o sentido da nossa existência: cria dependência, torna-nos escravos dos bens materiais, faz-nos correr atrás de coisas efémeras; fecha-nos à partilha, à solidariedade, à fraternidade; potencia a indiferença face às necessidades dos nossos irmãos; incita-nos a apostar em mecanismos de exploração e de lucro… Qual o lugar e o papel que os bens materiais assumem na nossa vida? A forma como lidamos com os bens materiais é sadia e equilibrada?
  • Outra das “tentações” que se atravessou no caminho de Jesus foi a de utilizar Deus para obter o reconhecimento, os aplausos, o apreço, a consideração dos homens. Não é uma “tentação” tão incomum como parece à primeira vista. Esta “tentação” pode fazer-nos pensar na utilização da fé para obter benefícios pessoais, para construir uma “carreira” de sucesso, para conquistar reputação, renome ou prestígio; pode fazer-nos pensar na utilização da religião para obter privilégios, títulos ou honrarias; pode fazer-nos pensar nas “exigências” que fazemos a Deus para que Ele nos conceda os favores a que julgamos ter direito… E pode, por outro lado, fazer-nos pensar nas cedências que algumas pessoas estão dispostas a fazer, às vezes à custa da própria dignidade, para obter uns minutos de fama e de notoriedade… O reconhecimento, a fama, os aplausos, os privilégios, serão bens pelos quais vale a pena pagar qualquer preço?
  • A terceira das “tentações” que Jesus teve de enfrentar foi a do poder, da glória, dos triunfos humanos. Jesus considerava que a vontade de subjugar os outros, de deter autoridade ilimitada, de dominar o mundo, é algo de diabólico, que pode fazer o homem perder a sua grande referência – Deus. Está na base do orgulho e da autossuficiência que fecham o homem no seu ghetto pessoal; leva o homem a querer libertar-se do “controle” de Deus e a virar as costas a Deus; desenvolve no homem “tiques” de autoritarismo, de intolerância, de prepotência que causam feridas irreparáveis no mundo; favorece o abuso dos mais fracos, dos mais pequenos; promove mecanismos de escravidão, de exploração, de crispação social; fomenta guerras, violências, imperialismos; constrói muros de inimizade que separam as pessoas e que as impedem de viver em harmonia… Esta “tentação” é problema para nós? Como é que nós tratamos aqueles com quem partilhamos o caminho da vida: com sobranceria e arrogância, ou com humildade, respeito e amor?
  • Nós somos humanos e frágeis. Vivemos mergulhados numa realidade de pecado, que nos condiciona e nos arrasta para opções discutíveis. Será possível vencermos essas “tentações” que continuamente aparecem no caminho da nossa vida? Jesus venceu-as. Ele nunca aceitou que a sua vida fosse conduzida pelo meio de equívocos e de facilitismos. Escolheu, uma e outra e outra vez não se afastar do projeto do Pai. Podemos dizer que não temos a mesma força de Jesus. Pode ser verdade. Mas Ele vai à nossa frente a apontar-nos o caminho e a dizer-nos que é possível dizer “não”, uma e outra e outra vez, às propostas que nos levam por caminhos onde não há vida verdadeira. Estamos dispostos a tentar sem desculpas e sem justificações, seguir o exemplo de Jesus? in Dehonianos.

 

 

 

Para os leitores

Na preparação da primeira leitura deve ter-se em atenção a presença do discurso direto com frases interrogativas. A leitura de uma frase interrogativa deve fazer-se acentuando a partícula interrogativa ou o verbo presente na frase e não acentuando apenas o final da frase.

A segunda leitura, tal como já nos habituamos no epistolário Paulino, devido às frases longas com diversas orações, requer uma acurada preparação na articulação do texto, assinalando as pausas e respirações.

 

ANEXOS:

Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026

Viver a Palavra

Sobre o Monte, Jesus continua a falar ao coração dos Seus discípulos, apresentando as coordenadas fundamentais para O seguir e para colaborar na missão de estabelecer no mundo o Reino de Deus. Ser feliz, ser bem-aventurado, é partir na aventura de subir ao Monte com Jesus. É abraçar o desafio de caminhar rumo à medida alta da santidade. É ser luz e sal para que no mundo possa ecoar a mais bela melodia do amor e, assim, contemplando as nossas boas obras, cada homem e cada mulher eleve o seu olhar para Aquele que é a fonte de todo o amor.

Subir ao monte é uma experiência humana verdadeiramente marcante não só pela possibilidade de contemplar o mundo e a natureza de um modo novo, mas também porque exige esforço e determinação para atingir a meta. Sabemos como os nossos antepassados, desde os cultos mais primitivos até às capelas e santuários cristãos, escolheram o cimo do monte como lugar privilegiado para o encontro com Deus. Subir para descer, chegar mais alto para trilhar melhor os caminhos cá em baixo, aproximar-se de Deus para melhor nos aproximarmos dos irmãos. É esta a nova lógica do Reino que Jesus faz ecoar sobre o monte e que nos aponta a radicalidade do Seu Evangelho.

Jesus apresenta a novidade da sua mensagem, levando à plenitude a lei que outrora também sobre o monte foi dada ao povo por meio de Moisés. Esta lei nova, que Jesus não vem revogar, mas completar, deve ser inscrita não em tábuas de pedra, mas no coração dócil de cada homem e cada mulher. Esta é uma proposta livre que reclama do nosso coração uma adesão consciente e determinada: «se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade. Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares». Seguir Jesus Cristo, acolhendo a radicalidade do Seu Evangelho é um caminho de verdadeira liberdade e, por isso, tão exigente. Livremente eu aceito não viver uma lei de mínimos, livremente eu desejo ser mais e melhor a partir do amor de Jesus, livremente eu acolho o desafio de viver a permanente tensão entre aquilo que sou e aquilo que o Senhor me chama a ser.

Viver com radicalidade o que Jesus nos propõe no Evangelho deste Domingo pode ser frustrante e até desanimador e podemos até ser tentados a afirmar que esta proposta está para lá das nossas capacidades humanas. Na verdade, sozinhos nunca seremos capazes, mas conscientes de que Aquele que nos aponta o caminho também caminha connosco, poderemos avançar com renovada esperança e revigorada confiança. A exigência do caminho e a medida alta que está colocada diante de nós são a garantia de que estaremos permanentemente a caminhar, numa atitude de permanente conversão, superando os nossos limites, vencendo as nossas fragilidades e acolhendo o convite de Jesus para que a nossa linguagem seja sempre marcada pela determinação de quem sabe dizer sim ao amor e não a tudo o que nos afasta dele.

«Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos». Estas palavras estão entre as mais radicais do Evangelho, mas são também as mais humanas, porque nos indicam o caminho da verdadeira felicidade, a possibilidade de viver de modo novo a relação com os outros e realizar no tempo e na história o Reino de Deus que haveremos de experimentar em plenitude no Céu.in Voz Portucalense.

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No dia 14 de fevereiro, comemora-se o Dia dos Namorados. A Pastoral Familiar da paróquia pode convidar os namorados a participar de modo especial na celebração deste Domingo ou noutro momento considerado mais oportuno e valorizar-se a sua presença com uma oração rezada em conjunto ou uma especial bênção para os namorados/noivos. Recordo que a Exortação Amoris Laetitia convida «as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos» (AL 207). Além disso, este momento torna-se uma oportunidade para os casais de namorados cristãos olharem o tempo de namoro como tempo feliz de preparação para o sacramento do matrimónio num caminho comunitário.  in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IBen Sirá (Eclesiástico)15, 16-21 (15-20)

Se quiseres, guardarás os mandamentos:
ser-lhe fiel depende da tua vontade.
Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte:
o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor,
Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
Ele conhece todas as coisas do homem.
Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.

CONTEXTO

O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).

A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.

Nos capítulos 14 e 15 do seu livro, Jesus Ben Sira reflete sobre a forma de encontrar a verdadeira felicidade. É nesse enquadramento que a primeira leitura deste domingo nos propõe: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira sabedoria e convida-os a percorrê-lo. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • É verdade que não nascemos todos iguais. Desde o primeiro instante da nossa existência o nosso caminho está marcado por fatores hereditários, pelo contexto familiar e social, pela condição económica e por outras variantes que irão ter influência no nosso desenvolvimento e no nosso enquadramento no mundo. Mas, apesar dessa “bagagem” que transportamos desde a nossa entrada no mundo, há uma realidade incontornável: nascemos livres e somos responsáveis pelo nosso destino. Jean Paul Sartre falava de sermos seres “condenados” à liberdade pois, embora não tenhamos escolhido nascer, a partir do momento em que somos lançados no mundo, tornamo-nos inteiramente responsáveis por todas as nossas escolhas e ações. A reflexão do sábio Ben Sirá que a primeira leitura deste domingo nos apresenta lembra-nos isso. “Condenados” à liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, das “ordens” dos influenciadores, dos interesses que nos governam? Demitimo-nos da nossa responsabilidade na definição do caminho que percorremos e aceitamos que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
  • Entre as escolhas possíveis está, segundo Jesus Ben Sirá, um caminho que conduz à vida. De acordo com a catequese de Israel, encontra-se “vida” cumprindo a Lei dada por Deus. O caminho que conduz à vida e à felicidade é, portanto, o caminho que está balizado pelos mandamentos de Deus. Percorrer esse caminho implica confiar em Deus, acreditar que o seu interesse supremo é o bem dos seus queridos filhos. Quando um crente está certo da bondade e do amor de Deus, então não hesita em viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das propostas de Deus, numa obediência radical a Deus. As indicações de Deus não lhe soam como uma imposição de um Deus exigente, mas sim como os conselhos amorosos de um Pai que só quer o bem dos seus filhos. Estamos interessados em escolher o caminho que conduz à vida? Que importância damos, na definição das nossas prioridades e dos nossos valores fundamentais, aos mandamentos e às propostas de Deus?
  • De acordo com Ben Sirá, há uma outra escolha possível: o caminho que conduz à morte. É o caminho perigoso seguido por aqueles que escolhem o egoísmo, a autossuficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Fechando-se em si próprio e ignorando deliberadamente as propostas de Deus, o homem acaba por privilegiar os seus interesses egoístas e por introduzir no mundo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, violência e morte. Vemos isso acontecer todos os dias à nossa volta. De onde vêm as guerras, as divisões, os conflitos que todos os dias ameaçam a vida de tantos homens e mulheres inocentes? De onde vêm a ganância, a corrupção, a exploração dos mais fracos, os mecanismos de injustiça que roubam a vida e a dignidade a tantas pessoas? De onde vem a ganância que leva os poderosos a pilharem a natureza e a guardarem, para benefício próprio os recursos que pertencem a todos? O que será ainda necessário acontecer para percebermos que ignorar as indicações de Deus é um caminho que nos arrasta, inevitavelmente, em direção a um beco sem saída?
  • De onde vêm os males que sombreiam o caminho e a história dos homens? Resultarão da negligência de um Deus que “não quer saber” dos seus filhos? Serão castigos de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos inadequados? O problema do mal é complexo e não tem respostas simples. No entanto, a reflexão de Ben Sirá deixa-nos, desde logo, uma certeza: muitos dos males que desfeiam o mundo e que causam sofrimento aos homens provêm das escolhas erradas que fazemos. Deus não castiga, nem “inventa” males para nos travar; mas as nossas opções sem sentido podem resultar em dor e infelicidade para nós e para todos aqueles que caminham ao nosso lado. Se, no exercício da nossa liberdade, escolhermos ignorar as indicações de Deus e avançar por caminhos sem sentido, poderemos atribuir a Deus as culpas pelo dano que isso nos traz? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.

Felizes os que seguem o caminho perfeito
e andam na lei do Senhor.
Felizes os que observam as suas ordens
e O procuram de todo o coração.

Promulgastes os vossos preceitos
para se cumprirem fielmente.
Oxalá meus caminhos sejam firmes
na observância dos vossos decretos.

Fazei bem ao vosso servo:
viverei e cumprirei a vossa palavra.
Abri, Senhor, os meus olhos
para ver as maravilhas da vossa Lei.

Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
para ser fiel até ao fim.
Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
e para a cumprir de todo o coração.

 

 

LEITURA II – 1 Coríntios 2, 6-10

Irmãos:
Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos,
mas de uma sabedoria que não é deste mundo,
nem dos príncipes deste mundo,
que vão ser destruídos.
Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,
que já antes dos séculos
Deus tinha destinado para a nossa glória.
Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu;
porque se a tivessem conhecido,
não teriam crucificado o Senhor da glória.
Mas, como está escrito,
«nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram,
nem jamais passou pelo pensamento do homem
o que Deus preparou para aqueles que O amam».
Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
porque o Espírito Santo penetra todas as coisas,
até o que há de mais profundo em Deus.

CONTEXTO

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era uma cidade nova e muito próspera. Abrigava vários templos importantes, como o famoso templo de Apolo e o templo de Afrodite no topo da Acrópole, onde se praticava a prostituição sagrada. Disfrutando de uma localização geográfica vantajosa, entre o Mar Egeu e o Mar Jónico, tornou-se um centro comercial crucial para o transporte de mercadorias no Mediterrâneo. Servida por dois portos de mar (um que acolhia pessoas e mercadorias do ocidente e outro que recebia pessoas e mercadorias do oriente), possuía as características típicas das cidades marítimas: uma população de todas as raças e local onde estavam sediados todos os cultos e religiões. Além disso, Corinto era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Paulo passou pela primeira vez em Corinto durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).

Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), provavelmente quando estava em Éfeso. O apóstolo teve conhecimento de notícias que davam conta de problemas graves na comunidade de Corinto: divisões, conflitos e escândalos de vária índole. As divisões resultavam, em boa parte, do facto de os coríntios identificarem a experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Sendo assim, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido.

Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. O caminho cristão é a adesão a Cristo crucificado, o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.

Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar-lhes, de uma forma bem assertiva, a “sabedoria de Deus in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Assim, “à vista desarmada”, não parece incrível que Deus se tenha dado a tanto trabalho e a um planeamento tão bem arquitetado para nos oferecer – a nós, pequenos grãos de pó perdidos num universo infinito – a possibilidade de chegarmos à vida eterna? Pensando bem, só o amor explica esta “aposta” de Deus. Para Deus, talvez não sejamos apenas pequenos grãos de pó sem significado, mas filhos muito queridos que Ele criou com amor e que Ele continua a amar profundamente, apesar da nossa fragilidade. Por isso, Deus não desiste de “salvar-nos”, de cuidar de nós, de nos mostrar os caminhos que conduzem à vida, de nos inserir na sua família. Ele tem passado toda a história a fazer isso: a oferecer-nos a possibilidade de caminharmos ao encontro de uma vida plena. Até mesmo quando Lhe viramos as costas, O ignoramos, escolhemos caminhos de orgulho e de autossuficiência, Ele continua a amar-nos a mostrar-nos como podemos chegar à felicidade verdadeira. O que é que isso nos sugere? Como sentimos este grande amor, esse infinito amor que Deus nos dedica? Como é que respondemos ao amor de Deus?
  • A “sabedoria humana” – que Paulo denuncia – não é necessariamente, à priori, algo mau. Só será algo mau se nos atirar para caminhos de orgulho, de vaidade, de autossuficiência. Ora, muitas vezes é precisamente isso que acontece. Convencidos da nossa importância e da excelência das nossas “qualidades”, julgamos que podemos bastar-nos a nós próprios. Afastamo-nos de Deus, ignoramos as suas propostas, construímos a nossa história de vida à volta dos nossos interesses, dos nossos motivos, das nossas convicções pessoais. Os “mandamentos” de Deus tornam-se, para nós, um empecilho que fazemos questão de ignorar. Achamos também que não precisamos dos outros. Tornamo-nos arrogantes com os nossos irmãos, desprezamo-los e fazemos com que o mundo gire apenas à nossa volta. Acabamos por nos encontrar em caminhos fechados, que não levam a lado nenhum. Não é aí que está a nossa salvação, não é dessa forma que chegaremos à realização plena, não é assim que daremos sentido à nossa vida. Como é que queremos viver? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 5,17-37

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
‘Não cometerás adultério’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
O que passa disto vem do Maligno».

CONTEXTO

O evangelista Mateus leva-nos hoje, outra vez, até ao cimo de uma montanha da Galileia, onde Jesus pronuncia, diante dos seus discípulos, o famoso “sermão da montanha” (a tradição cristã identifica essa montanha com um pequeno monte com 150 metros de altura, situado a noroeste de Cafarnaum, junto do Mar da Galileia, designado em hebraico como Har HaOsher). É o primeiro de cinco discursos de Jesus que Mateus nos oferece (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25) e que, na perspetiva do evangelista, correspondem aos cinco livros da antiga Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), dada por Deus ao seu povo no Monte Sinai.

O “sermão da montanha (cf. Mt 5-7) reúne um importante conjunto de palavras (“ditos”) de Jesus onde Mateus vê as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista considera que as palavras de Jesus no “sermão da montanha” propõem um novo código ético, uma Lei nova que supera e substitui a velha Lei do Sinai.

Depois de, no preâmbulo do “sermão da montanha”, nos ter apresentado as “bem-aventuranças” (cf. Mt 5,1-12) e a definição da missão dos discípulos (cf. Mt 5,13-15), Mateus entra no corpo central do discurso.

Se Jesus vem propor uma “nova Lei”, que será da Lei antiga, a Lei outrora dada por Deus ao seu povo no Sinai? Tratava-se, evidentemente, de uma questão que preocupava bastante a comunidade cristã de Mateus, oriunda maioritariamente do mundo judaico e que continuava apegada à Lei de Moisés. Como é que Jesus se situa face à antiga Lei? Veio aboli-la? Qual é a novidade que Ele traz? A antiga Lei poderá coexistir com a proposta de Jesus? in Dehonianos

 

INTERPELAÇÕES

  • O “sermão da montanha” que Jesus um dia dirige aos discípulos no alto de um monte da Galileia tem por objetivo desafiá-los, fazê-los “ganhar altura”, evitar que eles fiquem atascados numa existência fútil e rasteira, levá-los a caminhar de rosto levantado e de olhos postos nas realidades eternas. Não se trata de evitar que eles sujem os pés e as mãos no pó dos caminhos, ou que reneguem essa fragilidade que é inerente à condição humana; trata-se de oferecer-lhes uma perspetiva elevada do sentido da existência, de forma que eles não se conformem com a mediocridade, as meias tintas, as convicções mornas, as coisas efémeras. Talvez devêssemos ler de vez em quando o “sermão da montanha” para não nos resignarmos à mediania e à banalidade, para não nos instalarmos numa existência cómoda, mas sem saída. Somos chamados por Deus à santidade, a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna. Não podemos aceitar menos do que isso. Estamos disponíveis para aceitar o desafio de Jesus e para abraçar o dinamismo do Reino de Deus e da sua justiça? Estamos dispostos a “voar alto” e a encontrar um sentido pleno para a nossa existência?
  • Quando Jesus sugere aos discípulos que não se deixem apanhar pela armadilha do legalismo, está precisamente a mostrar-lhes como podem libertar-se de uma existência rasteira para “voarem mais alto”. Podemos simplesmente cumprir leis – e assim sentirmo-nos em paz com a nossa consciência – mas sem que isso envolva o nosso coração e nos leve a uma existência comprometida com as exigências de Deus; podemos limitar-nos a executar a letra da Lei, mas a passar ao lado daquilo que é realmente decisivo na construção de um mundo segundo Deus. “Cumprir as leis” é cómodo e relativamente fácil; o que é difícil é assumir plenamente as indicações de Deus e fazer com que essas indicações definam o sentido da nossa existência em todas as suas vertentes. O verdadeiro crente é aquele que, não apenas cumpre uma determinada Lei escrita factual, mas procura escutar Deus a cada passo e deixar-se conduzir em tudo pela vontade de Deus. É isso que se passa na nossa vida? Os “mandamentos” de Deus são, para nós, simples leis que olhamos de esguelha e que nos sentimos obrigados a cumprir, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que nos ajudam a “voar mais alto”, a potenciar a nossa relação com Deus, a avançar no caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para nós, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que fizemos por Deus?
  • Vale a pena determo-nos no primeiro exemplo que Jesus dá: “não matar”. Jesus entende-o não apenas no sentido estrito da palavra “matar”, mas no sentido amplo de “privar alguém de vida”. No entendimento de Jesus, “não matar” equivale a evitar tudo aquilo que cause dano aos irmãos que caminham ao nosso lado. Estamos conscientes de que podemos “matar” com certas atitudes de egoísmo, de agressividade, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia, de má-língua, de palavras e gestos que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem-estar, as suas relações, a sua paz? Estamos conscientes de que brincar com a dignidade dos nossos irmãos, ofendê-los, envergonhá-los, humilhá-los, inventar caminhos tortuosos para os desacreditar ou desmoralizar, julgá-los e condená-los na praça pública, é subverter gravemente a harmonia que Deus quer que reine entre os seus filhos? Estamos conscientes de que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem está caído e abandonado na berma da estrada da vida, recusar um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, de compreensão, é destruir a vida que Deus quer para todos os seus filhos?
  • Jesus diz aos discípulos, no “Sermão da montanha”: “Não jureis em caso algum… A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’”. Também aqui há uma indicação que aponta a “levantar a vida”, a subir a um patamar mais elevado. É um convite a viver na verdade, na sinceridade, na total claridade; é um convite a recusar a mentira, os enganos, as meias-verdades, as “chico-espertices” de quem apenas pensa em triunfar a qualquer custo. Sentimos que temos um compromisso inquebrantável com a verdade, com a limpidez, com a honestidade? O nosso modo de estar na vida reflete a verdade, a lealdade e a fidelidade de Deus?
  • Jesus pede aos seus discípulos que, se estiverem diante do altar para prestar culto a Deus, mas se recordarem que estão em conflito com algum irmão, procurem primeiro reconciliar-se com o irmão com quem estão desavindos; só depois fará sentido apresentarem-se diante de Deus. Tiramos disto as devidas consequências? O culto celebrado em estado “de guerra”, com o coração desassossegado, não agrada a Deus; a comunhão com Deus é incompatível com a ira, o conflito, a divisão, a recusa em abrir os braços para abraçar o irmão. Deus não consegue entender que nos apresentemos diante d’Ele para lhe manifestarmos o nosso amor e, simultaneamente, vivamos em conflito com os outros seus filhos. Na nossa vida de fé, que lugar ocupa o amor aos irmãos? in Dehonianos.

Para os leitores

Na primeira leitura pede-se a atenção para a frase condicional que abre a leitura, bem como para as duas frases seguintes cuja dinâmica em jeito de proposta alternativa deve ser sublinhada na proclamação da leitura.

A segunda leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente, contudo pede-se o especial cuidado a ter nas cartas de Paulo na atenção às frases longas com diversas orações e uma preparação que ajude a estabelecer os lugares de pausa e paragem para uma melhor articulação da leitura.

ANEXOS:

Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026

Viver a Palavra

            Como cristãos somos chamados a habitar o mundo em que vivemos, vencendo a globalização da indiferença, libertando-nos do nosso comodismo e testemunhando com ousadia a felicidade de viver com os olhos e o coração abertos sobre o mundo.

Dirigindo-se aos discípulos de outrora, Jesus interpela cada um de nós, discípulos de hoje, neste lugar e tempo concreto da história humana: «Vós sois o sal da terra! Vós sois a luz do mundo!». Jesus diz precisamente «vós sois» e não «vós deveis ser». Ser sal e ser luz fazem parte da nossa identidade cristã e devem moldar todo o nosso querer e agir. Bem sabemos que muitas vezes a nossa vida é insípida e opaca, mas no nosso coração Deus derramou o sal que transforma e dá sabor e a luz que dissipa as trevas e ilumina mesmo os recantos mais recônditos da nossa existência.

Somos chamados a ser sal que não perde a força e luz que não se esconde. Como discípulos missionários somos convocados para ser verdadeiros protagonistas na construção da civilização do amor, apontando sempre para Jesus Cristo, meta das nossas vidas e garante da eficácia da nossa missão, não obstante a nossa fragilidade e pecado. Como Paulo, diante da missão que nos é confiada, somos tentados a dizer: «apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras». Contudo, devemos fixar o nosso olhar e a nossa atenção na confiança que Jesus deposita em cada um de nós: Ele conhecendo a nossa fragilidade e debilidade não hesita em fazer de nós sal e luz e faz das nossas vidas lugares luminosos e saborosos para que no mundo se possa saborear a misericórdia e a ternura de Deus e se possa contemplar a luz terna e suave do Seu amor. Não tenhamos medo da nossa fragilidade, nem tampouco deixemos que ela nos paralise. Escutemos o Papa Francisco: «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (EG 49). Vencendo o comodismo, somos chamados a lançar-nos ao caminho, a ser sal e luz, a ser testemunhas criativas de que só o amor pode transformar o mundo num lugar melhor e mais feliz.

O sal é, antes de tudo, um elemento saído das águas do mar, respondendo ao luminoso apelo do sol. Assim, cada um de nós é chamado a ascender pela força atrativa da Luz divina. Mas como o sal que depois deve descer aos alimentos e dissolver-se neles para que discreta e humildemente possa dar sabor na medida certa e ajustada, também cada cristão é chamado a ser no mundo e para mundo um testemunho discreto, mas eficaz do amor e da ternura de Deus.

A luz permite ver a realidade e os outros de um modo novo e diferente. Só Jesus é a Luz do Mundo, mas convocados pela sua palavra, somos chamados a irradiar no tempo e na história a luz terna e suave do Seu amor. Mas gosto de imaginar o nosso ser luz como um rasto luminoso que não encandeia aqueles com quem nos cruzamos, mas que os conduz à fonte de toda a Luz que é Jesus Cristo. A primeira leitura que escutamos neste Domingo aponta de modo claro as condições necessárias para ser luz: abrir o nosso coração e a nossa vida aos que precisam de nós com gestos concretos de amor e misericórdia. Transportando na fragilidade do nosso barro o precioso tesouro que é «Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado», seremos um sinal saboroso e um rasto luminoso do amor de Deus, fazendo ecoar no tempo e na história a mais bela melodia da bondade e da ternura pela prática concreta e exigente das obras de misericórdia. in Voz Portucalense.

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Ser sal e ser luz define a essência do nosso ser cristão e impele-nos a uma abertura missionária que nos coloca em permanente estado de missão. Por isso, este domingo é uma oportunidade apara ajudar os fiéis a redescobrir a sua dignidade batismal e o convite à santidade que ela encerra, numa dinâmica missionária que alarga as fronteiras da comunidade. Contudo, esta ontologia missionária não poderá ser apenas um refrão inconsequente, mas é necessário que ela transforme o nosso coração e a nossa vida e nos faça testemunhar o evangelho pela fraternidade e comunhão que se tornam sal e luz para os homens e mulheres de hoje. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 58, 7-10

Eis o que diz o Senhor:
«Reparte o teu pão com o faminto,
dá pousada aos pobres sem abrigo,
leva roupa ao que não tem que vestir
e não voltes as costas ao teu semelhante.
Então a tua luz despontará como a aurora
e as tuas feridas não tardarão a sarar.
Preceder-te-á a tua justiça
e seguir-te-á a glória do Senhor.
Então, se chamares, o Senhor responderá,
se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia».

 

CONTEXTO

Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica. Os biblistas designam esta coleção com o nome geral de “Trito-Isaías”. O poema que a liturgia deste quinto domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.

Em 538 a.C. o rei persa Ciro, depois de conquistar a Babilónia, autorizou os exilados judeus a regressar a Jerusalém. Alguns puseram-se imediatamente a caminho. Chegaram a Jerusalém cheios de entusiasmo; mas rapidamente ficaram desiludidos… A cidade estava destruída; o domínio persa recordava aos retornados que não eram livres. As profecias sobre a reconstrução de Jerusalém – que o Deutero-Isaías (cf. Is 40-55) tinha oferecido aos exilados quando ainda estavam na Babilónia – não se tinham concretizado. A intervenção definitiva de Deus para restabelecer as glórias passadas e para oferecer ao seu povo um futuro de vida abundante tardava em chegar.

No universo religioso de Jerusalém parece haver, por esta altura, uma forte tensão entre dois “partidos” ligados à vida cultual. De um lado, está o sacerdócio sadoquita (da linha de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que incluía sacerdotes recém-retornados do exílio na Babilónia, convencidos de que tinham sido provados e perdoados pelas suas faltas. Mantinham boas relações com o poder persa, estavam decididos a fazer valer os seus direitos e privilégios e pretendiam ser eles a definir as coordenadas do culto oficial. Do outro lado está o sacerdócio levítico, que incluía sacerdotes que se tinham mantido sempre em Jerusalém, presidindo à vida cultual da cidade durante os anos que tinha durado o Exílio. Tinham uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do texto que, neste domingo, nos é proposto como primeira leitura pertencem, provavelmente, a este último grupo.

O capítulo 58 – de onde é tirado o nosso texto – apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e o respeito pela santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).

A propósito do culto vazio e sem correspondência na vida aborda-se a questão do jejum (a raiz “jejuar” aparece sete vezes ao longo do capítulo). Como é que Deus vê a questão do jejum, uma das traves-mestras da vivência judaica da fé (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2Sm 12,16-17; 1Rs 21,27; Esd 8,21; Est 4,16; Dn 9,3)? Qual é como é o jejum que agrada a Deus? in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • O que é que Deus pretende de nós? Qual o papel que Ele nos destina no seu plano salvador? A estas perguntas poderão ser dadas múltiplas respostas. Uma das mais belas e mais desafiantes aparece nas palavras do Trito-Isaías que escutamos hoje: Deus pretende que sejamos uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta aos homens o caminho que leva à vida verdadeira. Sim, é uma boa resposta. Mas, como poderemos ser essa luz? Oferecendo a Deus rituais litúrgicos majestosos, que sejam expressão (mesmo que deslavada) da grandeza e da omnipotência de Deus? É oferecendo ao mundo o espetáculo de uma religião que se exprime em gestos e palavras carregados de história e de tradição, mas herméticos e incompreensíveis para os homens e mulheres que se movem à margem dos caminhos da fé? Ouçamos, outra vez, o Trito-Isaías: seremos luz de Deus no mundo se partilharmos o nosso pão com os famintos, se ficarmos do lado dos injustiçados, se cuidarmos daqueles que ninguém cuida, se formos testemunhas da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem. Dessa forma, todos nos verão e todos entenderão o nosso testemunho. Como é que vemos tudo isto? Como vivemos e expressamos a fé que nos anima?
  • A história atual do nosso mundo está a ser escrita no meio de infinitas sombras… A cada instante, a guerra e a violência semeiam a morte e desumanizam agressores e agredidos; a cada momento há homens e mulheres humildes e bons, que não fazem mal a ninguém, mas que veem as suas vidas destruídas pela prepotência, pela injustiça e pela arrogância dos poderosos; a cada passo multiplicam-se os sinais de indiferença para com os sofredores, os frágeis, os que não têm pão, os que não têm casa, os que são obrigados a procurar num país estranho um futuro viável; a cada hora são maiores as feridas que deixamos na natureza, explorada e saqueada pelo nosso egoísmo e pela nossa ganância; a cada instante há mais homens e mulheres que não encontram lugar à mesa onde a humanidade come e que são abandonados nas bermas dos caminhos… Talvez estas “sombras” existam porque nós nos entrincheiramos atrás das portas do nosso egoísmo e não cuidamos de ser luz que brilha no mundo. Em concreto, o que podemos fazer para que o nosso mundo se torne menos sombrio? O que é que Deus nos estará a pedir para fazer neste momento da história do mundo? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 111 (112)

Refrão 1: Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.

Refrão 2: Aleluia.

 

Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
o homem misericordioso, compassivo e justo.
Ditoso o homem que se compadece e empresta
e dispõe das suas coisas com justiça.

Este jamais será abalado;
o justo deixará memória eterna.
Ele não receia más notícias:
seu coração está firme, confiado no Senhor.

O seu coração é inabalável, nada teme;
reparte com largueza pelos pobres,
a sua generosidade permanece para sempre
e pode levantar a cabeça com altivez.

 

 

 

LEITURA II – 1 Coríntios 2, 1-5

Quando fui ter convosco, irmãos,
não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria
a anunciar-vos o mistério de Deus.
Pensei que, entre vós, não devia saber nada
senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.
Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor
e a tremer deveras.
A minha palavra e a minha pregação
não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana,
mas na poderosa manifestação do Espírito Santo,
para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana,
mas no poder de Deus.

 

CONTEXTO

Corinto, a capital da província romana da Acaia, era uma cidade cosmopolita e próspera, de população heterogénea. Na época neotestamentária, devia ter à volta de meio milhão de habitantes, dos quais dois terços eram escravos. Servida por dois portos de mar – um virado para ocidente, outro para oriente – era a cidade onde a cada momento desembarcavam marinheiros chegados de todos os portos do Mediterrâneo, ávidos de prazeres depois de semanas passadas no mar. Os mais diversos cultos religiosos estavam ali representados. Mas a grande referência religiosa de Corinto era Afrodite, a deusa do amor, da beleza, da sexualidade e da fertilidade, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada.

Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Instalou-se na cidade e começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos há pouco chegado de Roma. Ao sábado Paulo frequentava a sinagoga e aí falava aos judeus sobre Jesus. No entanto, o apóstolo não tardou a entrar em choque com os líderes da comunidade judaica da cidade. Expulso da sinagoga (cf. At 18,6), Paulo decidiu dedicar-se à evangelização dos pagãos. O apóstolo permaneceu em Corinto cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52). Quando deixou a cidade, já havia em Corinto uma comunidade cristã numerosa e entusiasta.

Mesmo fisicamente afastado da comunidade, Paulo não perdeu o contacto com os seus queridos filhos de Corinto. Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes sobre a comunidade. Após a sua partida de Corinto, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Co 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.

Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. No entanto, como é que a salvação e a realização plena do homem podem manifestar-se nessa estranha história de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um maldito? Para demonstrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens e que Deus pode agir através da fraqueza humana, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: os cristãos que compõem a comunidade são gente pobre e débil, muitos deles na situação de escravos; mas, apesar disso, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo (cf. 1Co 1,26-31). No segundo (é precisamente esse exemplo que a segunda leitura deste domingo nos apresenta), Paulo refere o seu próprio caso. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Em meados do séc. I, os cristãos de Corinto procuravam encher de sentido as suas vidas correndo atrás daquilo a que o apóstolo Paulo chamava a “sabedoria do mundo”. Os belos discursos, os argumentos construídos com lógica inatacável, a fascínio dos sistemas filosóficos bem construídos seduziam-nos e mantinham-nos agarrados a valores perecíveis. Dois mil anos depois, ainda continuamos a funcionar numa lógica semelhante: colocamos a nossa esperança e a nossa segurança no progresso científico, nas conquistas da medicina, nos sistemas económicos, nas promessas dos políticos, nas ideologias, nos discursos sedutores dos manipuladores da opinião pública, até mesmo na publicidade que nos promete por preços módicos a realização de todos os nossos sonhos… Nada disso seria especialmente grave se não nos fechasse num mundo de autossuficiência que nos afasta de Deus e da salvação que Ele nos oferece. Onde é que a “sabedoria do mundo” nos leva? A prescindir de Deus e dos seus dons? A uma vida virada apenas para os valores efémeros? Conseguiremos dar pleno sentido à nossa vida e saciar a nossa sede de eternidade simplesmente correndo atrás da “sabedoria do mundo”?
  • À “sabedoria do Mundo” Paulo contrapõe a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria de Deus pode parecer algo de estranho e de incongruente à luz da nossa lógica humana; mas ela é, segundo o apóstolo Paulo, fonte de vida verdadeira e eterna. O que aconteceu com Jesus aponta exatamente nesse sentido: Ele aceitou prescindir das suas prerrogativas divinas, desceu até nós, assumiu a nossa humanidade, experimentou a nossa fragilidade, solidarizou-se connosco e partilhou as nossas dores, enfrentou corajosamente a injustiça e a maldade, foi condenado e sofreu uma morte maldita; mas, da Sua entrega brotou vida nova que inundou o mundo e transformou a história dos homens. Jesus mostrou-nos uma coisa que, mesmo depois de dois mil anos, ainda temos dificuldade em entender: o amor até às últimas consequências, o serviço aos outros, a vida “dada” até ao extremo, a renúncia a si próprio, são fonte de vida. Quem vive dessa forma não fracassa, não passa ao lado da vida, não é um vencido; quem vive dessa forma dá sentido pleno à sua existência. O que vale para nós a “sabedoria de Deus”? É a partir dela que construímos o nosso projeto de vida?
  • O apóstolo Paulo – um homem limitado, que não possuía as qualidades humanas que os coríntios apreciavam nem o brilho arrebatador dos grandes “sedutores” de massas – é a prova provada de uma realidade mil vezes repetida na história da salvação: a força de Deus revela-se na fraqueza, na fragilidade, na pequenez. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes. Ele aproxima-se de nós em “pezinhos de lã”, sem nos assustar com a exibição da sua grandeza, e transforma o mundo e a história através de gente “improvável”, de gente que não figura entre os grandes do mundo. Estamos conscientes disto? Somos capazes de reconhecer a presença e a ação de Deus em tantas pessoas simples e bondosas que, sem darem nas vistas, iluminam o mundo e acrescentam humanidade à história dos homens? Uma vez conscientes do método de Deus para intervir na história dos homens, não percebemos como são ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de exibicionismo?
  • Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem sempre ter presente que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Temos consciência de que, para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 5, 13-16

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

CONTEXTO

Depois de nos dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confia (cf. Mt 4,12-18,35). No centro de tal missão está o anúncio de uma realidade a que Jesus chama o “Reino de Deus”. Esse anúncio é feito com palavras e com gestos.

As palavras de Jesus sobre o Reino de Deus ocupam um espaço bem significativo no Evangelho de Mateus. O evangelista agrupou a maior parte das palavras – ou “ditos” – de Jesus em cinco discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel recebeu na montanha do Sinai e guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).

O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. Em qualquer caso, a indicação geográfica não é inocente: lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade do Reino de Deus.

O “sermão da montanha” começa com as “bem-aventuranças” – um elenco dos valores fundamentais que devem ser assumidos para todos os interessados em seguir Jesus e em integrar a comunidade do Reino de Deus (cf. Mt 5,1-12). Mas Jesus não se fica por aí: completa o exórdio do “sermão da montanha” com duas parábolas (ou “ditos”) que indicam a missão daqueles que estão dispostos a viver segundo o espírito das “bem-aventuranças”. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Para que vivemos, cinquenta, setenta, noventa, cem anos? Que marca deixamos no mundo e na memória daqueles que se cruzam connosco no caminho da vida? A nossa ação e intervenção tem vindo a acrescentar alguma coisa à história dos homens? O que é que determina o êxito ou o fracasso da nossa existência? A nossa realização passará apenas por viver o mais comodamente possível, com um mínimo de complicações, de aborrecimentos e de contrariedades? As coisas corriqueiras e fúteis, a mediocridade e a banalidade, as diversões e os bens materiais, os prazeres e as satisfações efémeras, os triunfos e os aplausos, bastarão para dar sentido à nossa vida e para saciar a nossa sede de felicidade? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos o seu chamamento e que nos apaixonamos pelo seu projeto, em que moldes construímos a nossa existência de forma que ela faça pleno sentido?
  • Jesus convida os seus discípulos a serem “sal da terra”. É uma imagem expressiva e desafiante. O sal serve, sobretudo, para dar sabor aos alimentos. Vivemos num mundo cada vez mais insípido, onde tudo é feito à medida da nossa pressa (até mesmo a “comida de plástico”), do nosso comodismo, do nosso egoísmo, da nossa instalação, da nossa alienação, da nossa dificuldade em assumir compromissos exigentes. Buscamos uma existência indolor e evitamos tudo aquilo que exige sacrifício, renúncia, esforço, entrega, verdadeira dedicação. “Sermos sal” seria, neste contexto, não termos medo do que é difícil, estarmos disponíveis para servir e para “curar” as feridas dos irmãos magoados pelas vicissitudes da vida, envolvermo-nos sem medo na luta contra as injustiças, gastarmos tempo a cuidar daqueles que ninguém quer e que ninguém ama, semearmos bondade e compaixão na vida daqueles que são marginalizados e condenados pelas sociedades ou pelas igrejas, darmos testemunho da bondade e do amor de Deus em todos os lados onde a vida nos levar. Estamos disponíveis para “fazer a diferença”, como o sal faz quando se mistura com os alimentos e faz sobressair o seu sabor?
  • Jesus também pediu aos seus discípulos que fossem “luz do mundo” e que brilhassem diante dos homens. Mais de dois mil anos depois, o pedido de Jesus continua a fazer sentido. Apesar de todas as nossas conquistas e de todos os nossos êxitos, são muitas as sombras que escurecem o mundo e que obrigam os homens a perderem-se em caminhos sem saída, a tropeçarem no medo e no desespero, a ficarem prisioneiros de frivolidades e bagatelas, a não acertarem com o sentido da existência, a permanecerem parados no erro, a caminharem às apalpadelas sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Os seguidores de Jesus, iluminados pela luz que d’Ele brota e pela verdade do Evangelho, são chamados a dissipar, com as suas “boas obras”, as sombras que cobrem o mundo; são enviados por Jesus a apontar aos homens os caminhos luminosos que conduzem à vida verdadeira. Aceitamos o convite de Jesus para sermos testemunhas da luz? A luz de Deus brilha no mundo através das nossas boas obras?
  • Durante muitos séculos vigorou um modelo de organização social e política conhecido como “regime de cristandade”: a filosofia e os valores do cristianismo permeavam e governavam todas as esferas da sociedade, incluindo as leis, as instituições, os costumes e as relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja exercia uma influência dominante, que ia além do domínio espiritual, moldando a totalidade da vida social e cultural. Entretanto, os tempos mudaram. Atualmente já não existe esse modelo. Os seguidores de Jesus estão mais diluídos na massa e têm menos visibilidade. Por outro lado, uma boa parte da sociedade parece menos interessada nos valores propostos por Jesus. Poderão ainda os discípulos de Jesus, neste novo cenário, serem “sal da terra” e “luz do mundo”? Jesus não hesitou em pedir isso ao seu pequeno grupo de discípulos quando eles eram um grupo ridiculamente insignificante no vasto e hostil império romano. Ele sabia que a força de Deus é capaz de se manifestar na fraqueza e na pequenez. Como nos sentimos quando somos chamados a dar testemunho de Jesus no meio dos nossos irmãos que seguem modelos diferentes dos nossos? Deixamo-nos dominar pelo desânimo, ou contagiamos os que nos rodeiam com a nossa paixão por Jesus?
  • Para que o sal possa cumprir o seu papel, tem de ser misturado com os alimentos; para que uma luz possa iluminar “todos os que estão em casa”, não pode estar escondida debaixo do alqueire. Tudo isto parece-nos demasiado evidente. Mas temos sempre tirado daí as consequências que se impõem? Há entre nós quem, desagradado com a indiferença ou até mesmo a hostilidade do mundo, ache que a comunidade de Jesus deve fechar-se ao mundo, condenar o mundo e “cortar relações” com uma sociedade que não entende a proposta cristã. Poderemos ser “sal da terra” e “luz do mundo” fechados dentro das nossas igrejas ou dos espessos muros dos nossos conventos, limitados a atirar condenações lá para fora? Poderemos alhear-nos dos problemas e angústias, alegrias e esperanças dos homens, renunciando a contagiar o mundo com a proposta de Jesus? Uma Igreja que gasta todas as energias com os seus solenes rituais litúrgicos ou com a arrumação harmoniosa do calendário paroquial poderá dar sabor à vida moderna e oferecer aos homens a luz genuína do Evangelho?in Dehonianos.

Para os leitores

A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom exortativo que está presente em todo o texto. Na segunda parte do texto deve ter-se em atenção as diversas frases condicionais, aproveitando a expressividade que elas pretendem transmitir.

Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases mais longas e com diversas orações respeitando as pausas e respirações, articulando bem as diversas frases para uma clara compreensão do texto.

ANEXOS:

Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026

Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados …….

Viver a Palavra

            Uma das imagens neotestamentárias que mais me impressiona é contemplar Jesus rodeado pelas multidões. Num contexto onde as notícias não tinham o suporte de comunicação que conhecemos hoje, ver como eram tantos os homens e mulheres que iam ao encontro de Jesus, diz-nos como a palavra e a ação de Jesus eram portadoras de uma força absolutamente transformadora. Com toda a certeza, naquelas imensas multidões estavam presentes as mais diversas motivações: os que se abeiravam movidos pela curiosidade dos milagres e feitos narrados, os doentes e fragilizados movidos pelo interesse nalguma cura ou milagre, os desanimados com tantas palavras banais que buscavam uma palavra de alento e de esperança doadora de sentido para a sua vida…. Tantos homens e mulheres, portadores de tão díspares motivações. Dois mil anos volvidos, integramos esta multidão de homens e mulheres que se colocam em torno de Jesus e, por isso, devemos também interrogar-nos quais são as motivações que invadem o nosso coração: porque quero seguir Jesus? O que me move a escutar a Sua palavra? Quais as motivações e interrogações que habitam o meu coração e me fazem ir ao encontro de Jesus e da comunidade?

Como as multidões de outrora colocamo-nos em torno de Jesus e Ele conduz-nos ao cimo do monte. O ensino de Jesus conduz-nos ao centro da vida cristã: as bem-aventuranças. A palavra de Jesus fala-nos da felicidade plena e verdadeira que exige atravessar o limiar da frágil condição humana: a pobreza, a humildade, as lágrimas, a fome e a sede, a necessidade da misericórdia, a exigente tarefa da construção da paz, a perseguição e o insulto.

As bem-aventuranças são o como afirmava o Papa Francisco: «o bilhete de identidade do cristão» e, por isso, continua o Santo Padre: «se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão?”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida. A palavra «feliz» ou «bem-aventurado» torna-se sinónimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (GE 63-64).

Jesus é o Bem-aventurado por excelência: é o pobre em Espírito que inaugura no tempo e na história o Reino dos Céus. Ele é Manso e Humilde de coração e, assim, o Seu coração torna-se uma escola onde queremos aprender em cada dia. Ele assume sobre si as nossas dores e angústias e chorando connosco enxuga as nossas lágrimas e anuncia o mistério da consolação. Ele que teve fome no deserto e sede no alto da Cruz sacia a nossa fome e sede e oferece o Seu Corpo como alimento e o Seu Sangue como bebida verdadeira. Ele é o rosto da misericórdia do Pai e faz-nos alcançar a misericórdia que o Seu coração cheio de amor e ternura distribui sobre cada um de nós. Ele é o puro de coração que pelo Sangue da Sua Cruz nos purifica de toda a imundice. Ele é o Príncipe da Paz que nos convida a viver como construtores da paz nova que o Seu amor veio trazer. Ele que foi perseguido, maltratado e insultado por amor do Reino dos Céus fortalece a nossa caminhada na exigente tarefa de ser testemunha do Seu amor.

Movidos pela proposta exigente das bem-aventuranças, reconhecemos como «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios», reconhecemos como a nossa pequenez e fraqueza só pode ser testemunho de graça e misericórdia, quando se deixa conduzir por Jesus até ao cimo do monte e, guiado pelas suas palavras, olha o mundo e a história com esse horizonte de plenitude que o amor de Deus oferece à nossa vida. in Voz Portucalense.

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O Evangelho deste Domingo propõe à nossa reflexão um texto absolutamente decisivo para a construção da nossa identidade cristã. Na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco oferece-nos uma belíssima meditação e interpelação acerca deste texto nos números 63 a 94. A leitura deste texto é um ótimo instrumento para o aprofundamento deste evangelho e pode ser um importante ponto de partida para um exercício de exame de consciência. Chamados à santidade, somos chamados ao caminho exigente das bem-aventuranças para que a nossa vida se conforme cada vez mais e melhor com a vontade de Deus. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA ISofonias 2,3; 3,12-13

Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos.
Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor.
Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
que buscará refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
não tornará a dizer mentiras,
nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
Por isso, terão pastagem e repouso,
sem ninguém que os perturbe.

CONTEXTO

Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria (cf. 2Rs 16,7). Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios (cf. 2Rs 16,10-18). Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte (cf. 2Rs 21,3-9). Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá estava a precisar urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.

Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.

A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra (cf. Sf 1,2-2,3). Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.

O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • Os profetas são a voz de Deus que ecoa no mundo. Eles trazem-nos o sonho de Deus para o mundo e para os homens. Escutá-los é, frequentemente, questionarmo-nos sobre a forma como temos distorcido o projeto de Deus. Andamos há muitos séculos a construir um mundo e uma história onde os que “contam”, os que têm visibilidade, os que toda a gente inveja e aplaude, os que conduzem os destinos dos povos são os “fortes”, os ricos, os poderosos, os que se impõem aos outros, os que têm sede de poder e de protagonismo… Contudo, o profeta Sofonias diz-nos hoje que Deus não se revê nas lógicas, nas atitudes e nos valores dos ricos, dos orgulhosos, dos prepotentes, dos que dominam o mundo e pretendem construir a história dos homens sobre a injustiça, a mentira, a violência, a corrupção, a ganância. Sofonias, com a linguagem típica dos pregadores da sua época, garante: chegará o dia em que os orgulhosos e os prepotentes perceberão a estupidez das suas escolhas e se arrependerão pela forma como construíram as suas vidas. Nesse dia, Deus ficará do lado dos humildes e dos pobres e sentar-se-á com eles à mesa da vida eterna. O que achamos disto? O que nos sugere a preferência de Deus pelos humildes e pobres? A que tipo de gente queremos confiar a condução dos destinos dos homens e do mundo?
  • Sofonias, traduzindo em linguagem humana as indicações de Deus, deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como “pobres”. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus. A catequese de Israel, talvez com alguma ingenuidade, apresenta-os como pessoas humildes, simples, pacíficas, bondosas, piedosas, generosas, justas, tementes a Deus, que vivem na escuta de Deus, que confiam incondicionalmente em Deus, que caminham na obediência às indicações de Deus. Deus ama-os como filhos muito queridos. O “pobre” é, no universo bíblico, o crente verdadeiro, o crente perfeito, o crente “modelo”. Identificamo-nos com este “modelo”?
  • O profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um forte apelo à conversão. Diz mesmo que não há outra saída – para quem quer viver uma vida com sentido – senão optar por uma mudança efetiva, uma mudança radical na maneira de pensar e de agir. A “conversão”, na teologia profética, significa abandonar os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da mentira, da injustiça e “voltar para trás”, ao encontro de Deus; significa reencontrar-se com Deus, escutar e acolher novamente as indicações de Deus, passar a trilhar outra vez os caminhos de Deus, deixar-se guiar por Deus e pelos seus mandamentos. Pessoalmente, estamos dispostos a renunciar, na construção da nossa vida, a uma lógica de prepotência, de orgulho, de ambição, de autoritarismo, de autossuficiência? Estamos dispostos a voltar para Deus e a viver “segundo Deus”? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10

Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.

Refrão 2: Aleluia.

 

O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.

O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.

O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.

O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.

 

LEITURA II – 1 Coríntios 1, 26-31

Irmãos:
Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».

 

CONTEXTO

Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.

Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.

Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.

Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.  in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • O que é que dá sentido à nossa vida? O que é que determina o nosso êxito ou o nosso fracasso? O que é que faz que a nossa vida valha a pena? Muitos acreditam que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos: a família em que se nasceu, a escola que se frequentou, os títulos que se obtiveram, o poder que se conquistou, a capacidade intelectual, a competência profissional, o reconhecimento social, o bem-estar económico… O apóstolo Paulo avisa que colocar a própria esperança e a própria segurança em fatores de âmbito puramente humano é apostar no “cavalo errado”. Os fatores humanos falham, são contingentes, têm validade limitada, são incapazes de saciar a nossa sede de vida eterna. Paulo propõe, em contrapartida, que nos dispúnhamos a acolher a “loucura da cruz” e que optemos por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. O que pensamos disto? A indicação de Paulo fará sentido? Dispomo-nos a abraçar a lógica de Deus e a buscar a nossa plena realização nos valores de Jesus e do Evangelho?
  • Paulo afirma que Deus escolhe os pequenos, os pobres, os humildes, os mais frágeis, aqueles que tantas vezes a sociedade não valoriza, aqueles que não são mencionados nos livros de história, aqueles que nunca são convidados para os eventos sociais, aqueles que são invisíveis aos olhos dos homens para, através deles, concretizar a sua obra de salvação. É precisamente nessa fragilidade que se revela a força de Deus. Somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos nossos irmãos mais humildes, mais esquecidos, naqueles que na sua humildade passam despercebidos, naqueles que não têm voz nem vez? Que valor lhes damos?
  • Paulo convida os cristãos de Corinto a não perderem de vista Cristo Jesus, “o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção”. Com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor até ao extremo, com a sua obediência ao Pai, com o seu anúncio do Reino de Deus, Cristo apontou-nos o caminho que conduz à vida verdadeira. Cristo é, para nós, o mestre da verdadeira sabedoria? Caminhamos atrás d’Ele sem o perder de vista? Abraçamos sem hesitar a sabedoria que Ele nos propõe, mesmo quando ela está em contradição com a sabedoria do mundo? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 5,1-12

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

CONTEXTO

Depois de nos apresentar Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou (cf. Mt 4,12-18,35). No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.

Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).

O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.

Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias (cf. Mt 4,25), conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, ao fumo, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo (cf. Ex 19,16.18), nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação (cf. Ex 19,12.21): na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo (cf. Mt 5,1). Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.

As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Dois mil anos depois de Jesus ter feito o “sermão da montanha”, as “bem-aventuranças” continuam a soar aos nossos ouvidos de uma forma estranha e paradoxal. Deixam-nos perplexos e algo desconcertados, pois apontam num sentido que parece ir contra o senso comum. Parecem subverter todas as nossas lógicas e contradizer tudo aquilo que sabemos sobre êxito e fracasso. São um desafio que ameaça todas as nossas certezas e seguranças, a nossa sabedoria convencional e a nossa organização social. Poderão realmente ser um caminho para a felicidade e para a plena realização do ser humano? Jesus tem razão quando garante que a verdadeira felicidade se alcança por caminhos completamente diferentes dos que a sociedade atual propõe? As “bem-aventuranças” serão uma desculpa de fracassados, conversa de gente que não tem coragem para competir, para se impor, para triunfar, ou serão uma forma de construir um mundo diferente, mais justo, mais humano e mais fraterno? O nosso mundo ganharia alguma coisa se abandonássemos a competitividade e a luta feroz pelo êxito humano e optássemos por viver na lógica das “bem-aventuranças”? Seríamos mais livres e mais felizes se renunciássemos a certos valores que a sociedade impõe e passássemos a viver de acordo com os valores propostos por Jesus?
  • “Felizes os pobres em espírito”. Os “pobres em espírito” são aqueles que, sem bens materiais, sem a proteção dos poderosos, sem seguranças humanas, se entregam confiadamente nas mãos de Deus, colocam toda a sua esperança em Deus, acolhem de braços abertos as indicações de Deus. Apresentam-se com humildade, desconhecem a arrogância e a autossuficiência, estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos, são uma luz que brilha na noite do mundo. É assim que vivemos?
  • “Felizes os que choram”. Na verdade, Deus não gosta de nos ver sofrer e chorar. O choro que resulta da doença sem remédio, das ofensas contra a nossa dignidade, das feridas que as injustiças deixam, não é uma coisa boa. Mas Jesus diz que Deus irá consolar os que choram, dar-lhes força para vencer as dificuldades, ficar do lado deles, eliminar as causas do seu sofrimento. Então, vencidos os motivos das lágrimas, os que choram voltarão a rir. Confiamos em Deus, no seu cuidado, no seu amor, mesmo quando as lágrimas não nos deixam ver as estrelas?
  • “Felizes os mansos” (os “humildes”). Vivemos num mundo competitivo e agressivo, onde a violência explode pelas razões mais fúteis. O não responder à violência com uma violência igual ou maior será uma estupidez, ou será sinal de que somos filhos de um Deus misericordioso e compassivo? Se não desarmarmos a espiral de violência e de ódio que envolve tantos problemas e povos, qual o futuro da humanidade? Como é que nós, pessoalmente, reagimos quando somos atropelados pela violência e pela injustiça?
  • “Felizes os que têm fome e sede de justiça”. Os “que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se preocupam genuinamente em acertar, em serem fiéis aos compromissos que têm com Deus, em fazerem aquilo que é “de justiça”. Passamos ao lado da vida se vivemos de forma ligeira, distraída, perdendo oportunidades, sem cumprir a missão que nos foi confiada. Somos gente que leva a sério os compromissos que tem com Deus e com os irmãos, que procura estar sempre atento para fazer o que deve fazer?
  • “Felizes os misericordiosos”. Nunca, em nenhuma outra época da história, estivemos tão conectados uns com os outros; nunca, em nenhuma outra época da história, pudemos acompanhar tão de perto, em tempo real, os dramas e as angústias dos nossos irmãos; e nunca, em qualquer outra época da história, nos fechamos tanto aos sofrimentos dos outros. Globalizou-se a indiferença; fechamo-nos no nosso egoísmo e passamos ao lado de quem sofre sem nos determos. Sentimo-nos responsáveis pelos nossos irmãos? Somos testemunhas, junto deles, do Deus misericordioso e compassivo?
  • “Felizes os puros de coração”. Os “puros de coração” são aqueles que não vivem escravizados a deuses efémeros, não pactuam com coisas duvidosas, não constroem as suas vidas sobre mentiras e enganos. Num mundo de onde o que é verdade de manhã é mentira à tarde e o “chico-espertismo” é um modo de vida, os “puros de coração” representam a honestidade, a verticalidade, a fidelidade aos valores e aos compromissos. Somos fiáveis, “de confiança”, na nossa relação com Deus e com os irmãos? Somos testemunhas do Deus sempre fiel, que nunca nos trai nem engana?
  • “Felizes os que promovem a paz”. Os conflitos, as guerras, as violências eclodem por todo o lado, causam um sofrimento indizível e erguem barreiras de ódio que separam os homens. Alguns, no entanto, os que “são chamados filhos de Deus”, procuram derrubar esses muros, construir pontes de entendimento e de diálogo, fomentar a fraternidade, a solidariedade, o encontro, a comunhão. Somos construtores de muros que separam, ou de pontes que aproximam? Aceitamos ser, no meio dos nossos irmãos, arautos da reconciliação e promotores da paz?
  • “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça”. Hoje como ontem, aqueles que se mantêm fiéis a Deus e lutam para que o plano de Deus se concretize no mundo e na história desagradam aos donos do mundo; por isso são perseguidos, desautorizados, ridicularizados condenados, silenciados… Alguns desistem e preferem não correr riscos, não andar contra a corrente, não incomodar os fazedores de opinião que ditam o certo e o errado; outros insistem a tempo e fora de tempo, em serem sinais e testemunhas da vida de Deus. E nós, de que lado ficamos?
  • As “bem-aventuranças” dão-nos um retrato bem bonito do coração paternal e maternal de Deus. Garantem-nos que Deus é sensível ao sofrimento dos seus filhos e que sente um carinho especial pelos que sofrem mais. Ele está sempre disponível para confortar os que estão feridos e magoados e para os ajudar a sair da sua triste situação. Como é que vemos e sentimos esta “sensibilidade” de Deus pelos mais frágeis e pequenos? Agrada-nos? É para nós fonte de esperança? O carinho de Deus pelos que precisam mais de amor inspira-nos e leva-nos a cuidar especialmente dos nossos irmãos que a vida maltrata? in Dehonianos.

Para os leitores

 

A primeira leitura exige uma acurada preparação das pausas e respirações, articulando as diferentes frases e orações para uma correta proclamação do texto.

Na segunda leitura, deve prestar-se atenção ao tom exortativo que Paulo emprega e ter especial cuidado na expressão «naturalmente falando» que indica o tom coloquial do discurso. A frase final que se encontra entre aspas marca o culminar do texto e deve ser pronunciada com especial cuidado.

ANEXOS:

Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026

7º Domingo da Palavra de Deus

Com a Carta apostólica sob forma de Motu Proprio Aperuit Illis, o Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus que deve celebrar-se no III Domingo do Tempo Comum como uma jornada de «celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus». Cada comunidade com criatividade pastoral e atenta às diversas exigências e realidades encontrará a forma de viver este Domingo como um dia solene. Deste modo, cada comunidade poderá valorizar este dia na celebração litúrgica de diversos modos, contudo, poderá ser importante encontrar momentos de preparação e celebração deste dia fora da celebração eucarística com um momento de formação sobre a Palavra de Deus ou a Lectio Divina comunitária. No início do Tempo Comum poderia ser também oportuna uma reflexão bíblica acerca do evangelista deste ano litúrgico. in Voz Portucalense

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a olhar a nossa vida como um lugar dinâmico, onde seguir Jesus implica uma permanente conversão que abre a nossa vida ao desígnio de salvação que Deus nos oferece em Cristo.

As trevas são vencidas pela luz esplendorosa que brota do Coração de Deus: «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou». Na verdade, peregrinando os trilhos da história são muitas as sombras que nos assaltam no caminho, contudo, elas não têm a última palavra. No provisório da dor e do sofrimento, irrompe a certeza incorruptível de que o amor de Jesus e a Sua luz são mais fortes que as trevas e sombras que nos envolvem. Uma doença, a partida de alguém que amamos, a falta de esperança diante das dificuldades e tantos outros desafios e obstáculos fazem parte da nossa condição humana e esta difícil e exigente condição seriam catastróficas se estivéssemos abandonados unicamente à nossa capacidade humana. Somos obra das mãos de Deus, salvos e redimidos pelo amor de Jesus Cristo e olhamos a nossa existência e as vicissitudes da história com o olhar amoroso Daquele que por nós morreu e ressuscitou.

Como outrora Simão e André, Tiago e João também nós contemplamos Jesus que atravessa o nosso quotidiano, vem ao nosso encontro, às fadigas e canseiras das nossas redes tantas vezes vazias. Irrompendo no concreto da nossa história, Jesus propõem-nos um novo rumo e um novo sentido: «Vinde e segui-Me».

Parece tão vaga a proposta. Contudo, seguir Jesus é a escolha decisiva que inaugura um tempo novo na nossa existência. Não quer dizer que por seguirmos Jesus as dificuldades deixarão de fazer parte da nossa vida. Contudo, elas ganharão uma forma diferente, pois diante das contingências da nossa história, está Jesus, Aquele que quando nos toma pela mão nunca nos abandona.

No texto do Evangelho que escutamos neste Domingo estão intrinsecamente unidos o seguimento e a conversão. Seguir Jesus implica entrar num processo de permanente conversão e, por isso, sentimos ecoar no nosso coração as primeiras palavras de Jesus dirigidas à humanidade no Evangelho de S. Mateus: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».

A proximidade de Deus revelada em Jesus Cristo impele-nos a uma permanente revisão de vida, onde o reconhecimento da nossa condição frágil e pecadora em nada nos inferioriza, mas se torna precisamente a oportunidade de crescimento e amadurecimento rumo à santidade, ao cumprimento das promessas do Reino que já está no meio de nós, mas que ainda não se realizou em plenitude.

Sem qualquer complexo de inferioridade reconhecemos que não somos perfeitos e tomamos consciência que esta fragilidade e debilidade são um caminho e um lugar constante de mudança e de aperfeiçoamento. Por isso, a conversão e o arrependimento dão lugar à salvação. A conversão é a arte de afinar o coração com a vontade de Deus e, neste permanente afinar do coração, encontramos o caminho da verdadeira felicidade.

Contudo, a tarefa da conversão e do seguimento de Jesus não é uma aventura isolada. Jesus convoca estes primeiros discípulos dois a dois, recordando que não partimos sozinhos, mas partilhando a aventura da fé com tantos outros homens e mulheres que partilhando a mesma condição frágil e pecadora, partilham também a certeza de terem encontrado em Jesus Cristo Aquele que dando um sentido novo à sua vida, os impele a deixar tudo, para abrirem o coração à novidade do Seu Evangelho. Por isso, Paulo escrevendo à comunidade de Corinto recorda que a comunhão e unidade devem ser a marca distintiva daqueles que querem seguir Jesus. Convocados pelo Seu amor, partimos unidos para que a nossa fraternidade seja o mais belo anúncio de que a Luz que despontou nas trevas nos aponta o horizonte luminoso da salvação que nos é oferecido em Jesus Cristo. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

E fizemos isso….

Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 8,23b-9,3

Assim como no tempo passado
foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali,
também no futuro será coberto de glória
o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam nas sombras da morte
uma luz se levantou.
Multiplicastes a sua alegria,
aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença,
como os que se alegram no tempo da colheita,
como exultam os que repartem despojos.
Vós quebrastes, como no dia de Madiã,
o jugo que pesava sobre o povo,
o madeiro que ele tinha sobre os ombros
e o bastão do opressor.

CONTEXTO

O profeta Isaías (autor dos caps. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.

Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos.  Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza” (Is 8,3).

O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irónico com as mulheres da classe alta de Jerusalém (cf. Is 3,16-24; 32,9-14). Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).

Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., altura em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.

Em 721 a.C. o rei assírio Sargão II invadiu o reino do Norte (Israel), tomou a Samaria e deportou uma parte da sua população para a Assíria. As melhores terras da Samaria foram ocupadas por colonos assírios que se instalaram na região e se misturaram com a população local. Esse acontecimento histórico inaugurou uma época de desolação e de trevas para as tribos do Povo de Deus que ocupavam a região setentrional da Palestina, nomeadamente os antigos territórios de Zabulão e de Neftali, e toda a região da Galileia.

No sul do país, Ezequias (716-687 a.C.) subiu ao trono de Judá alguns anos depois da queda da Samaria. Era a época em que o poder militar assírio se impunha em toda a região. Durante algum tempo, Ezequias evitou envolver-se nos jogos da política internacional, a fim de não proporcionar aos assírios pretextos para invadir Judá. Mas em 705 a.C., após a morte de Sargão II, Ezequias, desdenhando as indicações do profeta Isaías (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros eram sintoma de grave infidelidade para com Javé, pois significavam colocar a confiança e a esperança nos homens), enviou embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia, procurando consolidar uma frente política e militar capaz de lutar contra os desígnios imperialistas dos assírios. Senaquerib, o sucessor de Sargão II no trono assírio, dispôs-se imediatamente a castigar as nações que desafiavam o poderio assírio. Tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, invadiu finalmente Judá, devastou o país e pôs cerco a Jerusalém (701 a.C.). O rei Ezequias teve de submeter-se e ficou a pagar um pesado tributo à Assíria.

Nesta circunstância, o profeta Isaías assumiu uma atitude bastante crítica em relação aos dirigentes de Judá, considerando-os incapazes de governar de forma sensata e de conduzir o povo de Deus em direção à paz e à prosperidade. Desiludido com os líderes humanos, o profeta começou a pensar numa intervenção de Deus que derrotasse os opressores e devolvesse a Israel e a Judá a liberdade e a paz. O texto que a liturgia deste terceiro domingo comum nos propõe como primeira leitura poderia entender-se neste contexto. in Dehoniano

 

INTERPELAÇÕES

  • Os dramáticos acontecimentos históricos da época de Isaías não foram um caso isolado. Infelizmente, a história dos homens – a mais recuada, mas também a dos nossos dias – regista a cada instante situações intoleráveis de opressão, de injustiça, de violência, que trazem sofrimento a milhões de inocentes, vítimas da prepotência e da ambição dos poderosos. No meio de tudo isto, onde está Deus? Ele passa ao lado do sofrimento dos seus filhos que sofrem sem lhes fazer justiça? Ele deixa que os grandes, os violentos, os poderosos, atuem impunemente? Deus fica indiferente quando os seus queridos filhos gemem sob o peso insuportável da maldade de outros homens? O profeta Isaías tinha a certeza de que Deus se importa com o sofrimento dos seus filhos e intervirá para lhe pôr cobro. O oráculo de Isaías que ouvimos hoje deixa-nos essa garantia. Deus sempre esteve e sempre estará do lado dos oprimidos, dos injustiçados, dos sofredores. Talvez Deus, por razões que só Ele sabe, não atue logo e demore algum tempo a repor a justiça; talvez nós, que queremos sempre tudo “para ontem”, nem sempre consigamos entender os vagares de Deus; mas Deus – o Deus que preside à história e que não ignora o sofrimento dos seus filhos – há de atuar e mudar as trevas em luz, a opressão em liberdade, a morte em vida. Acreditamos nisto? É com essa certeza que enfrentamos as “sombras” do nosso tempo?
  • O nosso texto não explica como é que Deus vai atuar no sentido de restabelecer a justiça e mudar as trevas em luz (o oráculo de Isaías irá dizê-lo mais à frente, nuns versículos que a leitura deste domingo não conservou: Deus irá enviar à humanidade um “menino”, o “Príncipe da paz”, que inaugurará um reino novo de prosperidade e de vida para todos os homens – cf. Is 9,5-6). Nós, contudo, percebemos logo que Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para nos anunciar e propor o “Reino de Deus”, tem um papel fundamental no projeto de Deus. Ele veio acender uma luz que ilumina as trevas que cobrem a Galileia e o resto do mundo. Porque é que, dois mil anos depois de Jesus, a luz que Jesus trouxe ainda não ilumina as sombras que cobrem o mundo? Jesus não foi claro quando nos disse o que devemos fazer para vencer a violência, a injustiça, a morte? Será que temos levado a sério tudo o que Jesus nos ensinou? Depois de Deus ter feito tudo o que fez para nos indicar o caminho da justiça, do amor e da paz, podemos culpá-lo pelas sombras que ameaçam o nosso mundo?
  • Jesus reuniu à sua volta um grupo de discípulos e ensinou-os a viver na lógica do Reino de Deus. Mostrou-lhes os valores sobre os quais, segundo Deus, deve assentar a ordem do mundo – a justiça que traz paz, o perdão sem limites, o serviço simples e humilde, o amor sem fronteiras, o dom da própria vida em benefício de todos – e enviou-os a anunciar a todos os homens o Reino de Deus. Nós, que aderimos a Jesus, que nos dispusemos a segui-l’O, que aceitamos ser suas testemunhas, temos sido arautos do Reino de Deus? Esforçamo-nos, dia a dia, por tornar realidade esse mundo novo de justiça, de amor e de paz? Como lidamos com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do Reino de Deus entre os homens?
  • O profeta Isaías conhecia bem os notáveis de Judá: frequentava os ambientes da corte e participava nas decisões relativas ao Reino; falava com autoridade aos altos funcionários e mesmo aos reis. No entanto descobriu, a certa altura, que os homens são falíveis, que os dirigentes se equivocam, que as desilusões esperam-nos ao virar da esquina, que nem tudo o que reluz é ouro. Isaías descobriu que só Deus é absoluto, só Deus não falha; é n’Ele e só n’Ele que podemos colocar, com plena certeza, a nossa confiança e a nossa esperança. Trata-se de uma boa dica para nós. Em quem ou em quê colocamos a nossa confiança? Em quem ou em quê assentamos as nossas vidas? Onde está a “rocha segura” a que podemos agarrar-nos sem vacilar no meio das tempestades e das crises que temos de enfrentar ao longo do nosso caminho na terra? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 26 (27)

Refrão 1: O Senhor é minha luz e salvação.

Refrão 2: O Senhor me ilumina e me salva.

O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei de temer?
O Senhor é protetor da minha vida:
de quem hei de ter medo?

Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.

 

LEITURA II – 1 Coríntios 1,10-13.17

Irmãos:
Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma linguagem
e que não haja divisões entre vós,
permanecendo bem unidos,
no mesmo pensar e no mesmo agir.
Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé,
que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga:
«Eu sou de Paulo», «eu de Apolo»,
«eu de Pedro», «eu de Cristo».
Estará Cristo dividido?
Porventura Paulo foi crucificado por vós?
Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo?
Na verdade, Cristo não me enviou para batizar,
mas para anunciar o Evangelho;
não, porém, com sabedoria de palavras,
a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.

 

CONTEXTO

Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos, e aos sábados usava da palavra na sinagoga. Como resultado da sua pregação, nasceu a comunidade cristã de Corinto. Paulo ficou na cidade cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52).

A dada altura, porém, os líderes da comunidade judaica reprovaram o testemunho que Paulo dava sobre Jesus e expulsaram-no da sinagoga (cf. At 18.6). Paulo decidiu então dedicar-se à evangelização dos pagãos. Os judeus, no entanto, acusaram-no de atividades contrárias à fé judaica e levaram-no diante de Galião, procônsul da Acaia, para ser julgado. Galião, a quem essas questões religiosas típicas dos judeus não interessavam, recusou-se a tomar posição. De Corinto, Paulo foi para Éfeso e de lá voltou a Antioquia da Síria, a cidade de onde tinha partido em missão.

Paulo continuou, contudo, em contacto com a comunidade cristã de Corinto. Sempre solícito, sempre interessado, Paulo recebia notícias e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus amigos de Corinto enfrentavam.

Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes (levadas “pela gente de Cloé” – 1Co 1,11) sobre a comunidade de Corinto.  Após a sua partida da cidade, tinha aparecido em Corinto um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Na pregação, Apolo era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1Cor 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Paulo de Tarso, o “apóstolo” que levou o Evangelho de Jesus ao encontro do mundo greco-romano, tinha ideias absolutamente claras sobre aquilo que é decisivo na experiência cristã: o encontro, a adesão, o seguimento de Jesus Cristo. Isso é algo que há muito assumimos? Talvez. Isso é algo que temos sempre presente diante dos olhos e que marca cada passo que damos no caminho da fé? Talvez não. Por vezes falamos mais de leis canónicas e de rituais litúrgicos do que da Palavra de Jesus; por vezes preocupamo-nos mais com a organização de uma estrutura paroquial eficiente do que com o conhecimento e a escuta de Jesus; por vezes confiamos mais em líderes religiosos ou políticos do que em Jesus; por vezes ligamos a nossa experiência de fé mais a figuras humanas (veneráveis e santas, claro, mas humanas) do que a Jesus. Cristo é, de facto, a nossa referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a nossa experiência de fé se constrói? Os erros e as falhas das pessoas que encontramos na comunidade cristã são para nós razão para nos afastarmos do caminho da fé? A nossa participação na vida da comunidade eclesial é condicionada ao facto de “estar lá” determinada pessoa?
  • Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que acreditar em Cristo e fazer parte do “Corpo” de Cristo (a Igreja) é incompatível com os “partidos”, as querelas, as disputas, os ciúmes, os conflitos que fraturam a comunidade e deixam feridas incuráveis no tecido comunitário. Poderá Cristo estar dividido? Os conflitos e as divisões serão compatíveis com a proposta de Jesus? As guerras e rivalidades dentro de uma comunidade cristã não serão um sinal evidente de que estamos a ser conduzidos não por Cristo, mas sim pelos nossos interesses, pelo nosso orgulho, pela nossa vaidade, pela nossa autossuficiência, pelo nosso egoísmo? A nossa comunidade cristã dá testemunho de harmonia, de comunhão, de entendimento, de concórdia, de solidariedade, de amor verdadeiro? Alguma vez fomos, na comunidade, fator de desunião, de conflito, de divisão?
  • A Igreja de Jesus é santa e pecadora. As pessoas que a constituem são chamadas à santidade, mas experimentam a cada instante a fragilidade inerente à condição humana. Por isso, casos de abuso de poder, de prepotência, de culto da personalidade, de ambição, podem aparecer, aqui e ali, em pessoas a quem foram atribuídas funções de responsabilidade na animação das comunidades cristãs. Embora compreendamos as falhas que a esse nível possamos testemunhar, convém também saber que isso não é “normal” ou “aceitável”. Ninguém tem o direito de se apresentar como “dono da comunidade” e de tratar os irmãos com sobranceria; ninguém tem o direito de desviar o foco de Cristo para o dirigir para si próprio. Como vemos essas situações? Como lidamos com elas? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 4,12-23

Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

 

CONTEXTO

Depois de ter recebido o batismo no rio Jordão, Jesus permaneceu algum tempo no deserto, talvez ligado a João Batista. O tempo passado no deserto foi, para Jesus, um tempo de preparação para a missão. É natural que, durante esse tempo, Jesus tenha refletido sobre a missão que o Pai Lhe confiava e tenha definido as grandes linhas do seu ministério. Sentiu que o tempo de preparação para a intervenção de Deus, de que João falava, tinha terminado e que começava um tempo novo, o tempo da salvação. Jesus achava que essa nova etapa da história da salvação estava ligada à sua pessoa e ao seu ministério: Deus enviava-O a anunciar a presença de Deus na história dos homens – o “Reino de Deus”.

Então, Jesus deixou o deserto onde tinha passado algum tempo e deslocou-se para a terra habitada de Israel. A salvação de Deus ia ao encontro dos homens nos lugares onde eles viviam e trabalhavam. Transformado em profeta itinerante, Jesus pretendia percorrer as aldeias e vilas da Galileia para anunciar a todos a chegada de Deus, desse Deus misericordioso e bom, que vinha oferecer uma vida mais digna e mais humana a todos os seus queridos filhos. Estávamos no ano 28 e Jesus teria uns trinta e dois anos.

Jesus dirigiu-se para a Galileia, a região que conhecia bem pois aí tinha passado a maior parte da sua vida. A Galileia tinha a vantagem de ficar longe de Jerusalém, havendo por isso menos controle por parte das autoridades religiosas judaicas. Jesus, no entanto, não se instalou na pequena aldeia de Nazaré, onde vivia a sua família, mas estabeleceu-se em Cafarnaum, cidade situada na margem do lago de Tiberíades, também chamado Mar da Galileia. A cidade tinha entre 1.000 e 1.500 habitantes. Parte dos habitantes de Cafarnaum viviam da agricultura; os outros eram pescadores, comerciantes e artesãos. Em Cafarnaum funcionava uma alfândega onde os funcionários – os cobradores de impostos – controlavam o movimento de uma importante via comercial pela qual chegavam mercadorias de grande valor vindas do oriente. A cidade contava ainda com uma guarnição romana constituída por cerca de cem soldados. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Hoje como ontem, há sempre homens e mulheres que habitam “na sombria região da morte”. São as vítimas da prepotência, da maldade e da ambição dos poderosos; são os condenados à fome, à violência, à miséria, à escravatura; são aqueles que deixamos para trás, abandonados nas bermas da estrada da vida; são os despojados dos seus direitos e da sua dignidade pelo egoísmo dos seus irmãos; são aqueles que as sociedades e as igrejas ignoram e marginalizam; são aqueles que se sentem malditos e indignos, abandonados por Deus e pelos homens… A vida deles estará perdida? Deus não tem nada para lhes oferecer? É a esses que, em primeiro lugar, é dirigida a Boa Notícia que Jesus apregoou por toda a Galileia e que mandou os seus discípulos espalhar por todo o mundo: “Deus não se conforma com o vosso sofrimento e não vos abandona; Ele vem ao vosso encontro para mudar a vossa triste situação e para vos oferecer a possibilidade de viverdes uma vida nova, uma vida com sentido; Deus vai atuar para fazer nascer um mundo novo, um mundo que seja construído conforme o seu projeto”. Talvez este anúncio, diante da realidade que vemos todos os dias, nos pareça apenas uma bela quimera sem concretização… Mas Jesus não mente: a verdade é que Deus está empenhado em fazer aparecer um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, onde os seus queridos filhos possam viver felizes e em paz. Acreditamos que Deus está a trabalhar para fazer nascer, aqui e agora, o Reino de Deus? O que falta para que o projeto de Deus se concretize e mude a face da terra? Aceitamos ser colaboradores de Deus na construção desse mundo novo?
  • Jesus enlaçou o anúncio da chegada do Reino com um convite à conversão. Ele tinha razão. O Reino de Deus só será possível se fizermos uma “inversão de marcha” na nossa vida, se mudarmos os nossos esquemas e comportamentos, a nossa maneira de pensar, a nossa forma de agir, o nosso olhar sobre o mundo e sobre os nossos irmãos, os valores que colocamos no centro da nossa existência… Convertermo-nos implica despirmo-nos do egoísmo, da ambição mesquinha, da vaidade, dos tiques de autoritarismo e de intolerância; implica vencermos o comodismo, a instalação, a preguiça, a indiferença face às necessidades dos irmãos; implica a superação da autossuficiência, do isolamento, do orgulho que nos impedem de ver os nossos irmãos sofredores; implica a renúncia a qualquer tipo de violência, de dominação do outro, de compromisso com a injustiça; implica deixarmos de colocar no centro da nossa vida os bens efémeros; implica renunciarmos à mentira, à corrupção, à desonestidade, às trevas… O que é que na nossa vida, nas nossas opções, nos nossos comportamentos constitui um obstáculo à chegada do Reino de Deus?
  • Jesus, pouco depois de começar a propor o Reino de Deus, encontrou Simão Pedro, André, Tiago e João nas margens do Mar da Galileia, junto de Cafarnaum, e convidou-os a segui-l’O. Começou assim a constituir-se, de forma muito modesta, a comunidade do Reino de Deus. Neste “seguimento” de Jesus está o núcleo central que define a experiência cristã. Ser cristão não é confessar um “credo”, ou aderir a uma proposta moral, ou cumprir determinados ritos, ou recitar determinadas fórmulas; mas é, antes de mais, seguir atrás de Jesus, escutá-l’O a cada instante, inspirar-se n’Ele, viver ao seu estilo; seguir Jesus é acreditar no que Ele acreditava, interessar-se pelas coisas que O interessavam, defender as causas que Ele defendia, olhar os homens como Ele olhava, amar as pessoas como Ele amava, confiar em Deus como Ele confiava… Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Jesus e para segui-l’O sem reservas, com a mesma decisão e a mesma convicção de Pedro, André, Tiago e João? O nosso caminho de fé é um caminho “de discípulos”, um caminho que nos faz avançar tendo sempre Jesus como referência? Como é que vivemos, hoje, o seguimento de Jesus?
  • Quando chamou os seus primeiros discípulos e os convidou a segui-l’O, Jesus disse-lhes que contava com eles para serem “pescadores de homens”. O que é que Ele queria dizer? Há muita gente mergulhada num imenso mar de sofrimento, de angústia, de medo, de injustiça, de privações, de morte. Ontem como hoje, é tarefa dos discípulos de Jesus libertá-los desse mar, devolvê-los à vida, curá-los das suas feridas, abrir-lhes as portas da esperança. Trata-se de continuar a missão de Jesus, que andava pela Galileia “curando todas as doenças e enfermidades entre o povo”; trata-se de construir o Reino de Deus”, de fazer nascer um mundo mais justo, mais são, mais fraterno, mais solidário, mais belo e mais feliz. Nós, os que escutamos o chamamento de Jesus e nos dispusemos a segui-l’O, estamos disponíveis para colaborar com Ele na construção do Reino de Deus e para sermos “pescadores de homens”, arautos da salvação de Deus? in Dehonianos.

Para os leitores

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção a pronunciação dos nomes das regiões «Zabulão», «Neftali» e «Madiã». Além disso, a proclamação desta leitura deve ser marcada pela alegria e esperança da luz que desponta nas trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça, do sofrimento, do desespero.

Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases longas e com diversas orações que requerem um especial cuidado nas pausas e respirações para uma leitura mais articulada do texto. Devem ter presente o tom exortativo que marca todo o texto e uma correta pronunciação das frases interrogativas, evitando a acentuação interrogativa das frases apenas no final de cada oração.

ANEXOS:

Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026

“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao cerne da nossa vida cristã: sonhados e amados por Deus desde o seio materno, somos chamados a viver a experiência única e pessoal do encontro com Jesus Cristo que nos desafia a encontrar na Sua vontade um caminho de realização e felicidade que nos constitui como apóstolos da alegria do Evangelho, para que a Igreja seja um rasto de luz para todos os povos e nações. Deste modo, os diversos textos proclamados neste Domingo apresentam-nos a dinâmica da nossa vida cristã, num horizonte responsorial, isto é, chamados e convocados pela misericórdia de Deus que nos precede sempre, somos convidados a responder generosamente ao seu projeto de amor.

            A disponibilidade para o acontecer de Deus nas nossas vidas nasce da certeza de que o Seu amor nos precede, acompanha e aponta um horizonte de realização e felicidade absolutamente novo. Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade». A vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo como nos testemunha S. Paulo quando afirma que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4). Quantas vezes na procura de uma razão diante de uma desgraça, já ouvimos dizer: «foi a vontade de Deus». Na verdade, a vontade de Deus não pode ser a justificação para aquilo que não conseguimos responder. A vontade de Deus é um desígnio amoroso de salvação e, por isso, responder com generosidade e disponibilidade à Sua vontade é caminhar pela estrada da felicidade verdadeira que tem como nome a santidade.

            O caminho de descoberta da vontade de Deus a nosso respeito brota da experiência que João Baptista nos testemunha no Evangelho: «eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». João Baptista testemunha aquilo que viu e experimentou e não apenas uma noção teórica e abstrata. Seguir Jesus Cristo implica necessariamente fazer esta experiência do Seu amor, tal como afirma o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus caristas est: «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).

            Este encontro decisivo transforma a vida e o coração de tal modo que toda a nossa vida se molda a partir desta experiência. É assim que aparece João Baptista como figura de charneira, apontando o «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo», testemunhando a presença Daquele que os profetas anunciaram e que a humanidade esperava. João Baptista está do outro lado do Jordão, no lugar onde o Povo de Israel se deteve para preparar a entrada na Terra Prometida. Ele é referência fundamental do nosso ser cristão porque nos ensina a arte de apontar para Jesus, de se saber retirar para que Ele tenha lugar, de proporcionar aos outros a experiência do encontro com Aquele que dá sentido à nossa vida.

            Com toda a certeza, lendo a nossa história, encontramos pessoas que foram para nós lugares de encontro com Jesus, pessoas capazes de sair de si mesmas para apontar esse horizonte de realização e felicidade que só em Cristo se pode encontrar. Louvando o Senhor pela vida de tantos e tantas que nos mostraram o rosto de Jesus, comprometemo-nos em ser também nós testemunhas de Jesus com a humildade e a ousadia de João Baptista, anunciando ao mundo que não há aventura mais bela do que fazer das nossas vidas lugares de beleza que testemunham a presença Daquele que dá sentido às nossas vidas. in Voz Portucalense

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            João Baptista testemunha diante dos seus contemporâneos a presença do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e aponta, assim, o caminho da verdadeira felicidade. Na nossa vida, foram ou são muitos os que, na nossa vida, como João Baptista nos apontaram o caminho de Jesus. Por isso, este Domingo pode ser uma boa oportunidade para agradecer a tantos e tantas por esse importante papel na nossa vida. No contexto da liturgia dominical pode colocar-se esta intenção de louvor e agradecimento pela vida daqueles e daquelas que são para nós presença que aponta para Jesus e pode lançar-se o desafio de ao longo desta semana terem um gesto de gratidão para com essas pessoas. in Voz Portucalense

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 49,3.5-6

Disse-me o Senhor:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti a luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».

 

CONTEXTO

            A primeira leitura do segundo domingo do tempo Comum vem do “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?

            O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz (cf. Is 49-55).

            Lado a lado com a proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que se referem a um personagem misterioso e enigmático, designado pelos biblistas como o “servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus no cenário difícil do Exílio? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Será o povo de Israel, no seu conjunto, chamado a dar testemunho de Deus na Babilónia? Não sabemos ao certo. Mas esse “servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus com uma missão universal. A missão desse “servo” cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do “servo de Javé” (cf. Is 49,1-13). Neste cântico, esse “servo” é explicitamente identificado com Israel (embora alguns comentadores pensem que a determinação “Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma interpretação): poderia ser a figura do povo de Deus, chamado a dar testemunho de Javé no meio dos outros povos. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • A escolha do “servo” e a sua designação por Deus, “desde o seio materno”, para assumir uma missão, convida-nos hoje a olhar para esse mistério sempre pessoal, mas sempre insondável que é a vocação. Deus chama homens e mulheres para, através deles, intervir no mundo e concretizar o seu plano de salvação. Provavelmente nunca chegaremos a compreender cabalmente as razões e os critérios de Deus nas escolhas que faz. De resto, não nos compete questionar as escolhas de Deus, mas sim tentar descobrir o lugar que Deus nos reserva no seu projeto e acolher com obediência e disponibilidade o seu chamamento. Deus conta com cada um de nós. Também a nós Ele diz: “tu és o meu servo, por quem manifestarei a minha glória”. Como nos situamos diante do mistério da vocação? Temos procurado, através da escuta de Deus e do diálogo com Ele, descobrir o lugar e o papel que Ele nos tem destinado? Estamos disponíveis para colocar a nossa vida ao serviço do projeto de Deus, num “sim” total e comprometido?
  • O “relato da vocação” do “servo de Javé” que a liturgia deste domingo nos oferece lembra-nos que na origem da vocação está sempre Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada pessoa uma missão. Sendo assim, a vocação é algo que só se entende à luz de Deus e a partir de Deus. O “chamado” não age em nome próprio, mas age em nome de Deus e por mandato de Deus; o “chamado” não proclama as suas ideias ou teorias, mas sim a Palavra que ouviu de Deus; o “chamado” não faz aquilo que lhe apetece fazer, mas sim aquilo que Deus o encarregou de fazer; o “chamado” não dá testemunho de si próprio, mas procura ser um sinal vivo de Deus no meio dos seus irmãos. Esse “testemunho” de Deus só é possível se o “chamado” cultivar uma grande proximidade com Deus, viver na escuta de Deus, aprofundar cada vez mais a sua comunhão com Deus. A nossa ação, o nosso testemunho e a nossa intervenção no mundo são alimentados por Deus? Procuramos, no diálogo com Deus e na escuta de Deus, descobrir o sentido da nossa missão?
  • Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39(40)

Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

Esperei no senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.

Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».

«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».

Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.

 

 

LEITURA II – 1 Coríntios 1,1-3

Irmãos:
Paulo, por vontade de Deus
escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus
e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto,
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados à santidade,
com todos os que invocam, em qualquer lugar,
o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco.

CONTEXTO

            No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (cf. 2Co 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Não tardou, no entanto, a entrar em conflito com os líderes da comunidade judaica de Corinto e foi expulso da sinagoga.

            Corinto era uma cidade nova e muito próspera, capital da Província romana da Acaia. Distinguia-se como centro comercial importante. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

            Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).

            Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios quando estava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem missionária. O apóstolo teve conhecimento de notícias alarmantes, chegadas de Corinto, que davam conta de problemas graves na comunidade: divisões, conflitos e diversos escândalos. Paulo, compenetrado do seu papel enquanto fundador da comunidade, escreveu aos coríntios exortando-os a corrigir todas essas situações. No entanto, para além das questões particulares, transparece na Carta uma questão mais ampla: a dificuldade de inserção do cristianismo numa realidade cultural muito diferente da realidade palestina.

            O trabalho missionário de Paulo de Tarso, em meados do séc. I, levou o cristianismo ao encontro do mundo grego. Paulo, depois de um certo discernimento, tinha concluído que a proposta de Jesus era para todos os povos da terra e não exclusivamente para os judeus. No entanto, o contexto judaico – de onde o cristianismo era originário – e o contexto grego eram realidades culturais e religiosas bastante diferentes. Como é que a proposta cristã se aguentaria quando mergulhasse num mundo que funcionava com dinamismos que lhe eram estranhos? Iria a brilhante cultura grega absorver ou desvirtuar os valores cristãos? Como é que os cristãos de origem grega integrariam a sua fé na realidade cultural em que estavam inseridos? Esta problemática é, em última análise, o cenário de fundo da reflexão de Paulo nesta carta.

            O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura faz parte da introdução à carta (1Co 1,1-9). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Paulo de Tarso, o rabi judeu que encontrou Jesus na estrada de Damasco, entendeu toda a sua vida à luz do chamamento que Deus lhe dirigiu. Por mandato de Deus, tornou-se “apóstolo”, enviado a dar testemunho de Jesus e a ser arauto da Boa Notícia que Jesus veio oferecer ao mundo e aos homens. Paulo assumiu essa missão com total compromisso e com uma dedicação sem limites. Foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por causa do seu testemunho e da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada. Evidentemente, a nossa história de vida não é igual à do apóstolo Paulo. Talvez Deus não exija que vivamos ao mesmo ritmo e que percorramos o mesmo caminho de Paulo de Tarso. Mas todos nós, talvez de formas diversas, somos chamados a dar testemunho de Jesus e do seu Evangelho neste mundo e neste tempo que nos tocou viver. Assumimos essa missão com dedicação, com entrega, com compromisso, independentemente dos obstáculos, das resistências e das incompreensões que encontramos?
  • Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?
  • Paulo também lembra aos cristãos da cidade de Corinto que não estão sozinhos na vivência e no testemunho da vocação a que foram chamados. Eles fazem parte de uma grande família, espalhada pela terra inteira, e que é constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nessa família não há distinções baseadas na cor da pele, no lugar de nascimento, nas categorias sociais, nas diferenças culturais, nos títulos honoríficos, nos bens materiais que cada um possui… Trata-se de uma família de irmãos e de irmãs, reunida à volta de Jesus, animada e conduzida pelo Espírito Santo. Todos os membros dessa família, de formas diversas, participam da mesma missão: dar testemunho, no meio do mundo, da proposta salvadora de Deus. É desta forma que vemos a Igreja nascida de Jesus? Sentimo-nos plenamente membros dela? Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que esta família viva unida e testemunhe o amor de Deus no meio dos homens? in Dehonianos

EVANGELHO – João 1,29-34

Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

 

CONTEXTO

            Este trecho integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, a principal preocupação do autor é apresentar a figura de Jesus.

            João, o autor do Quarto Evangelho, dispõe os materiais que tem à sua disposição como se estivéssemos num teatro. Diante dos nossos olhos, diversas personagens vão entrando no palco e apresentam-nos Jesus. As “falas” que lhes são atribuídas são afirmações categóricas, carregadas de significado teológico, que nos convidam a mergulhar no mistério de Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.

            João Baptista tem um lugar especial neste cenário de apresentação de Jesus. O seu testemunho aparece no início e no fim da secção (cf. Jo 1,19-37; 3,22-36), como se o seu testemunho fosse decisivo. De facto, a catequese cristã sempre viu João Batista como “o precursor do Messias”, aquele que Deus enviou para preparar os homens para acolherem Jesus.

            Neste quadro que o Evangelho deste domingo nos apresenta, o narrador não define o auditório ao qual João se dirige. Com isso, ele pretende possivelmente sugerir que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens e mulheres de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.

            A cena narrada pelo autor do Quarto Evangelho passa-se em Betânia, na margem oriental do rio Jordão (cf. Jo 1,28), uma povoação situada perto de Jericó e até agora não identificada (Orígenes fala de “Bethabara”, ou “Casa da Passagem”). Alguns séculos antes, tinha sido da margem oriental do rio Jordão que os hebreus, libertados do Egito e conduzidos por Josué, “passaram” para a Terra Prometida. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • A liturgia deste domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco a olhar para esse facto espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta connosco – com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?
  • João Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus, irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador cujo programa é restringir a liberdade dos seus súbditos; mas é um Pai cheio de amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós, esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não ajuda a construir uma vida com pleno sentido?
  • Apesar da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens. O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença, de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?
  • João Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que, apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus. Fazemo-lo? Somos sinais de Deus e testemunhas da vida de Deus no meio dos nossos irmãos? Quem olha para nós, para o que dizemos e fazemos, encontra a realidade de Deus?
  • Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”? in Dehonianos.

Para os leitores

            A proclamação da primeira leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto. A frase final – «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» – deve ser sublinhada como conclusão de todo o texto.

            A segunda leitura é constituída por um único parágrafo com longas frases e orações. Deste modo, é necessária uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma correta articulação do texto.

 

ANEXOS:

Domingo I do Tempo Comum – Ano A – 11.01.2026

Domingo do Batismo do Senhor

Viver a Palavra

            A liturgia deste dia – 11.01.2026 – celebra o Batismo de Jesus. Evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado aos homens como “Filho Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai lhe entregou: recriar o mundo, fazer nascer um Homem Novo. E propõe-nos, a todos nós que fomos batizados em Cristo, que tiremos desse facto as consequências que se impõem. in Dehonianos.

            A Igreja do Oriente já celebrava a Epifania e o Batismo de Jesus, no ano 300, em 6 de janeiro, enquanto a Igreja do Ocidente comemorava esta festa apenas na Liturgia das Horas. Em 1969, com a Reforma litúrgica, esta festa foi marcada no Domingo após a Epifania. Onde a Solenidade da Epifania não puder ser celebrada no dia 6 de janeiro, pode ser no domingo entre 2 e 8 de janeiro e a Festa do Batismo, na segunda-feira após a Epifania. Com esta festa, termina o ciclo de Natal, embora permaneça a possibilidade de celebrar, em 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor ao Templo, “Luz dos povos” (também conhecida como festa das “Candeias”). In Vatican News

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            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 42,1-4.6-7

Diz o Senhor:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo,
o meu eleito, enlevo da minha alma.
Sobre ele fiz repousar o meu espírito,
para que leve a justiça às nações.
Não gritará, nem levantará a voz,
nem se fará ouvir nas praças;
não quebrará a cana fendida,
nem apagará a torcida que ainda fumega:
proclamará fielmente a justiça.
Não desfalecerá nem desistirá,
enquanto não estabelecer a justiça na terra,
a doutrina que as ilhas longínquas esperam.
Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça;
tomei-te pela mão, formei-te
e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações,
para abrires os olhos aos cegos,
tirares do cárcere os prisioneiros
e da prisão os que habitam nas trevas».

 

CONTEXTO

            O texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?

            O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia-lhes, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).

            No meio desta proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de um personagem misterioso e enigmático, que os biblistas designam como o “Servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus num cenário tão difícil? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Não sabemos ao certo. Mas esse “Servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus aos homens de todo o mundo. A sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

O texto que hoje nos é proposto é parte do primeiro cântico do “Servo” (cf. Is 42,1-9). in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • A história do “Servo de Javé”, que recebeu a plenitude do Espírito para ser “luz das nações”, abrir “os olhos aos cegos”, tirar “do cárcere os prisioneiros” e “da prisão os que habitam nas trevas”, lembra-nos, desde logo, que Deus age através de “profetas” a quem confia a transformação do mundo e a libertação dos homens. No dia em que fomos batizados, recebemos, também nós, o Espírito que nos capacitou para uma missão semelhante à desse “Servo”. Tenho consciência de que cada batizado é um instrumento de Deus na renovação e transformação do mundo? Estou disposto a corresponder ao chamamento de Deus e a assumir a minha responsabilidade profética? Os pobres, os oprimidos, os que “jazem nas trevas e nas sombras da morte”, os que não têm eira nem beira, nem voz nem vez, nem convite para se sentar à mesa da humanidade podem contar com a minha solidariedade ativa, com a minha ajuda fraterna, com o meu abraço, com a minha partilha generosa?
  • A missão profética só faz sentido à luz de Deus: é sempre Ele que toma a iniciativa, que escolhe, que chama, que envia e que capacita para a missão… Aquilo que fazemos, por mais válido que seja, não é obra nossa, mas sim de Deus; o nosso êxito na missão não resulta das nossas qualidades, mas da iniciativa de Deus que age em nós e através de nós. Somos apenas colaboradores de Deus, “humildes trabalhadores da vinha do Senhor”. É sempre Deus que projeta e que age, através da nossa fragilidade, para oferecer ao mundo a Vida e a salvação. Esquecer isto pode conduzir-nos à arrogância, à autossuficiência, à vaidade, ao convencimento; e, sempre que isso acontece, a nossa intervenção no mundo acaba por desvirtuar o projeto de Deus. Em que atitudes se concretiza a minha missão profética no acolhimento do projeto de Deus?
  • Atentemos ainda na forma de atuar do “Servo”: ele não se impõe pela força, pela violência, pelo dinheiro, ou pelos amigos poderosos; mas atua com suavidade, com mansidão, com humildade, no respeito pela liberdade dos irmãos e irmãs a quem é enviado… É esta lógica – a lógica de Deus – que eu utilizo no desempenho da missão profética que Deus me confiou? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)

Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.

 

Tributai ao Senhor, filhos de Deus,
tributai ao Senhor Glória e poder.
Tributai ao Senhor a glória do seu nome,
adorai o Senhor com ornamentos sagrados.

A vos do Senhor ressoa sobre as nuvens,
o Senhor está sobre a vastidão das águas.
A voz do Senhor é poderosa,
a voz do Senhor é majestosa.

A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão
e no seu templo todos clamam: Glória!
Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,
o Senhor senta-Se como rei eterno.

LEITURA II – Atos 10,34-38

Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Na verdade,
eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas,
mas, em qualquer nação,
aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável.
Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel,
anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.
Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio,
porque Deus estava com Ele».

 

CONTEXTO

            Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram ou continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.

            O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. At 1-12), a reflexão centra-se na difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; na segunda (cf. At 13-28), conta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (sobretudo por ação de Paulo): no Mediterrâneo, na Ásia Menor, na Grécia, até atingir Roma, o coração do império.

            O texto de hoje está integrado na primeira parte dos “Atos”. Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon (cf. At 9,32-11,18) – isto é, na planície junto da orla mediterrânica palestina. Em concreto, o texto propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é a primeira pessoa completamente pagã (o etíope evangelizado e convertido por Filipe e de que se fala em At 8,26-40 era “prosélito” e por isso já estava ligado ao judaísmo) admitida na comunidade cristã por um dos Doze. Admite-se, assim, que o Evangelho de Jesus não deve ficar circunscrito às fronteiras étnicas judaicas, mas é uma Boa Notícia destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas.

            Cesareia Marítima, cidade reconstruída por Herodes, o Grande, ficava na costa palestina. Era a sede do poder romano, pois era aí que residiam os governadores romanos da Judeia (como Pôncio Pilatos, o governador que, pelo ano 30, autorizou a morte de Jesus). A cidade foi evangelizada pelo diácono Filipe (cf. At 8,40). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Jesus recebeu o Batismo e foi ungido com a força do Espírito; depois, “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio”. Em cada passo do caminho que percorreu, Ele distribuiu, em gestos concretos, bondade, misericórdia, perdão, solidariedade, amor… Nós, cristãos, que “acreditamos” em Jesus, que nos comprometemos com Ele e O seguimos, assumimos este “programa”? Nós, que fomos batizados e ungidos com a força do Espírito, testemunhamos também, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, o perdão e o amor de Deus pelos homens? Empenhamo-nos em libertar todos os que são oprimidos pelo demónio do egoísmo, da injustiça, da exploração, da exclusão, da solidão, da doença, do analfabetismo, do sofrimento?
  • “Reconheço que Deus não faz aceção de pessoas” – diz Pedro no seu discurso em casa de Cornélio. E nós, filhos desse Deus que ama a todos da mesma forma e que a todos oferece igualmente a salvação, aceitamos todos os irmãos da mesma forma, reconhecendo a igualdade fundamental de todos os homens em direitos e dignidade? Temos consciência de que a discriminação de pessoas por causa da cor da pele, da raça, do sexo, da orientação sexual ou do estatuto social é uma grave subversão da lógica de Deus? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 3,13-17

Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».

 

CONTEXTO

            Em dia da celebração da festa do Batismo do Senhor, o Evangelho leva-nos até ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá. A tradição identifica esse lugar com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio Jordão, a cerca de 10 quilómetros do Mar Morto. Era um local de passagem para os peregrinos que vinham da Galileia para Jerusalém.

            O rio Jordão é o rio mais emblemático da terra de Israel. Atravessa-a de alto a baixo, desde o sopé do monte Hermon até ao mar Morto, num percurso de cerca de 300 quilómetros (104 em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio que os hebreus, conduzidos por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra Prometida (cf. Js 3-4). No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da lepra ao mergulhar nas águas do Jordão (cf. 2Rs 5,10-14).

            Alguns séculos mais tarde, no final do ano 27 ou princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do rio Jordão um profeta original e independente com uma mensagem nova e verdadeiramente interpelante. A mensagem proposta por João estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.

            O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um ritual usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para uma vida nova, um novo nascimento, um novo começo. No que diz respeito ao Batismo proposto por João, estamos provavelmente diante de um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade que esperava o Messias.

Jesus, que vivia na sua aldeia de Nazaré, na Galileia, ouviu a certa altura falar de João e da sua pregação. Procurou-o nas margens do rio Jordão e escutou o seu apelo à conversão. Na sequência, Jesus quis também receber o batismo. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar da morte e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Uma vez mais se confirma uma realidade que a cada instante reaparece ao longo da história da salvação: o cuidado de Deus com seus queridos filhos que peregrinam na história, o imenso amor que Ele nos dedica, a vontade que Ele tem de levar-nos ao encontro da vida verdadeira… Apesar das nossas fragilidades e das nossas leviandades, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa ingratidão e da nossa inconsciência, Deus continua a chamar-nos, a falar connosco, a escrever-nos cartas de amor, a vir ao nosso encontro e a acompanhar-nos no caminho, a oferecer-nos a possibilidade de integrar a Sua família. E nós, que temos de fazer em resposta ao dom de Deus? O que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhamos a sua oferta de salvação, nos dispúnhamos a seguir Jesus no caminho do amor, da entrega, do dom da vida. Como vemos e como sentimos esta história de comunhão que Deus insiste em viver connosco? Como é que respondemos ao amor de Deus?
  • O episódio do batismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-Se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Nós crentes, filhos deste Deus, aceitamos ir ao encontro dos nossos irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilhamos a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofremos na alma as suas dores, aceitamos identificar-nos com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não temos medo de nos sujarmos ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para os promover e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?
  • Depois de ser batizado no rio Jordão, Jesus foi ungido pelo Espírito de Deus e abraçou, sem reticências, a missão que o Pai lhe confiava: propor e construir o Reino de Deus. Todos nós que fomos batizados em Cristo recebemos o mesmo Espírito de Deus que Ele recebeu e entramos na comunidade do Reino. No dia do nosso batismo recebemos a missão de colaborar com Jesus na construção de um mundo mais fraterno e mais humano. Temos sido fiéis a essa missão? O nosso compromisso batismal é uma realidade que procuramos renovar a cada passo, ou é letra morta que não toca a forma como vivemos? Somos batizados “de assinatura” (porque o nosso nome aparece num qualquer livro de registos de Batismo), ou somos cristãos de facto, que procuram seguir Jesus em cada passo do caminho e colaborar com Ele no sentido de curar o mundo das suas feridas?
  • Jesus sempre levou muito a sério aquela declaração de Deus que se escutou junto do rio Jordão: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Esse amor que o Pai lhe dedicava sempre sustentou as opções de Jesus e sempre iluminou o caminho que Ele ia percorrendo (mesmo quando no horizonte estava a cruz, o abandono dos amigos, o aparente fracasso da missão). Sustentado pelo amor de Deus, Jesus assumiu incondicionalmente o projeto do Pai de dar vida à humanidade. Obedeceu em tudo ao Pai, sem reticências de qualquer espécie. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu – filho amado de Deus – assumo na minha relação com o Pai? O projeto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projetos pessoais ou do que os desafios que o mundo me lança? Como Jesus, confio plenamente no Pai, nas suas propostas, no seu cuidado, no seu amor?
  • Depois de batizado e de ser ungido pelo Espírito, Jesus não se instalou numa crença religiosa de meias tintas ou de serviços mínimos. Animado pela força do Espírito, partiu para a Galileia a anunciar o Reino de Deus e a testemunhar – com palavras e com gestos – o projeto libertador do Pai. É dessa forma – coerente, comprometida, apaixonada – que eu procuro viver a missão que Deus me confiou no dia em que eu fui batizado? Os meus irmãos e irmãs maltratados pela vida e pelos homens podem contar com o meu empenho em levar-lhes a carícia do Deus que cura e que dá Vida? in Dehonianos.

 

ANEXOS:

Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026

Viver a Palavra

            A liturgia deste dia – Epifania do Senhor – celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… O Menino do presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Essa “luz” encarnou na nossa história e no nosso mundo, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. in Dehonianos.

                                                                + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + 

            Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.

Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IIsaías 60,1-6

Levanta-te e resplandece, Jerusalém,
porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor.
Vê como a noite cobre a terra,
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor,
e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz,
e os reis ao esplendor da tua aurora.
Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro;
os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços.
Quando o vires ficarás radiante,
palpitará e dilatar-se-á o teu coração,
pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações.
Invadir-te-á uma multidão de camelos,
de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.

CONTEXTO

Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja proveniência não é, entre os estudiosos da Bíblia, totalmente consensual… Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de diversos autores pós-exílicos e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI e V a.C.).

Em geral, estas profecias situam-nos em Jerusalém, a cidade que os Babilónios deixaram em ruínas, em 586 a.C., e que agora começa a reerguer-se. As marcas do passado ainda se notam nas pedras calcinadas da cidade; os filhos e filhas de Jerusalém que regressaram do exílio na Babilónia são ainda em número reduzido; a pobreza geral obriga a que a reconstrução seja lenta e muito modesta; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada… Sonha-se, no entanto, com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade para trazer a salvação definitiva ao seu Povo. Então, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.

O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até ao pôr do sol). in Dehonianos

 

INTERPELAÇÕES

  • É bela esta imagem de Deus como uma luz que se acende nas nossas vidas e nas nossas cidades, iluminando os caminhos que temos de percorrer, aquecendo os nossos corações cansados e abatidos e transformando o nosso pessimismo e derrotismo em esperança e vida nova. Às vezes temos a sensação de que este mundo onde peregrinamos se tornou um lugar sombrio e triste, onde o ódio pode mais do que o amor, a guerra se impõe aos esforços pela paz, o egoísmo é mais apreciado do que a comunhão… Mas a verdade é que, quando parecemos perdidos em becos sem saída, a luz de Deus vem iluminar o mapa dos caminhos que devemos andar para encontrar Vida. Não vivamos de olhos postos no chão, afogados numa escuridão que nos rouba a esperança; ousemos, mesmo em momentos complicados da história do mundo e da nossa história pessoal, levantar os olhos e perceber a presença desse Deus que nunca desistirá de iluminar todos os passos do nosso caminho rumo à Vida. Estamos dispostos a deixarmo-nos iluminar pela luz de Deus?
  • Podemos, naturalmente, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos fale, nos aponte caminhos de vida nova e nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Estamos disponíveis para dar testemunho dessa luz junto dos irmãos que compartilham o caminho connosco?
  • Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25). Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora de Jesus? Elas são, pelo seu brilho, uma luz que atrai os homens? As nossas desavenças e conflitos, a nossa falta de amor e de partilha, os nossos ciúmes e rivalidades, a nossa passividade e conformismo não contribuirão para embaciar o brilho dessa luz de Deus que devíamos refletir?
  • Será que na nossa comunidade cristã há espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de Deus? Os irmãos cuja vida é considerada irregular ou pouco condizente com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados? As diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar, ou são rejeitadas porque ameaçam a uniformidade? A nossa comunidade cristã é o “hospital” onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a vida lhes infligiu? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.

 

Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.

Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.

Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes,
os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas.
Prostrar-se-ão diante dele todos os reis,
todos os povos o hão de servir.

Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.

 

LEITURA II – Efésios 3,2-3a.5-6

Irmãos:
Certamente já ouvistes falar
da graça que Deus me confiou a vosso favor:
por uma revelação,
foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo.
Nas gerações passadas,
ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens
como agora foi revelado pelo Espírito Santo
aos seus santos apóstolos e profetas:
os gentios recebem a mesma herança que os judeus,
pertencem ao mesmo corpo
e participam da mesma promessa,
em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.

 

CONTEXTO

A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).

É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta, talvez uma “carta circular” enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino.

O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, oculto durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.

Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe ainda como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. Ef 2,11-22)… O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Segundo Paulo, a salvação oferecida por Deus e revelada em Jesus não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para todos os povos, sem distinção de raça, de cor, de cultura ou de estatuto social. Todos os homens e mulheres são filhos e filhas queridos de Deus. A todos Deus ama, todos fazem parte de uma família universal. Será que conseguimos ver em cada pessoa, independentemente das diferenças e particularismos que apresenta, um irmão ou uma irmã? Conseguimos apreciar devidamente a beleza de pertencer a uma família onde as diferenças não dividem, mas são um bem acrescentado que a todos enriquece?
  • A fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade…. Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças?
  • A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Esta comunidade é um espaço privilegiado onde se revela o projeto salvador que Deus tem para oferecer a todos os homens. É isso que, de facto, acontece? Na vida das nossas comunidades transparece realmente o amor de Deus? As nossas comunidades são verdadeiras comunidades fraternas, onde todos se amam sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, ou de história de vida? in Dehonianos

EVANGELHO – Mateus 2,1-12

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado,
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.

 

CONTEXTO

O episódio da visita dos magos ao Menino de Belém, narrado no evangelho de Mateus, é um episódio de grande beleza, que rapidamente se tornou muito popular entre os cristãos. Ao longo dos séculos a piedade popular não cessou de o embelezar com acrescentos que, na maior parte dos casos, não encontram eco no texto de Mateus.

Os biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever uma visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas sim apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra.

Na base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do Crescente Fértil, de que cada criança que nascia tinha a sua própria estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que iria mudar a história humana. É provável também que Mateus se tenha inspirado, para construir esta bonita narrativa, num texto do livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio teve sempre, para os teólogos de Israel, um claro sabor messiânico.

Finalmente, o relato de Mateus faz uma referência ao rei que governava a Palestina na altura do nascimento de Jesus: Herodes, chamado “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o seu trono. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Em primeiro lugar, atentemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, a “luz salvadora” enviada por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?
  • Os “magos” são os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da luz libertadora de Deus. Talvez hoje, com toda a pressão que a vida nos coloca, não consigamos ter tempo para olhar para o céu, à procura dos sinais de Deus; talvez a vida nos obrigue a andar de olhos no chão, ocupados em coisas bem rasteiras e materiais… Mas a aventura da existência terá mais cor se arranjarmos tempo para parar, para meditar, para falar com Deus, para escutar as suas indicações, para tentar ler os sinais que Ele vai colocando ao longo do nosso caminho… A nossa peregrinação pela terra não fará mais sentido se aprendermos a ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus?
  • O relato de Mateus sublinha, por outro lado, a “desinstalação” dos “magos”: eles descobriram a “estrela” e, imediatamente, deixaram tudo para procurar Jesus. O risco da viagem, a incomodidade do caminho, o confronto com o desconhecido, nada os impediu de partir. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, ao nosso comando da televisão, ao nosso computador, à nossa zona de conforto, à nossa segurança, ao nosso comodismo? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz, muitas vezes através dos irmãos que necessitam da nossa ajuda e do nosso cuidado?
  • Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?
  • Os “magos”, depois de se encontrarem com Jesus e de o reconhecerem como “o Senhor”, “regressaram ao seu país por outro caminho”. O encontro com o Menino do presépio tem sido, nestes dias, um momento de confronto que nos leva a reequacionar a nossa vida, os nossos valores e opções, e a enveredar por um caminho novo, mais simples, mais humilde, mais fraterno, mais humano? in Dehonianos.

ANEXOS:

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