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Liturgia da Palavra
Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026

Viver a Palavra
Na nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor somos convidados a sentarmo-nos com Jesus à beira do poço. Passamos os nossos dias a correr entre os múltiplos afazeres do nosso quotidiano e às vezes parece tão escasso o tempo para serenar e descansar. Neste frenesim quotidiano marcado pelas rotinas, pela sucessão de tarefas a realizar e horários a cumprir, irrompe Jesus, o enviado do Pai, o Deus das surpresas que enche e preenche de novidade os nossos dias. O tempo da Quaresma é o tempo favorável e especialíssimo para abrir o nosso coração ao Deus que nos visita e surpreende sempre com o Seu amor e o Seu perdão. Por isso, se o tempo da Quaresma é tempo de penitência e conversão, é também «tempo para cantar a alegria do perdão» (Ir. Roger). A experiência da penitência e da conversão abre a nossa vida à alegria da vida reencontrada, à experiência feliz da transformação do coração.
«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço». Esta poderia ser apenas uma indicação cénica para situar Jesus no contexto desta passagem evangélica. Contudo, as ações de Jesus devem ser sempre lidas em chave teológica, mesmo quando parecem ser apenas subsidiárias da narrativa. Na Sagrada Escritura, a ação de sentar apresenta diferentes significados: a ação de ensinar na relação mestre/discípulo (Mt 5,1), a evocação da majestade de Deus (Dn 7,9) ou a referência escatológica do Filho do Homem na sua glória (Mt 25,31). Contudo, aqui Jesus senta-se cansado e pede água à Samaritana. No evangelho estão bem identificados aqueles que se sentam para pedir: são os mendigos. Mendigos como aqueles que estão sentados à beira da estrada, na saída de Jericó, que ao ouvirem que Jesus está a passar começam a gritar (Mt 20,30-31) ou então Bartimeu, um mendigo cego, sentado na beira do caminho (Mc 10,46).
Jesus, cansado do caminho, senta-se à beira do poço e pede de beber à samaritana. Este pedido como que antecipa aquele grito da Cruz: «tenho sede». Misterioso Senhor que, para dar, pede! Jesus apresenta-se como mendigo do homem, com uma sede de salvação que nos desconcerta. Assim nos recorda Simon Weil quando afirma: «Deus espera como um mendigo, imóvel e silencioso, diante de qualquer um que lhe estenda um bocado de pão. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso amor».
Jesus tem sede. Sede da água que dessedenta os que caminham nas estradas poeirentas, mas também sede de salvação. Sede de tocar as nossas sedes, de contactar com os nossos desertos e as nossas feridas. Ele quer salvar cada homem e cada mulher e, independentemente da sua vida de pecado ou do seu errado caminho, Ele quer oferecer uma oportunidade nova de vida plena e cheia de sentido.
Jesus encontra-se com a Samaritana ao meio-dia, precisamente a mesma hora em que Jesus é apresentado por Pilatos à multidão (Jo 19,13-14). Como afirma o Cardeal Tolentino de Mendonça: «só compreenderemos verdadeiramente o diálogo entre Jesus com a Samaritana se tivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz». Na verdade, o meio-dia é a hora central do dia, o ponto que determina a passagem de uma parte para outra da jornada. O meio do tempo assinala um antes e um depois, o meio do caminho e a encruzilhada da vida.
O encontro com Jesus marca assim um rumo novo na nossa história, pois sempre que abrimos o nosso coração ao verdadeiro encontro com Jesus é «meio-dia», é hora decisiva para avançar com um alento renovado e uma vontade nova de fazer da nossa vida doação. in Voz Portucalense.
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O III Domingo da Quaresma é Dia Nacional da Cáritas, por isso, a semana que antecede este dia é Semana Nacional Cáritas e multiplicam-se, em vários lugares, atividades de reflexão sobre a ação social, atividades de animação pastoral e também iniciativas de angariação de fundos. Está previsto que o ofertório das missas deste Domingo em todas as dioceses de Portugal reverta para este fim. A Cáritas em Portugal quer ser testemunho da fraternidade da comunidade cristã para com os mais pobres a partir da Ação Social da Igreja construtora de uma sociedade solidária e participativa, onde prevaleça a justiça, a paz, a liberdade e a solidariedade ao serviço da dignidade humana.
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Êxodo 17,3-7
Naqueles dias,
o povo israelita, atormentado pela sede,
começou a altercar com Moisés, dizendo:
«Porque nos tiraste do Egipto?
Para nos deixares morrer à sede,
a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?»
Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo:
«Que hei de fazer a este povo?
Pouco falta para me apedrejarem».
O Senhor respondeu a Moisés:
«Passa para a frente do povo
e leva contigo alguns anciãos de Israel.
Toma na mão a vara com que fustigaste o rio
e põe-te a caminho.
Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb.
Baterás no rochedo e dele sairá água;
então o povo poderá beber».
Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel.
E chamou àquele lugar Massa e Meriba,
por causa da altercação dos filhos de Israel
e por terem tentado o Senhor, ao dizerem:
«O Senhor está ou não no meio de nós?»
CONTEXTO
Um dos grandes temas do livro do Êxodo é a marcha pelo deserto dos hebreus libertados por Javé da escravidão do Egito. A secção de Ex 15,22-18,27 refere as vicissitudes da primeira etapa dessa marcha: a que vai desde a passagem do mar até à chegada do povo diante da montanha do Sinai.
Nesta primeira fase do caminho do deserto, está bem presente a imaturidade daquele grupo de homens e mulheres que ainda funcionam com mentalidade de escravos e ainda não assumiram o risco da liberdade. As dificuldades do caminho desorganizam-nos e incomodam-nos; e eles, perante as contrariedades, não se coíbem de criticar Moisés e de murmurar contra Deus (cf. Ex 15,22-27; 16,1-21; 17,1-7). O esquema é sempre o mesmo: diante das dificuldades que encontra no caminho, o Povo murmura, revolta-se contra Moisés e acusa Deus pelos desconfortos da caminhada; Moisés intervém e intercede junto de Deus; finalmente, Deus acaba por conceder ao Povo os bens de que este sente necessidade. Os relatos apresentam-se sempre de uma forma dramática, num crescendo de intensidade até ao desfecho final.
Provavelmente, estes relatos têm por base dificuldades concretas sentidas pelos hebreus no seu caminho pelo deserto em direção à Terra Prometida. Não é fácil sobreviver nas condições hostis do deserto. No entanto, os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes permitiam enfrentar com êxito a sua luta diária pela existência. Um desses “truques” consistia em procurar água em rochas porosas que, quando quebradas em certo lugar, proporcionavam o acesso à água que armazenavam no seu interior. É possível que o episódio narrado no texto que a liturgia hoje nos propõe como primeira leitura nos situe neste cenário.
Seja como for, a verdade é que os teólogos de Israel recolheram essas tradições e utilizaram-nas com um objetivo catequético. Os catequistas que nos legaram estes relatos não se propuseram fazer uma reportagem factual dos acontecimentos históricos vividos ao longo do caminho percorrido pelos hebreus, mas sim fazer catequese. Percebe-se nas entrelinhas que a grande preocupação de quem compôs estes relatos é pôr o Povo de sobreaviso contra a tentação de procurar refúgio e segurança longe de Javé.
Portanto, a dado passo da sua caminhada pelo deserto, os hebreus deparam-se com a falta de água e queixam-se a Moisés. O episódio é situado em Refidim (cf. Ex 17,1), no sul da península do Sinai (cf. Nm 33,14-15). Curiosamente uma outra tradição refere um episódio muito semelhante e coloca-o a norte, nos arredores de Kadesh (cf. Nm 20,7-11). Serão dois episódios semelhantes, ligados a grupos distintos de nómadas que, em épocas diferentes, fugiram do Egito, ou tratar-se-á do mesmo episódio narrado por duas tradições diferentes? Não o sabemos. O que é evidente é que os teólogos de Israel utilizaram esta história para reafirmar o empenho de Deus em “salvar” o seu povo e em conduzi-lo em segurança da escravidão para a liberdade. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
Talvez a nota mais decisiva e interpelante, neste episódio de Massá e Meribá, seja a confirmação da fidelidade de Deus aos seus desígnios de amor e de vida, ao seu projeto de salvação. O comportamento imaturo daquele grupo de hebreus que ainda não se libertaram de uma mentalidade de escravos não fazem Deus desistir do seu projeto de salvação; as contínuas desconfianças daqueles caminhantes que parecem não saber o que querem, não desarmam a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. É uma perspetiva reconfortante, que talvez nos ajude a olhar com mais esperança para as nossas pobres vidas, para as nossas hesitações, dúvidas e incongruências, para as nossas contradições e para os nossos passos mal dados… Se Deus não nos condena definitivamente, se Ele se conserva ao nosso lado apesar das nossas decisões estúpidas, se Ele continua a olhar para nós com amor apesar das nossas desconfianças e cobardias, se a nossa futilidade e as nossas aspirações rasteiras O não dececionam definitivamente, então não caminhamos em direção a um desastre anunciado. Deus vai connosco, assiste-nos e ampara-nos em cada passo do caminho, dá-nos uma e outra vez a oportunidade de recomeçar… Como é que isso nos faz sentir? Que implicações tem isso na nossa vida?
Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 94 (95)
Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,
não fecheis os vossos corações.
Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
aclamemos a Deus nosso salvador.
Vamos à sua presença e dêmos graças,
ao som de cânticos aclamemos o Senhor.
Vinde, prostremo-nos em terra,
adoremos o Senhor que nos criou.
Pois Ele é o nosso Deus
e nós o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.
Quem dera ouvísseis hoje a sua voz:
«Não endureçais os vossos corações,
como em Meriba, como no dia de Massa no deserto,
onde vossos pais Me tentaram e provocaram,
apesar de terem visto as minhas obras.
LEITURA II – Romanos 5,1-2.5-8
Irmãos:
Tendo sido justificados pela fé,
estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo qual temos acesso, na fé,
a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos,
apoiados na esperança da glória de Deus.
Ora, a esperança não engana,
porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
Dificilmente alguém morre por um justo;
por um homem bom,
talvez alguém tivesse a coragem de morrer.
Deus prova assim o seu amor para connosco:
Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.
CONTEXTO
Roma era, na altura em que o apóstolo Paulo escreve a sua carta à comunidade cristã da cidade, o centro do mundo antigo. Roma tinha, por essa altura, cerca de um milhão de habitantes, dos quais 50.000 eram judeus.
Não sabemos como foi fundada a Igreja de Roma. A tradição diz que foi o apóstolo Pedro que, de passagem pela cidade, aí teria anunciado o Evangelho de Jesus. O mais provável, contudo, é que a comunidade tenha nascido a partir do testemunho de judeo-cristãos que deixaram Jerusalém e se estabeleceram em Roma poucos anos após a morte de Jesus.
Quando escreve aos Romanos, por volta do ano 57 ou 58, Paulo está prestes a deixar Corinto, a caminho de Jerusalém, no final da sua terceira viagem missionária. O apóstolo sente que terminou a sua missão no oriente (cf. Rm 15,19-20) e quer agora levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).
Paulo aproveita para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que o pecado é uma realidade que atinge todos os homens, sem exceção, e que ninguém está de fora desse cenário (cf. Rm 1,18-3,20). É Deus que, na sua imensa misericórdia, “justifica” o homem pecador e lhe oferece um perdão não merecido. A salvação não vem do mérito do homem, mas sim da “justiça de Deus” que a todos dá a vida (cf. Rm 3,1-5,11).
No texto que a segunda leitura do terceiro Domingo da Quaresma nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?
Então podemos viver como nos apetecer, sem medo de sermos penalizados pela “justiça” de Deus? Na realidade, aquilo que muitas vezes consideramos “castigos” pelos nossos pecados não são punições que Deus inventa para nos fazer pagar pelo mal que praticamos; são, simplesmente, as consequências naturais das nossas decisões erradas, das nossas atitudes egoístas, da má semente que semeamos, da nossa irresponsabilidade, da nossa futilidade, da nossa aposta no que é efémero e sem sentido. Quando escolhemos caminhos sem saída, somos nós que perdemos e que nos auto-castigamos: a nossa autossuficiência isola-nos, priva-nos de estar em paz com Deus e de usufruir dos seus dons; a nossa falta de fé afunda-nos no desespero e torna-nos prisioneiros do medo e da morte; a falta de confiança no amor de Deus faz com que nos arrastemos sem rumo, perdidos e órfãos, sentindo-nos lixo abandonado na berma dos caminhos… É dessa forma que queremos viver e dar sentido à nossa vida?
O apóstolo Paulo garante-nos que o amor de Deus não é inconstante, não varia conforme os “estados de espírito” de Deus, não depende dos comportamentos inconstantes do homem. É um amor inquestionável, infalível, absolutamente inabalável. Segundo Paulo, “Deus provou assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. Deus não ama apenas os bons, os que se portam bem; ama todos os seus filhos, sem exceção. Nem a nossa insistência no pecado nos afasta do amor de Deus. É difícil entender e aceitar isto? Talvez o seja para alguns, incapazes de entender a lógica de Deus, o alcance do verdadeiro amor. Que Deus anunciamos e testemunhamos? Um deus castigador e vingativo, sempre pronto a fazer cair sobre o homem pecador as suas punições, ou um Deus terno e compassivo, misericordioso e bom, que olha para os seus queridos filhos com a compreensão e o amor de um pai ou de uma mãe? in Dehonianos
EVANGELHO – João 4,5-42
Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar,
junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,
onde estava a fonte de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou Se à beira do poço.
Era por volta do meio-dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse lhe Jesus: «Dá-Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
Respondeu-Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?»
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.
Disse lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água-viva».
Respondeu-Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:
donde Te vem a água-viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos a os seus rebanhos?»
Disse Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar se á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, suplicou a mulher dá me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte
e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».
Disse lhe Jesus:
«Mulher, podes acreditar em Mim:
Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos judeus.
Mas vai chegar a hora – e já chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão de adorar o Pai em espírito a verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».
Disse-Lhe a mulher:
«Eu sei que há de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.
Quando vier há de anunciar nos todas as coisas».
Respondeu lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,
mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?»
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:
«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?»
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».
Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?»
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já o ceifeiro recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.
Nisto se verifica o ditado:
‘um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu «mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».
Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,
pediram-Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá dois dias.
Ao ouvi l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:
«Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos.
Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».
CONTEXTO
A narração do evangelista João leva-nos até junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.
Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade com raízes bem antigas entre samaritanos e judeus. A divisão entre as duas comunidades começou logo após a morte de Salomão (932 a.C.), quando as tribos do Norte e do centro se recusaram a aceitar Roboão, filho de Salomão, como seu rei. O país dividiu-se: as tribos do Norte e do centro escolheram para rei um tal Jeroboão e constituíram o reino de Israel, com capital em Siquém (cf. 1Rs 12); as tribos do Sul permaneceram sob a autoridade de Roboão, filho de Salomão, constituindo o reino de Judá, com capital em Jerusalém. A partir daqui os dois grupos seguiram caminhos separados.
A situação piorou quando, em 721 a.C., o reino de Israel foi tomado pelos assírios e uma parte da população da Samaria (cerca de quatro por cento) foi deportada para a Assíria. Foi o fim do reino de Israel. Na Samaria instalaram-se, por essa altura, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2Rs 17,29). Em 586 a.C. foi a vez de Judá sofrer uma derrota às mãos dos babilónios e de a maior parte da população de Jerusalém ter sido levada para o cativeiro, para a Babilónia.
A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso dos judeus do Exílio na Babilónia (538 a.C.), estes recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano 333 a.C., um novo fator veio agravar o conflito: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim, um templo que pretendia fazer concorrência ao templo de Jerusalém. O Templo samaritano do monte Garizim viria a ser destruído em 128 a.C., por João Hircano.
As picardias continuaram entre os dois grupos. A mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.
Na época neotestamentária era ponto assente, para os judeus, que os samaritanos eram hereges, pois tinham sangue de povos estrangeiros e praticavam uma religião sincretista, que misturava elementos da fé javista com elementos religiosos herdados de outros povos. Os samaritanos, por sua vez, desprezavam profundamente os judeus.
O poço referido na narrativa joânica era conhecido como o “poço de Jacob”. Estava situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a atual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob. Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).
Na tradição religiosa de Israel, o “poço” é um elemento mítico, que parece referido em numerosos textos e evoca a presença de Deus que acompanha o seu povo ao longo da sua peregrinação pela história. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água-viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.
O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.
O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
A modernidade criou-nos grandes expectativas de progresso, de emancipação individual, de realização pessoal, e prometeu-nos um futuro de liberdade e felicidade através da razão, da ciência e da tecnologia. Disse-nos que tinha na manga a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida verdadeira estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem o controle de Deus; disse-nos que os avanços científicos e tecnológicos iriam tornar a nossa existência cómoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a nossa segurança estava numa conta bancária recheada, no reconhecimento social, no êxito profissional, na adesão às indicações dos líderes de opinião, na conformação com o movimento geral das massas… No entanto, todas as nossas vitórias e conquistas não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes e para nos sentirmos plenamente realizados. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Precisamos de escutar Jesus e de abraçar o seu projeto. O que pensamos disso? O que é que Jesus significa para nós? Ele é “a água” sem a qual não conseguimos viver? A sua proposta sacia a nossa sede de vida? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência da proposta de vida plena que Ele oferece a todos?
“Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água-viva” – diz Jesus à mulher samaritana. A “água-viva” de que Jesus fala evoca imediatamente em nós a fonte batismal. Para cada um de nós, o dia do nosso batismo foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nesse momento aderimos a Jesus e à vida que Ele oferece, acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que nos capacita para vivermos como “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. Depois disso, percorremos um caminho, fizemos opções, elegemos valores sobre os quais fundamentamos a nossa vida. A nossa vida tem sido verdadeiramente coerente com as opções que fizemos no dia em que recebemos o batismo? Temos procurado deixar-nos conduzir pelo Espírito? O compromisso que assumimos no dia em que fomos batizados é uma realidade que continua a marcar a nossa vida, os nossos gestos, os nossos valores, as nossas opções?
Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de busca de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena, a proposta que nos vem de Jesus. Neste tempo de quaresma – tempo de “conversão”, de mudança, de refazer a nossa vida, de reequacionar as nossas opções, de “voltar ao encontro de Deus” – estamos dispostos a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o nosso coração ao Espírito que Jesus nos oferece e que exige de nós uma vida nova?
Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descoberta com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida? in Dehonianos.
Para os leitores:
Na primeira leitura, deve haver um especial cuidado com as palavras de mais difícil pronunciação: «altercar», «altercação», «Massa» (deve pronunciar-se Mássá) e «Meriba» (deve pronunciar-se Méribá). Neste texto, deve ainda ter-se em atenção o texto em discurso direto, articulando bem as diferentes interrogações, que devem ser proclamadas evitando a exagerada acentuação interrogativa no final de cada frase, mas acentuando a partícula interrogativa ou a forma verbal.
A segunda leitura exige uma aturada preparação assinalando as pausas e as respirações, pois o texto é marcado por frases longas e com várias orações.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026 (Êxodo 17, 3-7)
- Leitura II do Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026 (Romanos 5, 1-2.5-8)
- Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026 – Lecionário
- Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026 – Oração Universal
- Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 08.03.2026
- Mensagem de SS Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026

Viver a Palavra
A vida cristã envolve a vida toda e toda a vida e o convite à conversão que se torna mais incisivo neste tempo quaresmal recorda-nos precisamente que a conversão exige uma transformação do coração e da vida que chegue a todos os âmbitos da nossa ação. A conversão não é apenas uma adesão intelectual à proposta de Jesus Cristo, nem um conjunto de boas intenções para a prática de boas obras, mas o encontro decisivo com Jesus que nos faz entrar na dinâmica sempre nova de conformar a nossa vida com a Sua vontade.
No nosso itinerário quaresmal, o segundo Domingo da Quaresma irrompe luminosamente, apresentando Jesus sobre o monte com Pedro, Tiago e João. Assim como estes três discípulos foram escolhidos e chamados, também nós, somos convocados pelo amor misericordioso de Jesus que gratuitamente nos escolhe para nos fazer experimentar a luz nova que só o Seu amor e Sua graça nos podem oferecer. Assim nos testemunha S. Paulo, escrevendo a Timóteo e recordando-lhe a livre, gratuita e generosa ação de Deus nas nossas vidas: «sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça». Deste modo, agradecidos pelo dom generoso da vida divina que nos é concedida para lá das nossas boas obras, somos convidados a conformar a nossa vida com este mistério de amor que nos inquieta, desinstala e coloca a caminho. Partir é palavra de ordem para quem encontra em Jesus o sentido da sua vida.
Jesus não se detém nem nos detém, mas envia-nos: «levantai-vos e não temais». Como é importante recordar aqui o convite dirigido por Deus a Abraão para deixar a sua terra e a sua família. Mais importante ainda porque Deus não lhe indica uma meta geográfica, mas apenas a certeza da sua presença: «vai para a terra que Eu te indicar». Se é o Senhor Deus que lhe vai indicar o caminho, então Ele caminhará com Ele, estará com Ele para o guiar, proteger e defender. Por isso, Abraão parte confiado na palavra do Senhor, ainda que humanamente tivesse razões para desconfiar, pois a promessa de Deus é de fazer dele uma grande nação e oferecer-lhe uma inúmera descendência, mas Abraão e sua mulher Sara são de idade avançada. Todavia, «Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado» e a promessa de Deus realizou-se para nos testemunhar a certeza que quando somos capazes de abandonar os nossos comodismos, as nossas certezas fundadas apenas nas nossas capacidades humanas e nos abrimos à livre, gratuita e generosa iniciativa de Deus a nossa vida se torna lugar de bênção que difunde ao longe e ao largo o suave perfume da ternura e da bondade do Pai.
Neste Domingo subimos com Jesus ao Monte e como Pedro, Tiago e João somos chamados a contemplar a luz nova que brota da Sua presença no meio de nós. Aos discípulos é antecipada a luz nova da Páscoa que será plena e definitiva na manhã da Ressurreição. Na narrativa que nos apesenta S. Mateus surpreende-me sempre a descrição da experiência que os discípulos fazem de Jesus. Eles contemplam Jesus resplandecente como o sol e com vestes brancas como a luz. Vêm Moisés e Elias e a nuvem luminosa. Escutam a voz do Pai e são tocados por Jesus que os desafia a colocar-se ao caminho. É curioso que apenas a narrativa da Transfiguração no Evangelho de Mateus nos oferece este pormenor de Jesus que toca os seus discípulos. A experiência pascal de encontro com Jesus Cristo, experimentada por antecipação, no episódio da transfiguração, convida-nos a contemplar, a ver, a escutar, a ser tocados, a caminhar, isto é, convida-nos a uma transformação da vida toda, implicando todos os sentidos e desafiando a uma conversão cada vez mais total e totalizante das nossas vidas. in Voz Portucalense.
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Génesis 12,1-4
Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
CONTEXTO
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto deambulava de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceite pelo clã seria, para cada um destes grupos, o garante da concretização desses sonhos.
Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A figura de Abraão que nos é apresentada pela catequese de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência plena e com uma entrega total… Abraão, o homem que vive de Deus e para Deus, continua hoje a questionar o homem moderno, esse homem atarefado e autossuficiente que não tem tempo para “perder” com Deus pois está demasiado ocupado a conquistar o mundo, a ganhar dinheiro, a construir uma carreira recheada de êxitos, ou a aproveitar todos os “gozos” que a vida lhe pode proporcionar. Há lugar para Deus no nosso projeto de vida? No meio do ruído ensurdecedor que preenche as nossas idas e vindas, conseguimos escutar a voz de Deus? Como respondemos aos desafios que Deus a cada passo nos coloca?
- Abraão escuta a voz de Deus. Deus manda-o partir e Abraão simplesmente põe-se a caminho. Não discute, não argumenta, não pede garantias, não põe condições. Não pede nenhum “sistema de posicionamento global” (GPS) para se orientar, nem solicita mapas atualizados dos caminhos que terá de percorrer. Não pergunta qual é o seu destino final, não exige saber se vai ao encontro de uma vida mais fácil. Simplesmente entrega-se nas mãos de Deus e vai. Com confiança absoluta, com total disponibilidade. A atitude de Abraão questiona o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estamos dispostos a mudar os nossos horizontes, a “pormo-nos a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica que Deus nos aponta, ou preferimos continuar prisioneiros dos nossos esquemas pré-concebidos, dos nossos medos, dos nossos velhos hábitos, das nossas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
- O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)
Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.
Refrão 2: Desça sobre nós a vossa misericórdia,
porque em Vós esperamos, Senhor.
A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.
Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10
Caríssimo:
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade,
não em virtude das nossas obras,
mas do seu próprio desígnio e da sua graça.
Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus,
desde toda a eternidade
manifestou-se agora pelo aparecimento
de Cristo Jesus, nosso Salvador,
que destruiu a morte
e fez brilhar a vida e a imortalidade,
por meio do Evangelho.
CONTEXTO
De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.
Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O autor do escrito – que refere, de passagem, a sua situação de “prisioneiro” por causa do Evangelho (vers. 8a) – exorta Timóteo a ser, para a comunidade cristã cuja responsabilidade lhe foi confiada, um modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza no testemunho da fé. Foi para isso que ele recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da sua missão apostólica (cf. 2Tm 1,6-7). O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e dê testemunho de Cristo e do seu Evangelho.
De resto, Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto salvador de Deus em favor dos homens. Recorrendo, provavelmente, a um fragmento de um velho hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o autor da Carta lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância; sem ter em conta as faltas e as indignidades dos homens, Deus quis oferecer-lhes gratuitamente a sua salvação; ora, essa salvação “apresentou-se“ na história humana na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “desceu” ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação de Deus, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade por meio do Evangelho que propôs (vers. 9-10). Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da história dos homens. Nesse longo caminho que a humanidade vem percorrendo pela história, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que este projeto de Deus.
Ora, tanto Paulo como Timóteo foram escolhidos por Deus para “ministros” deste projeto. É uma vocação sublime! Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e tantos outros que Deus escolheu e enviou – são arautos da salvação de Deus. Não podem, de forma nenhuma, “esconder-se”, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar essa “Boa Notícia” que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a terra.
Sim, aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para todos aqueles que aderiram à proposta de salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho de Jesus. Por todo o lado, as comunidades cristãs sentem enfraquecer a sua coragem e diminuir o seu compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente, escolhem viver sem problemas, optam pela facilidade. Nestes tempos difíceis, contudo, aqueles que, como Paulo ou como Timóteo, têm a responsabilidade de presidir às comunidades e animar os seus irmãos na fé, devem levar muito a sério a missão que lhes foi confiada. Têm de manter-se fortes; têm de ser, no meio dos seus irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Quando olhamos para a história da humanidade com olhos de “crentes”, conseguimos com alguma facilidade detetar a presença e a ação salvadora de Deus em cada passo do caminho que os homens vão percorrendo. Formados na escola da fé, talvez isso nos pareça bem “normal”: o Deus no qual acreditamos é um Deus que ama incondicionalmente os seus queridos filhos e que, por isso, está sempre disposto a oferecer-lhes a possibilidade de chegarem à vida verdadeira. O que talvez nos pareça mais estranho é o facto de Deus nos chamar a colaborar com Ele nesse projeto: apesar da nossa pequenez e dos nossos limites, da nossa debilidade e da nossa tibieza, da nossa inclinação para a preguiça e da nossa apetência pelo comodismo, apesar de não sermos “de fiar”, Deus oferece-nos um papel na concretização do seu projeto de salvação. É através de nós que Deus vem ao encontro dos homens e lhes oferece a sua salvação. Paulo e Timóteo fizeram essa experiência. Talvez se tenham sentido indignos e talvez tenham desconfiado das suas frágeis forças; mas sentiram que não podiam defraudar as expetativas de Deus e levaram a sério o papel que Deus entendeu confiar-lhes enquanto arautos da Boa Nova da salvação. E nós, sentimos que isto também nos diz respeito? Sentimos que Deus nos chama a ser arautos da sua salvação no meio dos nossos irmãos?
- Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 17,1-9
Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
CONTEXTO
O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras (cf. Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (cf. 8,1-9,34) – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus (cf. Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (cf. Mt 16,13-20).
No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16,21-22). Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’” (Mt 16,22). Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte (cf. Mt 16,24-26).
É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.
O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Neste segundo domingo da Quaresma façamos, também nós, a experiência de subir com Jesus ao monte… Enquanto subimos, podemos conversar com Ele e, com toda a sinceridade, dizer-Lhe as nossas dúvidas e inquietações. Podemos dizer-Lhe que, por vezes, nos sentimos perdidos e desanimados diante da forma como o nosso mundo se constrói; podemos dizer-lhe que o caminho que Ele aponta é duro e exigente e que não sabemos se teremos a coragem de o percorrer até ao fim; podemos até dizer-lhe, talvez com alguma vergonha, que às vezes duvidamos dele e corremos atrás de outras apostas, mais cómodas, mais atraentes e menos arriscadas… E, depois de lhe dizermos isso tudo, deixemos que Jesus nos fale, nos explique o seu projeto, nos renove o seu desafio… E vamos, também, prestar atenção à voz de Deus que nos garante: “olhem que esse Jesus que Eu enviei ao vosso encontro é o meu Filho, o meu eleito, aquele a quem Eu entreguei o projeto de um mundo mais humano e mais fraterno… Confirmo a verdade do caminho que Ele vos propõe. Escutai-O, ide com Ele, acolhei as suas propostas e indicações, mesmo que tenhais de remar contra a maré. O caminho que Ele vos aponta pode passar pela cruz, mas conduz à Vida verdadeira, à ressurreição”. Há espaço na nossa vida para ouvir essa “voz de Deus” e para caminharmos na direção que ela aponta?
- “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. É verdade: precisamos de escutar Jesus mais e melhor. Quando o “escutamos” – quer dizer, quando ouvimos o que Ele nos diz, quando acolhemos no coração as suas indicações e quando procuramos concretizá-las na vida – começamos a ver tudo com uma luz mais clara. Começamos a perceber qual é a maneira mais humana de enfrentar os problemas da vida e os males do nosso mundo; damos conta dos grandes erros que os seres humanos podem cometer e descobrimos as soluções que Deus nos aponta… Escutar Jesus pode curar-nos das nossas cegueiras seculares, dos preconceitos que nos impedem de acolher a novidade de Deus, dos medos que nos paralisam; escutar Jesus pode libertar-nos de desalentos e cobardias, e abrir o nosso coração à esperança. A escuta de Jesus está no centro da nossa experiência de fé? Nas nossas comunidades cristãs damos espaço suficiente à escuta de Jesus?
- O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?
- É verdade que, para muitos dos nossos contemporâneos, o caminho proposto por Jesus não parece muito entusiasmante… Não assegura bem-estar, nem bens materiais, nem triunfos, nem reconhecimento, nem fama, nem poder, nem tranquilidade, nem qualquer outro valor que muitos dos homens e mulheres do nosso tempo consideram fundamentais para que as suas vidas tenham algum sentido. Contudo, nós, discípulos de Jesus, acreditamos que só o amor – o amor vivido como serviço, como dom de si próprio, ao estilo de Jesus – dá sentido à vida; acreditamos que a construção de um mundo novo – mais humano, mais são, mais verdadeiro – depende de acolhermos e vivermos as propostas de Jesus. O que poderemos fazer para contagiar os nossos irmãos e irmãs com o nosso entusiasmo por Jesus e pelo seu projeto de um mundo novo?
- Pedro, Tiago e João, testemunhas da transfiguração de Jesus, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e de enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Propõem fazer três tendas e ficar no cimo daquele monte, onde tudo parece tão fácil e tão indolor. Representam aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga-nos a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens, mesmo contra a corrente, que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. O nosso compromisso com Jesus e com a construção do Reino de Deus concretiza-se na luta diária pela construção de um mundo mais justo, mais humano, mais cheio de amor? in Dehonianos.
Para os leitores:
A brevidade da primeira leitura não deve fazer descurar a sua preparação com uma atenção especial aos verbos no futuro que constituem a promessa de Deus a Abraão. Mais do que uma ordem, os verbos no imperativo constituem uma proposta que Deus faz a Abraão.
A segunda leitura, tal como é habitual no epistolário Paulino, apresenta frases longas que requerem uma especial atenção nas pausas e respirações.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 (Génesis 12, 1-4a)
- Leitura II do Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 (2 Timóteo 1, 8b-10)
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – Lecionário
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – Oração Universal
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026
- Mensagem de SS Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026

Viver a Palavra
A liberdade é o maior [dom]. Deus cria o homem livre e respeita-lhe a liberdade. Chama feliz àquele que pode fazer o mal e não o faz; ao que pode transgredir e não transgride» (Venerável Padre Américo Aguiar). A verdadeira liberdade, como afirma o Pai Américo, nasce da exigente tarefa de discernir, optar e decidir pelo caminho do bem, da verdade e da justiça. Ninguém é livre pelo caminho da mentira, pois o mal escraviza-nos e impede-nos de experimentar a verdadeira realização e felicidade.
Fomos criados pelo amor misericordioso de Deus, que nos formou do pó da terra e nos moldou com as Suas mãos, soprou em nós o Seu hálito de ternura e de bondade, para que possamos participar da Sua vida divina. Como recordamos na celebração de Quarta-Feira de Cinzas com que damos início ao Tempo da Quaresma, somos pó da terra, criatura frágil e débil, mas pó amado por Deus e sustentado pelas Suas mãos ternurentas que não cessam de moldar a nossa vida. Contudo, Deus não se impõe, mas tudo propõe.
Deus quer-nos verdadeiramente livres e, para isso, dota-nos de liberdade para podermos escolher o caminho a seguir, mas adverte-nos diante do perigo como fez com Adão e Eva: «podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem lhe tocar, senão morrereis». Apesar da indicação dada por Deus, cabe ao homem e à mulher decidir se comerão ou não do fruto da árvore que está no meio do jardim. Na verdade, discernir e decidir são experiências humanas exigentes, mas absolutamente necessárias para uma vida mais feliz. Ao longo do nosso caminho são muitas as ocasiões onde temos de tomar decisões e nem sempre entre algo bom e algo mau, pois se assim fosse, aparentemente pareceria mais fácil. Decidir significa tomar uma opção, arriscar um caminho e renunciar, deixando algo para trás.
À luz do Evangelho deste Domingo, diríamos que somos permanentemente expostos à tentação, que implica uma decisão pronta e ousada, capaz de romper com o mal que nos afasta de Deus e dos irmãos. Tal como Jesus, também nós somos tentados, mas conscientes que é o Espírito Santo que nos conduz aos desertos exigentes e dramáticos da história: será Ele a iluminar o caminho que somos chamados a trilhar. As tentações são uma ocasião fundamental na nossa vida, pois são a oportunidade de voltar a escolher Deus e o Seu infinito amor. Três vezes tentado pelo diabo, por três vezes Jesus renova a Sua fidelidade ao Pai. Ser tentado é ser colocado à prova exigente de voltar a escolher Deus, de renovar o nosso desejo de O seguir, sustentados pela Sua Palavra.
É certo que pela nossa fragilidade muitas vezes nos afastamos do projeto que Deus tem para nós e diante de escolhas exigentes optamos pelo mal e pelo que divide. Contudo, este não é um caminho sem saída, pois «se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».
Tempo de Quaresma é tempo de conversão, tempo de transformação do coração, uma oportunidade para voltar a escolher Deus e o Seu amor. Que ao longo deste tempo, a leitura frequente e atenta da Palavra de Deus nos ajude a recentrar a vida, a estabelecer prioridades e a descobrir a verdadeira felicidade, que se experimenta pelo amor recebido e oferecido, pela prática da misericórdia e do perdão. in Voz Portucalense.
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O Diretório litúrgico recorda que se deve «lembrar aos fiéis que, em união com a Paixão do Senhor e em espírito de penitência mais visível, nas sextas-feiras da Quaresma se deve escolher uma alimentação simples e pobre, que poderá concretizar-se na abstenção de carne. Lembrar-lhes também a finalidade das Renúncias Quaresmais deste ano, proposta pelo Bispo da Diocese». Além disso, deve também recordar-se as atitudes fundamentais características deste tempo da Quaresma – jejum, oração e esmola – que ajudam a promover o espírito de verdadeira conversão. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Génesis 2,7-9;3,1-7
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra,
insuflou em suas narinas um sopro de vida,
e o homem tornou-se um ser vivo.
Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente,
e nele colocou o homem que tinha formado.
Fez nascer na terra toda a espécie de árvores,
de frutos agradáveis à vista e bons para comer,
entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim,
e a árvore da ciência do bem e do mal.
Ora, a serpente era o mais astucioso
de todos os animais do campo
que o Senhor Deus tinha feito.
Ela disse à mulher:
«É verdade que Deus vos disse:
“Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do Jardim”?»
A mulher respondeu:
«Podemos comer o fruto das árvores do jardim;
mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus avisou-nos:
“Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis”».
A serpente replicou à mulher:
«De maneira nenhuma! Não morrereis.
Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes,
abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses,
ficando a conhecer o bem e o mal».
A mulher viu então que o fruto da árvore
era bom para comer e agradável à vista,
e precioso para esclarecer a inteligência.
Colheu o fruto e comeu-o;
depois deu-o ao marido, que estava junto dela,
e ele também comeu.
Abriram-se então os seus olhos
e compreenderam que estavam despidos.
Por isso, entrelaçaram folhas de figueira
e cingiram os rins com elas.
CONTEXTO
O texto de Gn 2,4b-3,24 – conhecido como relato “javista” da criação – é um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. É “javista” porque utiliza o nome “Javé” para referir Deus. Apresenta-se num estilo exuberante, pitoresco, cheio de vida e parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes. Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem realista e factual de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Deus. Trata-se, portanto, de uma página de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens do mundo e da vida.
Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os teólogos javistas utilizaram elementos simbólicos e literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Por outras palavras: a linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são significativamente diferentes: mais maduras, mais ponderadas, mais profundas, mais consistentes.
A liturgia selecionou dois quadros do relato javista da criação para no-los propor, neste domingo, como primeira leitura. O primeiro quadro oferece-nos uma catequese sobre a origem do homem e o desígnio de Deus para o homem (cf. Gn 2,7-9); no segundo quadro, o autor javista propõe-nos uma reflexão sobre a origem desse mal que desfeia o mundo e traz sofrimento e morte à história dos homens (cf. Gn 3,1-7). in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia?
- Como é que concretizamos essa vocação à felicidade que está inscrita no projeto que Deus tem para nós? De acordo com a mais genuína catequese de Israel, é obedecendo às indicações de Deus e vivendo de acordo com as suas propostas. Deus é um Pai bom, que nada nos impõe e que respeita sempre a nossa liberdade; mas insiste em mostrar-nos, a cada passo, o caminho para essa plenitude de vida que Ele sonhou para todos os seus queridos filhos. Quando aceitamos a nossa condição de criaturas, reconhecemos o amor de Deus e nos dispomos a acolher humildemente as indicações que Ele nos dá, construímos uma existência harmoniosa, um “paraíso” onde encontramos vida, harmonia, felicidade e plena realização. Como é que nos situamos diante de Deus? Na construção da nossa história de vida, a “voz” de Deus tem primazia sobre todas as outras vozes que ecoam à nossa volta? Vivemos atentos ao que Deus nos diz e caminhamos na direção que Ele nos indica?
- Ao longo do caminho que estamos a percorrer, tropeçamos a cada instante com o “mal”, nas suas mil e uma formas. É uma experiência que sempre nos desconcerta e que muitas vezes nos deixa revoltados. O mal será uma inevitabilidade? Esse mal que desfeia o mundo e que deixa feridas profundas na vida de tantas pessoas, vem de Deus ou vem do homem? A Palavra de Deus que escutamos neste domingo responde sem hesitações: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de ambição, de violência, de sofrimento, de pecado… Olhemos para o nosso mundo e para a história dos homens: a realidade que vemos não confirma tudo isso? Olhemos também para nós e para a nossa história pessoal: quais são os caminhos que escolhemos? As propostas de Deus fazem sentido e são, para nós, indicações seguras para a felicidade, ou preferimos ser nós próprios a fazer as escolhas que nos interessam, prescindindo das indicações de Deus? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 50 (51)
Refrão 1: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.
Refrão 2: Tende compaixão de nós, Senhor,
porque somos pecadores.
Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,
pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.
Lavai-me de toda a iniquidade
e purificai-me de todas as faltas.
Porque eu reconheço os meus pecados
e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.
Pequei contra Vós, só contra Vós,
e fiz o mal diante dos vossos olhos.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro
e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.
Não queirais repelir-me da vossa presença
e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.
Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso.
Abri, Senhor, os meus lábios
e a minha boca cantará o vosso louvor
LEITURA II – Romanos 5,12-19
Irmãos:
Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo
e pelo pecado a morte,
assim também a morte atingiu todos os homens,
porque todos pecaram.
De facto, até à Lei, existia o pecado no mundo.
Mas o pecado não é levado em conta, se não houver lei.
Entretanto, a morte reinou desde Adão até Moisés,
mesmo para aqueles que não tinham pecado
por uma transgressão à semelhança de Adão,
que é figura d’Aquele que havia de vir.
Mas o dom gratuito não é como a falta.
Se pelo pecado de um só pereceram muitos,
com muito mais razão a graça de Deus,
dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo,
se concedeu com abundância a muitos homens.
E esse dom não é como o pecado de um só:
o julgamento que resultou desse único pecado
levou à condenação,
ao passo que o dom gratuito, que veio depois de muitas faltas,
leva à justificação.
Se a morte reinou pelo pecado de um só homem,
com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância
a graça e o dom da justiça,
reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo.
Porque, assim como pelo pecado de um só,
veio para todos os homens a condenação,
assim também, pela obra de justiça de um só,
virá para todos a justificação que dá a vida.
De facto, como pela desobediência de um só homem,
muitos se tornaram pecadores,
assim também, pela obediência de um só,
muitos se tornarão justos.
CONTEXTO
O apóstolo Paulo não está ligado ao nascimento da comunidade cristã de Roma. Provavelmente, o cristianismo chegou a Roma levado por judeus palestinos convertidos ao Evangelho de Jesus. Uma antiga tradição diz que foi Pedro quem anunciou o Evangelho em Roma, por volta do ano 42, e que da sua pregação resultou uma florescente comunidade cristã. No entanto, não temos evidências que comprovem esta tradição.
Paulo escreveu a sua Carta aos Romanos por volta do ano 57 ou 58. Estava, por essa altura, prestes a terminar a sua terceira viagem missionária. Sentia que tinha concluído a sua missão no Mediterrâneo oriental, pois as igrejas que fundara e acompanhara nessas paragens estavam organizadas e já podiam caminhar por si próprias. O olhar de Paulo dirigia-se agora para ocidente. O apóstolo pensava passar por Roma, deter-se algum tempo nessa cidade e viajar depois para a Espanha para aí anunciar o Evangelho (cf. Rm 15,24-28).
Ao dirigir-se por carta aos cristãos de Roma, Paulo pretendia estabelecer laços com eles; mas também aproveitou a oportunidade para lhes apresentar os principais problemas que então o preocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade. Tratava-se de um problema que se sentia um pouco por todo o lado e que também inquietava a jovem comunidade cristã de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre cristãos de origem judaica e cristãos vindos do mundo greco-romano. Com serenidade e lucidez, evitando qualquer polémica, Paulo expôs aos cristãos de Roma as linhas mestras do Evangelho que anunciava. A Carta aos Romanos é uma espécie de resumo da teologia paulina e, do ponto de vista teológico, o escrito mais completo de Paulo.
Na primeira parte da Carta (cf. Rm 1,18-11,36), Paulo vai fazer notar aos cristãos divididos que o Evangelho é a força que congrega e que salva todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Embora o pecado seja uma realidade universal, que afeta todos os homens (cf. Rm 1,18-3,20), a “justiça de Deus” dá vida a todos, sem distinção (cf. Rm 3,1-5,11); e é em Jesus Cristo que essa vida se comunica e que transforma o homem (cf. Rm 5,12-8,39). Batizado em Cristo, o cristão morre para o pecado e nasce para uma vida nova. Passa a ser conduzido pelo Espírito e torna-se filho de Deus; libertado do pecado e da morte, produz frutos de santificação e caminha para a Vida eterna. Na segunda parte da carta (cf. Rm 12,1-15,13) Paulo, de uma forma bastante prática, exorta os cristãos a viverem de acordo com o Evangelho de Jesus.
O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rm 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos – judeus e não judeus – vivem imersos numa realidade que é a realidade do pecado (cf. Rm 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rm 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rm 5,12-8,39). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Disse-nos que aquilo que os crentes veem como “propostas de Deus” são apenas resquícios de uma época pré-científica, obscurantista, ultrapassada, e que a plenitude da vida está no corte radical com qualquer autoridade exterior à nossa Razão – inclusive com Deus. Exaltou o individualismo, o antropocentrismo, e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho, o nosso destino, o sentido da nossa vida. Contudo, o apóstolo Paulo diz-nos o que pode acontecer quando nos instalamos na autossuficiência e deixamos Deus à margem do nosso projeto de vida. Poderemos, como Adão, prescindir de Deus e construir a nossa vida sem Ele ou contra Ele? Onde nos tem conduzido esta cultura que insiste em ignorar Deus e as suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz e mais realizado, ou tem potenciado o aparecimento de homens desorientados e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados, mais frustrados, mais vazios, mais desencantados?
- Alguns acontecimentos que têm marcado o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem das propostas de Deus é uma história que caminha em direção a um desastre anunciado. Se escutássemos Deus, o nosso tempo conheceria as guerras que tingem de sangue os caminhos que percorremos? Se escutássemos Deus, teríamos tantos homens e mulheres sem voz e sem vez abandonados nas bermas dos caminhos que a humanidade percorre? Se escutássemos Deus estaríamos hoje a construir narrativas onde entram palavras como “genocídio”, “massacre”, “chacina”, “extermínio”, “horror”? Se escutássemos Deus, viveríamos num precário equilíbrio de terror e embarcaríamos numa estúpida corrida aos armamentos que ninguém sabe como vai terminar? Se escutássemos Deus, continuaríamos a destruir irresponsavelmente os recursos do planeta, pondo em causa a sobrevivência da humanidade? Qual é o nosso papel de crentes, em toda esta história? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da vida dos homens, as suas propostas sejam acolhidas e a história humana entre nos carris?
- Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 4,1-11
Naquele tempo,
Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,
a fim de ser tentado pelo Demónio.
Jejuou quarenta dias e quarenta noites
e, por fim, teve fome.
O tentador aproximou se e disse lhe:
«Se és Filho de Deus,
diz a estas pedras que se transformem em pães».
Jesus respondeu lhe:
«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».
Então o Demónio conduziu O à cidade santa,
levou O ao pináculo do templo e disse Lhe:
«Se és Filho de Deus, lança Te daqui abaixo, pois está escrito:
‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra’».
Respondeu lhe Jesus:
«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».
De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto,
mostrou Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória,
e disse Lhe:
«Tudo isto Te darei,
se, prostrado, me adorares».
Respondeu lhe Jesus:
«Vai te, Satanás, porque esta escrito:
‘Adoraras o Senhor teu Deus e só a Ele prestaras culto’».
Então o Demónio deixou O
e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.
CONTEXTO
Nos Evangelhos Sinópticos, a cena das “tentações de Jesus” está encaixada entre o episódio do batismo e o início da pregação do Reino de Deus (cf. Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).
No batismo Jesus, o “Filho muito amado” de Deus”, é ungido pelo Espírito, como os profetas (cf. Mt 3,16). No mundo bíblico, a unção anda sempre associada a uma missão. Jesus tem consciência disso: quando o ungiu com o Espírito, o Pai estava a dizer-Lhe que contava com Ele para concretizar um projeto de salvação em favor dos homens.
Como é que Jesus se posiciona diante da missão que o Pai pretende confiar-Lhe? Como irá concretizá-la? Privilegiará os seus interesses pessoais, ou o projeto de Deus? O episódio das “tentações de Jesus” propõe-se responder a estas questões.
Trata-se de um episódio real, descrito de forma estritamente histórica, com um “diabo” a disputar a Jesus o centro do palco? Trata-se, fundamentalmente, de uma página de catequese. É muito provável que Jesus, após o seu batismo no rio Jordão, se tenha internado no deserto de Judá e passado alguns dias a meditar sobre a missão que Deus queria confiar-lhe. Nesse tempo de “retiro”, Jesus confrontou-se com uma luta interior, com opções fundamentais, com a definição do seu projeto de vida. É natural também que, mais tarde, Jesus tenha falado com os seus discípulos sobre o que sentiu quando teve de escolher, a fim de que eles percebessem que, diante da proposta do Reino de Deus, também eles tinham de tomar decisões. Esse diálogo deve ter causado uma profunda impressão nos discípulos. O facto de o relato das “tentações de Jesus” ser conhecido desde o início nas comunidades cristãs primitivas mostra isso mesmo.
O episódio é situado “no deserto”. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”, onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono de Deus e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à tentação e dizer “não” ao projeto de Deus, como aconteceu com os israelitas alguns séculos antes?
As “tentações de Jesus” não são contadas da mesma forma por todos os Sinópticos. Marcos limita-se a referir que Jesus “foi tentado”, sem entrar em pormenores; as narrativas que Mateus e Lucas fazem das “tentações” de Jesus são muito semelhantes entre si, embora a segunda e a terceira “tentação” apareçam, nos dois Evangelhos, em ordem diferente. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?
- Uma das “tentações” com que Jesus teve de se debater foi a dos bens materiais. É uma “tentação” que conhecemos bem, pois temos de lidar com ela a todos os instantes. Apelando à nossa apetência pelo conforto, pelo bem-estar, pela segurança, ela convida-nos a acumular coisas, a priorizar o dinheiro, a fazer dos bens materiais o grande objetivo da nossa vida. É, no entanto, uma “tentação” que pode desvirtuar completamente o sentido da nossa existência: cria dependência, torna-nos escravos dos bens materiais, faz-nos correr atrás de coisas efémeras; fecha-nos à partilha, à solidariedade, à fraternidade; potencia a indiferença face às necessidades dos nossos irmãos; incita-nos a apostar em mecanismos de exploração e de lucro… Qual o lugar e o papel que os bens materiais assumem na nossa vida? A forma como lidamos com os bens materiais é sadia e equilibrada?
- Outra das “tentações” que se atravessou no caminho de Jesus foi a de utilizar Deus para obter o reconhecimento, os aplausos, o apreço, a consideração dos homens. Não é uma “tentação” tão incomum como parece à primeira vista. Esta “tentação” pode fazer-nos pensar na utilização da fé para obter benefícios pessoais, para construir uma “carreira” de sucesso, para conquistar reputação, renome ou prestígio; pode fazer-nos pensar na utilização da religião para obter privilégios, títulos ou honrarias; pode fazer-nos pensar nas “exigências” que fazemos a Deus para que Ele nos conceda os favores a que julgamos ter direito… E pode, por outro lado, fazer-nos pensar nas cedências que algumas pessoas estão dispostas a fazer, às vezes à custa da própria dignidade, para obter uns minutos de fama e de notoriedade… O reconhecimento, a fama, os aplausos, os privilégios, serão bens pelos quais vale a pena pagar qualquer preço?
- A terceira das “tentações” que Jesus teve de enfrentar foi a do poder, da glória, dos triunfos humanos. Jesus considerava que a vontade de subjugar os outros, de deter autoridade ilimitada, de dominar o mundo, é algo de diabólico, que pode fazer o homem perder a sua grande referência – Deus. Está na base do orgulho e da autossuficiência que fecham o homem no seu ghetto pessoal; leva o homem a querer libertar-se do “controle” de Deus e a virar as costas a Deus; desenvolve no homem “tiques” de autoritarismo, de intolerância, de prepotência que causam feridas irreparáveis no mundo; favorece o abuso dos mais fracos, dos mais pequenos; promove mecanismos de escravidão, de exploração, de crispação social; fomenta guerras, violências, imperialismos; constrói muros de inimizade que separam as pessoas e que as impedem de viver em harmonia… Esta “tentação” é problema para nós? Como é que nós tratamos aqueles com quem partilhamos o caminho da vida: com sobranceria e arrogância, ou com humildade, respeito e amor?
- Nós somos humanos e frágeis. Vivemos mergulhados numa realidade de pecado, que nos condiciona e nos arrasta para opções discutíveis. Será possível vencermos essas “tentações” que continuamente aparecem no caminho da nossa vida? Jesus venceu-as. Ele nunca aceitou que a sua vida fosse conduzida pelo meio de equívocos e de facilitismos. Escolheu, uma e outra e outra vez não se afastar do projeto do Pai. Podemos dizer que não temos a mesma força de Jesus. Pode ser verdade. Mas Ele vai à nossa frente a apontar-nos o caminho e a dizer-nos que é possível dizer “não”, uma e outra e outra vez, às propostas que nos levam por caminhos onde não há vida verdadeira. Estamos dispostos a tentar sem desculpas e sem justificações, seguir o exemplo de Jesus? in Dehonianos.
Para os leitores
Na preparação da primeira leitura deve ter-se em atenção a presença do discurso direto com frases interrogativas. A leitura de uma frase interrogativa deve fazer-se acentuando a partícula interrogativa ou o verbo presente na frase e não acentuando apenas o final da frase.
A segunda leitura, tal como já nos habituamos no epistolário Paulino, devido às frases longas com diversas orações, requer uma acurada preparação na articulação do texto, assinalando as pausas e respirações.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026 (Génesis 2, 7-9_ 3, 1-7)
- Conclusão da leitura I do Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026
- Leitura II do Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026 (Romanos 5, 12.17-19)
- Conclusão da Leitura II do Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026
- Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026 – Lecionário
- Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026 – Oração Universal
- Domingo I do Tempo da Quaresma – Ano A – 22.02.2026 – refletindo
- Mensagem de SS Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026
- Quaresma
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026

Viver a Palavra
Sobre o Monte, Jesus continua a falar ao coração dos Seus discípulos, apresentando as coordenadas fundamentais para O seguir e para colaborar na missão de estabelecer no mundo o Reino de Deus. Ser feliz, ser bem-aventurado, é partir na aventura de subir ao Monte com Jesus. É abraçar o desafio de caminhar rumo à medida alta da santidade. É ser luz e sal para que no mundo possa ecoar a mais bela melodia do amor e, assim, contemplando as nossas boas obras, cada homem e cada mulher eleve o seu olhar para Aquele que é a fonte de todo o amor.
Subir ao monte é uma experiência humana verdadeiramente marcante não só pela possibilidade de contemplar o mundo e a natureza de um modo novo, mas também porque exige esforço e determinação para atingir a meta. Sabemos como os nossos antepassados, desde os cultos mais primitivos até às capelas e santuários cristãos, escolheram o cimo do monte como lugar privilegiado para o encontro com Deus. Subir para descer, chegar mais alto para trilhar melhor os caminhos cá em baixo, aproximar-se de Deus para melhor nos aproximarmos dos irmãos. É esta a nova lógica do Reino que Jesus faz ecoar sobre o monte e que nos aponta a radicalidade do Seu Evangelho.
Jesus apresenta a novidade da sua mensagem, levando à plenitude a lei que outrora também sobre o monte foi dada ao povo por meio de Moisés. Esta lei nova, que Jesus não vem revogar, mas completar, deve ser inscrita não em tábuas de pedra, mas no coração dócil de cada homem e cada mulher. Esta é uma proposta livre que reclama do nosso coração uma adesão consciente e determinada: «se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade. Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares». Seguir Jesus Cristo, acolhendo a radicalidade do Seu Evangelho é um caminho de verdadeira liberdade e, por isso, tão exigente. Livremente eu aceito não viver uma lei de mínimos, livremente eu desejo ser mais e melhor a partir do amor de Jesus, livremente eu acolho o desafio de viver a permanente tensão entre aquilo que sou e aquilo que o Senhor me chama a ser.
Viver com radicalidade o que Jesus nos propõe no Evangelho deste Domingo pode ser frustrante e até desanimador e podemos até ser tentados a afirmar que esta proposta está para lá das nossas capacidades humanas. Na verdade, sozinhos nunca seremos capazes, mas conscientes de que Aquele que nos aponta o caminho também caminha connosco, poderemos avançar com renovada esperança e revigorada confiança. A exigência do caminho e a medida alta que está colocada diante de nós são a garantia de que estaremos permanentemente a caminhar, numa atitude de permanente conversão, superando os nossos limites, vencendo as nossas fragilidades e acolhendo o convite de Jesus para que a nossa linguagem seja sempre marcada pela determinação de quem sabe dizer sim ao amor e não a tudo o que nos afasta dele.
«Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos». Estas palavras estão entre as mais radicais do Evangelho, mas são também as mais humanas, porque nos indicam o caminho da verdadeira felicidade, a possibilidade de viver de modo novo a relação com os outros e realizar no tempo e na história o Reino de Deus que haveremos de experimentar em plenitude no Céu.in Voz Portucalense.
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No dia 14 de fevereiro, comemora-se o Dia dos Namorados. A Pastoral Familiar da paróquia pode convidar os namorados a participar de modo especial na celebração deste Domingo ou noutro momento considerado mais oportuno e valorizar-se a sua presença com uma oração rezada em conjunto ou uma especial bênção para os namorados/noivos. Recordo que a Exortação Amoris Laetitia convida «as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos» (AL 207). Além disso, este momento torna-se uma oportunidade para os casais de namorados cristãos olharem o tempo de namoro como tempo feliz de preparação para o sacramento do matrimónio num caminho comunitário. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Ben Sirá (Eclesiástico)15, 16-21 (15-20)
Se quiseres, guardarás os mandamentos:
ser-lhe fiel depende da tua vontade.
Deus pôs diante de ti o fogo e a água:
estenderás a mão para o que desejares.
Diante do homem estão a vida e a morte:
o que ele escolher, isso lhe será dado.
Porque é grande a sabedoria do Senhor,
Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas.
Seus olhos estão sobre aqueles que O temem,
Ele conhece todas as coisas do homem.
Não mandou a ninguém fazer o mal,
nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.
CONTEXTO
O Livro de Ben Sirá (chamado, na sua versão grega, “Eclesiástico”) é um livro de carácter sapiencial que, como todos os livros sapienciais, tem por objetivo deixar aos aspirantes a “sábios” indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz. O seu autor terá sido um tal Jesus Ben Sirá, um “sábio” israelita que viveu na primeira metade do séc. II a.C. (cf. Sir 51,30).
A época de Jesus Ben Sirá é uma época conturbada para o Povo de Deus. Quando Alexandre da Macedónia morreu, em 323 a.C., o seu império foi dividido por duas famílias: os Ptolomeus e os Selêucidas. Inicialmente, a Palestina ficou nas mãos dos Ptolomeus; e, nos anos de domínio Ptolomeu, o Povo de Deus pôde, em geral, viver na fidelidade à sua fé e aos seus valores ancestrais. Em 198 a.C., contudo, depois da batalha de Pânias, a Palestina passou para o domínio dos Selêucidas (uma família descendente de Seleuco Nicanor, general de Alexandre). Os Selêucidas, sobretudo com Antíoco IV Epífanes, procuraram impor, por vezes pela força, a cultura helénica. Nesse contexto muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam os valores tradicionais e a fé dos pais e assumiam comportamentos mais consentâneos com a “modernidade” e com a pressão exercida pelas autoridades selêucidas. A identidade cultural e religiosa do Povo de Deus corria, assim, sérios riscos… Jesus Ben Sirá, um “sábio” judeu apegado às tradições dos seus antepassados, entendeu desenvolver uma reflexão que ajudasse os seus concidadãos a manterem-se fiéis aos valores tradicionais. No livro que escreveu para esse efeito, Jesus Ben Sira apresenta uma síntese da religião tradicional e da “sabedoria” de Israel e procura demonstrar que é no respeito pela sua fé, pelos seus valores, pela sua identidade que os judeus podem descobrir o caminho seguro para serem um povo livre e feliz.
Nos capítulos 14 e 15 do seu livro, Jesus Ben Sira reflete sobre a forma de encontrar a verdadeira felicidade. É nesse enquadramento que a primeira leitura deste domingo nos propõe: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira sabedoria e convida-os a percorrê-lo. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- É verdade que não nascemos todos iguais. Desde o primeiro instante da nossa existência o nosso caminho está marcado por fatores hereditários, pelo contexto familiar e social, pela condição económica e por outras variantes que irão ter influência no nosso desenvolvimento e no nosso enquadramento no mundo. Mas, apesar dessa “bagagem” que transportamos desde a nossa entrada no mundo, há uma realidade incontornável: nascemos livres e somos responsáveis pelo nosso destino. Jean Paul Sartre falava de sermos seres “condenados” à liberdade pois, embora não tenhamos escolhido nascer, a partir do momento em que somos lançados no mundo, tornamo-nos inteiramente responsáveis por todas as nossas escolhas e ações. A reflexão do sábio Ben Sirá que a primeira leitura deste domingo nos apresenta lembra-nos isso. “Condenados” à liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, das “ordens” dos influenciadores, dos interesses que nos governam? Demitimo-nos da nossa responsabilidade na definição do caminho que percorremos e aceitamos que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?
- Entre as escolhas possíveis está, segundo Jesus Ben Sirá, um caminho que conduz à vida. De acordo com a catequese de Israel, encontra-se “vida” cumprindo a Lei dada por Deus. O caminho que conduz à vida e à felicidade é, portanto, o caminho que está balizado pelos mandamentos de Deus. Percorrer esse caminho implica confiar em Deus, acreditar que o seu interesse supremo é o bem dos seus queridos filhos. Quando um crente está certo da bondade e do amor de Deus, então não hesita em viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das propostas de Deus, numa obediência radical a Deus. As indicações de Deus não lhe soam como uma imposição de um Deus exigente, mas sim como os conselhos amorosos de um Pai que só quer o bem dos seus filhos. Estamos interessados em escolher o caminho que conduz à vida? Que importância damos, na definição das nossas prioridades e dos nossos valores fundamentais, aos mandamentos e às propostas de Deus?
- De acordo com Ben Sirá, há uma outra escolha possível: o caminho que conduz à morte. É o caminho perigoso seguido por aqueles que escolhem o egoísmo, a autossuficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Fechando-se em si próprio e ignorando deliberadamente as propostas de Deus, o homem acaba por privilegiar os seus interesses egoístas e por introduzir no mundo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, violência e morte. Vemos isso acontecer todos os dias à nossa volta. De onde vêm as guerras, as divisões, os conflitos que todos os dias ameaçam a vida de tantos homens e mulheres inocentes? De onde vêm a ganância, a corrupção, a exploração dos mais fracos, os mecanismos de injustiça que roubam a vida e a dignidade a tantas pessoas? De onde vem a ganância que leva os poderosos a pilharem a natureza e a guardarem, para benefício próprio os recursos que pertencem a todos? O que será ainda necessário acontecer para percebermos que ignorar as indicações de Deus é um caminho que nos arrasta, inevitavelmente, em direção a um beco sem saída?
- De onde vêm os males que sombreiam o caminho e a história dos homens? Resultarão da negligência de um Deus que “não quer saber” dos seus filhos? Serão castigos de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos inadequados? O problema do mal é complexo e não tem respostas simples. No entanto, a reflexão de Ben Sirá deixa-nos, desde logo, uma certeza: muitos dos males que desfeiam o mundo e que causam sofrimento aos homens provêm das escolhas erradas que fazemos. Deus não castiga, nem “inventa” males para nos travar; mas as nossas opções sem sentido podem resultar em dor e infelicidade para nós e para todos aqueles que caminham ao nosso lado. Se, no exercício da nossa liberdade, escolhermos ignorar as indicações de Deus e avançar por caminhos sem sentido, poderemos atribuir a Deus as culpas pelo dano que isso nos traz? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)
Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.
Felizes os que seguem o caminho perfeito
e andam na lei do Senhor.
Felizes os que observam as suas ordens
e O procuram de todo o coração.
Promulgastes os vossos preceitos
para se cumprirem fielmente.
Oxalá meus caminhos sejam firmes
na observância dos vossos decretos.
Fazei bem ao vosso servo:
viverei e cumprirei a vossa palavra.
Abri, Senhor, os meus olhos
para ver as maravilhas da vossa Lei.
Ensinai-me, Senhor, o caminho dos vossos decretos
para ser fiel até ao fim.
Dai-me entendimento para guardar a vossa lei
e para a cumprir de todo o coração.
LEITURA II – 1 Coríntios 2, 6-10
Irmãos:
Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos,
mas de uma sabedoria que não é deste mundo,
nem dos príncipes deste mundo,
que vão ser destruídos.
Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,
que já antes dos séculos
Deus tinha destinado para a nossa glória.
Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu;
porque se a tivessem conhecido,
não teriam crucificado o Senhor da glória.
Mas, como está escrito,
«nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram,
nem jamais passou pelo pensamento do homem
o que Deus preparou para aqueles que O amam».
Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo,
porque o Espírito Santo penetra todas as coisas,
até o que há de mais profundo em Deus.
CONTEXTO
Corinto, capital da Província romana da Acaia, era uma cidade nova e muito próspera. Abrigava vários templos importantes, como o famoso templo de Apolo e o templo de Afrodite no topo da Acrópole, onde se praticava a prostituição sagrada. Disfrutando de uma localização geográfica vantajosa, entre o Mar Egeu e o Mar Jónico, tornou-se um centro comercial crucial para o transporte de mercadorias no Mediterrâneo. Servida por dois portos de mar (um que acolhia pessoas e mercadorias do ocidente e outro que recebia pessoas e mercadorias do oriente), possuía as características típicas das cidades marítimas: uma população de todas as raças e local onde estavam sediados todos os cultos e religiões. Além disso, Corinto era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Paulo passou pela primeira vez em Corinto durante a sua segunda viagem missionária (anos 50-52). Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).
Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), provavelmente quando estava em Éfeso. O apóstolo teve conhecimento de notícias que davam conta de problemas graves na comunidade de Corinto: divisões, conflitos e escândalos de vária índole. As divisões resultavam, em boa parte, do facto de os coríntios identificarem a experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Sendo assim, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido.
Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. O caminho cristão é a adesão a Cristo crucificado, o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.
Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar-lhes, de uma forma bem assertiva, a “sabedoria de Deus in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Assim, “à vista desarmada”, não parece incrível que Deus se tenha dado a tanto trabalho e a um planeamento tão bem arquitetado para nos oferecer – a nós, pequenos grãos de pó perdidos num universo infinito – a possibilidade de chegarmos à vida eterna? Pensando bem, só o amor explica esta “aposta” de Deus. Para Deus, talvez não sejamos apenas pequenos grãos de pó sem significado, mas filhos muito queridos que Ele criou com amor e que Ele continua a amar profundamente, apesar da nossa fragilidade. Por isso, Deus não desiste de “salvar-nos”, de cuidar de nós, de nos mostrar os caminhos que conduzem à vida, de nos inserir na sua família. Ele tem passado toda a história a fazer isso: a oferecer-nos a possibilidade de caminharmos ao encontro de uma vida plena. Até mesmo quando Lhe viramos as costas, O ignoramos, escolhemos caminhos de orgulho e de autossuficiência, Ele continua a amar-nos a mostrar-nos como podemos chegar à felicidade verdadeira. O que é que isso nos sugere? Como sentimos este grande amor, esse infinito amor que Deus nos dedica? Como é que respondemos ao amor de Deus?
- A “sabedoria humana” – que Paulo denuncia – não é necessariamente, à priori, algo mau. Só será algo mau se nos atirar para caminhos de orgulho, de vaidade, de autossuficiência. Ora, muitas vezes é precisamente isso que acontece. Convencidos da nossa importância e da excelência das nossas “qualidades”, julgamos que podemos bastar-nos a nós próprios. Afastamo-nos de Deus, ignoramos as suas propostas, construímos a nossa história de vida à volta dos nossos interesses, dos nossos motivos, das nossas convicções pessoais. Os “mandamentos” de Deus tornam-se, para nós, um empecilho que fazemos questão de ignorar. Achamos também que não precisamos dos outros. Tornamo-nos arrogantes com os nossos irmãos, desprezamo-los e fazemos com que o mundo gire apenas à nossa volta. Acabamos por nos encontrar em caminhos fechados, que não levam a lado nenhum. Não é aí que está a nossa salvação, não é dessa forma que chegaremos à realização plena, não é assim que daremos sentido à nossa vida. Como é que queremos viver? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 5,17-37
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas;
não vim revogar, mas completar.
Em verdade vos digo:
Antes que passem o céu e a terra,
não passará da Lei a mais pequena letra
ou o mais pequeno sinal,
sem que tudo se cumpra.
Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos,
por mais pequenos que sejam,
e ensinar assim aos homens,
será o menor no reino dos Céus.
Mas aquele que os praticar e ensinar
será grande no reino dos Céus.
Porque Eu vos digo:
Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus,
não entrareis no reino dos Céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que se irar contra o seu irmão
será submetido a julgamento.
Quem chamar imbecil a seu irmão
será submetido ao Sinédrio,
e quem lhe chamar louco
será submetido à geena de fogo.
Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar
e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti,
deixa lá a tua oferta diante do altar,
vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão
e vem depois apresentar a tua oferta.
Reconcilia-te com o teu adversário,
enquanto vais com ele a caminho,
não seja caso que te entregue ao juiz,
o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão.
Em verdade te digo:
Não sairás de lá, enquanto não pagares o último centavo.
Ouvistes que foi dito:
‘Não cometerás adultério’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a,
já cometeu adultério com ela no seu coração.
Se o teu olho é para ti ocasião de pecado,
arranca-o e lança-o para longe de ti,
pois é melhor perder-se um dos teus membros
do que todo o corpo ser lançado na geena.
E se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado,
corta-a e lança-a para longe de ti,
porque é melhor que se perca um dos teus membros,
do que todo o corpo ser lançado na geena.
Também foi dito:
‘Quem repudiar sua mulher dê-lhe certidão de repúdio’.
Eu, porém, digo-vos:
Todo aquele que repudiar sua mulher,
salvo em caso de união ilegal,
fá-la cometer adultério.
Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Não faltarás ao que tiveres jurado,
mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’.
Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum:
nem pelo Céu, que é o trono de Deus;
nem pela terra, que é o escabelo dos seus pés;
nem por Jerusalém, que é a cidade do grande Rei.
Também não jures pela tua cabeça,
porque não podes fazer branco ou preto um só cabelo.
A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’.
O que passa disto vem do Maligno».
CONTEXTO
O evangelista Mateus leva-nos hoje, outra vez, até ao cimo de uma montanha da Galileia, onde Jesus pronuncia, diante dos seus discípulos, o famoso “sermão da montanha” (a tradição cristã identifica essa montanha com um pequeno monte com 150 metros de altura, situado a noroeste de Cafarnaum, junto do Mar da Galileia, designado em hebraico como Har HaOsher). É o primeiro de cinco discursos de Jesus que Mateus nos oferece (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25) e que, na perspetiva do evangelista, correspondem aos cinco livros da antiga Lei (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio), dada por Deus ao seu povo no Monte Sinai.
O “sermão da montanha (cf. Mt 5-7) reúne um importante conjunto de palavras (“ditos”) de Jesus onde Mateus vê as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista considera que as palavras de Jesus no “sermão da montanha” propõem um novo código ético, uma Lei nova que supera e substitui a velha Lei do Sinai.
Depois de, no preâmbulo do “sermão da montanha”, nos ter apresentado as “bem-aventuranças” (cf. Mt 5,1-12) e a definição da missão dos discípulos (cf. Mt 5,13-15), Mateus entra no corpo central do discurso.
Se Jesus vem propor uma “nova Lei”, que será da Lei antiga, a Lei outrora dada por Deus ao seu povo no Sinai? Tratava-se, evidentemente, de uma questão que preocupava bastante a comunidade cristã de Mateus, oriunda maioritariamente do mundo judaico e que continuava apegada à Lei de Moisés. Como é que Jesus se situa face à antiga Lei? Veio aboli-la? Qual é a novidade que Ele traz? A antiga Lei poderá coexistir com a proposta de Jesus? in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- O “sermão da montanha” que Jesus um dia dirige aos discípulos no alto de um monte da Galileia tem por objetivo desafiá-los, fazê-los “ganhar altura”, evitar que eles fiquem atascados numa existência fútil e rasteira, levá-los a caminhar de rosto levantado e de olhos postos nas realidades eternas. Não se trata de evitar que eles sujem os pés e as mãos no pó dos caminhos, ou que reneguem essa fragilidade que é inerente à condição humana; trata-se de oferecer-lhes uma perspetiva elevada do sentido da existência, de forma que eles não se conformem com a mediocridade, as meias tintas, as convicções mornas, as coisas efémeras. Talvez devêssemos ler de vez em quando o “sermão da montanha” para não nos resignarmos à mediania e à banalidade, para não nos instalarmos numa existência cómoda, mas sem saída. Somos chamados por Deus à santidade, a um destino transcendente, a uma vocação sublime, a uma felicidade completa e eterna. Não podemos aceitar menos do que isso. Estamos disponíveis para aceitar o desafio de Jesus e para abraçar o dinamismo do Reino de Deus e da sua justiça? Estamos dispostos a “voar alto” e a encontrar um sentido pleno para a nossa existência?
- Quando Jesus sugere aos discípulos que não se deixem apanhar pela armadilha do legalismo, está precisamente a mostrar-lhes como podem libertar-se de uma existência rasteira para “voarem mais alto”. Podemos simplesmente cumprir leis – e assim sentirmo-nos em paz com a nossa consciência – mas sem que isso envolva o nosso coração e nos leve a uma existência comprometida com as exigências de Deus; podemos limitar-nos a executar a letra da Lei, mas a passar ao lado daquilo que é realmente decisivo na construção de um mundo segundo Deus. “Cumprir as leis” é cómodo e relativamente fácil; o que é difícil é assumir plenamente as indicações de Deus e fazer com que essas indicações definam o sentido da nossa existência em todas as suas vertentes. O verdadeiro crente é aquele que, não apenas cumpre uma determinada Lei escrita factual, mas procura escutar Deus a cada passo e deixar-se conduzir em tudo pela vontade de Deus. É isso que se passa na nossa vida? Os “mandamentos” de Deus são, para nós, simples leis que olhamos de esguelha e que nos sentimos obrigados a cumprir, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que nos ajudam a “voar mais alto”, a potenciar a nossa relação com Deus, a avançar no caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para nós, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que fizemos por Deus?
- Vale a pena determo-nos no primeiro exemplo que Jesus dá: “não matar”. Jesus entende-o não apenas no sentido estrito da palavra “matar”, mas no sentido amplo de “privar alguém de vida”. No entendimento de Jesus, “não matar” equivale a evitar tudo aquilo que cause dano aos irmãos que caminham ao nosso lado. Estamos conscientes de que podemos “matar” com certas atitudes de egoísmo, de agressividade, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia, de má-língua, de palavras e gestos que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem-estar, as suas relações, a sua paz? Estamos conscientes de que brincar com a dignidade dos nossos irmãos, ofendê-los, envergonhá-los, humilhá-los, inventar caminhos tortuosos para os desacreditar ou desmoralizar, julgá-los e condená-los na praça pública, é subverter gravemente a harmonia que Deus quer que reine entre os seus filhos? Estamos conscientes de que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem está caído e abandonado na berma da estrada da vida, recusar um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, de compreensão, é destruir a vida que Deus quer para todos os seus filhos?
- Jesus diz aos discípulos, no “Sermão da montanha”: “Não jureis em caso algum… A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’”. Também aqui há uma indicação que aponta a “levantar a vida”, a subir a um patamar mais elevado. É um convite a viver na verdade, na sinceridade, na total claridade; é um convite a recusar a mentira, os enganos, as meias-verdades, as “chico-espertices” de quem apenas pensa em triunfar a qualquer custo. Sentimos que temos um compromisso inquebrantável com a verdade, com a limpidez, com a honestidade? O nosso modo de estar na vida reflete a verdade, a lealdade e a fidelidade de Deus?
- Jesus pede aos seus discípulos que, se estiverem diante do altar para prestar culto a Deus, mas se recordarem que estão em conflito com algum irmão, procurem primeiro reconciliar-se com o irmão com quem estão desavindos; só depois fará sentido apresentarem-se diante de Deus. Tiramos disto as devidas consequências? O culto celebrado em estado “de guerra”, com o coração desassossegado, não agrada a Deus; a comunhão com Deus é incompatível com a ira, o conflito, a divisão, a recusa em abrir os braços para abraçar o irmão. Deus não consegue entender que nos apresentemos diante d’Ele para lhe manifestarmos o nosso amor e, simultaneamente, vivamos em conflito com os outros seus filhos. Na nossa vida de fé, que lugar ocupa o amor aos irmãos? in Dehonianos.
Para os leitores
Na primeira leitura pede-se a atenção para a frase condicional que abre a leitura, bem como para as duas frases seguintes cuja dinâmica em jeito de proposta alternativa deve ser sublinhada na proclamação da leitura.
A segunda leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente, contudo pede-se o especial cuidado a ter nas cartas de Paulo na atenção às frases longas com diversas orações e uma preparação que ajude a estabelecer os lugares de pausa e paragem para uma melhor articulação da leitura.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026 (Ben-Sirá 15, 16-21 (15-20)
- Leitura II do Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026 (1Coríntios 2, 6-10)
- Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026 – Lecionário
- Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026 – Oração Universal
- Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 18.02.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 15.02.2026
- Mensagem do Papa Leão XIV para o 34º Dia Mundial do Doente
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026

Viver a Palavra
Como cristãos somos chamados a habitar o mundo em que vivemos, vencendo a globalização da indiferença, libertando-nos do nosso comodismo e testemunhando com ousadia a felicidade de viver com os olhos e o coração abertos sobre o mundo.
Dirigindo-se aos discípulos de outrora, Jesus interpela cada um de nós, discípulos de hoje, neste lugar e tempo concreto da história humana: «Vós sois o sal da terra! Vós sois a luz do mundo!». Jesus diz precisamente «vós sois» e não «vós deveis ser». Ser sal e ser luz fazem parte da nossa identidade cristã e devem moldar todo o nosso querer e agir. Bem sabemos que muitas vezes a nossa vida é insípida e opaca, mas no nosso coração Deus derramou o sal que transforma e dá sabor e a luz que dissipa as trevas e ilumina mesmo os recantos mais recônditos da nossa existência.
Somos chamados a ser sal que não perde a força e luz que não se esconde. Como discípulos missionários somos convocados para ser verdadeiros protagonistas na construção da civilização do amor, apontando sempre para Jesus Cristo, meta das nossas vidas e garante da eficácia da nossa missão, não obstante a nossa fragilidade e pecado. Como Paulo, diante da missão que nos é confiada, somos tentados a dizer: «apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras». Contudo, devemos fixar o nosso olhar e a nossa atenção na confiança que Jesus deposita em cada um de nós: Ele conhecendo a nossa fragilidade e debilidade não hesita em fazer de nós sal e luz e faz das nossas vidas lugares luminosos e saborosos para que no mundo se possa saborear a misericórdia e a ternura de Deus e se possa contemplar a luz terna e suave do Seu amor. Não tenhamos medo da nossa fragilidade, nem tampouco deixemos que ela nos paralise. Escutemos o Papa Francisco: «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (EG 49). Vencendo o comodismo, somos chamados a lançar-nos ao caminho, a ser sal e luz, a ser testemunhas criativas de que só o amor pode transformar o mundo num lugar melhor e mais feliz.
O sal é, antes de tudo, um elemento saído das águas do mar, respondendo ao luminoso apelo do sol. Assim, cada um de nós é chamado a ascender pela força atrativa da Luz divina. Mas como o sal que depois deve descer aos alimentos e dissolver-se neles para que discreta e humildemente possa dar sabor na medida certa e ajustada, também cada cristão é chamado a ser no mundo e para mundo um testemunho discreto, mas eficaz do amor e da ternura de Deus.
A luz permite ver a realidade e os outros de um modo novo e diferente. Só Jesus é a Luz do Mundo, mas convocados pela sua palavra, somos chamados a irradiar no tempo e na história a luz terna e suave do Seu amor. Mas gosto de imaginar o nosso ser luz como um rasto luminoso que não encandeia aqueles com quem nos cruzamos, mas que os conduz à fonte de toda a Luz que é Jesus Cristo. A primeira leitura que escutamos neste Domingo aponta de modo claro as condições necessárias para ser luz: abrir o nosso coração e a nossa vida aos que precisam de nós com gestos concretos de amor e misericórdia. Transportando na fragilidade do nosso barro o precioso tesouro que é «Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado», seremos um sinal saboroso e um rasto luminoso do amor de Deus, fazendo ecoar no tempo e na história a mais bela melodia da bondade e da ternura pela prática concreta e exigente das obras de misericórdia. in Voz Portucalense.
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Ser sal e ser luz define a essência do nosso ser cristão e impele-nos a uma abertura missionária que nos coloca em permanente estado de missão. Por isso, este domingo é uma oportunidade apara ajudar os fiéis a redescobrir a sua dignidade batismal e o convite à santidade que ela encerra, numa dinâmica missionária que alarga as fronteiras da comunidade. Contudo, esta ontologia missionária não poderá ser apenas um refrão inconsequente, mas é necessário que ela transforme o nosso coração e a nossa vida e nos faça testemunhar o evangelho pela fraternidade e comunhão que se tornam sal e luz para os homens e mulheres de hoje. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 58, 7-10
Eis o que diz o Senhor:
«Reparte o teu pão com o faminto,
dá pousada aos pobres sem abrigo,
leva roupa ao que não tem que vestir
e não voltes as costas ao teu semelhante.
Então a tua luz despontará como a aurora
e as tuas feridas não tardarão a sarar.
Preceder-te-á a tua justiça
e seguir-te-á a glória do Senhor.
Então, se chamares, o Senhor responderá,
se O invocares, dir-te-á: “Aqui estou”.
Se tirares do meio de ti a opressão,
os gestos de ameaça e as palavras ofensivas,
se deres do teu pão ao faminto
e matares a fome ao indigente,
a tua luz brilhará na escuridão
e a tua noite será como o meio-dia».
CONTEXTO
Nos capítulos 56 a 66 do livro de Isaías (o “Trito-Isaías”) temos uma coleção de textos, provavelmente de autores diversos, redigidos em Jerusalém na época pós-exílica. Os biblistas designam esta coleção com o nome geral de “Trito-Isaías”. O poema que a liturgia deste quinto domingo comum nos apresenta como primeira leitura pertence a essa coleção.
Em 538 a.C. o rei persa Ciro, depois de conquistar a Babilónia, autorizou os exilados judeus a regressar a Jerusalém. Alguns puseram-se imediatamente a caminho. Chegaram a Jerusalém cheios de entusiasmo; mas rapidamente ficaram desiludidos… A cidade estava destruída; o domínio persa recordava aos retornados que não eram livres. As profecias sobre a reconstrução de Jerusalém – que o Deutero-Isaías (cf. Is 40-55) tinha oferecido aos exilados quando ainda estavam na Babilónia – não se tinham concretizado. A intervenção definitiva de Deus para restabelecer as glórias passadas e para oferecer ao seu povo um futuro de vida abundante tardava em chegar.
No universo religioso de Jerusalém parece haver, por esta altura, uma forte tensão entre dois “partidos” ligados à vida cultual. De um lado, está o sacerdócio sadoquita (da linha de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que incluía sacerdotes recém-retornados do exílio na Babilónia, convencidos de que tinham sido provados e perdoados pelas suas faltas. Mantinham boas relações com o poder persa, estavam decididos a fazer valer os seus direitos e privilégios e pretendiam ser eles a definir as coordenadas do culto oficial. Do outro lado está o sacerdócio levítico, que incluía sacerdotes que se tinham mantido sempre em Jerusalém, presidindo à vida cultual da cidade durante os anos que tinha durado o Exílio. Tinham uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do texto que, neste domingo, nos é proposto como primeira leitura pertencem, provavelmente, a este último grupo.
O capítulo 58 – de onde é tirado o nosso texto – apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e o respeito pela santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).
A propósito do culto vazio e sem correspondência na vida aborda-se a questão do jejum (a raiz “jejuar” aparece sete vezes ao longo do capítulo). Como é que Deus vê a questão do jejum, uma das traves-mestras da vivência judaica da fé (cf. Ex 34,28; Lv 16,29.31; Jz 20,26; 2Sm 12,16-17; 1Rs 21,27; Esd 8,21; Est 4,16; Dn 9,3)? Qual é como é o jejum que agrada a Deus? in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- O que é que Deus pretende de nós? Qual o papel que Ele nos destina no seu plano salvador? A estas perguntas poderão ser dadas múltiplas respostas. Uma das mais belas e mais desafiantes aparece nas palavras do Trito-Isaías que escutamos hoje: Deus pretende que sejamos uma luz que brilha na noite do mundo e que aponta aos homens o caminho que leva à vida verdadeira. Sim, é uma boa resposta. Mas, como poderemos ser essa luz? Oferecendo a Deus rituais litúrgicos majestosos, que sejam expressão (mesmo que deslavada) da grandeza e da omnipotência de Deus? É oferecendo ao mundo o espetáculo de uma religião que se exprime em gestos e palavras carregados de história e de tradição, mas herméticos e incompreensíveis para os homens e mulheres que se movem à margem dos caminhos da fé? Ouçamos, outra vez, o Trito-Isaías: seremos luz de Deus no mundo se partilharmos o nosso pão com os famintos, se ficarmos do lado dos injustiçados, se cuidarmos daqueles que ninguém cuida, se formos testemunhas da misericórdia e da bondade de Deus junto daqueles que sofrem. Dessa forma, todos nos verão e todos entenderão o nosso testemunho. Como é que vemos tudo isto? Como vivemos e expressamos a fé que nos anima?
- A história atual do nosso mundo está a ser escrita no meio de infinitas sombras… A cada instante, a guerra e a violência semeiam a morte e desumanizam agressores e agredidos; a cada momento há homens e mulheres humildes e bons, que não fazem mal a ninguém, mas que veem as suas vidas destruídas pela prepotência, pela injustiça e pela arrogância dos poderosos; a cada passo multiplicam-se os sinais de indiferença para com os sofredores, os frágeis, os que não têm pão, os que não têm casa, os que são obrigados a procurar num país estranho um futuro viável; a cada hora são maiores as feridas que deixamos na natureza, explorada e saqueada pelo nosso egoísmo e pela nossa ganância; a cada instante há mais homens e mulheres que não encontram lugar à mesa onde a humanidade come e que são abandonados nas bermas dos caminhos… Talvez estas “sombras” existam porque nós nos entrincheiramos atrás das portas do nosso egoísmo e não cuidamos de ser luz que brilha no mundo. Em concreto, o que podemos fazer para que o nosso mundo se torne menos sombrio? O que é que Deus nos estará a pedir para fazer neste momento da história do mundo? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 111 (112)
Refrão 1: Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.
Refrão 2: Aleluia.
Brilha aos homens retos, como luz nas trevas,
o homem misericordioso, compassivo e justo.
Ditoso o homem que se compadece e empresta
e dispõe das suas coisas com justiça.
Este jamais será abalado;
o justo deixará memória eterna.
Ele não receia más notícias:
seu coração está firme, confiado no Senhor.
O seu coração é inabalável, nada teme;
reparte com largueza pelos pobres,
a sua generosidade permanece para sempre
e pode levantar a cabeça com altivez.
LEITURA II – 1 Coríntios 2, 1-5
Quando fui ter convosco, irmãos,
não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria
a anunciar-vos o mistério de Deus.
Pensei que, entre vós, não devia saber nada
senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.
Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor
e a tremer deveras.
A minha palavra e a minha pregação
não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana,
mas na poderosa manifestação do Espírito Santo,
para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana,
mas no poder de Deus.
CONTEXTO
Corinto, a capital da província romana da Acaia, era uma cidade cosmopolita e próspera, de população heterogénea. Na época neotestamentária, devia ter à volta de meio milhão de habitantes, dos quais dois terços eram escravos. Servida por dois portos de mar – um virado para ocidente, outro para oriente – era a cidade onde a cada momento desembarcavam marinheiros chegados de todos os portos do Mediterrâneo, ávidos de prazeres depois de semanas passadas no mar. Os mais diversos cultos religiosos estavam ali representados. Mas a grande referência religiosa de Corinto era Afrodite, a deusa do amor, da beleza, da sexualidade e da fertilidade, em cujo templo se praticava a prostituição sagrada.
Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Instalou-se na cidade e começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos há pouco chegado de Roma. Ao sábado Paulo frequentava a sinagoga e aí falava aos judeus sobre Jesus. No entanto, o apóstolo não tardou a entrar em choque com os líderes da comunidade judaica da cidade. Expulso da sinagoga (cf. At 18,6), Paulo decidiu dedicar-se à evangelização dos pagãos. O apóstolo permaneceu em Corinto cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52). Quando deixou a cidade, já havia em Corinto uma comunidade cristã numerosa e entusiasta.
Mesmo fisicamente afastado da comunidade, Paulo não perdeu o contacto com os seus queridos filhos de Corinto. Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes sobre a comunidade. Após a sua partida de Corinto, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Co 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias.
Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”. No entanto, como é que a salvação e a realização plena do homem podem manifestar-se nessa estranha história de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um maldito? Para demonstrar que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens e que Deus pode agir através da fraqueza humana, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: os cristãos que compõem a comunidade são gente pobre e débil, muitos deles na situação de escravos; mas, apesar disso, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo (cf. 1Co 1,26-31). No segundo (é precisamente esse exemplo que a segunda leitura deste domingo nos apresenta), Paulo refere o seu próprio caso. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Em meados do séc. I, os cristãos de Corinto procuravam encher de sentido as suas vidas correndo atrás daquilo a que o apóstolo Paulo chamava a “sabedoria do mundo”. Os belos discursos, os argumentos construídos com lógica inatacável, a fascínio dos sistemas filosóficos bem construídos seduziam-nos e mantinham-nos agarrados a valores perecíveis. Dois mil anos depois, ainda continuamos a funcionar numa lógica semelhante: colocamos a nossa esperança e a nossa segurança no progresso científico, nas conquistas da medicina, nos sistemas económicos, nas promessas dos políticos, nas ideologias, nos discursos sedutores dos manipuladores da opinião pública, até mesmo na publicidade que nos promete por preços módicos a realização de todos os nossos sonhos… Nada disso seria especialmente grave se não nos fechasse num mundo de autossuficiência que nos afasta de Deus e da salvação que Ele nos oferece. Onde é que a “sabedoria do mundo” nos leva? A prescindir de Deus e dos seus dons? A uma vida virada apenas para os valores efémeros? Conseguiremos dar pleno sentido à nossa vida e saciar a nossa sede de eternidade simplesmente correndo atrás da “sabedoria do mundo”?
- À “sabedoria do Mundo” Paulo contrapõe a “sabedoria de Deus”. A “sabedoria de Deus pode parecer algo de estranho e de incongruente à luz da nossa lógica humana; mas ela é, segundo o apóstolo Paulo, fonte de vida verdadeira e eterna. O que aconteceu com Jesus aponta exatamente nesse sentido: Ele aceitou prescindir das suas prerrogativas divinas, desceu até nós, assumiu a nossa humanidade, experimentou a nossa fragilidade, solidarizou-se connosco e partilhou as nossas dores, enfrentou corajosamente a injustiça e a maldade, foi condenado e sofreu uma morte maldita; mas, da Sua entrega brotou vida nova que inundou o mundo e transformou a história dos homens. Jesus mostrou-nos uma coisa que, mesmo depois de dois mil anos, ainda temos dificuldade em entender: o amor até às últimas consequências, o serviço aos outros, a vida “dada” até ao extremo, a renúncia a si próprio, são fonte de vida. Quem vive dessa forma não fracassa, não passa ao lado da vida, não é um vencido; quem vive dessa forma dá sentido pleno à sua existência. O que vale para nós a “sabedoria de Deus”? É a partir dela que construímos o nosso projeto de vida?
- O apóstolo Paulo – um homem limitado, que não possuía as qualidades humanas que os coríntios apreciavam nem o brilho arrebatador dos grandes “sedutores” de massas – é a prova provada de uma realidade mil vezes repetida na história da salvação: a força de Deus revela-se na fraqueza, na fragilidade, na pequenez. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes. Ele aproxima-se de nós em “pezinhos de lã”, sem nos assustar com a exibição da sua grandeza, e transforma o mundo e a história através de gente “improvável”, de gente que não figura entre os grandes do mundo. Estamos conscientes disto? Somos capazes de reconhecer a presença e a ação de Deus em tantas pessoas simples e bondosas que, sem darem nas vistas, iluminam o mundo e acrescentam humanidade à história dos homens? Uma vez conscientes do método de Deus para intervir na história dos homens, não percebemos como são ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de exibicionismo?
- Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem sempre ter presente que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Temos consciência de que, para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 5, 13-16
Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire,
mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».
CONTEXTO
Depois de nos dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confia (cf. Mt 4,12-18,35). No centro de tal missão está o anúncio de uma realidade a que Jesus chama o “Reino de Deus”. Esse anúncio é feito com palavras e com gestos.
As palavras de Jesus sobre o Reino de Deus ocupam um espaço bem significativo no Evangelho de Mateus. O evangelista agrupou a maior parte das palavras – ou “ditos” – de Jesus em cinco discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel recebeu na montanha do Sinai e guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).
O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.
Mateus situa este discurso de Jesus no cimo de um monte não identificado. Em qualquer caso, a indicação geográfica não é inocente: lembra-nos a montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus uma nova Lei; e essa Lei irá orientar a vida de todos os que se propõem fazer parte da comunidade do Reino de Deus.
O “sermão da montanha” começa com as “bem-aventuranças” – um elenco dos valores fundamentais que devem ser assumidos para todos os interessados em seguir Jesus e em integrar a comunidade do Reino de Deus (cf. Mt 5,1-12). Mas Jesus não se fica por aí: completa o exórdio do “sermão da montanha” com duas parábolas (ou “ditos”) que indicam a missão daqueles que estão dispostos a viver segundo o espírito das “bem-aventuranças”. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Para que vivemos, cinquenta, setenta, noventa, cem anos? Que marca deixamos no mundo e na memória daqueles que se cruzam connosco no caminho da vida? A nossa ação e intervenção tem vindo a acrescentar alguma coisa à história dos homens? O que é que determina o êxito ou o fracasso da nossa existência? A nossa realização passará apenas por viver o mais comodamente possível, com um mínimo de complicações, de aborrecimentos e de contrariedades? As coisas corriqueiras e fúteis, a mediocridade e a banalidade, as diversões e os bens materiais, os prazeres e as satisfações efémeras, os triunfos e os aplausos, bastarão para dar sentido à nossa vida e para saciar a nossa sede de felicidade? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos o seu chamamento e que nos apaixonamos pelo seu projeto, em que moldes construímos a nossa existência de forma que ela faça pleno sentido?
- Jesus convida os seus discípulos a serem “sal da terra”. É uma imagem expressiva e desafiante. O sal serve, sobretudo, para dar sabor aos alimentos. Vivemos num mundo cada vez mais insípido, onde tudo é feito à medida da nossa pressa (até mesmo a “comida de plástico”), do nosso comodismo, do nosso egoísmo, da nossa instalação, da nossa alienação, da nossa dificuldade em assumir compromissos exigentes. Buscamos uma existência indolor e evitamos tudo aquilo que exige sacrifício, renúncia, esforço, entrega, verdadeira dedicação. “Sermos sal” seria, neste contexto, não termos medo do que é difícil, estarmos disponíveis para servir e para “curar” as feridas dos irmãos magoados pelas vicissitudes da vida, envolvermo-nos sem medo na luta contra as injustiças, gastarmos tempo a cuidar daqueles que ninguém quer e que ninguém ama, semearmos bondade e compaixão na vida daqueles que são marginalizados e condenados pelas sociedades ou pelas igrejas, darmos testemunho da bondade e do amor de Deus em todos os lados onde a vida nos levar. Estamos disponíveis para “fazer a diferença”, como o sal faz quando se mistura com os alimentos e faz sobressair o seu sabor?
- Jesus também pediu aos seus discípulos que fossem “luz do mundo” e que brilhassem diante dos homens. Mais de dois mil anos depois, o pedido de Jesus continua a fazer sentido. Apesar de todas as nossas conquistas e de todos os nossos êxitos, são muitas as sombras que escurecem o mundo e que obrigam os homens a perderem-se em caminhos sem saída, a tropeçarem no medo e no desespero, a ficarem prisioneiros de frivolidades e bagatelas, a não acertarem com o sentido da existência, a permanecerem parados no erro, a caminharem às apalpadelas sem vislumbrar uma luz no fundo do túnel. Os seguidores de Jesus, iluminados pela luz que d’Ele brota e pela verdade do Evangelho, são chamados a dissipar, com as suas “boas obras”, as sombras que cobrem o mundo; são enviados por Jesus a apontar aos homens os caminhos luminosos que conduzem à vida verdadeira. Aceitamos o convite de Jesus para sermos testemunhas da luz? A luz de Deus brilha no mundo através das nossas boas obras?
- Durante muitos séculos vigorou um modelo de organização social e política conhecido como “regime de cristandade”: a filosofia e os valores do cristianismo permeavam e governavam todas as esferas da sociedade, incluindo as leis, as instituições, os costumes e as relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja exercia uma influência dominante, que ia além do domínio espiritual, moldando a totalidade da vida social e cultural. Entretanto, os tempos mudaram. Atualmente já não existe esse modelo. Os seguidores de Jesus estão mais diluídos na massa e têm menos visibilidade. Por outro lado, uma boa parte da sociedade parece menos interessada nos valores propostos por Jesus. Poderão ainda os discípulos de Jesus, neste novo cenário, serem “sal da terra” e “luz do mundo”? Jesus não hesitou em pedir isso ao seu pequeno grupo de discípulos quando eles eram um grupo ridiculamente insignificante no vasto e hostil império romano. Ele sabia que a força de Deus é capaz de se manifestar na fraqueza e na pequenez. Como nos sentimos quando somos chamados a dar testemunho de Jesus no meio dos nossos irmãos que seguem modelos diferentes dos nossos? Deixamo-nos dominar pelo desânimo, ou contagiamos os que nos rodeiam com a nossa paixão por Jesus?
- Para que o sal possa cumprir o seu papel, tem de ser misturado com os alimentos; para que uma luz possa iluminar “todos os que estão em casa”, não pode estar escondida debaixo do alqueire. Tudo isto parece-nos demasiado evidente. Mas temos sempre tirado daí as consequências que se impõem? Há entre nós quem, desagradado com a indiferença ou até mesmo a hostilidade do mundo, ache que a comunidade de Jesus deve fechar-se ao mundo, condenar o mundo e “cortar relações” com uma sociedade que não entende a proposta cristã. Poderemos ser “sal da terra” e “luz do mundo” fechados dentro das nossas igrejas ou dos espessos muros dos nossos conventos, limitados a atirar condenações lá para fora? Poderemos alhear-nos dos problemas e angústias, alegrias e esperanças dos homens, renunciando a contagiar o mundo com a proposta de Jesus? Uma Igreja que gasta todas as energias com os seus solenes rituais litúrgicos ou com a arrumação harmoniosa do calendário paroquial poderá dar sabor à vida moderna e oferecer aos homens a luz genuína do Evangelho?in Dehonianos.
Para os leitores
A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom exortativo que está presente em todo o texto. Na segunda parte do texto deve ter-se em atenção as diversas frases condicionais, aproveitando a expressividade que elas pretendem transmitir.
Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases mais longas e com diversas orações respeitando as pausas e respirações, articulando bem as diversas frases para uma clara compreensão do texto.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 (Isaías 58, 7-10)
- Leitura II do Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 ( 1 Coríntios 2, 1-5)
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – Lecionário
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – Oração Universal
- Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 08.02.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026

Viver a Palavra
Uma das imagens neotestamentárias que mais me impressiona é contemplar Jesus rodeado pelas multidões. Num contexto onde as notícias não tinham o suporte de comunicação que conhecemos hoje, ver como eram tantos os homens e mulheres que iam ao encontro de Jesus, diz-nos como a palavra e a ação de Jesus eram portadoras de uma força absolutamente transformadora. Com toda a certeza, naquelas imensas multidões estavam presentes as mais diversas motivações: os que se abeiravam movidos pela curiosidade dos milagres e feitos narrados, os doentes e fragilizados movidos pelo interesse nalguma cura ou milagre, os desanimados com tantas palavras banais que buscavam uma palavra de alento e de esperança doadora de sentido para a sua vida…. Tantos homens e mulheres, portadores de tão díspares motivações. Dois mil anos volvidos, integramos esta multidão de homens e mulheres que se colocam em torno de Jesus e, por isso, devemos também interrogar-nos quais são as motivações que invadem o nosso coração: porque quero seguir Jesus? O que me move a escutar a Sua palavra? Quais as motivações e interrogações que habitam o meu coração e me fazem ir ao encontro de Jesus e da comunidade?
Como as multidões de outrora colocamo-nos em torno de Jesus e Ele conduz-nos ao cimo do monte. O ensino de Jesus conduz-nos ao centro da vida cristã: as bem-aventuranças. A palavra de Jesus fala-nos da felicidade plena e verdadeira que exige atravessar o limiar da frágil condição humana: a pobreza, a humildade, as lágrimas, a fome e a sede, a necessidade da misericórdia, a exigente tarefa da construção da paz, a perseguição e o insulto.
As bem-aventuranças são o como afirmava o Papa Francisco: «o bilhete de identidade do cristão» e, por isso, continua o Santo Padre: «se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão?”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida. A palavra «feliz» ou «bem-aventurado» torna-se sinónimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (GE 63-64).
Jesus é o Bem-aventurado por excelência: é o pobre em Espírito que inaugura no tempo e na história o Reino dos Céus. Ele é Manso e Humilde de coração e, assim, o Seu coração torna-se uma escola onde queremos aprender em cada dia. Ele assume sobre si as nossas dores e angústias e chorando connosco enxuga as nossas lágrimas e anuncia o mistério da consolação. Ele que teve fome no deserto e sede no alto da Cruz sacia a nossa fome e sede e oferece o Seu Corpo como alimento e o Seu Sangue como bebida verdadeira. Ele é o rosto da misericórdia do Pai e faz-nos alcançar a misericórdia que o Seu coração cheio de amor e ternura distribui sobre cada um de nós. Ele é o puro de coração que pelo Sangue da Sua Cruz nos purifica de toda a imundice. Ele é o Príncipe da Paz que nos convida a viver como construtores da paz nova que o Seu amor veio trazer. Ele que foi perseguido, maltratado e insultado por amor do Reino dos Céus fortalece a nossa caminhada na exigente tarefa de ser testemunha do Seu amor.
Movidos pela proposta exigente das bem-aventuranças, reconhecemos como «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios», reconhecemos como a nossa pequenez e fraqueza só pode ser testemunho de graça e misericórdia, quando se deixa conduzir por Jesus até ao cimo do monte e, guiado pelas suas palavras, olha o mundo e a história com esse horizonte de plenitude que o amor de Deus oferece à nossa vida. in Voz Portucalense.
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O Evangelho deste Domingo propõe à nossa reflexão um texto absolutamente decisivo para a construção da nossa identidade cristã. Na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco oferece-nos uma belíssima meditação e interpelação acerca deste texto nos números 63 a 94. A leitura deste texto é um ótimo instrumento para o aprofundamento deste evangelho e pode ser um importante ponto de partida para um exercício de exame de consciência. Chamados à santidade, somos chamados ao caminho exigente das bem-aventuranças para que a nossa vida se conforme cada vez mais e melhor com a vontade de Deus. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Sofonias 2,3; 3,12-13
Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra,
que obedeceis aos seus mandamentos.
Procurai a justiça, procurai a humildade;
talvez encontreis proteção no dia da ira do Senhor.
Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde,
que buscará refúgio no nome do Senhor.
O resto de Israel não voltará a cometer injustiças,
não tornará a dizer mentiras,
nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora.
Por isso, terão pastagem e repouso,
sem ninguém que os perturbe.
CONTEXTO
Em 734 a.C. Acaz, rei de Judá, confrontado com a ameaça militar de uma coligação formada pelo rei de Damasco e pelo rei de Israel, pediu ajuda a Tiglat-Pileser III, rei da Assíria (cf. 2Rs 16,7). Tiglat Pileser III derrotou os dois aliados, pondo fim à ameaça contra Judá; mas, na sequência, o rei Acaz tornou-se vassalo da Assíria. Judá passou a girar na órbita política da Assíria e teve de abrir as portas às influências culturais e religiosas dos assírios (cf. 2Rs 16,10-18). Diversos costumes estranhos e cultos pagãos irromperam então em Jerusalém, pondo em causa a identidade nacional e minando a fidelidade do Povo a Javé. Essa situação manteve-se durante o longo reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), altura em que o próprio rei reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares ao deus Baal, ofereceu o seu filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem da deusa Astarte (cf. 2Rs 21,3-9). Paralelamente, continuavam a multiplicar-se as injustiças sociais, as arbitrariedades, as violências que danificavam o tecido social e que faziam sofrer os mais pobres. Tudo isto configurava uma grave violação da Aliança e colocava Judá fora da órbita de Deus: o povo vangloriava-se da relação especial que tinha com Javé, mas vivia completamente à margem dos mandamentos de Deus. Quando em 639 a.C. o rei Josias (639-609 a.C.) subiu ao trono, Judá estava a precisar urgentemente de uma profunda reforma política, social e religiosa. Josias, o novo rei, lançou-se a essa tarefa.
Sofonias começou o seu ministério profético por essa altura. É provável que, numa primeira fase da reforma religiosa empreendida por Josias, Sofonias tivesse sido o verdadeiro motor das mudanças que o rei pretendeu introduzir na vida da nação. Não sabemos quanto tempo durou o ministério de Sofonias. A maior parte dos biblistas prolongam-no até 625 a.C., aproximadamente.
A mensagem de Sofonias deve situar-se neste ambiente histórico. O profeta denuncia a idolatria cultual, as injustiças cometidas contra os mais pobres, o materialismo, a despreocupação religiosa, os abusos da autoridade… Consciente de que Javé não pode continuar a pactuar com o pecado de Judá, Sofonias deixa um aviso: se nada mudar, vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra (cf. Sf 1,2-2,3). Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiverem fiéis à Aliança.
O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar um castigo irrevogável, fruto da ira de Deus contra o seu povo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- Os profetas são a voz de Deus que ecoa no mundo. Eles trazem-nos o sonho de Deus para o mundo e para os homens. Escutá-los é, frequentemente, questionarmo-nos sobre a forma como temos distorcido o projeto de Deus. Andamos há muitos séculos a construir um mundo e uma história onde os que “contam”, os que têm visibilidade, os que toda a gente inveja e aplaude, os que conduzem os destinos dos povos são os “fortes”, os ricos, os poderosos, os que se impõem aos outros, os que têm sede de poder e de protagonismo… Contudo, o profeta Sofonias diz-nos hoje que Deus não se revê nas lógicas, nas atitudes e nos valores dos ricos, dos orgulhosos, dos prepotentes, dos que dominam o mundo e pretendem construir a história dos homens sobre a injustiça, a mentira, a violência, a corrupção, a ganância. Sofonias, com a linguagem típica dos pregadores da sua época, garante: chegará o dia em que os orgulhosos e os prepotentes perceberão a estupidez das suas escolhas e se arrependerão pela forma como construíram as suas vidas. Nesse dia, Deus ficará do lado dos humildes e dos pobres e sentar-se-á com eles à mesa da vida eterna. O que achamos disto? O que nos sugere a preferência de Deus pelos humildes e pobres? A que tipo de gente queremos confiar a condução dos destinos dos homens e do mundo?
- Sofonias, traduzindo em linguagem humana as indicações de Deus, deixa aos seus contemporâneos um convite a viverem como “pobres”. Os “pobres” são aqueles que, não possuindo bens materiais nem seguranças humanas, tendem a depositar toda a sua confiança e esperança em Deus. A catequese de Israel, talvez com alguma ingenuidade, apresenta-os como pessoas humildes, simples, pacíficas, bondosas, piedosas, generosas, justas, tementes a Deus, que vivem na escuta de Deus, que confiam incondicionalmente em Deus, que caminham na obediência às indicações de Deus. Deus ama-os como filhos muito queridos. O “pobre” é, no universo bíblico, o crente verdadeiro, o crente perfeito, o crente “modelo”. Identificamo-nos com este “modelo”?
- O profeta Sofonias deixa aos seus contemporâneos um forte apelo à conversão. Diz mesmo que não há outra saída – para quem quer viver uma vida com sentido – senão optar por uma mudança efetiva, uma mudança radical na maneira de pensar e de agir. A “conversão”, na teologia profética, significa abandonar os caminhos do egoísmo, da autossuficiência, do orgulho, da mentira, da injustiça e “voltar para trás”, ao encontro de Deus; significa reencontrar-se com Deus, escutar e acolher novamente as indicações de Deus, passar a trilhar outra vez os caminhos de Deus, deixar-se guiar por Deus e pelos seus mandamentos. Pessoalmente, estamos dispostos a renunciar, na construção da nossa vida, a uma lógica de prepotência, de orgulho, de ambição, de autoritarismo, de autossuficiência? Estamos dispostos a voltar para Deus e a viver “segundo Deus”? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10
Refrão 1: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.
Refrão 2: Aleluia.
O Senhor faz justiça aos oprimidos,
dá pão aos que têm fome
e a liberdade aos cativos.
O Senhor ilumina os olhos dos cegos,
o Senhor levanta os abatidos,
o Senhor ama os justos.
O Senhor protege os peregrinos,
ampara o órfão e a viúva
e entrava o caminho aos pecadores.
O Senhor reina eternamente.
O teu Deus, ó Sião,
é Rei por todas as gerações.
LEITURA II – 1 Coríntios 1, 26-31
Irmãos:
Vede quem sois vós, os que Deus chamou:
não há muitos sábios, naturalmente falando,
nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos.
Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo
para confundir os sábios;
escolheu o que é vil e desprezível,
o que nada vale aos olhos do mundo,
para reduzir a nada aquilo que vale,
a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus.
É por Ele que vós estais em Cristo Jesus,
o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus,
justiça, santidade e redenção.
Deste modo, conforme está escrito,
«quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».
CONTEXTO
Corinto, capital da Província romana da Acaia, era, no séc. I, uma cidade nova e próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após semanas de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Do esforço evangelizador de Paulo, entre os anos 50 e 52, nasceu a comunidade cristã de Corinto. De uma forma geral, era uma comunidade viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10). Afinal, a comunidade mergulhava as suas raízes em terreno adverso, onde os valores cristãos corriam o risco de ser sufocados pelos valores da brilhante cultura grega.
Pelas informações que constam da primeira Carta de Paulo aos Coríntios (escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de Paulo), percebemos que um dos problemas que perturbavam a comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com o mundo das escolas filosóficas gregas. As diversas figuras de referência da comunidade cristã eram vistas, pelos cristãos de Corinto, como mestres que propunham caminhos diversos para se chegar à plenitude da sabedoria e da realização humana. Portanto, cada crente escolhia o seu “mestre” e aderia ao “caminho” por ele proposto. Os discípulos desses vários mestres empenhavam-se em demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ora, isto era fonte de discussões intermináveis e de divisões que afetavam a unidade e a comunhão.
Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: as divisões e os partidos punham em causa o essencial da fé. Paulo procura, então, demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia que abra ao discípulo as portas da sabedoria, pelo menos dessa sabedoria humana que os gregos buscavam. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico; Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação através do dom da vida.
Os coríntios devem estar bem conscientes disto: o caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É em Cristo e na sua cruz que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- O que é que dá sentido à nossa vida? O que é que determina o nosso êxito ou o nosso fracasso? O que é que faz que a nossa vida valha a pena? Muitos acreditam que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos: a família em que se nasceu, a escola que se frequentou, os títulos que se obtiveram, o poder que se conquistou, a capacidade intelectual, a competência profissional, o reconhecimento social, o bem-estar económico… O apóstolo Paulo avisa que colocar a própria esperança e a própria segurança em fatores de âmbito puramente humano é apostar no “cavalo errado”. Os fatores humanos falham, são contingentes, têm validade limitada, são incapazes de saciar a nossa sede de vida eterna. Paulo propõe, em contrapartida, que nos dispúnhamos a acolher a “loucura da cruz” e que optemos por seguir Jesus incondicionalmente, vivendo ao seu estilo, abraçando os valores que Ele abraçou, percorrendo com Ele o caminho do amor e do dom da vida. O que pensamos disto? A indicação de Paulo fará sentido? Dispomo-nos a abraçar a lógica de Deus e a buscar a nossa plena realização nos valores de Jesus e do Evangelho?
- Paulo afirma que Deus escolhe os pequenos, os pobres, os humildes, os mais frágeis, aqueles que tantas vezes a sociedade não valoriza, aqueles que não são mencionados nos livros de história, aqueles que nunca são convidados para os eventos sociais, aqueles que são invisíveis aos olhos dos homens para, através deles, concretizar a sua obra de salvação. É precisamente nessa fragilidade que se revela a força de Deus. Somos capazes de reconhecer a presença de Deus nos nossos irmãos mais humildes, mais esquecidos, naqueles que na sua humildade passam despercebidos, naqueles que não têm voz nem vez? Que valor lhes damos?
- Paulo convida os cristãos de Corinto a não perderem de vista Cristo Jesus, “o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção”. Com a sua vida, com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor até ao extremo, com a sua obediência ao Pai, com o seu anúncio do Reino de Deus, Cristo apontou-nos o caminho que conduz à vida verdadeira. Cristo é, para nós, o mestre da verdadeira sabedoria? Caminhamos atrás d’Ele sem o perder de vista? Abraçamos sem hesitar a sabedoria que Ele nos propõe, mesmo quando ela está em contradição com a sabedoria do mundo? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 5,1-12
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
CONTEXTO
Depois de nos apresentar Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,11), Mateus vai mostrar-nos como Jesus concretiza a missão que o Pai Lhe confiou (cf. Mt 4,12-18,35). No centro dessa missão está o anúncio do Reino de Deus. As “bem-aventuranças” ocupam um lugar central nesse anúncio.
Mateus, na construção do seu Evangelho, concedeu uma importância significativa aos “ditos” de Jesus. O evangelista agrupou a maior parte desses “ditos” em cinco discursos atribuídos a Jesus (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25). É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada por Deus ao seu povo, o “ensinamento” que Israel guardou nos cinco livros da Tora (Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio).
O primeiro desses discursos de Jesus é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Reúne um importante conjunto de palavras de Jesus que Mateus ordenou e apresentou com a intenção de oferecer à sua comunidade as coordenadas fundamentais da proposta cristã. O evangelista vê, no “Sermão da montanha”, um novo código ético, uma nova Lei, que supera e substitui a antiga Lei dada por Deus ao seu Povo.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (o Sinai), o cenário em que Deus deu a antiga Lei a Israel. Agora é Jesus que, também numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao Reino de Deus. Mateus, no entanto, sugere algumas diferenças entre aquilo que aconteceu no monte Sinai e aquilo que vai acontecer no monte das Bem-aventuranças. Antes de mais, no grupo que recebeu a Lei dada no Sinai, só havia israelitas; no grupo que sobe ao monte com Jesus parece haver uma “multidão” de gente de diversas origens e etnias (cf. Mt 4,25), conferindo à proposta que Jesus vai apresentar uma inquestionável sugestão de universalidade: a nova Lei, trazida por Jesus, destina-se a todos os povos. Por outro lado, Mateus desenha o quadro do “sermão da montanha” de Jesus com traços bem diferentes do cenário do Sinai… Não há, como no relato da teofania do Sinai, qualquer referência ao fogo, ao fumo, aos trovões e relâmpagos que geravam medo entre o povo (cf. Ex 19,16.18), nem uma delimitação do terreno que impeça o povo de se aproximar do monte da revelação (cf. Ex 19,12.21): na montanha onde Jesus fala, os discípulos estão próximos de Jesus e escutam-no com tranquilidade e sem medo (cf. Mt 5,1). Jesus, o novo Moisés que traz a nova Lei, abre as portas a uma nova realidade, a uma nova forma de comunhão e de relação entre Deus e o seu povo.
As “bem-aventuranças” que Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das bem-aventuranças que aparecem no Evangelho segundo Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem oito “bem-aventuranças” (e uma exortação final), enquanto Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano. Outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido trabalhado e retocado pela catequese cristã. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Dois mil anos depois de Jesus ter feito o “sermão da montanha”, as “bem-aventuranças” continuam a soar aos nossos ouvidos de uma forma estranha e paradoxal. Deixam-nos perplexos e algo desconcertados, pois apontam num sentido que parece ir contra o senso comum. Parecem subverter todas as nossas lógicas e contradizer tudo aquilo que sabemos sobre êxito e fracasso. São um desafio que ameaça todas as nossas certezas e seguranças, a nossa sabedoria convencional e a nossa organização social. Poderão realmente ser um caminho para a felicidade e para a plena realização do ser humano? Jesus tem razão quando garante que a verdadeira felicidade se alcança por caminhos completamente diferentes dos que a sociedade atual propõe? As “bem-aventuranças” serão uma desculpa de fracassados, conversa de gente que não tem coragem para competir, para se impor, para triunfar, ou serão uma forma de construir um mundo diferente, mais justo, mais humano e mais fraterno? O nosso mundo ganharia alguma coisa se abandonássemos a competitividade e a luta feroz pelo êxito humano e optássemos por viver na lógica das “bem-aventuranças”? Seríamos mais livres e mais felizes se renunciássemos a certos valores que a sociedade impõe e passássemos a viver de acordo com os valores propostos por Jesus?
- “Felizes os pobres em espírito”. Os “pobres em espírito” são aqueles que, sem bens materiais, sem a proteção dos poderosos, sem seguranças humanas, se entregam confiadamente nas mãos de Deus, colocam toda a sua esperança em Deus, acolhem de braços abertos as indicações de Deus. Apresentam-se com humildade, desconhecem a arrogância e a autossuficiência, estão sempre disponíveis para servir os seus irmãos, são uma luz que brilha na noite do mundo. É assim que vivemos?
- “Felizes os que choram”. Na verdade, Deus não gosta de nos ver sofrer e chorar. O choro que resulta da doença sem remédio, das ofensas contra a nossa dignidade, das feridas que as injustiças deixam, não é uma coisa boa. Mas Jesus diz que Deus irá consolar os que choram, dar-lhes força para vencer as dificuldades, ficar do lado deles, eliminar as causas do seu sofrimento. Então, vencidos os motivos das lágrimas, os que choram voltarão a rir. Confiamos em Deus, no seu cuidado, no seu amor, mesmo quando as lágrimas não nos deixam ver as estrelas?
- “Felizes os mansos” (os “humildes”). Vivemos num mundo competitivo e agressivo, onde a violência explode pelas razões mais fúteis. O não responder à violência com uma violência igual ou maior será uma estupidez, ou será sinal de que somos filhos de um Deus misericordioso e compassivo? Se não desarmarmos a espiral de violência e de ódio que envolve tantos problemas e povos, qual o futuro da humanidade? Como é que nós, pessoalmente, reagimos quando somos atropelados pela violência e pela injustiça?
- “Felizes os que têm fome e sede de justiça”. Os “que têm fome e sede de justiça” são aqueles que se preocupam genuinamente em acertar, em serem fiéis aos compromissos que têm com Deus, em fazerem aquilo que é “de justiça”. Passamos ao lado da vida se vivemos de forma ligeira, distraída, perdendo oportunidades, sem cumprir a missão que nos foi confiada. Somos gente que leva a sério os compromissos que tem com Deus e com os irmãos, que procura estar sempre atento para fazer o que deve fazer?
- “Felizes os misericordiosos”. Nunca, em nenhuma outra época da história, estivemos tão conectados uns com os outros; nunca, em nenhuma outra época da história, pudemos acompanhar tão de perto, em tempo real, os dramas e as angústias dos nossos irmãos; e nunca, em qualquer outra época da história, nos fechamos tanto aos sofrimentos dos outros. Globalizou-se a indiferença; fechamo-nos no nosso egoísmo e passamos ao lado de quem sofre sem nos determos. Sentimo-nos responsáveis pelos nossos irmãos? Somos testemunhas, junto deles, do Deus misericordioso e compassivo?
- “Felizes os puros de coração”. Os “puros de coração” são aqueles que não vivem escravizados a deuses efémeros, não pactuam com coisas duvidosas, não constroem as suas vidas sobre mentiras e enganos. Num mundo de onde o que é verdade de manhã é mentira à tarde e o “chico-espertismo” é um modo de vida, os “puros de coração” representam a honestidade, a verticalidade, a fidelidade aos valores e aos compromissos. Somos fiáveis, “de confiança”, na nossa relação com Deus e com os irmãos? Somos testemunhas do Deus sempre fiel, que nunca nos trai nem engana?
- “Felizes os que promovem a paz”. Os conflitos, as guerras, as violências eclodem por todo o lado, causam um sofrimento indizível e erguem barreiras de ódio que separam os homens. Alguns, no entanto, os que “são chamados filhos de Deus”, procuram derrubar esses muros, construir pontes de entendimento e de diálogo, fomentar a fraternidade, a solidariedade, o encontro, a comunhão. Somos construtores de muros que separam, ou de pontes que aproximam? Aceitamos ser, no meio dos nossos irmãos, arautos da reconciliação e promotores da paz?
- “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça”. Hoje como ontem, aqueles que se mantêm fiéis a Deus e lutam para que o plano de Deus se concretize no mundo e na história desagradam aos donos do mundo; por isso são perseguidos, desautorizados, ridicularizados condenados, silenciados… Alguns desistem e preferem não correr riscos, não andar contra a corrente, não incomodar os fazedores de opinião que ditam o certo e o errado; outros insistem a tempo e fora de tempo, em serem sinais e testemunhas da vida de Deus. E nós, de que lado ficamos?
- As “bem-aventuranças” dão-nos um retrato bem bonito do coração paternal e maternal de Deus. Garantem-nos que Deus é sensível ao sofrimento dos seus filhos e que sente um carinho especial pelos que sofrem mais. Ele está sempre disponível para confortar os que estão feridos e magoados e para os ajudar a sair da sua triste situação. Como é que vemos e sentimos esta “sensibilidade” de Deus pelos mais frágeis e pequenos? Agrada-nos? É para nós fonte de esperança? O carinho de Deus pelos que precisam mais de amor inspira-nos e leva-nos a cuidar especialmente dos nossos irmãos que a vida maltrata? in Dehonianos.
Para os leitores
A primeira leitura exige uma acurada preparação das pausas e respirações, articulando as diferentes frases e orações para uma correta proclamação do texto.
Na segunda leitura, deve prestar-se atenção ao tom exortativo que Paulo emprega e ter especial cuidado na expressão «naturalmente falando» que indica o tom coloquial do discurso. A frase final que se encontra entre aspas marca o culminar do texto e deve ser pronunciada com especial cuidado.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 (Sofonias 2, 3_3, 12-13)
- Leitura II do Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 (1 Coríntios 1, 26-31)
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – Lecionário
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – Oração Universal
- Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 01.02.2026
- O que ficou do 7º Domingo da Palavra de Deus
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026
7º Domingo da Palavra de Deus

Viver a Palavra
A Liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a olhar a nossa vida como um lugar dinâmico, onde seguir Jesus implica uma permanente conversão que abre a nossa vida ao desígnio de salvação que Deus nos oferece em Cristo.
As trevas são vencidas pela luz esplendorosa que brota do Coração de Deus: «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou». Na verdade, peregrinando os trilhos da história são muitas as sombras que nos assaltam no caminho, contudo, elas não têm a última palavra. No provisório da dor e do sofrimento, irrompe a certeza incorruptível de que o amor de Jesus e a Sua luz são mais fortes que as trevas e sombras que nos envolvem. Uma doença, a partida de alguém que amamos, a falta de esperança diante das dificuldades e tantos outros desafios e obstáculos fazem parte da nossa condição humana e esta difícil e exigente condição seriam catastróficas se estivéssemos abandonados unicamente à nossa capacidade humana. Somos obra das mãos de Deus, salvos e redimidos pelo amor de Jesus Cristo e olhamos a nossa existência e as vicissitudes da história com o olhar amoroso Daquele que por nós morreu e ressuscitou.
Como outrora Simão e André, Tiago e João também nós contemplamos Jesus que atravessa o nosso quotidiano, vem ao nosso encontro, às fadigas e canseiras das nossas redes tantas vezes vazias. Irrompendo no concreto da nossa história, Jesus propõem-nos um novo rumo e um novo sentido: «Vinde e segui-Me».
Parece tão vaga a proposta. Contudo, seguir Jesus é a escolha decisiva que inaugura um tempo novo na nossa existência. Não quer dizer que por seguirmos Jesus as dificuldades deixarão de fazer parte da nossa vida. Contudo, elas ganharão uma forma diferente, pois diante das contingências da nossa história, está Jesus, Aquele que quando nos toma pela mão nunca nos abandona.
No texto do Evangelho que escutamos neste Domingo estão intrinsecamente unidos o seguimento e a conversão. Seguir Jesus implica entrar num processo de permanente conversão e, por isso, sentimos ecoar no nosso coração as primeiras palavras de Jesus dirigidas à humanidade no Evangelho de S. Mateus: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».
A proximidade de Deus revelada em Jesus Cristo impele-nos a uma permanente revisão de vida, onde o reconhecimento da nossa condição frágil e pecadora em nada nos inferioriza, mas se torna precisamente a oportunidade de crescimento e amadurecimento rumo à santidade, ao cumprimento das promessas do Reino que já está no meio de nós, mas que ainda não se realizou em plenitude.
Sem qualquer complexo de inferioridade reconhecemos que não somos perfeitos e tomamos consciência que esta fragilidade e debilidade são um caminho e um lugar constante de mudança e de aperfeiçoamento. Por isso, a conversão e o arrependimento dão lugar à salvação. A conversão é a arte de afinar o coração com a vontade de Deus e, neste permanente afinar do coração, encontramos o caminho da verdadeira felicidade.
Contudo, a tarefa da conversão e do seguimento de Jesus não é uma aventura isolada. Jesus convoca estes primeiros discípulos dois a dois, recordando que não partimos sozinhos, mas partilhando a aventura da fé com tantos outros homens e mulheres que partilhando a mesma condição frágil e pecadora, partilham também a certeza de terem encontrado em Jesus Cristo Aquele que dando um sentido novo à sua vida, os impele a deixar tudo, para abrirem o coração à novidade do Seu Evangelho. Por isso, Paulo escrevendo à comunidade de Corinto recorda que a comunhão e unidade devem ser a marca distintiva daqueles que querem seguir Jesus. Convocados pelo Seu amor, partimos unidos para que a nossa fraternidade seja o mais belo anúncio de que a Luz que despontou nas trevas nos aponta o horizonte luminoso da salvação que nos é oferecido em Jesus Cristo. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 8,23b-9,3
Assim como no tempo passado
foi humilhada a terra de Zabulão e de Neftali,
também no futuro será coberto de glória
o caminho do mar, o Além do Jordão, a Galileia dos gentios.
O povo que andava nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam nas sombras da morte
uma luz se levantou.
Multiplicastes a sua alegria,
aumentastes o seu contentamento.
Rejubilam na vossa presença,
como os que se alegram no tempo da colheita,
como exultam os que repartem despojos.
Vós quebrastes, como no dia de Madiã,
o jugo que pesava sobre o povo,
o madeiro que ele tinha sobre os ombros
e o bastão do opressor.
CONTEXTO
O profeta Isaías (autor dos caps. 1-39 do Livro de Isaías) nasceu por volta do ano 760 a. C., no tempo do rei Ozias. De origem nobre, parece ter vivido em Jerusalém.
Isaías sentiu-se chamado por Deus à vocação profética quando tinha cerca de vinte anos. Sabemos também que casou e teve filhos. Desconhecemos o nome da esposa, conhecida somente como “a profetiza” (Is 8,3).
O carácter de Isaías pode conhecer-se suficientemente através da sua obra. É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento do seu chamamento vocacional. Seguramente, faz parte dos notáveis do país: participa nas decisões relativas ao Reino, falando com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (Is 7,10). É enérgico e nunca se deixa desanimar. É inimigo da anarquia (cf. Is 3,1-9); mas isso não significa que apoie as classes altas. Na verdade, os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes: autoridades, juízes, latifundiários, políticos. É duro e irónico com as mulheres da classe alta de Jerusalém (cf. Is 3,16-24; 32,9-14). Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (cf. Is 3,12-15).
Os últimos oráculos de Isaías são de 701 ou, talvez, de 689 a. C., altura em que o rei assírio Senaquerib invadiu Judá e pôs cerco a Jerusalém. Isaías deve ter morrido poucos anos depois, embora não saibamos ao certo quando. Um apócrifo judeu do séc. I d. C. – “Ascensão de Isaías” – afirma que foi assassinado pelo rei ímpio Manassés.
Em 721 a.C. o rei assírio Sargão II invadiu o reino do Norte (Israel), tomou a Samaria e deportou uma parte da sua população para a Assíria. As melhores terras da Samaria foram ocupadas por colonos assírios que se instalaram na região e se misturaram com a população local. Esse acontecimento histórico inaugurou uma época de desolação e de trevas para as tribos do Povo de Deus que ocupavam a região setentrional da Palestina, nomeadamente os antigos territórios de Zabulão e de Neftali, e toda a região da Galileia.
No sul do país, Ezequias (716-687 a.C.) subiu ao trono de Judá alguns anos depois da queda da Samaria. Era a época em que o poder militar assírio se impunha em toda a região. Durante algum tempo, Ezequias evitou envolver-se nos jogos da política internacional, a fim de não proporcionar aos assírios pretextos para invadir Judá. Mas em 705 a.C., após a morte de Sargão II, Ezequias, desdenhando as indicações do profeta Isaías (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros eram sintoma de grave infidelidade para com Javé, pois significavam colocar a confiança e a esperança nos homens), enviou embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia, procurando consolidar uma frente política e militar capaz de lutar contra os desígnios imperialistas dos assírios. Senaquerib, o sucessor de Sargão II no trono assírio, dispôs-se imediatamente a castigar as nações que desafiavam o poderio assírio. Tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, invadiu finalmente Judá, devastou o país e pôs cerco a Jerusalém (701 a.C.). O rei Ezequias teve de submeter-se e ficou a pagar um pesado tributo à Assíria.
Nesta circunstância, o profeta Isaías assumiu uma atitude bastante crítica em relação aos dirigentes de Judá, considerando-os incapazes de governar de forma sensata e de conduzir o povo de Deus em direção à paz e à prosperidade. Desiludido com os líderes humanos, o profeta começou a pensar numa intervenção de Deus que derrotasse os opressores e devolvesse a Israel e a Judá a liberdade e a paz. O texto que a liturgia deste terceiro domingo comum nos propõe como primeira leitura poderia entender-se neste contexto. in Dehoniano
INTERPELAÇÕES
- Os dramáticos acontecimentos históricos da época de Isaías não foram um caso isolado. Infelizmente, a história dos homens – a mais recuada, mas também a dos nossos dias – regista a cada instante situações intoleráveis de opressão, de injustiça, de violência, que trazem sofrimento a milhões de inocentes, vítimas da prepotência e da ambição dos poderosos. No meio de tudo isto, onde está Deus? Ele passa ao lado do sofrimento dos seus filhos que sofrem sem lhes fazer justiça? Ele deixa que os grandes, os violentos, os poderosos, atuem impunemente? Deus fica indiferente quando os seus queridos filhos gemem sob o peso insuportável da maldade de outros homens? O profeta Isaías tinha a certeza de que Deus se importa com o sofrimento dos seus filhos e intervirá para lhe pôr cobro. O oráculo de Isaías que ouvimos hoje deixa-nos essa garantia. Deus sempre esteve e sempre estará do lado dos oprimidos, dos injustiçados, dos sofredores. Talvez Deus, por razões que só Ele sabe, não atue logo e demore algum tempo a repor a justiça; talvez nós, que queremos sempre tudo “para ontem”, nem sempre consigamos entender os vagares de Deus; mas Deus – o Deus que preside à história e que não ignora o sofrimento dos seus filhos – há de atuar e mudar as trevas em luz, a opressão em liberdade, a morte em vida. Acreditamos nisto? É com essa certeza que enfrentamos as “sombras” do nosso tempo?
- O nosso texto não explica como é que Deus vai atuar no sentido de restabelecer a justiça e mudar as trevas em luz (o oráculo de Isaías irá dizê-lo mais à frente, nuns versículos que a leitura deste domingo não conservou: Deus irá enviar à humanidade um “menino”, o “Príncipe da paz”, que inaugurará um reino novo de prosperidade e de vida para todos os homens – cf. Is 9,5-6). Nós, contudo, percebemos logo que Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para nos anunciar e propor o “Reino de Deus”, tem um papel fundamental no projeto de Deus. Ele veio acender uma luz que ilumina as trevas que cobrem a Galileia e o resto do mundo. Porque é que, dois mil anos depois de Jesus, a luz que Jesus trouxe ainda não ilumina as sombras que cobrem o mundo? Jesus não foi claro quando nos disse o que devemos fazer para vencer a violência, a injustiça, a morte? Será que temos levado a sério tudo o que Jesus nos ensinou? Depois de Deus ter feito tudo o que fez para nos indicar o caminho da justiça, do amor e da paz, podemos culpá-lo pelas sombras que ameaçam o nosso mundo?
- Jesus reuniu à sua volta um grupo de discípulos e ensinou-os a viver na lógica do Reino de Deus. Mostrou-lhes os valores sobre os quais, segundo Deus, deve assentar a ordem do mundo – a justiça que traz paz, o perdão sem limites, o serviço simples e humilde, o amor sem fronteiras, o dom da própria vida em benefício de todos – e enviou-os a anunciar a todos os homens o Reino de Deus. Nós, que aderimos a Jesus, que nos dispusemos a segui-l’O, que aceitamos ser suas testemunhas, temos sido arautos do Reino de Deus? Esforçamo-nos, dia a dia, por tornar realidade esse mundo novo de justiça, de amor e de paz? Como lidamos com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do Reino de Deus entre os homens?
- O profeta Isaías conhecia bem os notáveis de Judá: frequentava os ambientes da corte e participava nas decisões relativas ao Reino; falava com autoridade aos altos funcionários e mesmo aos reis. No entanto descobriu, a certa altura, que os homens são falíveis, que os dirigentes se equivocam, que as desilusões esperam-nos ao virar da esquina, que nem tudo o que reluz é ouro. Isaías descobriu que só Deus é absoluto, só Deus não falha; é n’Ele e só n’Ele que podemos colocar, com plena certeza, a nossa confiança e a nossa esperança. Trata-se de uma boa dica para nós. Em quem ou em quê colocamos a nossa confiança? Em quem ou em quê assentamos as nossas vidas? Onde está a “rocha segura” a que podemos agarrar-nos sem vacilar no meio das tempestades e das crises que temos de enfrentar ao longo do nosso caminho na terra? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 26 (27)
Refrão 1: O Senhor é minha luz e salvação.
Refrão 2: O Senhor me ilumina e me salva.
O Senhor é minha luz e salvação:
a quem hei de temer?
O Senhor é protetor da minha vida:
de quem hei de ter medo?
Uma coisa peço ao Senhor, por ela anseio:
habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
para gozar da suavidade do Senhor
e visitar o seu santuário.
Espero vir a contemplar a bondade do Senhor
na terra dos vivos.
Confia no Senhor, sê forte.
Tem confiança e confia no Senhor.
LEITURA II – 1 Coríntios 1,10-13.17
Irmãos:
Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que faleis todos a mesma linguagem
e que não haja divisões entre vós,
permanecendo bem unidos,
no mesmo pensar e no mesmo agir.
Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé,
que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga:
«Eu sou de Paulo», «eu de Apolo»,
«eu de Pedro», «eu de Cristo».
Estará Cristo dividido?
Porventura Paulo foi crucificado por vós?
Foi em nome de Paulo que recebestes o Batismo?
Na verdade, Cristo não me enviou para batizar,
mas para anunciar o Evangelho;
não, porém, com sabedoria de palavras,
a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo.
CONTEXTO
Paulo chegou a Corinto por volta do ano 50, no decurso da sua segunda viagem missionária, depois de ter passado por Tessalónica, Bereia e Atenas. Começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos, e aos sábados usava da palavra na sinagoga. Como resultado da sua pregação, nasceu a comunidade cristã de Corinto. Paulo ficou na cidade cerca de dezoito meses (entre os anos 50 e 52).
A dada altura, porém, os líderes da comunidade judaica reprovaram o testemunho que Paulo dava sobre Jesus e expulsaram-no da sinagoga (cf. At 18.6). Paulo decidiu então dedicar-se à evangelização dos pagãos. Os judeus, no entanto, acusaram-no de atividades contrárias à fé judaica e levaram-no diante de Galião, procônsul da Acaia, para ser julgado. Galião, a quem essas questões religiosas típicas dos judeus não interessavam, recusou-se a tomar posição. De Corinto, Paulo foi para Éfeso e de lá voltou a Antioquia da Síria, a cidade de onde tinha partido em missão.
Paulo continuou, contudo, em contacto com a comunidade cristã de Corinto. Sempre solícito, sempre interessado, Paulo recebia notícias e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus amigos de Corinto enfrentavam.
Mais tarde, durante a sua terceira viagem missionária (anos 53-58), possivelmente quando estava em Éfeso, Paulo recebeu notícias alarmantes (levadas “pela gente de Cloé” – 1Co 1,11) sobre a comunidade de Corinto. Após a sua partida da cidade, tinha aparecido em Corinto um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Alexandria, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Na pregação, Apolo era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora, segundo parece, Apolo não favorecesse essa divisão): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1Cor 1,12). Os cristãos de Corinto, ainda imbuídos de uma mentalidade pagã, transplantaram para a comunidade o esquema das escolas filosóficas gregas, cada uma com os seus mestres e os seus adeptos. Neste quadro, multiplicavam-se as divisões, os conflitos, as discussões que deixavam feridas abertas na comunidade. Mais grave ainda: o cristianismo corria o risco de deixar de ser o seguimento de Jesus Cristo, para se tornar uma proposta de “saber” cuja validade dependia do poder de sedução dos mestres que “vendiam” aos próprios adeptos as suas ideias. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, o “apóstolo” que levou o Evangelho de Jesus ao encontro do mundo greco-romano, tinha ideias absolutamente claras sobre aquilo que é decisivo na experiência cristã: o encontro, a adesão, o seguimento de Jesus Cristo. Isso é algo que há muito assumimos? Talvez. Isso é algo que temos sempre presente diante dos olhos e que marca cada passo que damos no caminho da fé? Talvez não. Por vezes falamos mais de leis canónicas e de rituais litúrgicos do que da Palavra de Jesus; por vezes preocupamo-nos mais com a organização de uma estrutura paroquial eficiente do que com o conhecimento e a escuta de Jesus; por vezes confiamos mais em líderes religiosos ou políticos do que em Jesus; por vezes ligamos a nossa experiência de fé mais a figuras humanas (veneráveis e santas, claro, mas humanas) do que a Jesus. Cristo é, de facto, a nossa referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a nossa experiência de fé se constrói? Os erros e as falhas das pessoas que encontramos na comunidade cristã são para nós razão para nos afastarmos do caminho da fé? A nossa participação na vida da comunidade eclesial é condicionada ao facto de “estar lá” determinada pessoa?
- Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que acreditar em Cristo e fazer parte do “Corpo” de Cristo (a Igreja) é incompatível com os “partidos”, as querelas, as disputas, os ciúmes, os conflitos que fraturam a comunidade e deixam feridas incuráveis no tecido comunitário. Poderá Cristo estar dividido? Os conflitos e as divisões serão compatíveis com a proposta de Jesus? As guerras e rivalidades dentro de uma comunidade cristã não serão um sinal evidente de que estamos a ser conduzidos não por Cristo, mas sim pelos nossos interesses, pelo nosso orgulho, pela nossa vaidade, pela nossa autossuficiência, pelo nosso egoísmo? A nossa comunidade cristã dá testemunho de harmonia, de comunhão, de entendimento, de concórdia, de solidariedade, de amor verdadeiro? Alguma vez fomos, na comunidade, fator de desunião, de conflito, de divisão?
- A Igreja de Jesus é santa e pecadora. As pessoas que a constituem são chamadas à santidade, mas experimentam a cada instante a fragilidade inerente à condição humana. Por isso, casos de abuso de poder, de prepotência, de culto da personalidade, de ambição, podem aparecer, aqui e ali, em pessoas a quem foram atribuídas funções de responsabilidade na animação das comunidades cristãs. Embora compreendamos as falhas que a esse nível possamos testemunhar, convém também saber que isso não é “normal” ou “aceitável”. Ninguém tem o direito de se apresentar como “dono da comunidade” e de tratar os irmãos com sobranceria; ninguém tem o direito de desviar o foco de Cristo para o dirigir para si próprio. Como vemos essas situações? Como lidamos com elas? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 4,12-23
Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:
«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,
uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque o reino de Deus está próximo».
Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.
Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me
e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,
a consertar as redes.
Jesus chamou-os
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
proclamando o Evangelho do reino
e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.
CONTEXTO
Depois de ter recebido o batismo no rio Jordão, Jesus permaneceu algum tempo no deserto, talvez ligado a João Batista. O tempo passado no deserto foi, para Jesus, um tempo de preparação para a missão. É natural que, durante esse tempo, Jesus tenha refletido sobre a missão que o Pai Lhe confiava e tenha definido as grandes linhas do seu ministério. Sentiu que o tempo de preparação para a intervenção de Deus, de que João falava, tinha terminado e que começava um tempo novo, o tempo da salvação. Jesus achava que essa nova etapa da história da salvação estava ligada à sua pessoa e ao seu ministério: Deus enviava-O a anunciar a presença de Deus na história dos homens – o “Reino de Deus”.
Então, Jesus deixou o deserto onde tinha passado algum tempo e deslocou-se para a terra habitada de Israel. A salvação de Deus ia ao encontro dos homens nos lugares onde eles viviam e trabalhavam. Transformado em profeta itinerante, Jesus pretendia percorrer as aldeias e vilas da Galileia para anunciar a todos a chegada de Deus, desse Deus misericordioso e bom, que vinha oferecer uma vida mais digna e mais humana a todos os seus queridos filhos. Estávamos no ano 28 e Jesus teria uns trinta e dois anos.
Jesus dirigiu-se para a Galileia, a região que conhecia bem pois aí tinha passado a maior parte da sua vida. A Galileia tinha a vantagem de ficar longe de Jerusalém, havendo por isso menos controle por parte das autoridades religiosas judaicas. Jesus, no entanto, não se instalou na pequena aldeia de Nazaré, onde vivia a sua família, mas estabeleceu-se em Cafarnaum, cidade situada na margem do lago de Tiberíades, também chamado Mar da Galileia. A cidade tinha entre 1.000 e 1.500 habitantes. Parte dos habitantes de Cafarnaum viviam da agricultura; os outros eram pescadores, comerciantes e artesãos. Em Cafarnaum funcionava uma alfândega onde os funcionários – os cobradores de impostos – controlavam o movimento de uma importante via comercial pela qual chegavam mercadorias de grande valor vindas do oriente. A cidade contava ainda com uma guarnição romana constituída por cerca de cem soldados. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Hoje como ontem, há sempre homens e mulheres que habitam “na sombria região da morte”. São as vítimas da prepotência, da maldade e da ambição dos poderosos; são os condenados à fome, à violência, à miséria, à escravatura; são aqueles que deixamos para trás, abandonados nas bermas da estrada da vida; são os despojados dos seus direitos e da sua dignidade pelo egoísmo dos seus irmãos; são aqueles que as sociedades e as igrejas ignoram e marginalizam; são aqueles que se sentem malditos e indignos, abandonados por Deus e pelos homens… A vida deles estará perdida? Deus não tem nada para lhes oferecer? É a esses que, em primeiro lugar, é dirigida a Boa Notícia que Jesus apregoou por toda a Galileia e que mandou os seus discípulos espalhar por todo o mundo: “Deus não se conforma com o vosso sofrimento e não vos abandona; Ele vem ao vosso encontro para mudar a vossa triste situação e para vos oferecer a possibilidade de viverdes uma vida nova, uma vida com sentido; Deus vai atuar para fazer nascer um mundo novo, um mundo que seja construído conforme o seu projeto”. Talvez este anúncio, diante da realidade que vemos todos os dias, nos pareça apenas uma bela quimera sem concretização… Mas Jesus não mente: a verdade é que Deus está empenhado em fazer aparecer um mundo mais justo, mais fraterno, mais humano, onde os seus queridos filhos possam viver felizes e em paz. Acreditamos que Deus está a trabalhar para fazer nascer, aqui e agora, o Reino de Deus? O que falta para que o projeto de Deus se concretize e mude a face da terra? Aceitamos ser colaboradores de Deus na construção desse mundo novo?
- Jesus enlaçou o anúncio da chegada do Reino com um convite à conversão. Ele tinha razão. O Reino de Deus só será possível se fizermos uma “inversão de marcha” na nossa vida, se mudarmos os nossos esquemas e comportamentos, a nossa maneira de pensar, a nossa forma de agir, o nosso olhar sobre o mundo e sobre os nossos irmãos, os valores que colocamos no centro da nossa existência… Convertermo-nos implica despirmo-nos do egoísmo, da ambição mesquinha, da vaidade, dos tiques de autoritarismo e de intolerância; implica vencermos o comodismo, a instalação, a preguiça, a indiferença face às necessidades dos irmãos; implica a superação da autossuficiência, do isolamento, do orgulho que nos impedem de ver os nossos irmãos sofredores; implica a renúncia a qualquer tipo de violência, de dominação do outro, de compromisso com a injustiça; implica deixarmos de colocar no centro da nossa vida os bens efémeros; implica renunciarmos à mentira, à corrupção, à desonestidade, às trevas… O que é que na nossa vida, nas nossas opções, nos nossos comportamentos constitui um obstáculo à chegada do Reino de Deus?
- Jesus, pouco depois de começar a propor o Reino de Deus, encontrou Simão Pedro, André, Tiago e João nas margens do Mar da Galileia, junto de Cafarnaum, e convidou-os a segui-l’O. Começou assim a constituir-se, de forma muito modesta, a comunidade do Reino de Deus. Neste “seguimento” de Jesus está o núcleo central que define a experiência cristã. Ser cristão não é confessar um “credo”, ou aderir a uma proposta moral, ou cumprir determinados ritos, ou recitar determinadas fórmulas; mas é, antes de mais, seguir atrás de Jesus, escutá-l’O a cada instante, inspirar-se n’Ele, viver ao seu estilo; seguir Jesus é acreditar no que Ele acreditava, interessar-se pelas coisas que O interessavam, defender as causas que Ele defendia, olhar os homens como Ele olhava, amar as pessoas como Ele amava, confiar em Deus como Ele confiava… Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Jesus e para segui-l’O sem reservas, com a mesma decisão e a mesma convicção de Pedro, André, Tiago e João? O nosso caminho de fé é um caminho “de discípulos”, um caminho que nos faz avançar tendo sempre Jesus como referência? Como é que vivemos, hoje, o seguimento de Jesus?
- Quando chamou os seus primeiros discípulos e os convidou a segui-l’O, Jesus disse-lhes que contava com eles para serem “pescadores de homens”. O que é que Ele queria dizer? Há muita gente mergulhada num imenso mar de sofrimento, de angústia, de medo, de injustiça, de privações, de morte. Ontem como hoje, é tarefa dos discípulos de Jesus libertá-los desse mar, devolvê-los à vida, curá-los das suas feridas, abrir-lhes as portas da esperança. Trata-se de continuar a missão de Jesus, que andava pela Galileia “curando todas as doenças e enfermidades entre o povo”; trata-se de construir o Reino de Deus”, de fazer nascer um mundo mais justo, mais são, mais fraterno, mais solidário, mais belo e mais feliz. Nós, os que escutamos o chamamento de Jesus e nos dispusemos a segui-l’O, estamos disponíveis para colaborar com Ele na construção do Reino de Deus e para sermos “pescadores de homens”, arautos da salvação de Deus? in Dehonianos.
Para os leitores
Na primeira leitura, deve ter-se em atenção a pronunciação dos nomes das regiões «Zabulão», «Neftali» e «Madiã». Além disso, a proclamação desta leitura deve ser marcada pela alegria e esperança da luz que desponta nas trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça, do sofrimento, do desespero.
Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases longas e com diversas orações que requerem um especial cuidado nas pausas e respirações para uma leitura mais articulada do texto. Devem ter presente o tom exortativo que marca todo o texto e uma correta pronunciação das frases interrogativas, evitando a acentuação interrogativa das frases apenas no final de cada oração.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 (Isaías 8, 23b-9,3 (9,1-4))
- Leitura II do Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 (1 Coríntios 1, 10-13.17)
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – Lecionário
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – Oração Universal
- Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 25.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo III do Tempo Comum – Ano A -25.01.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026

Viver a Palavra
A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao cerne da nossa vida cristã: sonhados e amados por Deus desde o seio materno, somos chamados a viver a experiência única e pessoal do encontro com Jesus Cristo que nos desafia a encontrar na Sua vontade um caminho de realização e felicidade que nos constitui como apóstolos da alegria do Evangelho, para que a Igreja seja um rasto de luz para todos os povos e nações. Deste modo, os diversos textos proclamados neste Domingo apresentam-nos a dinâmica da nossa vida cristã, num horizonte responsorial, isto é, chamados e convocados pela misericórdia de Deus que nos precede sempre, somos convidados a responder generosamente ao seu projeto de amor.
A disponibilidade para o acontecer de Deus nas nossas vidas nasce da certeza de que o Seu amor nos precede, acompanha e aponta um horizonte de realização e felicidade absolutamente novo. Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade». A vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo como nos testemunha S. Paulo quando afirma que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4). Quantas vezes na procura de uma razão diante de uma desgraça, já ouvimos dizer: «foi a vontade de Deus». Na verdade, a vontade de Deus não pode ser a justificação para aquilo que não conseguimos responder. A vontade de Deus é um desígnio amoroso de salvação e, por isso, responder com generosidade e disponibilidade à Sua vontade é caminhar pela estrada da felicidade verdadeira que tem como nome a santidade.
O caminho de descoberta da vontade de Deus a nosso respeito brota da experiência que João Baptista nos testemunha no Evangelho: «eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». João Baptista testemunha aquilo que viu e experimentou e não apenas uma noção teórica e abstrata. Seguir Jesus Cristo implica necessariamente fazer esta experiência do Seu amor, tal como afirma o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus caristas est: «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).
Este encontro decisivo transforma a vida e o coração de tal modo que toda a nossa vida se molda a partir desta experiência. É assim que aparece João Baptista como figura de charneira, apontando o «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo», testemunhando a presença Daquele que os profetas anunciaram e que a humanidade esperava. João Baptista está do outro lado do Jordão, no lugar onde o Povo de Israel se deteve para preparar a entrada na Terra Prometida. Ele é referência fundamental do nosso ser cristão porque nos ensina a arte de apontar para Jesus, de se saber retirar para que Ele tenha lugar, de proporcionar aos outros a experiência do encontro com Aquele que dá sentido à nossa vida.
Com toda a certeza, lendo a nossa história, encontramos pessoas que foram para nós lugares de encontro com Jesus, pessoas capazes de sair de si mesmas para apontar esse horizonte de realização e felicidade que só em Cristo se pode encontrar. Louvando o Senhor pela vida de tantos e tantas que nos mostraram o rosto de Jesus, comprometemo-nos em ser também nós testemunhas de Jesus com a humildade e a ousadia de João Baptista, anunciando ao mundo que não há aventura mais bela do que fazer das nossas vidas lugares de beleza que testemunham a presença Daquele que dá sentido às nossas vidas. in Voz Portucalense
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João Baptista testemunha diante dos seus contemporâneos a presença do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e aponta, assim, o caminho da verdadeira felicidade. Na nossa vida, foram ou são muitos os que, na nossa vida, como João Baptista nos apontaram o caminho de Jesus. Por isso, este Domingo pode ser uma boa oportunidade para agradecer a tantos e tantas por esse importante papel na nossa vida. No contexto da liturgia dominical pode colocar-se esta intenção de louvor e agradecimento pela vida daqueles e daquelas que são para nós presença que aponta para Jesus e pode lançar-se o desafio de ao longo desta semana terem um gesto de gratidão para com essas pessoas. in Voz Portucalense
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 49,3.5-6
Disse-me o Senhor:
«Tu és o meu servo, Israel,
por quem manifestarei a minha glória».
E agora o Senhor falou-me,
Ele que me formou desde o seio materno,
para fazer de mim o seu servo,
a fim de lhe reconduzir Jacob e reunir Israel junto d’Ele.
Eu tenho merecimento aos olhos do Senhor
e Deus é a minha força.
Ele disse-me então:
«Não basta que sejas meu servo,
para restaurares as tribos de Jacob
e reconduzires os sobreviventes de Israel.
Vou fazer de ti a luz das nações,
para que a minha salvação chegue até aos confins da terra».
CONTEXTO
A primeira leitura do segundo domingo do tempo Comum vem do “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?
O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz (cf. Is 49-55).
Lado a lado com a proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que se referem a um personagem misterioso e enigmático, designado pelos biblistas como o “servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus no cenário difícil do Exílio? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Será o povo de Israel, no seu conjunto, chamado a dar testemunho de Deus na Babilónia? Não sabemos ao certo. Mas esse “servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus com uma missão universal. A missão desse “servo” cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do “servo de Javé” (cf. Is 49,1-13). Neste cântico, esse “servo” é explicitamente identificado com Israel (embora alguns comentadores pensem que a determinação “Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma interpretação): poderia ser a figura do povo de Deus, chamado a dar testemunho de Javé no meio dos outros povos. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A escolha do “servo” e a sua designação por Deus, “desde o seio materno”, para assumir uma missão, convida-nos hoje a olhar para esse mistério sempre pessoal, mas sempre insondável que é a vocação. Deus chama homens e mulheres para, através deles, intervir no mundo e concretizar o seu plano de salvação. Provavelmente nunca chegaremos a compreender cabalmente as razões e os critérios de Deus nas escolhas que faz. De resto, não nos compete questionar as escolhas de Deus, mas sim tentar descobrir o lugar que Deus nos reserva no seu projeto e acolher com obediência e disponibilidade o seu chamamento. Deus conta com cada um de nós. Também a nós Ele diz: “tu és o meu servo, por quem manifestarei a minha glória”. Como nos situamos diante do mistério da vocação? Temos procurado, através da escuta de Deus e do diálogo com Ele, descobrir o lugar e o papel que Ele nos tem destinado? Estamos disponíveis para colocar a nossa vida ao serviço do projeto de Deus, num “sim” total e comprometido?
- O “relato da vocação” do “servo de Javé” que a liturgia deste domingo nos oferece lembra-nos que na origem da vocação está sempre Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada pessoa uma missão. Sendo assim, a vocação é algo que só se entende à luz de Deus e a partir de Deus. O “chamado” não age em nome próprio, mas age em nome de Deus e por mandato de Deus; o “chamado” não proclama as suas ideias ou teorias, mas sim a Palavra que ouviu de Deus; o “chamado” não faz aquilo que lhe apetece fazer, mas sim aquilo que Deus o encarregou de fazer; o “chamado” não dá testemunho de si próprio, mas procura ser um sinal vivo de Deus no meio dos seus irmãos. Esse “testemunho” de Deus só é possível se o “chamado” cultivar uma grande proximidade com Deus, viver na escuta de Deus, aprofundar cada vez mais a sua comunhão com Deus. A nossa ação, o nosso testemunho e a nossa intervenção no mundo são alimentados por Deus? Procuramos, no diálogo com Deus e na escuta de Deus, descobrir o sentido da nossa missão?
- Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39(40)
Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.
Esperei no senhor com toda a confiança
e Ele atendeu-me.
Pôs em meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus.
Não Vos agradaram sacrifícios nem oblações,
mas abristes-me os ouvidos;
não pedistes holocaustos nem expiações,
então clamei: «Aqui estou».
«De mim está escrito no livro da Lei
que faça a vossa vontade.
Assim o quero, ó meu Deus,
a vossa lei está no meu coração».
Proclamei a justiça na grande assembleia,
não fechei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.
Não escondi a vossa justiça no fundo do coração,
proclamei a vossa fidelidade e salvação.
LEITURA II – 1 Coríntios 1,1-3
Irmãos:
Paulo, por vontade de Deus
escolhido para Apóstolo de Cristo Jesus
e o irmão Sóstenes,
à Igreja de Deus que está em Corinto,
aos que foram santificados em Cristo Jesus,
chamados à santidade,
com todos os que invocam, em qualquer lugar,
o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:
A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo
estejam convosco.
CONTEXTO
No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (cf. 2Co 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Não tardou, no entanto, a entrar em conflito com os líderes da comunidade judaica de Corinto e foi expulso da sinagoga.
Corinto era uma cidade nova e muito próspera, capital da Província romana da Acaia. Distinguia-se como centro comercial importante. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na cidade pontificava Afrodite, deusa do amor, em cujo tempo se praticava a prostituição sagrada. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1Co 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1Co 1,22-24; 10,32; 12,13). De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1Co 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1Co 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1Co 1,19-2,10).
Paulo escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios quando estava em Éfeso, no decurso da sua terceira viagem missionária. O apóstolo teve conhecimento de notícias alarmantes, chegadas de Corinto, que davam conta de problemas graves na comunidade: divisões, conflitos e diversos escândalos. Paulo, compenetrado do seu papel enquanto fundador da comunidade, escreveu aos coríntios exortando-os a corrigir todas essas situações. No entanto, para além das questões particulares, transparece na Carta uma questão mais ampla: a dificuldade de inserção do cristianismo numa realidade cultural muito diferente da realidade palestina.
O trabalho missionário de Paulo de Tarso, em meados do séc. I, levou o cristianismo ao encontro do mundo grego. Paulo, depois de um certo discernimento, tinha concluído que a proposta de Jesus era para todos os povos da terra e não exclusivamente para os judeus. No entanto, o contexto judaico – de onde o cristianismo era originário – e o contexto grego eram realidades culturais e religiosas bastante diferentes. Como é que a proposta cristã se aguentaria quando mergulhasse num mundo que funcionava com dinamismos que lhe eram estranhos? Iria a brilhante cultura grega absorver ou desvirtuar os valores cristãos? Como é que os cristãos de origem grega integrariam a sua fé na realidade cultural em que estavam inseridos? Esta problemática é, em última análise, o cenário de fundo da reflexão de Paulo nesta carta.
O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como segunda leitura faz parte da introdução à carta (1Co 1,1-9). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Paulo de Tarso, o rabi judeu que encontrou Jesus na estrada de Damasco, entendeu toda a sua vida à luz do chamamento que Deus lhe dirigiu. Por mandato de Deus, tornou-se “apóstolo”, enviado a dar testemunho de Jesus e a ser arauto da Boa Notícia que Jesus veio oferecer ao mundo e aos homens. Paulo assumiu essa missão com total compromisso e com uma dedicação sem limites. Foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por causa do seu testemunho e da sua fidelidade à missão que lhe foi confiada. Evidentemente, a nossa história de vida não é igual à do apóstolo Paulo. Talvez Deus não exija que vivamos ao mesmo ritmo e que percorramos o mesmo caminho de Paulo de Tarso. Mas todos nós, talvez de formas diversas, somos chamados a dar testemunho de Jesus e do seu Evangelho neste mundo e neste tempo que nos tocou viver. Assumimos essa missão com dedicação, com entrega, com compromisso, independentemente dos obstáculos, das resistências e das incompreensões que encontramos?
- Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?
- Paulo também lembra aos cristãos da cidade de Corinto que não estão sozinhos na vivência e no testemunho da vocação a que foram chamados. Eles fazem parte de uma grande família, espalhada pela terra inteira, e que é constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nessa família não há distinções baseadas na cor da pele, no lugar de nascimento, nas categorias sociais, nas diferenças culturais, nos títulos honoríficos, nos bens materiais que cada um possui… Trata-se de uma família de irmãos e de irmãs, reunida à volta de Jesus, animada e conduzida pelo Espírito Santo. Todos os membros dessa família, de formas diversas, participam da mesma missão: dar testemunho, no meio do mundo, da proposta salvadora de Deus. É desta forma que vemos a Igreja nascida de Jesus? Sentimo-nos plenamente membros dela? Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que esta família viva unida e testemunhe o amor de Deus no meio dos homens? in Dehonianos
EVANGELHO – João 1,29-34
Naquele tempo,
João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro,
e exclamou:
«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
Era d’Ele que eu dizia:
“Depois de mim virá um homem,
que passou à minha frente, porque existia antes de mim”.
Eu não O conhecia,
mas para Ele Se manifestar a Israel
é que eu vim batizar em água».
João deu mais este testemunho:
«Eu vi o Espírito Santo
descer do Céu como uma pomba e repousar sobre Ele.
Eu não O conhecia,
mas quem me enviou a batizar em água é que me disse:
“Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar
é que batiza no Espírito Santo”.
Ora eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».
CONTEXTO
Este trecho integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, a principal preocupação do autor é apresentar a figura de Jesus.
João, o autor do Quarto Evangelho, dispõe os materiais que tem à sua disposição como se estivéssemos num teatro. Diante dos nossos olhos, diversas personagens vão entrando no palco e apresentam-nos Jesus. As “falas” que lhes são atribuídas são afirmações categóricas, carregadas de significado teológico, que nos convidam a mergulhar no mistério de Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João Baptista tem um lugar especial neste cenário de apresentação de Jesus. O seu testemunho aparece no início e no fim da secção (cf. Jo 1,19-37; 3,22-36), como se o seu testemunho fosse decisivo. De facto, a catequese cristã sempre viu João Batista como “o precursor do Messias”, aquele que Deus enviou para preparar os homens para acolherem Jesus.
Neste quadro que o Evangelho deste domingo nos apresenta, o narrador não define o auditório ao qual João se dirige. Com isso, ele pretende possivelmente sugerir que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens e mulheres de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã.
A cena narrada pelo autor do Quarto Evangelho passa-se em Betânia, na margem oriental do rio Jordão (cf. Jo 1,28), uma povoação situada perto de Jericó e até agora não identificada (Orígenes fala de “Bethabara”, ou “Casa da Passagem”). Alguns séculos antes, tinha sido da margem oriental do rio Jordão que os hebreus, libertados do Egito e conduzidos por Josué, “passaram” para a Terra Prometida. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- A liturgia deste domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco a olhar para esse facto espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta connosco – com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?
- João Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus, irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador cujo programa é restringir a liberdade dos seus súbditos; mas é um Pai cheio de amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós, esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não ajuda a construir uma vida com pleno sentido?
- Apesar da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens. O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença, de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?
- João Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que, apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus. Fazemo-lo? Somos sinais de Deus e testemunhas da vida de Deus no meio dos nossos irmãos? Quem olha para nós, para o que dizemos e fazemos, encontra a realidade de Deus?
- Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”? in Dehonianos.
Para os leitores
A proclamação da primeira leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto. A frase final – «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» – deve ser sublinhada como conclusão de todo o texto.
A segunda leitura é constituída por um único parágrafo com longas frases e orações. Deste modo, é necessária uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma correta articulação do texto.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 (Isaías 49, 3.5-6)
- Leitura II do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 (1Coríntios 1, 1-3)
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – Lecionário
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – Oração Universal
- Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 18.01.2026 – refletindo
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
Domingo I do Tempo Comum – Ano A – 11.01.2026
Domingo do Batismo do Senhor

Viver a Palavra
A liturgia deste dia – 11.01.2026 – celebra o Batismo de Jesus. Evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado aos homens como “Filho Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai lhe entregou: recriar o mundo, fazer nascer um Homem Novo. E propõe-nos, a todos nós que fomos batizados em Cristo, que tiremos desse facto as consequências que se impõem. in Dehonianos.
A Igreja do Oriente já celebrava a Epifania e o Batismo de Jesus, no ano 300, em 6 de janeiro, enquanto a Igreja do Ocidente comemorava esta festa apenas na Liturgia das Horas. Em 1969, com a Reforma litúrgica, esta festa foi marcada no Domingo após a Epifania. Onde a Solenidade da Epifania não puder ser celebrada no dia 6 de janeiro, pode ser no domingo entre 2 e 8 de janeiro e a Festa do Batismo, na segunda-feira após a Epifania. Com esta festa, termina o ciclo de Natal, embora permaneça a possibilidade de celebrar, em 2 de fevereiro, a Apresentação do Senhor ao Templo, “Luz dos povos” (também conhecida como festa das “Candeias”). In Vatican News
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 42,1-4.6-7
Diz o Senhor:
«Eis o meu servo, a quem Eu protejo,
o meu eleito, enlevo da minha alma.
Sobre ele fiz repousar o meu espírito,
para que leve a justiça às nações.
Não gritará, nem levantará a voz,
nem se fará ouvir nas praças;
não quebrará a cana fendida,
nem apagará a torcida que ainda fumega:
proclamará fielmente a justiça.
Não desfalecerá nem desistirá,
enquanto não estabelecer a justiça na terra,
a doutrina que as ilhas longínquas esperam.
Fui Eu, o Senhor, que te chamei segundo a justiça;
tomei-te pela mão, formei-te
e fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações,
para abrires os olhos aos cegos,
tirares do cárcere os prisioneiros
e da prisão os que habitam nas trevas».
CONTEXTO
O texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Este profeta anónimo cumpriu a sua missão profética na Babilónia, na fase final do Exílio (entre 550 e 539 a.C.). Tinham passado algumas dezenas de anos desde que Nabucodonosor havia destruído Jerusalém e arrastado para o cativeiro a maior parte dos habitantes de Judá. Os judeus cativos desesperam porque o tempo vai passando e a libertação (anunciada por Ezequiel, um outro profeta do tempo do Exílio) nunca mais acontece. Será que Deus se esqueceu das suas promessas?
O Deutero-Isaías sente que Deus o envia a dizer aos seus concidadãos, exilados e desanimados, palavras de esperança. Cumprindo o mandato de Deus, o profeta fala da iminência da libertação, comparando-a ao antigo êxodo, quando Deus salvou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); e anuncia-lhes, também, a reconstrução de Jerusalém, a cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” do Deutero-Isaías aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de um personagem misterioso e enigmático, que os biblistas designam como o “Servo de Javé”. Esse personagem será Jeremias, o profeta que tanto sofreu por causa da missão? Será o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho de Deus num cenário tão difícil? Será Ciro, rei dos persas, que alguns anos depois libertará os judeus exilados e autorizará o seu regresso a Jerusalém? Não sabemos ao certo. Mas esse “Servo de Javé” é apresentado como um predileto de Javé, chamado para o serviço de Deus, enviado por Deus aos homens de todo o mundo. A sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra. O sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.
O texto que hoje nos é proposto é parte do primeiro cântico do “Servo” (cf. Is 42,1-9). in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A história do “Servo de Javé”, que recebeu a plenitude do Espírito para ser “luz das nações”, abrir “os olhos aos cegos”, tirar “do cárcere os prisioneiros” e “da prisão os que habitam nas trevas”, lembra-nos, desde logo, que Deus age através de “profetas” a quem confia a transformação do mundo e a libertação dos homens. No dia em que fomos batizados, recebemos, também nós, o Espírito que nos capacitou para uma missão semelhante à desse “Servo”. Tenho consciência de que cada batizado é um instrumento de Deus na renovação e transformação do mundo? Estou disposto a corresponder ao chamamento de Deus e a assumir a minha responsabilidade profética? Os pobres, os oprimidos, os que “jazem nas trevas e nas sombras da morte”, os que não têm eira nem beira, nem voz nem vez, nem convite para se sentar à mesa da humanidade podem contar com a minha solidariedade ativa, com a minha ajuda fraterna, com o meu abraço, com a minha partilha generosa?
- A missão profética só faz sentido à luz de Deus: é sempre Ele que toma a iniciativa, que escolhe, que chama, que envia e que capacita para a missão… Aquilo que fazemos, por mais válido que seja, não é obra nossa, mas sim de Deus; o nosso êxito na missão não resulta das nossas qualidades, mas da iniciativa de Deus que age em nós e através de nós. Somos apenas colaboradores de Deus, “humildes trabalhadores da vinha do Senhor”. É sempre Deus que projeta e que age, através da nossa fragilidade, para oferecer ao mundo a Vida e a salvação. Esquecer isto pode conduzir-nos à arrogância, à autossuficiência, à vaidade, ao convencimento; e, sempre que isso acontece, a nossa intervenção no mundo acaba por desvirtuar o projeto de Deus. Em que atitudes se concretiza a minha missão profética no acolhimento do projeto de Deus?
- Atentemos ainda na forma de atuar do “Servo”: ele não se impõe pela força, pela violência, pelo dinheiro, ou pelos amigos poderosos; mas atua com suavidade, com mansidão, com humildade, no respeito pela liberdade dos irmãos e irmãs a quem é enviado… É esta lógica – a lógica de Deus – que eu utilizo no desempenho da missão profética que Deus me confiou? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)
Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.
Tributai ao Senhor, filhos de Deus,
tributai ao Senhor Glória e poder.
Tributai ao Senhor a glória do seu nome,
adorai o Senhor com ornamentos sagrados.
A vos do Senhor ressoa sobre as nuvens,
o Senhor está sobre a vastidão das águas.
A voz do Senhor é poderosa,
a voz do Senhor é majestosa.
A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão
e no seu templo todos clamam: Glória!
Sobre as águas do dilúvio senta-Se o Senhor,
o Senhor senta-Se como rei eterno.
LEITURA II – Atos 10,34-38
Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Na verdade,
eu reconheço que Deus não faz aceção de pessoas,
mas, em qualquer nação,
aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável.
Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel,
anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.
Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do batismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio,
porque Deus estava com Ele».
CONTEXTO
Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram ou continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. At 1-12), a reflexão centra-se na difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; na segunda (cf. At 13-28), conta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (sobretudo por ação de Paulo): no Mediterrâneo, na Ásia Menor, na Grécia, até atingir Roma, o coração do império.
O texto de hoje está integrado na primeira parte dos “Atos”. Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon (cf. At 9,32-11,18) – isto é, na planície junto da orla mediterrânica palestina. Em concreto, o texto propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. At 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é a primeira pessoa completamente pagã (o etíope evangelizado e convertido por Filipe e de que se fala em At 8,26-40 era “prosélito” e por isso já estava ligado ao judaísmo) admitida na comunidade cristã por um dos Doze. Admite-se, assim, que o Evangelho de Jesus não deve ficar circunscrito às fronteiras étnicas judaicas, mas é uma Boa Notícia destinada a todos os homens e mulheres, de todas as raças e culturas.
Cesareia Marítima, cidade reconstruída por Herodes, o Grande, ficava na costa palestina. Era a sede do poder romano, pois era aí que residiam os governadores romanos da Judeia (como Pôncio Pilatos, o governador que, pelo ano 30, autorizou a morte de Jesus). A cidade foi evangelizada pelo diácono Filipe (cf. At 8,40). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Jesus recebeu o Batismo e foi ungido com a força do Espírito; depois, “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio”. Em cada passo do caminho que percorreu, Ele distribuiu, em gestos concretos, bondade, misericórdia, perdão, solidariedade, amor… Nós, cristãos, que “acreditamos” em Jesus, que nos comprometemos com Ele e O seguimos, assumimos este “programa”? Nós, que fomos batizados e ungidos com a força do Espírito, testemunhamos também, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, o perdão e o amor de Deus pelos homens? Empenhamo-nos em libertar todos os que são oprimidos pelo demónio do egoísmo, da injustiça, da exploração, da exclusão, da solidão, da doença, do analfabetismo, do sofrimento?
- “Reconheço que Deus não faz aceção de pessoas” – diz Pedro no seu discurso em casa de Cornélio. E nós, filhos desse Deus que ama a todos da mesma forma e que a todos oferece igualmente a salvação, aceitamos todos os irmãos da mesma forma, reconhecendo a igualdade fundamental de todos os homens em direitos e dignidade? Temos consciência de que a discriminação de pessoas por causa da cor da pele, da raça, do sexo, da orientação sexual ou do estatuto social é uma grave subversão da lógica de Deus? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 3,13-17
Naquele tempo,
Jesus chegou da Galileia
e veio ter com João Baptista ao Jordão,
para ser batizado por ele.
Mas João opunha-se, dizendo:
«Eu é que preciso de ser batizado por Ti,
e Tu vens ter comigo?».
Jesus respondeu-lhe:
«Deixa por agora;
convém que assim cumpramos toda a justiça».
João deixou então que Ele Se aproximasse.
Logo que Jesus foi batizado, saiu da água.
Então, abriram-se os céus
e Jesus viu o Espírito de Deus
descer como uma pomba e pousar sobre Ele.
E uma voz vinda do Céu dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência».
CONTEXTO
Em dia da celebração da festa do Batismo do Senhor, o Evangelho leva-nos até ao vale do rio Jordão, nas franjas do deserto de Judá. A tradição identifica esse lugar com o atual Qasr El Yahud, na margem oriental do rio Jordão, a cerca de 10 quilómetros do Mar Morto. Era um local de passagem para os peregrinos que vinham da Galileia para Jerusalém.
O rio Jordão é o rio mais emblemático da terra de Israel. Atravessa-a de alto a baixo, desde o sopé do monte Hermon até ao mar Morto, num percurso de cerca de 300 quilómetros (104 em linha reta). As suas águas são fonte de vida. Foi através desse rio que os hebreus, conduzidos por Josué (após a morte de Moisés) entraram na Terra Prometida (cf. Js 3-4). No tempo do profeta Eliseu, o general sírio Naamã viu-se curado da lepra ao mergulhar nas águas do Jordão (cf. 2Rs 5,10-14).
Alguns séculos mais tarde, no final do ano 27 ou princípio do ano 28 d.C., apareceu nas margens do rio Jordão um profeta original e independente com uma mensagem nova e verdadeiramente interpelante. A mensagem proposta por João estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.
O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. Era, inclusive, um ritual usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus. A imersão na água sugeria a rutura com a vida passada e o ressurgir para uma vida nova, um novo nascimento, um novo começo. No que diz respeito ao Batismo proposto por João, estamos provavelmente diante de um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo”, renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade que esperava o Messias.
Jesus, que vivia na sua aldeia de Nazaré, na Galileia, ouviu a certa altura falar de João e da sua pregação. Procurou-o nas margens do rio Jordão e escutou o seu apelo à conversão. Na sequência, Jesus quis também receber o batismo. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- No episódio do batismo, Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para os libertar da morte e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Uma vez mais se confirma uma realidade que a cada instante reaparece ao longo da história da salvação: o cuidado de Deus com seus queridos filhos que peregrinam na história, o imenso amor que Ele nos dedica, a vontade que Ele tem de levar-nos ao encontro da vida verdadeira… Apesar das nossas fragilidades e das nossas leviandades, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa ingratidão e da nossa inconsciência, Deus continua a chamar-nos, a falar connosco, a escrever-nos cartas de amor, a vir ao nosso encontro e a acompanhar-nos no caminho, a oferecer-nos a possibilidade de integrar a Sua família. E nós, que temos de fazer em resposta ao dom de Deus? O que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai, acolhamos a sua oferta de salvação, nos dispúnhamos a seguir Jesus no caminho do amor, da entrega, do dom da vida. Como vemos e como sentimos esta história de comunhão que Deus insiste em viver connosco? Como é que respondemos ao amor de Deus?
- O episódio do batismo de Jesus coloca-nos frente a frente com um Deus que aceitou identificar-Se com o homem, partilhar a sua humanidade e fragilidade, a fim de oferecer ao homem um caminho de liberdade e de vida plena. Nós crentes, filhos deste Deus, aceitamos ir ao encontro dos nossos irmãos mais desfavorecidos e estender-lhes a mão? Partilhamos a sorte dos pobres, dos sofredores, dos injustiçados, sofremos na alma as suas dores, aceitamos identificar-nos com eles e participar dos seus sofrimentos, a fim de melhor os ajudar a conquistar a liberdade e a vida plena? Não temos medo de nos sujarmos ao lado dos pecadores, dos marginalizados, se isso contribuir para os promover e para lhes dar mais dignidade e mais esperança?
- Depois de ser batizado no rio Jordão, Jesus foi ungido pelo Espírito de Deus e abraçou, sem reticências, a missão que o Pai lhe confiava: propor e construir o Reino de Deus. Todos nós que fomos batizados em Cristo recebemos o mesmo Espírito de Deus que Ele recebeu e entramos na comunidade do Reino. No dia do nosso batismo recebemos a missão de colaborar com Jesus na construção de um mundo mais fraterno e mais humano. Temos sido fiéis a essa missão? O nosso compromisso batismal é uma realidade que procuramos renovar a cada passo, ou é letra morta que não toca a forma como vivemos? Somos batizados “de assinatura” (porque o nosso nome aparece num qualquer livro de registos de Batismo), ou somos cristãos de facto, que procuram seguir Jesus em cada passo do caminho e colaborar com Ele no sentido de curar o mundo das suas feridas?
- Jesus sempre levou muito a sério aquela declaração de Deus que se escutou junto do rio Jordão: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência”. Esse amor que o Pai lhe dedicava sempre sustentou as opções de Jesus e sempre iluminou o caminho que Ele ia percorrendo (mesmo quando no horizonte estava a cruz, o abandono dos amigos, o aparente fracasso da missão). Sustentado pelo amor de Deus, Jesus assumiu incondicionalmente o projeto do Pai de dar vida à humanidade. Obedeceu em tudo ao Pai, sem reticências de qualquer espécie. É esta mesma atitude de obediência radical, de entrega incondicional, de confiança absoluta que eu – filho amado de Deus – assumo na minha relação com o Pai? O projeto de Deus é, para mim, mais importante de que os meus projetos pessoais ou do que os desafios que o mundo me lança? Como Jesus, confio plenamente no Pai, nas suas propostas, no seu cuidado, no seu amor?
- Depois de batizado e de ser ungido pelo Espírito, Jesus não se instalou numa crença religiosa de meias tintas ou de serviços mínimos. Animado pela força do Espírito, partiu para a Galileia a anunciar o Reino de Deus e a testemunhar – com palavras e com gestos – o projeto libertador do Pai. É dessa forma – coerente, comprometida, apaixonada – que eu procuro viver a missão que Deus me confiou no dia em que eu fui batizado? Os meus irmãos e irmãs maltratados pela vida e pelos homens podem contar com o meu empenho em levar-lhes a carícia do Deus que cura e que dá Vida? in Dehonianos.
ANEXOS:
-
- Leitura I do Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 (Isaías 42, 1-4.6-7)
- Leitura II do Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 (Atos 10, 34-38)
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – Lecionario
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – Oração Universal
- Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo do Batismo do Senhor – Ano A – 11.01.2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026

Viver a Palavra
A liturgia deste dia – Epifania do Senhor – celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… O Menino do presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Essa “luz” encarnou na nossa história e no nosso mundo, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. in Dehonianos.
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Isaías 60,1-6
Levanta-te e resplandece, Jerusalém,
porque chegou a tua luz
e brilha sobre ti a glória do Senhor.
Vê como a noite cobre a terra,
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor,
e a sua glória te ilumina.
As nações caminharão à tua luz,
e os reis ao esplendor da tua aurora.
Olha ao redor e vê:
todos se reúnem e vêm ao teu encontro;
os teus filhos vão chegar de longe
e as tuas filhas são trazidas nos braços.
Quando o vires ficarás radiante,
palpitará e dilatar-se-á o teu coração,
pois a ti afluirão os tesouros do mar,
a ti virão ter as riquezas das nações.
Invadir-te-á uma multidão de camelos,
de dromedários de Madiã e Efá.
Virão todos os de Sabá,
trazendo ouro e incenso
e proclamando as glórias do Senhor.
CONTEXTO
Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja proveniência não é, entre os estudiosos da Bíblia, totalmente consensual… Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílico, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de diversos autores pós-exílicos e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI e V a.C.).
Em geral, estas profecias situam-nos em Jerusalém, a cidade que os Babilónios deixaram em ruínas, em 586 a.C., e que agora começa a reerguer-se. As marcas do passado ainda se notam nas pedras calcinadas da cidade; os filhos e filhas de Jerusalém que regressaram do exílio na Babilónia são ainda em número reduzido; a pobreza geral obriga a que a reconstrução seja lenta e muito modesta; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada… Sonha-se, no entanto, com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade para trazer a salvação definitiva ao seu Povo. Então, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.
O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até ao pôr do sol). in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- É bela esta imagem de Deus como uma luz que se acende nas nossas vidas e nas nossas cidades, iluminando os caminhos que temos de percorrer, aquecendo os nossos corações cansados e abatidos e transformando o nosso pessimismo e derrotismo em esperança e vida nova. Às vezes temos a sensação de que este mundo onde peregrinamos se tornou um lugar sombrio e triste, onde o ódio pode mais do que o amor, a guerra se impõe aos esforços pela paz, o egoísmo é mais apreciado do que a comunhão… Mas a verdade é que, quando parecemos perdidos em becos sem saída, a luz de Deus vem iluminar o mapa dos caminhos que devemos andar para encontrar Vida. Não vivamos de olhos postos no chão, afogados numa escuridão que nos rouba a esperança; ousemos, mesmo em momentos complicados da história do mundo e da nossa história pessoal, levantar os olhos e perceber a presença desse Deus que nunca desistirá de iluminar todos os passos do nosso caminho rumo à Vida. Estamos dispostos a deixarmo-nos iluminar pela luz de Deus?
- Podemos, naturalmente, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos fale, nos aponte caminhos de vida nova e nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Estamos disponíveis para dar testemunho dessa luz junto dos irmãos que compartilham o caminho connosco?
- Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25). Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora de Jesus? Elas são, pelo seu brilho, uma luz que atrai os homens? As nossas desavenças e conflitos, a nossa falta de amor e de partilha, os nossos ciúmes e rivalidades, a nossa passividade e conformismo não contribuirão para embaciar o brilho dessa luz de Deus que devíamos refletir?
- Será que na nossa comunidade cristã há espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de Deus? Os irmãos cuja vida é considerada irregular ou pouco condizente com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados? As diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar, ou são rejeitadas porque ameaçam a uniformidade? A nossa comunidade cristã é o “hospital” onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a vida lhes infligiu? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)
Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.
Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar
e a vossa justiça ao filho do rei.
Ele governará o vosso povo com justiça
e os vossos pobres com equidade.
Florescerá a justiça nos seus dias
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Ele dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.
Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes,
os reis da Arábia e de Sabá trarão suas ofertas.
Prostrar-se-ão diante dele todos os reis,
todos os povos o hão de servir.
Socorrerá o pobre que pede auxílio
e o miserável que não tem amparo.
Terá compaixão dos fracos e dos pobres
e defenderá a vida dos oprimidos.
LEITURA II – Efésios 3,2-3a.5-6
Irmãos:
Certamente já ouvistes falar
da graça que Deus me confiou a vosso favor:
por uma revelação,
foi-me dado a conhecer o mistério de Cristo.
Nas gerações passadas,
ele não foi dado a conhecer aos filhos dos homens
como agora foi revelado pelo Espírito Santo
aos seus santos apóstolos e profetas:
os gentios recebem a mesma herança que os judeus,
pertencem ao mesmo corpo
e participam da mesma promessa,
em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.
CONTEXTO
A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).
É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta, talvez uma “carta circular” enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor, parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino.
O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, oculto durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.
Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe ainda como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. Ef 2,11-22)… O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13). in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Segundo Paulo, a salvação oferecida por Deus e revelada em Jesus não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para todos os povos, sem distinção de raça, de cor, de cultura ou de estatuto social. Todos os homens e mulheres são filhos e filhas queridos de Deus. A todos Deus ama, todos fazem parte de uma família universal. Será que conseguimos ver em cada pessoa, independentemente das diferenças e particularismos que apresenta, um irmão ou uma irmã? Conseguimos apreciar devidamente a beleza de pertencer a uma família onde as diferenças não dividem, mas são um bem acrescentado que a todos enriquece?
- A fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade…. Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças?
- A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Esta comunidade é um espaço privilegiado onde se revela o projeto salvador que Deus tem para oferecer a todos os homens. É isso que, de facto, acontece? Na vida das nossas comunidades transparece realmente o amor de Deus? As nossas comunidades são verdadeiras comunidades fraternas, onde todos se amam sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, ou de história de vida? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 2,1-12
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia,
nos dias do rei Herodes,
quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles –
o rei dos judeus que acaba de nascer?
Nós vimos a sua estrela no Oriente
e viemos adorá-l’O».
Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado,
e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.
Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo
e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam:
«Em Belém da Judeia,
porque assim está escrito pelo profeta:
‘Tu, Belém, terra de Judá,
não és de modo nenhum a menor
entre as principais cidades de Judá,
pois de ti sairá um chefe,
que será o Pastor de Israel, meu povo’».
Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos
e pediu-lhes informações precisas
sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.
Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:
«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino;
e, quando O encontrardes, avisai-me,
para que também eu vá adorá-l’O».
Ouvido o rei, puseram-se a caminho.
E eis que a estrela que tinham visto no Oriente
seguia à sua frente
e parou sobre o lugar onde estava o Menino.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.
Entraram na casa,
viram o Menino com Maria, sua Mãe,
e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.
Depois, abrindo os seus tesouros,
ofereceram-Lhe presentes:
ouro, incenso e mirra.
E, avisados em sonhos
para não voltarem à presença de Herodes,
regressaram à sua terra por outro caminho.
CONTEXTO
O episódio da visita dos magos ao Menino de Belém, narrado no evangelho de Mateus, é um episódio de grande beleza, que rapidamente se tornou muito popular entre os cristãos. Ao longo dos séculos a piedade popular não cessou de o embelezar com acrescentos que, na maior parte dos casos, não encontram eco no texto de Mateus.
Os biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever uma visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas sim apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra.
Na base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do Crescente Fértil, de que cada criança que nascia tinha a sua própria estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que iria mudar a história humana. É provável também que Mateus se tenha inspirado, para construir esta bonita narrativa, num texto do livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio teve sempre, para os teólogos de Israel, um claro sabor messiânico.
Finalmente, o relato de Mateus faz uma referência ao rei que governava a Palestina na altura do nascimento de Jesus: Herodes, chamado “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o seu trono. in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Em primeiro lugar, atentemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, a “luz salvadora” enviada por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Com qual destes grupos nos identificamos? Será possível sermos “cristãos praticantes”, andarmos envolvidos nas atividades da comunidade cristã e, simultaneamente, passarmos ao lado das propostas de Jesus? Nós, os que conhecemos as Escrituras, levámo-las a sério quando elas nos desafiam à conversão, ao compromisso, à opção clara pelos valores do Evangelho?
- Os “magos” são os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da luz libertadora de Deus. Talvez hoje, com toda a pressão que a vida nos coloca, não consigamos ter tempo para olhar para o céu, à procura dos sinais de Deus; talvez a vida nos obrigue a andar de olhos no chão, ocupados em coisas bem rasteiras e materiais… Mas a aventura da existência terá mais cor se arranjarmos tempo para parar, para meditar, para falar com Deus, para escutar as suas indicações, para tentar ler os sinais que Ele vai colocando ao longo do nosso caminho… A nossa peregrinação pela terra não fará mais sentido se aprendermos a ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus?
- O relato de Mateus sublinha, por outro lado, a “desinstalação” dos “magos”: eles descobriram a “estrela” e, imediatamente, deixaram tudo para procurar Jesus. O risco da viagem, a incomodidade do caminho, o confronto com o desconhecido, nada os impediu de partir. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, ao nosso comando da televisão, ao nosso computador, à nossa zona de conforto, à nossa segurança, ao nosso comodismo? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz, muitas vezes através dos irmãos que necessitam da nossa ajuda e do nosso cuidado?
- Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?
- Os “magos”, depois de se encontrarem com Jesus e de o reconhecerem como “o Senhor”, “regressaram ao seu país por outro caminho”. O encontro com o Menino do presépio tem sido, nestes dias, um momento de confronto que nos leva a reequacionar a nossa vida, os nossos valores e opções, e a enveredar por um caminho novo, mais simples, mais humilde, mais fraterno, mais humano? in Dehonianos.
ANEXOS:
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- Santa Maria, Mãe de Deus – Ano A – 01.01.2026 – Lecionário
- Santa Maria, Mãe de Deus – Ano A – 01.01.2026 -Oração Universal
- Leitura I do Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 (Isaías 60, 1-6)
- Leitura II do Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 (Efésios 3, 2-3a.5-6)
- Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 – Lecionário
- Domingo da Epifania – Ano A – 04.01.2026 – Oração Universal
- Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo da Epifania do Senhor – Ano A – 04.01.2026
- Mensagem do Papa Leão XIV – 59º Dia Mundial da Paz
- Ano A – O ano do evangelista Mateus