Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026

Viver a Palavra
A vida cristã envolve a vida toda e toda a vida e o convite à conversão que se torna mais incisivo neste tempo quaresmal recorda-nos precisamente que a conversão exige uma transformação do coração e da vida que chegue a todos os âmbitos da nossa ação. A conversão não é apenas uma adesão intelectual à proposta de Jesus Cristo, nem um conjunto de boas intenções para a prática de boas obras, mas o encontro decisivo com Jesus que nos faz entrar na dinâmica sempre nova de conformar a nossa vida com a Sua vontade.
No nosso itinerário quaresmal, o segundo Domingo da Quaresma irrompe luminosamente, apresentando Jesus sobre o monte com Pedro, Tiago e João. Assim como estes três discípulos foram escolhidos e chamados, também nós, somos convocados pelo amor misericordioso de Jesus que gratuitamente nos escolhe para nos fazer experimentar a luz nova que só o Seu amor e Sua graça nos podem oferecer. Assim nos testemunha S. Paulo, escrevendo a Timóteo e recordando-lhe a livre, gratuita e generosa ação de Deus nas nossas vidas: «sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça». Deste modo, agradecidos pelo dom generoso da vida divina que nos é concedida para lá das nossas boas obras, somos convidados a conformar a nossa vida com este mistério de amor que nos inquieta, desinstala e coloca a caminho. Partir é palavra de ordem para quem encontra em Jesus o sentido da sua vida.
Jesus não se detém nem nos detém, mas envia-nos: «levantai-vos e não temais». Como é importante recordar aqui o convite dirigido por Deus a Abraão para deixar a sua terra e a sua família. Mais importante ainda porque Deus não lhe indica uma meta geográfica, mas apenas a certeza da sua presença: «vai para a terra que Eu te indicar». Se é o Senhor Deus que lhe vai indicar o caminho, então Ele caminhará com Ele, estará com Ele para o guiar, proteger e defender. Por isso, Abraão parte confiado na palavra do Senhor, ainda que humanamente tivesse razões para desconfiar, pois a promessa de Deus é de fazer dele uma grande nação e oferecer-lhe uma inúmera descendência, mas Abraão e sua mulher Sara são de idade avançada. Todavia, «Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado» e a promessa de Deus realizou-se para nos testemunhar a certeza que quando somos capazes de abandonar os nossos comodismos, as nossas certezas fundadas apenas nas nossas capacidades humanas e nos abrimos à livre, gratuita e generosa iniciativa de Deus a nossa vida se torna lugar de bênção que difunde ao longe e ao largo o suave perfume da ternura e da bondade do Pai.
Neste Domingo subimos com Jesus ao Monte e como Pedro, Tiago e João somos chamados a contemplar a luz nova que brota da Sua presença no meio de nós. Aos discípulos é antecipada a luz nova da Páscoa que será plena e definitiva na manhã da Ressurreição. Na narrativa que nos apesenta S. Mateus surpreende-me sempre a descrição da experiência que os discípulos fazem de Jesus. Eles contemplam Jesus resplandecente como o sol e com vestes brancas como a luz. Vêm Moisés e Elias e a nuvem luminosa. Escutam a voz do Pai e são tocados por Jesus que os desafia a colocar-se ao caminho. É curioso que apenas a narrativa da Transfiguração no Evangelho de Mateus nos oferece este pormenor de Jesus que toca os seus discípulos. A experiência pascal de encontro com Jesus Cristo, experimentada por antecipação, no episódio da transfiguração, convida-nos a contemplar, a ver, a escutar, a ser tocados, a caminhar, isto é, convida-nos a uma transformação da vida toda, implicando todos os sentidos e desafiando a uma conversão cada vez mais total e totalizante das nossas vidas. in Voz Portucalense.
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Estamos no Ano Litúrgico – Ano A – onde seremos acompanhados pelo evangelista Mateus. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do Ano Litúrgico pôde ser acompanhado como uma oportunidade para um encontro ou até vários encontros, sobre o Evangelista deste ano litúrgico.
Como se diz acima, durante todo este ano litúrgico – 2025/2026 – acompanhamos o evangelista Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.
E fizemos isso….
Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~
LEITURA I – Génesis 12,1-4
Naqueles dias,
o Senhor disse a Abrão:
«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai
e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção.
Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar;
por ti serão abençoadas todas as nações da terra».
Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
CONTEXTO
A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se costuma dar o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Esses capítulos reúnem materiais bastante diversos: “mitos de origem” (relatos que descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca de um determinado clã), “lendas cultuais” (narrativas populares cheias de elementos fantásticos, que descreviam como uma figura divina tinha aparecido num determinado lugar ao patriarca de um clã e lhe tinha deixado uma mensagem, dando origem a um culto), indicações mais ou menos concretas sobre o dia a dia dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o segundo milénio (nascimentos e mortes, casamentos, conflitos familiares, lutas pela água ou pelas pastagens contra os pastores de outros clãs ou contra os povos sedentários das regiões que atravessavam) e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.
Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto nesses capítulos estão as migrações históricas de diversos povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do segundo milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia – ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do segundo milénio – e que continuaram o seu caminho migratório ao longo do Crescente Fértil, à procura de uma terra onde “plantar” definitivamente a sua tenda, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem parte dessa onda migratória.
Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac, Jacob e Lot – transportavam consigo os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. “Uma terra e uma descendência numerosa”: tal era o sonho que cada uma destas tribos longamente contemplava enquanto deambulava de terra em terra, ao sabor das vicissitudes do dia a dia, da abundância ou da carência de pastos e de fontes de água. O deus aceite pelo clã seria, para cada um destes grupos, o garante da concretização desses sonhos.
Abraão, o protagonista da nossa primeira leitura deste domingo, viveu por volta de 1850 a.C. in Dehonianos
INTERPELAÇÕES
- A figura de Abraão que nos é apresentada pela catequese de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência plena e com uma entrega total… Abraão, o homem que vive de Deus e para Deus, continua hoje a questionar o homem moderno, esse homem atarefado e autossuficiente que não tem tempo para “perder” com Deus pois está demasiado ocupado a conquistar o mundo, a ganhar dinheiro, a construir uma carreira recheada de êxitos, ou a aproveitar todos os “gozos” que a vida lhe pode proporcionar. Há lugar para Deus no nosso projeto de vida? No meio do ruído ensurdecedor que preenche as nossas idas e vindas, conseguimos escutar a voz de Deus? Como respondemos aos desafios que Deus a cada passo nos coloca?
- Abraão escuta a voz de Deus. Deus manda-o partir e Abraão simplesmente põe-se a caminho. Não discute, não argumenta, não pede garantias, não põe condições. Não pede nenhum “sistema de posicionamento global” (GPS) para se orientar, nem solicita mapas atualizados dos caminhos que terá de percorrer. Não pergunta qual é o seu destino final, não exige saber se vai ao encontro de uma vida mais fácil. Simplesmente entrega-se nas mãos de Deus e vai. Com confiança absoluta, com total disponibilidade. A atitude de Abraão questiona o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estamos dispostos a mudar os nossos horizontes, a “pormo-nos a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica que Deus nos aponta, ou preferimos continuar prisioneiros dos nossos esquemas pré-concebidos, dos nossos medos, dos nossos velhos hábitos, das nossas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?
- O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida? in Dehonianos.
SALMO RESPONSORIAL – SALMO 32 (33)
Refrão 1: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.
Refrão 2: Desça sobre nós a vossa misericórdia,
porque em Vós esperamos, Senhor.
A palavra do Senhor é reta,
na fidelidade nascem as suas obras.
Ele ama a justiça e a retidão:
a terra está cheia da bondade do Senhor.
Os olhos do Senhor estão voltados para os que O temem,
para os que esperam na sua bondade,
para libertar da morte as suas almas
e os alimentar no tempo da fome.
A nossa alma espera o Senhor:
Ele é o nosso amparo e protetor.
Venha sobre nós a vossa bondade,
porque em Vós esperamos, Senhor.
LEITURA II – 2 Timóteo 1,8b-10
Caríssimo:
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus.
Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade,
não em virtude das nossas obras,
mas do seu próprio desígnio e da sua graça.
Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus,
desde toda a eternidade
manifestou-se agora pelo aparecimento
de Cristo Jesus, nosso Salvador,
que destruiu a morte
e fez brilhar a vida e a imortalidade,
por meio do Evangelho.
CONTEXTO
De acordo com a narrativa dos Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia (região histórica no interior da antiga Ásia Menor, na atual Turquia), no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições”), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).
Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, uma questão em aberto: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). Talvez alguns dados da carta – de natureza bastante pessoal – venham de Paulo; mas dificilmente este escrito pode ser atribuído a Paulo na sua totalidade.
Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham.
MENSAGEM
O autor do escrito – que refere, de passagem, a sua situação de “prisioneiro” por causa do Evangelho (vers. 8a) – exorta Timóteo a ser, para a comunidade cristã cuja responsabilidade lhe foi confiada, um modelo de fidelidade, de amor, de bom senso e de fortaleza no testemunho da fé. Foi para isso que ele recebeu a “imposição das mãos”, gesto que o capacitou para o cumprimento da sua missão apostólica (cf. 2Tm 1,6-7). O dom de Deus, continuamente reavivado, fará com que Timóteo supere a sua juventude e timidez e dê testemunho de Cristo e do seu Evangelho.
De resto, Timóteo deverá ter sempre presente que foi escolhido e chamado para colaborar no projeto salvador de Deus em favor dos homens. Recorrendo, provavelmente, a um fragmento de um velho hino litúrgico cantado nas primeiras comunidades cristãs, o autor da Carta lembra a Timóteo a grandeza e a beleza desse projeto: Deus, no seu amor infinito, quer que todos os homens se salvem e encontrem vida em abundância; sem ter em conta as faltas e as indignidades dos homens, Deus quis oferecer-lhes gratuitamente a sua salvação; ora, essa salvação “apresentou-se“ na história humana na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus que “desceu” ao encontro dos homens, que caminhou com eles, que lhes ofereceu a salvação de Deus, que lutou contra a injustiça, a violência e o pecado, que derrotou a morte, que irradiou a vida e a imortalidade por meio do Evangelho que propôs (vers. 9-10). Esta maravilhosa iniciativa de Deus é o acontecimento decisivo da história dos homens. Nesse longo caminho que a humanidade vem percorrendo pela história, nada há de mais grandioso e de mais decisivo do que este projeto de Deus.
Ora, tanto Paulo como Timóteo foram escolhidos por Deus para “ministros” deste projeto. É uma vocação sublime! Apesar dos seus limites e fragilidades, Deus quis contar com eles para darem testemunho no meio dos homens da sua salvação. Paulo e Timóteo – e tantos outros que Deus escolheu e enviou – são arautos da salvação de Deus. Não podem, de forma nenhuma, “esconder-se”, demitir-se da responsabilidade que lhes foi confiada, deixar-se abater pelo medo, calar essa “Boa Notícia” que Jesus lhes confiou e os convidou a testemunhar em toda a terra.
Sim, aproximam-se tempos de dificuldade e de perseguição para todos aqueles que aderiram à proposta de salvação que Jesus veio trazer. O império declarou guerra ao Evangelho de Jesus. Por todo o lado, as comunidades cristãs sentem enfraquecer a sua coragem e diminuir o seu compromisso. Muitos instalam-se na mediocridade, deixam-se arrastar pela corrente, escolhem viver sem problemas, optam pela facilidade. Nestes tempos difíceis, contudo, aqueles que, como Paulo ou como Timóteo, têm a responsabilidade de presidir às comunidades e animar os seus irmãos na fé, devem levar muito a sério a missão que lhes foi confiada. Têm de manter-se fortes; têm de ser, no meio dos seus irmãos mais frágeis, testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projeto salvífico e amoroso de Deus in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Quando olhamos para a história da humanidade com olhos de “crentes”, conseguimos com alguma facilidade detetar a presença e a ação salvadora de Deus em cada passo do caminho que os homens vão percorrendo. Formados na escola da fé, talvez isso nos pareça bem “normal”: o Deus no qual acreditamos é um Deus que ama incondicionalmente os seus queridos filhos e que, por isso, está sempre disposto a oferecer-lhes a possibilidade de chegarem à vida verdadeira. O que talvez nos pareça mais estranho é o facto de Deus nos chamar a colaborar com Ele nesse projeto: apesar da nossa pequenez e dos nossos limites, da nossa debilidade e da nossa tibieza, da nossa inclinação para a preguiça e da nossa apetência pelo comodismo, apesar de não sermos “de fiar”, Deus oferece-nos um papel na concretização do seu projeto de salvação. É através de nós que Deus vem ao encontro dos homens e lhes oferece a sua salvação. Paulo e Timóteo fizeram essa experiência. Talvez se tenham sentido indignos e talvez tenham desconfiado das suas frágeis forças; mas sentiram que não podiam defraudar as expetativas de Deus e levaram a sério o papel que Deus entendeu confiar-lhes enquanto arautos da Boa Nova da salvação. E nós, sentimos que isto também nos diz respeito? Sentimos que Deus nos chama a ser arautos da sua salvação no meio dos nossos irmãos?
- Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna? in Dehonianos
EVANGELHO – Mateus 17,1-9
Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão
e levou os, em particular, a um alto monte
e transfigurou Se diante deles:
o seu rosto ficou resplandecente como o sol
e as suas vestes tornaram se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés a outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra a assustaram se muito.
Então Jesus aproximou se e, tocando os, disse:
«Levantai vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».
CONTEXTO
O episódio da transfiguração de Jesus situa-se praticamente no final da “etapa da Galileia”. Durante um tempo relativamente longo (talvez perto de três anos), Jesus tinha andado pela Galileia, anunciando – com palavras (cf. Mt 5-7; 13) e com gestos poderosos (cf. 8,1-9,34) – a chegada do Reino de Deus. Ao longo dessa “etapa” Jesus esteve sempre acompanhado por um grupo de discípulos: gente que tinha escutado o chamamento de Jesus (cf. Mt 4,18-22; 10,1-10,42) e que tinha decidido segui-l’O. Esses discípulos, depois de tudo o que tinham visto e escutado enquanto acompanhavam Jesus pelas vilas e aldeias da Galileia, estavam convencidos que Ele era realmente o Messias que Israel esperava (cf. Mt 16,13-20).
No entanto, alguns dias antes da cena da transfiguração, os discípulos tinham ficado perplexos pela maneira como Jesus lhes descreveu o futuro próximo, a nova “etapa” que os esperava. O Mestre disse-lhes que “tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Mt 16,21-22). Os discípulos ficaram estupefactos: o caminho que Jesus se propunha seguir passava pelo sofrimento e pela morte (Ele tinha também falado em ressurreição; mas, por essa altura, eles não sabiam bem o que isso queria dizer)? Era esse o horizonte de Jesus? Não era com isso que contavam quando se dispuseram a andar com Ele. Pedro expressou a sua oposição a tudo isso num gesto radical: tomando Jesus de parte, “começou a repreendê-l’O, dizendo: ‘Deus te livre, Senhor! Isso nunca te há de acontecer!’” (Mt 16,22). Para piorar as coisas, Jesus pediu-lhes, logo a seguir, que renunciassem a si mesmos, tomassem a cruz e o seguissem no caminho do dom da vida até à morte (cf. Mt 16,24-26).
É natural que tudo isto afetasse os discípulos. Poderemos mesmo falar de uma “crise” que deixou o grupo num estado de absoluto desânimo. Jesus achou, face a este estado de coisas, que tinha chegado a hora de lhes desvelar o sentido do caminho que se propunha seguir. Chamou, então, Pedro, Tiago e João – o “núcleo duro” daquele grupo – e convidou-os a subir com Ele a um monte. Nesse dia e nesse monte eles iriam achar algumas respostas para as perguntas que os inquietavam.
O texto não identifica o “monte” para onde Jesus, Pedro, Tiago e João se dirigiram. Contudo, a tradição fala do Monte Tabor, uma montanha com 588 metros de altura, situada no meio da planície de Jezreel, coberta de carvalhos, pinheiros, ciprestes, aroeiras e plantas silvestres. O Tabor tinha sido, nos tempos antigos, um lugar sagrado para os povos cananeus. Nesse monte aqueles três discípulos vão entrever, ainda que por breves instantes, o projeto de Deus.
Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai elaborar um quadro onde coloca todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato exato de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a confirmar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.in Dehonianos.
INTERPELAÇÕES
- Neste segundo domingo da Quaresma façamos, também nós, a experiência de subir com Jesus ao monte… Enquanto subimos, podemos conversar com Ele e, com toda a sinceridade, dizer-Lhe as nossas dúvidas e inquietações. Podemos dizer-Lhe que, por vezes, nos sentimos perdidos e desanimados diante da forma como o nosso mundo se constrói; podemos dizer-lhe que o caminho que Ele aponta é duro e exigente e que não sabemos se teremos a coragem de o percorrer até ao fim; podemos até dizer-lhe, talvez com alguma vergonha, que às vezes duvidamos dele e corremos atrás de outras apostas, mais cómodas, mais atraentes e menos arriscadas… E, depois de lhe dizermos isso tudo, deixemos que Jesus nos fale, nos explique o seu projeto, nos renove o seu desafio… E vamos, também, prestar atenção à voz de Deus que nos garante: “olhem que esse Jesus que Eu enviei ao vosso encontro é o meu Filho, o meu eleito, aquele a quem Eu entreguei o projeto de um mundo mais humano e mais fraterno… Confirmo a verdade do caminho que Ele vos propõe. Escutai-O, ide com Ele, acolhei as suas propostas e indicações, mesmo que tenhais de remar contra a maré. O caminho que Ele vos aponta pode passar pela cruz, mas conduz à Vida verdadeira, à ressurreição”. Há espaço na nossa vida para ouvir essa “voz de Deus” e para caminharmos na direção que ela aponta?
- “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. É verdade: precisamos de escutar Jesus mais e melhor. Quando o “escutamos” – quer dizer, quando ouvimos o que Ele nos diz, quando acolhemos no coração as suas indicações e quando procuramos concretizá-las na vida – começamos a ver tudo com uma luz mais clara. Começamos a perceber qual é a maneira mais humana de enfrentar os problemas da vida e os males do nosso mundo; damos conta dos grandes erros que os seres humanos podem cometer e descobrimos as soluções que Deus nos aponta… Escutar Jesus pode curar-nos das nossas cegueiras seculares, dos preconceitos que nos impedem de acolher a novidade de Deus, dos medos que nos paralisam; escutar Jesus pode libertar-nos de desalentos e cobardias, e abrir o nosso coração à esperança. A escuta de Jesus está no centro da nossa experiência de fé? Nas nossas comunidades cristãs damos espaço suficiente à escuta de Jesus?
- O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?
- É verdade que, para muitos dos nossos contemporâneos, o caminho proposto por Jesus não parece muito entusiasmante… Não assegura bem-estar, nem bens materiais, nem triunfos, nem reconhecimento, nem fama, nem poder, nem tranquilidade, nem qualquer outro valor que muitos dos homens e mulheres do nosso tempo consideram fundamentais para que as suas vidas tenham algum sentido. Contudo, nós, discípulos de Jesus, acreditamos que só o amor – o amor vivido como serviço, como dom de si próprio, ao estilo de Jesus – dá sentido à vida; acreditamos que a construção de um mundo novo – mais humano, mais são, mais verdadeiro – depende de acolhermos e vivermos as propostas de Jesus. O que poderemos fazer para contagiar os nossos irmãos e irmãs com o nosso entusiasmo por Jesus e pelo seu projeto de um mundo novo?
- Pedro, Tiago e João, testemunhas da transfiguração de Jesus, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e de enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Propõem fazer três tendas e ficar no cimo daquele monte, onde tudo parece tão fácil e tão indolor. Representam aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga-nos a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens, mesmo contra a corrente, que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. O nosso compromisso com Jesus e com a construção do Reino de Deus concretiza-se na luta diária pela construção de um mundo mais justo, mais humano, mais cheio de amor? in Dehonianos.
Para os leitores:
A brevidade da primeira leitura não deve fazer descurar a sua preparação com uma atenção especial aos verbos no futuro que constituem a promessa de Deus a Abraão. Mais do que uma ordem, os verbos no imperativo constituem uma proposta que Deus faz a Abraão.
A segunda leitura, tal como é habitual no epistolário Paulino, apresenta frases longas que requerem uma especial atenção nas pausas e respirações.
ANEXOS:
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- Leitura I do Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 (Génesis 12, 1-4a)
- Leitura II do Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 (2 Timóteo 1, 8b-10)
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – Lecionário
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – Oração Universal
- Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026 – refletindo
- A Mesa da Palavra explicada – Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 01.03.2026
- Mensagem de SS Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026
- Ano A – O ano do evangelista Mateus
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