Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 18.10.2026

Viver a Palavra

Deus criador e redentor do género humano, por amor, criou cada homem e cada mulher. Moldando-nos com as Suas mãos de hábil oleiro ama-nos e recria-nos pela força transformadora do Seu amor. O Deus que ama, escolhe e chama para a missão, convoca-nos a todos para a construção de um mundo mais fraterno e mais justo. Ser feliz, seguindo a proposta de amor que Jesus tem para cada um de nós, é colocar a nossa vida nas mãos de Deus e disponibilizar o nosso coração para que se realize em nós a Sua obra.

            Apesar de mal-intencionados, fariseus e herodianos descrevem Jesus de modo assertivo e surpreendente: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas». Jesus, o Mestre sincero, não deixa ninguém de fora e a todos quer conduzir ao coração do Pai. Tem para cada homem e cada mulher um desígnio de amor e, na missão que o Pai lhe confiou, não quer que nenhum se perca. Desafia-nos a dar a Deus tudo o que a Ele lhe pertence e ensina-nos a arte de nos relacionarmos com os bens e poderes temporais dando-lhes também o que lhe é devido. Se somos obra das mãos de Deus, dar a Deus o que é de Deus significa oferecer a nossa vida toda para que o Reino de Deus se instaure no mundo.

            Na Liturgia da Palavra deste Domingo, chama-me particular atenção a consciência de que Deus vai operando na história por meio de homens e mulheres, que apesar da sua fragilidade, encontram a força e segurança das suas vidas na missão que o Senhor lhes confia.

            Ciro, rei da Pérsia, conquista a Babilónia e faz os israelitas sonhar com a libertação. O povo de Israel sabe que é Deus quem conduz a história e questiona-se ao saber ser um rei estrangeiro a concretizar o processo de libertação do exílio. Contudo, o rei Ciro é o ungido do Senhor, para conduzir o povo e escrever como instrumento de Deus a história da libertação do Povo de Israel.

            Deus ama o Seu Povo e escolhe homens e mulheres que sejam presença próxima do povo para operar as Suas maravilhas. Foi assim com Ciro como foi assim ao longo da história com tantos homens e mulheres escolhidos e enviados por Deus.

            É esta certeza que proclama S. Paulo quando se dirige aos tessalonicenses: «nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos». Paulo, Silvano e Timóteo são testemunhos deste mesmo amor que escolhe e envia. A eles juntam-se tantos outros que não apenas por palavras, mas, «mas também com obras poderosas, com a ação do Espírito Santo» realizam a missão que o Senhor lhes confiou.

            Conscientes da nossa fragilidade e pequenez, nós somos convidados a responder afirmativa e disponivelmente ao projeto de amor que Deus tem para nós. A Igreja é pela sua própria natureza missionária, isto é, enquanto Povo de Deus reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo, é chamada a levar a todos o amor da Santíssima Trindade. Como batizados somos chamados na comunhão e unidade, a levar a todos a certeza do amor de Deus que convoca e envia, que chama e constitui em missão.

            «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Porventura, poderíamos perguntar-nos: mas o que é que não é de Deus? Se Deus é o criador de todas as coisas, tudo lhe pertence. Não obstante a autonomia das realidades temporais que somos chamados a reconhecer e colaborar, reconhecemos que tudo pertence a Deus. Se na imagem e inscrição da moeda do tributo está César, no rosto de cada homem e de cada mulher está impressa a imagem de Deus à semelhança do Qual fomos criados. Por isso, se o tributo deve ser dado a César, as nossas vidas devem ser oferecidas a Deus e colocadas ao Seu serviço para a salvação de todos. in Voz Portucalense.

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            Neste Domingo XXIX do Tempo Comum celebra-se o Dia Mundial das Missões. Para este ano o Papa Leão XIV escreveu uma mensagem intitulada «Um em Cristo, unidos na missão» (ver a Mensagem do Papa Leão XIV em anexo) Neste Domingo, tal como indica o diretório, onde se realizam celebrações especiais pelas missões, pode dizer-se a Missa “Pela evangelização dos povos” (MR, p. 1208). Os fiéis são também convidados a colaborar materialmente com as necessidades das missões para que o Evangelho possa chegar a todos os homens e mulheres. Contudo, que esta seja, sobretudo, uma jornada de oração, para que a comunidade cristã renove a certeza de que a Igreja é, por sua própria natureza, missionária e só realizará plenamente a sua vocação se viver em permanente estado de missão. in Voz Portucalense.

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            Estamos no ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A. Acompanhamos o evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – Isaías 45,1.4-6

Assim fala o Senhor a Ciro, seu ungido,
a quem tomou pela mão direita,
para subjugar diante dele as nações
e fazer cair as armas da cintura dos reis,
para abrir as portas à sua frente,
sem que nenhuma lhe seja fechada:
«Por causa de Jacob, meu servo, e de Israel, meu eleito,
Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso,
quando ainda não Me conhecias.
Eu sou o Senhor e não há outro;
fora de Mim não há Deus.
Eu te cingi, quando ainda não Me conhecias,
para que se saiba, do Oriente ao Ocidente,
que fora de Mim não há outro.
Eu sou o Senhor e mais ninguém».

 

CONTEXTO

´           O texto da primeira leitura deste domingo pertence ao “Livro da Consolação”, do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anónimo, certamente da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados de Judá, na fase final do Exílio (entre os anos 550 e 539 a.C., provavelmente). Os oráculos por ele proferidos destinam-se a “consolar” e a dar esperança aos exilados, desalentados e abatidos após décadas de sofrimento numa terra estrangeira.

            Durante o reinado de Nabónides, rei da Babilónia (556–539 a.C.), desponta na Pérsia uma figura que rapidamente se impõe no cenário político internacional… Em 553 a.C. Ciro, rei dos Persas, conquista a capital da Média (Ecbátana) e junta no mesmo império os Medos e os Persas. Pouco depois, em 547 a.C., Ciro lança o seu exército contra a Lídia, conquista Sardes e apodera-se da maior parte da Ásia Menor. Nos anos seguintes, uma série de vitórias fulgurantes dão-lhe o domínio do Irão oriental, do Afeganistão e do Turquestão, até à Índia.

            Fortalecido em ouro e em homens, Ciro dirige, em seguida, os seus exércitos contra a Babilónia; e, em 539 a.C., entra vitorioso na capital babilónica onde, sem qualquer oposição, é recebido como libertador.

            A atividade profética do Deutero-Isaías desenvolve-se nos anos que precederam a entrada vitoriosa de Ciro na Babilónia… Para os exilados, é uma época de grandes expetativas: as notícias que lhes chegam sobre as vitórias de Ciro fazem os exilados sonhar com a proximidade da libertação do cativeiro. À alegria pela libertação iminente juntam-se, no entanto, algumas interrogações inquietantes… Então o libertador que Judá ansiosamente aguarda não vai sair do meio do Povo de Deus, mas será um rei estrangeiro? E quando a libertação se concretizar, a quem deverá ser atribuída: a Javé, o Deus dos exilados judeus, a Marduk, o deus principal da mitologia babilónica, ou a algum outro deus do universo religioso dos persas? Javé ter-se-á desinteressado e afastado do seu Povo, ou terá perdido o seu poder?

            Trata-se de um problema teológico que, para os exilados, adquire contornos inquietantes. Em jogo poderá estar todo o sistema religioso sobre o qual o povo de Deus apoia a sua fé. O Deutero-Isaías vai procurar formular respostas que ajudem os exilados a entender o papel e o lugar de Javé nos acontecimentos históricos que estão a desenrolar-se. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • As dúvidas, inquietações e perplexidades da gente de Judá exilada na Babilónia não nos são estranhas: também nós, diante dos acontecimentos que marcam a história deste tempo que nos tocou viver, sentimo-nos perdidos, assustados, à deriva, um pouco como um barco sem leme… Perguntamo-nos: onde está Deus, quando a história humana avança por caminhos tortuosos? Ele preocupa-Se, realmente, com os homens? Qual o seu papel na condução dos destinos do mundo? Porque é que Ele deixa que os homens inventem esquemas sofisticados de destruição e de morte, cultivem a exploração e a injustiça, mantenham tantos homens e mulheres amarrados à miséria e à escravidão? É possível que não tenhamos respostas claras para estas questões… No entanto, a primeira leitura deste domingo garante-nos: Deus nunca perde o controlo da história e nunca abandona os seus filhos que peregrinam na terra. Ele encontra sempre forma de intervir no mundo e de concretizar os seus projetos de salvação. Talvez as intervenções de Deus nem sempre estejam de acordo com as nossas regras, as nossas lógicas, os nossos desejos, os nossos calendários; talvez nem sempre consigamos perceber o verdadeiro alcance dos projetos de Deus… Mas Deus, o Senhor da história, continuará a conduzir o mundo de acordo com o seu plano. Resta-nos confiar n’Ele e entregarmo-nos nas suas mãos. Acreditamos que o mundo e a história dos homens estão na mão de Deus? O que é que isso nos faz sentir?
  • A intervenção de Deus no mundo e na história dos homens não se processa, habitualmente, através de gestos espetaculares, de fenómenos extraordinários caídos do céu, ou de manifestações que nos deixam espantados, temerosos e sem fôlego… Deus não é um exibicionista que gosta de recorrer a passes mágicos para nos impressionar. Em geral, Ele atua no mundo com discrição e recato, através de pessoas – muitas vezes pessoas limitadas, pecadoras, “normais” – que são chamadas a ser, no meio dos seus irmãos, sinais vivos de Deus, testemunhas da bondade, do amor, da ternura e da misericórdia de Deus. Estaremos também nós envolvidos nesta história de chamamento e de envio? Deus contará connosco – apesar das nossas fragilidades e incongruências – para, através de nós, fazer nascer um mundo mais justo, mais humano e mais feliz? Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Deus e para abraçar a missão que Ele entender confiar-nos?
  • Os exilados esperavam ansiosamente a intervenção de Deus para os salvar do Exílio e para os fazer retornar a Jerusalém… O que não contavam é que Deus atuasse através de um pagão, de um rei estrangeiro que não conhecia Javé e não fazia parte do povo de Deus. Deus é assim: Ele nunca se deixa encerrar dentro das fronteiras que tentamos impor-lhe; Ele salta sempre por cima das nossas barreiras de raça, de cor, de poder económico, de estatuto social, para nos dizer que todos são seus filhos e que conta com todos para concretizar o seu projeto para o mundo e para os homens; Ele recusa-se a dividir o mundo entre “bons” e “maus”, entre “dignos” e “indignos”, entre “santos” e pecadores”, entre os que são “dos nossos” e os que são “de fora”… É esta também a nossa forma de ver as coisas? O nosso olhar sobre o mundo e sobre os homens é inclusivo e fraterno, ou é discriminatório e intolerante? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)

 

Refrão: Aclamai a glória e o poder do Senhor.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira.
Publicai entre as nações a sua glória,
em todos os povos as suas maravilhas.

O Senhor é grande e digno de louvor,
mais temível que todos os deuses.
Os deuses dos gentios não passam de ídolos,
foi o Senhor quem fez os céus.

Dai ao Senhor, ó família dos povos,
dai ao Senhor Glória e poder.
Dai ao Senhor a glória do seu nome,
levai-Lhe oferendas e entrai nos seus átrios.

Adorai o Senhor com ornamentos sagrados,
trema diante d’Ele a terra inteira.
Dizei entre as nações: «O Senhor é rei»,
governa os povos com equidade.

 

LEITURA II – 1 Tessalonicenses 1,1-5b

Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses,
que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo:
A graça e a paz estejam convosco.
Damos continuamente graças a Deus por todos vós,
ao fazermos menção de vós nas nossas orações.
Recordamos a atividade da vossa fé,
o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança
em Nosso Senhor Jesus Cristo,
na presença de Deus, nosso Pai.
Nós sabemos, irmãos amados por Deus,
como fostes escolhidos.
O nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras,
mas também com obras poderosas,
com a ação do Espírito Santo
.

 

CONTEXTO

            Tessalónica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedónia. Porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.

            A cidade foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalónica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. Esteve na cidade cerca de três meses; mas esse curto espaço de tempo foi o suficiente para que se constituísse, à volta da pregação de Paulo, uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos ao Evangelho. A obra de Paulo foi brutalmente interrompida, ao fim desses breves meses, pela reação da colónia judaica… Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. At 17,5-9). Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas (cf. At 17,10-15).

            Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalónica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1Ts 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1Ts 3,2-5). Depois de ter estado em Tessalónica, Timóteo reencontrou Paulo em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, Paulo decidiu escrever aos cristãos de Tessalónica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspetos menos exemplares da vida da comunidade.

            A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.

            O texto que a liturgia deste domingo nos propõe como primeira leitura é o início da Primeira Carta aos Tessalonicenses. O texto inclui a indicação dos remetentes e dos destinatários da Carta. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Apesar de terem tido uma catequese incipiente e de terem sofrido a hostilidade dos seus concidadãos, os cristãos de Tessalónica abraçaram com entusiasmo e determinação o Evangelho de Jesus; em condições difíceis, deram mostras de uma fé viva, de uma caridade concretizada em obras, de uma esperança firme nessa vida nova prometida por Deus a todos os seus queridos filhos. Ora, o testemunho dos cristãos de Tessalónica constitui, para nós, uma contundente interpelação… Depois de muitos anos de catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão: com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a indiferença de quem está instalado numa fé morna e pouco exigente? A nossa fé é apenas uma questão de palavras, de fórmulas, de dogmas, de doutrina, ou expressa-se num compromisso efetivo com a transformação da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade, do mundo onde caminhamos? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, de serviço, de luta contra tudo o que oprime e fere os nossos irmãos mais pequeninos? A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das incompreensões que dia a dia temos de enfrentar?
  • Paulo, Silvano e Timóteo sentem-se verdadeiramente “tocados” pelo belo testemunho dos cristãos de Tessalónica. Aquela comunidade cristã que vive serenamente a sua fé em condições difíceis e que multiplica os gestos de bondade e de amor é uma “boa notícia”. Talvez, em pleno séc. XXI, na era digital, estejamos a perder a sensibilidade para essas “boas notícias”, as notícias que fazem brilhar a luz na “noite” do mundo… Não é verdade que prestamos muito mais atenção às coisas negativas, escandalosas, dramáticas, ameaçadoras, do que aos sinais de bondade, de generosidade, de solidariedade, de amor verdadeiro, que acontecem à nossa volta? Não poderíamos publicitar mais a “luz” do que as “trevas”? Se aprendêssemos a reparar nas coisas belas que existem por todo o lado, não teríamos uma compreensão mais positiva da existência e não encararíamos a vida com mais esperança?
  • Paulo, Silvano e Timóteo, ao verem como os cristãos de Tessalónica vivem a sua experiência cristã, sentem uma irreprimível vontade de louvar e de agradecer a Deus. Eles têm consciência de que, por detrás de tudo o que está a acontecer na comunidade cristã de Tessalónica, está Deus. Nós também somos testemunhas, a cada momento, de tantos e tantos gestos de bondade, de solidariedade, de doação, de generosidade, de serviço, de amor, que acontecem por todo o lado… Vemos nesses gestos a ação bondosa e amorosa de Deus? Sentimo-nos gratos por tudo o que Deus vai fazendo no mundo, nas nossas comunidades, na vida das nossas famílias? O nosso reconhecimento diante da bondade e do amor de Deus traduz-se em louvor e ação de graças? in Dehonianos.

 

EVANGELHO – Mateus 22,15-21

Naquele tempo,
os fariseus reuniram-se para deliberar
sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos,
juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe:
«Mestre, sabemos que és sincero
e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus,
sem Te deixares influenciar por ninguém,
pois não fazes aceção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer:
É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu:
«Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo».
Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou:
«De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César».
Disse-lhes Jesus:
«Então, daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus».

 

CONTEXTO

            Falta pouco tempo para a celebração da festa da Páscoa e Jesus está em Jerusalém, acompanhado dos seus discípulos. Ele passa a maior parte do dia no templo, provavelmente no Átrio dos Gentios, a ensinar e a falar do reino de Deus. Os líderes religiosos judaicos não O perdem de vista. Instalados nas suas certezas e preconceitos, contestam abertamente Jesus e recusam-se a acolher a proposta do reino de Deus. Jesus, por seu lado, procura fazê-los entender que, ao recusar o reino de Deus, estão a rejeitar a oferta de salvação que Deus lhes faz.

            Para ilustrar com clareza a situação em que os líderes religiosos se colocaram, Jesus conta-lhes três parábolas. Na primeira, identifica-os com um filho que escutou e aceitou o convite do pai para ir trabalhar na vinha familiar, mas que afinal não chegou a fazer aquilo que o pai lhe pediu (cf. Mt 21,28-32); na segunda, equipara-os a uns vinhateiros maus, que recusaram enviar ao proprietário da vinha os frutos que lhe pertenciam por direito e que, para cúmulo, ainda tiveram a ousadia de matar o filho do dono da vinha (cf. Mt 21,33-46); na terceira, compara-os a convidados indignos, que se atreveram a rejeitar o convite de um rei para participar no banquete nupcial do seu filho (cf. Mt 22,1-14). São histórias fortes e contundentes, que irritam os líderes. Estes começam a preparar o terreno para silenciar Jesus.

            É neste contexto que Mateus nos vai apresentar três controvérsias entre Jesus e os líderes religiosos de Israel (cf. Mt 22,15-22.23-33.34-40). Em qualquer uma delas, o objetivo dos dirigentes é surpreender alguma afirmação de Jesus que possa depois ser usada para uma condenação em tribunal (cf. Mt 22,15).

            A primeira dessas controvérsias – a que nos é apresentada no Evangelho do vigésimo nono Domingo do Tempo Comum – diz respeito a uma questão muito discutida, de implicações políticas e também religiosas: a obrigação de pagar o tributo ao imperador romano.

            Além dos impostos indiretos (portagens, direitos alfandegários, taxas de vendas…), todos os judeus adultos – mulheres e escravos incluídos – deviam pagar anualmente um tributo estipulado por Roma. Era o tributum capitis (“imposto por cabeça”), instituído quando a Judeia se tornou uma província romana direta, no ano 6 d.C. Para os judeus, no entanto, o pagamento deste imposto era problemático… Antes de mais, por um motivo religioso: a moeda romana do imposto (o denário) ostentava a imagem do imperador e a inscrição “Filho do Divino Augusto” (“Tiberius Caesar, Divi Augusti Filius Augustus”), o que violava os mandamentos contra a idolatria; depois, por um motivo político: pagar o imposto significava reconhecer a soberania de um governante estrangeiro sobre a terra que pertencia unicamente a Deus.

            Os grupos político-religiosos que coabitavam dentro do espetro social israelita tinham diversas posições quanto ao pagamento do tributum capitis. Os partidários de Herodes e os saduceus (a alta aristocracia sacerdotal) estavam de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, por sua vez, estavam frontalmente contra, pois consideravam o imperador um usurpador do poder que só pertencia a Javé. Os fariseus, embora contestando o tributo, tinham uma posição intermédia: pagavam-no para evitar males maiores.

            Em qualquer caso, a questão trazida a Jesus era uma questão “armadilhada”. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Javé; mas se Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de rebelião contra Roma e, certamente, executado. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Jesus aproveita a questão sobre o pagamento do imposto exigido pelo imperador de Roma para lembrar aos líderes religiosos de Israel algo que eles nunca deviam ter esquecido: a preocupação fundamental do ser humano tem de ser “restituir a Deus aquilo que pertence a Deus”. Na verdade, o povo de Deus havia esquecido os mandamentos de Deus, vivia afastado de Deus, tinha optado por caminhos à margem de Deus… Ao proceder dessa forma, tinha defraudado Deus. “Restituir a Deus aquilo que Lhe pertence” será, neste quadro, voltar para Deus, escutar novamente as indicações de Deus, colocar Deus no centro da própria vida. Na verdade, a chamada de atenção que Jesus faz é justa e conveniente. Servirá também para nós, homens e mulheres do séc. XXI? Embalados pela embriaguez de uma liberdade sem fronteiras, entusiasmados com as conquistas da ciência e da técnica, enganados pela falsa convicção da nossa invulnerabilidade, instalados num conforto que nos faz esquecer o essencial, decidimos que não precisávamos de Deus e que podíamos, à margem de Deus, dar sentido à nossa vida. Assim defraudamos Deus, tiramos-lhe algo que Lhe pertencia. “Devolver a Deus o que pertence a Deus” não será, então, regressar ao encontro de Deus, abandonar os caminhos de orgulho e de autossuficiência em que temos andado, acolher com amor e humildade os desafios de Deus, abraçar a proposta de Deus que nos chegou através de Jesus? Estamos dispostos a isso?
  • De acordo com a lógica de Jesus, se a imagem de César estava inscrita na moeda do tributo, essa moeda pertencia a César e devia ser devolvida a César. Do mesmo modo, se o homem e a mulher foram feitos à “imagem de Deus” e transportam em si a imagem de Deus, eles pertencem a Deus e devem ser “devolvidos” a Deus… No entanto, esquecemos frequentemente que cada homem e cada mulher são filhos queridos de Deus e pertencem a Deus. Admitimos que os “césares” do mundo criem mecanismos de injustiça e de opressão que são responsáveis pelo sofrimento e pelas lágrimas de milhões de seres humanos; aceitamos que a ditadura de uma economia sem rosto e sem coração mantenha amarrados numa miséria sem saída tantos e tantos dos nossos irmãos; consentimos, com o nosso comodismo e com a nossa indiferença, que os mais pobres, os mais humildes, os mais frágeis, sejam explorados, violentados, abandonados na berma da estrada que a humanidade percorre. Poderemos continuar a deixar que tantos e tantos homens e mulheres sejam vendidos, usados, feridos, destruídos, diante dos nossos olhos? “Devolver a Deus o que pertence a Deus” não será lutar objetivamente contra tudo aquilo que destrói a vida e a dignidade dos filhos queridos de Deus? O que podemos fazer para devolver a Deus esses filhos que Lhe foram roubados pelo egoísmo, pela injustiça, pela violência, pela ganância, pela maldade?
  • Jesus deixou claro que Deus tem de ser a nossa referência fundamental e deve estar em primeiro lugar nas nossas escolhas, nos nossos interesses e nas nossas preocupações. Isso não significa, no entanto, que vivamos de olhos postos no céu, alheados do mundo e que negligenciemos as nossas responsabilidades sociais e comunitárias. Fazemos parte de um “corpo social”; partilhamos os sonhos, os anseios e as aspirações dos nossos irmãos e irmãs; somos solidários com os outros homens e mulheres que são nossos companheiros na viagem da vida. Esse “compromisso social” deve traduzir-se no cumprimento dos nossos deveres cívicos, no acatamento das leis fiscais vigentes, na recusa em favorecer esquemas de corrupção e de suborno, no respeito pelas leis justas estabelecidas pelos competentes órgãos de soberania, na promoção do bem comum, na participação ativa na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais fraterna, mais humana. Cumprimos os nossos compromissos enquanto cidadãos e membros responsáveis da sociedade?
  • No entanto, o nosso compromisso com a sociedade não pode impedir-nos de olhar para as estruturas de poder com um olhar crítico. É provável que nem todos os projetos políticos que nos são propostos estejam em consonância com os valores do reino de Deus; é bem possível que nem todos os “nichos” ideológicos que ocupam um determinado espaço no espectro político sejam aceitáveis à luz do Evangelho; é provável que nem todas as propostas dos nossos líderes ajudem a concretizar o mundo de justiça, de entendimento, de inclusão, de fraternidade que Deus sonhou para os seus filhos; é possível que nem todas as sugestões que nos são “vendidas” contribuam para nos tornar mais livres, mais realizados e mais felizes. Compete-nos, neste cenário, avaliar as propostas que estão em cima da mesa, manter o discernimento, defender a verdade, lutar pelos valores em que acreditamos…. É isso que fazemos? in Dehonianos

 

DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS

            Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

            Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

            Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

            É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mateus 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mateus 21,23-27).

            Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido, e é muito mais clara do que a grega, a latina e a portuguesa. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer aceção de pessoas» não significa nada.

            Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

            Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d. C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

            Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

  1. António Couto

           

PARA OS LEITORES

            A primeira leitura, deve ter-se em atenção o texto em discurso direto que se encontra entre aspas. É necessária uma leitura pausada e atenta às pausas e respirações sobretudo nas frases mais longas.

            Tal como na primeira leitura, na segunda leitura é necessária uma especial atenção às frases longas e com diversas orações. Na primeira frase, atenção à forma de saudação de S. Paulo para que se expresse bem o modo como o Apóstolo das Gentes saudava a comunidade e corresponsabilizava todos.

  

           

           

ANEXOS: