Domingo III do Tempo Pascal – Ano A – 18.04.2026

Jesus aproximou-Se deles e pôs Se com eles a caminho. Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. Ele perguntou lhes. «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»

Viver a Palavra

            A Boa Notícia que brota do sepulcro aberto ecoa no tempo e na história para renovar a esperança e fortalecer a confiança de todos quantos trilham os caminhos tortuosos e exigentes da nossa existência. A proclamação alegre e jubilosa da manhã de Páscoa prolonga-se liturgicamente ao longo de cinquenta dias como oportunidade de aprofundar e saborear a presença de Jesus Cristo Ressuscitado.

            O Evangelho deste terceiro Domingo do Tempo da Páscoa oferece-nos uma das mais belas viagens narradas pela Sagrada Escritura. Doze quilómetros de estrada, onde o céu e a terra se tocam, onde o Ressuscitado se coloca a caminho para iluminar a esperança e renovar a confiança no coração daqueles discípulos que tristes e desanimados regressam à sua terra.

            «Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Deus precede-nos sempre e em Jesus Cristo vem ao nosso encontro. Nas angústias e incertezas, nas dores e nos sofrimentos, Jesus vem ao nosso encontro, vestido de humanidade, percorrendo as nossas estradas e fazendo caminho connosco. A fé cristã não é um rito mágico que elimina do nosso caminho as dificuldades e desafios, mas a certeza de que, não obstante os desafios e dificuldades do caminho, Deus está connosco, Deus caminha connosco, Deus oferece-nos a força e a coragem necessárias para caminhar, mesmo quando parecem fraquejar as forças e o ânimo parece desvanecer.

            A Páscoa deste ano declina-se inevitavelmente com o estado de emergência e a pandemia que nos assola. Contudo, bem sabemos, que Páscoa deriva do verbo hebraico pesach que significa passar. Celebram e vivem a Páscoa aqueles que são capazes de rasgar brechas de esperança e abrir caminhos que nos permitem alargar os nossos horizontes e compreender que o amor é mais forte do que a morte e que a dor e o sofrimento se abrem ao horizonte maior e mais largo da esperança e da confiança.

            Estes dois discípulos vão a caminho de Emaús. Vão desanimados e desalentados. Eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Escutaram as Suas palavras cheias de novidade e de vida, viram os Seus milagres e contemplaram o Seu amor que se fazia perdão, encontro e entrega. Contudo, «os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado». Por isso, apesar de terem depositado Nele a sua esperança e acreditado que poderia ser Ele quem libertaria Israel, «afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu». Nem a palavra das mulheres que tinham ido ao sepulcro de madrugada era suficiente para lhes oferecer qualquer réstia de esperança. Apesar de elas terem dito que o sepulcro estava vazio e que uns anjos lhes tinham anunciado que Ele estava vivo, a Ele não o viram.

            Como é desconcertante a pedagogia de Jesus! Coloca-se a caminho, quer ouvir pela boca dos discípulos as razões do seu desânimo e desalento. Recorda-lhes a história de amor que Deus construiu com o Seu Povo «começando por Moisés e passando pelos Profetas». Preparado e abrasado o coração dos discípulos pela Palavra, senta-se com eles à mesa e parte o Pão. Contemplando o gesto do pão partido e repartido, os discípulos recordam aquela outra ceia em que se sentaram com Jesus à mesa e reconhecem, naquele gesto, Jesus Vivo Ressuscitado.

            Diante das nossas dores e sofrimentos, das nossas dúvidas e incertezas, Jesus continua a colocar-se no meio de nós, a querer escutar a nossa vida com as suas dificuldades e faltas de esperança e convida-nos a recordar a história de amor que Deus constrói connosco. Dirige-nos a Sua palavra de amor e recorda-nos que a Sua vida feita pão partido e repartido continuará a abrir os nossos olhos para uma nova esperança que só a Sua Páscoa nos pode oferecer e garantir. in Voz Portucalense. in Voz Portucalense.

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                        Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2025/2026, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

Deste modo, como preparação complementar, é, certamente, oportuna a proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus. Há muita ignorância e confusão sobre o Evangelho de Mateus. Merece a pena tentar formar mais e melhor os cristãos da nossa comunidade.

        E fizemos isso….

        Em anexo à Liturgia da Palavra e, também, num separador próprio, da página da paróquia de Vilar de Andorinho, ficará disponível um texto sobre o evangelista Mateus. Poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – Novo Testamento e Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura. ~

LEITURA IAtos dos Apóstolos 2,14.22-33

No dia de Pentecostes,
Pedro, de pé, com os onze Apóstolos,
ergueu a voz e falou ao povo:
«Homens de Israel, ouvi estas palavras:
Jesus de Nazaré
foi um homem acreditado por Deus junto de vós
com milagres, prodígios e sinais,
que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio,
como sabeis.
Depois de entregue,
segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus,
vós destes-Lhe a morte,
cravando-O na cruz pela mão de gente perversa.
Mas Deus ressuscitou O, livrando O dos laços da morte,
porque não era possível que Ele ficasse sob o seu domínio.
Diz David a seu respeito:
‘O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.
Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso Santo sofrer a corrupção.
Destes me a conhecer os caminhos da vida,
a alegria plena em vossa presença’.
Irmãos, seja-me permitido falar vos com toda a liberdade:
o patriarca David morreu e foi sepultado
e o seu túmulo encontra se ainda hoje entre nós.
Mas, como era profeta
e sabia que Deus lhe prometera sob juramento
que um descendente do seu sangue
havia de sentar-se no seu trono,
viu e proclamou antecipadamente a ressurreição de Cristo,
dizendo que Ele não O abandonou na mansão dos mortos,
nem a sua carne conheceu a corrupção.
Foi este Jesus que Deus ressuscitou
e disso todos nós somos testemunhas.
Tendo sido exaltado pelo poder de Deus,
recebeu do Pai a promessa do Espírito Santo,
que Ele derramou, como vedes e ouvis».

 

CONTEXTO

            O texto que a liturgia deste dia nos propõe como primeira leitura situa-nos em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes.

            Após a Ascensão os discípulos tinham estado no Cenáculo, à espera que se cumprisse a promessa que Jesus lhes tinha feito: “ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” (At 1,8). Ora, de acordo com o relato de Lucas, essa promessa cumpriu-se no dia do Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a comunidade reunida no Cenáculo (cf. At 2,1-12). Nesse dia, transformados e fortalecidos pelo Espírito, os discípulos abandonaram a segurança dos muros do Cenáculo e assumiram, diante dos habitantes de Jerusalém, a missão de serem testemunhas de Jesus. De acordo com o autor do livro dos Atos dos Apóstolos, foi Pedro que, em nome da comunidade dos discípulos, tomou a palavra para “anunciar as maravilhas de Deus” e para oferecer a todos os presentes um primeiro anúncio sobre Jesus.

            A festa judaica do Pentecostes (em hebraico “Shavu’ot”) que os judeus celebravam por esses dias era também designada por “festa das semanas” e “festa das primícias”. Ocorria cinquenta dias após a Páscoa e era, antes de mais, uma festa agrícola: terminada a colheita dos cereais, os agricultores dirigiam-se ao Templo, ao som de música de flautas, para entregar a Deus os primeiros frutos da colheita (“bikurim”). Eram acolhidos com cânticos de boas-vindas, entravam no templo e entregavam nas mãos dos sacerdotes os cestos com os frutos que tinham trazido. Mais tarde, contudo, a tradição rabínica ligou esta festa à celebração da “aliança” e ao dom da Lei, por Deus, no Sinai; e, no séc. I, esta dimensão tinha um lugar importante na celebração do Pentecostes.
As palavras que, segundo Lucas, Pedro naquele dia dirigiu à multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa judaica do Pentecostes serão rigorosamente históricas? Não. Trata-se, certamente, de uma composição do autor dos Atos dos Apóstolos que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.

~          Este discurso de Pedro é, aliás, muito semelhante a outros discursos que aparecem no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 13,16-41). Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e a salvação que daí resulta em favor dos homens. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz certamente a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus. Há até quem veja neste “anúncio” um texto que era aprendido de cor por todos os catecúmenos durante a sua preparação para o batismo. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • Desde os alvores da humanidade insistimos em trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência, julgando encontrar aí a nossa plena realização, o sucesso inquestionável da nossa existência; mas só conseguimos, com as nossas opções egoístas, trazer à história humana mentira, violência, infelicidade e morte. Então Deus enviou-nos Jesus. Ele veio dizer-nos cara a cara, na nossa linguagem e em gestos humanos bem claros, que a nossa plena realização passa pelo amor, pela vida dada até às últimas consequências, pela partilha, pelo perdão, pelo serviço simples e humilde a Deus e aos irmãos. No entanto, não acreditamos n’Ele; e convocamos a injustiça, a violência, a mentira, para o calar e para o fechar num túmulo onde Ele não pudesse incomodar-nos com os seus desafios… Caso arrumado? Não. Deus ressuscitou Jesus; e, ao ressuscitá-l’O, deu-lhe razão. Disse-nos que Ele falava verdade quando nos dizia que uma vida gasta ao serviço do plano do Pai, na entrega aos homens, não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida nova. Entretanto, passaram-se dois mil anos… Há dois mil anos que sabemos, de fonte segura, que o egoísmo, o orgulho, a maldade, a violência, nos arrastam para caminhos de morte e infelicidade; há dois mil anos que temos diante de nós o exemplo de Jesus e que sabemos que só a proposta que Ele nos apresentou é geradora de vida verdadeira e eterna. Mas ainda não conseguimos “digerir” tudo aquilo que a vida, a morte e a ressurreição de Jesus nos mostrou. O que mais será necessário para levarmos a sério as indicações de Deus? Quando nos disporemos a acolher, sem desculpas nem hesitações, a lição de Jesus?
  • Pedro, dirigindo-se à multidão no dia de Pentecostes, diz: “foi este Jesus que Deus ressuscitou e disso todos nós somos testemunhas”. Esse “todos nós” inclui, naturalmente, todos aqueles que, por aqueles dias, fizeram a experiência de encontrar Jesus vivo e atuante e se sentiram desafiados a continuar a aventura do Reino de Deus; mas também inclui todos os outros que, pelos séculos fora, continuam a encontrar-se com Jesus vivo, a escutar as suas indicações, a viver ao seu estilo, a sentarem-se com Ele à mesa eucarística, a caminhar com Ele pelos caminhos do mundo. A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus? in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão 1: Mostrai me, Senhor, o caminho da vida.

Refrão 2: Aleluia.

 

Defendei me, Senhor; Vós sois o meu refúgio.
Digo ao Senhor: Vós sois o meu Deus.
Senhor, porção da minha herança e do meu cálice,
está nas Vossas mãos o meu destino.

Bendigo o Senhor por me ter aconselhado,
até de noite me inspira interiormente.
O Senhor está sempre na minha presença,
com Ele a meu lado não vacilarei.

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta
e até o meu corpo descansa tranquilo.
Vós não abandonareis a minha alma na mansão dos mortos,
nem deixareis o vosso fiel conhecer a corrupção.

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,
alegria plena em Vossa presença,
delícias eternas à Vossa direita.

 

LEITURA II – 1 Pedro 1,17-21

Caríssimos:
Se invocais como Pai
Aquele que, sem aceção de pessoas,
julga cada um segundo as suas obras,
vivei com temor, durante o tempo de exílio neste mundo.
Lembrai vos que não foi por coisas corruptíveis,
como prata e oiro,
que fostes resgatados da vã maneira de viver,
herdada dos vossos pais,
mas pelo sangue precioso de Cristo,
Cordeiro sem defeito e sem mancha,
predestinado antes da criação do mundo
e manifestado nos últimos tempos por vossa causa.
Por Ele acreditais em Deus,
que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória,
para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.

 

CONTEXTO

            A primeira Carta de Pedro oferece-nos um conjunto de indicações que, à partida, poderiam deixar perfeitamente definida a questão do seu autor e dos seus destinatários. O autor apresenta-se como “Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1,1a), “presbítero”, “testemunha dos padecimentos de Cristo e também participante da glória que se há de manifestar” (1Pe 5,1). Os destinatários seriam os “eleitos” de Deus que peregrinam na diáspora do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia” (1Pe 1,1b). A Carta seria escrita “desde Babilónia” (designativo frequentemente usado pelos primeiros cristãos para falar de Roma), onde o autor está acompanhado por Marcos (1Pe 5,13).

            No entanto, parece bastante improvável que Pedro, o pescador do Mar da Galileia que Jesus chamou para ser “pescador” de homens (cf. Mc 1,16-18), tenha sido o autor desta carta. Antes de mais, por questões de ordem literária: a qualidade literária da carta parece estar bem acima daquilo que seria o estilo de um pescador galileu pouco instruído, como era o caso de Pedro. Depois, porque a situação das comunidades cristãs referidas na carta parece situar-nos dentro dos anos oitenta, numa época em que se sentia claramente a hostilidade do Império contra os cristãos e começavam a perspetivar-se no horizonte as grandes perseguições do final do séc. I. Por essa altura, Pedro há muito teria morrido (o Apóstolo foi martirizado em Roma, durante a perseguição de Nero, por volta do ano 66-67).

            Sendo assim, o mais natural é que o autor da primeira Carta dita “de Pedro” seja um cristão culto cujo nome ignoramos – provavelmente um responsável de uma comunidade cristã –, empenhado em fortalecer o compromisso cristão de algumas comunidades instaladas nas zonas rurais da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80).

            Os destinatários desta carta são, maioritariamente, camponeses pobres, que cultivam as propriedades da gente rica. Também há, entre eles, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. Trata-se, em qualquer caso, de gente do meio rural, economicamente débil, vulnerável à hostilidade que o Império começa a manifestar para com o cristianismo.

            Conhecendo bem as provações que estes cristãos sofrem, o autor da Carta exorta-os a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Deus dispôs-se a “pagar” um alto preço para nos libertar da nossa vã maneira de viver: enviou-nos o seu Filho Jesus, apesar de saber que nós não somos “de confiança” e que, na nossa insensatez, O condenaríamos a uma morte infame. Jesus cumpriu o projeto do Pai: fez-se um de nós, caminhou connosco, falou-nos do amor do Pai, curou as nossas feridas, lutou contra a mentira e a injustiça, mostrou-nos como viver, deixou-se matar para nos libertar do pecado e da morte. Isto dá-nos bem a medida do imenso amor que Deus nos tem. Esta história de amor deixa o autor da primeira Carta de Pedro maravilhado. E a nós? Conseguimos medir, a partir desta realidade, a importância que temos para Deus? Deixamo-nos “tocar” e maravilhar por este “amor maior”?
  • Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?
  • Jesus não anda hoje, em pessoa, pelas ruas das nossas aldeias, vilas e cidades, a propor-nos o Reino de Deus e a dizer-nos, com palavras e com gestos concretos, como devemos viver para que a nossa vida faça sentido. No entanto, antes de voltar para o Pai, Ele encarregou os seus discípulos de serem suas testemunhas no mundo. A sua proposta tem de continuar hoje a chegar aos homens. Sentimos que isso nos diz respeito? Nós que encontramos Jesus, que acolhemos a sua mensagem, que decidimos segui-l’O, que aceitamos viver ao seu estilo, damos testemunho dessa Boa Notícia que Ele nos deixou? A nossa vida é um anúncio, ao vivo e a cores, dessa vida nova que Deus quer oferecer a todos os seus filhos e filhas? in Dehonianos

EVANGELHO – Lucas 24,13-35

Dois dos discípulos de Emaús
iam a caminho duma povoação chamada Emaús,
que ficava a sessenta estádios de Jerusalém.
Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido.
Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou Se deles e pôs Se com eles a caminho.
Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem.
Ele perguntou lhes.
«Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?»
Pararam entristecidos.
E um deles, chamado Cléofas, respondeu:
«Tu és o único habitante de Jerusalém
a ignorar o que lá se passou estes dias».
E Ele perguntou: «Que foi?»
Responderam Lhe:
«O que se refere a Jesus de Nazaré,
profeta poderoso em obras e palavras
diante de Deus e de todo o povo;
e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes
O entregaram para ser condenado à morte e crucificado.
Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel.
Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu.
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo.
Mas a Ele não O viram».
Então Jesus disse lhes:
«Homens sem inteligência e lentos de espírito
para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram!
Não tinha o Messias de sofrer tudo isso
para entrar na Sua glória?»
Depois, começando por Moisés
e passando por todos os Profetas,
explicou lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da povoação para onde iam,
Jesus fez menção de ir para diante.
Mas eles convenceram n’O a ficar, dizendo:
«Ficai connosco, Senhor, porque o dia está a terminar
e vem caindo a noite».
Jesus entrou e ficou com eles.
E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção,
partiu-o e entregou-lho.
Nesse momento abriram se lhes os olhos e reconheceram n’O.
Mas Ele desapareceu da sua presença.
Disseram então um para o outro:
«Não ardia cá dentro o nosso coração,
quando Ele nos falava pelo caminho
e nos explicava as Escrituras?»
Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém
e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com ele,
que diziam:
«Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão».
E eles contaram o que tinha acontecido no caminho
e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

CONTEXTO

            A narração de uma aparição de Jesus ressuscitado a dois discípulos que iam a caminho de uma povoação chamada Emaús, no próprio dia de Páscoa, é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. Discute-se, no entanto, se se trata de uma criação de Lucas, ou de um relato que Lucas recebeu da tradição e que o evangelista terá trabalhado e adaptado. O mais provável é que Lucas utilize uma tradição prévia, que ele retoca e completa.

            A menção de um lugar chamado Emaús (lugar de destino dos dois discípulos) levanta diversas interrogações… Que lugar é esse? O nome não identifica um lugar conhecido na geografia do mundo palestino. A indicação da distância de Jerusalém a Emaús poderia constituir um fator adicional para ajudar na identificação da referida localidade; contudo, esse dado também não é conclusivo, uma vez que os mais importantes códices antigos situam a povoação a “sessenta estádios” de Jerusalém (o equivalente a cerca de onze quilómetros), mas outros falam de “cento e sessenta estádios” (o que equivaleria a cerca de trinta quilómetros). Os partidários da “maior distância” (cento e sessenta estádios) falam de Amwas-Nicópolis (uma localidade situada a cerca de trinta quilómetros de Jerusalém) como o local da Emaús evangélica; mas os partidários da “menor distância” preferem falar da atual El-Qubeibeh (uma localidade palestina que conserva a memória do acontecimento), ou então de Abu Gosh, uma localidade situada a cerca de dez quilómetros de Jerusalém.

            Os comentadores destacam frequentemente a intenção teológica de Lucas ao dar-nos este relato. Que é que isto significa? Significa que a narrativa lucana não é uma reportagem factual de uma viagem geográfica, mas é uma catequese sobre Jesus. O que interessa a Lucas não é escrever um relato lógico e coerente (se o evangelista estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e explicaria melhor algumas incongruências do texto, nomeadamente porque é que aqueles dois discípulos partiram para Emaús na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – em meados da década de oitenta do primeiro século – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e fazer uma verdadeira experiência de encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos. in Dehonianos.

 

INTERPELAÇÕES

  • Aquele quadro de desencanto e de desânimo em que se movem os dois discípulos que caminham de Jerusalém para Emaús não nos é completamente estranho. Experimentamo-lo também nós, mais vírgula menos vírgula, diante das crises que a vida traz, do carácter transitório das nossas conquistas, da debilidade que nos habita, da falência dos nossos projetos mais queridos, dos sonhos que se evaporam e nos deixam de mãos vazias, das nossas certezas derrubadas, das nossas seguranças com pés de barro… Abalados e magoados sentimos a tentação de baixar os braços, de abandonar a luta, de nos demitirmos das nossas responsabilidades, de nos fecharmos em nós próprios, de “aguentarmos” a vida sem arriscar, de vivermos para o trivial que não encanta mas também não fere excessivamente. Talvez pensemos até, muitas vezes, que Deus nos virou as costas e nos deixou “sem rede”, abandonados à nossa sorte; e damos por nós a arrastar-nos pela vida sem rumo nem horizontes. Ora, hoje um catequista chamado Lucas vem dizer-nos: “Garanto-vos que não estais sozinhos; Jesus, vivo e ressuscitado, está e estará sempre convosco. Talvez nem sempre reconheçais a sua presença; mas Ele apanha-vos no caminho, conversa convosco, esclarece as vossas dúvidas, pacifica o vosso coração, dirige os vossos passos em direção a um horizonte de esperança. Já fizemos esta experiência? Dispomo-nos, em cada passo do nosso caminho, a detetar a presença consoladora e vivificante de Jesus ao nosso lado?
  • Como é que Cléofas e o outro discípulo conseguem encontrar sentido no sem sentido da cruz e da morte? Como é que os homens e as mulheres que caminham afogados em angústias e desencantos podem perceber o projeto salvador que Deus tem para lhes propor? Como é que podemos escutar Jesus e receber d’Ele esse suplemento de esperança que nos permite continuar? Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida. A Palavra de Deus ajuda-nos a colocar a vida em perspetiva e a definir o sentido correto da nossa existência; a Palavra de Deus incendeia-nos o coração (“não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”), faz-nos vencer o desânimo e o pessimismo, leva-nos ao compromisso com a transformação do mundo e da história; a Palavra de Deus mostra-nos perspetivas novas e renova a nossa esperança; a Palavra de Deus diz-nos como chegar à vida verdadeira e eterna… Que lugar e que papel desempenha a Palavra de Deus nas nossas vidas? No nosso caminho de fé encontramos espaço para escutar a Palavra de Deus, para partilhá-la, para orar a partir dela, para contemplá-la?
  • Para os dois discípulos que vão em direção a Emaús, o viajante que se lhes junta no caminho é um perfeito desconhecido. No entanto, quando se sentam à mesa com ele e o veem tomar o pão, recitar a bênção, parti-lo e partilhá-lo, percebem imediatamente que esse viajante desconhecido é Jesus. Como podemos nós, homens e mulheres do séc. XXI, fazer uma experiência de encontro com Jesus vivo? O evangelista Lucas não tem dúvidas: é quando nos sentamos com Ele à mesa da eucaristia. Todos os domingos, reunidos em comunidade à volta da mesa eucarística, damo-nos conta que o Ressuscitado continua vivo, a caminhar ao nosso lado, a alimentar-nos com a sua Palavra e o seu Pão; sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica. Que lugar e que papel tem, na nossa experiência de fé, a participação na eucaristia?
  • Depois de se encontrarem com Jesus, vivo e ressuscitado, à mesa eucarística, os dois discípulos deixaram a comida na mesa, esqueceram o cansaço, enfrentaram os perigos da noite e regressaram imediatamente a Jerusalém, decididos a partilhar a sua descoberta com os outros discípulos. Não ficaram em casa, felizes e repousados, a gozar beatificamente uma experiência inolvidável; mas sentiram que aquilo que tinham experimentado devia ser partilhado com urgência. Os discípulos de Emaús perceberam que quando alguém encontra Jesus tem de tornar-se sua testemunha. Nós, que todos os domingos nos sentamos à mesa eucarística, que descobrimos a presença de Jesus vivo no meio da comunidade reunida, que nos alimentamos da sua Palavra e do seu Pão, damos testemunho d’Ele? Sentimos a urgência de o levar ao encontro do mundo? Os nossos gestos são um anúncio vivo desse Jesus que, ainda hoje, quer oferecer a todos os homens e mulheres a vida nova e definitiva?
  • Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?
  • Os dois discípulos de Emaús, dececionados com um projeto que parecia ter falido, abandonaram a comunidade e fugiram para Emaús. Aquela comunidade triste e amedrontada, fechada dentro de uma casa de Jerusalém, afundada na inércia e no pessimismo, já não lhes dizia nada. Hoje há, também, muitos irmãos e irmãs que fazem uma experiência semelhante. Veem a Igreja nascida de Jesus como uma comunidade imóvel e estacionada no passado, com um discurso pomposo, mas pouco atraente, mais preocupada com a liturgia do que com o cuidado dos pobres, mais interessada nas leis e nas normas do que no Evangelho da misericórdia; e, sentindo-se dececionados, rompem com a comunidade. Afastar-se da comunidade, viver à margem, desistir do projeto cristão, será a solução? A “lição de Emaús” diz-nos que, apesar de tudo, é na comunidade cristã que reside e se revela Jesus ressuscitado. Por isso, os dois discípulos transviados voltaram a toda a pressa ao encontro da comunidade que tinham abandonado. A solução para o nosso desencanto passará por cortar os laços com a comunidade, ou por revitalizar a vinculação comunitária com Jesus e com o Evangelho? Se Jesus ainda nos apaixona, poderemos abandonar a comunidade e perder-nos em caminhos que não levam a nenhum lado? in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura é um longo discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Deste modo, a proclamação desta leitura deve ter presente o tom jubiloso e desassombrado com que Pedro proclama a ressurreição de Jesus Cristo.

            A segunda leitura requer uma acurada preparação das pausas e respirações porque apresenta longas frases e com diversas orações. Atenção que as vírgulas podem não ser necessariamente lugares de pausa.

 

 

ANEXOS: