Um testemunho – Uma partilha
Este texto foi um contributo para o 11.º encontro do catecumenato das Vigararias de Gaia
Testemunho: A fé no seio da família
Tema: O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.
Num dos encontros, ouvimos falar das parábolas da misericórdia, tendo-se focada mais na parábola do Filho Pródigo.
É comum focarmo-nos na atitude do filho perdido que se quis orientar e orientar-se pela vida.
Correu mal!
E voltou!
E assistimos à atitude daquele Pai, todo misericordioso, todo Pai e todo Mãe que foi gerando os filhos no amor, na verdade, no encontro, no respeito.
Mas…
Tudo o que vimos, lemos e pudemos observar foi falta de respeito, falta de empatia, falta de verdade, enfim, falta de amor.
E o testemunho é a fé no seio da família!
E o filho voltou para o aconchego do Pai, quando percebeu que era aí que residia o conforto, o acolhimento, o perdão.
E foi acolhido!
E foi perdoado!
E sentiu-se perdoado e amado!
Estamos perante um Pai que não deixa de amar, de acolher, de perdoar.
Mas…
Este Pai, de quem não sabemos o nome, mas que percebemos por entre as linhas da parábola, tinha outro filho. O filho mais velho.
Ninguém tem nome, mas todos têm identidade!
Este filho, ao perceber a alegria da festa de acolhimento do irmão, recusou-se a entrar, recusou-se a ouvir o Pai e, a sua arrogância chegou aos limites da má formação e da falta de educação e de respeito, ao responder ao Pai assim:
Vem esse teu filho que devorou os teus bens… Lc 15, 30 e dás-lhe tudo, enquanto a mim, que sempre fui cumpridor dos mandamentos, que te servi, nunca me deste nada!
E revi por aqui uma família como tantas famílias que vamos conhecendo:
– Um filho que se reconhece pecador;
– Um irmão que se sente e vê como um bom servo, mas sem qualquer respeito nem compaixão pelo Pai e pelo irmão;
– Um Pai que é todo misericórdia, todo perdão, todo acolhimento.
E o testemunho é a fé no seio da família!
E esta pode entender-se como uma família desajustada. Como tantas famílias que vamos conhecendo por aí.
Será que só o Pai acredita?
Será que só o Pai é justo?
Estamos perante um Pai apaziguador que acredita e porque tem fé na humanidade nunca desiste dela, como não desistiu dos filhos.
E os filhos somos nós!
E os filhos podem e devem acreditar como este Pai acredita.
E acreditando, vai construindo consensos, vai estendendo a mão a um e a outro de modo a fazer surgir a fraternidade e a deixar transbordar a alegria do encontro, a alegria do reencontro.
Porque trouxe novamente esta parábola?
É porque ela ajuda-nos a entrar no Evangelho de João e começar a entender o que nos diz Jesus:
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros. Jo 15, 12-17
Naquela família, da parábola, onde está o amor?
– Temos um Pai atento, que espera e que ama sem reservas, mas com grande atenção e preocupação;
– Temos dois filhos que não percebem, nem querem perceber onde está o amor, ou o que é o amor.
O filho mais novo apenas espera os bens materiais.
O filho mais velho, rigorista, cumpridor da Lei, mas sempre pronto para olhar para o seu umbigo, isto é, para si e olhar com desprezo tudo e todos os que o rodeiam.
E Jesus diz: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei Jo 13, 34-35
Jesus deu tudo e deu-Se todo.
Jesus, que amou sem reservas, que lutou contra os fundamentalismos, contra os cumpridores cegos da Lei, mas sem amor.
Porque Jesus amou sem medida!
Ao contrário daqueles que apenas queriam ver n’Ele uma espécie de foragido, incumpridor da Lei, Jesus veio trazer, mostrar e dar a Lei do Amor.
Como bom judeu, cumpriu a Lei.
Como bom Filho, foi capaz de ir mais longe e mostrar que a Lei é para ser vivida e que toda ela pode ser condensada na Lei do Amor.
A Lei do Amor dada por Jesus é e está atenta ao outro, é e está atenta àqueles que, por qualquer motivo, vivem numa situação de sobrevivência, de abandono e, em nome de um deus castigador, matam, destroem, causam angústia e fazem a guerra. Há uma enorme fome de poder, de obter mais e ir mais além que os outros.
E aqui convido a olhar:
– Para Gaza;
– Para o Sudão;
– Para a Ucrânia;
– Para tantos lugares onde não há paz, onde há fome, onde não há assistência.
E podemos, então, perguntar, perante tudo isto:
Porque não deixamos entrar e permanecer o amor deste Deus que é só misericórdia e que tem entranhas de mãe?
Temos que entender que enquanto não formos capazes de olhar o irmão, seja ele quem for e de onde for, com os olhos do coração, como nos dizia Saint-Exupéry no seu Principezinho, não estamos em harmonia com o outro, com o irmão que vive e está ao nosso lado e somos capazes se dizer como o irmão mais velho da parábola: Esse Teu filho…
E que enquanto permanecemos nesta atitude, não estamos a viver e a sentir a proximidade do irmão, que muitas vezes apenas precisa de um olhar, de um sorriso, de um olhar e se desbordar do amor de Jesus.
E Jesus diz: O que vos mando, é que vos ameis uns aos outros.
É difícil?
Claro que sim, mas este é um amor de irmãos que se veem e se sentem irmãos, é um amor de amigos que o são de forma desinteressada e cheia de atenção e, por que não, de abandono.
No início do capítulo 15 de João, o capítulo que nos fala do amor desinteressado, do amor dádiva, entrega total, Jesus diz-nos que é a videira e o Pai o vinhateiro, isto é, o cuidador da vinha.
No Antigo Testamento a vinha é usada como imagem de Israel, contudo, João pretende mostrar-nos a mudança radical operada por Jesus.
Ao usar a imagem da vinha, João pretende dizer-nos que:
– O vinhateiro é o Pai
– A videira é Jesus
– O fruto é o amor mútuo do Pai e do Filho, é o Espírito que emana d’Eles.
– Os sarmentos somos nós e os sarmentos têm a sua vitalidade na sua união com a videira.
É neste contexto que Jesus parte para a união/unidade para que a planta dê fruto e, diz mais:
Permanecei em mim e eu em vós Jo 15, 4
E continua: Como o Pai me amou, eu vos amei: permanecei no meu amor Jo 15, 9
Toda a ação de Jesus, neste capítulo, surge como expressão do amor, mas vai mais longe,
Sem revogar a Lei Antiga, que continua a cumprir como bom judeu, Jesus deixa-nos um mandamento novo e abrangente:
Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei Jo 15, 12
E Jesus amou até ao fim, pois entregou-se todo, para o cumprimento desse amor.
Este amor dado e deixado por Jesus torna-nos filhos de Deus e irmãos do próprio Jesus.
Convém saber que Israel, nome dado por Deus a Jacob, patriarca, filho de Isaac e neto de Abraão tinha recebido o título de “servo”, Israel era servo do Senhor.
Jesus ao dar este mandamento mostra-nos a amizade que une o discípulo ao Mestre e acrescenta:
Não fostes vós que me escolhestes;
eu vos escolhi
e vos destinei a ir e dar fruto, um fruto que permaneça;
assim, o que pedirdes ao Pai em meu nome,
ele vo-lo concederá.
Isto é o que vos mando, que vos ameis uns aos outros. Jo 15, 16-17
então, percebemos que foi Jesus que nos escolheu, porque é Ele que toma a iniciativa.
Perante tal vontade, que é que nós podemos esperar?
– Sabemos que somos amados
– Sabemos que fomos escolhidos
– Sabemos que somos filhos.
Podemos então concluir que não estamos aqui por um acaso qualquer, mas que assumimos uma enorme responsabilidade, pois somos amados, escolhidos e filhos e, por isso mesmo, somos responsáveis pelo irmão que está ao nosso lado, porque também ele espera ser amado, ser escolhido e ser filho, tal como nós somos.
Jesus franqueou, isto é, abriu a porta e a janela da atenção e o amor ao outro, sobretudo, quando tentamos julgar e condenar.
Temos que perceber que este amor é a entrega total da vida ao outro, que apenas pede um “Olá”, espera por um sorriso, por um: “Vem por aqui!” que eu estou contigo e do teu lado, porque amo como Jesus amou e nos foi e anda a dizer:
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.
Este é o amor de irmãos e entre irmãos, o amor que se dá e que acontece da mesma maneira que Jesus deixou acontecer.
Este é o amor que leva à lealdade, à confidência, à vontade de estar, à amizade, à entrega…
Em jeito de conclusão:
– O mandamento do amor (a Deus e ao próximo) é o coração da mensagem de Jesus, resumindo toda a Lei. É a exigência essencial segundo a qual seremos julgados;
– O amor ao próximo é obra de Deus em nós (quem não ama não conhece a Deus);
– O amor é universal (não despreza ninguém e inclui os inimigos); expressa-se no perdão ilimitado, no bem que (a)paga o mal; no casamento exprime-se na forma de doação total, à imagem do sacrifício de Cristo
– Gerador de comunhão e fraternidade.
Maria do Céu Oliveira