Consistório Extraordinário – Vaticano 7 e 8 de Janeiro 2026

LEÃO XIV

ABERTURA DO CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO

Sala do Sínodo
Quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Discurso do Santo Padre

Caríssimos irmãos,

Estou muito feliz por vos receber e dar as boas-vindas. Obrigado pela vossa presença! Que o Espírito Santo, por nós invocado, nos guie durante estes dois dias de reflexão e diálogo.

Considero deveras significativo que estejamos reunidos em Consistório no dia seguinte à solenidade da Epifania do Senhor, e gostaria de iniciar os nossos trabalhos com uma sugestão que deriva precisamente deste mistério.

Na liturgia, ressoou o sempre comovente apelo do profeta Isaías: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, que está a chegar a tua luz! A glória do Senhor amanhece sobre ti! Olha: as trevas cobrem a terra, e a escuridão, os povos, mas sobre ti amanhecerá o Senhor. A sua glória vai aparecer sobre ti. As nações caminharão à tua luz, e os reis ao esplendor da tua aurora» (Is 60, 1-3).

Estas palavras fazem-nos pensar no início da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II. Leio na íntegra o primeiro parágrafo: «A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo» (Lumen gentium, 1).

Podemos afirmar que, a séculos de distância, o Espírito Santo inspirou a mesma visão no profeta e nos Padres conciliares: a visão da luz do Senhor que ilumina a cidade santa – primeiro Jerusalém, depois a Igreja – e, refletindo-se nela, permite a todos os povos caminhar no meio das trevas do mundo. O que Isaías anunciava in figura, o Concílio o reconhece na realidade plenamente revelada de Cristo, luz dos povos.

Os pontificados de São Paulo VI e São João Paulo II poderiam ser interpretados globalmente dentro desta perspectiva conciliar, que contempla o mistério da Igreja inteiramente contido no mistério de Cristo e, deste modo, compreende a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada do Evento central da história da salvação.

Os Papas Bento XVI e Francisco resumiram essa visão numa palavra: atração. O Papa Bento XVI fê-lo na homilia de abertura da Conferência de Aparecida, em 2007, quando disse: «A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor». O Papa Francisco concordou plenamente com esta perspetiva e repetiu-a, em contextos diferentes, várias vezes.

Retomo-a hoje, com alegria, e partilho-a convosco. A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a “força” que preside a este movimento de atração: essa força é a Charis, o Agape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações. Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo, e se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque através desse “canal” chega a seiva vital da Caridade que brota do Coração do Salvador. É significativo que o Papa Francisco, tendo começado com a Evangelii gaudium «sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual», concluísse com a Dilexit nos «sobre o amor humano e divino do Coração de Cristo».

São Paulo escreve: « Caritas Christi urget nos» ( 2 Cor 5, 14). O verbo sunechei indica que o amor de Cristo nos impele, na medida em que nos possui, envolve e cativa. Eis a força que atrai todos para Cristo, como Ele mesmo profetizou: «Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a mim» ( Jo 12, 32). Na medida em que nos amamos uns aos outros como Cristo nos amou, somos seus, somos a sua comunidade e Ele através de nós pode continuar a atrair. Realmente, só o amor é credível, só o amor é digno de fé. [1]

A unidade atrai, a divisão dispersa. Parece-me que isso também se verifica na física, tanto no micro como no macrocosmo. Por conseguinte, para sermos uma Igreja verdadeiramente missionária, ou seja, capaz de testemunhar a força atrativa da caridade de Cristo, devemos em primeiro lugar pôr em prática o seu mandamento, o único que Ele nos deu, depois de ter lavado os pés dos discípulos: «Que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei». E acrescentou: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). Santo Agostinho comenta: «Por isso Ele nos amou, para que também nós nos amemos uns aos outros. Ao amar-nos, Ele ajudou a que, com amor mútuo, nos estreitássemos entre nós e, ligados assim os membros por vínculo tão suave, fôssemos o corpo de tal Cabeça» (Homilia 65 sobre o Evangelho de João, 2).

Caríssimos irmãos, gostaria de partir daqui, desta palavra do Senhor, para o nosso primeiro Consistório e, sobretudo, para o caminho colegial que, com a graça de Deus, somos chamados a percorrer. Somos um grupo muito variado, enriquecido pelas nossas múltiplas proveniências, culturas, tradições eclesiais e sociais, percursos formativos e académicos, experiências pastorais e, naturalmente, feitios e traços pessoais. Somos chamados, em primeiro lugar, a conhecer-nos e a dialogar para podermos trabalhar juntos ao serviço da Igreja. Espero que possamos crescer em comunhão para oferecer um modelo de colegialidade.

Hoje, em certo sentido, continuamos o memorável encontro que, com muitos de vós, pude ter logo após o Conclave, com «um momento de comunhão e fraternidade, reflexão e partilha, com o objetivo de apoiar e aconselhar o Papa na grave responsabilidade do governo da Igreja universal» (Carta de convocação do Consistório extraordinário, 12 de dezembro de 2025).

Nestes dias, teremos a oportunidade de viver a experiência de uma reflexão comunitária sobre quatro temas: Evangelii gaudium, ou seja, a missão da Igreja no mundo de hoje; Praedicate Evangelium, isto é, o serviço da Santa Sé, especialmente às Igrejas particulares; Sínodo e sinodalidade, instrumento e estilo de colaboração; liturgia, fonte e meta da vida cristã. Por motivos de tempo e para favorecer um real aprofundamento, apenas dois deles serão objeto de uma análise específica.

Todos os 21 grupos contribuirão para a escolha que faremos, mas, como é mais fácil para mim pedir conselhos àqueles que trabalham na Cúria e vivem em Roma, os grupos que apresentarão os seus resultados serão os 9 provenientes das Igrejas locais.

Estou aqui para escutar. Como aprendemos durante as duas Assembleias do Sínodo dos Bispos de 2023 e 2024, a dinâmica sinodal implica, por excelência, a escuta. Cada momento deste tipo é uma oportunidade para aprofundar o nosso comum apreço pela sinodalidade. «O mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (Francisco, Discurso na comemoração do Cinquentenário da Instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015).

Este dia e meio que passaremos juntos será uma prefiguração do nosso caminho futuro. Não temos de chegar a um texto, mas sim levar por diante uma conversa que me ajude no serviço em prol da missão de toda a Igreja. Amanhã iremos tratar as duas temáticas escolhidas, a partir da seguinte pergunta-guia

Olhando para o caminho dos próximos um ou dois anos, que atenções e prioridades poderiam orientar a ação do Santo Padre e da Cúria sobre a questão?

Escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar-se mutuamente; expressar apenas o ponto principal e de forma muito breve, de modo que todos possam falar: esta será a nossa maneira de proceder. Os antigos sábios romanos diziam: Non multa sed multum! E, no futuro, esta forma de nos escutarmos uns aos outros, buscando a guia do Espírito Santo e caminhando juntos, continuará a ser de grande ajuda para o ministério petrino que me foi confiado. Também a partir do modo como aprendemos a trabalhar em conjunto, na fraternidade e na amizade sincera, pode começar algo novo, que compromete o presente e o futuro.

Caríssimos, desde já, dou graças a Deus pela vossa presença e pelos vossos contributos. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, sempre nos assista.

________________________

[1] Cf. H.U. von Balthasar, Glaubhaft ist nur Liebe, Johannes Verlag, Einsiedeln 1963.

 

Palavras improvisadas no final da primeira sessão do Consistório extraordinário 

Boa tarde, novamente e muito obrigado por todo o trabalho já realizado nesta primeira sessão.

Gostaria apenas de começar repetindo as palavras de um dos secretários, o primeiro a falar, que sugeriu que o caminho foi tão importante quanto a conclusão do trabalho à mesa. Gostaria de partir daí para dizer, em primeiro lugar, obrigado por estardes aqui! Penso que é muito importante a participação de todos vós nesta experiência como Colégio dos Cardeais da Igreja, que oferece não só a nós – não é para nós –, oferece à Igreja e ao mundo um certo testemunho da vontade, do desejo, reconhecendo o valor de nos encontrarmos juntos, de fazer o sacrifício de uma viagem – para alguns de vós muito longa –, para vir e estar juntos e podermos procurar juntos o que o Espírito Santo quer para a Igreja hoje e amanhã. Por isso, penso verdadeiramente que é importante, apesar de ser um tempo muito breve, mas é um tempo muito importante também para mim, porque sinto, experimento a necessidade de poder contar convosco: fostes vós que chamastes este servo para esta missão! Então, gostaria de dizer, penso que é importante trabalharmos juntos, discernirmos juntos, procurarmos o que o Espírito nos pede.

Se me permitis, repito algumas palavras da homilia de ontem, na festa da Epifania. Muitos de vós estáveis presentes, mas digo-o novamente. «Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja?». Estou convencido que sim, certamente. Estes meses, se não as tivesse vivido antes, certamente tive muitas experiências bonitas da vida da Igreja. Mas a pergunta permanece: há vida na nossa Igreja? «Há espaço para o que está a nascer? Amamos e anunciamos um Deus que nos põe novamente a caminho?». Não podemos fechar-nos e dizer: “Já está tudo feito, acabado, fazei como sempre fizemos”. Há realmente um caminho e com o trabalho destes dias estamos a caminhar juntos.

«No relato, Herodes teme pelo seu trono, agita-se com o que sente fugir ao seu controlo. Tenta aproveitar-se do desejo dos Magos e procura desviar em seu benefício a busca deles». Herodes «está pronto a mentir, está disposto a tudo; verdadeiramente, o medo cega. Em contrapartida, a alegria do Evangelho liberta: torna-nos prudentes, sim, mas também audazes, atentos e criativos; sugere estradas diferentes daquelas já percorridas». Este [encontro] é para mim uma das muitas expressões em que podemos realmente viver uma experiência da novidade da Igreja. O Espírito Santo está vivo e presente também entre nós. Como é belo encontrarmo-nos juntos no barco! Essa imagem que o Cardeal Radcliffe nos ofereceu na sua reflexão esta tarde, como que a dizer: estamos juntos. Pode haver algo que nos assusta; há a dúvida: para onde vamos? como acabaremos? Mas se colocarmos a nossa confiança no Senhor, na sua presença, podemos fazer muito.

Obrigado pelas escolhas. Penso que a escolha de todas as mesas por grande maioria é bastante clara. E também me parece muito importante, a partir dos outros comentários feitos, que não se pode separar um tema do outro. De facto, há muito que poderemos ver juntos. Mas queremos ser uma Igreja que não olha apenas para si mesma, que é missionária, que olha mais além, para os outros. A razão de ser da Igreja não é para os cardeais, nem para os bispos, nem para o clero. A razão de ser é anunciar o Evangelho. E, portanto, estes dois temas: Sínodo e sinodalidade, como expressão da busca de como ser uma Igreja missionária no mundo de hoje, e Evangelii Gaudium, anunciar o kerygma, o Evangelho com Cristo no centro. Esta é a nossa missão.

E, portanto, agradeço-vos. Isto ajudar-nos-á a organizar-nos para o trabalho de amanhã nas duas sessões. Os outros temas não se perdem. Há questões muito concretas, específicas, que ainda temos de ver. Espero que cada um de vós se sinta verdadeiramente livre para comunicar comigo ou com outros, e continuaremos este processo de diálogo e discernimento.

Então, nada mais. Obrigado por este serviço. Não sei se ultrapassei os três minutos. O moderador foi muito cortês! Boa tarde e até amanhã de manhã.

L’Osservatore Romano

LEÃO XIV

CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO
[7-8 DE janeiro DE 2026]

DISCURSO CONCLUSIVO DO PAPA LEÃO XIV

Sala do Sínodo
Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Quando cada um de nós foi eleito cardeal, o Santo Padre encarregou-o de ser «testemunha intrépida de Cristo e do seu Evangelho na cidade de Roma e nas regiões longínquas» (cf. Rito para a criação dos cardeais). Tal missão é realmente o núcleo, a essência do que todos nós nos comprometemos a fazer. Este Consistório representou um momento privilegiado para expressar a missão da Igreja e para fazê-lo juntos, em comunhão. Ao longo deste último dia e meio, o Espírito Santo concedeu claramente com generosidade os seus múltiplos dons. Estou profundamente grato pela vossa presença participação, orientadas a apoiar-me no meu serviço de sucessor de Pedro. Estou agradecido aos mais idosos de entre vós, que se esforçaram por vir: o vosso testemunho é verdadeiramente precioso! Ao mesmo tempo, estou também próximo, e de modo particular, dos Cardeais de várias partes do mundo que, por diversas razões, não puderam vir. Estamos convosco e sentimos que estais próximos!

Esta reunião encontra-se intimamente ligada ao que vivemos no Conclave. Tínheis manifestado, já antes do Conclave, da eleição do sucessor de Pedro, o desejo de nos conhecermos e de poderdes dar o vosso contributo e apoio. Fizemos uma primeira experiência no dia 9 de maio; e agora, nestes dois dias, através de um método simples, mas não propriamente fácil, que pudesse ajudar a encontrar-nos e a conhecermo-nos melhor. Pessoalmente, senti uma profunda comunhão e sintonia com todos vós, entre tantas intervenções. Fizemos também uma experiência de sinodalidade, não vivida como técnica organizativa, mas como instrumento para crescer na escuta e nas relações. Evidentemente, devemos continuar e aprofundar estes encontros.

No final desta intervenção, retomarei mais em concreto algumas ideias sobre como podemos prosseguir. No entanto, antes disso, gostaria de retomar alguns dos pontos que surgiram nestes dias. Talvez começando pelas palavras que foram repetidas várias vezes, inclusivamente nesta última sessão.

Redescobrir Cristo no centro da nossa missão; proclamar o Evangelho. Todos sabemos bem que Jesus Cristo está no centro. Queremos anunciar a sua Palavra e, daí, a importância de vivermos verdadeiramente também nós uma vida espiritual autêntica, que possa ser testemunho no mundo de hoje.

Os temas escolhidos estão profundamente enraizados no Concílio Vaticano II e em todo o caminho que brotou do Concílio. Nunca será demais sublinhar a importância de continuar o caminho que se abriu com o Concílio. Encorajo-vos a fazê-lo. Como sabeis, escolhi este tema – os documentos e a experiência do Concílio – para as audiências gerais deste ano. Esta estrada é um processo de vida, de conversão, de renovação de toda a Igreja. A Evangelii gaudium e a sinodalidade são elementos importantes deste caminho.

Ao mesmo tempo, gostaria também de referir que os outros dois temas propostos, apesar de não terem sido necessariamente centrais nestes dois dias de trabalho, estão fortemente ligados às outras temáticas e ao Concílio. Não foram nem serão esquecidos. O Cardeal Semeraro recordou bem a relação entre sinodalidade e Eucaristia. Aliás, um grupo de estudo ligado à Assembleia Sinodal está precisamente a aprofundar este tema. O Cardeal Castillo falou agora da Assembleia de 2028. Certamente que o trabalho em curso com a Secretaria do Sínodo continua nos grupos de estudo.

O caminho da sinodalidade é um caminho de comunhão para a missão, no qual todos somos chamados a participar. Por isso, os vínculos entre nós são importantes. Vós destacastes a importância da conexão do Santo Padre, em particular com as Conferências Episcopais e com as Igrejas locais, bem como a importância das Assembleias continentais. No entanto, também estas não devem tornar-se reuniões adicionais, a acrescentar a uma lista, mas lugares de encontro e relação entre os Bispos, os presbíteros e os leigos, e entre as Igrejas, que tanto ajudam a promover uma autêntica criatividade missionária.

Depois, retomamos o outro tema: o trabalho dos Dicastérios no espírito da Praedicate Evangelium, no seu serviço ao Santo Padre e às Igrejas particulares. A Praedicate Evangelium destaca a exigência de «harmonizar melhor o exercício atual do serviço da Cúria com o caminho de evangelização que a Igreja está a viver, sobretudo nesta época» (I, 3). Nesta perspetiva, reafirmo o meu compromisso de fazer a minha parte e oferecer a todos vós e à Igreja inteira uma estrutura de relações e de serviço, capaz de vos suportar e apoiar, a vós e às Igrejas locais, para enfrentarmos juntos, com maior pertinência e incisividade, os atuais desafios da missão.

Para prosseguir neste caminho, referistes a importância da formação. Formação para a escuta, formação para uma espiritualidade da escuta. Em particular – sublinhastes – nos seminários. Mas também para os bispos!

Neste ponto, embora não tenha sido um tema específico do nosso encontro, gostaria de mencionar o problema que ainda hoje, na verdade, é uma ferida na vida da Igreja em muitas regiões: precisamente a crise devido aos abusos sexuais. Não podemos fechar os olhos nem os corações. Gostaria de dizer, encorajando-vos também a partilhar isto com os bispos: muitas vezes, a dor das vítimas foi mais forte por não terem sido acolhidas nem ouvidas. O abuso em si causa uma ferida profunda que talvez dure toda a vida; mas muitas vezes o escândalo na Igreja é porque a porta foi fechada e as vítimas não foram acolhidas, acompanhadas com a proximidade de pastores autênticos. Há pouco tempo, uma vítima disse-me que, para ela, o mais doloroso era que nenhum bispo quis ouvi-la. Portanto, também ali a escuta é profundamente importante.

A formação de todos. A formação nos seminários, dos sacerdotes, dos bispos e dos colaboradores leigos deve estar enraizada na vida ordinária e concreta da Igreja local, das paróquias e de tantos outros lugares significativos onde se encontram as pessoas, em particular aquelas que sofrem. Como aqui observastes, não bastam um ou dois dias, nem mesmo uma semana, para aprofundar um tema a ponto de o viver. Seria importante, portanto, que o nosso modo ordinário de trabalhar juntos fosse uma ocasião de formação e crescimento para aqueles com quem trabalhamos, a todos os níveis, desde o paroquial ao da Cúria Romana. Onde, por exemplo, se pode ordinariamente crescer num estilo sinodal é nas visitas pastorais. Também todos os organismos de participação devem ser revitalizados.

Porém, tudo isto está relacionado com o caminho de implementação do Sínodo, que prossegue e terá uma etapa fundamental na Assembleia Eclesial programada para o ano de 2028. Encorajo-vos a ser fermento deste caminho. É um caminho para a missão da Igreja, um caminho ao serviço do anúncio do Evangelho de Cristo.

Queridos irmãos, estas são apenas as primeiras ressonâncias do que ouvi de vós. O intercâmbio está destinado a continuar. Convido-vos novamente a enviar por escrito as vossas apreciações sobre os quatro temas, sobre o Consistório no seu conjunto e sobre a relação dos Cardeais com o Santo Padre e com a Cúria Romana. Da minha parte, comprometo-me a ler com calma os relatórios e as mensagens pessoais e, mais tarde, dar-vos um feedback, uma resposta e continuar o diálogo.

Gostaria de propor que a nossa próxima ocasião para o Consistório deste ano fosse nas proximidades da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo. E gostaria de sugerir que, este ano, façamos novamente dois dias, pensando para o futuro continuar os encontros uma vez por ano, mas talvez por mais dias: três ou quatro, como alguns grupos sugeriram. Um primeiro dia de reflexão, de oração, de encontro, e depois dois ou três dias de trabalho. Porém, este ano continuaríamos deste modo.

Para prosseguir, a respeito da ajuda que sinceramente acredito podeis oferecer, pensemos no próximo Consistório de junho. Gostaria de acrescentar: se algum de vós tiver dificuldades por motivos, digamos, económicos, que fale. Penso que também eu, também nós, podemos viver um pouco de solidariedade uns para com os outros, e haverá forma de o fazer, com pessoas generosas que ajudarão.

Pois bem. Na conclusão deste Consistório, desejo reiterar o que afirmei na homilia da Epifania: «Deus revela-se e nada pode permanecer imóvel. Acaba-se uma certa tranquilidade, aquela que leva os melancólicos a repetir: “Nada há de novo debaixo do Sol” (Ecl 1, 9)». É esta a esperança que nos é dada.

Esperança que pretendemos transmitir ao nosso mundo. E com isto, desejamos manifestar, todos juntos, a preocupação que partilhámos nos diálogos, nos encontros pessoais e em algumas intervenções no grupo, por causa de todos aqueles que sofrem no mundo. Aqui reunidos, não somos indiferentes à realidade da pobreza, do sofrimento, da guerra, da violência que aflige tantas e tantas Igrejas locais. E aqui, tendo-os em nossos corações, queremos também dizer que lhes estamos próximos. Muitos de vós viestes de países onde estais a viver com o sofrimento da violência e da guerra.

Somos chamados a assumir este caminho de esperança também diante das novas gerações: o que vivemos e decidimos hoje não diz respeito apenas ao presente, mas tem impacto tanto no futuro próximo como no mais longínquo.

É a esperança que vivemos no Jubileu que acaba de terminar. É verdadeiramente uma mensagem que queremos oferecer ao mundo. Fechámos a Porta Santa, mas lembremo-nos: a porta de Cristo e do seu amor permanece sempre aberta!

E agora rezemos uns pelos outros, como o Santo Padre rezou por nós no dia em que nos criou cardeais: «Concedei com a Vossa graça o que a fraqueza humana não pode alcançar, para que estes Vossos servos, edificando continuamente a Vossa Igreja, brilhem pela integridade da fé e pela pureza de espírito» (cf. Rito para a criação dos cardeais). Que São Pedro interceda por nós, enquanto procuramos, em espírito colegial, servir a sua Barca, a Igreja!

 

A meditação do Cardeal Radcliffe no Consistório Extraordinário

A seguinte meditação foi pregada por nosso irmão, o Cardeal Timothy Radcliffe, OP, durante o Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV, realizado nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026. A pedido das Congregações Gerais antes do Conclave, o Consistório reuniu cerca de 170 cardeais para oração e reflexão sobre a sinodalidade e a missão. Segue abaixo o texto integral dessa meditação.

Leitura do Santo Evangelho segundo São Marcos

Depois que os cinco mil comeram e ficaram satisfeitos,
Jesus fez com que seus discípulos entrassem no barco
e o precedessem até o outro lado, em direção a Betsaida,
enquanto ele despedia a multidão.
E, tendo-se despedido deles,
foi para o monte orar.
Ao cair da tarde,
o barco estava longe no mar e ele estava sozinho na praia.
Então, viu que o barco era sacudido de um lado para o outro,
porque o vento soprava contra eles.
Por volta da quarta vigília da noite,
Jesus foi em direção a eles, andando sobre o mar.
Ele pretendia passar por eles.
Mas, quando o viram andando sobre o mar,
pensaram que era um fantasma e gritaram.
Todos o tinham visto e ficaram aterrorizados.
Mas ele imediatamente lhes disse:
“Coragem! Sou eu! Não tenham medo!”
Entrou no barco com eles e o vento cessou.
Eles ficaram completamente atônitos.
Não haviam entendido o episódio dos pães.
Pelo contrário, seus corações estavam endurecidos (Mc 6:45-52).

Acompanhando Pedro

Estamos reunidos neste Consistório para auxiliar o Santo Padre no exercício do seu ministério junto à Igreja Universal. Como devemos fazer isso? Amanhã, o Papa Leão XIV pregará sobre o Evangelho do dia, a multiplicação dos pães e peixes em São Marcos. Foi sugerido que o texto que se segue, Jesus caminhando sobre as águas, nos dá algumas pistas sobre a nossa tarefa.

Jesus ordenou aos discípulos que entrassem no barco e fossem à sua frente. Pedro não deveria enfrentar a tempestade sozinho. Esta é a nossa primeira obediência: estar na barca de Pedro, com seu sucessor, enquanto ele enfrenta as tempestades dos nossos tempos. Não podemos ficar na praia dizendo: “Eu mesmo não navegaria hoje” ou “Eu escolheria outro barco”. Jesus está sozinho na montanha, mas Pedro não deve ficar desacompanhado.

João escreve: “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é aperfeiçoado em nós”. Se o barco de Pedro estiver cheio de discípulos que discutem, não seremos de utilidade alguma para o Santo Padre. Se estivermos em paz uns com os outros em amor, mesmo quando discordarmos, Deus estará de fato presente, mesmo quando parecer estar ausente.

Em meio à tempestade, Jesus está distante na montanha, mas, como diz o Evangelho, “Ele viu que eles estavam progredindo com dificuldade”. Seu olhar está sempre sobre eles. É como se Jesus quisesse que eles experimentassem sua aparente ausência. Ele não tem pressa. Espera até que estejam quase exaustos. Essa experiência de ausência os prepara para uma intimidade que jamais poderiam ter imaginado. Ele entra no barco com eles.

Às vezes, nós também nos sentiremos sozinhos, esgotados, exaustos. Mas Jesus está observando e se aproximará de nós como nunca. Portanto, não precisamos ter medo. Vivemos também em tempos de tempestades terríveis, de violência crescente, desde crimes com faca até guerras. O abismo entre ricos e pobres está cada vez maior. A ordem mundial que surgiu após a última guerra mundial está ruindo. Não temos ideia do que a Inteligência Artificial trará. Se não estamos nervosos, deveríamos estar.

Navegue em direção à tempestade.

A própria Igreja está abalada por suas próprias tempestades, de abuso sexual e divisão ideológica. O Senhor nos ordena a navegar em direção a essas tempestades e a enfrentá-las com sinceridade, não timidamente esperando na praia. Se fizermos isso neste Consistório , o veremos vindo ao nosso encontro. Se nos escondermos na praia, não o encontraremos.

Marcos nos oferece um detalhe curioso: “Ele pretendia passar por eles”. A palavra grega para “passar por” está ligada à morte, assim como em português quando falamos de alguém que “faleceu”. Vemos aqui o padrão da Semana Santa. Uma refeição compartilhada, a multiplicação dos pães e peixes; a ausência de Jesus e seu aparecimento repentino. Já no Mar da Galileia, os discípulos viviam na expectativa da morte e ressurreição do Senhor. Isso se repetirá após a multiplicação dos pães e peixes.

Em Marcos, a Ressurreição é ao mesmo tempo totalmente nova e revivida repetidamente, como fazemos no Ano Litúrgico. Na Evangelli Gaudium, lemos sobre como a vida cristã é sustentada pela memória e pela inexaurível novidade de Deus. Agostinho afirma que Deus é sempre mais jovem do que nós!

No Consistório, alguns de nós seremos defensores da memória, prezando a tradição. Outros se deleitarão mais com a surpreendente novidade de Deus, mas memória e novidade são inseparáveis ​​na dinâmica da vida cristã. Portanto, nossas discussões ganharão vida se estivermos firmados na memória das grandes coisas que o Senhor fez e abertos à sua sempre renovada novidade. Não há competição.

Os discípulos ficaram “completamente admirados, pois não entendiam o significado dos pães, porque seus corações estavam endurecidos”. Na Bíblia, o coração é a sede do pensamento, e não das emoções, que residiam nas entranhas. Como disse um dos meus irmãos: “Na Bíblia, tudo acontece 50 centímetros mais abaixo…”

Os discípulos alimentaram os cinco mil, mas estavam presos à antiga lógica de cálculo. Tudo o que conseguiram produzir foram cinco pães e alguns peixes. Precisavam descobrir isso na lógica do Reino. Suas pequenas ofertas eram mais do que suficientes para milhares. O Senhor da colheita opera milagres com o que eles oferecem.

Podemos sentir que, diante dos imensos desafios do nosso mundo e da Igreja, temos tão pouco a oferecer. O que podemos dizer e fazer que fará a diferença? Mas, com a graça de Deus, o nosso pouco será mais do que suficiente. Portanto, não endureçamos os nossos corações, mas estejamos abertos aos dons incalculáveis ​​de Deus, que nos concede graça sem medida se abrirmos as nossas mãos e os nossos ouvidos para Ele e uns para os outros.

Consistório Extraordinário – Vaticano 7 e 8 de Janeiro 2026 (PDF)