Triduo e Domingo de Páscoa 2026 – A voz do Bispo do Porto
Sacerdócio e sinodalidade
2 abril, 2026
Homilia do bispo do Porto na Missa Crismal

Caros irmãos, nos três graus do sacerdócio ministerial,
para o bispo, é motivo de profundo contentamento, e até de alguma emoção, olhar para esta catedral e ver nela uma “multidão revestida de branco”, como refere o Apocalipse (Ap 7, 9), qual expressão da luz que vence a morte, da alegria originada na pureza, da vida nova santificada, da glória de Deus manifestada na ressurreição de Jesus, da eternidade que concede meta à materialidade. Como bons «pais de família», a nível espiritual, sois vós quem mais insere estes dons na existência da nossa gente. Motivo mais que suficiente para que todos vos agradecessem continuamente o vosso ministério. Mas porque não são muitos os que o fazem, aqui está o bispo para vos dizer: obrigado porque, na força do Espírito, sois vós quem edifica uma Igreja diocesana de luz, alegria, vida em plenitude, fé e eternidade. Obrigado e parabéns!
Mas não me esqueço que a passagem do Apocalipse que citei também refere que os eleitos sustentavam “palmas na mão” e tinham vindo “da grande tribulação” (Ap 7, 14). Ora, como sabemos, a Igreja sempre ligou a palma à tribulação do martírio, como símbolo de fidelidade até ao fim e da consequente glória, de beleza espiritual associada ao triunfo definitivo de Deus e do seu Ungido. Ah, e quanto isto é atual! Quantos teimam em fazer de vós sofredores e mártires, excluídos e proscritos, ridículos e desprezados. Tende a certeza de que o povo simples está convosco. E, com ele, também está o bispo!
Claro: temos de saber conquistar a simpatia dos nossos cristãos. Esta não acontece na rispidez, na receção fria, na complicação do que é simples, no mau humor, etc. Pelo contrário, dá-se naquela cordialidade que cativa, na vontade de um serviço sempre mais humanizado, numa familiaridade que se vai construindo, no fazer do crente um corresponsável dos assuntos da Igreja. A este propósito, vem-me à mente uma frase de um saudosista do passado, mas que nos deve levar a refletir: “Que figura de padre para o nosso tempo? O Cura de almas, passeando pelas ruas e praças da sua Paróquia, com sotaina e breviário na mão, saudando e recebendo saudações, ou os de agora, quais CEO’s de uma empresa, afastados do povo, a debitar ordens e regulamentos?”.
Quem assim carateriza os padres deste nosso tempo é perfeitamente injusto e sectário. Não conhece a realidade. Não obstante, remete-nos para o estilo do Senhor Jesus, em cujo sacerdócio participamos. No dizer de Isaías, que o Salvador aplicou plenamente a Si mesmo, somos ungidos “para anunciar a Boa Nova aos pobres” e enviados “a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor”. Somos enviados às pessoas concretas. Quer dizer: a conceção do sacerdócio católico passa impreterivelmente por uma maior integração nossa na realidade da vida do povo de Deus e por uma maior participação do laicado nas tarefas e atividades das comunidades a que presidimos. Supõe um caminhar conjuntamente, uma compreensão relacional e comunitária, um exercício concreto de corresponsabilidade baseada na escuta, na reflexão e no discernimento partilhado no seio da Igreja.
A nossa Diocese do Porto optou decididamente por um Sínodo diocesano. Terá este título ou mote: “SER PORTO: formar, reformar, transformar”. Como tem sido divulgado, muito trabalho já se fez e, se Deus quiser, no próximo dia de Pentecostes, será aberto solenemente, proposta a metodologia e linhas de força e apresentada a calendarização. Antevejo-o como uma consumação da esperança para a nossa Igreja. Oseu êxito ou fracasso dependerão, em parte determinante, do empenho dos ministros ordenados. Mas não duvido que todos daremos o mais generoso contributo. Como parte de uma Igreja concreta, cuja missão se faz em constante relação com os fiéis e as diversas vocações nela presentes, seremos motores, incentivadores, dinamizadores de todos os leigos e mesmo de outros homens e mulheres de boa vontade.
O sacerdócio só se concebe como um serviço integrado no povo de Deus e partilhado na corresponsabilidade. Sabemos que, por motivos históricos, à medida que se acentuou o clericalismo, mais os leigos se tornaram meros «consumidores». E hoje, consumidores exigentes. Só ultrapassaremos isso promovendo a participação de todos. É necessária, de facto, uma Igreja mais «horizontal». Uma Igreja que não põe em causa a «hierarquia», mas na qual o ministro é irmão entre os irmãos, apesar do seu papel específico de líder. É urgente escutarmos mais o Espírito e com Ele e n’Ele, discernir o que Ele nos pede. Sem o Espírito, a Igreja fica uma mera organização humana. E esta, por mais importante e simpática que o seja, jamais ligará a terra ao céu.
Para esta ligação do natural ao sobrenatural, muitos sacerdotes e diáconos têm dado um contributo a todos os títulos notável. Seja-me permitido assinalar aqueles que passaram para a Igreja triunfante ou celebram datas assinaláveis. Assim, desde 17 de abril de 2025, faleceram os seguintes sacerdotes: Cón. Arnaldo Cardoso de Pinho (15/05/2025); Pe. José da Silva Dias (26/07/2025); Pe. António de Brito Peres (25/10/2025); Pe. Fernando Silvestre Rosas Magalhães (26/10/2025); Pe. Albino de Almeida Fernandes (28/10/2025); Pe. Augusto Guedes Pinto (24/01/2026); Pe. Joaquim Valente Martingo (17/02/2026) e Pe. Joaquim Marques Ferreira (26/02/2026). E os seguintes diáconos: Diác. Orlando Lopes da Rocha (21/07/2025); Diác. Lírio da Rocha Ferreira (23/12/2025) e Diác. Adão Vieira (13/03/2026). O Senhor lhes conceda a plenitude da Luz que já acenderam na terra no coração e na mente de tantos fiéis.
Para o serviço no ministério, graças a Deus, também tivemos novos «reforços». Foram ordenados Diáconos em ordem ao sacerdócio (08/12/2025): Isaias Higuera; João Nuno Marques Silva; José Manuel Silvares Máximo e Rui Filipe Ribeiro Soares. A eles há que acrescentar o Diác. Permanente António Armindo Gomes de Sousa. E os seguintes novos sacerdotes (13/07/2025): P. Emanuel João Macedo da Mata; P. José Manuel Ferrão Abrantes e P. José Moisés Ramirez Guerra.
Ao longo deste ano civil, celebrarão Bodas sacerdotais os seguintes bons servidores do Evangelho. Em Bodas de Prata, teremos (ordenação em 2001): Pe. Arlindo Rafael da Silva Teixeira; Pe. Augusto Manuel Miranda Carneiro da Silva; Pe. Carlos Armindo Oliveira Felgueiras; Pe. Davide Carlos de Carvalho Matamá; Cón. José Alfredo Ferreira da Costa; Pe. José Augusto Ribeiro Ferreira; Pe. José Pedro da Silva Azevedo e Pe. Nelson António Vieira Soares. Em Bodas de diamante (1966), temos S.E.R. D. António Maria Bessa Taipa e Mons. Agostinho Cesário Jardim Moreira. E assinalamos ainda os belos setenta anos de sacerdócio (1956) dos caríssimos Pe. Domingos Gomes de Almeida; Pe. Joaquim Rodrigues Vieira Cavadas e Mons. Cón. Sebastião Martins Luís Brás. Curiosamente, não temos bodas de ouro, pois em 1976, no Porto, não houve ordenações, porventura efeito secundário da Revolução do 25 de abril de 1974.
Caros sacerdotes e diáconos, projetamo-nos, para o nosso Sínodo diocesano. Projetamo-nos para o nosso povo e para uma Igreja que os inclua e os sirva. Constituirá uma das maiores ocupações e preocupações dos próximos tempos. Como tantas vezes tem sido proferido, o Sínodo não é um parlamento, uma panaceia, uma ilusão, mas um espaço para escutar o Espírito e discernir como ser Igreja hoje, ultrapassando zonas cinzentas para um renovado impulso missionário. Então, pelo amor que temos a Jesus e à sua Igreja, demos-lhe o relevo que ele merece. E que Deus permaneça convosco, vos abençoe, vos proteja e vos conceda força de ânimo para prosseguirdes nas vias do serviço e da dedicação apaixonada à tarefa da missão. E, por tudo, muito obrigado!
Manuel Linda
Bispo do Porto
Paixão e sinodalidade
3 abril, 2026
Homilia do bispo do Porto na Celebração da Paixão do Senhor

Depois da prostração, em silêncio, como tomada de consciência de quanto fez por nós Aquele que, a esta hora, expirou na cruz, começamos esta sagrada liturgia de sexta-feira santa com uma oração na qual se recorda uma dupla pertença presente no mundo: a da morte e do pecado, “transmitida a todo o género humano”, e a da vida sobrenatural, fruto da renovação à imagem do Filho de Deus, o “homem celeste”. Duas formas de ser e duas vias que separam a humanidade: a primeira diz respeito àquela grande parte que ainda permanece apenas no estado do “homem terreno”, egoísta e materialista, sem se preocupar com mais nada; a outra refere-se àqueles que sabem fazer caminho unidos aos irmãos, com Jesus e sob a guia de Jesus. Estes são os «sinodais», os que querem e sabem ser povo do Senhor, os que veem na Igreja a Mãe comum que a todos acolhe na fraternidade e na alegria, os dispostos a dar as mãos uns aos outros para que ninguém se disperse e todos colaborem em prol do bem comum.
Este Evangelho da Paixão, agora religiosamente escutado, também nos falava destes dois grupos e das vias que seguiam. Um, o mais numeroso, não tinha qualquer outro objetivo de unidade que não fosse potenciar o rancor e o ódio e dar a morte Àquele que não reconheciam ou deixaram de reconhecer como Mestre, Senhor e Salvador. Um outro pequeno grupo, no qual sobressaem Maria e João, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena, as mulheres piedosas de Jerusalém, Verónica, Simão de Cirene, José de Arimateia e poucos mais, não abandonam Aquele em quem puseram a sua confiança e constituem um específico grupinho unido, destemido e colaborante até na sepultura do defunto em quem continuavam a acreditar. Une-os um Jesus sofredor e crucificado, como vão ser unidos pelo Cristo ressuscitado e glorificado. E constituem, certamente, o núcleo embrionário da Igreja, mais tarde servida pelos Apóstolos, a partir do Pentecostes. Pelo menos, são sua figura.
Esta sinodalidade, este fazer caminho com Jesus, lembra-nos alguns dados que lhe são inerentes. Em primeiro lugar, apresenta-nos a Igreja como, simultaneamente, Corpo sofredor e glorioso: tal como Cristo, também a Igreja sinodal experimenta momentos de provação e conflito, de dúvidas e obscuridade. Mas, guiada pelo Espírito do Ressuscitado, supera-os na comunhão da mesma fé, na unidade de sentimentos, na escuta fraterna e no discernimento comunitário.
Depois, a sinodalidade remete-nos para a força de sermos capaz de partilhar pesos e suportar fardos: o peso da existência de tantos irmãos que carregam pesadas cruzes, incluindo a cruz da falta de uma meta e de fé e esperança para a atingir; e o fardo do serviço à Igreja enquanto tal, por vezes tão carente de ministros que a sirvam, de carismas que coloquem os seus dons a render para a vitalidade eclesial e de fiéis que se comprometam efetivamente nos ministérios e serviços com os quais se constrói o bem comum. Precisamos de mais colaboração e que todos os que têm fé vivam a Igreja como sua, a defendam e a alarguem. Então, viver a sinodalidade significa carregar, juntos, em união com o Cordeiro de Deus, o peso do pecado do mundo, aliviar os sofrimentos do presente e, em corpo organizado, juntar forças para levar a salvação a todo o mundo. É desta maneira que a Igreja se conforma ao seu Senhor, o “homem do sofrimento” e morto, mas ressuscitado e glorioso.
Irmãs e irmãos, esta Sexta-Feira Santa, vivida em ano do lançamento do Sínodo da Igreja do Porto, nos ajude no dom de nós mesmos a Deus, tal como Jesus se doou totalmente em nosso favor, e nos fortaleça numa comunhão indestrutível de uns com os outros, sob o seu modelo supremo do amor de Cristo. Caminhar juntos exige docilidade ao Espírito de Cristo, escuta mútua e vontade de ser incentivado à participação e ao compromisso. Redimidos pela cruz do Senhor, não o neguemos.
Manuel Linda
Bispo do Porto
Luz, Palavra e Sinodalidade
04.abril.2026
Homilia na Vigília Pascal de 2026

Esta vigília, que nos prepara e celebra já a luz radiante da Páscoa da Ressurreição, é imensamente rica de símbolos e palavras que mereciam longa reflexão. Não podendo tratá-los a todos, permitam uma referência à luz e da Palavra de Deus.
Depois da bênção do lume novo, iniciamos uma procissão até ao altar, deixando-nos conduzir pela “Luz de Cristo”, tal como o Diácono propunha. O ideal seria que todos nós nos pudéssemos integrar fisicamente essa procissão. Mas como isso era difícil, deslocamo-nos alguns e todos seguiram esse movimento com o olhar e a intenção. E mantivemos as velas acesas enquanto se cantavam louvores à luz, símbolo da ressurreição do Senhor, no Precónio Pascal. Daqui a pouco, voltaremos a acender as velas para renovarmos as promessas do nosso Batismo.
Uma Igreja sinodal, tal como queremos ser na nossa Diocese do Porto, é isto mesmo: um povo de fraterna união que segue a Luz de Cristo, vigia para que essa Luz ilumine no máximo do seu esplendor, segue a Luz como esposa fiel do seu Esposo e, nessa Luz, revela o seu rosto sempre rejuvenescido, alegre e simpático. E ao renovar as promessas do Batismo, esta Igreja que nós somos, reconhece que todos fomos introduzidos na mesma dignidade de filhos de Deus, membros do mesmo corpo e participantes da relação de Jesus com o Pai, independentemente das nossas funções, carismas e ministérios. Faz-nos ver a necessidade de uma conversão permanente, um restaurar contínuo da vida nova em Cristo, rejeitando todo o mal e semeando o bem neste mundo a transformar em Reino de Deus. E que isso diz respeito a todos. A renovação das promessas batismais não é, pois, apenas um ato litúrgico, mas o motor de uma Igreja sinodal que escuta, caminha junta e se sente corresponsável pela missão.
Por outro lado, esta longa liturgia das leituras bíblicas e dos salmos que as acompanharam faz-nos tomar consciência de que o tal «caminhar juntos», inerente à ideia de sinodalidade, jamais se realizará se não colocarmos a Palavra de Deus no centro, promovendo uma Igreja que, tal como o velho povo de Deus do Antigo Testamento, segue em conjunto na história, abre o coração à escuta do que o Espírito tem a dizer-nos no hoje que nos é dado viver e faz dessa Palavra a base de todo o discernimento. É refletindo sobre ela e nela que se criam espaços de conversação fraterna e escuta mútua, superando a solidão e a indiferença, infelizmente muito típicas de alguns membros da Igreja. Só nessa Palavra seremos capazes de discernir os sinais dos tempos, escutar o Espírito que guia a Igreja, afastar os medos da mudança e renovar as estruturas e colocar todos os batizados nas sendas da missão.
Irmãs e irmãos, o Senhor ressuscitou. É este o centro e a consistência da nossa fé. E Ele continua a dizer-nos, tal como o Anjo a “Maria Madalena e à outra Maria” que ainda pensavam que era necessário embalsamar o corpo de Jesus: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, o Crucificado. Não está aqui: ressuscitou, como tinha dito!”. Ele vai à nossa frente para aquela Galileia da paz, da beleza e da felicidade. Ele formou um povo santo que caminha na história para solidificar as fraturas que a sociedade gera, para limpar as lágrimas dos que nada mais veem que não seja negrura e morte, para construir a paz a partir de dentro de um coração sensível e amoroso, para dar vista aos cegos e curar os mudos, enfim, para nos dar esperança e coragem para atingirmos esse grande «Porto» de abrigo que é a plenitude da graça e da felicidade.
Caminhemos com Ele e n’Ele. Celebremo-l’O e cantemos-lhe hossanas de vitória. Unamo-nos a Ele para participar da sua felicidade sem fim.
A todos, santa e feliz Páscoa!
Manuel Linda
Bispo do Porto
Páscoa, fé e sinodalidade
05.abril.2026
Homilia da Páscoa de 2026

Do Evangelho desta Solenidade da Páscoa do Senhor, chama-me a atenção os desencontros e encontros entre as primeiras testemunhas da ressurreição: Maria Madalena, João e Pedro. Certamente movidos por razões santas e de profunda amizade ao que tinha sido crucificado, todos se dirigem ao túmulo, já vazio. Mas cada um age por si. Maria Madalena, ainda escuro, vai ver o que se passa e se o corpo do defunto ainda está em condições de ser embalsamado. Não entende nada ao ver o sepulcro aberto e vazio. Corre ao encontro de Pedro que também fica profundamente confuso. João ouve e dispara em correria para ver o que se passa. Pedro, bem mais velho, não aguenta a velocidade e fica para trás. Quando João chega lembra-se do que o Mestre tinha dito a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta «Pedra» edificarei a minha Igreja” (Mt16, 18). Não entra no túmulo enquanto Pedro não chega, pois se todos são testemunhas da Ressurreição, importava que a primazia do seu anúncio fosse confiada à coluna vertebral da Igreja. É o que este vai fazer, pouco tempo depois, diante de pagãos, em casa do centurião Cornélio, como referia a primeira leitura.
Gostava de acentuar estas linhas de força, tão bem descritas pelo evangelista: antes da fé na Ressurreição, aliás, testemunhada pelos vários “sinais” com ela relacionados, temos individualidades que percorrem as suas próprias vias, movidos pelos seus afetos, certamente bons e assinaláveis; mas depois de assumirem a fé na ressurreição, desaparecem as meras individualidades e dá-se início a um grupo coeso, que tem a fé como base comum, anuncia a verdade que o Senhor está vivo, abre-se à força do Espirito que o faz compreender tantas coisas até aí obscuras, enfim, faz da fraqueza força para levar esta verdade até aos confins da terra. Este grupo constitui o núcleo originário do que viria a ser a Igreja da manhã de Pentecostes. Igreja jovem, simpática, atraente, de comunhão, participação e missão, tal como queremos que seja esta Diocese do Porto, em sintonia com o processo sinodal em curso.
Pelas referências bíblicas e pela nossa cultura religiosa, sabemos que o Senhor Ressuscitado deixou definitivamente de ser visto aos olhos do mundo. Mesmo aos dos discípulos, só lhes aparece para vincar aspetos ainda não suficientemente referidos. Por um lado, o valor insubstituível do Domingo; por outro, a Eucaristia que lhe dá a tónica. A passagem do culto judaico ao cristão supõe também a mudança do dia santo: não mais o sábado, o final da semana, comemorativo do acabamento da obra da criação, mas o Domingo, o primeiro dia da semana e expressão de uma nova criação, da nova humanidade lavada no Sangue do Cordeiro, família de todos e família de Deus. É sempre ao Domingo que o Senhor aparece aos Apóstolos. E é aí que os acontecimentos são sempre interpretados à maneira eucarística. Para nos dizer que o Domingo sem Eucaristia seria um mero feriado; com ela, com a Missa, é um dia santo.
Por isso, a partir desse momento, não há mais culto a Deus que não tenha a Eucaristia como seu centro e referência. O povo de Deus que O adora e venera, tem aí o ponto mais alto do seu encontro com o Ressuscitado. Hoje, é na Missa que «vemos» o Senhor. Mas é também aí que esse povo se encontra para se alimentar do mesmo Corpo e do mesmo Sangue, animar a sua fé na sua vivência coletiva, para escutar a Palavra e discernir o que o Espírito lhe propõe, imitar as atitudes de Jesus de ajuda e serviço aos frágeis e necessitados e munir-se de forças para comunicar a todos a alegria de ser cristão em plenitude.
Irmãs e irmãos, como diziam os mártires de Cartago, «o cristão não pode viver sem o Domingo». Mas o Domingo entendido nesta dimensão religiosa. Porque, desta forma, ele é transformador da pessoa, do mundo e da cultura. Somos cidadãos de uma sociedade que precisa cada vez mais dos ideais e da força da fé. Precisa de acreditar na paz e na fraternidade universal como possíveis; precisa de se caldear no amor de Deus e fazer do serviço a Ele e ao próximo, lei suprema da vida individual e social; precisa da força da fé e da verdade, portanto, da liberdade, que eleve as mil opiniões desenfreadas à colaboração de todos no bem e comum e não na desagregação social; precisa de levar bem a sério o que o Papa Leão XIV, dizia, recentemente, desde o Mónaco: “Não nos acostumemos ao estrondo das armas nem às imagens da guerra”.
Reavivemos a fé na Ressurreição. Celebremos a Ressurreição em cada Domingo, em cada Eucaristia. Restituamos ao Domingo o valor que é o seu. Façamos da Eucaristia dominical o centro e o cume da nossa fé. Uma fé construtora de uma nova cultura do diálogo, da fraternidade, da ajuda, da colaboração e da paz. Façamo-lo a partir da Eucaristia, memória viva e local de encontro com o Ressuscitado. Como escrevia Santo Ambrósio, a nível individual e social, “Temos tudo em Cristo … Cristo é tudo para nós. Se queres curar uma ferida, Ele é o médico; se estás a arder de sede, Ele é a fonte refrescante; se estás oprimido pela culpa, Ele é a justificação; se precisas de ajuda, Ele é a força; se temes a morte, Ele é a vida; se desejas o céu, Ele é o caminho; se foges das trevas, Ele é a luz; se precisas de alimento, Ele é a comida”.
Santa e feliz Páscoa!
Manuel Linda
Bispo do Porto
Triduo e Domingo de Páscoa 2026 – A voz do Bispo do Porto (PDF)