Entrevista do Bispo do Porto D. Manuel Linda à Rádio Renascença

Igreja
Bispo do Porto:
“A nossa fidelidade não é a Trump, é ao Evangelho”
27 abril, 2026 • Henrique Cunha – Rádio Renascença
No dia em que o cardeal Mario Grech visita o Porto a convite do seu bispo diocesano, D. Manuel Linda sai em defesa do Papa Leão XIV na polémica com Donald Trump. Em entrevista à Renascença, o bispo do Porto faz também um balanço dos oitos anos como titular da diocese e garante: “Hoje temos um clero muito unido.”

O secretário-geral do Sínodo dos Bispos, cardeal Mário Grech, está no Porto no âmbito da preparação para o sínodo diocesano convocado pelo bispo diocesano, D. Manuel Linda.
A convite do bispo do Porto, o cardeal maltês estará em ações de formação sobre o tema “A sinodalidade da Igreja e o Sínodo Diocesano”, em encontros que decorrerão na Casa Diocesana de Vilar.
No mês em que assinala oito anos como bispo do Porto, D. Manuel Linda explica, em entrevista à Renascença, as razões para a marcação de um Sínodo na Diocese, faz um balanço do seu trabalho e fala também do Papa, declarando que Leão XIV “esteve muito bem” na polémica com Donald Trump quando sublinhou a sua fidelidade ao Evangelho.
Para D. Manuel Linda, a administração norte-americana vai continuar a alimentar a polémica, mas esse “é um problema de Trump”.
Estamos no mês em que o senhor D. Manuel Linda assinala oito anos à frente da Diocese do Porto. Que balanço, ainda que breve, se pode fazer?
Quem pode fazer o balanço são os outros que têm mais isenção para se pronunciarem.
De qualquer maneira, há um trabalho de equipa, de grupo, há um trabalho daqueles que me acompanham nos serviços centrais da Diocese e, particularmente, dos senhores bispos. Já foram sete aqueles que trabalharam ou trabalham comigo. Portanto, não é um trabalho único da minha parte, nem de longe nem de perto, é um trabalho de equipa.
Não sei enumerar tudo, mas a minha grande preocupação quando cá cheguei — para isso fui mesmo alertado a nível superior — era o problema da consolidação económica, era o problema, também, da sustentabilidade dos colégios, que estavam mal. Procuramos valorizar o património diocesano, um património que, muitas vezes, em vez de dar lucro dava prejuízo. Depois, a nível daquilo que mais nos importa, como Diocese, foi proceder à união do clero e, graças a Deus, hoje temos um clero muito unido. Também procurei dedicar maior presença junto ao clero ou diretamente e, por exemplo, nunca me ausentei de nenhum dos conselhos dos diocesanos, como, por exemplo, o Conselho Presbiteral, o Conselho Pastoral, o Colégio dos Consultores…
Mas, claro, que essa presença junto do clero não é feita exclusivamente por mim, é feita também pelos bispos auxiliares, que são absolutamente impecáveis. Enfim, procurei valorizar o papel do vigário, valorizando as vigararias como unidade pastoral de referência.
Por outro lado, levei muito a sério o contato com a sociedade civil. Com frequência convido para a Casa Episcopal pessoas dos mais diversos quadrantes culturais, bastantes artistas, pessoas simples e pessoas que marcam a sociedade. É uma forma, também, de termos “feedback” sobre o que é a sociedade hoje. E as pessoas, com muito zelo, dão-nos a sua perspetiva sobre a sociedade. E com os poderes autárquicos, desde há vários anos que fazemos, por exemplo, um encontro com os presidentes das Câmaras, por altura de janeiro.
Do conjunto desses encontros que “ideia nova” tem da sociedade?
Confirmam aquilo que vamos sabendo, mas é bom tomarmos uma consciência profunda e julgarmos a partir daí. Aquilo que sabíamos é que é uma sociedade plural, muito pluralista, quando passa para a dimensão individual as pessoas tendem a fazer a sua moralidade, a sua eticidade.
Parecendo um bocadinho redutor, é uma sociedade menos solidária e mais individualista?
A sociedade é mais individualista, mas não deixa de ser solidária, particularmente quando a emotividade lhe toca o coração. Vendo uma imagem, por exemplo, de alguém a passar fome, de alguém abandonado ou que se encontra, digamos, numa situação de fragilidade, a sociedade reage, reage como reagia anteriormente. Mas agora reage mais a partir do dado da afetividade, da emoção, do que propriamente da racionalidade, do pensar.
Mais impulsiva?
Mais impulsiva, talvez, um bocado…
Há pouco, falou da questão económica. Essa é uma tarefa realizada com sucesso?
Conto, quando deixar o serviço pastoral da Diocese, deixá-la também com sustentabilidade futura. De facto, um conjunto de circunstâncias que se devem ao trabalho muito afincado das estruturas centrais da Diocese, mas também se deve um bocadinho ao momento económico que nos é dado a viver, concretamente ao turismo, permitiram-nos ter lançado as bases para uma sustentabilidade futura.
Porque não tínhamos ilusão. Hoje, ainda há muitos cristãos que participam e sabem que um dos mandamentos da Igreja é, exatamente, contribuir para as despesas do culto e, quando se diz isto, imaginamos, por exemplo, as nossas igrejas, por vezes, em lugares relativamente desertificados. Hoje, ainda vamos tendo essa colaboração. Num futuro próximo, não sei. Portanto, não sei se num futuro próximo será o contrário daquilo que aconteceu até este momento. Até este momento, a Diocese era sustentada pelos organismos menores, pelas paróquias. Qualquer dia, porventura, terão de ser as paróquias e os párocos a serem sustentados pela Diocese.
Neste ano, assumiu como grande desafio a realização do Sínodo Diocesano e revelador da importância que dá a esta iniciativa é, certamente, o convite que formulou ao cardeal Grech para vir à Diocese…
Evidente. Todos os anos temos tido uma ação de formação, mais ou menos por essa altura, para o clero e para os leigos, também, e para os diáconos. Claro que, normalmente, é sobre uma determinada temática que, naquele contexto, e particularmente no nosso plano pastoral, esteja mais urgente. De qualquer maneira, este ano, como estamos a realizar o sínodo, a temática não podia ser outra.
Ora, como o cardeal Mário Grech foi escolhido pelo Papa Francisco para presidir ao Secretariado do Sínodo Universal, tem muita experiência neste campo e era a pessoa indicada. Ele aceitou com muita amabilidade e cá o recebemos. Esperamos por ele ansiosamente.
E é uma mais-valia para a formação que se quer na condução dos trabalhos sinodais que vão arrancar no Dia de Pentecostes?
A ação de formação não se limita apenas às conferências e ao diálogo com o cardeal Grech. De qualquer maneira, numa linguagem muito humana, ele é a cabeça de cartaz. Portanto, a parte de leão, a parte mais importante está-lhe confiada. Agora não é exclusiva, porque continua a ação de formação no dia seguinte e por ir para a frente.
O senhor bispo inspirou-se, de alguma forma, no Papa Francisco para avançar com a realização do Sínodo? Ele, que foi um grande defensor da sinodalidade, deixou-nos precisamente a um ano?
Foi, fundamentalmente, o Papa Francisco. E foi também um acontecimento que para a diocese do Porto diz muito. Nós realizámos a nossa peregrinação diocesana a Fátima. Não tínhamos realizado desde quando o meu antecessor, o senhor D. António Francisco de Santa Memória, faleceu. E, depois, colocou-se a questão de como capitalizar, entre aspas, este capital espiritual. Atenção: não estou a falar em capital monetário, mas de como aproveitar esta mobilização de uma diocese que foi exemplaríssima na sua participação. Então, foram surgindo várias ideias e uma delas foi, exatamente, esta da convocação de um sínodo, que me levou a fazê-lo nesse mesmo dia, perante aquela enorme multidão que compunha muito bem grande parte do do espaço de Fátima.
Isso serviu de inspiração para a concretização do sínodo diocesano?
A ideia foi sendo lançada, era um grupinho muito pequenino, aqueles que tínhamos falado sobre isso, foi alargando, as pessoas começaram a ficar entusiasmadas, de tal maneira que recebi muitas comunicações… Não foi só o diálogo pessoal, com algum leigo mais comprometido na Igreja ou outras pessoas, sacerdotes e diáconos, mas inclusivamente em todos os organismos de participação onde eu levei este tema, desde o Conselho Episcopal até o Colégio de Consultores, os vigários, até o Conselho Presbiteral, Pastoral, enfim, todos a 100 por cento — e gostava de sublinhar este dado: a 100% — disseram “vamos lá”, “vamos a ele, vamos a ele”.
E, pronto, aqui estamos para o fazer. Não é para sair um conjunto de resoluções que se implementem logo no dia seguinte, seria impossível seria qualquer coisa que não daria absolutamente nada. Será um trabalho de empenho o sabermos viver e conviver nesta Igreja que pede a nossa responsabilidade coletiva pelo seu presente e pelo seu futuro. Muitas ideias sairão das comissões, a Comissão Central e outras comissões “ad hoc”. Elas saberão sintetizar aquilo que ficará como um projeto futuro, para um futuro próximo, nesta diocese do Porto.
E para se aplicarem…
Para se aplicarem, exatamente a partir do dia em que o sínodo termine. Agora, não é aquela aplicação tão automática como pegar no interruptor de eletricidade e acender logo a lâmpada, não.
As coisas demoram o seu tempo…
Claro. E com a prioridade daquelas que nos parecem mais viáveis na primeira fase.
Falamos no dia em que o Papa Leão termina a sua viagem apostólica a África, uma viagem salpicada também pela polémica com as críticas de Donald Trump a Leão XIV. A resposta dada pelo Papa, não se colocando a um nível político, ajudará a terminar com a polémica ou da parte da administração norte-americana podem surgir novas polêmicas?
Isso é com ele, com senhor Trump, não nos interessa. O que está em causa, quer para o Papa quer para um bispo, é o anúncio do Evangelho e a fidelidade ao Evangelho. Que o Sr. Trump ou outro qualquer concordem ou não concordem, isso é o problema deles. A nossa fidelidade não é Trump, a nossa fidelidade é ao Evangelho.
O Papa saiu-se muito bem, muito bem mesmo, como, aliás, se esperava, dizendo que os discursos tinham escritos muito tempo antes de serem pronunciados, portanto não tem a ver com a polémica levantada pela administração americana. E não foi só Trump. Tivemos também o vice-presidente a dizer ao Papa para ter mais cuidado ao pronunciar-se sobre a teologia. Como é que alguém que está a fazer uma aproximação à igreja e que conhece muito pouco de teologia pode ter a ousadia de fazer isso?
Portanto, a mim não me preocupa essas polémicas da parte do senhor Trump, preocupar-me-ia era se o Papa não anunciasse o Evangelho na sua fidelidade. E o Papa situa-se muito bem nesta linha de continuidade que vem de Pedro e Paulo, que vem de São Pedro e de todos os outros Papas e que chama muito para esta linha da Igreja de fidelidade à Palavra.
Mas olhando para a linha de Trump não será de esperar que ele não fique por aqui?
Ah, sim, sim, conhecendo as ideias, ou a falta delas, não sei, é muito provável que não fique por aí. Mas é o que eu digo: é um problema mundial.
A defesa da paz é património inalienável da igreja?
A defesa da paz está ao centro do Evangelho. Nós estamos num tempo pascal, todas as aparições do Ressuscitado começavam sempre com “a paz esteja convosco”. E nós, na liturgia, referimos isto quando, no momento do abraço da paz, antes da comunhão, dizemos “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Quer dizer, a paz é referência absoluta, é oração para a Igreja e, portanto, não a pregar seria infidelidade à doutrina, ao centro, não é um bocadinho da periferia da doutrina da igreja, é o centro da doutrina do Evangelho.
É importante, então, dizer aos poderosos deste mundo que é preciso paz?
Pois, sim. Sempre foi, mas, agora, é-o de uma forma especial. O nosso poder chama-se “fidelidade à doutrina”.
Entrevista do Bispo do Porto D. Manuel Linda à Rádio Renascença – 27.04.2026 (PDF)