Papa Leão XIV aos Jovens em Barcelona-09.06.2026
Leão XIV em Barcelona
Papa ouve jovens e alerta para crise de saúde mental e feminicídio
09 junho, 2026 • Aura Miguel, enviada especial a Barcelona – Rádio Renascença – introdução e destaques
Perguntas e respostas – Vaticano
Em Barcelona, um rapaz e duas raparigas abriram o coração ao Papa e partilharam os seus problemas com o mundo. Leão XIV pediu medidas para a saúde mental e também alertou para o flagelo da violência doméstica e das mulheres assassinadas pelos companheiros. “Todos somos chamados a enfrentar esta realidade dramática”, declarou.

Depressão profunda, tentativa de suicídio, sentido da vida, conflitos familiares, perdão e pressão social. O Papa respondeu esta terça-feira a perguntas sobre temas difíceis colocadas por jovens no Estádio Olímpico “Lluís Companys”, em Barcelona.
Ao quarto dia de visita a Espanha, Leão XIV escutou as inquietações das novas gerações, durante uma vigília com momentos de grande emoção, e apontou alguns caminhos de luz em tempos sombrios.
Uma jovem que tentou o suicídio após uma depressão profunda disse que recebeu uma segunda oportunidade na vida. Perguntou ao Papa onde encontrar Deus “quando a escuridão é total” e quando nada parece ter valor ou sentido.
Outro caso partilhado no Estádio Olímpico envolveu um drama familiar. Uma jovem relatou que o pai tentou assassinar a mãe. Acabou por matar um rapaz que tentou intervir e foi preso. A mãe caiu no mundo da droga. A jovem foi institucionalizada e pergunta como pode perdoar o pai e onde estava Deus.
Num terceiro testemunho, um jovem falou da pressão da sociedade para o sucesso e a obsessão com a imagem. Recentemente batizado, perguntou ao Papa como pode uma pessoa manter o foco no que verdadeiramente interessa na vida e como cada um pode descobrir a sua vocação.
De seguida, transcrevemos um excerto das perguntas dos três jovens e das respostas do Papa Leão XIV:
A sociedade pressiona para ter sucesso, mas só encontrei um vazio imenso. Como manter o olhar fixo no que realmente importa?
Pergunta:
Santo Padre, crescemos a ouvir dizer que o único objetivo na vida é produzir, ter sucesso e cuidar da nossa imagem. Eu próprio tentei, mas só encontrei um vazio imenso. À procura de respostas, a minha vida deu uma reviravolta e, nesta última Páscoa, recebi o Batismo. Já que este caminho ainda é novo para mim, pergunto-lhe: como podemos manter o olhar voltado para o que realmente importa, quando a sociedade nos força a olhar, constantemente, para o chão ou apenas para nós próprios? Como podemos descobrir a nossa verdadeira vocação no meio de tudo isto?
Papa Leão:
Obrigado por este testemunho. Primeiramente, gostaria de alegar-me contigo e com todos aqueles que, na Páscoa deste ano, receberam o Sacramento do Batismo. Muitos jovens e adultos estão redescobrindo a fé cristã, talvez após uma fase da vida em que se tinham afastado um pouco de Deus. Trata-se de um passo verdadeiramente importante. Com efeito, tudo o que descobrimos, acolhemos e vivemos gradualmente ao longo do caminho contribui certamente para o nosso crescimento, para a nossa maturidade e para alargar espaços de vida no nosso interior; mas, ao mesmo tempo, no meio das alegrias, das vitórias e das derrotas, apercebemo-nos de que precisamos de uma outra água para nos saciar mais profundamente. O nosso desejo de verdade e felicidade necessita de um horizonte maior. E esta inquietação é um dom que o próprio Deus nos concedeu: fomos feitos à medida do infinito e, por isso, todo o horizonte finito, cada passo, cada conquista, enquanto nos satisfaz, impulsiona-nos para a frente e convida-nos a continuar à procura, a procurar avançando; mas, acima de tudo, a procurar “descendo interiormente”, ou seja, indo ao mais profundo de nós mesmos.
Volto, pois, à questão com duas breves ideias. A primeira: é necessário cultivar essa saudável inquietação. Nas nossas sociedades, efetivamente, a idolatria do lucro e do rendimento, a ânsia de ter de produzir sempre e ser vencedores, bem como o culto da própria imagem, não passam de anestésicos para entorpecer a nossa consciência e adaptá-la a uma certa ideia de sociedade. Quando as pessoas aprendem a parar, a valorizar as coisas importantes, a apreciar o tempo de um modo novo e a pensar na própria vida deixando-se iluminar pelo Evangelho, desenvolvem também um pensamento crítico em relação a um sistema social que dá centralidade à pessoa, provocando situações de injustiça e de pobreza existencial a vários níveis. É por isso que a inquietação assusta, assim como a descoberta da interioridade, da espiritualidade e, ainda mais, do Evangelho. Segunda ideia: é neste mundo, e não num mundo diferente, que devemos cultivar a inquietação. É dentro desta sociedade que tu e tantos outros descobristes o valor duma vida mais humana, mais plena, aberta ao encontro com Deus e à alegria da fé. Isto significa que, apesar das dificuldades, o lugar onde Deus se torna presente e onde devemos encontrar os seus sinais é sempre a realidade em que nos encontramos. Cremos que o Espírito Santo atua e trabalha silenciosamente em todas as situações da vida e da história, mesmo naquelas que parecem mais difíceis. Porém, devemos cultivar esta inquietação e dar-lhe espaço; como dizia, “procurar no interior”, tentando não nos deixar oprimir pelos ritmos e seduções externas, cultivando momentos de silêncio, talvez parando alguns minutos por dia para ler o Evangelho e falar com Deus; também tentando percorrer este caminho interior com outros, deixando-nos acompanhar nos percursos eclesiais e confrontando-nos com os sacerdotes, os religiosos, as pessoas que, como nós, empreenderam este caminho.
Perdi a batalha contra a depressão e tentei acabar com a minha vida. Onde podemos ver Deus quando já não aguentamos mais?
Pergunta:
Santo Padre, num mundo onde as coisas se expõem em voz alta, há aspectos da vida que permanecem em silêncio, com vergonha. Tal é a depressão, uma doença silenciosa, que afeta muitas pessoas, jovens e adultos, acarretando escuridão, isolamento e uma dor desmedida. Por vezes, esta dor é tão avassaladora, que a ideia de desaparecer parece ser a única saída. Eu própria lutei para sair desta doença, em silêncio durante anos, e numa sexta-feira à noite perdi a batalha e tentei tirar a minha própria vida. Estou aqui porque Deus me deu uma segunda oportunidade, e a Ele estarei eternamente grata; mas há muitos outros que continuam a enfrentar esta escuridão. Por isso, pergunto-lhe do fundo do coração: onde podemos ver Deus quando a escuridão é absoluta e já não aguentamos mais? Como podemos confiar em Deus, quando parece que nada, nem mesmo nós, vale a pena?
Papa Leão:
Em primeiro lugar, obrigado por partilhares hoje a tua experiência de sofrimento. Comove-me que consigas falar sobre isso, que estejas aqui entre nós e que tenhas encontrado a força para acolher esta segunda oportunidade que o Senhor te concedeu. Tu levantaste-te e retomaste o caminho, e este é um milagre maravilhoso que vemos em muitas personagens do Evangelho: no encontro com Jesus, mesmo quem se sente perdido, recupera a confiança na vida, cura a doença e consegue levantar-se para voltar a viver.
Na tua pergunta, referiste, em primeiro lugar a “doença silenciosa” que é a depressão, e é importante tomar consciência de como a saúde mental se vê cada vez mais ameaçada no contexto de sociedades que se consideram avançadas. É um sinal de que há algo profundamente errado numa certa ideia de crescimento que submete as pessoas a pressões, expectativas e tensões que comprometem equilíbrios fundamentais. Por isso, é necessário um sistema de saúde que inclua entre as suas prioridades este mal-estar invisível e generalizado, que também afeta os jovens.
As tuas palavras, no entanto, mostraram-nos ainda que a dor põe à prova a fé e o sentido que damos à vida. Isto é verdade para todos e não apenas para aqueles que, nalgum momento, enfrentam a provação da doença.
Enquanto te ouvia, pensei naqueles instantes de escuridão, angústia e dor que Jesus viveu quando a hora da sua morte se aproximava. Os Evangelhos, nos momentos da Última Ceia e da oração no Getsémani, sublinham que entardecia, que estava a escurecer, assim como, pouco antes de morrer na cruz, nos dizem que “as trevas envolveram toda a terra”. No entanto, não se trata, na verdade, apenas dum sofrimento pessoal; o Filho de Deus está a assumir na sua própria carne toda a angústia, solidão e sofrimento da humanidade. Nestas horas sombrias, morrendo na cruz, Jesus partilha a nossa dor e revela-nos o rosto de um Deus compassivo, que carrega as nossas dores, que sofre connosco, chora as nossas lágrimas e permanece ao nosso lado com a sua presença cheia de amor e misericórdia.
Passar por esta experiência é difícil, como atestam várias vezes as Sagradas Escrituras; há momentos de escuridão e sofrimento que a nossa sociedade silencia, porque, precisamente, alguns modelos culturais querem que sejamos sempre vencedores e perfeitos e, por isso, o limite, a fragilidade e a dor devem ser eliminados ou confinados ao silêncio ensurdecedor da solidão, e mesmo da vergonha. E, nestes momentos, podemos pensar instintivamente que também Deus nos abandonou. Contudo, a cruz de Jesus diz-nos que Deus não nos abandona, que no momento da dor e da solidão extrema, Ele continua crucificado connosco, acolhe não só as nossas lágrimas, mas também o grito do nosso sofrimento que outros não escutam, um grito que Jesus fez seu na cruz, dizendo: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Há uma catequese sobre as últimas horas de Jesus, na qual Bento XVI diz que o seu sofrimento se transforma em oração e em clamor, e que isso também se aplica a nós: perante as situações mais difíceis e dolorosas, quando Deus parece ausente, devemos confiar-lhe mais uma vez os fardos que carregamos no coração, chegando mesmo a gritar por Ele ou a protestar como Job, certos de que, de alguma forma, Ele se faz presente e está perto, mesmo quando aparentemente não fala. Penso, porém, que não podemos fazê-lo sozinhos. Nas horas de dor, pelo menos na medida do possível, devemos abrir-nos com alguém que nos ajude a fazer uma oração simples, que nos acompanhe com discrição, sem a pressa de nos explicar a dor, que nos pegue pela mão e nos faça sair desse grito. Estas experiências oferecem também uma mensagem a nós, crentes, a toda a Igreja: não devemos espiritualizar a dor, reconduzindo-a superficialmente à “vontade de Deus” ou a algum seu projeto misterioso, porque corre-se o risco de minimizar esse sofrimento, de o silenciar, de ferir as pessoas. Deus não quer o sofrimento, Ele carrega-o connosco e convida-nos a confiar n’Ele, de forma perseverante. Recordemos o que dizia o Papa Francisco: com Deus, a vida sempre renasce.
Às vezes, olho para o céu e pergunto: Onde estavas quando eu era criança? Santo Padre, como posso perdoar ao meu pai, que quase me deixou sem mãe? Como posso reconciliar-me com Deus?
Pergunta:
Boa noite, Santo Padre. Sou duma família dum bairro muito humilde de Barcelona. Quando eu era pequena, o meu pai tentou matar a minha mãe, e ela salvou-se porque um rapaz se interpôs e, por isso, acabou por morrer. O meu pai foi para a prisão e a minha mãe entrou no mundo da droga. Aos dez anos, os serviços sociais assumiram a minha tutela e levaram-me para o centro de menores de San José de la Montaña. No início, foi difícil, pois tinha criado uma barreira para me proteger, onde não deixava ninguém entrar. Entretanto, pouco a pouco, experimentei, pela primeira vez, o amor de família, e o meu coração foi-se abrindo. Lá, falaram-me de Jesus, comecei a rezar e fui batizada. Mas, na minha adolescência, revoltei-me muitas vezes contra Deus. Convidaram-me para um retiro e ali, pela primeira vez, experimentei o amor de Deus. Só que já se passaram alguns meses e ainda sinto dificuldade em perdoar o meu pai. Às vezes, levanto os olhos para o Céu e pergunto-lhe: “Onde estavas quando eu era criança?”. Santo Padre, como posso perdoar o meu pai, que esteve prestes a deixar-me sem mãe? Como posso reconciliar-me verdadeiramente com Deus?
Papa Leão:
Obrigado pelo teu testemunho e obrigado também pela pergunta sobre o perdão. É realmente um sinal da graça de Deus que esta pergunta surja de um passado tão marcado pelo sofrimento e que, apesar da dor, se tenha a coragem de perguntar como é possível perdoar quem nos fez mal. Gostaria de dizer também aqui duas coisas.
A primeira complementa o que eu dizia anteriormente sobre a presença de Deus nos momentos de sofrimento. No fundo, também tu colocas esta mesma questão em relação à tua infância, mas o contexto em que se desenrolaram os acontecimentos da tua vida pede-nos que alarguemos o âmbito da nossa interrogação: devemos perguntar-nos “Onde estava Deus?” ou devemos antes questionar-nos sobre o homem e a humanidade; sobre como, por vezes, somos prisioneiros do mal a ponto de nos tornarmos violentos com as pessoas; sobre como não conseguimos cultivar o amor e o respeito pela dignidade e a liberdade dos outros? Ainda hoje, tantas notícias policiais refletem um clima envenenado nas relações familiares, marcado por abusos e opressões e, em particular, pela violência contra as mulheres, que, com muita frequência, infelizmente, terminam também em feminicídios. Todos nós somos chamados a enfrentar esta realidade dramática – que tem raízes antropológicas e culturais – seja a nível pessoal, seja enquanto sociedade, pois cabe-nos combatê-la em todas as suas dimensões. Não podemos atribuir a Deus aquilo que nos foi confiado como nossa responsabilidade; não podemos imaginar que Deus, lá do alto, responda às nossas necessidades de forma automática ou impeça milagrosamente que o mal aconteça. Ele dotou-nos de inteligência e vontade, deu-nos uma consciência, revestiu-nos de dignidade e liberdade e, principalmente, veio ao nosso encontro para nos indicar, no seu Filho Jesus Cristo, o caminho a seguir para que a nossa vida seja plenamente humana e para que na nossa sociedade reinem a justiça, a paz e a fraternidade. Ele deu-nos o próprio Espírito, precisamente para que o amor seja a chave de todas as nossas relações humanas. Se existe violência, se triunfa o egoísmo, se até mesmo o amor entre familiares se transforma em ódio, devemos fazer algumas perguntas a nós próprios, às dinâmicas da nossa sociedade, à cultura do individualismo, à tentação da violência, e não a Deus.
Uma segunda observação diz respeito ao perdão. Devemos aprender a considerar o perdão, esse poderoso remédio contra o mal, que cura as nossas feridas interiores, como algo que faz parte de um processo, de um caminho. O próprio Evangelho, se o lermos como um livro de instruções, mandamentos e deveres, corre o risco de nos causar muito desânimo e frustração, porque Jesus nos convida ao perdão e nós sentimos que não somos capazes. E, no entanto, não é assim. O perdão, primordialmente, deve ser invocado do Senhor; continuar a pedir – talvez durante toda a vida – que Ele amplie em nós o espaço do amor, chegando precisamente ali onde fomos feridos; que nos ajude a reconciliar-nos connosco mesmos e com essa parte da nossa história marcada pelo sofrimento; e que transforme lentamente o ressentimento em misericórdia e compaixão. É um longo caminho; um processo que exige muita paciência; um trabalho que devemos realizar connosco próprios, tanto a nível pessoal como através de outros itinerários de acompanhamento e também de reconciliação interior. E é preciso não desanimar: no perdão, avança-se a pequenos passos. A reconciliação com a história é gradual e, por isso, não devemos pensar que o perdão significa sempre e em todos os casos voltar à situação inicial ou a viver uma relação plena com aqueles que nos magoaram, especialmente quando o que aconteceu foi marcado também pela violência. Pode-se manter uma boa disposição de coração em relação à pessoa, rejeitar qualquer forma de ódio ou vingança, esforçar-se por reparar o relacionamento na medida do possível e, talvez, rezar por ele ou por ela: tudo isto ajuda-nos a entrar cada vez mais na dinâmica do perdão e a reconciliar-nos com Deus e com os outros. Somos pecadores perdoados, estamos em paz e somos capazes de perdoar; capazes de ser portadores de paz.