Uma história de Natal

Natal no Quarto 432 do Hospital

Foi assim que Mike teve uma nova filha e Amara um pai. Naquele momento, no quarto 432 daquele hospital, foi Natal como, há dois mil anos, em Belém.

20 dez. 2025|Observador| P. Gonçalo Portocarrero de Almada

Pois é, às vezes o Natal acontece onde menos se espera. Foi assim há 2025 anos, em Belém de Judá, no estábulo onde Jesus de Nazaré nasceu. Foi assim também no quarto 432 de um qualquer hospital, segundo um relato atribuído a Sir David Attenborough e que, si non è vero, è ben trovato.  

A protagonista é Amara, uma rapariga de sete anos de idade, doente oncológica terminal. Ou talvez seja Mike, de 58 anos, motoqueiro que tem completamente tatuados os dois braços, barba até ao peito e é membro dos Defenders. Apesar de meter medo ao susto, é voluntário num hospital pediátrico, onde vai todas as quintas-feiras para ler livros infantis às crianças internadas. Depois de a neta de um dos Defenders ter estado internada, também no serviço de oncologia de um hospital pediátrico, há já quinze anos, vários dos membros do grupo assumiram este voluntariado.

Mike reconhece a estranheza que causa, inicialmente, a sua presença: “A maioria das crianças, no início, tem medo de mim. Eu percebo. Sou grande e barulhento e, por isso, parece que o meu lugar seria num filme sobre gangues de motas e não num hospital infantil. Mas, logo que começo a ler, elas esquecem-se da minha aparência e limitam-se a ouvir a história.”

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Em relação a Amara, Mike recorda: “Entrei no quarto 432, em março, numa quinta-feira à tarde. A enfermeira avisou-me que se tratava de uma nova paciente, de sete anos. Neuroblastoma, fase 4. Desde que tinha sido internada, havia três semanas, não tinha recebido nenhuma visita da família”. A enfermeira explicou: “Foi a mãe que a deixou aqui para tratamento, mas nunca mais cá voltou. Há semanas que estamos a tentar localizá-la, sem efeito. Amara não tem mais ninguém de família e, por isso, se ficar estável, terá de ser adotada, ou enviada para um orfanato.” “E se ela não melhorar?” – perguntou Mike, visivelmente incomodado pelo abandono em que tinha sido deixada aquela criança. “Nesse caso – respondeu a enfermeira – morrerá aqui, sozinha”. “Fiquei do lado de fora do quarto 432, durante um minuto, antes de conseguir entrar. Já tinha lido para crianças moribundas e nunca é fácil. Mas uma miúda a morrer completamente só?! Isso é um novo tipo de inferno!”. 

Mike bateu suavemente à porta do quarto 432 e disse: “Olá, eu sou o Mike. Estou aqui para te ler uma história, se quiseres.” Amara virou-se na cama e olhou fixamente para ele: ela tinha os maiores olhos castanhos que ele tinha visto. À conta da quimioterapia, já não tinha cabelo e a sua pele acinzentada era reveladora do seu estado terminal. Ao vê-lo, sorriu e disse: “O senhor é muito grande!”. Mike concordou e, depois, acrescentou: “Tenho aqui a história de uma girafa que aprendeu a dançar. Queres ouvir?”. 

Amara concordou e ele sentou-se na cadeira ao lado da cama e começou a ler a história. Quando ia a meio, a pequenita interrompeu-o, para lhe perguntar se tinha filhos. Mike tinha tido uma única filha, que morrera num acidente de viação, quando tinha 16 anos.

Foi então que Amara contou a sua triste história: “O meu pai foi-se embora, antes de eu nascer, e a minha mãe trouxe-me para este hospital e nunca mais voltou cá. As enfermeiras disseram-me que já não virá. A assistente social disse que, se eu melhorar, irei viver com uma família adotiva, mas eu ouvi os médicos dizerem que não me vou curar. Eu sei que estou a morrer. Todas as pessoas acham que eu não percebo, mas eu sei, porque eu os ouvi dizer que o cancro já está espalhado por todo o corpo. Disseram que talvez dure seis meses, ou menos.” 

Mike pousou o livro, para lhe dizer: “Amara, sinto muito.” Foi então que ela o olhou, com aqueles seus olhos enormes, e disse-lhe: “Posso pedir-lhe uma coisa?”. “O que quiseres, querida “, respondeu ele. “Quer ser o meu pai … até eu morrer?”. Mike quis responder, mas não conseguiu articular nenhuma palavra, pois parecia que tinha levado um murro no estômago. Queria dizer que sim, mas ele era apenas um velho motoqueiro bruto, que ia uma vez por semana ao hospital, para ler livros infantis. Não obstante, gaguejou a única resposta possível: “Querida… Seria uma honra. Mas tenho que ser honesto contigo: já não sou novo para ser pai outra vez e, por isso, posso não saber sê-lo.” O rosto dela iluminou-se como o nascer do sol. “Não faz mal. Pode reaprender comigo.” Foi assim que Mike teve uma nova filha e Amara um pai. Naquele momento, no quarto 432 daquele hospital, foi Natal como, há dois mil anos, num estábulo de Belém.

As enfermeiras e a assistente social ficaram comovidas ao saber que Amara tinha, agora, um pai, que a iria acompanhar na sua doença e, depois, se melhorasse, lhe daria um lar. E uma ‘família’, por sinal, muito numerosa e barulhenta, porque os Defenders acolheram, com entusiasmo, esta filha de um dos seus: no estacionamento do hospital, foi um espetáculo ver as vinte e cinco Harleys com peluches amarrados aos seus volantes e destinados ao quarto 432. Até lhe ofereceram um colete de couro, com a indicação ‘menina do papá’ costurada nas costas, para o dia em que se pudesse juntar ao grupo que era, afinal, a sua nova família.

Embora curada na sua alma por aquele inesperado afeto, o seu pequeno corpo continuava doente: por vezes já nem conseguia segurar o livro e, esgotada, adormecia encostada ao pai, que lhe cantarolava velhas canções de Johnny Cash que, muitos anos antes, tinha cantado à sua filha mais velha e que ela adorava.

A doença seguia o seu curso inexorável, mas, inexplicavelmente, na manhã do seu oitavo aniversário, Amara acordou e disse: “Pai, sonhei que estava a correr e que as minhas pernas funcionavam e tudo!” Mike beijou o seu cabelo, que, entretanto, renascera e disse-lhe: “Então vamos fazer com que isso aconteça!” Duas semanas depois, o oncologista reconheceu algo inexplicável: os tumores na coluna de Amara estavam a regredir. Nunca tinha visto nada assim. Mike desvendou o mistério: “Foi amor. Amor simples, casmurro, barulhento e tatuado. Dezoito meses depois do dia em que ela pediu a um motociclista assustador para ser o seu pai ‘até que ela morresse’, a Amara saiu daquele hospital pelos seus próprios pés, a segurar a minha mão, vestindo o seu pequeno blusão de couro e um sorriso maior que o céu. O clube deu-lhe as boas-vindas com uma festa de arromba. Houve póneis e um castelo insuflável. Teve bolo do tamanho de uma roda Harley. E quando o sol se pôs e a fogueira ainda rugia, Amara sentou-se ao meu colo, olhou para as estrelas e sussurrou: ‘Pai?’. ‘Sim, querida?’. ‘Acho que, por muito tempo, não vou morrer.’

Esta história, como todas as histórias verdadeiras, tem um happy end, que é tanto mais happy quanto é menos end. Amara tem agora quinze anos e continua saudável. O cancro não regressou, mas ela vai, todas as semanas, ao hospital onde esteve internada, às quintas-feiras, com o seu novo pai, na Harley que ele guia e em que ela monta como uma verdadeira amazona. Ambos leem histórias às crianças hospitalizadas, sobretudo às mais doentes e sós. Eles sabem que o que cura é o amor. E que esta é, há 2025 anos como agora, a verdadeira mensagem do Natal.

Uma história de Natal (PDF)