Mistagogia no centro da renovação da catequese em Portugal – Encontro em Aveiro – 08 a 10 abril 2026

Encontro Nacional de Catequese

Mistagogia no centro da renovação da catequese em Portugal

13 abril 2026 • Olímpia Mairos – Rádio Renascença

Encontro nacional em Aveiro destacou a urgência de passar de uma catequese de conteúdos para uma experiência de fé vivida, centrada no encontro com Cristo e no caminho comunitário.

A Diocese de Aveiro acolheu, de 8 a 10 de abril de 2026, o 63.º Encontro Nacional de Catequese, que reuniu cerca de 90 responsáveis diocesanos de todo o país, para refletir sobre a mistagogia e o caminho de iniciação à vida cristã.

Sob o tema «A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado. “Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no” (Lc 24, 31)», o encontro inseriu-se no processo de renovação da catequese em Portugal.

Na abertura dos trabalhos, o presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, D. António Augusto Azevedo, afirmou que a Igreja deve “voltar a uma lógica de mistagogia” no processo catequético.

“O Itinerário para a catequese é claro na necessidade de recuperarmos este bem para o processo de introdução à fé dos mais novos para que se passe da lógica escolar, onde se aprendem muitos conteúdos, para o tempo de caminho, de descoberta do mistério e do encontro”, afirmou.

Aos cerca de 90 responsáveis pela catequese nas dioceses de Portugal, o presidente da CEECDF agradeceu o “grande número de participantes”, sustentando que isso “é um sinal claro do empenho da Igreja em Portugal neste setor”.

“Estarmos em tão grande número, assinalando já a edição 63 deste Encontro Nacional, percebemos subjacente um grande dinamismo, que se vai mantendo, atualizando e procurando novos caminhos para dizer a fé na necessária atualização de linguagem aos tempos que vivemos”, sustentou.

Catequese deve passar do conteúdo à experiência e unir “coração e caminho”

Seguiu-se a conferência «O hiato entre o coração e o caminho – Redescobrir o sentido mistagógico da iniciação cristã», pelo padre José Miguel Cardoso, sacerdote da Arquidiocese de Braga e colaborador do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano.

O padre José Miguel Cardoso defendeu que a catequese deve ir além da simples transmissão de conteúdos e tornar-se uma experiência transformadora de vida. Partindo da análise de uma pintura que retrata um jogo de xadrez entre o diabo e um jovem, explicou que “a pintura nem é sequer sobre o jogo, mas é sobre aquilo que nós somos, que é uma metáfora da vida”, sublinhando que, apesar da aparente derrota do jovem, “resta-lhe ainda uma jogada” e que “a sua vida não é uma história de pecados, mas é uma história de salvação”.

Neste contexto, definiu a catequese como “um encontro que visa dar competências humanas e espirituais, tendo Cristo como modelo de vida”, acrescentando que procura “transmitir uma sabedoria que nos permite vencer no xadrez da vida”.

Distinguindo entre catequese querigmática e mistagógica, afirmou que, enquanto a primeira “visa transmitir um conteúdo”, a segunda procura “dar um passo em frente”, ou seja, “transmitir uma experiência”, permitindo ao crente “ler e entender a sua vida à luz da fé”.

Ainda assim, alertou que muitos projetos pastorais falham não por falta de conhecimento ou empenho, mas porque se ignora quem está do outro lado: “As escolhas falham muitas vezes […] porque nós esquecemos […] compreender o destinatário que está à nossa frente”.

Pós-modernidade, relativismo e novas formas de espiritualidade

Na sua análise da sociedade atual, marcada pela pós-modernidade, o padre José Miguel Cardoso destacou o crescimento do relativismo e da subjetividade, afirmando que “a verdade já não vale pela sua força argumentativa, mas é subjetiva: eu é que sei qual é a minha verdade”.

Apontou também para a emergência de uma espiritualidade desligada da religião institucional, referindo que “hoje passamos de uma religião institucionalizada a uma religião ‘self-service’”, onde “pensa-se Deus a partir da emotividade”.

Entre as consequências, indicou a redução da fé ao moralismo e a separação entre fé e vida, sintetizando: “fazemos uma vida sem teologia e uma teologia sem vida”.
Neste cenário, considerou que vivemos “uma nova forma de ateísmo”, em que “as pessoas já não acreditam naquele Deus transcendente, mas acreditam nos ídolos que o mundo produz”.

A fé como caminho, pergunta e dinamismo

O sacerdote sublinhou ainda que a fé deve ser entendida como um processo dinâmico, afirmando que “a fé não é uma certeza absoluta, mas é uma pergunta permanente. Não é uma meta, mas é um caminho”.

Para ilustrar esta ideia, recorreu à figura de São Pedro, na qual identificou diferentes formas e etapas da fé, mostrando que “nem todos têm de acreditar ao mesmo tempo, da mesma forma e pelas mesmas razões”.

Na parte final da intervenção, deixou orientações práticas para a catequese, defendendo uma pedagogia progressiva inspirada no caminho de Emaús: “Se a fé é descoberta e não imposição, a catequese deve ser caminho e não doutrinamento”.

Alertou também para três tentações atuais — “os números”, “os foguetes” e “os likes” — criticando a preocupação excessiva com resultados imediatos, eventos pontuais ou a necessidade de agradar.

Por fim, destacou que, num mundo marcado pela tecnologia, há uma dimensão insubstituível: “Na era da tecnocracia e da inteligência artificial, há algo que não se conseguirá replicar: a mistagogia do coração”, concluindo que “precisamos de formar a razão e o coração” e que “só uma catequese da narrativa, do caminho, tem futuro”.

Mistagogia como caminho de encontro e acompanhamento

Já o padre Juan Freitas, salesiano, na sua conferência «A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado», sublinhou que a mistagogia deve ser entendida acima de tudo como “uma experiência de acompanhamento e descoberta”, centrada no encontro pessoal com Cristo.

“A mistagogia é isto de acompanhar ao encontro, é esse descobrir Cristo na nossa vida”, afirmou.

O sacerdote salesiano defendeu que o acompanhamento das novas gerações exige uma sólida formação pessoal, académica e comunitária, destacando o papel do catequista como alguém que vive profundamente a fé que transmite.

“O catequista mistagogo é aquele que vive de forma séria a sua fé e que, a partir da sua própria experiência de encontro com Cristo, ajuda os outros a compreender o mistério da vida cristã”, explicou.

Segundo indicou, esta missão assenta em duas dimensões essenciais: o testemunho e a interpretação.

“Por um lado, o catequista é chamado a dar testemunho de um encontro pessoal com Cristo que anima a sua vida; por outro, deve ajudar quem acompanha a compreender o que é este mistério […]”, sublinhando que este processo acontece sempre no seio da comunidade cristã.

Mistagogia não é moda, mas tradição viva da Igreja

Ao longo da intervenção, o conferencista insistiu que a mistagogia “não é uma moda”, mas uma expressão profunda da tradição da Igreja.

Acrescentou que esta redescoberta ganhou novo impulso com o Concílio Vaticano II e com documentos posteriores da Igreja, reforçando a necessidade de ligar a catequese à vida concreta.

Neste contexto, alertou para o risco de reduzir a fé ao conhecimento doutrinal, defendendo uma visão mais integrada: conhecimento, celebração, vida comunitária e experiência pessoal.

Emaús como modelo para o catequista mistagogo

Inspirando-se no episódio bíblico dos discípulos de Emaús, o padre Juan Freitas apresentou Jesus como modelo do catequista mistagogo: “Jesus põe-se a caminho com estas pessoas”.

Destacou, assim, um itinerário pedagógico marcado por várias etapas — aproximar-se, acompanhar, escutar, questionar, anunciar, conduzir à celebração e saber retirar-se — como chave para a missão catequética atual.

“É bonito ver esta gradualidade […] o grande desafio é acender corações”, afirmou.

Destacou ainda a ligação entre catequese e liturgia, defendendo que a formação cristã não pode ficar limitada ao espaço da sala: “a vida tem que ser uma experiência de comunidade”, sendo a liturgia “fonte e cume” da vida cristã.

Recorreu à imagem do papagaio de papel como metáfora do percurso de fé, concluindo que uma fé enraizada e vivida em comunidade permite “um voo bonito, um voo de vida”.

O Encontro Nacional de Catequese abordou também as novidades editoriais para o setor e propôs, em estilo sinodal, um «Laboratório de Criatividade» em vista à “criação de dinâmicas, nas dioceses, para divulgar, conhecer e rentabilizar os materiais catequéticos”.

Na Eucaristia final, apelo a “lançar de novo as redes”

Na Eucaristia de encerramento, D. António Augusto Azevedo sublinhou que toda a missão catequética deve ser vivida em comunhão com a Igreja e fundada na consciência de que é Deus quem chama e envia“Não vamos a título próprio”, afirmou.

O prelado, inspirando-se na imagem da pesca abundante, destacou que a missão exige confiança na ação de Deus“Quando nos abrimos […] os resultados […] passarão a acontecer”.

Neste sentido, apelou: “lançar uma nova rede” em cada tempo e contexto, sublinhando ainda a necessidade de perseverança, comparando com o pescador que sai todos os dias.

O bispo de Vila Real, evocando o Papa Francisco, reforçou a urgência de uma renovação missionária, marcada pela coragem e esperança. Apesar das dificuldades, destacou: “os resultados […] superam sempre muito das nossas expectativas”.

Na parte final da homilia, destacou a centralidade da Eucaristia como lugar de encontro com Cristo e fonte da missão. “O nosso trabalho na catequese […] é sempre encontro à volta da mesa, à volta da Eucaristia”, afirmou.

Por fim, deixou um apelo: uma catequese que conduza ao encontro com Cristo, gere comunhão e leve à missão“Jesus está também connosco e nos envia sempre em missão”, concluiu.

 

Mistagogia no centro da renovação da catequese em Portugal – Encontro em Aveiro – 08 a 10 abril 2026 (PDF)