Ano B
XXIX Domingo Tempo Comum – Ano B – 17.10.2021

«43…. quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo 44e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos» Mc 10, 42.43

Viver a Palavra

A Sagrada Escritura revela-nos um Deus que através de muitos meios e modos se dá a conhecer e se encontra com cada homem e cada mulher. Jesus Cristo, «Sumo Sacerdote que penetrou os céus», é a plenitude da revelação e o modo mais perfeito de encontro com o Pai: «quem me vê, vê o Pai» (Jo 14,9). Por isso, a proclamação do Evangelho, Boa Nova da Salvação, é o anúncio do grande encontro entre Deus e a humanidade. Assim, nas diferentes narrativas evangélicas encontramos Jesus que estabelece os mais variados e inesperados encontros e aproveita cada ocasião como oportunidade de falar do Pai, de anunciar a nova lógica do Reino, de proclamar a radicalidade do amor e apontar o caminho da salvação.

No Evangelho deste Domingo, Jesus está a caminho com os Seus discípulos. Na estrada de Jerusalém, no concreto da vida daqueles que O seguem, Jesus faz-se presente e, com a paciência de um sábio pedagogo, escuta os seus pedidos, dúvidas e inquietações.

Tiago e João aproximam-se de Jesus e de chofre dizem-lhe: «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir». Como é tão humano o pedido destes dois irmãos e, por isso, nos conseguimos rever tão bem nestas palavras! Quando no centro da nossa vida orante devia estar a procura daquilo que devemos fazer, tantas vezes a nossa oração se limita a dizer a Jesus aquilo que queremos que Ele nos faça. Ao jeito da oração que Jesus nos ensinou, devemos discernir qual a vontade de Deus, para que a saibamos colocar em prática. Por isso, como recomenda S. Paulo, devemos orar sem cessar (1 Ts 5,17), mas não até Deus nos ouvir, mas sim até que nós possamos ouvir a voz de Deus.

Na verdade, como recorda a Carta aos Hebreus que escutamos este Domingo: «nós não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas». Nós somos discípulos de Jesus, o Rosto misericordioso do Pai, onde «vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno».

Mas voltemos a Tiago e João, que estão com Jesus, a caminho de Jerusalém. No caminho, fazem um estranho pedido: «concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda». Vão a pé e pedem para se sentar em lugares de destaque. Diante da indignação dos outros dez, Jesus continua a caminhar com eles e ensina-lhes o caminho do verdadeiro discipulado e da missão que cada um deve assumir na construção do Reino: ao contrário dos chefes das nações que exercem domínio e fazem sentir o seu poder, os Seus discípulos aprendem a ser grandes, fazendo-se pequenos e são os primeiros quando se tornam servos e ocupam o último lugar.

Seguir Jesus, ser discípulo missionário para a transformação do mundo, é fixar os olhos no Mestre, vencendo a tentação de se sentar e acomodar, para, em cada dia, afinar o coração com o coração Daquele que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos».

É Ele, o Servo marcado pelo sofrimento de que nos fala Isaías. O Justo que assume na Sua carne as nossas feridas e, que tomando sobre si as nossas iniquidades, nos abre a estrada da misericórdia. Saboreando o seu amor feito perdão, façamos das nossas vidas lugares de serviço humilde, que anunciam a nova lógica do Reino e falam da alegria de ser grandes à maneira Daquele que se fez pequeno por nosso amor.in Voz Portucalense

NOTA IMPORTANTE:

Foi aberto no Domingo XXVIII do Tempo Comum, dia 10 de outubro de 2021, o caminho sinodal para XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos «Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão». O Papa Francisco, em Roma, assinalou o início de um caminho que pode ser decisivo na vida da Igreja. A sinodalidade é «o caminho da Igreja para o Terceiro Milénio» (Papa Francisco) e, por isso, um estilo eclesial que deve moldar toda a ação da Igreja porque caracteriza a sua identidade. Deste modo, as comunidades eclesiais devem promover junto dos fiéis uma tomada de consciência da importância da sinodalidade como modo de ser Igreja, tornando mais operativas as mais diversas estruturas de participação e gerando processos sinodais renovados e renovadores. in Voz Portucalense

 

Fica aqui a ligação para ouvir a celebração da Eucaristia do XXVIII DTC e incluída na abertura do Sínodo sobre Sinodalidade. Fica, também, a Homilia do Papa Francisco disponibilizada no mesmo endereço eletrónico.

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2021/10/10/messa-sinodovescovi.html

LEITURA I – Is 53, 10-11

«Se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação, terá uma descendência duradoira» 

O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C..
A missão do Deutero-Isaías é consolar os exilados judeus. Nesse sentido, ele começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilónia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.

O texto que nos é proposto é parte do quarto cântico do “servo de Jahwéh”. Nele, porém, o “Servo” não fala; quem proclama este “cântico” parece ser um coro, que percebeu, no aparente sem sentido da vida do “Servo”, um profundo significado à luz da lógica de Deus.in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)

«Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor». 

 

LEITURA II – Hebr 4, 14-16

«Vamos cheios de confiança ao trono da graça»

 

Já vimos, nos domingos precedentes, que a Carta aos Hebreus se destina a comunidades cristãs em situação difícil, expostas a tribulações várias e que, por isso mesmo, estão fragilizadas, cansadas e desalentadas. Os crentes que compõem essas comunidades necessitam urgentemente de redescobrir o seu entusiasmo inicial, de revitalizar o seu compromisso com Cristo e de apostar numa fé mais coerente e mais empenhada.
Nesse sentido, o autor da “carta” apresenta-lhes o mistério de Cristo, o sacerdote por excelência, cuja missão é pôr os crentes em relação com o Pai e inseri-los nesse Povo sacerdotal que é a comunidade cristã. Uma vez comprometidos com Cristo, os crentes devem fazer da sua vida um contínuo sacrifício de louvor, de entrega e de amor. Desta forma, o autor oferece aos cristãos um aprofundamento e uma ampliação da fé primitiva, capaz de revitalizar a sua experiência de fé, enfraquecida pela hostilidade do ambiente, pela acomodação, pela monotonia e pelo arrefecimento do entusiasmo inicial.

O texto que nos é proposto está incluído na segunda parte da Carta aos Hebreus (cf. Heb 3,1-5,10). Aí, o autor apresenta Jesus como o sacerdote fiel e misericordioso que o Pai enviou ao mundo para mudar os corações dos homens e para os aproximar de Deus. Aos crentes pede-se que “acreditem” em Jesus – isto é, que escutem atentamente as propostas que Cristo veio fazer, que as acolham no coração e que as transformem em gestos concretos de vida.in Dehonianos.

EVANGELHO – Mc 10, 35-45

 «Mestre, nós queremos que nos faças o que Te vamos pedir»

«O Filho do homem veio para dar a vida pela redenção de todos!»

 

Continuamos a percorrer, com Jesus e com os discípulos, o caminho para Jerusalém. Marcos observa que, nesta fase, Jesus vai à frente e os discípulos seguem-n’O “cheios de temor” (cf. Mc 10,32). Haverá aqui alguma má vontade dos discípulos, por causa das últimas polémicas e das exigências radicais de Jesus? Este “temor” resultará do facto de Jesus se aproximar do seu destino final, em Jerusalém, destino que o grupo não aprova? Seja como for, Jesus continua a sua catequese e, mais uma vez (é a terceira, no curto espaço de poucos dias), lembra aos discípulos que, em Jerusalém, vai ser entregue nas mãos dos líderes judaicos e vai cumprir o seu destino de cruz (cf. Mc 10,33-34). Desta vez, não há qualquer reacção dos discípulos.

Já observámos, no passado domingo, que o caminho percorrido por Jesus e pelos discípulos é, além de um caminho geográfico, também um caminho espiritual. Durante esse caminho, Jesus vai completando a sua catequese aos discípulos sobre as exigências do Reino e as condições para integrar a comunidade messiânica. A resposta dos discípulos às propostas que Jesus lhes vai fazendo nunca é demasiado entusiasta.
O texto que nos é proposto desta vez demonstra que os discípulos continuam sem perceber – ou sem querer perceber – a lógica do Reino. Eles ainda continuam a raciocinar em termos de poder, de autoridade, de grandeza e vêem na proposta do Reino apenas uma oportunidade de realizar os seus sonhos humanos.in Dehonianos

Para os leitores:

As duas leituras deste Domingo são breves e de fácil proclamação. A brevidade dos textos e a ausência de palavras de difícil leitura não devem consentir qualquer desleixo na preparação.

Na primeira leitura, a palavra Servo, repetida duas vezes, deve ser valorizada dada a centralidade que ocupa no texto. O tom dramático e doloroso presente no texto deve estar presente na proclamação do texto.

A segunda leitura apresenta Jesus, Sumo Sacerdote, como fonte graça e misericórdia. A proclamação deve valorizar expressões como «Jesus, Filho de Deus» ou «Sumo Sacerdote», de modo a transmitirem a mensagem contida no texto.

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I Leitura:

(ver anexo)

 

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra

UM CAMINHO NOVO SE ABRE A NOSSOS PÉS

O Domingo XXIX do Tempo Comum oferece-nos um pequeno extrato do chamado «Quarto Canto do Servo de YHWH» (Isaías 53,10-11). O justo, meu Servo, diz Deus, justificará muitos, diz Deus. Profeta «profetizado»: eis a verdade do profeta-servo. Não fala, mas é falado: fala Deus dele (Isaías 52,13-15; 53,11-12); falamos nós dele (53,1-10). Nós, batendo no peito, reconhecendo que as suas chagas não são o seu castigo merecido, mas a cura para a nossa malvadez. Entram pelos olhos: são a imagem do que há dentro de nós. De facto, vendo bem aquelas chagas, temos mesmo de reconhecer que foi a nossa violência e malvadez que as produziu. Diagnosticada a doença, podemos lançar mão do remédio. Deus apresenta-o como aquele que, entregando a sua vida à nossa violência, atravessa a nossa violência, não combatendo-a com mais violência, o que só aumentaria o caudal da violência, mas absorvendo-a e sofrendo-a, e abraçando-a, dissolvendo-a e absolvendo-a por amor: é assim que nos justifica, isto é, nos transforma de pecadores em justos: milagre do perdão e da recriação do nosso Deus.

Faz-nos bem a seguir cantar demoradamente com o Salmo 33: «Desça sobre nós a vossa misericórdia», e contemplar com encanto e emoção o rosto do novo sumo-sacerdote, Jesus, Filho de Deus, posto por escrito diante dos nossos olhos no trono da Cruz (Gálatas 3,1), para o vermos bem e para nos vermos bem: outra vez um rosto desfigurado pela nossa violência e malvadez, e a ternura daquele olhar de graça, que nos redime e salva. É a extraordinária lição de Hebreus 4,14-16.

E voltamos ao CAMINHO com Marcos 10,35-45. É a vez de Tiago e João, que vão no CAMINHO desde o princípio, agora que o CAMINHO se aproxima do seu termo, se aproximarem de Jesus com um estranho pedido. Vão de pé no CAMINHO, mas querem SENTAR-SE em lugares de destaque. O narrador diz-nos que os outros Dez ficaram indignados. Entenda-se: não tanto pela reprovação que o pedido dos dois irmãos lhes merecia, mas porque também eles pensavam a mesma coisa, e se viram antecipados.

Jesus chama-os todos para si, para lhes dizer ao coração que há os CHEFES deste mundo que mandam e tiranizam e tiram a vida, e há os SERVOS que servem e dão a vida por amor, isto é, justificam.

E aí está Jesus a apresentar-se de novo como verdadeiro Mestre pró-ativo, que sabe o CAMINHO, ensina o CAMINHO, faz o CAMINHO, é o CAMINHO: veio para SERVIR e DAR A VIDA por amor.

Mas tudo ficará mais claro, quando, no próximo Domingo (XXX) se vir bem o confronto produzido pelo episódio do Cego de Jericó (Marcos 10,46-52), paradigmática e pedagogicamente colocado no termo do CAMINHO.

O Cego está sentado (a posição ansiada por João e Tiago e pelos outros dez!) à beira do caminho. Grita porque, sendo cego, é um excluído, e há, portanto, entre ele e a sociedade e Deus, pensa ele, uma grande distância. Tem de gritar, portanto, para vencer essa distância. Mas aí está o Mestre pró-ativo: PÁRA, descendo ao nível do cego, e CHAMA, incluindo o excluído, anulando a distância. Sem hesitação, o cego atira logo fora o manto, que constitui a sua subsistência, a sua vida (tinha-o estendido à beira do caminho, e era nele que os transeuntes deitavam as esmolas), e, com um salto, de forma decidida e enérgica, fica no lugar certo, junto de Jesus. Jesus faz-lhe a mesma pergunta que ouvimos hoje fazer a João e a Tiago: «Que queres que Eu te faça?». Resposta óbvia do cego: «Que eu veja!». Ordem nova de Jesus: «VAI!».

Poucos se apercebem. Mas «VAI!» não é a resposta adequada ao pedido do cego: «Que eu veja!». A resposta adequada seria: «Vê!», como está, de resto, no episódio paralelo de Lucas 18,42.

Mas, de facto, o cego obedeceu à ordem nova de Jesus. Diz-nos o narrador que SEGUIA JESUS NO CAMINHO! Note-se aquele SEGUIA, que é um imperfeito de duração, que implica um seguimento de forma continuada. Modelo perfeito do discípulo de Jesus.

Vejam-se atentamente os confrontos: 1) o cego está SENTADO, mas põe-se de pé; de pé vão os discípulos de Jesus, mas querem SENTAR-SE; 2) o cego deixa tudo (atira fora o manto), mas os discípulos querem saber o que ganham por terem deixado tudo (Marcos 10,28); 3) o cego está à beira do CAMINHO, mas entra no CAMINHO para seguir Jesus no CAMINHO; o homem rico de Marcos 10,17-22, que encontrámos no Domingo XXVIII, entra no CAMINHO, mas sai logo do CAMINHO…

Tantos desafios e provocações, modelos e contra modelos, para nós, discípulos que hoje seguimos Jesus no CAMINHO!

Decididamente, não podemos continuar apenas a fazer que seguimos Jesus no CAMINHO, tendo em conta apenas os nossos interesses e olhando este mundo com indiferença e calculismo. Forçoso é que mudemos de atitude, deixando imprimir no nosso coração e no nosso rosto o estilo de vida de Jesus: pobre, despojado, feliz, apaixonado, ousado, próximo e dedicado.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I (Is 53, 10-11) e Leitura II (Heb 4, 14-16) – XXIX DTC – Ano B – 17.10.2021
  2. XXIX DTC – Ano B – 17.10.2021 – Lecionário
  3. XXIX DTC – Ano B – 17.10.2021 – Oração Universal
  4. Homilia do Papa Francisco XXVIII DTC – 10.10.2021 – Santa Missa para a abertura do Sínodo sobre Sinodalidade