Ano B
III Domingo do Tempo Comum – Ano B – 24.01.2021

Como é belo e reconfortante ver Jesus a percorrer os caminhos da Galileia. O Verbo faz-se carne e, revestido da nossa natureza, percorre os trilhos deste mundo, colocando-se no meio dos homens e mulheres, partilhando a sua humana condição, anunciando a proximidade do Reino e o convite a viver a radicalidade evangélica que abre a nossa vida à conversão.

Na perícope evangélica deste Domingo, escutamos as primeiras palavras que Jesus profere no Evangelho de Marcos: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Chegou o tempo da graça em que Deus visita o Seu Povo enviando o Seu Filho Jesus. Em Jesus Cristo, Deus faz-se próximo. Tão próximo que assume a nossa natureza humana e convida-nos a entrar nesta dinâmica de proximidade: aproxima-se de nós, para que aprendamos a viver a verdadeira proximidade que tem o nome de fraternidade.

Ao escutar as palavras de Jesus – «cumpriu-se o tempo» – recordo-me do modo como nos referimos tantas vezes ao nascimento de uma criança, quando se afirma que se cumpriu o tempo para uma mulher dar à luz. Efetivamente, é de vida nova que nos falam estas palavras! É a novidade do Reino a irromper no tempo e na história e a apontar o horizonte novo da vida eterna para onde todos somos chamados. O Reino de Deus está próximo e, no aqui e agora do tempo, somos chamados a viver a perene tensão entre o «já» e o «ainda não».

O Reino de Deus está próximo e reclama um coração livre e despojado para que possa acolher a novidade trazida por Jesus. O aqui e agora que nos é dado viver são o lugar e o tempo concreto onde somos chamados a construir a nova civilização do amor. Contudo, bem sabemos que não temos morada permanente sobre a terra e acreditamos que este Reino só se realizará em plenitude no Céu.

Nestas primeiras palavras de Jesus encontramos o movimento descendente e ascendente que caracterizam o dinamismo da salvação. Jesus que assume a nossa condição humana para nos elevar à participação da sua natureza divina. O Reino de Deus que vem até nós para que possamos pela conversão e adesão de coração ao Evangelho subir até Deus e entrar na comunhão plena com Ele.

Acreditar no Evangelho é muito mais do que reconhecer a veracidade das suas palavras e informações. Acreditar no Evangelho significa aderir com a vida àquilo que os nossos ouvidos escutam e transformar o coração para que a fé professada com os lábios se transforme em gestos concretos de amor e misericórdia.

Deste modo, acolher o Evangelho significa abrir espaço no coração para que a Boa Nova de Jesus tenha lugar na nossa vida. Muitas vezes, nas nossas meditações e pregações reclamamos a necessidade de nos libertarmos do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência, da nossa maldade… Contudo, criar espaço para acolher a Boa Nova de Jesus significa também libertarmo-nos dos nossos projetos, das nossas expectativas, das nossas seguranças e disponibilizar a vida para o acontecer de Deus. Avançar sem medo de levar apenas como bastão de apoio a Palavra de Jesus e a certeza da Sua presença.

Simão, André, Tiago e João são referências fundamentais desta capacidade de deixar a normalidade da vida para abrir o coração à iniciativa de Jesus: «eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus». Deixar as redes que nos prendem pela segurança que nos oferecem para nos abrir à confiança que liberta e oferece vida nova e plena de sentido é o desafio que somos chamados a abraçar permanentemente para que a nossa vida se torne verdadeiramente cristã. In Voz Portucalense

LEITURA I – Jonas 3,1-5.10
«Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)
Refrão: Ensinai-me, Senhor, os vossos caminhos.

LEITURA II – 1 Cor 7,29-31
«De facto, o cenário deste mundo é passageiro».

EVANGELHO – Mc 1,14-20
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». 

Para os leitores:
Na primeira leitura, devem ter em atenção as duas intervenções em discurso direto.
Na segunda leitura, devem ter cuidado na leitura da frase central do texto não apenas pela sua grande extensão, mas na dicotomia que descreve cada oração e que deve ser sublinhada na proclamação do texto. 

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
          Neste Domingo III do Tempo Comum é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. Não é a primeira vez que Jesus surge em cena. Já o tínhamos contemplado a dirigir-se da Galileia para o Rio Jordão, para ser batizado por João Batista (Marcos 1,9). Mas ainda não tínhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Serão, portanto, dizeres importantes e programáticos.

Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Batista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Mas o verbo grego kêrýssô (anunciar), antes de nos fazer dizer ou escutar mensagens, implica radical fidelidade do anunciador ou mensageiro em relação a quem lhe confia a mensagem e o envia a anunciá-la. Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros fiéis, sempre vinculados a Deus, e a sua primeira missão é testemunhar esta proximidade e compromisso. E percebe-se agora bem o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Batista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da inciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador.

Vem logo, para não se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de «ir atrás de» (Marcos 1,16-20). Mas tudo começa ainda com o ver e o fazer primeiros e criadores de Jesus. Jesus viu Simão e André, Tiago e João, e chamou-os: «Vinde atrás de mim, e farei de vós…». É o ver e o fazer do Criador (Génesis 1). Está em cena um verdadeiro chamamento de Jesus. É dele toda a iniciativa. Não são os discípulos que se apresentam a Jesus, pedindo trabalho. E não é como colaboradores, com remuneração e férias asseguradas, que Jesus os assume. Jesus apenas vê e chama. Espanta aquele «imediatamente» deixaram… e foram «atrás de» Jesus. Sem reticências nem calculismos. E nem sequer sabem onde os conduzirá o caminho em que agora entram. Confiança total em Jesus.

Perante o que nos é dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre nós como uma onda súbita: Quem pode dar uma ordem assim? Mas, ainda antes de esboçarmos a resposta, já uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre nós: Quem merece uma tal confiança.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – III DTC (Jonas 3, 1-5.10)
  2. Leitura II – III DTC (1 Cor 7, 29-31)
  3. III Domingo tempo Comum – Ano B – Lecionário
  4. Oração Universal – III Domingo Tempo Comum