Ano B
III Domingo da Páscoa – 18.04.2021

Apesar da liturgia da Semana Santa e mais concretamente do Tríduo Pascal nos oferecerem um relato detalhado de todo o processo da paixão e crucifixão de Jesus, a ressurreição de Jesus acontece durante o silêncio da madrugada, na intimidade de Jesus com o Pai. Deste modo, o testemunho da ressurreição de Jesus não chega até nós pela descrição do modo como ela aconteceu, mas pelo testemunho daqueles que se encontraram com o ressuscitado. Um testemunho cheio de força e entusiasmo, de convicção e ousadia que contrasta com o medo que os assaltou durante o processo da condenação e crucifixão de Jesus. Basta pensar no testemunho destemido de Pedro, na primeira leitura deste Domingo. Pedro corajosamente diante da multidão proclama a boa notícia da ressurreição. Acusando a multidão de ter agido por ignorância no processo da morte de Jesus, convida-os ao arrependimento e à conversão para que também eles confessem a sua fé em Jesus Ressuscitado e se tornem também testemunhas da alegria da Páscoa.

Como contrasta este discurso de Pedro com as palavras titubeantes com que negava conhecer Jesus no pátio da casa do Sumo Sacerdote! O encontro com o ressuscitado transforma de tal modo a vida e o coração que nada nem ninguém os fará recuar e temer no anúncio da vida nova que Jesus ressuscitado oferece.

A novidade da ressurreição de Jesus irrompe no tempo e na história como garantia de que o bem trinfa sobre o mal e que pela ressurreição de Jesus também a nossa vida se inscreve no horizonte de vida e ressurreição que a Páscoa de Jesus nos oferece. Como é sempre belo e reconfortante ler as palavras do Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit: «Contempla Jesus feliz, transbordando de alegria. Alegra-te com o teu Amigo que triunfou. Mataram o Santo, o Justo, o Inocente, mas Ele venceu. O mal não tem a última palavra. Também na tua vida, o mal não terá a última palavra, porque o teu Amigo, que te ama, quer triunfar em ti. O teu Salvador vive» (CV 126).

A afirmação de que a ressurreição de Jesus se vive e experimenta como encontro íntimo e pessoal com Aquele que por mim se entregou à morte e ressuscitou glorioso, não me desliga da comunidade nem me permite uma experiência isolada da fé, mas recorda-me como o ressuscitado se faz presente no meio dos discípulos e lhes comunica o seu amor e a sua paz: «A paz esteja convosco». A experiência pascal é comunitária e o testemunho da ressurreição ganha consistência, força e concretização na alegria e na beleza de caminhar juntos, estabelecendo laços fraternos e comunitários que permitem ver, tocar e comer juntos.

Na verdade, para dissipar os medos e as dúvidas, Jesus pronuncia os verbos mais simples e familiares: vede, tocai, comamos juntos… Os discípulos rendem-se à evidência da ressurreição não pelos sinais teofânicos mais espetaculares, mas pela contemplação das marcas da paixão, por poder tocar o corpo do ressuscitado e saborearem juntos uma refeição. Jesus entra na nossa vida, não como uma ideologia ou uma formulação intelectual e abstratas, mas plasmando a nossa vida concreta: a nossa ação, o nosso toque, a nossa comunhão e partilha fraterna.

Somos convidados a continuar hoje a experiência de Jesus ressuscitado vendo o rosto de tantos irmãos nossos que atravessam o limiar da dor e do sofrimento, tocando as suas feridas que nos recordam as marcas da paixão do ressuscitado e participando da mesa da comunhão e da partilha que perpetua no tempo e na história a presença Daquele que por nós morreu e ressuscitou. In Voz Portucalense

LEITURA I – Actos 3,13-15.17-19
«O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 4
Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz do vosso rosto

LEITURA II –1 Jo 2,1-5ª
«Ele é a vítima de propiciação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos do mundo

EVANGELHO – Lc 24,35-48
«Os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão».
«Vós sois as testemunhas de todas estas coisas». 

Para os leitores:
A primeira leitura é constituída por um discurso em que Pedro proclama a ressurreição e acusa os que o ouvem de terem agido por ignorância no processo da condenação de Jesus. A proclamação desta leitura deve ser marcada pelo tom alegre e jubiloso da proclamação da ressurreição e ter um especial cuidado para evitar um severo tom acusativo e condenatório.

A brevidade da segunda leitura não deve permitir descurar a sua preparação e requer sobretudo uma acurada preparação das pausas e respirações, sobretudo na articulação entre as diversas frases que iniciam com a conjugação adversativa, «mas» ou copulativa «e».

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
É-nos dada hoje, Domingo III da Páscoa, a graça de escutar a página sublime do Evangelho de Lucas 24,35-48, em que Jesus Ressuscitado se faz ver aos seus discípulos reunidos, que são «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), dissipa as suas dúvidas e os seus medos, e lhes indica o sentido da Escritura, ao mesmo tempo que abre diante dos seus olhos o sentido obrigatório da missão. Podem assaltar-nos questões como estas: a) o que terá acontecido àqueles discípulos depois da morte de Jesus?; b) como chegaram ao ponto de afirmar a sua ressurreição?; c) terão sido vítimas de alguma desmedida ilusão?; d) autoconvenceram-se de que a obra de Jesus não podia terminar com aquela morte?; e) é a partir de si mesmos que chegam à fé na ressurreição, e que começam a anunciar convictamente que Jesus está vivo? A página do Evangelho de hoje ajuda-nos a compreender melhor os acontecimentos.

Ainda os dois discípulos de Emaús faziam exegese demorada (exegoûnto: impf. de exêgéomai) das coisas acontecidas no caminho e de como Jesus se deu a conhecer (egnôsthê: aor. pass. de ginôskô) a eles (autoîs), dativo do beneficiário, no partir do pão (en tê klásei toû ártou) (Lucas 24,35), quando o próprio Ressuscitado irrompeu e ficou de pé no MEIO deles (o lugar da presidência), e saudou-os, dizendo: «A Paz convosco!» (Lucas 24,36). O leitor estaria à espera de uma receção apoteótica, do rebentamento de recalcadas emoções, de incontidos gritos de júbilo e de alegria. E, em vez disso, assistimos ao extravasar de medos, perturbação e dúvidas, pois o que pensavam estar a ver diante deles, no MEIO deles, era um espírito, um fantasma! (Lucas 24,37 e 39).

Esta reação é importante, e manifesta que estes discípulos de Jesus, após aquela morte de Jesus, já tinham desistido de Jesus e nada mais esperavam dele (Lucas 24,21). Qualquer novo início só poderia vir de fora, só poderia vir de Deus. Naqueles discípulos não se vislumbrava nenhuma réstia de esperança, nenhuma acha ainda fumegava. Tudo cinza do mais cinzento que há. É a maneira de a Bíblia inteira realçar a intervenção de Deus. Deus não intervém como consequência de um pedido ou desejo nosso, para satisfazer os nossos anseios ou projeções mais insistentes. É sempre pura iniciativa sua, do nosso lado impensável, imprevisível e incontrolável. Ao mostrar as coisas desta maneira, a Bíblia, toda a Bíblia, antecipa-se em muitos séculos aos «mestres da suspeita» (Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud) e dissolve avant la lettre a sua denúncia de um Deus produzido ou projetado pelos nossos anseios e desejos.

É assim que Jesus vem sem ser esperado e sem se fazer anunciar. E porque não era possível, da nossa parte, acreditar que fosse Ele, Ele tem de se identificar. Para o fazer, não exibe, porém, qualquer fotografia ou documento. Mostra as mãos e os pés (Lucas 24,39-40), como em João 20,20 e 27 mostra as mãos e o lado, que levam a reconhecer o Ressuscitado como o Crucificado, sendo as mãos e os pés, como as mãos e o lado, as marcas da sua vida dada. Note-se uma vez mais que não é pelo rosto que identificamos Jesus Ressuscitado. Senão aqueles discípulos, que com Ele tinham convivido de perto, tê-lo-iam identificado sem demora. É a sua maneira de ser que diz Quem Ele é. E a sua maneira de ser é dar a vida. De ser e de estar connosco. No meio de nós (Lucas 24,36) e à nossa frente (Lucas 24,43), presidindo-nos e precedendo-nos.

Sintomático que aqueles discípulos, vendo o que veem, nada digam. Permanecem mudos. Eles que antes estavam cheios de palavras… Mas Jesus continua a ser, é sempre, não o simples orador à maneira de escribas, mas Aquele que fala com autoridade (Marcos 1,22). Ele é a Palavra criadora de mundos novos e de corações novos (João 1,3). Quando Ele surge, um mundo novo começa a acontecer. Dentro e fora de nós. E como é que podemos falar se ainda estamos a nascer?! Portanto, Ele fala (laléô): «É necessário (deî) que se cumpram todas as coisas escritas (gegramména) na Lei de Moisés e nos Profetas e nos Salmos acerca de mim (perì emoû). […] Assim foi escrito (gégraptai) que o Cristo havia de sofrer (1) e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia (2) e de ser anunciada (kêrýssô) (3) no seu nome a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações» (Lucas 24,44-47). E acrescenta com autoridade: «Vós sois testemunhas (mártyres) destas coisas» (Lucas 24,48).

A partir deste luminoso falar revelatório (laléô) de Jesus fica claro, para nós, que a Missão do anúncio do Evangelho não é facultativa, mas insere-se na necessidade do plano de Deus, ao mesmo nível da morte e da ressurreição de Jesus. De forma clara, o cristão é batizado na morte de Cristo e vive a vida nova da Ressurreição de Cristo, mas tem de viver também do/e para o anúncio do Evangelho. É este o único lugar do Novo Testamento que guarda esta tripla necessidade: sofrimento e morte de Jesus (1), ressurreição de Jesus (2), anúncio do Evangelho a todas as nações (3). Nos outros lugares do Novo Testamento, esta necessidade afeta apenas as duas primeiras realidades.

Esta necessidade teológica fica registrada no uso do verbo grego deî e das coisas para sempre escritas em todas as Escrituras. O para sempre escritas fica gravado no uso dos dois perfeitos (gegramména e gégraptai, respetivamente particípio perfeito passivo e perfeito passivo do verbo gráphô). Se o uso do perfeito indica o «para sempre», o uso da forma passiva aponta para Deus, tratando-se, como é usual classificar-se, de um passivo divino ou teológico.

Importa ainda precisar que este necessário anúncio do Evangelho não afeta apenas os Onze, mas «os Onze e os outros com eles» (Lucas 24,33), entenda-se, todos os discípulos de Jesus, pois é perante todos [«os Onze e os outros com eles»] – não há mudança de cenário – que Jesus pronuncia o luminoso falar revelatório de Lucas 24,44-47. Sem equívocos então: esta missão afeta-nos a todos, todos os discípulos de Jesus de todos os tempos. Fica ainda claro que o anúncio (kêrygma) do Evangelho não decorre por conta e risco do anunciador (kêryx), que não o faz em seu próprio nome; antes, apresenta-se sempre vinculado a Jesus Cristo, pois o anúncio é feito «em seu nome» (Lucas 24,47), é Ele que envia o anunciador. E este anúncio do Evangelho não fica circunscrito a um horizonte limitado, paroquial, diocesano, nacional, continental, pois o seu verdadeiro horizonte são «todas as nações» (Lucas 24,47), «todos os lugares», todos os corações.

Bem se vê que é, neste ponto preciso e nesta necessidade, que S. Paulo, «o maior missionário de todos os tempos» (Bento XVI) e «modelo de cada evangelizador» (Beato Paulo VI), enxerta a sua vida e se entende a si mesmo, pois confessa: «Evangelizar não é para mim um título de glória, mas uma necessidade que se me impõe desde fora (epíkeitai). Ai de mim se não Evangelizar!» (1 Coríntios 9,16).

Impõe-se ainda uma anotação sobre aquela importante afirmação final de Jesus, que nos designa como testemunhas (mártyres). É a primeira vez que os discípulos são designados como testemunhas. No mundo de hoje, tal como o conhecemos, falar de testemunhas é falar de alguém que, tendo presenciado um acidente ou um crime, se compromete depois, no tribunal, a apresentar o seu ponto de vista sobre o sucedido. Alguém, portanto, que é chamado a comprometer-se com uma história que não é a dele. Para evitar chatices, acabamos muitas vezes por dizer logo à partida que não vimos nada. Mas, aqui, é Jesus que nos designa como testemunhas. Convenhamos que esta designação dos cristãos como testemunhas não tem sido nem é habitual. A linguagem corrente cataloga-nos mais depressa como «praticantes» ou «não-praticantes». Mas aqui somos designados como «testemunhas» dos acontecimentos de Jesus Cristo. Aquando da necessária substituição de Judas no colégio apostólico, Pedro traça assim os requisitos necessários que devem presidir à escolha do novo membro que venha a entrar no grupo dos Doze: «É necessário (deî), pois, que, dos homens que vieram connosco (synérchomai) durante todo o tempo em que entrou e saiu à nossa frente o Senhor Jesus, tendo começado desde o Batismo de João até ao dia em que Ele foi arrebatado (anelêmphthê) diante de nós, um destes se torne connosco testemunha (mártys) da sua Ressurreição» (Atos 1,21-22). Somos, portanto, chamados a envolver-nos de tal modo na história e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, não com discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida! Sim, aquela história e aquela vida são a nossa história e a nossa vida. Aí está o estilo da testemunha e do evangelizador.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – III DPáscoa (Act 3, 13-15.17-19)
  2. Leitura II – III DPáscoa (1 Jo 2, 1-5a)
  3. Domingo III do Tempo da Páscoa-Ano B – 18.04.2021 – Lecionário