Domingo IX do Tempo Comum – Ano B – 02.06.2024

27E disse-lhes: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. 

28O Filho do Homem até do sábado é Senhor.» Mc 2, 27-28

 

Viver a Palavra

O descanso sabático é, por diversas vezes, objeto de discussão entre Jesus e os fariseus. Para os fariseus, o Sábado deve ser observado para lá de todas as necessidades e urgências. É o dia abençoado e santificado pelo Senhor no sétimo dia da criação e, por isso, nada nem ninguém o poderá diminuir ou subverter. Na verdade, como regista o livro do Génesis: «Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação» (Gn 2,3).

Imagem e semelhança de Deus, o homem e a mulher são chamados a viver o ritmo dos dias na sublime articulação entre o trabalho e o descanso, entre a ação e a contemplação. Como afirma Ermes Ronchi: «o Sábado é o dom mais precioso que Deus concedeu a todos os outros povos. Só a partir de então, se tornou norma para todos este ritmo de trabalho e de festa, o ritmo septenário do homem e de Deus, que articulam juntos, a vida de ambos».

O descanso, mais do que uma conquista, é um dom de Deus que resgata a humanidade do trabalho escravo que não conhece descanso, mas oferece um tempo para a comunhão com Deus e com os irmãos, para a vida em comunidade, em família e em sociedade.

Deste modo, os fariseus observando estritamente a lei herdada, fixaram o seu coração na letra da lei, ignorando que a lei deve servir o homem e que toda e qualquer lei que não respeite a dignidade humana e não a promova contradiz o desígnio do Criador. Jesus inscreve a vida humana na esteira da verdadeira liberdade, porque, para os fariseus, até o descanso era um lugar hermético e de escravidão.

Jesus vem para estabelecer um novo modo de ser e de estar, que se traduz num modo novo de servir e amar. Jesus vem para levantar a humanidade decaída e restabelecer-lhe uma nova dignidade e centralidade: «levanta-te e vem aqui para o meio». Jesus liberta e cura aquele homem, erguendo-o da sua condição e colocando-o no meio. Como cristãos, o nosso amor absolutamente centrado em Deus, deve viver-se num amor universalmente alargado aos irmãos. A verdadeira fé em Jesus Cristo não permite que ninguém seja relegado para segundo plano ou possa ficar à margem, muito menos se essa secundarização e marginalização acontecer seguindo um conjunto de regras ou preceitos que têm uma aparente capa religiosa, mas que não passam de regras rígidas que oferecem uma falsa garantia de segurança.

Aqueles que seguem Jesus Cristo libertam-se de quanto endurece o seu coração e os impede de viver a verdadeira liberdade. A verdadeira cura de coração opera-se pela capacidade de estender a mão em direção a Deus e aos irmãos. Aquele homem foi restabelecido da sua doença, estendendo a mão para Jesus: «ele estendeu-a e a mão ficou curada». Quando oferecemos a Deus tudo quanto temos e somos, mais seremos para os outros, porque na vida cristã o amor que devotamos a Deus transforma-se em amor oferecido, em gestos concretos de bondade e de ternura, para quantos se cruzam connosco na estrada da vida.

É certo que somos pecadores e como S. Paulo podemos afirmar «nós trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério, para que se reconheça que um poder tão sublime vem de Deus e não de nós». Contudo, quanto mais nos soubermos instrumentos nas mãos de Deus e deixarmos que a nossa fragilidade seja testemunho da misericórdia de Deus, tanto mais se manifestará a grandeza Daquele que atua em nós.in Voz Portucalense

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No dia 7 de junho, Sexta-feira depois do segundo Domingo depois do Pentecostes, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Neste dia, assinala-se também o Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Esta solenidade está muito enraizada na devoção dos fiéis e em muitos lugares são diversas as formas de piedade popular que assinalam este mês e este dia. É importante lembrar as palavras do Papa Francisco, nos números 122-126 da Evangelii Gaudium, onde o Santo Padre apresenta a força evangelizadora da piedade popular e dinamizar este mês e este dia ajudando os fiéis a encontrar no Coração de Jesus Cristo a revelação do rosto misericordioso de Deus. in Voz Portucalense

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Continuamos num novo ciclo do Ano Litúrgico – o Ano B. Durante todo este ano litúrgico – 2023/2024 -, acompanhamos o evangelista S. Marcos em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Marcos.

E faremos isso….

Em anexo à Liturgia da Palavra ficará disponível um texto sobre o evangelista Marcos. Também poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – Deut 5,12-15
Leitura do Livro do Deuteronómio
Eis o que diz o Senhor:
«Guarda o dia de sábado, para o santificares,
como te mandou o Senhor, teu Deus.
Trabalharás durante seis dias
e neles farás todas as tuas obras.
O sétimo, porém, é o sábado do Senhor, teu Deus.
Não farás nele qualquer trabalho,
nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha,
nem o teu escravo, nem a tua escrava,
nem o teu boi, nem o teu jumento,
nem nenhum dos teus animais,
nem o estrangeiro que mora contigo.
Assim, o teu escravo e a tua escrava
poderão descansar como tu.
Recorda-te que foste escravo na terra do Egipto
e que o Senhor, teu Deus, te fez sair de lá
com mão forte e braço estendido.
Por isso, o Senhor, teu Deus,
te mandou guardar o dia de sábado».

CONTEXTO
            O livro do Deuteronómio, mesmo que de redação posterior ao tempo da narração (que seria o tempo do caminho deserto, sob a guia de Moisés) e com notórias influências de textos extra-bíblicos de culturas vizinhas do Povo de Israel (nomeadamente dos tratados de vassalagem neo-assírios), é importante para as reformas de Ezequias (725-697 a.C.; cf. 2Rs 18,4.22) e sobretudo de Josias (640-609 a.C.; cf. 2Rs 23,4-20), uma vez que as centra no evento fundador de Israel como Povo, com a celebração da Aliança no Sinai-Horeb. Os elementos fundamentais que dão corpo às reformas são: o monoteísmo (um só Deus), a centralidade do curso num só lugar (Jerusalém), a Aliança de Deus-YHWH com o povo, que faz do Povo propriedade de Deus-YHWH e, portanto, a unidade do povo, demostrando a insensatez da constituição de dois reinos no período pós-salomónico e afirmando o ideal de regressar à unidade política das 12 tribos de Israel.

O livro do Deuteronómio é tradicionalmente dividido em três grandes secções, que corresponderiam a três grandes discursos de Moisés; o nosso texto situa-se no início do segundo discurso (cf. Dt 4,44 – 26,19), depois de uma breve introdução histórica que o situa no contexto da teofania do Sinai-Horeb (Dt 4,44 – 5,5) e é parte da versão deuteronómica do decálogo (Dt 5,6-21). Quanto à sua forma literária, sendo parte do decálogo (dez mandamentos), é um texto de carácter legislativo, sem perder, porém, a sua componente didática como se vê pelo início do discurso de Moisés. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • Uma compreensão anárquica da realidade poderia relativizar os preceitos do Decálogo do Deuteronómio e, mais concretamente, de «guardar o dia de sábado para o santificar». Há que ter em conta que a Lei é sobretudo instrução paternal de Deus, uma oferta para o seu Povo, para regular as relações em sociedade. O texto da primeira leitura convida-nos a regressar aos fundamentos da celebração do Dia do Senhor, tomando a sério o valor do verbo «santificar».
  • Destacámos para o sábado e podemos fazê-lo para o domingo cristão as duas fundamentações teológicas expressas no livro do Êxodo e do Deuteronómio, respetivamente, fazendo memória do repouso do Senhor, depois da obra da criação, e da sua obra de libertação da escravidão do Egito. É importante voltar aos fundamentos da celebração do Dia do Senhor, vivendo-o como memorial da libertação do Pecado na Páscoa de Cristo que atualiza a obra libertadora de Deus da escravidão do Egito.
  • Notámos que a celebração do Dia do Senhor – sábado para os judeus e domingo para os cristãos – tem uma grande dimensão social, sendo dia de descanso para todos, garantindo esse direito sobretudo aos pobres que se veem assim protegidos pela Lei divina. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica: «O agir de Deus é o modelo do agir humano. Se Deus “descansou” no sétimo dia, o homem deve também “descansar” e deixar que os outros, sobretudo os pobres, “tomem fôlego”. O sábado faz cessar os trabalhos quotidianos e concede uma folga. É um dia de protesto contra as servidões do trabalho e o culto do dinheiro» (n. 2172).
  • O texto do Deuteronómio socorre-se de uma tradição antiga, que está na origem de Israel como Povo, para redefinir a própria identidade em tempo de crise, concretamente no tempo do exílio e pós-exílio. A celebração do Dia do Senhor pode ser um bom recurso para recuperar a identidade cristã. De facto, se no passado irmãos nossos deram a vida para defender o domingo («Não podemos passar sem o domingo», diziam diante do cônsul que os condenaria à morte, como quem diz, «sem nos reunirmos em assembleia ao domingo para celebrar a Eucaristia não podemos viver»). Como ensinou Bento XVI, a experiência dos mártires de Abitene pode ser paradigmática para nós cristãos do séc. XXI: «Precisamos do pão da vida para enfrentar as fadigas e o cansaço da viagem. O Domingo, Dia do Senhor, é a ocasião propícia para haurir a força d’Ele, que é o Senhor da vida. Por conseguinte, o preceito festivo não é um dever imposto pelo exterior, um peso sobre os nossos ombros. Ao contrário, participar na Celebração dominical, alimentar-se do Pão eucarístico e experimentar a comunhão dos irmãos e irmãs em Cristo é uma necessidade para o cristão, é uma alegria, e assim pode encontrar a energia necessária para o caminho que devemos percorrer todas as semanas. Um caminho, aliás, não arbitrário: a via que Deus nos indica na sua Palavra vai na direção inscrita na própria essência do homem, a Palavra de Deus e a razão caminham juntas. Seguir a Palavra de Deus e caminhar com Cristo significa para o homem realizar-se a si mesmo; perdê-la equivale a perder-se a si próprio.» in Dehonianos.

LEITURA II – 2Cor 4,6-11
Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo aos Coríntios
Irmãos:
Deus, que disse: «Das trevas brilhará a luz»
fez brilhar a luz em nossos corações,
para que se conheça em todo o seu esplendor
a glória de Deus, que se reflete no rosto de Cristo.
Nós trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério,
para que se reconheça que um poder tão sublime
vem de Deus e não de nós.
Em tudo somos oprimidos, mas não esmagados;
andamos perplexos, mas não desesperados;
perseguidos, mas não abandonados;
abatidos, mas não aniquilados.
Levamos sempre e em toda a parte no nosso corpo
os sofrimentos da morte de Jesus,
a fim de que se manifeste também no nosso corpo
a vida de Jesus.
Porque, estando ainda vivos,
somos constantemente entregues à morte por causa de Jesus,
para que se manifeste também na nossa carne mortal
a vida de Jesus.

CONTEXTO
            A relação de Paulo com as comunidades cristãs por ele fundadas ou pelo menos solidificadas é semelhante à de um pai que se ocupa da educação dos filhos: ao verificar comportamentos pouco condizentes com a fé cristã, Paulo intervém indicando o caminho a seguir. Esta atitude não será certamente estranha a quem conhece a Primeira Carta aos Coríntios, em que o apóstolo das gentes individua vários comportamentos reprováveis e mostra o caminho a seguir, oferecendo também, normalmente, um fundamento teológico. A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios insere-se nestas relações paternas de Paulo com aquela comunidade, que se fazem através de visitas presenciais e de correspondência epistolar. Uma vez que o seu ministério apostólico é posto em causa, muito provavelmente pelo grupo dos “Homens Espirituais” a que se refere a Primeira Carta aos Coríntios (cf. 2,6-16; 4,8-10) e nem sequer os seus cristãos vêm em sua defesa, Paulo faz a sua apologia, uma espécie de defesa do seu ministério apostólico, mostrando que nele se verificam os critérios que permitem identificar um verdadeiro apóstolo.

É neste contexto que se insere este texto proposto pela liturgia, que se esforça por demonstrar que o ministério apostólico de Paulo é condizente com o mistério de Cristo e, sobretudo, não o ofusca com pretensões de protagonismo, uma vez que é o conteúdo da mensagem transmitida por Paulo que assume o verdadeiro papel de protagonista na sua missão apostólica. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES
• São Paulo é um modelo de servidor do Evangelho para todos os que, na Igreja, se posicionam ao serviço humilde do Povo de Deus. Dele aprendemos que a grande característica do apostolado, mais que as ações pastorais inovadoras ou não, é a relação com Cristo, a ponto de trazer na própria vida as marcas dessa união, seja nas tribulações que se sofre por causa de Cristo e do Evangelho, seja porque se incarna na própria vida aquilo que se ensina.

  • Para se exercer um serviço na Igreja, mais concretamente ao serviço do anúncio e da evangelização, sem excluir nenhum dos outros serviços e ministérios, é necessário pôr de parte todo e qualquer desejo de ser protagonista, para dar protagonismo ao Evangelho, verdadeiro «tesouro» que transportamos «em vasos de barro», frágeis, da nossa fragilidade humana. Mesmo quando o Senhor fortalece a nossa fragilidade, é importante que seja claro para nós, como era para Paulo, que o verdadeiro tesouro é o Evangelho que não depende de nós, mas de Deus que no-lo deu a conhecer na pessoa de Jesus Cristo.
  • A vida do evangelizador deve conformar-se cada vez mais à vida de Cristo a ponto de se tornar um espelho de Cristo, um livro aberto do Evangelho, onde se pode ler os sinais da vida oferecida de Jesus. Só uma grande intimidade com Jesus Cristo, como a que teve Paulo, poderá dar-nos a possibilidade de sermos pessoas identificadas com o Evangelho que anunciamos. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mc 2,23–3,6
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Passava Jesus através das searas, num dia de sábado,
e os discípulos, enquanto caminhavam,
começaram a apanhar espigas.
Disseram-Lhe então os fariseus:
«Vê como eles fazem ao sábado o que não é permitido».
Respondeu-lhes Jesus:
«Nunca lestes o que fez David,
quando ele e os seus companheiros
tiveram necessidade e sentiram fome?
Entrou na casa de Deus,
no tempo do sumo sacerdote Abiatar,
e comeu dos pães da proposição,
que só os sacerdotes podiam comer,
e os deu também aos companheiros».
E acrescentou:
«O sábado foi feito para o homem
e não o homem para o sábado.
Por isso, o Filho do homem é também Senhor do sábado».
Jesus entrou de novo na sinagoga,
onde estava um homem com uma das mãos atrofiada.
Os fariseus observavam Jesus,
para verem se Ele ia curá-lo ao sábado
e poderem assim acusá-l’O.
Jesus disse ao homem que tinha a mão atrofiada:
«Levanta-te e vem aqui para o meio».
Depois perguntou-lhes:
«Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal,
salvar a vida ou tirá-la?».
Mas eles ficaram calados.
Então, olhando-os com indignação
e entristecido com a dureza dos seus corações,
disse ao homem:
«Estende a mão».
Ele estendeu-a e a mão ficou curada.
Os fariseus, porém, logo que saíram dali,
reuniram-se com os herodianos
para deliberarem como haviam de acabar com Ele.

CONTEXTO
O texto evangélico deste domingo conclui a primeira secção do Evangelho de Marcos, que descreve a fase inicial do ministério de Jesus (cf. 1,14-3,6), e é a última das controvérsias de Jesus com os seus opositores acerca de algumas práticas rituais judaicas, no caso sobre o sábado judaico. É de notar que estes dois textos que formam Mc 1,23 – 3,6 são os únicos dois textos de Marcos em que Jesus se contrapõe ao sábado; no resto do Evangelho, tanto Jesus como quem está com Ele observam as práticas judaicas a respeito do mandamento de guardar o sábado. Recapitulando, Jesus tinha-se já confrontado com os escribas a respeito do perdão dos pecados ao paralítico (cf. 2,1-13), do estar à mesa com os publicamos e pecadores (cf. 2,14-17); depois, com os discípulos de João Batista e os fariseus sobre as práticas do jejum, não observado pelos discípulos de Jesus (cf. 2,18-22); confronta-se agora com os fariseus sobre o respeito pelo dia de sábado em dois episódios (2,23-28; 3,1-6), sendo que, neste último episódio, pela primeira vez os seus opositores se reuniam com os herodianos para encontrar maneira de condenar Jesus à morte (3,6), funcionando esta decisão como conclusão de todos os confrontos.
Será bom ter em conta o objetivo desta primeira secção do Evangelho de Marcos; o evangelista pretende mostrar a novidade trazida pelo movimento de Jesus, bem diferente do ambiente judaico e rabínico, mostrando o amor de Deus pelos que estavam marginalizados (os publicamos e pecadores), uma mensagem que toma corpo no perdão dos pecados (na cura do paralítico) e a total rejeição de leituras rigoristas da Lei de Moisés, demonstrando que o formalismo pode aniquilar a experiência de fé, que deve estar sempre orientada para o bem do outro. Como se verá o critério que Jesus deixa para interpretar o sábado judaico, mas também outros preceitos é o amor ao outro. in Dehonianos

INTERPELAÇÕES

  • Jesus ensina-nos a posicionar-nos com verdadeira liberdade diante da Lei de Moisés, ou melhor, diante da Lei de Deus, que nos chegou por Moisés, sem perder nunca de vista o seu objetivo de regular a nossa vida em sociedade e em Igreja, protegendo os mais frágeis e evitando toda e qualquer opressão por parte de quem exerce o poder. Interpretações rigoristas da Lei – como são as dos fariseus no nosso texto – cegam e não deixam ver as necessidades humanas que, na perspetiva de Jesus, são o verdadeiro critério para manter uma atitude livre diante da Lei.
  • O nosso texto não coloca em causa a celebração do culto no dia de sábado, mas reposiciona-a de modo que possa coabitar com o serviço dos necessitados, na pessoa dos discípulos com fome e de uma pessoa com uma mão atrofiada. A celebração do Dia do Senhor, ao domingo, pode ser cada vez mais expressão desta dupla faceta do sábado reinterpretado com Jesus que, em dia de sábado entra na sinagoga, lugar onde se realiza o culto, mas não pactua com a necessidade de quem sofre, indo em seu auxílio, dando conforto e, no caso, mesmo a cura. Se o cristão prolonga na existência a vida de Cristo, é importante que no dia maior, a Ele consagrado, não se perca de vista aqueles que foram os seus prediletos.
  • A regra hermenêutica que Jesus dá para saber o que se pode fazer ou não ao domingo pode ser transposta para outros campos da nossa vida: é importante saber que queremos estar ao serviço do bem e da salvação da vida humana, em linha com o desejo de Deus, tal como se manifesta na vida e mensagem de Jesus; a par disso, sabemos que as instituições, sejam elas religiosas ou civis, devem estar ao serviço da vida humana, para que possam realizar a missão para a qual nasceram. in Dehonianos

Para os leitores:

            Na primeira leitura, ter em atenção o tom exortativo do texto, valorizando as formas verbais no imperativo. Além disso, o leitor deve dedicar especial cuidado à enumeração que aparece acompanhada pela partícula «nem».

Na segunda leitura, devem ser tidas em atenção as frases mais longas e com diversas orações que exigem uma acurada preparação nas pausas e respirações.

I Leitura: (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

É PERMITIDO AO SÁBADO FAZER O BEM OU FAZER O MAL?

O Evangelho deste Domingo IX do Tempo Comum faz-nos escutar as últimas duas (Marcos 2,23-3,6) das cinco controvérsias reunidas em Marcos 2,1-3,6. Depois do jejum e do Esposo (Marcos 2,18-22), que ocupa o centro da estrutura, e que são escutadas no Domingo VIII, eis-nos agora perante dois episódios que nos mostram Jesus como Senhor do sábado e sob o olhar acusador de fariseus e herodianos, que começam a tramar a forma como o hão de matar (Marcos 3,6).

O primeiro episódio (Marcos 2,23-28) mostra Jesus e os seus discípulos, em dia de sábado, a atravessar os campos. E dos discípulos de Jesus, diz-nos o narrador, que, atravessando os campos, colhiam espigas (Marcos 2,23), sob o olhar judicioso e acusador dos fariseus, que interrogam Jesus acerca deste incumprimento da Lei por parte dos seus discípulos (Marcos 2,24). Colher espigas em dia de sábado, naturalmente com o intuito de comerem os grãos, eis o que não era permitido fazer. Duplo, ou mesmo triplo, incumprimento da Lei. Ao sábado era proibido colher fosse o que fosse (Êxodo 34,21), bem como preparar qualquer tipo de refeição. E era apenas permitido percorrer, entre ida e volta 1892 metros. Dado que andavam pelos campos, é provável que também este último preceito estivesse a ser violado.

Jesus responde chamando a atenção dos fariseus para o episódio narrado no Primeiro Livro de Samuel 21,2-7. Aí, David, que andava fugido de Saul, que o perseguia, dirigiu-se a Aquimelec, sacerdote do santuário de Nob, e pediu-lhe cinco pães para si e para os combatentes que o acompanhavam. Aquimelec apenas dispõe dos chamados «Pães do Rosto» (lehem panîm), que são colocados, de sábado a sábado, diante do Rosto de Deus, em número de Doze, tantos quantas as tribos de Israel, dispostos em duas filas de seis sobre uma mesa revestida de ouro colocada diante do Santo dos Santos. Trata-se de pão consagrado a Deus, renovado todos os sábados. Ao sábado, colocavam-se sobre a mesa doze pães novos, e os doze pães antigos eram comidos ou consumidos apenas pelos sacerdotes e dentro do santuário. A mais ninguém era permitido comer aqueles pães (Levítico 24,5-9; cf. Êxodo 25,23-30). Todavia, dadas as condições de miséria e de fome de David e dos seus companheiros, Aquimelec dá-lhes para comer os pães consagrados. Esta remissão para a Escritura, este «Nunca lestes…», serve a Jesus para mostrar aos fariseus que o seu rigor está em contradição com as próprias Escrituras que querem citar a seu favor.

Mas há mais. Depois de referir aos fariseus este episódio (Marcos 2,25-26), Jesus dá por subentendido, tendo em conta a conhecida argumentação rabínica «do menor para o maior», que, se foi permitido a David e aos seus companheiros comer os pães consagrados, por causa da fome, quanto mais é permitido ao Filho de David e aos seus companheiros arrancar e comer espigas profanas. E quanto ao facto de as espigas terem sido colhidas em dia de sábado, Jesus aproveita a embalagem da subentendida argumentação rabínica, para declarar logo ali que «o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado», e que, «portanto, o Filho do Homem é Senhor também do sábado» (Marcos 2,27-28).

Com estas declarações conclusivas, fica claro que Jesus tem do sábado uma noção bem diferente da que têm os fariseus. Estes também admitiam algumas exceções no que se refere à prática das prescrições sabáticas. Por exemplo, era permitido fugir para salvar a vida, ajudar uma pessoa em perigo de vida, ajudar uma mulher com dores de parto, ajudar a apagar um incêndio, e coisas semelhantes. Mas eram sempre vistas como exceções à regra. Em relação ao entendimento dos fariseus, Jesus não é apenas mais liberal, alargando, por assim dizer, o leque das exceções à regra. Não. Jesus muda própria a regra, apresentando uma diferente conceção de Deus e da reverência que lhe é devida. A diferença reside sobretudo nisto: o amor devido a Deus não colide com o bem do homem. Deus está do lado do homem. E não há mais um pedaço de tempo para dedicar a Deus e outro pedaço para dedicar ao homem. Agora, o tempo é todo de Deus, e é por ser todo de Deus, que é também todo para o homem.

A controvérsia sobre o sábado continua no segundo episódio do Evangelho de hoje (Marcos 3,1-6), em que Jesus assume todo o protagonismo. Entra na sinagoga, em dia de sábado. Não nos é dito de que sinagoga se trate: se da de Cafarnaum (cf. 1,21-28) ou de alguma das sinagogas da Galileia (cf. 1,39). Mas é-nos dito que na sinagoga em que Jesus entra está um homem (ánthrôpos) com uma mão paralisada (Marcos 3,1). E é-nos dito igualmente que estão lá outros a ver se Jesus o curaria em dia de sábado, para o poderem acusar (Marcos 3,2). Se o homem aparece apenas com a determinação genérica de «ser humano» (ántrôpos), os outros não passam de «eles», que estão lá apenas como observadores que desejam poder transformar-se em acusadores. Só Jesus tem nome. Só Jesus entra. O homem e «eles» já lá estão. O homem não pede nada; «eles» não perguntam nada. Só Jesus tem nome, só Jesus fala, só Jesus age. Ele é verdadeiramente o Senhor do Sábado.

Desenhado e preenchido o cenário, Jesus diz (légei), no presente, ao homem: «Levanta-te (egeírô), e vem para o meio!» (Marcos 3,3). E diz (légei), no presente, para «eles»: «É permitido, ao sábado, fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matá-la?» (Marcos 3,4a). Não é dito, no texto, que o homem se tenha movimentado, mas é dito que «eles» se calavam (esiôpôn: imperfeito de duração de siôpáô) (Marcos 3,4b).

Note-se bem a voz de Jesus a ecoar no presente e no silêncio. Note-se também a força da pergunta que formula, e que tem resposta demasiado óbvia. Na verdade, o bem deve fazer-se sempre, não apenas ao sábado, mas em todos os dias da semana! E o mal nunca se deve fazer, nem ao sábado nem em dia nenhum da semana! Quanto a matar, é proibido pela Lei sem mais detalhes (Êxodo 20,13). E, portanto, não salvar uma vida é violar a Lei, pois é demasiado óbvio que matamos sempre que não salvamos alguém da morte. Neste momento, o narrador mostra-nos um dos gestos mais fortes de Jesus: olha ao redor (periblépô) para «eles», com ira e tristeza, por causa da dureza do coração «deles» (Marcos 3,5a). E diz (légei), no presente, para o homem: «Estende a mão!». «Estendeu-a, e ficou restabelecida a sua mão» (Marcos 3,5b).

Esta é, nos Evangelhos, a única vez que Jesus opera uma cura por sua própria iniciativa. Note-se, porém, que «aqueles» que estavam lá para verificar se Jesus curaria ao sábado, ficaram sem nenhum registo no bloco-notas. Na verdade, Jesus nada fez que se visse no que à ação de curar diz respeito. Mas note-se agora também que Jesus tudo fez para que «eles» pudessem ver bem a sua soberania. Ao fazer vir o homem para o meio, deixou-o claramente à vista de todos. Não o tomou à parte, como referem outros relatos (cf. Marcos 7,33; 8,23). Ao dirigir-se ao homem por duas vezes (Marcos 3,3 e 5), Jesus quer que todos vejam que ele se interessa pessoalmente por aquele homem. Sim, Jesus é a transparência de Deus-Pai, que não quer nunca ficar confinado na lonjura e impessoalidade.

O texto do Deuteronómio 5,12-15, que hoje fica a retinir nos nossos ouvidos, constitui o contraponto ideal de quanto vimos e ouvimos no Evangelho. O sábado transporta consigo a memória da liberdade. Não para alguns, mas para todos: para ti, para os teus filhos e as tuas filhas, para o teu escravo e a tua escrava, para o teu boi, para o teu jumento, para todos os teus animais, para o estrangeiro que reside no teu meio. Extraordinária lição de liberdade! O grande filósofo e místico hebreu, Abraham Joshua Heschel (1907-1972), via o Sábado como uma pérola de Israel oferecida a toda a humanidade, um Templo de tempo, e não de espaço. Israel constrói o tempo onde outros povos constroem o espaço. Novidade arquitetónica de Israel. Por isso, não se pode reduzir o sábado a um preceito. Digamos nós: o nosso Domingo não pode reduzir-se a um preceito sob pena de pecado.

E S. Paulo, na lição contínua da Segunda Carta aos Coríntios (4,6-11), diz, com finura e verdade, que levamos este tesouro em vasos de barro. Ele é a Luz, faz luzir a luz, tudo alumia. A nossa luz é reflexa, e reside aí a sua beleza. Assim, não há motivo para vanglórias, mas fica claro que somos apenas (e tanto!) pura transparência de Cristo, deixando que se manifeste no nosso corpo a sua vida. Noutro lugar dirá: «Levo no meu corpo os estigmas de Jesus» (Gálatas 6,17). Belo programa de vida.

Entretanto, e sempre, ressoa no nosso pobre coração comovido e agradecido, o belo canto do Salmo 81. Sim, Deus colocou-se ao lado de Israel e ao nosso lado para nos aliviar das cargas pesadas que nos oprimem, desde o Egito até aos nossos dias.

António Couto

ANEXOS:

        1. Leitura I da Solenidade do Corpo de Deus – Ano B – 30.05.2024 (Ex 24, 3-8)
        2. Leitura II da Solenidade do Corpo de Deus – Ano B – 30.05.2024 (Heb 9, 11-15)
        3. Solenidade do Corpo de Deus – Ano B – 30.05.2024 – Lecionário
        4. Solenidade do Corpo de Deus – Ano B – 30.05.2024 – Oração Universal
        5. Leitura I do Domingo IX do Tempo Comum – Ano B – 02.06.2024 (Deut 5, 12-15)
        6. Leitura II do Domingo IX do Tempo Comum – Ano B – 02.06.2024 (2 Cor 4, 6-11)
        7. Domingo IX do Tempo Comum – Ano B – 02.06.2024 – Lecionário
        8. Domingo IX do Tempo Comum – Ano B – 02.06.2024 – Oração Universal
        9. ANO B – O ano do evangelista Marcos