Liturgia da Palavra

II Domingo do Tempo Comum – Ano C – 16.01.2022

1Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá.
Jo 2,1

Viver a Palavra

Depois da celebração festiva do Natal do Senhor e das festas nele celebradas, o calendário litúrgico propõe alguns Domingos do Tempo Comum até ao início do Tempo da Quaresma. No Tempo Comum, ao contrário dos outros tempos litúrgicos, não celebramos nenhum mistério em específico da vida do Senhor ou a sua respetiva preparação, mas a totalidade do mistério de Cristo na normalidade e no quotidiano da vida. É a celebração da presença sempre viva e atuante de Deus na história que, em cada tempo e em cada lugar, realiza a Sua obra de amor e escreve em nós e, a partir de nós, no mundo, a Sua história de salvação. Percorremos com Jesus os caminhos da missão e aprendemos no caminho, com Ele e como Ele, a obediência à vontade do Pai, a fidelidade ao Seu desígnio salvífico e a abertura ao horizonte da graça onde se inscrevem as nossas vidas.

Escutamos o capítulo segundo do Evangelho de S. João, acompanhando o início da atividade de Jesus. Depois do evangelista ter apresentado a Palavra que se faz carne, o Baptista que se faz Sua voz e os primeiros discípulos que acolhem o seu testemunho, descreve a aventura de Jesus com aqueles que o acompanham e se cruzam com Ele. O início da Sua missão contrasta com o que seria expectável na tradição religiosa vigente: oferece vinho para a embriaguez de umas núpcias e expulsa os vendedores do Templo, derrubando as mesas dos cambistas. Esta cena inicial, tal como o batismo nos sinópticos, leva-nos a compreender que Deus é escandalosamente diferente daquilo que são as nossas estruturas humanas e os nossos esquemas lógicos, puramente racionais, que Deus excede sempre.

O primeiro sinal de Jesus no Evangelho de S. João consiste em juntar mais de 600 litros de vinho a um banquete nupcial! O que teria a dizer sobre isto João Baptista, o asceta do deserto? Porventura, ainda hoje, não fosse Jesus o autor de tal ato, e estariam alguns a condenar o excesso de vinho e a falta de abstinência e disciplina.

Abundância e excessos caracterizam a ação de Deus revelada em Jesus Cristo: abundância de amor pelo excesso de misericórdia derramada e manifestada. Quando fazemos como os noivos de Caná da Galileia e convidamos Jesus, Sua Mãe, os discípulos para a nossa vida, entra na nossa história a abundância de amor e de graça que nos permite percorrer com maior entusiasmo e ousadia os trilhos da história. É verdade que a alegria do qual o vinho novo oferecido por Jesus é sinal só será plena e duradoura depois da glória definitiva e da hora derradeira para a qual esta passagem evangélica já aponta.

Jesus adverte Sua mãe – «ainda não chegou a minha hora» – e aponta para a hora derradeira e definitiva do capítulo 19, onde confia o discípulo amado a Sua Mãe e Sua Mãe ao discípulo amado: «e, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (Jo 19,27). As dores e sofrimentos do tempo presente, bem como as contingências e limites da nossa condição humana pecadora não são impedimento para que Deus realize a Sua obra de amor e para que no tempo e na história se façam presentes as maravilhas de Deus.

Contamos com a presença terna e materna de Maria, a quem pedimos que em cada dia continue a levar a Jesus tudo quanto precisamos e, concomitantemente, pedimos a disponibilidade de coração para ouvir com prontidão performativa: «fazei tudo o que Ele vos disser». in Voz Portucalense

LEITURA I Is 62, 1-5

«Os povos hão-de ver a tua justiça e todos os reis a tua glória».

 

Este texto pertence a esse bloco (cap. 56-66 do Livro de Isaías) que se convencionou chamar Trito-Isaías: uma colecção de textos anónimos, redigidos em Jerusalém ao longo dos séc. VI e V a.C. (embora alguns considerem que este texto pode ser do Deutero-Isaías, pelos pontos de contacto que o poema apresenta com os capítulos 49, 51, 52 e 54 do Livro de Isaías).

Estamos em Jerusalém, na época pós-exílica. Ainda se notam em todos os cantos da cidade as marcas da destruição. Os poucos habitantes da cidade vivem em condições de extrema pobreza; perseguidos pelo fantasma da humilhação passada, acossados pelos inimigos, esperam a restauração do Templo e sonham com uma Jerusalém nova, outra vez bela e cheia de “filhos”, que viva, finalmente, em paz.in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)

Refrão: Anunciai em todos os povos as maravilhas do Senhor

 

LEITURA II – 1 Cor 12, 4-11

«É um só e o mesmo Espírito que faz tudo isto, distribuindo os dons a cada um conforme Lhe agrada».

 

Os capítulos 12-14 da primeira Carta de Paulo aos Coríntios constituem uma secção consagrada ao bom uso dos “carismas”. “Carisma” é uma palavra tipicamente paulina (aparece 14 vezes nas cartas de Paulo e só uma vez no resto do Novo Testamento) que, num sentido amplo, designa qualquer graça (“kharis”) ou dom concedido por Deus, independentemente do posto que a pessoa ocupa dentro da hierarquia eclesial. Num sentido mais restrito e mais técnico, passou a significar certos “dons especiais” concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos, em benefício da comunidade. O testemunho dos escritos neotestamentários é que as primeiras comunidades cristãs conheciam de forma especial estes dons do Espírito. Isso também acontecia, segundo parece, em Corinto.

Apesar de se destinarem ao bem da comunidade, os “carismas” podiam ser mal-usados. Por um lado, podiam conduzir a uma espécie de divinização do indivíduo que os possuía colocando-o, com frequência, em confronto com a comunidade; por outro lado, nem todos possuíam carismas extraordinários e era fácil, neste contexto, serem considerados “cristãos de segunda”. Depreende-se ainda deste texto que haveria alguma discussão acerca da importância de cada “carisma” e, portanto, da posição que cada um destes “carismáticos” devia ocupar na hierarquia comunitária.

Ora, a comunidade de Corinto estava preocupada com esta questão. Estamos diante de uma comunidade com graves problemas de conflitos e de desarmonias onde, facilmente, as experiências “carismáticas” eram sobrevalorizadas em benefício próprio. Criavam, pois, com frequência, individualismo e divisão no seio da comunidade.

É a este problema que Paulo procura responder.in Dehonianos.

EVANGELHO Jo 2, 1-11

«Realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus».

«Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os

discípulos acreditaram n’Ele».

Este texto pertence à “secção introdutória” do Quarto Evangelho (que vai de 1,19 a 3,36). Nessa secção, o autor apresenta um conjunto de cenas (com contínuas entradas e saídas de personagens, como se estivéssemos no palco de um teatro), destinadas a apresentar Jesus e o seu programa.

O autor declara explicitamente (cf. Jo 2,11) que o episódio pertence à categoria dos “signos” (“semeiôn”): trata-se de acções simbólicas, de sinais indicadores, que nos convidam a procurar, para além do episódio concreto, uma realidade mais profunda para a qual aponta o facto narrado. O importante, aqui, não é que Jesus tenha transformado a água em vinho; mas é apresentar o programa de Jesus: trazer &a
grave; relação entre Deus e o homem o vinho da alegria, do amor e da festa.in Dehonianos.

Para os leitores:

A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom alegre e cheio de esperança que atravessa toda a leitura. Deve ter-se especial atenção na proclamação das palavras: «Abandonada», «Deserta», «Predileta» e «Desposada».

A proclamação da segunda leitura pede um especial cuidado. No início pelas frequentes repetições que sublinham a mensagem da unidade na diversidade que S. Paulo quer transmitir aos Coríntios. Depois pela enumeração dos dons concedidos que deve ser bem articulada para uma correta leitura e uma boa compreensão da mensagem.

 

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

OS SEGREDOS DAS BODAS DE CANÁ

Neste Domingo II do Tempo Comum, temos a graça de ouvir e ver a grandiosa cena do Evangelho de João 2,1-12, vulgarmente conhecida como «bodas de Caná», em que Jesus transforma em vinho excelente cerca de 600 litros de água. Caná é uma aldeia situada a uns seis quilómetros a nordeste de Nazaré. A Igreja Una e Santa é hoje de novo convidada e, por isso, se reúne (é reunida) num banquete de espanto e de alegria, para saborear o Vinho Bom (kalós) e Último, cuidadosamente guardado até Agora (héôs árti), mas Agora oferecido pelo Esposo verdadeiro, que é Jesus (João 2,1-11). O segredo deste vinho Bom e Último é conhecido dos que servem (diákonoi) (João 2,9b), mas o chefe-de-mesa (architríklinos) «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» (João 2,9a).

E, na verdade, aquele saber ou não “DE ONDE” (póthen) era aqui anotado pelo narrador, é a questão fundamental que atravessa o IV Evangelho, e aponta permanentemente para Deus. Provocação para uma sociedade indiferente, com saber, mas sem sabor, sem frio e sem calor, morna, à deriva, sem calafrios e sem Deus, que vive em plena orfandade. E, todavia, já Nietzsche o dizia: «Ao homem que te pede lume para acender o cigarro, / se o deixares falar,/ dez minutos depois pedir-te-á Deus». Entremos, pois, por esta autoestrada repleta de sinalizações para Deus, pois ela vem de Deus, e por ela vem Deus, por amor, ao encontro dos seus filhos.

Em João 1,48, é Natanael que, atónito, pergunta a Jesus «“DE ONDE” (póthen) me conheces?». Em João 2,9, o nosso texto de hoje, é o narrador que nos informa que o chefe-de-mesa «não sabia “DE ONDE” (póthen) era» a água feita vinho. Em João 3,8, é Nicodemos que não sabe, acerca do Espírito, «“DE ONDE” (póthen) vem nem para onde vai». Em João 4,11, é a mulher da Samaria que não sabe “DE ONDE” (póthen) tira Jesus a água-viva. Em João 6,5-7, é Filipe que chumba no teste que lhe faz Jesus, ao confessor que não sabe “A ONDE” (póthen) ir comprar pão para dar de comer a umas trinta mil pessoas. Em João 7,27, as autoridades de Jerusalém confirmam que, «quando vier o Cristo, ninguém saberá “DE ONDE” (póthen) Ele é». Em João 8,14, Jesus afirma, em polémica com os fariseus: «Eu sei “DE ONDE” (póthen) venho; vós, porém, não sabeis “DE ONDE” (póthen) venho». Em João 9,29, na cena da cura do cego de nascença, os fariseus afirmam acerca de Jesus: «Esse não sabemos “DE ONDE” (póthen) é», ao que, no versículo seguinte (João 9,30), com viva ironia, o cego curado responde, apontando a cegueira deles: «Isso é espantoso: vós não sabeis “DE ONDE” (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!». Na narrativa do IV Evangelho, tudo isto conflui para a questão posta por Pilatos a Jesus, em João 19,9: «“DE ONDE” (póthen) és Tu?».

Demoremo-nos, pois, um pouco com o chefe-de-mesa, uma vez que é a ele que Jesus manda os servos levar o vinho novo (João 2,8). O chefe-de-mesa prova o vinho novo, e confessa a sua ignorância acerca da sua origem: de facto, «não sabia “DE ONDE” era», diz-nos o narrador (João 2,9a). A sua pergunta é, portanto, esta: «“DE ONDE” é este vinho»? Estranho é que o seguimento do texto nos mostre que o chefe-de-mesa passe ao lado da sua própria pergunta. Ele, que não sabia, podia ter perguntado aos servos, que sabiam (João 2,9b), porque tinham recebido e executado as ordens de Jesus (João 2,7-8). Em vez de se dirigir a eles, o chefe-de-mesa opta, todavia, por se dirigir ao noivo. E em vez de formular a sua pergunta acerca da origem daquele vinho, acaba simplesmente por manifestar o seu espanto pelo estranho procedimento adotado, contrário a todos os usos e costumes vigentes, de servir primeiro o vinho reles, deixando para o fim o vinho bom! (João 2,10).

É fácil constatar que esta figura do chefe-de-mesa nos é apresentada no papel de pivot no que se refere ao andamento da festa; em relação ao vinho novo e bom que lhe é levado pelos servidores, manifesta desconhecer a sua proveniência; prova-o, como lhe competia, mas não esboça qualquer vontade de querer saber mais acerca dele; limita-se a manifestar a sua estranheza pelo facto de o ritual antigo ter sido alterado. O elenco destes traços figurais leva-nos a concluir que a figura do chefe-de-mesa representa bem as autoridades judaicas tradicionais, mas também todos os senhores do mundo, todos muito habituados, bons conhecedores das convenções, mas nada sensíveis à novidade que é visível em Jesus, nada sensíveis às pessoas e aos factos, que simplesmente lhes parecem saídos na roda do destino.

Os servos, que recebem e cumprem as ordens de Jesus, que dão o vinho novo e bom a provar aos judeus tradicionais e a toda a humanidade, são os discípulos de Jesus, que sabem a proveniência de Jesus, e sabem também discernir o «significado» deste primeiro «sinal» (sêmeíon) que Jesus fez» (João 2,11). O IV Evangelho apresenta, de resto, no seu corpo, sete sinais que requerem interpretação. Já vimos o primeiro. O segundo é a cura de uma criança gravemente doente, expressamente referido como segundo sinal (João 4,43-54). Vêm a seguir a cura de um paralítico (João 5,1-9), a multiplicação dos pães para cinco mil homens (João 6,1-15), Jesus a caminhar sobre as águas (João 6,16-21), a cura de um cego de nascença (João 9,1-12) e a ressurreição de Lázaro (João 11,1-44).

«A mãe de Jesus estava lá», diz-nos logo de entrada o narrador (João 2,1). Sintomático que, tendo ela sido apresentada como «mãe de Jesus» por duas vezes (João 2,1 e 3), pouco depois Jesus a trate por «mulher» (João 2,4), e não por «mãe». Este singular tratamento por «mulher» em vez de «mãe» tem sido muitas vezes visto como ríspido, distante e nada afetuoso da parte de Jesus. O mesmo tratamento por «mulher», e não por «mãe», aparece no Calvário também nos lábios de Jesus (João 19,26). Na verdade, esconde-se, neste tratamento por «mulher», um verdadeiro tesouro. A «mulher» é muitas vezes na Escritura o símbolo do Povo de Deus, e, mais concretamente de Sião-Jerusalém personificada como Esposa amada, Enlevo e Alegria de Deus, o Esposo (Isaías 54,5-7; 62,1-5), e como mãe embevecida dos filhos de Deus (Isaías 49,21; 60,1-4).

«Não têm vinho!», observa a mãe de Jesus, falando para Jesus (João 2,3). É uma observação de mãe atenta e de serva feliz, que está ali para amar e servir! A resposta de Jesus: «O que há entre mim e ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora» (João 2,4), tem sido igualmente vista como uma resposta ríspida de Jesus à sua mãe. Na verdade, é uma daquelas frases que pode assumir duas valências opostas, conforme o tom de voz com que é dita. Tanto pode ser, de facto, uma resposta ríspida e de rutura, como pode ser, ao contrário, uma resposta de grande deferência e carinho. É óbvio que aqui é uma resposta de grande deferência e terno amor filial de Jesus. É como se Jesus dissesse: «Mulher, grande mulher, mulher messiânica, Aquela que atravessa em contraluz toda a Escritura Santa, que trouxeste até aqui nos teus braços a Esperança de um povo, porque precisas de mo pedir? Tu sabes bem que Eu o faço, e é já». E a mãe de Jesus, nunca chamada Maria no IV Evangelho, entendeu bem esta resposta (nós, pelos vistos, é que não). Sinal disso é que diz para os servos: «Fazei tudo o que Ele vos disser!».

Como Jesus dirá mais tarde – e diz hoje para nós – também no contexto de um banquete, a Eucaristia, em que somos nós os convidados: «Fazei isto em memória de Mim!».

«Estava lá a mãe de Jesus», como «estavam lá seis talhas», grandes e vazias (João 2,6). Mãe e Mulher da esperança, talhas vazias, mas que serão cheias de esperança até ao cimo. Delas jorrará o vinho novo e bom, até agora guardado para nós. Tempo novo e pleno do Amor de Deus. É Ele que servirá o banquete de carnes suculentas e vinhos deliciosos (Isaías 25,6).

O banquete Novo, Bom e Último do Reino de Deus, com o Vinho Bom e Último, até agora guardado na esperança, é agora cuidadosamente servido. É sabido que a tradição judaica descrevia com muito vinho o tempo da vinda do Messias, referindo que, nesse tempo, cada videira teria mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago daria 460 litros de vinho! Que saber e sabor é o nosso? Sabemos e saboreamos a Alegria do Banquete nupcial? Servimos para servir este Amor, esta Alegria? Não esqueçamos que é este o «terceiro Dia!» (João 2,1), que agrafa esta Alegria à Alegria nova da Ressurreição ao «terceiro Dia», «sinal» para a Glória e para a Fé (João 2,11).

A página de hoje do Antigo Testamento é Isaías 62,1-5. Um simples relance de olhos por esta sublime paisagem textual de Isaías é suficiente para fazer ressaltar os acordes com o Evangelho de hoje. A cidade de Jerusalém (personificação de Israel), depois de experimentar o abandono e a desolação do Exílio, é agora olhada como uma noiva, desposada com Deus, seu Criador que, para o efeito, a recria, dando-lhe um nome novo, linguagem genesíaca (Génesis 1,1-4). E a alegria nupcial voltará a iluminar o rosto da cidade. É ainda dito, dentro do mesmo colorido, que a cidade-noiva será uma coroa (ʽatharah) nas mãos do Senhor, como o Livro dos Provérbios refere que «a esposa é a coroa (ʽatharah) do marido» (Provérbios 12,4). Belíssima linguagem nupcial, elevada dignidade para Jerusalém e para nós.

A comunidade cristã não pode ser vaidosa, autorreferencial, egoísta e individualista, como parecia ser Corinto, aos olhos de São Paulo (1 Coríntios 12,4-11). A comunidade bela e harmoniosa funciona como um corpo, é composta de irmãos, e todos têm em vista o bem comum. Os dons de cada um são para proveito de todos, e não para própria vanglória. Por isso, os dons são diferentes, é o Espírito que os distribui, e, postos em comum, servem para edificar a comunidade bela e harmoniosa. Como é hoje oportuno fazermos esta verificação nas nossas comunidades.

Comunidade bela e harmoniosa. Sujeito adequado e preparado pelo Espírito para cantar o «cântico novo» cujos tons nos dá hoje o Salmo 96, um Salmo que nos põe a cantar a Realeza de YHWH e as suas maravilhas. O melhor antídoto para o nosso culto tantas vezes apenas formal é uma fé coral que nos faz olhar, não tanto para o passado, mas para o futuro, para a notícia boa de um Deus que vem com um grande SIM para o nosso mundo. O «cântico novo» não nos põe a cantar hoje como ontem, mas hoje como amanhã.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – II DTC – Ano C – 16.01.2022 (Is 62, 1-5)
  2. Leitura II – II DTC – Ano C – 16.01.2022 (1Cor 12, 4-11)
  3. II Domingo Tempo Comum – Ano C – 16.01.2022 – Lecionário
  4. II Domingo Tempo Comum – Ano C – 16.01.2022 – Oração Universal
  5. ANO C – Ano de Lucas

Festa do Batismo do Senhor – Ano C – 09.01.2022

Viver a Palavra

A liturgia deste domingo tem como cenário de fundo o projeto salvador de Deus. No Batismo de Jesus nas margens do Jordão, revela-se o Filho amado de Deus, que veio ao mundo enviado pelo Pai, com a missão de salvar e libertar os homens. Cumprindo o projeto do Pai, Jesus fez-Se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade, libertou-nos do egoísmo e do pecado, empenhou-Se em promover-nos para que pudéssemos chegar à vida plena. in Dehonianos

LEITURA I – Is 42, 1-4.6-7

O nosso texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.; os judeus exilados estão frustrados e desorientados pois, apesar das promessas do profeta Ezequiel, a libertação tarda… Será que Deus se esqueceu do seu Povo? Será que as promessas proféticas eram apenas “conversa fiada”?

O Deutero-Isaías aparece, então, com uma mensagem destinada a consolar os exilados. Começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilónia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48); depois, anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).
No meio desta proposta “consoladora” aparecem, contudo, quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que fogem um tanto a esta temática. São cânticos que falam de uma personagem misteriosa e enigmática, que os biblistas designam como o “Servo de Jahwéh”: ele é um predileto de Jahwéh, a quem Deus chamou, a quem confiou uma missão profética e a quem enviou aos homens de todo o mundo; a sua missão cumpre-se no sofrimento e numa entrega incondicional à Palavra; o sofrimento do profeta tem, contudo, um valor expiatório e redentor, pois dele resulta o perdão para o pecado do Povo; Deus aprecia o sacrifício deste “Servo” e recompensá-lo-á, fazendo-o triunfar diante dos seus detratores e adversários.

O texto que hoje nos é proposto é parte do primeiro cântico do “Servo” (cf. Is 42,1-9). É possível que a personagem a quem este primeiro cântico se refere seja Ciro, rei dos persas, o homem a quem Deus confiou a libertação do seu Povo. in Dehonianos.

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 28 (29)
Refrão: O Senhor abençoará o seu povo na paz.

 

LEITURA II – Atos 10, 34-38

Os “Atos dos Apóstolos” são uma catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos assumiram e continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida de Jesus deste mundo – a todos os homens.

O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf. Act 1-12), a reflexão apresenta-nos a difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; a segunda (cf. Act 13-28) apresenta-nos a expansão do Evangelho fora da Palestina (até Roma), sobretudo por ação de Paulo.

O nosso texto de hoje está integrado na primeira parte dos “Atos”. Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon (cf. Act 9,32-11,18) – isto é, na planície junto da orla mediterrânica palestina. Em concreto, o texto propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. Act 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. Act 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze: significa que a vida nova que nasce de Jesus se destina a todos os homens, sem exceção.in Dehonianos.

EVANGELHO Lc 3,15-16.21-22

O Evangelho deste domingo apresenta o encontro entre Jesus e João Baptista, nas margens do rio Jordão. Na circunstância, Jesus foi batizado por João.

João Baptista foi o guia carismático de um movimento de cariz popular, que anunciava a proximidade do “juízo de Deus”. A sua mensagem estava centrada na urgência da conversão (pois, na opinião de João, a intervenção definitiva de Deus na história para destruir o mal estava iminente) e incluía um rito de purificação pela água.

O “batismo” proposto por João não era, na verdade, uma novidade insólita. O judaísmo conhecia ritos diversos de imersão na água, sempre ligados a contextos de purificação ou de mudança de vida. O “mergulhar na água” era, inclusive, um rito usado na integração dos “prosélitos” (os pagãos que aderiam ao judaísmo) na comunidade do Povo de Deus.

Na perspetiva de João, provavelmente, este “batismo” era um rito de iniciação à comunidade messiânica: quem aceitava este “batismo” renunciava ao pecado, convertia-se a uma vida nova e passava a integrar a comunidade do Messias.

O que é que Jesus tem a ver com isto? Que sentido faz Ele apresentar-se a João para receber este “batismo” de purificação, de arrependimento e de perdão dos pecados?

Para Lucas, João Baptista é a última testemunha de um tempo salvífico que está a chegar ao fim: o tempo da antiga Aliança (cf. Lc 16,16). O aparecimento em cena de Jesus significa o começo de um novo tempo, o tempo em que o próprio Deus vem ao mundo, feito pessoa humana, para oferecer à humanidade escravizada a vida e a salvação. No episódio do “batismo” revela-se, desde logo, a missão específica e a verdadeira identidade de Jesus.

Em toda a secção (cf. Lc 3,1-4,13), Lucas segue o texto de Marcos (cf. Mc 1,1-13), completado com algumas tradições provenientes de uma outra “fonte”, formada por “ditos” de Jesus. in Dehonianos.

 

Para os leitores:

 

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O CÉU ABERTO E DEUS AQUI TÃO PERTO

 

Passado o Advento e as Festas Natalícias, estamos agora no umbral do chamado «Tempo Comum» do Ano Litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um «Tempo secundário», mas fundamental na vida celebrativa da Igreja Una e Santa. Na verdade, ao longo deste «Tempo Comum», Domingo após Domingo, a Igreja Una e Santa, Batizada e Confirmada, Esposa Amada de Cristo, é chamada a contemplar de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica do seu Senhor, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição.

Esta apresentação só é possível porque, em cada um dos Anos Litúrgicos, é proclamado, Domingo após Domingo, praticamente em lição contínua, um Evangelho inteiro. Neste Ano C, é-nos dada a graça de ouvir o Evangelho de Lucas, que tem uma vincada identidade e personalidade Missionária, mas que é apresentado ainda como sendo o Evangelho do Espírito Santo, o Evangelho da Oração, o Evangelho da Graça (único dos Evangelhos Sinóticos a empregar este termo) e da Alegria, e o Evangelho onde Jesus «visita» e se encontra HOJE (8 vezes no Evangelho de Lucas) com o mais alargado leque de pessoas: pobres, ricos, pecadores, doentes, idosos, mulheres, viúvas, crianças…

O Primeiro Domingo do «Tempo Comum», porta de entrada no nosso tempo existencial e celebrativo, coincide sempre com a Festa do Batismo do Senhor Jesus no Jordão, este ano narrada em Lucas 3,15-22.

Aqui ficam algumas notas caraterísticas deste episódio de Lucas: A) Neste dealbar da vida pública de Jesus, é dito que todo o povo está em febril expetativa e se pergunta se João não será o Messias esperado. B) João responde claramente que não é o Messias, mas aquele que prepara a Vinda do Messias, reunindo o povo e voltando-o para o Senhor, cumprindo quanto disse o Anjo a Zacarias: «fará voltar o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais (…), para preparar para o Senhor um povo pronto a recebê-lo» (Lucas 1,17; cf. Malaquias 3,24 acerca de Elias). C) Cumprida esta sua missão, João sai de cena, pois é metido na prisão por Herodes Antipas (Lucas 3,19-20), não estando, portanto, presente na cena do Batismo de Jesus! D) Em Lucas, João não entra nas praias do Novo Testamento. Escreve: «A Lei e os Profetas até João; daí para a frente, é evangelizado o Reino de Deus» (Lucas 16,16). Por isso, e ao contrário do que sucede em Mateus e Marcos, que dão a notícia da prisão de João depois do Batismo de Jesus (Mateus 4,12; Marcos 1,14), Lucas fá-lo prender antes do Batismo de Jesus, com a intenção clara de que seja o Espírito Santo a batizar Jesus (veja-se a rutura entre Lucas 3,20 e 21). O Evangelho de Lucas é também chamado o Evangelho do Espírito Santo; daí, o protagonismo dado ao Espírito Santo. E) O narrador faz-nos ver outra vez o povo todo reunido e batizado, antes de nos pôr a todos a contemplar a primeira ação de Jesus batizado com o Espírito: Jesus em Oração, tema caro a Lucas (é também chamado o Evangelho da Oração), e, no contexto do Batismo, exclusivo de Lucas! F) O narrador desenha logo a seguir uma verdadeira coreografia celeste: o céu aberto, o Espírito Santo que desce como uma pomba (tempo novo: a pomba sai da Palestina em setembro/outubro e regressa com a Primavera), uma voz vinda do céu, isto é, de Deus, declarando, de acordo com o Salmo 2,7: «Tu és o meu Filho, o Amado, em Ti pus o meu enlevo» (Lucas 3,21-22).

A partir do Batismo de Jesus no Jordão, é missão da Igreja Una e Santa, toda Batizada e Confirmada, viver esta intimidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e seguir o seu Senhor, passo a passo, ao longo do inteiro Ano Litúrgico, para ver bem como faz Jesus, o Filho Amado, Batizado com o Espírito Santo. O que faz Jesus e como faz Jesus, é quanto devemos fazer nós também, dado que também nós fomos Batizados com o Espírito Santo e elevados à condição de filhos adotivos (Gálatas 4,4-7).

Pelos motivos expostos, o Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos. E, por esta razão, muitas Igrejas Orientais chamam «Jordão» à água da fonte batismal, que todos os anos é benzida precisamente neste Dia da Festa do Batismo do Senhor.

Ilustra bem o episódio do Batismo de Jesus no Jordão o chamado «Primeiro Canto do Servo do Senhor» (Isaías 42,1-7), que hoje temos também a graça de ouvir, que põe em cena Deus e o seu Servo. Deus chama este Servo «meu Servo», diz que o segura e sustenta e que lhe dá o seu Espírito, e confia-lhe uma missão em ordem à verdade e à justiça, à mansidão e ao ensino, à libertação e à iluminação, entenda-se, à vida em plenitude, de todas as nações.

Verdadeiramente, Deus é a vida deste Servo, que Ele ampara, leva pela mão e modela. Linguagem de criação, confidência e providência.

Há ainda a registar uma expressão forte para dizer a missão de mansidão confiada por Deus a este seu Servo: «Não fará ouvir desde fora a sua voz». Ora, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas. Jesus vai assumir a identidade deste Servo e vai cumprir por inteiro a sua missão.

E não nos esqueçamos que a sua bela missão de Filho e de Servo terá de ser também a nossa bela missão de filhos e de servos.

O discurso de Pedro em Cesareia Marítima, em casa do centurião romano Cornélio, conforme a descrição do Livro dos Atos 10,34-38, dá testemunho da largueza da bondade de Deus, que faz chegar o seu amor de Pai a todas as pessoas de todas as nações, fazendo de nós um povo de filhos, irmãos e servos que seguem um único Senhor: Jesus Cristo. Seguindo este único Senhor, a mais nada e a mais ninguém reconhecemos como Senhor. Somos, portanto, chamados a ser livres e a testemunhar, empenhando toda a nossa vida, dia após dia, que, após o Batismo no Jordão, Jesus passou fazendo o bem e curando todas as pessoas necessitadas.

Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado o Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de Batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus. É ainda como filhos que devemos hoje entoar também as notas deste Gloria in excelsis Deo do Antigo Testamento, que é o belíssimo Salmo 29. A voz (qôl) que por sete vezes se ouve no Salmo bem pode ser a Voz do Pai que se dirige ao Filho no Batismo do Jordão e continua a ressoar na pregação Apostólica como se do setenário dos dons do Espírito Santo ou dos Sacramentos se tratasse. Escreveu São Gregório Magno: «A voz de Deus troa admiravelmente porque, como força escondida, penetra nos nossos corações».

  António Couto

 

ANEXOS:

  1. Leitura I – Batismo do Senhor – Ano C – 09.01.2022 (Is 42, 1-4.6-8)
  2. Leitura II – Batismo do Senhor – Ano C – 09.01.2022 (Atos 10, 34-38)
  3. Batismo do Senhor – Ano C – 09.01.2022 – Lecionário
  4. Batismo do Senhor – Ano C – 09.01.2022 – Oração Universal
  5. ANO C – Ano de Lucas

Solenidade de Santa Maria – Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 – 55º Dia Mundial da Paz

e

Domingo da Epifania – Ano C – 02.01.2022

Viver a Palavra

Solenidade de Santa Maria – Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 – 55º Dia Mundial da Paz

Neste dia, a liturgia coloca-nos diante de evocações diversas, ainda que todas importantes. Celebra-se, em primeiro lugar, a Solenidade da Mãe de Deus: somos convidados a olhar a figura de Maria, aquela que, com o seu sim ao projeto de Deus, nos ofereceu a figura de Jesus, o nosso libertador. Celebra-se, em segundo lugar, o Dia Mundial da Paz: em 1968, o Papa Paulo VI quis que, neste dia, os cristãos rezassem pela paz. Celebra-se, finalmente, o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada percorrida de mãos dadas com esse Deus que nunca nos deixa, mas que em cada dia nos cumula da sua bênção e nos oferece a vida em plenitude. As leituras de hoje exploram, portanto, diversas coordenadas. Elas têm a ver com esta multiplicidade de evocações.in Dehonianos

LEITURA I – Num 6,22-27

O texto da leitura que nos é proposta é retirado da primeira parte do Livro dos Números. No contexto das últimas instruções de Jahwéh a Moisés antes de os filhos de Israel deixarem o Sinai, apresenta-se uma “bênção” que os “filhos de Aarão” (sacerdotes) deviam pronunciar sobre a comunidade do Povo de Deus. Provavelmente, trata-se de uma fórmula litúrgica utilizada no Templo de Jerusalém para abençoar a comunidade, no final das funções litúrgicas e que aqui é apresentada como um dom de Deus no Sinai.

A “bênção” (“beraka”) é concebida como uma comunicação de vida, real e eficaz, que atinge o “abençoado” e que lhe traz vigor, força, êxito, felicidade. É um dom que, uma vez pronunciado, não pode ser retirado nem anulado. Aqui, essa comunicação de vida, fruto da generosidade de Deus, derrama-se sobre os membros da comunidade por intermédio dos sacerdotes – no Antigo Testamento, os intermediários entre o mundo de Jahwéh e a comunidade israelita. in Dehonianos

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão: Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção.

 

LEITURA II – Gal 4,4-7

O contexto em que Paulo escreve a Carta aos Gálatas é o de uma profunda crise de identidade das Igrejas da Galácia. À região gálata (no centro da Ásia Menor) tinham chegado pregadores que acusavam Paulo de não pregar o verdadeiro Evangelho e que exigiam aos Gálatas a observância fiel da Lei de Moisés, nomeadamente o rito da circuncisão. Estes “pregadores”, oriundos das comunidades judeo-cristãs da Palestina, são conhecidos na história do cristianismo primitivo como “judaizantes”.

Paulo percebe o mal que estes “pregadores” estão a fazer. Eles pretendem transformar o cristianismo numa religião de ritos, num cumprimento de regras externas, numa escravatura a rituais que não tinham nada a ver com a proposta libertadora de Cristo. De forma dura, ele convida os Gálatas a fazer a sua escolha: ou pela escravidão da Lei, ou pela liberdade que Cristo veio trazer.

No texto que nos é proposto, Paulo recorda aos Gálatas a incarnação de Cristo e o objetivo da sua vinda ao mundo: fazer de nós “filhos de Deus” livres. in Dehonianos.

EVANGELHO Lc 2, 16-21

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal: após o anúncio do “anjo do Senhor” (noite de Natal), os pastores dirigem-se a Belém e encontram o menino. Mais uma vez, Lucas não está interessado em fazer a reportagem do nascimento de Jesus e das “visitas” que, então, o menino de Belém recebeu, mas antes em apresentar Jesus como o libertador, que veio ao mundo com uma mensagem de salvação para todos os homens – e, especialmente, para os pobres e marginalizados, aqui representados pela classe dos pastores.in Dehonianos.

Para os leitores:

 

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2022, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre (na riqueza espiritual que o termo contém), com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Incarnação, ao mesmo tempo que se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.

O Evangelho deste Dia de Maria (Lucas 2,16-21) guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras que aconteceram (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras que aconteceram, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras que acontecem, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração.

O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar, para melhor entender. É como quem, com aquelas Palavras, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre» (syllambánô en tê koilía) (Lucas 2,21). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre de misericórdia do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome.

Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 55.º Dia Mundial da Paz que se celebra. A paz é uma refeição saborosa, servida por Deus aos seus filhos. Chega, portanto, a todos, pastores, fiéis leigos e a todos os homens de boa vontade, e a todos sacia e envia a desenhar um mundo novo e feliz para todos, hoje, amanhã e sempre. Esta paz saborosa atinge-nos em cheio, pois todos estamos imersos no lodaçal da indiferença, talvez a mais grave doença que afeta a humanidade deste tempo sem horizontes. Na verdade, nesta «noite do mundo» em que domina o princípio da necrofilia, a nefasta atração pela morte, tudo nos aparece sem rosto e sem rumo. É preciso, portanto, abrir os olhos, dar asas aos nossos sonhos belos, dar as mãos e ter a coragem de recomeçar. Que não nos fechemos no mundo egocêntrico, egolátrico e autorreferencial da hipertrofia do «eu» que pensa que se basta a si mesmo, e não precisa de nada nem de ninguém, conforme o paradigma de Laodiceia. Contra a sedução das ideologias, que não salvam ninguém, de reduzir o mundo e o homem a três dimensões – comprimento, largura e altura –, anulando o horizonte de Deus, compete-nos a todos dar um novo rosto à família, à escola, à política, aos media, e remarmos todos juntos para construir novas atitudes e novas relações estáveis e felizes, assentes na gratuidade, na fraternidade e no amor, novos cenários que proporcionem que chegue a todos os homens o mundo belo que Deus a todos reparte dia após dia. É preciso educar para a paz, isto é, educar para sabermos acolher o outro, diferente de nós, e olhar para ele com amor e sem preconceitos. Educar, na sua etimologia latina, de educere, significa, não levar para dentro de qualquer prisão do «eu» ou outra, mas conduzir para fora de si mesmo, ao encontro dos outros e da realidade. E é sempre bom lembrar que a justiça é o sabor que vem de Deus, e a paz não é a paz romana, assente no poder das armas, nem a paz do judaísmo palestinense, assente nos acordos entre as partes. A paz é um Dom de Deus! Portanto, mais do que conquistá-la, é preciso recebê-la e partilhá-la.

De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde./ O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável./ O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

Mãe de Deus, Senhora da Alegria, Mãe igual ao Dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus, sempre a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste bem que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»! Por isso, nós te proclamamos «Bem-aventurada»!

Senhora e Mãe de Janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado, e faz-nos correr, com alegria, ao encontro dos pobres e necessitados.

Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Ámen

António Couto

 

Domingo da Epifania – Ano C – 02.01.2022

 

Viver a Palavra

A Liturgia da Festa da Epifania tem como tema a luz. Não há trevas no mundo que resista à luz de Cristo. Os Reis Magos procuram a verdade com o coração revestido de humildade e, iluminados pelo Cristo, mudam as suas atitudes, a direção de suas vidas. Nos presentes oferecidos ao Menino, está o reconhecimento de quem realmente Ele é, e a missão que veio realizar entre os homens: O ouro simboliza sua realeza; o incenso, sua divindade e a mirra, sua humanidade.

LEITURA I Is 60,1-6

A primeira leitura de hoje integra um bloco a que se convencionou chamar “TritoIsaías” (cap. 56-66 do Livro de Isaías). Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílio, que exerceu o seu ministério em Jerusalém, entre os retornados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de uma pluralidade de autores e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os séc. VI e V a.C.). Seja como for, estamos na época a seguir ao regresso do exílio da Babilónia e numa Jerusalém ainda bem marcada pelo sofrimento passado e pela pobreza presente.

O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz (pela sua situação geográfica, a cidade é iluminada desde o nascer do dia até ao pôr do sol). Ainda há pouco tempo a cidade estava vazia e em ruínas, num quadro de noite e escuridão; agora, já terminou a humilhação, mas a cidade espera ainda a restauração do Templo, uma população mais numerosa e uma tranquilidade maior. in Dehonianos

 

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.

LEITURA II – Ef 3,2-3a.5-6

Quando Paulo escreve a Carta aos Efésios, está preso – não sabemos se em Cesareia, em Roma, ou em qualquer outro lugar. É um Paulo de uma reflexão e uma catequese já bem amadurecidas que escreve este texto. A carta (talvez uma “carta circular”, enviada a várias comunidades cristãs da Ásia Menor) parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino.

O tema central da Carta aos Efésios é aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projeto) salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Na Solenidade da Epifania do Senhor, a liturgia apresenta-nos a visita dos Magos ao menino de Belém. Trata-se de um episódio que, ao longo dos séculos, tem provocado um impacto considerável nos sonhos e nas fantasias dos cristãos … No entanto, não estamos diante de uma reportagem jornalística que faz a cobertura da visita oficial de três chefes de Estado a outro país; estamos diante de uma catequese sobre Jesus, destinada a apresentar Jesus como o salvador/libertador de todos os homens. in Dehonianos.

Para os leitores:

 

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

GUIADOS POR UMA ESTRELA

 

«Eu o vejo, mas não agora, eu o contemplo, mas não de perto: uma estrela desponta (anateleî) de Jacob, um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicador de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda a humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem a verdade acerca do Messias, mas não sabem reconhecer o Messias (Mateus 2,4-6).

Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela dos Magos é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam, certamente, se soubessem que nós indagamos os céus com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. É assim que «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos Céus» (Mateus 8,11). E nós, que também indagamos as Escrituras sem lhes descobrirmos o verdadeiro fio de ouro (cf. Mateus 2,4-6), poderemos ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29).

Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Sim, quem viu o que os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se a continuar seja o que for, a andar pelos mesmos caminhos. Tudo tem mesmo de ser novo. A estrada tem de ser outra. Outra forma de vida.

Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que gosto de ver sempre envolta no belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

D. António Couto

 

ANEXOS:

  1. Leitura I – Solenidade da Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 (Num 6, 22-27)
  2. Leitura II – Solenidade da Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 (Gal 4,4-7)
  3. Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 – Lecionário
  4. Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Ano C – 01.01.2022 – Oração Universal
  5. Leitura I – Epifania do Senhor – Ano C – 02.01.2022 (Is 60, 1-6)
  6. Leitura II – Epifania do Senhor -Ano C – 02.01.2022 (Ef 3, 2-3a.5-6)
  7. Epifania do Senhor – 02.01.2022 – Ano C – Lecionário
  8. Epifania do Senhor – 02.01.2022 – Ano C – Oração Universal
  9. ANO C – Ano de Lucas

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