Liturgia da Palavra

Continuamos a caminhar com Jesus rumo à Páscoa. Depois de termos ido com Ele ao deserto, somos agora convidados a subir com Ele ao monte: «Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles». Com Jesus, somos conduzidos ao Pai que pela força do Espírito nos faz entrar nesta comunhão de amor que envolve as Pessoas da Trindade.

O cimo do monte, as vestes resplandecentes, Moisés e Elias, a nuvem que os cobre e a voz vinda do céu proporcionam a Pedro, Tiago e João uma verdadeira teofania que os faz ver cumpridas as promessas veterotestamentárias e lhes antecipa a glória do Ressuscitado. Hoje a humanidade também se sente envolvida por um tempo de incerteza e escuridão que clama pela luz do Ressuscitado e faz de nós testemunhas de que mesmo diante das trevas e inseguranças do nosso tempo, a luz de Jesus Cristo continua a brilhar.

Por isso, subamos ao monte com Jesus!

O monte é na longa tradição bíblica lugar de encontro com Deus, até porque subir a um lugar elevado faz-nos estar geograficamente mais próximos do Céu. Desde a antiguidade que os sítios geograficamente elevados eram assinalados como lugar de espiritualidade e encontro com o divino. Além disso, subir a um lugar elevado também permite olhar a planície e o vale de um modo novo e diferente. Deste modo, ao subirmos com Jesus ao monte, somos convidados a olhar a nossa vida, o mundo e os outros de um modo renovado. Olhar o tempo e a história com o olhar de Jesus permite-nos adquirir um novo horizonte de esperança, pois somos capazes de libertar o nosso olhar do imediatismo do nosso metro quadrado para uma visão maior e mais larga da história que tende e caminha para a plenitude da eternidade.

Contemplamos Moisés e Elias que atestam como Jesus é o enviado do Pai para cumprir as promessas da antiga aliança. Moisés e Elias ainda que entre sombras puderam ver a Deus: Moisés contemplou o Senhor revelado na saraça ardente (Ex 3,1-4,17) e Elias, escondido na caverna foi convidado a ver o Senhor passar na brisa suave (1 Rs 19,9-18). Junto de Jesus no monte, eles testemunham que o Transfigurado é a revelação plena e definitiva do Pai.

A nuvem que os envolve com a sua sombra faz ressoar uma voz vinda do céu: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». As nuvens que tantas vezes nos cobrem continuam a trazer dentro de si a certeza de que as dificuldades e as tribulações do tempo e da história não têm a última palavra, pois a única palavra plena e definitiva é a Palavra de Jesus que o Pai nos convida a escutar. É certo que a fragilidade da nossa existência e a contingência do tempo que atravessamos nos abala e nos faz tantas vezes vacilar. Por isso, nunca nos podemos cansar de escutar as palavras que S. Paulo dirigiu aos romanos e que hoje dirige a cada um de nós: «Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas?».

Subamos com Jesus ao monte! Percorramos com esperança este tempo da Quaresma, e façamos dele um tempo de alegre conversão. Como os discípulos, ainda somos aprendizes sobre o que significa ressuscitar dos mortos, mas a luz resplandecente do Ressuscitado rasga para nós horizontes de esperança e conduz-nos à verdade plena e definitiva que só o Senhor Jesus nos pode revelar. In Voz Portucalense

LEITURA I – Gen 22,1-2.9a.10-13.15-18
«Porque obedeceste à minha voz, na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 115 (116)
Refrão: Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor.

LEITURA II – Rom 8,31b-34
«Se Deus está por nós, quem estará contra nós?».

EVANGELHO – Mc 9,2-10
«Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles».
«Perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos».

Para os leitores:
Na primeira leitura deve ter-se em conta as várias intervenções em discurso direto que dominam todo o texto. Os diversos diálogos devem ser bem articulados para uma melhor compreensão do texto.

A segunda leitura, apesar da sua brevidade, exige uma acurada preparação uma vez que é composta apenas por frases interrogativas. Deve evitar-se dar a entoação interrogativa unicamente no final das frases, aproveitando as partículas interrogativas e as formas verbais.

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
Batizado com o Espírito Santo (Marcos 1,9-10), chamado pelo Pai «o Filho meu», «o Amado» (Marcos 1,11), tentado durante quarenta dias no nosso deserto, mas superando a prova, dominando pela doçura os animais e a nossa selvagem animalidade, Jesus, totalmente vinculado ao Pai, pois d’Ele é o Filho, o Amado, vincula-se também à nossa humana condição e vincula-nos a Si («Vamos» [ágômen]: o mesmo dizer vinculativo em Marcos 1,38, na hora da Missão, e Marcos 14,42, na hora da Paixão), refazendo os nossos caminhos há muito por nós abandonados. O seu caminho filial batismal é agora também o nosso caminho.

O Evangelho de Marcos refere, de facto, que Jesus nos fez deixar para trás os nossos planos (Marcos 1,37), e nos levou consigo, na hora da Missão, a Anunciar o Evangelho de Deus pelos caminhos da Galileia (Marcos 1,38), prolepse fantástica da inteira vida cristã, discipular e apostólica: com Jesus nos caminhos da sua Missão, que passam também pelo caminho da sua Paixão (Marcos 14,42). A locução «no caminho» (en tê hodô), usada sobretudo na importante secção do seguimento de Jesus «no caminho» (Marcos 8,27-10,52), fazendo-se aí ouvir por cinco vezes (Marcos 8,27; 9,33.34; 10,32.52), ajuda-nos a compreender ainda melhor que o discípulo de Jesus deve aprender a «dizer vigorosamente não» (apernéomai) a si mesmo (Marcos 8,34), expressão fortíssima empregada no texto grego de Isaías para dizer «desfazer-se dos seus ídolos de ouro e prata» (Isaías 31,7), para fazer completamente seu o mesmo caminho de Jesus.

É assim que chegamos ao Evangelho deste Domingo II da Quaresma (Marcos 9,2-10), em que nos é mostrada, no meio do caminho de Jesus, a cena extraordinária da Transfiguração de Jesus. A iniciativa começa por ser de Jesus, que toma consigo (paralambánô) Pedro, Tigo e João, e os faz subir (anaphérô) a um monte alto, mas passa logo para Deus com o passivo divino ou teológico «foi transfigurado» (metemorphôthê: aoristo passivo de metamorphéô) (Marcos 9,2). É a segunda vez que Jesus toma consigo apenas Pedro, Tiago e João (a primeira foi aquando da ressuscitação da filha de Jairo: 5,35-43). O facto de os levar para um monte alto, significa que o que se vai passar cai fora da agitação da vida quotidiana; a transfiguração de Jesus não se realiza na praça pública ou perante uma grande multidão. Não é narrada a figura de Jesus transfigurado. Apenas se fala das suas vestes brancas de uma brancura não terrena (Marcos 9,3). Fala-se também da «aparição» de Elias com Moisés (Marcos 9,4). A «aparição» de Moisés e Elias faz-nos compreender que Jesus não surge de improviso, mas se insere numa longa história que retrata a solicitude de Deus com o seu povo. «Aparição»: literalmente «fez-se ver» (ôpthê: aoristo passivo de horáô) «a eles» (autoîs). Trata-se de um passivo intransitivo, isto é, são Moisés e Elias que se fazem ver. De per si, os nossos olhos não têm capacidade de ver tanto. Por isso também, aquele «a eles» é gramaticalmente chamado um dativo do beneficiário. É também desta maneira que são apresentadas as aparições de Deus no Antigo Testamento e as do Ressuscitado no Novo Testamento.

Em Marcos 9,5, Pedro reage a tanto ver. Mas o seu dizer não se ajusta ao contexto, é manifestamente desapropriado. Tendas terrenas não podem abrigar seres celestes. Por isso, certeiramente nos diz o narrador que «não sabia o que dizia» (Marcos 9,6).

E eis o clímax do relato, com a introdução de dois elementos divinos: a nuvem e a voz, símbolos respetivamente da presença velada de Deus e da sua transcendência (Êxodo 24,16). Da nuvem uma voz, a voz de Deus, o único que sabe dizer bem o que se passa: «Este é o Filho meu, o Amado» (Marcos 9,8). Notem-se duas pequenas diferenças em relação ao cenário do Batismo. Aí, a voz de Deus provém do céu (não da nuvem), e dirige-se a Jesus, em 2.ª pessoa: «Tu és o Filho meu, o Amado» (Marcos 1,11). Aqui, a voz provém da nuvem, e dirige-se a nós, em 3.ª pessoa. É, portanto, a apresentação que Deus nos faz do Seu próprio Filho. Tanto que, acrescenta logo o imperativo: «Escutai-O» (Marcos 9,8). Com este divino dizer, o Pai vincula a Si o Seu Filho do modo mais profundo: Deus não se revela a si mesmo, como no Êxodo, mas revela o Filho, e vincula-nos a nós também ao Seu Filho, sendo Ele a Palavra que devemos escutar todos os dias, a Pessoa a quem devemos prestar atenção todos os dias. Note-se que o Filho é, antes de mais, aquele que recebe a vida, e só depois aquele que tem uma missão para cumprir. Está aqui o escândalo da revelação: Deus não se qualifica apenas como Criador e Pai que dá a vida, mas também como Filho que a recebe!

Eis-nos, portanto, outra vez a sós com Jesus (Marcos 9,8), que põe a Transfiguração em linha com a Ressurreição, abrindo-nos já proleticamente os caminhos da Missão depois da Ressurreição. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem dada por Jesus ao descer do monte de «A ninguém narrarem (diêgéomai) o que viram senão quando o Filho do Homem ressuscitar dos mortos» (Marcos 9,9).

Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical pausa e bemol. Na verdade, não podemos dizer a Transfiguração do Senhor, antes da Ressurreição do Senhor e independentemente da Ressurreição do Senhor. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Toda a atenção, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos conduzirem, entregando-vos, não vos preocupeis com o que ides falar (laléô); mas o que vos for dado (dothê: conj. aor. pass. de dídômi) nessa hora, isso falai (laléô); na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas o ESPÍRITO SANTO» (Marcos 13,11). Falar, com o verbo laléô, é linguagem de revelação.

A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (Marcos 9,2), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (Metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e as suas vestes tornaram-se resplandecentes, grandemente brancas» (Marcos 9,2-3). O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – II DQ (Gen 22, 1.2.9a.10-13.15-18)
  2. Leitura II – II DQ (Rom 8, 31b-34)
  3. II Domingo Quaresma – 28.02.2021v – Lecionário
  4. Oração Universal – II Domingo da Quaresma – Ano B

            «O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto». No início deste tempo da Quaresma, o Evangelho convida-nos a contemplar Jesus que é impelido para o deserto, onde será tentado por Satanás. Jesus é o Homem Novo na plenitude do Espírito. Ungido pela força do Espírito de Deus vem para cumprir a vontade do Pai.

            Batizados em Cristo, também nós somos enviados pela força do Espírito para percorrer os caminhos da missão. Parece sempre paradoxal e até estranho que o Espírito conduza Jesus ao deserto para ser tentado. Recordando o caminho percorrido pelo Povo de Israel a caminho da terra da promessa, percebemos como o deserto é lugar de tribulação e provação. Quantas vezes o Povo se afastou da Lei de Deus, se revoltou contra o Senhor e até adorou outras divindades. Contudo, também sabemos como foram tantas as manifestações da solicitude e do poder de Deus ao logo do caminho do deserto e como Deus, apesar da infidelidade do Povo, saciou a sua sede com a água que jorrou do rochedo, lhes fez chegar o maná e a carne para comer, lhes ofereceu a Lei, os acompanhou durante o dia numa coluna de nuvem e de noite numa coluna de fogo para os iluminar.

            Deste modo, o deserto pode ser um lugar de perdição e afastamento de Deus, mas pode ser também uma oportunidade para um renovado encontro com o Senhor. As tentações são isto mesmo! São lugares de confronto com a nossa fragilidade e liberdade e o importante é fazer de cada tentação a oportunidade para renovar o nosso sim a Deus e à Sua vontade. Conduzido pelo Espírito ao deserto e sendo tentado por Satanás, Jesus mantém-se firme na fidelidade ao projeto do Pai. Cada batizado, diante de cada tentação, revestido da força do Espírito, é chamado a renovar a Sua opção por Deus e pelo Seu amor.

            Porém, o deserto, tal como as tentações da nossa vida são um lugar provisório, por isso, depois da prisão de João, Jesus partiu para a Galileia e iniciou a Sua pregação, fazendo ecoar as Suas primeiras palavras: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

            Sempre que escuto as palavras de Jesus «cumpriu-se o tempo», não consigo deixar de pensar como tantas vezes empregamos esta expressão para falar sobre o final do tempo da gravidez e o momento de uma mulher dar à luz. Efetivamente, o anúncio do Reino é anúncio alegre e jubiloso de uma vida nova que está a despontar. O Reino de Deus está próximo e já se pode saborear na presença terna e amorosa de Jesus Cristo. Por isso, é tempo de arrependimento e de conversão, tempo da alegre transformação do coração que torna a vida num lugar mais belo e o mundo num lugar mais feliz.

            A conversão e o arrependimento só se podem conjugar com a plena e consciente adesão ao Evangelho. Aquele que se encontrou com Jesus e acolheu o Seu Evangelho como Palavra de Vida abraça uma nova forma de ser e de estar que se caracteriza por um modo novo de servir e amar. Assim, a conversão transforma-se num lugar feliz de aperfeiçoamento permanente, que nos permite reconhecer na nossa fragilidade e no nosso pecado uma oportunidade de crescimento e de renovação do coração e da vida. A vida de quantos entram neste dinamismo de conversão transforma-se num arco-íris luminoso que continua a irradiar no tempo e na história a certeza de que Deus não nos abandona. In Voz Portucalense

LEITURA I – Gen 9,8-15
«Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, recordarei a minha aliança convosco».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)
Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade, para os que são fiéis à vossa aliança.

LEITURA II – 1 Pedro 3,18-22
«Esta água é figura do Batismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência».

EVANGELHO – Mc 1,12-15
«O Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás».
«Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho». 

Para os leitores:
Na primeira leitura, Deus dirige-se ao povo estabelecendo uma aliança. A proclamação desta leitura deve ser marcada pela alegria que nasce da certeza de que Deus não abandona o Seu povo. Além disso, deve ter-se em atenção as longas frases com diversas orações que requerem uma acurada preparação nas pausas e respirações.

O mesmo cuidado deve ser tido na segunda leitura, pois algumas das quebras do texto no lecionário não correspondem às pausas e respirações.

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
            Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico – portanto, também a Quaresma e os seus Domingos – estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Batismo no Jordão, passando pela Trans­figuração / Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Batismo consumado!), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Atos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático). Os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã.

            O Evangelho deste Domingo I da Quaresma (Marcos 1,12-15) oferece-nos a figura de Jesus, acabado de apresentar pelo Pai como «o Filho meu, o amado, em quem está o meu comprazimento» (Marcos 1,11), como sintetizador perfeito da vida do povo de Israel e da nossa. Eis, portanto, Jesus impelido pelo Espírito no deserto, durante quarenta dias tentado por satanás, em harmonia com os animais selvagens, servido pelos anjos (Marcos 1,12-13). Excelente analepse em que o narrador faz Jesus descer ao chão de Israel, para assumir as suas fragilidades, elevando a dura realidade do pecado do povo no deserto, e do nosso pecado, a um registo de salvação. O deserto foi lugar de tentação e de queda para o povo de Israel durante quarenta anos, o tempo de uma geração, uma vida inteira, o tempo todo. Mas o deserto era também o lugar da graça, pois era Deus que no deserto conduzia o seu povo, como se recita no velho «credo» de Israel. Esquecendo a graça de Deus que nos conduz, facilmente nos atolamos na areia do deserto, e não se passa a prova. Eis, então, que Jesus desce a esse chão arenoso, ao nosso chão, experimenta a nossa condição. Atravessa e supera a prova, impelido pelo Espírito da graça. Novo aceno. O homem, eu e tu, nós, recebemos de Deus o mandato do domínio manso da terra e dos animais (Génesis 1,26 e 28). Sem sucesso. Mas também aqui, neste chão da criação, Jesus desce ao nosso nível, e salva o nosso fracasso, soberanamente convivendo com os animais selvagens. Mensagem de Paz e Harmonia. O texto de Marcos não perde tempo a descrever o conteúdo das tentações, nem a ação dos atores, como vemos em Mateus (4,1-11) e Lucas (4,1-13). Marcos apenas faz descer o Filho de Deus ao nosso chão arenoso e escorregadio, mostrando bem a sua comunhão connosco e o seu domínio manso, novo e seguro. Do mesmo modo que, pouco depois, estando nós atarefados e aflitos em pleno mar encapelado, filmará Jesus a dormir serenamente na nossa barca, à popa (lugar de comando), com a cabeça suavemente deitada numa almofada (Marcos 4,35-41).

            Note-se também que o «deserto» bíblico, mencionado no texto, não se ajusta ao que dizem os dicionários ou enciclopédias. Até contradiz esses dizeres. Na verdade, não é um lugar geográfico, mas teológico, pois é apresentado com muita água (João 3,23), cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39), cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19. É um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Batista (Mateus 3,1-3), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Mas é um lugar provisório, onde estamos de passagem, e não definitivo, para se habitar lá (à maneira dos Essénios). Sendo um lugar provisório e de passagem, aponta para o definitivo, que é a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto é uma metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto é todo igual: não tem pontos de referência nem marcos de sinalização. Quer dizer que só podemos prosseguir rumo à Terra Prometida e à Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. Aí está o deserto como lugar onde temos de saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler atentamente o mapa da sua Palavra. Agora temos a companhia do Filho, que veio em nosso auxílio.

            Mas, atenção. Depois do pequeno, mas consolador filme a que acabámos de assistir, em que vimos Jesus a descer ao nosso chão, assumindo e salvando os nossos fracassos, preparemo-nos para ouvir pela primeira vez a sua voz. Sendo os seus primeiros dizeres, são, naturalmente, prolépticos e programáticos para o inteiro Evangelho de Marcos.

            Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Batista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros, isto é, pessoas enviadas e estreitamente vinculadas a quem as envia, em nome de quem anunciam em voz alta e clara a mensagem de que são incumbidos. A clara vinculação a quem nos envia é mesmo mais importante do que a mensagem a transmitir. E é dito o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Batista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

            E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações de Jesus, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da iniciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspetivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança, entenda-se, da Palavra amante de Deus que, entrando em nós, reclama a nossa resposta amante que transforma a nossa vida. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – I DQuar (Gn 9, 8-15)
  2. Leitura II – I DQuar (1 Pe 3, 18-22) (1)
  3. I Domingo Quaresma -Ano B – Lecionário
  4. Oração Universal – I Domingo da Quaresma B

          Ao ler os textos que a Liturgia da Palavra deste Domingo nos propõe, recordei-me de um episódio narrado pelo Padre Ermes Ronchi numa visita a um leprosário na Amazónia. Quando estavam na Eucaristia e cada um colocava as suas intenções, um dos leprosos pediu o seguinte: «peçamos ao Senhor que ajude o padre Ermes, porque na Europa é muito difícil manter a fé». O padre Ermes não conseguiu ficar indiferente àquele homem que ao invés de pedir por si próprio, pediu pela Europa e pela evangelização que ele era chamado a fazer. Curioso com a fé daquele homem, no final da Eucaristia foi falar com ele e perguntou-lhe: «quando te encontrares com o Senhor, vais perguntar-lhe por que razão eras leproso?» e eles respondeu-lhe: «não lhe vou perguntar nada porque sempre confiei Nele».

          Surpreendentemente, os tempos difíceis e exigentes de provação e doença são muitas vezes uma ocasião para renovar a confiança em Deus e encontrar um sentido para a vida. A doença que atingia aquele homem não era capaz de lhe retirar a sua fé nem fazer vacilar a confiança que depositava em Deus. Sabemos que este processo não é imediato e muitas vezes requer um caminho de aprofundamento e amadurecimento da fé.

          O leproso que se abeira de Jesus no Evangelho deste Domingo acredita que Jesus o pode curar: «Se quiseres, podes curar-me». Contudo, aquele homem é ainda um aprendiz na arte de compreender a vontade de Deus e acredita que essa pode não ser a Sua vontade. Creio que muitas vezes também nós estamos ainda longe de compreender que a vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo, que Deus nos ama e quer o nosso bem. Recordo que na minha infância me surpreendia ouvir, diante da morte de alguém que partir inesperadamente ou até vítima de uma catástrofe: «foi a vontade de Deus». A vontade de Deus não pode ser o bode expiatório para aquilo que não compreendemos e, na verdade, como afirma S. Paulo a vontade de Deus é «que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade».

          Jesus quer que aquele homem se cure e, mais do que isso, fá-lo voltar ao convívio social. Como escutamos na primeira leitura aquele que contraía a lepra devia afastar-se e ficar isolado de todos. Com Jesus aquele homem restabelece a saúde do corpo e integra-se de novo na vida social.

          Se as marcas da lepra o faziam afastar-se de todos, a marca que Jesus deixou na vida daquele homem fazem-no partir para comunicar a todos o que Jesus lhe fez. O encontro com Jesus gera uma felicidade que é de tal modo transbordante que nos impele a partir para levar a todos a força transformadora do Seu amor.

          Deste modo, a ação missionária da Igreja só será verdadeiramente frutuosa e fecunda quando estiver revestida desta alegria libertadora que Jesus oferece. Quando anunciamos Jesus não somos meramente portadores de uma doutrina ou moral, mas comunicamos a vida de Jesus, que está vivo e que se faz presente e atuante na história. Por isso, aquilo que temos para comunicar não é algo exterior a nós, mas a experiência alegre e libertadora que fizemos Dele: «todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é o que deves comunicar aos outros» (EG 121). In Voz Portucalense

LEITURA I – Lev 13,1-2.44-46
«Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 31 (32)
Refrão: Sois o meu refúgio, Senhor; dai-me a alegria da vossa salvação.

LEITURA II – 1 Cor 10,31-11,1
«Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo».

EVANGELHO – Mc 1,40-45
«Se quiseres, podes curar-me».
«No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo».
«Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade».

Para os leitores: 

Na primeira leitura, é necessário ter em atenção as diversas frases em discurso direto, bem como as frases que as introduzem. Além disso, deve ter-se em conta a correta pronunciação das palavras menos usuais como: «esbranquiçada» e «andrajoso».

A brevidade da segunda leitura não deve fazer descurar a preparação do texto. Deve ter-se em atenção o tom exortativo do texto.

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.

          O Evangelho de Marcos 1,40-45, que hoje, neste Domingo VI do Tempo Comum, tivemos a graça de ver e de escutar, continua a mostrar que Jesus, que é «o Reino de Deus em pessoa» (autobasileía, como bem refere Orígenes), Aquele que se fez nosso próximo para sempre (Marcos 1,15), continua a passar pelos nossos caminhos, a cruzar-se com as nossas dores, e a assumi-las sobre si, curando a nossa pele chagada e o nosso esclerosado coração. Sim, o Evangelho de hoje não é apenas para ouvir. É também para ver atenta e demoradamente, pois oferece aos nossos olhos, sobretudo ao olhar do coração, o cenário extraordinário de um leproso ajoelhado aos pés de Jesus, que provoca a comoção visceral de Jesus, entenda-se o amor maternal de Jesus, levando-o a estender a sua mão soberana sobre o leproso, como fez Deus em ação de condescendência e de libertação no Livro do Êxodo, e a tocar no leproso sem receio de qualquer contágio.

          A cena evangélica é comovente e surpreendente, desarmante, como é sempre, para a nossa pobre e aplanada esquadria, para os nossos trejeitos e preconceitos, a notícia ousada e feliz que se chama Evangelho. Contra todas as regras estabelecidas, que impunham aos leprosos o isolamento e a distância de Deus (não podiam frequentar o Templo ou a sinagoga) e dos homens (não podiam entrar nas povoações), a que se associava o facto de terem de andar com o rosto escondido por qualquer trapo de miséria, e ainda o grito de «impuro, impuro», que deviam trazer sempre nos lábios (Levítico 13,45), para que as pessoas ditas boas, ao ver um homem sem rosto e ao ouvir o seu grito, deles se pudessem distanciar o mais possível, pondo-se a seguro do impuro, eis hoje um leproso que ousa aproximar-se de Jesus e colocar-se de joelhos diante dele, implorando dele a cura (Marcos 1,40). É, nos Evangelhos, o único doente que se coloca de joelhos diante de Jesus, implorando a sua cura. O gesto é o seu verdadeiro pedido, que as palavras que diz apenas iluminam. Ele sabe que a sua cura só pode ser um dom de Deus.

          Um leproso, diziam os rabinos, era como um morto em vida. Separado de Deus e da comunidade do louvor de Deus, isto é, da comunhão de vida com Deus, o leproso em tudo se assemelhava aos mortos, que também estavam separados de Deus e fora do louvor de Deus, que é a verdadeira nascente da vida (Salmo 6,6; 88,6; Isaías 38,18). Neste sentido, o Livro de Job define a lepra como o «primogénito entre os mortos» (Job 18,13). Tanto assim era que uma eventual cura da lepra suscitava o mesmo efeito, o mesmo espanto, de uma ressuscitação da morte!

          As vísceras maternais de Jesus comovem-se (splagchnízomai) quando vê o estado miserável deste seu filho (Marcos 1,41). O verbo splagchnízomai indica o desarranjo interior, nas vísceras (splágchna), e vísceras maternais (hebraico rahamîm). Por isso, Jesus não pode repelir o seu filho necessitado. Pelo contrário, estende a sua mão sobre ele, gesto de divina soberania (Êxodo 3,20; 7,5; Salmo 138,7), e toca-lhe, e estabelece comunicação com ele, falando para ele (Marcos 1,41). Para Jesus, não há gente para acolher, e gente para evitar ou repelir. A todos acolhe, sobretudo aos piores e aos que estão em pior estado. Tocando-lhe, Jesus assume sobre si a lepra daquele pobre homem. É assim que o salva e nos salva. Jesus não passa por nós de forma sobranceira ou à tangente; desce ao nosso mundo, ao nosso fundo, e assume e paga a conta por inteiro. Nunca deixemos de cravar os olhos naquela Cruz, até percebermos bem que aquelas chagas são as nossas chagas, e que aquelas dores são as nossas dores.

          Com este seu comportamento de radical proximidade física e afetiva, Jesus diz-nos que nos devemos abeirar de todas as pessoas, nomeadamente dos doentes e marginalizados ou descartados, sempre incluindo e nunca excluindo, com uma atitude próxima, compassiva, calorosa e familiar, no polo oposto de qualquer comportamento indiferente, cético ou assético.

          «Quero, fica limpo!», diz Jesus (Marcos 1,41), e nasce um homem novo, com o rosto destapado, por Deus descoberto, para ser visto e admirado, saído das mãos puras de Deus e da sua Palavra mansa e criadora (Génesis 1; João 15,3). Um grito se calou: «impuro, impuro!». Um novo grito nasceu: o do ANÚNCIO (kêrýssô) do Evangelho (Marcos 1,45). É o terceiro ANUNCIADOR depois de João Baptista (Marcos 1,4.7) e de Jesus (Marcos 1,14.38.39). Outros se seguirão (Marcos 3,14; 5,20; 6,12; 7,36; 16,15). Também nós. Sim, é aí que nos enxertamos nós, queridos irmãs e irmãs. Sim, também nós estamos depois do milagre em nós realizado. Por isso, temos, antes de mais, de entender que a mão estendida, soberana e carinhosa de Deus tocou em nós, e nos curou, e nos levantou, e rebentou os nossos odres velhos, ressequidos, carcomidos, e nos enviou com uma notícia ousada e feliz, ardente, explosiva, comovente.

          Atirai fora os odres, velhos e novos. Há muito que acabaram os almocreves! A notícia boa e feliz, isto é, o Evangelho, não se leva em vasilha nenhuma. Levai-o nas entranhas, nos pés, nas mãos, no rosto, no coração. Ah!, antes que me esqueça: atirai também fora o ouro, a prata, o cobre, a outra túnica, o bastão, as sandálias. E aproveitai para virar também os bolsos do avesso! Deve haver por lá algum cotão!

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – VI DTC (Lev 13, 1-2.44-46)
  2. Leitura II – VI DTC (1 Cor 10, 31-11,1)
  3. VI DTC – Leituras – Lecionário
  4. Oração Universal – VI Dom TC – Ano B

       O tempo é um dom precioso que Deus coloca em nossas mãos e geri-lo bem é um grande desafio para cada um de nós. Quantas vezes fazemos a experiência de chegar ao final do dia e sentir que devíamos ter aproveitado melhor o tempo, dedicado mais atenção a alguns aspetos que foram descurados e ter saboreado a oportunidade de mais um dia que o Senhor nos deu a viver.

        A nossa vida e o frenesim do nosso quotidiano muitas vezes envolvem-nos de tal maneira que nos impedem de viver e aproveitar convenientemente cada momento. Contudo, importa impor ritmos e tempos que nos ajudem a aproveitar e a saborear a beleza da vida. O tempo e a história são o lugar no qual se inscreve a nossa breve existência e, por isso, diante de nós coloca-se o desafio de viver o tempo aproveitando-o como oportunidade única de encontro e reencontro. Cada dia, cada semana, cada ano são uma nova oportunidade de ser mais, de ser melhor, de fazer diferente, saboreando aquilo que a vida nos oferece e transformando o lugar em que vivemos, trabalhamos ou nos divertimos naquilo que o Senhor sonhou para nós.

        No Evangelho deste Domingo acompanhamos uma jornada típica de Jesus. S. Marcos apresenta-nos o ritmo de um dia da vida de Jesus com as suas diversas ocupações, prioridades e encontros. Jesus, o Verbo Eterno, habita o nosso tempo e faz dele lugar da manifestação do amor do Pai. A consciência de que o Seu alimento é fazer a vontade Daquele que O enviou, imprime no Seu quotidiano um ritmo e uma marca diferente. Jesus não se deixa levar pelo ativismo das muitas coisas a fazer, nem se demora na análise e programação estéril das várias coisas a realizar. Jesus articula sabiamente contemplação e ação, proximidade e encontro, anúncio e missão. Faz e ensina a fazer, realiza com as Suas próprias mãos e convida a colaborar na Sua obra. Parte ao encontro de todos e acolhe os que Dele se aproximam, mas também tem necessidade de se recolher na intimidade com o Pai para renovar a consciência da missão e dar sentido aos passos percorridos.

        Jesus, procurado por todos, procura a intimidade com o Pai e ao romper da jornada retira-se para um lugar ermo para rezar. Como é inspirador e salutar começar a jornada, não com o corre-corre de quem vai atrasado e tem tantas coisas para fazer, mas com a serenidade do encontro com o Pai que dá sentido e plenitude aos nossos dias e aos nossos afazeres.

        Jesus cura aqueles de quem se aproxima, realiza milagres, oferece a saúde corporal e aponta caminhos de plenitude e totalidade. Não se deixa confinar e parte, fazendo-nos partir com Ele: «vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim».

        Nos relatos das curas e milagres de Jesus há sempre um aspeto que me impressiona: a capacidade de Jesus de nos erguer da nossa situação de vítimas para nos tornar protagonistas. Nesta passagem vemos a sogra de Pedro, que uma vez restabelecida, levanta-se e começa a servi-los. Ser protagonista e construtor ativo da nova civilização do amor é o caminho que somos chamados a encetar, contudo, tantas vezes, a vitimização impede-nos de progredir, crescer e chegar mais alto. Por isso, como Paulo queremos assumir a urgência da evangelização e dizer com a nossa vida: «fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens». In Voz Portucalense

LEITURA I – Job 7,1-4.6-7
«Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 146 (147)
Refrão: Louvai o Senhor, que salva os corações atribulados.

LEITURA II – 1 Cor 9,16-19.22-23
«E tudo faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dos seus bens».

EVANGELHO – Mc 1,29-39
«Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André».
«Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a».
«Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». 

Para os leitores:
        A primeira leitura apresenta a angústia e inquietação que invade o coração de Job. A proclamação deste texto deve ter em atenção as diversas interrogações presentes no texto, bem como a interpelação que Job dirige a cada um de nós.

        A segunda leitura apesar de não apresentar nenhuma dificuldade aparente exige um especial cuidado nas pausas e respirações para uma melhor articulação do texto. Além disso, este texto deve ser marcado por um tom de esperança e alegria, testemunhando a urgência e a necessidade de me envolver no anúncio do Evangelho.

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
        Aí está diante de nós o Evangelho do Domingo V do Tempo Comum, Marcos 1,29-39, no seguimento imediato da proclamação feita no Domingo passado (Marcos 1,21-28). De madrugada a madrugada. Depois de entrarem [Jesus e os seus discípulos; ninguém como Marcos vincula Jesus aos seus discípulos] em Cafarnaum, na manhã de sábado entra Jesus na sinagoga de Cafarnaum e ensinava (Marcos 1,21). Ei-los agora que saem [Jesus e os seus discípulos: verbo no plural] da sinagoga, e entram na casa de Simão e de André (Marcos 1,29). Trata-se de um «relato de começo». Saindo da casa antiga, entram, uns 30 metros a sul, na casa nova, de Pedro. A sogra de Simão está deitada com febre. Jesus segura-lhe (kratéô) na mão (Marcos 1,31), expressão lindíssima que indica no Antigo Testamento o gesto protetor com que Deus protege o orante (Salmo 73,23), Israel (Isaías 41,13), o seu servo (Isaías 42,6). E a sogra de Simão «levantou-se» (êgeírô), verbo da ressurreição, e pôs-se a servi-los (diêkónei: imperfeito de diakonéô) de forma continuada, como indica o uso do verbo no imperfeito. A sogra de Simão é uma das sete mulheres que, nos Evangelhos, «servem» Jesus e os outros. Ela é bem a figura da comunidade cristã nascente, que passa da escravidão à liberdade, da morte à vida, gerada, protegida, guardada e edificada por Jesus no lugar seguro da casa de Pedro.

        À tardinha, já sol-posto, primeiro dia da semana [o dia muda com o pôr do sol], toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes. Note-se que os demónios continuam impedidos de falar, exatamente porque sabiam quem Ele era (Marcos 1,34). Pode parecer estranho este silenciamento de quem sabe! Mas é exatamente para ficar claro que acreditar em Jesus não é isolar uma definição exata de Jesus, mas aderir a Ele e à sua maneira de viver. E este afazer é trabalho nosso, não dos demónios.

        Na madrugada do mesmo primeiro dia da semana, muito cedo, de madrugada a madrugada, tendo-se levantado (anístêmi), outra prolepse da madrugada da Ressurreição que já se avista no horizonte, Jesus sai sozinho para rezar (Marcos 1,35), mas os discípulos correm logo a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter. Ninguém o quer perder (Marcos 1,36-37).

        Mas Jesus desconcerta os seus discípulos, e abre-lhes já os futuros caminhos da missão: «VAMOS, diz Jesus, a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM (kaí usado adverbialmente) ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Importante e intenso dizer. ANUNCIAR, verbo grego kêrýssô, é todo o afazer de Jesus, enche por completo o seu programa e o seu caminho. Ora, ANUNCIAR, kêrýssô, é dizer em voz alta a MENSAGEM que outro nos encarregou de transmitir. Aqui, o outro é Deus. Jesus é, então, o MENSAGEIRO de Deus. O ANUNCIADOR, o MENSAGEIRO, não fala em seu próprio nome, não emite opiniões. Fala em nome de Deus.

        Prossigamos. Com aquele vamos [«vamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos, apontando-lhes já o seu futuro trabalho de ANUNCIADORES do Evangelho pelo mundo inteiro. Mas é igualmente importante aquele TAMBÉM inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»]. É como uma ponte que une duas margens. Se, por um lado, proleticamente, aponta o futuro, por outro lado, analepticamente, classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira «jornada de Cafarnaum», em que o verbo ANUNCIAR (kêrýssô) nunca apareceu. Ficamos, portanto, a saber que a toada do ANÚNCO do Evangelho é ensinar, libertar, acolher, curar, recriar.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – V DTC (Job 7, 1-4.6-7)
  2. Leitura II – V DTC (1 Cor 9, 16-19.22-23)
  3. Leituras V DTC – Lecionário

          Precisamos de homens e mulheres cujas palavras não sejam somente lugares comuns ou palavras estéreis e vazias que preencham apenas silêncios sem gerarem vida, nem oferecerem sentido. Atravessamos um tempo onde o nosso quotidiano é preenchido por tantas palavras desde as redes sociais aos mais tradicionais meios de comunicação como os jornais, a rádio ou a televisão. Contudo, parece que estas palavras apenas nos distraem do essencial e não são capazes de ir ao âmago das nossas inquietações e interrogações.

          Acredito que esta perceção não seja apenas dos tempos hodiernos e que cada tempo e época da história sintam a necessidade de palavras revestidas de uma autoridade nova e diferente que ofereça sentido e rasgue novos horizontes de confiança e esperança. Seguramente, os contemporâneos de Jesus alimentavam também esta esperança e ao ouvirem, naquele Sábado, na sinagoga de Cafarnaum, as palavras de Jesus, não conseguiram esconder o entusiasmo e estupor.

          Maravilhados, elogiavam a autoridade que brotava das palavras de Jesus e despontam em nós a curiosidade de conhecer sobre o que falava Jesus naquele dia. Sabemos apenas que a autoridade de Jesus não brotava meramente da eloquência das suas palavras, nem dos seus doutos conhecimentos acerca da Lei e dos Profetas, pois ela contrasta com a dos escribas que apesar de saberem muitas coisas e de serem especialistas nas coisas de Deus, «dizem, mas não fazem» (cf. Mt 23,3).

          Em primeiro lugar, a autoridade de Jesus brota da coerência das Suas palavras. Em Jesus dizer e fazer são coincidentes e a palavra e a ação comunicam a mesma realidade, revelando o amor do Pai: «esta ‘economia’ da revelação realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido» (DV 2). É esta coerência que espanta quantos escutam Jesus, pois a Sua vida constrói-se em consonância com aquilo que as Suas palavras anunciam.

          Contudo, esta autoridade manifesta-se também na relevância que a Sua mensagem representa para a nossa vida. Jesus incarnou, percorreu os caminhos da Judeia e da Galileia partilhando das alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos dos homens e mulheres do Seu tempo. Jesus não é indiferente às dores e desesperanças dos que se cruzam consigo, mas toca as chagas dos que Dele se aproximam e transforma a dor e o sofrimento em cura e vida. Não se limita a um olhar compadecido e a palavras mais ou menos consoladoras, mas toca as feridas, cura-as e oferece um sentido novo.

          Aquele homem absolutamente perturbado que aparece possuído por um espírito impuro grita: «Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?». Na verdade, Jesus é o «Santo de Deus» e, por isso, tem tudo que ver connosco. A grande novidade da revelação evangélica é a certeza de que Jesus tem tudo que ver com a nossa existência e que a nossa vida é preciosa aos olhos de Deus, de tal modo, que Ele enviou o Seu Filho ao mundo, para que morrendo na cruz nos libertasse do pecado e da morte.

          Por isso, vivemos alimentados por uma renovada esperança e mesmo atravessando momentos difíceis e exigentes, como a pandemia que estamos a viver, queremos acolher no coração e na vida as palavras de S. Paulo: «não queria que andásseis preocupados». O amor de Jesus e a Sua presença viva e ressuscitada são garante de esperança e fonte da nossa confiança. In Voz Portucalense

LEITURA I – Deut 18,15-20
«O Senhor, teu Deus, fará surgir no meio de ti, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deveis escutar».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 94 (95)
Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

 LEITURA II – 1 Cor 7,32-35
«Tenho em vista o que mais convém e vos pode unir ao Senhor sem desvios».

EVANGELHO – Mc 1,21-28
«Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar».
«Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!».
«E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia». 

Para os leitores:
          A primeira leitura é composta pelas palavras que Moisés dirige ao povo. Contudo, é necessário ter em atenção que nas suas palavras Moisés evoca as palavras do povo a Deus no Horeb e as palavras que Deus lhe dirige. Estas intervenções devem ser tidas em conta na proclamação da leitura, para uma correta articulação do texto.

          Na segunda leitura, é necessário ter em conta o tom exortativo do texto

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
          «Eis que faço novas todas as coisas» (Apocalipse 21,5), diz Deus. De tal modo novas, diz Deus, que ninguém pode dizer: «Já o sabia» (Isaías 48,7).

          É assim também o Evangelho deste Domingo IV do Tempo Comum (Marcos 1,21-28). Eis Jesus a entrar com os seus discípulos em Cafarnaum, na sinagoga deles, e ensinava e ordenava tudo de forma nova. Tão nova que inutilizava todas as comparações e catalogações (Marcos 1,22). Não era membro de nenhuma confraria, academia, partido, ordem profissional ou instituição, que à partida lhe conferisse algum crédito, alguma autoridade. Nenhum crédito, nenhum currículo, nenhum diploma, o precedia. A sua autoridade começava ali, no próprio ato de dizer ou de fazer. E as pessoas de Cafarnaum foram tomadas de tanto espanto, que tiveram de constatar logo ali que saía dos seus lábios e das suas mãos um mundo novo, belo e bom, ordenado segundo as pautas da Criação (Marcos 1,22 e 27). Um vendaval manso de graça e de bondade encheu Cafarnaum, e transvazava como um perfume novo de amor e de louvor por toda a região da Galileia e da missão (Marcos 1,28). Saltava à vista que Cafarnaum não podia conter ou reter tamanha vaga de perfume e lume novo.

          As pessoas de Cafarnaum sabiam bem o que diziam os escribas, e como diziam os escribas. Não eram senão repetidores, talvez mesmo apenas repetentes de pesadas e cansadas doutrinas que se arrastavam na torrente de uma velha e gasta tradição. Os escribas diziam, diziam, diziam, recitavam o vazio (Salmo 2,1), compraziam-se na sua própria boca, nas suas próprias palavras (Salmo 49,14), e nada, nada, nada acontecia: nenhum calafrio na alma, nenhum rio nascia no deserto, ninguém estremecia ou renascia. Mas Jesus começou a falar, e as pessoas de Cafarnaum sentem um frémito, um estremecimento novo (Isaías 66,2 e 5), assalta-as uma comovida emoção, uma lágrima de alegria lhes acaricia o coração. Era como se acabassem de escutar aquela palavra única que há tanto tempo se procura, palavra criadora que nos vai direitinha ao coração, a ternura e a surpresa permanente de quem leva uma criança pela mão!

          As pessoas de Cafarnaum sabiam bem o que eram os exorcismos, e como se faziam os exorcismos. Estavam muito em voga naquele tempo. Eram longos, estranhos, complicados, cheios de fórmulas mágicas e ritos esotéricos. Mas Jesus diz uma palavra criadora: «Cala-te e sai desse homem», e tudo fica de imediato resolvido! (Marcos 1,25-26).

          Abre-se um debate. O primeiro de muitos que o Evangelho de Marcos vai abrir. «O que é isto?» (Marcos 1,27), perguntam as pessoas de Cafarnaum, que nunca tinham visto tanto e tão novo e tão prodigioso ensinamento.

          Mas é apenas o começo da jornada deste maravilhoso ANUNCIADOR do Evangelho de Deus (Marcos 1,14). Logo a abrir o seu Evangelho, Marcos ensina-nos que a jornada iniciada naquele primeiro sábado em Cafarnaum salta os clichés habituais, e vai de madrugada a madrugada, de modo a deixar já bem à vista aquela outra sempre primeira madrugada da Ressurreição! Jesus começa de manhã na sinagoga (Marcos 1,21); caminha depois 30 metros para sul, e entra, pelo meio-dia, na casa de Pedro e levanta da febre para o serviço do Evangelho a sogra de Pedro (Marcos 1,29-31); à tardinha, já sol-posto, primeiro dia da semana, toda a cidade de Cafarnaum está reunida diante da porta daquela casa, para ouvir Jesus e ver curados por Ele os seus doentes (Marcos 1,32-34); de madrugada, muito cedo, Jesus sai sozinho para rezar (Marcos 1,35), e os discípulos correm a procurá-lo para o trazer de volta a Cafarnaum, pois, dizem eles, todas as pessoas o querem ver e ter (Marcos 1,36-37). Ninguém o quer perder.

          Desconcertante reviravolta. Jesus diz aos seus discípulos atónitos: «VAMOS a outros lugares, às aldeias vizinhas, para que TAMBÉM (kaí usado adverbialmente) ali ANUNCIE (kêrýssô) o Evangelho» (Marcos 1,38). Com este grávido dizer, Jesus deixa claro que ANUNCIAR o Evangelho enche por completo o seu programa e o seu caminho. Com aquele vamos [«vamos a outros lugares»], Jesus desinstala e agrafa a si os seus discípulos para este trabalho de ANÚNCIO do Evangelho seja a quem for, seja onde for. Com aquele também inclusivo [«para que também ali anuncie o Evangelho»], Jesus classifica como ANÚNCIO do Evangelho todos os afazeres da inteira jornada de Cafarnaum: ensinar, libertar, acolher, curar, recriar: é esta a toada do ANÚNCIO do Evangelho.

          ANUNCIAR (kêrýssô) é então o afazer de Jesus. E qual é a primeira nota que soa quando Jesus se diz com o verbo ANUNCIAR? É, sem dúvida, a sua completa vinculação ao Pai, de quem é o arauto, o mensageiro, o ANUNCIADOR. Pura transparência do Pai, de quem diz e faz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e viu fazer (João 5,19; 17,4). Recebendo todo o amor fontal do Pai, bebendo da torrente cristalina do amor fontal do Pai (Salmo 110,7; cf. 1 Reis 17,4), Jesus, o Filho, é pura transparência do Pai, e pode, com toda a verdade dizer a Filipe: Filipe, «quem me vê, vê o Pai» (João 14,9). É mesmo aqui que reside a sua verdadeira AUTORIDADE e a verdadeira NOVIDADE do seu MODO novo de dizer e de fazer, que se chama ANUNCIAR.

          A primeira nota de todo o ANUNCIADOR ou Arauto ou Mensageiro não assenta na capacidade deste, mas na sua fidelidade Àquele que lhe confia a mensagem que deve anunciar. É em Seu nome que diz o que diz, que diz como diz. No Enviado é o Rosto do Enviante que se deve ver em contraluz ou filigrana pura. No Enviado ou Mensageiro ou Anunciador é verdadeiramente Deus que visita o seu povo.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – IV DTC (Deut 18, 15-20)
  2. Leitura II – IV DTC (1 Cor 7, 32-35)
  3. Leituras IV DTC – 31.01.2021 – Lecionário
  4. Oração Universal – IV Domingo Comum B

Como é belo e reconfortante ver Jesus a percorrer os caminhos da Galileia. O Verbo faz-se carne e, revestido da nossa natureza, percorre os trilhos deste mundo, colocando-se no meio dos homens e mulheres, partilhando a sua humana condição, anunciando a proximidade do Reino e o convite a viver a radicalidade evangélica que abre a nossa vida à conversão.

Na perícope evangélica deste Domingo, escutamos as primeiras palavras que Jesus profere no Evangelho de Marcos: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Chegou o tempo da graça em que Deus visita o Seu Povo enviando o Seu Filho Jesus. Em Jesus Cristo, Deus faz-se próximo. Tão próximo que assume a nossa natureza humana e convida-nos a entrar nesta dinâmica de proximidade: aproxima-se de nós, para que aprendamos a viver a verdadeira proximidade que tem o nome de fraternidade.

Ao escutar as palavras de Jesus – «cumpriu-se o tempo» – recordo-me do modo como nos referimos tantas vezes ao nascimento de uma criança, quando se afirma que se cumpriu o tempo para uma mulher dar à luz. Efetivamente, é de vida nova que nos falam estas palavras! É a novidade do Reino a irromper no tempo e na história e a apontar o horizonte novo da vida eterna para onde todos somos chamados. O Reino de Deus está próximo e, no aqui e agora do tempo, somos chamados a viver a perene tensão entre o «já» e o «ainda não».

O Reino de Deus está próximo e reclama um coração livre e despojado para que possa acolher a novidade trazida por Jesus. O aqui e agora que nos é dado viver são o lugar e o tempo concreto onde somos chamados a construir a nova civilização do amor. Contudo, bem sabemos que não temos morada permanente sobre a terra e acreditamos que este Reino só se realizará em plenitude no Céu.

Nestas primeiras palavras de Jesus encontramos o movimento descendente e ascendente que caracterizam o dinamismo da salvação. Jesus que assume a nossa condição humana para nos elevar à participação da sua natureza divina. O Reino de Deus que vem até nós para que possamos pela conversão e adesão de coração ao Evangelho subir até Deus e entrar na comunhão plena com Ele.

Acreditar no Evangelho é muito mais do que reconhecer a veracidade das suas palavras e informações. Acreditar no Evangelho significa aderir com a vida àquilo que os nossos ouvidos escutam e transformar o coração para que a fé professada com os lábios se transforme em gestos concretos de amor e misericórdia.

Deste modo, acolher o Evangelho significa abrir espaço no coração para que a Boa Nova de Jesus tenha lugar na nossa vida. Muitas vezes, nas nossas meditações e pregações reclamamos a necessidade de nos libertarmos do nosso egoísmo, da nossa autossuficiência, da nossa maldade… Contudo, criar espaço para acolher a Boa Nova de Jesus significa também libertarmo-nos dos nossos projetos, das nossas expectativas, das nossas seguranças e disponibilizar a vida para o acontecer de Deus. Avançar sem medo de levar apenas como bastão de apoio a Palavra de Jesus e a certeza da Sua presença.

Simão, André, Tiago e João são referências fundamentais desta capacidade de deixar a normalidade da vida para abrir o coração à iniciativa de Jesus: «eles deixaram logo as redes e seguiram Jesus». Deixar as redes que nos prendem pela segurança que nos oferecem para nos abrir à confiança que liberta e oferece vida nova e plena de sentido é o desafio que somos chamados a abraçar permanentemente para que a nossa vida se torne verdadeiramente cristã. In Voz Portucalense

LEITURA I – Jonas 3,1-5.10
«Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de saco, desde o maior ao mais pequeno».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)
Refrão: Ensinai-me, Senhor, os vossos caminhos.

LEITURA II – 1 Cor 7,29-31
«De facto, o cenário deste mundo é passageiro».

EVANGELHO – Mc 1,14-20
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens». 

Para os leitores:
Na primeira leitura, devem ter em atenção as duas intervenções em discurso direto.
Na segunda leitura, devem ter cuidado na leitura da frase central do texto não apenas pela sua grande extensão, mas na dicotomia que descreve cada oração e que deve ser sublinhada na proclamação do texto. 

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Par a acompanhar o Evangelho.
          Neste Domingo III do Tempo Comum é-nos dada a graça de escutar o Evangelho de Marcos 1,14-20. Não é a primeira vez que Jesus surge em cena. Já o tínhamos contemplado a dirigir-se da Galileia para o Rio Jordão, para ser batizado por João Batista (Marcos 1,9). Mas ainda não tínhamos ouvido a sua voz. Ouvimo-la agora pela primeira vez. Serão, portanto, dizeres importantes e programáticos.

Mas antes de ouvirmos, pela primeira vez, a voz de Jesus, anotemos desde já dois notáveis dizeres do narrador, que atravessam em filigrana o inteiro Evangelho de Marcos, unindo os caminhos e os destinos de João Batista, de Jesus e dos seus discípulos. O primeiro é este: «Depois de João ter sido entregue (paradothênai: inf. aor. pass. de paradídômi)» (Marcos 1,14). Trata-se de uma prolepse, que serve para ver já o que irá suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes (Marcos 3,19; 9,31; 10,33; 14,10.11.18.21.41.42.44; 15,1.10.15), e aos seus discípulos (Marcos 13,9.11.12). O segundo é o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus (Marcos 1,14). E, mais uma vez, este verbo é um fio condutor que une Jesus (Marcos 1,14.38.39), João Batista (Marcos 1,4.7), os Doze (Marcos 3,14; 6,12), algumas pessoas curadas por Jesus (Marcos 1,45; 5,20; 7,36) e a Igreja de Jesus (Marcos 13,10; 14,9). Mas o verbo grego kêrýssô (anunciar), antes de nos fazer dizer ou escutar mensagens, implica radical fidelidade do anunciador ou mensageiro em relação a quem lhe confia a mensagem e o envia a anunciá-la. Fica, portanto, claro que, antes de pregar, ensinar e curar, Jesus, os seus discípulos, a sua Igreja, são mensageiros fiéis, sempre vinculados a Deus, e a sua primeira missão é testemunhar esta proximidade e compromisso. E percebe-se agora bem o conteúdo da mensagem: «O Evangelho de Deus» (Marcos 1,14). Sem equívocos então: a primeira coisa que fica expressa com esta linguagem, é que Jesus, o seu precursor (João Batista) e seguidores (discípulos), se apresentam completamente vinculados a Deus e ao seu Evangelho [= «Notícia Feliz»], vivem de Deus e da Sua Notícia Boa, não agem por conta própria, não são emissores da sua própria sabedoria ou opinião.

E aí está então o primeiro dizer de Jesus, articulado em duas declarações inseparáveis: «Foi cumprido (peplêrotai: perf. pass. de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perf. de eggízô) o Reino de Deus (he basileía toû theoû)» (Marcos 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem enfaticamente as declarações, e revelam que o Evangelho é em primeiro lugar o anúncio da inciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas e belas perspectivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que qualifica o kairós, indica bem que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas àquele específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus. Só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo grávido de alegria e de esperança. Uma vez mais, o anúncio precede a ordem: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer, por sua gratuita iniciativa, em nosso favor. Só depois, e como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: «Convertei-vos» (matanoeîte) e acreditai (pisteúete) no Evangelho» (Marcos 1,15), que traduzem o que compete aos homens fazer. Jesus não é um moralista, mas um Evangelizador.

Vem logo, para não se afastar da fonte, o tempo de chamar, de romper amarras, de «ir atrás de» (Marcos 1,16-20). Mas tudo começa ainda com o ver e o fazer primeiros e criadores de Jesus. Jesus viu Simão e André, Tiago e João, e chamou-os: «Vinde atrás de mim, e farei de vós…». É o ver e o fazer do Criador (Génesis 1). Está em cena um verdadeiro chamamento de Jesus. É dele toda a iniciativa. Não são os discípulos que se apresentam a Jesus, pedindo trabalho. E não é como colaboradores, com remuneração e férias asseguradas, que Jesus os assume. Jesus apenas vê e chama. Espanta aquele «imediatamente» deixaram… e foram «atrás de» Jesus. Sem reticências nem calculismos. E nem sequer sabem onde os conduzirá o caminho em que agora entram. Confiança total em Jesus.

Perante o que nos é dado ver, uma primeira pergunta nos assalta, irrompendo sobre nós como uma onda súbita: Quem pode dar uma ordem assim? Mas, ainda antes de esboçarmos a resposta, já uma segunda vaga, que tempera a primeira, cai sobre nós: Quem merece uma tal confiança.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – III DTC (Jonas 3, 1-5.10)
  2. Leitura II – III DTC (1 Cor 7, 29-31)
  3. III Domingo tempo Comum – Ano B – Lecionário
  4. Oração Universal – III Domingo Tempo Comum

          O exercício da escuta é uma arte exigente e tanto mais árdua quanto maior é o número de vozes e interpelações que nos assaltam diariamente. Vivemos rodeados de meios de informação e ferramentas que nos colocam em diálogo e relação com inúmeras pessoas ao longo do dia. Este turbilhão de solicitações e interpelações provocam a nossa capacidade de escuta e de atenção na relação com quantos se cruzam no nosso caminho.

         Quantas vezes já desejamos que o telemóvel não chamasse ou que a campainha não tocasse! Escutar é uma arte exigente e muitas vezes o frenesim quotidiano impede-nos de cultivar uma atitude de disponibilidade para a escuta. Contudo, como afirma Bernard Häring «quem não sabe escutar não pode falar com a esperança de ser ouvido». O verdadeiro diálogo pressupõe a capacidade de falar com liberdade e escutar com humildade: falar com a liberdade de quem procura dizer a palavra certa e apropriada para aquele momento e escutar com a humildade de quem não sabe tudo e quer aprender e crescer no confronto com o outro.

          Escutar o outro é também a porta para chegarmos ao totalmente Outro que dá sentido à nossa existência. A arte da escuta e o discernimento que ela exige conduz-nos ao encontro com o Deus revelado em Jesus Cristo, pois a nossa carne humana é lugar de manifestação e revelação de Deus. Contudo, como Samuel precisamos de exercitar a capacidade de escuta e descobrir, na presença daqueles que Deus coloca na nossa vida, uma ajuda para um discernimento mais assertivo e eficaz. Heli torna-se o facilitador da relação de Samuel com Deus, pois «Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque, até então, nunca se lhe tinha manifestado a palavra do Senhor».

          Ajudado por Heli a distinguir a voz de Deus entre tantas vozes, Samuel aprende a arte de criar disponibilidade para acolher a palavra de Deus: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta». Esta atitude de disponibilidade conduz Samuel a contemplar as maravilhas de Deus e a fazer a experiência de um Deus que o ajuda a crescer e a contemplar como a Sua palavra é performativa e operativa no tempo e na história.

          O nosso tempo precisa de homens e mulheres que como Heli nos educam para a arte de criar disponibilidade para escutar a voz de Deus e que como João Baptista nos apontem o caminho que nos conduz ao encontro único e decisivo com Jesus Cristo.

          João Baptista consciente da sua missão de percursor, vendo Jesus a passar, não hesita em indicar aos seus discípulos o «Cordeiro de Deus». Esta liberdade de coração e de vida é fundamental na arte de acompanhar e revela-nos a verdadeira identidade cristã: viver a alegria do encontro com Jesus apontando aos outros Aquele que pode oferecer a verdadeira felicidade e a verdadeira vida.

          Cada um de nós, ao longo do seu percurso, encontrou pessoas que como João Baptista nos apontaram o caminho de Jesus. Contudo, foi necessário a experiência pessoal, única e irrepetível – «Vinde ver» – para que se pudesse construir uma verdadeira e autêntica relação com Jesus Cristo.

          Esta experiência única e irrepetível não nos permite ficar encerrados e abre-nos à partilha e comunicação da alegria maior que o nosso coração não pode conter. É o verdadeiro dinamismo da evangelização! Um coração verdadeiramente evangelizado contagia outros e conduz os outros a Jesus e ao Seu Evangelho. Aqui encontramos também a natureza eclesial da evangelização: a Igreja é um Povo que caminha na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo (LG 4). Ainda que o ato de acreditar seja pessoal, ninguém acredita sozinho e o ato de fé em Jesus Cristo abre-nos à comunhão da Igreja.

In Voz Portucalense

LEITURA I –1 Sam 3,3b-10.19
«Falai, Senhor, que o vosso servo escuta».

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39 (40)
Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade. 

LEITURA II – 1 Cor 6,13c-15a.17-20
«Não pertenceis a vós mesmos, porque fostes resgatados por grande preço: glorificai a Deus no vosso corpo».

EVANGELHO – Jo 1,35-42
«Estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: «Eis o Cordeiro de Deus».
«Jesus voltou-Se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: «Que procurais?».

Para os leitores:
          Na primeira leitura, o leitor deve ter em atenção as diversas intervenções em discurso direto, articulando-as para uma eficaz proclamação do texto.

          Na segunda leitura, o leitor deve ter o cuidado de articular as diversas frases e orações com pausas e respirações, tendo em atenção o equilíbrio entre as frases mais longas e as muito curtas. Além disso, o leitor deve ter em atenção a proclamação das frases interrogativas, evitando acentuar apenas as palavras finais e tendo especial cuidado com a extensão da segunda interrogação.

I Leitura:
(ver anexo)

II Leitura:
(ver anexo)

Para acompanhar o Evangelho.
          O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (João 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano João Baptista e Jesus. João Baptista permanece lá «estacado» (eistêkei), em Bethabara [= «Casa de passagem»], desde João 1,28, imóvel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Baptista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. João coloca-se estrategicamente do outro lado do Jordão, onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). É desse lugar de passagem, mas em que está parado como um guarda ou sentinela vigilante, que João vê bem (emblépô) Jesus a passar (peripatoûnti). E logo o apresenta como o Cordeiro de Deus. Apresenta-o a nós, e põe-nos em movimento atrás d’Ele. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, talya’. Mas talya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Aí está traçada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus.

          E aí vamos nós a segui-l’O, agora no Caminho que conduz a Casa. «Onde moras?», é a questão que nos move (João 1,38). E a resposta-convite de Jesus: «Vinde e vede» (João 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Fomos e vimos quem era (ideîn) e morámos com Ele um dia (João 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, André, um de nós, o Prôtóklêtos Andréas, o «primeiro chamado», como o chama ainda hoje a Tradição Oriental, foi logo chamar, «primeiro chamante», o seu irmão Simão, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (João 1,40-42). O resto é com Jesus. «Olhando-o por dentro (emblépô autô), Jesus disse: “Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro”» (João 1,42). Depois é Filipe que é chamado por Jesus, sem introdução ou explicação (João 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, também sem qualquer explicação ou demonstração convincente.

          É importante precisar que a demonstração é frágil face à experiência que implica a vida. Na verdade, a eficácia do testemunho acontece, não quando a testemunha incita o destinatário a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experiência, levando-o a implicar a própria vida. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objeções deste, não lhe dissipa as dúvidas (João 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (João 1,46).

          Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto é, segundo a mentalidade bíblica, a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: «Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro» (João 1,42). O termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme» é tsûr ou sela‘, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico também conhece o termo keph, aramaico kêpha’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos; kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça, para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas.

          Nasce aqui, portanto, um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos, alimentados.

ANEXOS:

  1. Leitura I – II DTC (1 Sam 3,3b-10.19)
  2. Leitura II – II DTC (1 Cor 6,13c-15a.17-20)
  3. II Domingo do Tempo Comum -Ano B – Lecionário
  4. Oração Universal II Domingo TC

Eucaristia pelo Facebook

Celebração da Liturgia da Palavra
Matriz – IV Domingo do Tempo Comum – 31 de janeiro de 2021 – em união paroquial e eclesial com o nosso Pároco, Padre Albino Reis e sua família, no momento do funeral do Pai João Reis.
Preside à celebração o Diácono José Luís
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