Liturgia da Palavra

Domingo IV do Tempo do Advento – Ano B – 24.12.2023

Solenidade do Natal – Ano B – 25.12.2023

Viver a Palavra       

«Pensas edificar um palácio para Eu habitar?». Esta é a pergunta que, em nome do Senhor Deus, o profeta Natã dirige a David e que oferece o fio condutor de toda a Liturgia da Palavra de hoje. O rei David depois de grandes lutas e batalhas habita numa casa boa e confortável, um palácio feito de cedro, madeira nobre e de alto preço. David sente necessidade de construir um edifício onde Deus possa habitar, pois a arca da aliança permanecia numa tenda, enquanto ele vivia num nobre e sumptuoso palácio.

A voz de Deus faz-se ouvir por meio do profeta, interpelando David para a necessidade de acolher a iniciativa do Senhor, criador do Céu e da Terra, Senhor do tempo e da história. Na verdade, o homem tem necessidade de construir edifícios onde se possa encontrar com Deus e congregar a comunidade. Contudo, Deus recorda ao rei David que o verdadeiro santuário onde quer habitar e encontrar lugar é no coração de cada homem e de cada mulher, conduzindo os destinos do Povo, congregando na unidade o Povo escolhido e amado. Encerrar Deus num edifício significaria encerrar Deus nos nossos esquemas e fazer um Deus à nossa medida.

O nosso Deus é um Deus que irrompe surpreendentemente na vida de cada homem e de cada mulher e na Sua infinita misericórdia não cessa de nos convocar para colaborar no seu desígnio de amor e ser construtores de um mundo novo onde cada um de nós se sabe criatura amada, dotada de um projeto de amor e felicidade. O Deus da paz e do Amor que livremente atua na história convoca-nos para a missão, irrompendo na nossa vida sempre de modo criativo e surpreendente.

Assim contemplamos Maria na passagem evangélica proposta para este quarto Domingo de Advento. Maria visitada pelo anjo é surpreendida pelo projeto inaudito que Deus tem para ela e porque Maria criou disponibilidade para o acontecer de Deus vê realizar-se na sua vida uma obra maior do que ela: Deus feito carne no seu ventre.

A narrativa da anunciação apresenta Deus como único protagonista da história. Não são mais os meus projetos e desejos, sonhos e anseios a conduzir a minha vida, mas a minha capacidade de sonhar abrindo a minha vida ao sonho de amor que Deus tem para mim. Maria, como as demais jovens coetâneas, tinha projetos e anseios, partilhando com José os sonhos próprios da vida familiar. Contudo, Deus irrompeu na Sua vida surpreendentemente e revela-lhe um projeto novo que há-de ser a fonte da Sua felicidade e da felicidade de quantos hão-de encontrar nela um modelo de disponibilidade e de fidelidade à vontade de Deus.

Diante da surpresa e dos receios de Maria, o anjo convida a virgem de Nazaré à confiança: «não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus» e oferece-lhe razões e sinais para confiar: «a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril; porque a Deus nada é impossível». Na verdade, a Deus nada é impossível e o Deus do amor torna possíveis os impossíveis da nossa vida.

É esta atitude de confiança e disponibilidade que o tempo de advento quer renovar nos nossos corações. Dizer sim com humildade e confiança rasga horizontes de esperança e faz ecoar no tempo e na história a mais bela melodia do amor, anunciando a proximidade de um Deus que se faz homem para nossa salvação. in Voz Portucalense.

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Estamos num novo Ano Litúrgico – o Ano B. Durante todo este ano litúrgico – 2023/2024 -, acompanhamos o evangelista S. Marcos em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso. Em anexo à Liturgia da Palavra ficará disponível um texto sobre o evangelista Marcos. Também poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – 2 Sam 7,1-5.8b-12.14a.16

«Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo».

Contexto:

Os Livros de Samuel testemunham acontecimentos históricos centrais na vida do Povo de Deus. É durante a época a que os Livros de Samuel aludem que, pela primeira vez na sua história, as tribos do Norte (Israel) e do Sul (Judá) se reúnem em torno de um único rei (David) e em torno de uma capital comum (Jerusalém). Estamos nos finais do séc. XI e princípios do séc. X a.C.

David tornou-se rei de Judá (Sul) por volta de 1012 a.C.; e, alguns anos depois, foi convidado pelas tribos de Israel (Norte) para reinar também sobre elas. Reuniu, portanto, sobre a sua cabeça as duas coroas – a de Israel (Norte) e a de Judá (Sul). Após a união de todas as tribos, David teve de eleger uma capital para o seu reino. Foi preciso encontrar, para sede desse reino unificado, uma cidade estrategicamente situada, neutra, que não despertasse rivalidades mútuas entre as distintas tribos. Ora Jerusalém, a cidade inexpugnável dos jebuseus, oferecia as condições exigidas… David reuniu, portanto, um comando de guerreiros profissionais, prescindindo intencionalmente do exército oficial de Israel e de Judá, a fim de que nenhum dos dois reinos reivindicasse o título de propriedade sobre a nova cidade. A cidade de Jerusalém foi conquistada aos jebuseus por volta do ano 1005 a.C. (cf. 2 Sm 5,6-12) e tornou-se, desde então, a “cidade de David”. Mais tarde, David fez transportar para Jerusalém a “Arca da Aliança” (o sinal visível da presença de Deus no meio do seu Povo), convertendo assim a nova capital do reino em cidade santa para todas as tribos (cf. 2 Sm 6,1-23).

Ora, uma vez em Jerusalém, a “Arca” pedia um Templo adequado para lhe dar abrigo. David pensou em construir esse Templo; mas o profeta Natã, inspirado por Javé, segundo o teólogo deuteronomista, opôs-se. Encontramos aqui o eco de uma disputa que dividirá durante muito tempo o Povo de Deus… Para alguns ambientes proféticos, o Templo era uma ofensa a Deus, uma tentativa de encerrá-l’O, em vez de deixar-se guiar por Ele. Javé é visto pelos teólogos do Povo de Deus como um Deus “nómada”, que acompanha o seu Povo pelos caminhos da vida e da história e que não tem um lugar fixo, limitado, fechado, para se encontrar com os homens. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • A questão fundamental que o texto coloca é a da atitude de Deus diante dos seres humanos e do mundo. O autor deste texto está seguro de que Javé, o Senhor da história, se preocupa com o caminho que os homens percorrem e encontra sempre forma de derramar o seu amor e a sua bondade sobre o Povo que ele próprio elegeu. Numa época em que a cultura dominante parece apostada em decretar a “morte” de Deus, ou em torná-lo uma inofensiva figura de cera arrumada no velho museu das experiências pré-racionais, é importante para nós, crentes, não esquecermos esta certeza que a Palavra de Deus nos deixa: o nosso Deus preside à história humana, vem continuamente ao encontro dos homens, faz com eles uma Aliança, oferece-lhes a paz e a justiça e aponta-lhes o caminho para a verdadeira vida, a verdadeira liberdade, a verdadeira salvação.
  • Se é Deus quem conduz a história humana, não temos razões para vivermos paralisados pelo medo e pela angústia. Mesmo que a humanidade insista em inventar mecanismos de violência, de injustiça, de opressão, de exploração, Deus saberá conduzir a história dos homens e do mundo a bom porto, de acordo com o seu projeto de amor e de salvação. Conscientes do amor e da solicitude de Deus, temos de encarar a vida com otimismo, com esperança e com confiança, mesmo quando as forças da morte parecerem controlar a nossa história e levantar obstáculos no nosso caminho.
  • Nestes dias que antecedem o Natal, é preciso ter consciência de que a promessa de Deus a David se concretiza em Jesus. Ele é esse “rei” da descendência de David que Deus enviou ao nosso encontro para nos apontar o caminho para o reino da justiça, da paz, do amor e da felicidade sem fim. Que acolhimento é que esse “rei” encontra no nosso coração e na nossa vida? Na nossa vida, sempre tão cheia e tão ocupada, há espaço para Jesus?
  • Mais uma vez, a Palavra deixa claro que Deus intervém no mundo e concretiza os seus projetos de salvação através de homens a quem Ele confia determinada missão (“tirei-te das pastagens onde guardavas os rebanhos, para seres o chefe do meu povo de Israel”). Estou disponível para que Deus, através de mim, possa continuar a oferecer a salvação aos meus irmãos, particularmente aos pobres, aos humildes, aos marginalizados, aos excluídos do mundo? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 88 (89)

Refrão: Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

LEITURA II – Rom 16,25-27

«Esta é a revelação do mistério que estava encoberto desde os tempos eternos, mas agora foi manifestado e dado a conhecer a todos os povos».

Contexto:

No final da década de 50 (a Carta aos Romanos apareceu por volta de 57/58), multiplicavam-se as “crises” entre os cristãos oriundos do mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão. Uns e outros tinham perspetivas diferentes da salvação e da forma de viver o compromisso com Jesus Cristo e com o seu Evangelho. Os cristãos de origem judaica consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras da Lei (nomeadamente a prática da circuncisão) para ter acesso à salvação; mas os cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja. Este problema também era sentido pela comunidade cristã de Roma.

Neste cenário, Paulo vai mostrar a todos os crentes (a Carta aos Romanos, mais do que uma carta para a comunidade cristã de Roma, é uma carta para as comunidades cristãs, em geral) a unidade da revelação e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus Cristo.

O texto que nos é proposto apresenta-nos os últimos versículos da Carta aos Romanos. Trata-se de uma solene doxologia final que não parece, contudo, ser de Paulo (ainda que os conceitos sejam paulinos, a terminologia é diferente). Provavelmente, constituía o remate final do epistolário paulino, numa antiga edição do mesmo. Trata-se de um texto maduramente refletido e trabalhado, sem dúvida fruto de uma profunda reflexão teológica levada a cabo no seio da comunidade cristã. O seu autor foi, certamente, um cristão dos finais do século I ou dos princípios do séc. II. Profundo conhecedor da teologia paulina e absolutamente comprometido com a Igreja a que pertencia, este cristão procurou sintetizar nestes versículos toda a doutrina do apóstolo Paulo.

in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • A segunda leitura reitera a mensagem fundamental da primeira: Deus tem um projeto de salvação em nosso favor. O facto de esse projeto existir “desde os tempos eternos” mostra que a preocupação e o amor de Deus pelos seus filhos não são um facto acidental ou uma moda passageira, mas algo que faz parte do ser de Deus e que está desde sempre no plano de Deus. Não esqueçamos isto: não somos seres abandonados à nossa sorte, perdidos e à deriva num universo sem fim; mas somos seres amados por Deus, pessoas únicas e irrepetíveis que Deus ama, cuida e guia pela história. A meta final para onde Ele nos conduz é a vida plena, a felicidade sem fim, a salvação. Esta convicção deve encher os nossos corações de alegria, de esperança e de gratidão.
  • A leitura deixa ainda claro que esse projeto de salvação foi totalmente revelado em Jesus Cristo, no seu amor até ao extremo, nos seus gestos de bondade e de misericórdia, na sua atitude de doação e de serviço, no seu anúncio do Reino de Deus. Prepararmo-nos para o Natal significa preparar o nosso coração para acolher Jesus, para aceitar os seus valores, para compreender o seu jeito de viver, para aderir ao projeto de salvação que, através d’Ele, Deus Pai nos oferece. in Dehonianos.

EVANGELHO – Lc 1,26-38

«O Anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem chamado José».

«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».

«O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra».

Contexto:

O texto de Lucas que nos é proposto neste quarto domingo do advento pertence ao chamado “Evangelho da Infância”. Ora, os “Evangelhos da Infância de Jesus” (quer o de Mateus, quer o de Lucas) enquadram-se num género literário próprio, que recorre às técnicas do midrash haggádico (uma técnica de leitura e de interpretação do texto sagrado usada pelos rabis judeus) para nos apresentar o mistério de Jesus. A preocupação dos evangelistas que nos legaram os “Evangelhos da Infância” não é apresentar um relato factual dos acontecimentos dos primeiros anos de Jesus, mas sim oferecer às suas comunidades uma catequese que proclame determinadas realidades salvíficas (que Jesus é o Messias, que Ele vem de Deus, que Ele é o “Deus connosco”). Com recurso a tipologias (correspondência entre certos factos e pessoas do Antigo Testamento e outros factos e pessoas do Novo Testamento), a manifestações apocalípticas (anjos, aparições, sonhos) e a outros recursos literários, Mateus e Lucas tecem as suas catequeses sobre Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens. O Evangelho que nos é hoje proposto deve ser entendido a esta luz e neste enquadramento.

A cena situa-nos numa aldeia da Galileia, chamada Nazaré. A Galileia, região a norte da Palestina, à volta do Lago de Tiberíades, era considerada pelos judeus uma terra longínqua e estranha, em permanente contacto com as populações pagãs e onde se praticava uma religião heterodoxa, influenciada pelos costumes e pelas tradições pagãs. Daí a convicção dos mestres judeus de Jerusalém de que “da Galileia não pode vir nada de bom”. Quanto a Nazaré, era uma aldeia pobre e ignorada, nunca nomeada na história religiosa judaica e, portanto (de acordo com a mentalidade judaica), completamente à margem dos caminhos de Deus e da salvação.

Maria, a jovem de Nazaré que está no centro deste episódio, era “uma virgem desposada com um homem chamado José”. O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro (os “esponsais”); só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo (as cerimónias do matrimónio propriamente dito). Entre os “esponsais” e o rito do matrimónio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo uma penalidade. Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um carácter estável, de tal forma que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27). E a união entre os dois “prometidos” só podia dissolver-se com a fórmula jurídica do divórcio. José e Maria estavam, portanto, na situação de “prometidos”: ainda não tinham celebrado o matrimónio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Também o Evangelho deste domingo, na linha das outras duas leituras, afirma, de forma clara e insofismável, que Deus ama os homens e, na sua solicitude de Pai, tem um projeto de vida plena para lhes oferecer. Esta certeza tem de servir de âncora a toda a nossa vida e acompanhar cada passo que damos. Esta certeza muda a nossa perspetiva das coisas e permite-nos ver a vida com as cores da alegria, da confiança e da esperança.
  • Como é que esse Deus cheio de amor pelos seus filhos intervém na história humana e concretiza, dia a dia, a sua oferta de salvação? A história de Maria de Nazaré, bem como a de tantos outros “chamados”, responde, de forma clara, a esta questão: é através de homens e mulheres atentos aos projetos de Deus e de coração disponível para o serviço dos irmãos, que Deus atua no mundo, que Ele manifesta aos homens o seu amor, que Ele convida cada pessoa a percorrer os caminhos da felicidade e da realização plena. Já pensámos que é através dos nossos gestos de amor, de partilha e de serviço que Deus Se torna presente no mundo e transforma o mundo?
  • Neste domingo que precede o Natal de Jesus, a história de Maria mostra como é possível fazer Jesus nascer no mundo: através de um “sim” incondicional aos projetos de Deus. É preciso que, através dos nossos “sins” de cada instante, da nossa disponibilidade e entrega, Jesus possa vir ao mundo e oferecer aos nossos irmãos – particularmente aos pobres, aos humildes, aos infelizes, aos marginalizados – a salvação e a vida de Deus.
  • Outra questão é a dos instrumentos de que Deus se serve para realizar os seus planos… Maria era uma jovem mulher de uma aldeia obscura dessa “Galileia dos pagãos” de onde não podia “vir nada de bom”. Não consta que tivesse uma significativa preparação intelectual, extraordinários conhecimentos teológicos, ou amigos poderosos nos círculos de poder e de influência da Palestina de então. Apesar disso, foi escolhida por Deus para desempenhar um papel primordial na etapa mais significativa na história da salvação. A história vocacional de Maria deixa claro que, na perspetiva de Deus, não são o poder, a riqueza, a importância ou a visibilidade social que determinam a capacidade para levar a cabo uma missão. Deus age através de homens e mulheres, independentemente das suas qualidades humanas. O que é decisivo é a disponibilidade e o amor com que se acolhem e testemunham as propostas de Deus.
  • Diante dos apelos de Deus ao compromisso, qual deve ser a resposta do homem? É aí que somos colocados diante do exemplo de Maria… Confrontada com os planos de Deus, Maria responde com um “sim” total e incondicional. Naturalmente, ela tinha o seu programa de vida e os seus projetos pessoais; mas, diante do apelo de Deus, esses projetos pessoais passaram naturalmente e sem dramas a um plano secundário. Na atitude de Maria não há qualquer sinal de egoísmo, de comodismo, de orgulho, mas há uma entrega total nas mãos de Deus e um acolhimento radical dos caminhos de Deus. O testemunho de Maria é um testemunho que questiona e que nos interpela… Que atitude assumimos diante dos projetos de Deus: acolhemo-los sem reservas, com amor e disponibilidade, numa atitude de entrega total a Deus, ou assumimos uma atitude egoísta de defesa intransigente dos nossos projetos pessoais e dos nossos interesses particulares?
  • É possível alguém entregar-se tão cegamente a Deus, sem reservas, sem medir os prós e os contras? Como é que se chega a esta confiança incondicional em Deus e nos seus projetos? Naturalmente, não se chega a esta confiança cega em Deus e nos seus planos sem uma vida de diálogo, de comunhão, de intimidade com Deus. Maria de Nazaré foi certamente uma mulher para quem Deus ocupava o primeiro lugar e era a prioridade fundamental. Maria de Nazaré foi seguramente uma pessoa de oração e de fé, que fez a experiência do encontro com Deus e aprendeu a confiar totalmente n’Ele. No meio da agitação de todos os dias, encontro tempo e disponibilidade para ouvir Deus, para viver em comunhão com Ele, para tentar perceber os seus sinais nas indicações que Ele me dá? in Dehonianos

Para os leitores:

            Na primeira leitura deve ter-se em atenção as diversas intervenções em discurso direto para uma melhor compreensão do texto.

A brevidade da segunda leitura não deve descurar a sua preparação e deve ter-se em atenção a segunda frase que sendo longa e contendo diversas orações reclama maior cuidado. Além disso, deve ter-se presente a forma doxológica da última frase.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

DEIXAR O CÉU FALAR… E ADORAR!

Este Domingo IV do Advento deixa-nos à beirinha do Natal do Senhor. O Evangelho neste Dia proclamado (Lucas 1,26-38) é um tecido sublime, que as Igrejas do Ocidente conhecem por «Anunciação», e as do Oriente por «Evangelização». Do céu chega a Alegria incandescente a casa de Maria: «Alegra-te, Maria» [= «Chaîre Maria»; «Ave Maria»], «o Senhor está contigo» (Lucas 1,28), «não tenhas medo» (Lucas 1,30), diz a Maria o anjo Gabriel enviado por Deus. Alguns anos mais tarde, as mulheres que vão ao túmulo de Jesus ouvirão também a mesma música divina: «Alegrai-vos» (Mateus 28,9), «não tenhais medo» (Mateus 28,5). E nós, Assembleia Santa que hoje se reúne para celebrar os mistérios do seu Senhor e também de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, estamos também permanentemente a ouvir esta divina melodia. Portanto, irmãos amados em Cristo, Alegrai-vos, não tenhais medo, o Senhor está no meio de nós!

O centro da cena é de Maria, que podemos ver em alta sintonia com a Palavra de Alegria que lhe chega de Deus. Ao contrário da nossa muito ocidental maneira de ver e de sentir, note-se bem que Maria não esboça qualquer reação à presença do anjo, que tão-pouco é narrada. Ela fica perturbada é com a Palavra que lhe cai nos ouvidos e no coração (Lucas 1,29). «Conceberá no ventre» o Filho de Deus (Lucas 1,31-33). «Conceber no ventre» é um pleonasmo intencional só dito de Maria por duas vezes (Lucas 1,31 e 2,21), claramente para a pôr em pura sintonia com o Deus do «ventre das misericórdias» (Lucas 1,78). Note-se como, na sequência do texto, de Isabel só se diz que «concebeu» (Lucas 1,36).

Quando revisitamos os dois quadros de anunciação que Lucas nos serve alinhados lado-a-lado, o anúncio no Templo a Zacarias e o anúncio em Nazaré a Maria, saltam logo à vista a diferente identidade, os contornos e o contraste das figuras. O anjo Gabriel (cf. Lucas 1,19), no Templo, aparecido a Zacarias, anuncia-lhe a fecundidade de Isabel e o nascimento de João como cumprimento da sua oração (Lucas 1,13). Em puro contraste, o mesmo anjo Gabriel, na humilde Nazaré (Lucas 1,26), anuncia a Maria o inaudito, sem precedentes na história de Israel. O Filho que vai nascer (Lucas 1,31) não surge como o fruto de um desejo ou de uma súplica de Maria, não vem cumprir nenhum projeto de Maria, nenhuma espera ou expetativa de Maria, nenhuma programação desde baixo! Antes pelo contrário, dado que Maria avança mesmo a impossibilidade real de tal poder vir a acontecer: «Como poderá isso acontecer, pois não conheço homem?» (Lucas 1,34). Contraste exposto a toda a luz: João é fruto de um intenso desejo e correspondente súplica de Isabel e Zacarias; Jesus é fruto da iniciativa surpreendente, livre e gratuita de Deus, não dedutível ou programável da nossa parte. É como se as escolhas dos pais de João Batista, por um lado, e da mãe de Jesus, por outro, derivassem de duas lógicas diferentes. Contemplando este cenário e parafraseando Bento XVI (Exortação Apostólica Verbum Domini [2010], n.º 123), poderíamos dizer assim: «nós podemos programar uma festa, / mas não podemos programar a alegria,/ não podemos programar Maria». Ela salta fora do horizonte do desejo, não é possível encerrá-la dentro do perímetro da linguagem, da fita métrica das palavras por mais extensa que ela seja, como quando longa e belamente desfiamos as contas, a harizah das ladainhas.

Ultrapassada a objeção, Maria responde: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra» (Lucas 1,38). Na Bíblia, apenas os grandes chamados (Moisés, Josué, David) são denominados «Servos do Senhor», sendo Maria a única mulher assim denominada. Deus chama, mas não impõe. A Maria, e a cada um de nós. Podemos sempre aceitar Deus ou esconder-nos de Deus. Deixar Deus entrar, ou fechar-lhe a porta. Maria aceitou, e, por isso, todas as gerações a proclamarão Bem-aventurada. É o que estamos hoje e aqui a fazer: Feliz és tu, Maria, pioneira de um mundo novo, porque acreditaste em tudo quanto te foi dito da parte do Senhor! Feliz também aquele que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática!

Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099 pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

Em consonância com a música do Evangelho, o Segundo Livro de Samuel documenta, no extrato lido hoje (7,1-16), o desejo de Deus vir habitar no meio de nós. Não num Templo de pedra, mas num Templo de tempo, podendo assim caminhar connosco sempre, como já fez com David, e quer continuar a fazer connosco. É usual, de resto, dizer-se que nós construímos o espaço, enquanto os judeus construíram o tempo!

Aí está também São Paulo a expor-nos, no final da Carta aos Romanos (16,23-25) a grande teologia bíblica do Mistério (mystêrion) do Amor de Deus, Mistério escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Efésios 3,9; Colossenses 1,26), mas já presente e atuante na história dos homens desde a Criação (João 1,3; Colossenses 1,16) e agora dado a conhecer (gnôrízô) em Cristo (Romanos 16,25-26; Efésios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita, doação do Dom e dicção do Dito, totalmente entregue aos homens, para a viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (próthesis) eterno divino (Romanos 8,28; Efésios 1,11), a Vontade (thélêma) eterna divina (Gálatas 1,4; Efésios 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Omega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 João 3,2). Ao contrário do significado usual que damos à palavra «mistério», na Bíblia, como se vê, «mistério» não é o que não se sabe, mas o que Deus, por graça, nos dá a saber. E é tanto e adorável, e, visto apenas do nosso pequeno patamar, impensável!

É por isso que a hora é de cantar. O tema é, claro está, a bondade e a graça de Deus, que desceu até nós numa história que também foi e vai tecendo por amor. O Salmo 89 insinua-se nas cordas do nosso coração, e não nos deixa parar de cantar eternamente as misericórdias do Senhor!

Se o Senhor não construir a casa,
Em vão trabalham os que a constroem.
Se o Senhor não guardar a cidade,
Em vão vigiam as sentinelas.

 Não se pode esconder uma cidade
Situada no cimo de um monte,
Ou sobre a linha do horizonte,
Porque alumia, alumia, alumia,
Irradia, irradia, irradia,
De noite e de dia.
Cidade de alto-a-baixo erguida,
Como um manto de orvalho caída,
Como uma ermida,
Uma jazida de luz
E de Jesus.

 Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,
Lançai os fundamentos no céu,
Construí desde o cume,
Sobre o gume da Palavra
Que de Deus vem
Nascer em Belém
E aqui também.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo IV do Tempo do Advento – Ano B – 24.12.2023 (2 Sam 7, 1-5.8b-12.14a-16)
  2. Leitura II do Domingo IV do Tempo do Advento – Ano B – 24.12.2023 (Rom 16, 25-27)
  3. Domingo IV do Tempo do Advento – Ano B – 24.12.2023 – Lecionário
  4. Domingo IV do Tempo do Advento – Ano B – 24.12.2023 – Oração Universal
  5. Natal – Ano B – 25.12.2023 – Lecionário
  6. Natal – Ano B – 25.12.2023 – Oração Universal
  7. ANO B – O ano do evangelista Marcos

Domingo III do Tempo do Advento – Ano B – 17.12.2023

O terceiro Domingo de Advento é também designado como Domingo Gaudete, isto é, Domingo da Alegria.

Viver a Palavra       

A Liturgia da Palavra deste Domingo é marcada pelo convite à alegria: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus»; «A minha alma exulta no Senhor»; «Vivei sempre alegres, orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias». A Palavra de Deus, Boa Nova da Salvação, anúncio alegre e jubiloso da presença de Deus nas nossas vidas, desafia-nos a viver marcados pela alegria nova que brota do encontro único e decisivo com Jesus Cristo: «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (EG 1).

Efetivamente, muitos dos nossos contemporâneos poderão dizer-nos que no atual contexto social e cultural se torna muito difícil e exigente anunciar a alegria porque as nossas vidas estão marcadas pelo medo e pela insegurança de um vírus que provoca isolamento, sofrimento e morte. Contudo, a alegria nova que brota do coração de Jesus Cristo é muito mais do que um mero contentamento, umas gargalhadas rasgadas ou um narcótico que nos aliena e nos faz entrar numa esfera de alegria e bem-estar. A alegria do Evangelho é alegria nova dos que sabem amados, amparados e acompanhados por Jesus Cristo, Aquele que venceu o pecado e a morte e rasga diante de nós caminhos novos de esperança e confiança. A alegria de Jesus é aquela que no meio do sofrimento se chama força para enfrentar os desafios e dores. A alegria de Jesus é aquela que diante dos obstáculos e dificuldades do caminho se chama coragem e perseverança. A alegria de Jesus é aquela que diante da perda daqueles que amamos se chama esperança na vida eterna.

Deste modo, a alegria nova que brota do encontro com Jesus Cristo plasma a nossa vida de uma confiança absolutamente nova que nos faz olhar o tempo e a história como lugar da presença de Deus, conscientes que as dificuldades e exigências do caminho hão-de passar e a presença de Deus terna e misericordiosa permanece como garante de alegria e esperança.

Como João somos chamados a ser testemunhas de um amor maior que é luz que brilha no meio de sombras do tempo e da história. João sabe que só Jesus é a luz plena e verdadeira e que diante dele é pequeno e frágil e nem é digno de desatar a correia das suas sandálias. Mas a sua pequenez e fragilidade, não são um obstáculo ao seu testemunho, mas o lugar oportuno a partir do qual ele comunica a sua mensagem de amor e esperança. João não é testemunha da grandeza, nem da majestade, mas da luz. Ele é testemunha alegre e jubilosa de que as sombras do tempo presente não têm a última palavra porque sobre nós brilha a luz «terna e suave» que inunda de esperança as nossas vidas.

Por três vezes neste texto do Evangelho perguntam a João: «quem és tu?» e por três vezes ele responde: «não sou». João não constrói a sua identidade a partir de si próprio, mas a partir de Jesus Cristo de quem ele é enviado e percursor. Deste modo, também cada um de nós mais do que se deter na pergunta «quem sou eu?», deve perguntar-se «quem sou eu a partir de Jesus?». Aqui descobriremos a nossa identidade mais profunda, inscrevendo a nossa identidade no horizonte maior e mais largo do amor de Deus e do Seu desígnio de salvação. in Voz Portucalense.

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Estamos num novo Ano Litúrgico – o Ano B. Durante todo este ano litúrgico – 2023/2024 -, acompanhamos o evangelista S. Marcos em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso. Em anexo à Liturgia da Palavra ficará disponível um texto sobre o evangelista Marcos. Também poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – Is 61,1-2a.10-11

«Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus, que me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de justiça».

Contexto:

Os textos do Profeta conhecido como Trito-Isaías (Is 56-66) situam-nos na época posterior ao Exílio e numa Jerusalém em reconstrução. Para os retornados do Exílio, são tempos difíceis e incertos… A população da cidade é pouco numerosa, a reconstrução é lenta e modesta, os inimigos estão à espreita. Por outro lado, os retornados são recebidos com frieza e hostilidade pelos poucos habitantes de Jerusalém que tinham ficado na cidade e que não tinham ido para o Exílio… Aos poucos, com a reorganização da vida na cidade, voltam as injustiças dos poderosos sobre os fracos e os pobres, bem como a corrupção, a venalidade e a prepotência dos chefes. O Povo está desanimado e sem esperança.

Os profetas que desenvolvem a sua missão nesta fase vão tentar acordar a esperança num futuro de vida plena e de salvação definitiva. Nesse sentido, vão falar de uma época em que Deus vai voltar a residir em Jerusalém, oferecendo em cada dia ao seu Povo a vida e a salvação. Essa “salvação” implicará, não só a reconstrução de Jerusalém e a restauração das glórias passadas, mas também a libertação dos pobres, dos oprimidos, dos fracos, dos marginalizados.

O texto que hoje nos é proposto é o princípio (vers. 1-2) e o fim (vers. 10-11) do capítulo 61 do Livro de Isaías. A menção do “Senhor Deus” (em hebraico, Javé-Adonai) no versículo 1 e no versículo 11 confirma que todo este capítulo apresenta uma clara unidade textual e temática. O capítulo está claramente dividido em três secções. Na primeira (vers. 1-3a), o profeta define a sua própria vocação; na segunda (vers. 3b-9), cita palavras do Senhor que prometem a restauração do Povo, da Aliança e de Jerusalém; na terceira (vers. 10-11), apresenta uma declaração de alegria, provavelmente de Jerusalém, em face da promessa de Deus. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • O profeta garante aos “pobres” que Deus não os abandona à sua miséria e sofrimento e que tem um projeto de vida e de felicidade para lhes oferecer. Esta “notícia” deve encher de esperança todos aqueles que não têm acesso aos bens essenciais (educação, saúde, trabalho, justiça, amor), que não têm vez nem voz, que são injustiçados e explorados, que todos os dias são triturados por um sistema económico que não cessa de gerar exclusão, alienação e miséria. O Deus em quem acreditamos, diz o Trito-Isaías, não é um Deus indiferente, que pactua com o racismo, a exclusão, a violência, a guerra, a exploração, o terrorismo, a prepotência; mas é um Deus que ama cada “pobre”, cada explorado, cada injustiçado; Ele estará ao lado dos que sofrem e dará sempre aos pequenos, aos marginalizados, aos excluídos a força para vencer o desânimo, a miséria, as forças da opressão e da morte. É com esse Deus que “viajamos”, é esse Deus que nos conduz na nossa peregrinação pela terra? Somos todos convidados a acolher com alegria esta “Boa Nova”.
  • Como é que Deus atua no mundo? Não é, normalmente, através de manifestações estrondosas e espetaculares, que deixam a humanidade abismada e assustada; mas é através dos gestos “banais” desses profetas a quem Ele confia a missão de lutar contra as forças da opressão e da morte e a quem Ele chama a testemunhar, no meio dos “pobres”, o amor, a liberdade, a justiça, a verdade, a vida. Cada crente é um profeta, chamado a ser testemunha de Deus e sinal vivo do seu amor, da sua justiça e da sua paz. Como é que eu me situo face a isto? Sinto-me profeta, chamado a testemunhar o amor, a vida, a liberdade de Deus? Os “pobres”, os oprimidos, os excluídos encontram em mim um sinal vivo do amor de Deus? Tenho a coragem de arriscar, de lutar, de dar a cara para que o mundo seja melhor?
  • Os versículos finais do texto apresentam a reação agradecida e jubilosa do Povo à ação salvadora de Deus… A descoberta do amor e da presença libertadora de Deus não pode senão conduzir ao louvor, à adoração, à alegria. Sei ser grato ao Senhor pela sua presença amorosa, salvadora e libertadora na vida do mundo e na minha vida? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Lc 1,46-48.49-50.53-54

Refrão: A minha alma exulta no Senhor.

LEITURA II – 1 Tes 5,16-24

«Vivei sempre alegres, orai sem cessar, dai graças em todas as circunstâncias».

Contexto:

No século I da nossa era, Tessalónica era a cidade mais importante da Macedónia. Porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.

A cidade foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalónica acompanhado por Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto, talvez uns três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colónia judaica. Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. At 17,5-9). Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas (cf. At 17,10-15).

Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalónica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1 Tes 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1 Ts 3,2-5). Quando Timóteo voltou para apresentar o seu relatório, encontrou Paulo em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de Tessalónica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspetos menos exemplares da vida da comunidade.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.

O texto que hoje nos é proposto faz parte das exortações com que Paulo encerra a carta. Depois dos ensinamentos sobre a segunda vinda do Senhor (cf. 1 Ts 4,13-18) e de um convite veemente a esperar, vigilantes, esse momento final da história humana (cf. 1 Ts 5,1-11), Paulo apresenta alguns elementos concretos que os tessalonicenses devem ter sempre em conta e que devem marcar a existência cristã nesse tempo de espera (cf. 1 Ts 5,12-28). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Na sua caminhada pela história – feita entre alegrias e tristezas, sofrimentos e esperanças –, os crentes não podem perder de vista a meta final que dá sentido a tudo: o encontro com o Senhor. Atentos e vigilantes, eles vão identificando a cada passo os projetos e os desafios de Deus; e vão respondendo com coerência e fidelidade a esses desafios. Isto consta do meu projeto de vida?
  • O caminho cristão deve ser percorrido na alegria… O cristão é alegre, porque sabe para onde caminha e está certo de que no final da caminhada encontra os braços amorosos de Deus que o acolhem e o conduzem para a felicidade plena, para a vida definitiva. Nem os sofrimentos, nem as dificuldades, nem as incompreensões, nem as perseguições podem eliminar essa alegria serena de quem confia no encontro com o Senhor. É essa alegria serena e essa paz que marcam a nossa existência e que brilham nos nossos olhos, ou somos seres derrotados, desiludidos, que se arrastam pela vida mergulhados no desespero e na solidão, sem rumo e ao sabor da corrente e das marés?
  • O caminho cristão deve ser percorrido, também, num diálogo nunca acabado com Deus. O crente é alguém que “ora sem cessar” e “dá graças em todas as circunstâncias” pelos dons de Deus, pela sua presença amorosa, pela salvação que Deus não cessa de oferecer em cada passo da caminhada. Além disso, é falando com Deus que nos apercebemos dos seus projetos e dos passos que ele nos convida a dar. Conseguimos, no meio da agitação do dia a dia, encontrar espaços para o diálogo com Deus? Sentimo-nos gratos por esses dons que, a cada instante, Deus nos oferece?
  • O caminho cristão deve ser percorrido numa atitude de permanente atenção aos dons e aos desafios do Espírito. Procuramos estar atentos às propostas de Deus, ou deixamo-nos prender num esquema de instalação, de rotina, de preconceitos que não nos deixam acolher e responder aos apelos e à novidade de Deus? in Dehonianos.

EVANGELHO – Jo 1,6-8.19-28

«Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele».

«Eu batizo na água, mas no meio de vós está Alguém que não conheceis: Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».

Contexto:

O Evangelho segundo João começa com uma composição que se convencionou chamar “prólogo” (cf. Jo 1,1-18). Trata-se, provavelmente, de um primitivo hino cristão conhecido da comunidade joânica, que o autor do Quarto Evangelho adaptou e onde se expressa a fé da comunidade em Cristo, Palavra viva de Deus. Os primeiros três versículos do texto que hoje nos é proposto (cf. Jo 1,6-8) pertencem a esse “prólogo”.

Depois do “prólogo”, o autor do Quarto Evangelho desenvolve, em várias etapas, a sua catequese sobre Jesus. Na “secção introdutória” que se segue imediatamente ao “prólogo” (cf. Jo 11,19-3,36), ele procura dizer quem é Jesus e definir a sua missão, fazendo entrar sucessivamente em cena várias personagens cuja função é apresentar ao leitor a figura de Jesus. De entre estas personagens, sobressai a figura de João Baptista, o “apresentador” oficial de Jesus. Ele aparece no início (cf. Jo 1,19-37) e no fim (cf. Jo 3,22-36) dessa secção introdutória a dar testemunho sobre Jesus. O corpo central do texto evangélico que hoje nos é proposto apresenta, precisamente, um primeiro testemunho que João dá sobre Jesus, diante dos enviados das autoridades judaicas.

Para percebermos o alcance do diálogo entre João e os líderes judaicos, é preciso ter em conta o ambiente político, social e religioso da Palestina do século I. Dominado pelos romanos, humilhado e impossibilitado de definir o seu destino, explorado por uma classe dirigente comodamente instalada nos seus privilégios, escravizado por um sistema religioso ritual e legalista, o Povo de Deus vivia na expetativa da chegada do Messias libertador, enviado por Deus para inaugurar uma nova era de liberdade, de alegria, de felicidade. Muitos israelitas estavam dispostos a aproveitar qualquer oportunidade de libertação e eram presa fácil dos falsos messias e dos vendedores de sonhos. As frequentes aventuras messiânicas falhadas só aumentavam a violência, a miséria, a pobreza e a frustração nacional.

Os líderes religiosos judaicos não gostavam de ouvir falar na chegada do Messias. De facto, um dos objetivos do Messias, segundo a conceção corrente, deveria ser a reforma das instituições, o que afetaria a estrutura religiosa judaica e mexeria com os privilégios da hierarquia sacerdotal. Não admira, pois, que as autoridades se inquietassem diante da atividade de João. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a endireitar “o caminho do Senhor”. Na linguagem do Evangelho segundo João, é um convite a deixar “as trevas” e a nascer para “a luz”. Implica, na vida prática, abandonar a mentira, os comportamentos egoístas, as atitudes injustas, os gestos de violência, os preconceitos, o comodismo, a autossuficiência, tudo o que desfeia a nossa vida, nos torna escravos e nos impede de chegar à verdadeira felicidade. Em termos pessoais, quais são as mudanças que eu tenho de operar na minha existência para passar das “trevas” para a “luz”? O que é que me escraviza e me impede de ser plenamente feliz? O que é que em mim gera desilusão, frustração, desencanto, sofrimento?
  • A “voz”, através da qual Deus fala, convida-nos a olhar para Jesus, pois só Ele é “a luz” e só Ele tem uma proposta de vida verdadeira para nos apresentar. À nossa volta abundam os “vendedores de sonhos”, com propostas de felicidade “absolutamente garantida”. Atraem-nos, seduzem-nos, manipulam-nos, escravizam-nos e, quase sempre, deixam-nos dececionados e infelizes, mais angustiados, mais perdidos, mais frustrados. João garante-nos: só Jesus é “a luz” que liberta os homens da escravidão e das trevas e lhes oferece a vida verdadeira e definitiva. A quem dou ouvidos: às propostas de Jesus, ou às propostas da moda, do politicamente correto, das pessoas “in” que aparecem dia a dia nas colunas e nas redes sociais e que ditam o que está certo e está errado à luz dos critérios do mundo? Que significado é que Jesus e a sua proposta assumem no meu dia a dia?
  • Jesus marca realmente a minha existência? Os valores que Ele veio propor têm peso e impacto nas minhas decisões e opções? Quando celebro o nascimento de Jesus, celebro um acontecimento do passado que deixou a sua marca na história, ou celebro o encontro com alguém que é “a luz” que ilumina a minha existência e que enche a minha vida de paz, de alegria, de liberdade?
  • O “homem chamado João”, enviado por Deus “para dar testemunho da luz”, convida-nos a pensar sobre a forma de Deus atuar na história humana e sobre as responsabilidades que Deus nos atribui na recriação do mundo… Deus não utiliza métodos espetaculares e assombrosos para intervir na nossa história e para recriar o mundo; mas Ele vem ao encontro dos homens e do mundo para os envolver no seu amor através de pessoas concretas, com um nome e uma história, pessoas “normais” a quem Deus chama e a quem confia determinada missão. A todos nós, seus filhos, Deus confia uma missão no mundo, a missão de dar testemunho da “luz” e de tornar presente, para os nossos irmãos, a proposta libertadora de Jesus. Tenho consciência de que Deus me chama e me envia ao mundo? Como é que eu respondo ao chamamento de Deus: com disponibilidade e entrega, ou com preguiça, comodismo e instalação?
  • A atitude simples e discreta com que João se apresenta é muito sugestiva: ele não procura atrair sobre si as atenções, não usa a missão para a sua glória ou promoção pessoal, não busca a satisfação de interesses egoístas; ele é apenas uma “voz” anónima e discreta que recorda, na sombra, as realidades importantes. João é uma tremenda interpelação para todos aqueles a quem Deus chama e envia… Com ele, o profeta – isto é, todo aquele a quem Deus chama e a quem confia uma missão – deve aprender a ficar na sombra, a ser discreto e simples, de forma a que as pessoas não o vejam a ele mas às realidades importantes que ele propõe.
  • A atitude dos fariseus e dos líderes judaicos – cheios de preconceitos, preocupados em manter os seus esquemas de poder e instalação, acomodados nos seus privilégios – impede-os de conhecer “a luz” que está a chegar. Trata-se de um aviso, para nós: quando nos instalamos no nosso comodismo, no nosso bem-estar, na nossa autossuficiência, fechamos o coração à novidade e aos desafios que Deus nos faz. Dessa forma, não reconhecemos Jesus quando Ele vem ao nosso encontro e não O deixamos entrar na nossa vida. A Palavra neste tempo de Advento convida-nos à desinstalação, a fim de que o Senhor que vem possa nascer e permanecer na nossa vida. in Dehonianos

Para os leitores:

            O terceiro Domingo de Advento é também designado como Domingo Gaudete, isto é, Domingo da Alegria. Deste modo, a Liturgia da Palavra deste dia é marcada pelo tom alegre, feliz e jubiloso. A proclamação das leituras deve ter a marca da alegria e do anúncio de esperança que brota da palavra proclamada. Contudo, se, na primeira leitura, o texto está escrito na primeira pessoa e exprime a alegria pessoal de quem foi revestido pelo Espírito do Senhor, a segunda leitura é marcada por verbos na forma imperativa, convidando à alegria.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

MAIS TERMOSTATOS, MENOS TERMÓMETROS

O Evangelho deste Domingo III do Advento põe em cena a figura de João Batista (João 1,6-8.19-28). Entalado entre os dois Testamentos, fechando a porta do Antigo, abrindo a porta do Novo, João, hebraico Yhôhanan [= «YHWH faz graça»], resume o Antigo Testamento e oferece o sumário do Novo Testamento. Não é um nome nosso, suportado pelos nossos registos anagráficos, como bem constatam os seus familiares reunidos, aos oito dias, para a festa da circuncisão e da dádiva do nome: na verdade, ninguém, entre os seus parentes, tinha esse nome (Lucas 1,61), pelo que todos ficaram admirados (Lucas 1,63).

Na verdade, esse nome veio do céu, como bem refere Lucas 1,13. E o IV Evangelho di-lo desta maneira estupenda e singela: «Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João» (João 1,6). João surge, portanto, neste imenso Evangelho sem qualquer amarra a este mundo: sem pai nem mãe (Zacarias e Isabel não são referidos), sem proveniência terrena, sem introdução, sem luz própria. Só Deus o precede e o sustenta.

Como pode, pois, responder à questão que lhe é posta acerca da sua identidade? Desvia de si mesmo todas as atenções: NÃO sou, NÃO sou, NÃO sou! NÃO é a Luz, NÃO é o Messias, NÃO é Elias, NÃO é o Profeta! Dirige todas as atenções para a LUZ, de quem dá testemunho, de quem é reflexo. João nunca responde: «Eu sou…». Mesmo quando responde à pergunta: «Para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?» (João 1,22), João não responde, como aparece vulgarmente nas traduções: «Eu sou a voz do que clama no deserto» (João 1,23), mas literalmente: «Eu? A voz do que clama no deserto», evitando cuidadosamente a locução «Eu sou», que fica reservada para Jesus. E, ainda assim, tomando sempre as devidas precauções, João diz «voz» (phonê), e não «palavra» (lógos). Porque a Palavra (lógos) também é Jesus.

Sim, a LUZ, o EU SOU, a PALAVRA é Jesus. Mas Jesus é ainda, no certeiro dizer de João, «QUEM está NO MEIO de vós» (João 1,26). É de Jesus o lugar de honra. Face ao MEIO, no IV Evangelho, João aparece sempre «no outro lado do Jordão» (João 1,28; 3,26; 10,40), fora da Terra Prometida, mas apontando sempre para ela e para ELE. João é a inteira Escritura apontando Jesus em contraluz, em filigrana pura.

A luminosa página de Isaías 61,1-2.10-11 traça a vocação e a missão do anónimo profeta pós-exílico. Vocação e missão a transbordar de alegria e de beleza, que Jesus faz sua quando, na sinagoga de Nazaré, lhe apõe a sua assinatura com aquele: «Hoje cumpriu-se esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21). Trata-se de um verdadeiro tornado que muda a história religiosa dos filhos de Deus, contagiando também a inteira criação.

Maria também canta essa alegria no magnificat (Lucas 1,46-54), hoje, Domingo da Alegria, elevado a Salmo Responsorial. E nós com ela, de geração em geração (Lucas 1,48). Isabel foi a primeira a proclamar «Feliz», «Bem-aventurada» (makaría) Maria, porque acreditou no cumprimento (teleíôsis) de tudo o que lhe foi revelado (laléô) da parte do Senhor (Lucas 1,45). Maria «cumprimentada» por Deus, por Isabel, por cada um de nós. Sim, porque Maria é a «causa da nossa alegria», como cantamos na sua litania. E é-o porque foi olhada com um olhar de graça (epiblépô) por Deus (Lucas 1,48), que fez (verbo da criação) para ela grandes coisas (Lucas 1,49), e assim vinha fazendo desde Abraão (Lucas 1,55), e assim continua a fazer ainda hoje e sempre.

E São Paulo, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses (5,16-24), também se associa a esta onda de Alegria, com o seu estilo próprio, sobrecarregado de imperativos e de totalidade: «Alegrai-vos sempre! Orai sem cessar! Em tudo dai graças […]. Não apagueis o Espírito. Examinai tudo: guardai o que é bom!».

No meio do frio próprio do tempo, o Domingo III do Advento atira-nos uma imensa chama de Alegria. Tempo novo. Jesus, a Luz, no Meio. E nós por perto, ao redor dessa fogueira. Haverá, por certo, assim esperamos, mais termostatos, e menos termómetros.

São estes os caminhos do Advento,
Cheiinhos do vento do Espírito,
Que derruba as folhas secas das árvores,
E nos faz ver
Que somos todos como a erva,
E a nossa glória não é mais do que a flor da erva.
Mas seca a erva e murcha a flor,
E nós passamos.

 Sim, estamos de passagem.
Mas sentimos no rosto,
Ou talvez no coração,
A tua aragem mansa,
Que nos enche de paz e confiança.

 O Advento é uma escola de esperança
E de oração,
De coragem e de alento.
O Advento é uma viagem
Até ao nascimento
Do menino de Belém,
Lá,
E dentro de nós também.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo III do Tempo do Advento – Ano B – 17.12.2023 (Is 61, 1-2a.10-11)
  2. Leitura II do Domingo III do Tempo do Advento – Ano B – 17.12.2023 (1 Tes 5, 16-24)
  3. Domingo III do Advento – Ano B – 17.12.2023 – Lecionário
  4. Domingo III do Advento – Ano B – 17.12.2023 – Oração Universal
  5. ANO B – O ano do evangelista Marcos

Domingo II do Tempo do Advento – Ano B – 10.12.2023

Viver a Palavra       

A vida cristã é caracterizada por um dinamismo de conversão que nos coloca permanentemente a caminho e nos faz desinstalar para abrir o nosso coração à perene novidade que brota do Evangelho. Deste modo, quantas vezes nos sentimos apenas no início deste caminho, aprendendo e reaprendendo a caminhar para uma resposta cada vez mais fiel ao Deus que vem ao nosso encontro e nos chama.

Ao ler o texto do Evangelho proposto para este Domingo, ficam a ecoar no meu coração as palavras que abrem o relato evangélico: «Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus». Nestas palavras de S. Marcos podemos afirmar que encontramos já o princípio e o fim do Evangelho: Boa Notícia que nos leva a conhecer e a confessar Jesus, como Cristo e como Filho de Deus. Como Cristo, isto é, como ungido do Pai pela força do Espírito Santo para proclamar a Boa Nova da Salvação e como Filho de Deus para nos fazer com Ele herdeiros da filiação divina. Estamos e estaremos sempre no princípio pois há tanto a conhecer, amar e colocar em prática para uma resposta mais fiel à Boa Notícia que em Jesus Cristo, Filho de Deus nos é revelada.

Num mundo marcado por tantas sombras e dificuldades, precisamos de boas notícias. Escutando ou lendo as notícias nas mais diversas plataformas informativas, invade-nos um conjunto de notícias marcadas pela violência, pela corrupção, a doença, o medo… Mais do que boas notícias, precisamos da Boa Notícia, a Boa Nova da salvação revelada em Cristo Jesus que nos ajuda a olhar para a realidade contemporânea com o realismo crente que não dissipa a esperança, mas renova a confiança de que o tempo e a história estão nas mãos de Deus e que as realidades do tempo presente se inscrevem num horizonte de eternidade que nos excede e nos desafia a erguer os olhos para o céu, caminhando de pés bem assentes na terra, comprometendo-nos com as necessidades e anseios dos homens e mulheres do nosso tempo.

Este olhar de esperança sobre o tempo e a história é fundamental na nossa ação eclesial e desafia-nos a uma leitura kairológica da realidade, isto é, a olhar o tempo e a história como lugares onde Deus está já a atuar, pois o Seu amor precede, acompanha e rasga horizontes novos na nossa missão. Por isso, se é necessário evitar uma visão otimista quando desencarnada da realidade, também é necessário afastar um olhar pessimista que não permite olhar com esperança e ler a presença terna e misericordiosa de Deus que age e conduz a história: Deus aproxima-se no tempo e no espaço, dentro das pequenas coisas do dia-a-dia, à nossa porta e a cada despertar.

Por isso, é necessário ir ao deserto e escutar a voz de João Baptista que nos convida ao essencial da vida para que o acessório não nos impeça de escutar a voz de Deus que nos desafia à conversão. Quantas vezes ao ler este texto, penso como João Baptista falha no lugar onde desenvolve a sua ação. Porquê ir para o deserto, se o povo habita as cidades, vilas e aldeias? Não era mais conveniente ficar na cidade, nas praças e avenidas mais movimentadas para aí fazer ecoar o seu pregão? Contudo, o ruído, a pressa e a distração não permitem escutar. João sabe que é necessário ser um sinal diferente para que a sua palavra possa ser escutada. Deste modo, indo para o deserto, João prega não apenas com as palavras, mas com gestos proféticos que se fazem vida e que apontam para Aquele que vem e que é maior do que Ele.

João não vive num palácio nem não ostenta poder e riquezas, a sua alegria é servir Aquele-que-Vem e vive na dependência de Deus e do Seu amor e faz dessa experiência a maior liberdade. João é o homem do deserto e aponta o essencial. João é provisório e lava com água as nossas banalidades, apontando o caminho para Aquele que deve ser o definitivo das nossas vidas. in Voz Portucalense.

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Estamos a iniciar um novo Ano Litúrgico – o Ano B. Durante todo este ano litúrgico – 2023/2024 -, acompanhamos o evangelista S. Marcos em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso. Em anexo à Liturgia da Palavra ficará disponível um texto sobre o evangelista Marcos. Também poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – Is 40,1-5.9-11

«Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».

Contexto:

Este texto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55), que, provavelmente, cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados judeus, na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C. Muitos desses exilados estão frustrados e desorientados, pois ainda não entenderam porque é que Deus permitiu o drama da derrota e do Exílio… Outros, no entanto, estão instalados e acomodados, rendidos a esse admirável mundo novo para o qual foram atirados e já não pensam em regressar à sua terra nem esperam nada de Deus.

Na fase final desta época, as notícias das vitórias de Ciro, o persa, sobre os babilónios fazem esperar um rápido desmoronar do império babilónico e a libertação dos judeus exilados… Mas, se essa libertação chegar – perguntam os exilados – a quem é que deve ser atribuída: a Javé, ou aos deuses persas? Se é a Javé, porque é que Ele escolheu um estrangeiro e não um membro do Povo de Deus para realizar a obra maravilhosa da libertação? No caso de a libertação acontecer, valerá a pena arriscar o regresso e enfrentar as dificuldades do recomeço? Haverá, ainda, um futuro para esse Povo que parece ter sido abandonado por Javé?

O Deutero-Isaías aparece neste contexto. A sua mensagem destina-se a consolar os exilados e a apontar-lhes novas razões para ter esperança. O profeta começa por anunciar a iminência da libertação e por comparar a saída da Babilónia ao antigo êxodo, quando Deus libertou o seu Povo da escravidão do Egipto (cf. Is 40-48)…             Na segunda parte do livro, o profeta anuncia a reconstrução de Jerusalém, essa cidade que a guerra reduziu a cinzas, mas à qual Deus vai fazer regressar a alegria e a paz sem fim (cf. Is 49-55).

A primeira leitura deste domingo apresenta-nos, precisamente, o prólogo do “Livro da Consolação”. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Hoje, sentimo-nos impotentes e frustrados porque a violência, a guerra e o terrorismo mancham a história humana com sangue e sofrimento, ou porque os pobres e os fracos são esquecidos e colocados à margem da história, ou porque a sociedade global se constrói com egoísmo, com indiferença e com exclusão… O profeta garante-nos que Deus – esse Deus que é eternamente fiel aos compromissos que assumiu para com os seus filhos – não está alheado da nossa história; assegura-nos que Deus, no nosso tempo, no séc. XXI, continua a vir ao nosso encontro e a oferecer-Se para nos conduzir, com amor e solicitude, à Vida verdadeira.
  • A mensagem do profeta é particularmente questionadora para esses exilados que já não pensavam em regressar à sua terra nem se esforçavam minimamente por escutar os apelos e os desafios de Deus. Instalados e acomodados, eles haviam perdido a capacidade de arriscar e a vontade de começar um novo caminho com Deus. A mesma mensagem interpela, hoje, todos os homens e mulheres que vivem instalados nos seus espaços seguros e protegidos, ou resignados a uma vida banal, vazia, cinzenta, insípida, ou acomodados a uma religião que se esgota em práticas rituais estéreis… e convida-os a abrir o coração à novidade de Deus. É preciso correr riscos, aceitar despojar-se do egoísmo, do comodismo, do materialismo, da escravidão dos bens e dos preconceitos para percorrer, com Deus, esse caminho de regresso a uma vida nova e desafiante, mais humana, mais plena e mais feliz.
  • Em concreto, o que é que nos impede de percorrer o caminho que Deus nos propõe e de nascer para uma vida mais livre e mais realizada? Os bens materiais? A posição social? O comodismo? O medo? O Advento é o tempo favorável para limparmos os caminhos da nossa vida, de forma a que Deus possa nascer em nós, transformar-nos e, através de nós, libertar o mundo… Quais são os vales que precisam de ser alteados, os montes que precisam de ser abatidos, os caminhos que precisam de ser endireitados para que Deus possa vir encontrar-se connosco e recriar o nosso coração?
  • É através dos seus mensageiros que Deus continua a oferecer ao mundo e aos homens a vida, a esperança, a liberdade, a salvação. Ora, o testemunho profético é algo inerente à nossa condição de batizados. Sentimo-nos sinais vivos de Deus e testemunhas da sua proposta libertadora diante dos nossos irmãos, ou ficamos paralisados pelo medo de agir, pelo conformismo ou pelo “sempre foi assim”? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 84 (85)

Refrão: Mostrai-nos o vosso amor e dai-nos a vossa salvação.

LEITURA II – 2 Pedro 3,8-14

«Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça».

Contexto:

A Segunda Carta de Pedro apresenta todas as características de uma “carta testamento”, como se o autor, sentindo aproximar-se a morte, quisesse transmitir uma última e decisiva mensagem a um grupo de pessoas a quem se sente particularmente ligado.

Em concreto, o autor da Segunda Carta de Pedro dirige o seu “testamento” aos irmãos da sua comunidade cristã e convida-os a conservarem-se fiéis aos ensinamentos recebidos, evitando deixarem-se confundir pelas doutrinas dos alguns falsos mestres. Os crentes devem esforçar-se por preparar adequadamente a segunda vinda de Jesus Cristo, sem se deixarem manipular por doutrinas contrárias ao Evangelho e ao ensinamento recebido da tradição apostólica.

O autor apresenta-se a si próprio como Simão Pedro, servidor e apóstolo de Jesus Cristo (cf. 2 Pe 1,1), testemunha da transfiguração (cf. 2 Pe 1,16); no entanto, é praticamente consensual entre os estudiosos da Bíblia que este escrito é bem posterior ao apóstolo Pedro. Tudo indica que o autor desta carta não pertenceu à primeira geração cristã; contudo, é um judeo-cristão com sólida formação helénica e que conhece bem a vida e a catequese do apóstolo Pedro. Em geral, a redação desta carta situa-se no final do séc. I ou inícios do séc. II. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Convictos de que Deus tem um projeto de salvação e de vida para cada pessoa, acreditamos que esse projeto está a realizar-se continuamente em nós, até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente com Deus. A nossa vida presente não é um drama absurdo, sem sentido e sem finalidade, que se desenrola num “vale de lágrimas” sem saída; mas é uma caminhada tranquila, alegre, esperançosa em direção a esse desabrochar pleno, a essa vida total em que se revelará o Homem Novo. Nós somos homens e mulheres de esperança! É esse o testemunho que damos ao mundo e aos nossos irmãos?
  • A questão fundamental que os cristãos devem pôr, a propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas é a questão de como esperar e preparar esse momento. O autor do texto deixa claro que o que é preciso é estar vigilante. “Estar vigilante” não significa ficar a olhar para o céu à espera do Senhor, esquecendo e negligenciando as questões do mundo e os problemas das pessoas; mas significa viver, no dia a dia, de acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando-se na transformação do mundo e na construção do Reino.
  • A certeza da segunda vinda do Senhor dá aos crentes uma perspetiva diferente da vida, do seu sentido e da sua finalidade. Para os não crentes, a vida encerra-se dentro dos limites estreitos deste mundo; por isso, só lhes interessam os valores imediatos e fátuos que tornam mais cómodos os dias passados nesta terra. Para os crentes, no entanto, a verdadeira vida, a vida em plenitude, está para além dos horizontes da história; por isso, eles procuram viver de acordo com os valores eternos, os valores de Deus. Assim, na perspetiva dos crentes, não são os valores efémeros, os valores deste mundo (o dinheiro, o poder, os êxitos humanos) que devem constituir a prioridade e que devem dominar a existência, mas sim os valores de Deus. Quais são os valores que eu considero prioritários e que condicionam as minhas opções? in Dehonianos.

EVANGELHO – Mc 1,1-8

«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho».

«Apareceu João Baptista no deserto, a proclamar um batismo de penitência para remissão dos pecados».

«Eu batizo-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».

Contexto:

O Evangelho segundo Marcos parece ter sido o primeiro dos Evangelhos a ser redigido, certamente antes do ano 70. A crítica do texto sugere que se trata de uma obra destinada a uma comunidade maioritariamente composta por cristãos vindos diretamente do paganismo, provavelmente a comunidade cristã de Roma.

Por volta do ano 66, o imperador Nero planeou uma terrível perseguição contra os cristãos da capital do império. Pedro e Paulo foram mortos nesta altura, juntamente com um número considerável de outros cristãos. Neste contexto adverso, muitos dos membros da comunidade cristã de Roma viam a sua fé abalada e vacilavam no seu compromisso. Marcos, que conhecia bem esta realidade, queria ajudar os seus irmãos na fé. Ele achava que lhes seria menos difícil enfrentar a perseguição se tivessem presente, de forma clara, a identidade de Jesus. Por isso escreveu o seu evangelho. No frontispício colocou uma confissão que irá desenvolver longamente nos capítulos seguintes: Jesus, o Messias, é o Filho de Deus. Essa é a Boa Notícia que deve sustentar os cristãos de Roma, perseguidos por causa da sua fé em Jesus.

Depois de dizer ao que veio, Marcos passa imediatamente a desenhar o cenário para a entrada de Jesus na história dos homens… E coloca-nos frente a frente com um profeta independente e pouco ortodoxo chamado João, designado por toda a gente como o Batista. João era de família sacerdotal, mas, aparentemente, nunca exerceu o sacerdócio. A dada altura da sua vida, rompeu com o Templo e com o aparato religioso a ele ligado e instalou-se nas franjas do deserto de Judá, junto do rio Jordão. Considerava-se um homem de Deus, enviado a Israel com uma missão. Na sua análise, o Povo de Deus estava profundamente afetado pelo pecado e precisava de uma conversão radical. Só essa transformação permitiria que Israel fosse de novo a comunidade do Povo santo de Deus. Estamos no final do ano 27 ou no início do ano 28.

A catequese cristã posterior sempre viu neste João o precursor de Jesus. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Jesus, aquele “menino” que Deus envia ao nosso encontro (e que é o Messias, o Filho de Deus), traz-nos a “Boa Notícia” da salvação. Ele vem ter connosco para nos oferecer a libertação, a alegria, a vitória sobre os medos, a paz; ele vem para nos ajudar a construir uma vida mais humana, mais digna, mais feliz. Estamos disponíveis para o acolher e para iniciar, com Ele, um caminho novo?
  • João, o Batista, aquele que Deus enviou para nos ajudar a preparar a chegada de Jesus, afirma claramente que preparar a vinda do Messias passa por uma “metanoia”, isto é, por uma transformação total da pessoa, por uma outra escala de valores, por uma radical mudança de pensamento, por uma postura vital inteiramente nova, por um movimento radical que leve a pessoa a reequacionar a sua vida e a colocar Deus no centro da sua existência e dos seus interesses. Neste tempo de Advento, de preparação para a celebração do Natal do Senhor, trata-se de uma proposta com sentido: preparar a vinda de Jesus exige de nós uma transformação radical da nossa vida, dos nossos valores, da nossa mentalidade… Em concreto, o que é que nos meus pensamentos, nos meus comportamentos, na minha mentalidade, nos valores que cultivo, impede o nascimento de Jesus no meu coração e na minha vida?
  • Deus convida cada pessoa à transformação e à mudança através desses profetas a quem chama e a quem confia a missão de questionar o mundo e os homens. Estamos suficientemente atentos aos profetas que questionam o nosso estilo de vida e os nossos valores? Damos crédito às suas interpelações, ou consideramo-los figuras incomodativas, ultrapassadas e dispensáveis? E nós, constituídos profetas desde o nosso batismo, sentimo-nos enviados por Deus a interpelar e a questionar o mundo e os nossos irmãos?
  • O “estilo de vida” de João constitui uma interpelação pelo menos tão forte como as suas palavras. É o testemunho vivo de um homem que está consciente das prioridades e não dá importância aos aspetos secundários da vida – como sejam a roupa “de marca” ou o excessivo cuidado da alimentação. A nossa vida também está marcada por valores, nos quais apostamos e à volta dos quais construímos toda a nossa existência… Quais são os valores fundamentais para mim, os valores que marcam as minhas decisões e opções? São valores importantes, decisivos, eternos, capazes de me proporcionar Vida plena, ou são valores efémeros, particulares, egoístas e geradores de dependência e escravidão? Como nos situamos frente a valores e a um estilo de vida que contradiz os valores do Evangelho?
  • Ao acentuar o carácter decisivo e determinante do apelo de João, Marcos convida-nos a uma resposta objetiva, franca, clara e decidida à proposta de salvação que nos é feita. Não podemos resguardar-nos eternamente no nosso espaço de conforto, ou esconder-nos indefinidamente atrás das nossas seguranças… Estamos dispostos a dizer “sim” aos apelos de Deus? Estamos disponíveis para aceitar a sua proposta de “metanoia”? Estamos decididos a renunciar ao comodismo que nos paralisa, ao egoísmo que nos impede de sair de nós próprios, à autossuficiência que nos torna estéreis? Ousaremos ir atrás de Jesus e embarcar com Ele na aventura do Reino? in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é marcada por um forte tom exortativo. Deste modo, na proclamação deste texto haja uma atenção especial aos diversos verbos na forma imperativa, às repetições e frases exclamativas. Sem exagerar na dramaticidade da proclamação do texto, deve preparar-se de modo a colher toda a força expressiva que ele encerra.

Na segunda leitura é necessário ter um especial cuidado com as frases longas e com diversas orações para uma articulada proclamação do texto. Pede-se também especial atenção nas duas frases que apresentam uma oração que termina com os dois pontos, pois é uma oração que introduz a frase que se segue.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

JOÃO BATISTA E OS HOMENS-CANA

O Evangelho deste Domingo II do Advento (Marcos 1,1-8) põe em cena uma das grandes figuras do Advento: João Batista. Não, não vive num palácio, não ostenta poder e riquezas, não é dono de nada nem de ninguém, não fala de si mesmo. É um servo cuja alegria é servir Aquele-que-Vem, a sua casa é o deserto, o seu dizer não é vanglória autorreferencial, é dizer Outro. Veste-se rudemente com o que o deserto dá, o seu alimento frugal recebe-o do deserto, isto é, da mão de Deus. João aparece retratado como Elias. São as duas únicas personagens, em toda a Bíblia, que se vestem com pêlos de camelo (Marcos 1,6; cf. 2 Reis 1,8). É um homem essencial, reto, puro e duro como um tronco. Não, não é um homem-cana. A cana é oca, e pode ser também cana rachada (Isaías 42,3) e agitada pelo vento (Mateus 11,7).

Nunca faltaram e nunca faltarão, na humana paisagem, homens-cana, ocos, vazios e oscilantes, em abundância. Talvez o sejamos nós também. É, então, a nós também que João Batista chama ao deserto, ao essencial, à confissão dos pecados, a alijar a carga inútil de mentiras, devaneios e vaidades.

O deserto ensina o essencial. No deserto aprende-se o essencial. Não há por onde fugir, fingir, mentir. Somos mesmo efémeros, pobres, indigentes, dependentes. O deserto devolve-nos a nossa verdadeira identidade alteritária. No deserto vê-se mesmo Deus vir em nosso auxílio. E aprende-se a lição de que somos irmãos. Entram em curto-circuito os nossos circuitos fechados, egolátricos, egocêntricos, autorreferenciais. Vale a pena prestar atenção ao texto do Evangelho que hoje se abre diante de nós:

«Início do Evangelho de Jesus Cristo [Filho de Deus] (archê toû euaggelíou Iêsoû Christoû [hyioû theoû]). Como está escrito em Isaías, o profeta: “Eis que envio (apostéllô) o meu mensageiro (ággelós mou) diante da tua face (prò prosôpou sou), o qual preparará o teu caminho (hodós sou). Voz de um que grita no deserto: “Preparai o caminho do Senhor (hodós kyríou), fazei direitas as suas veredas”. Aconteceu João a batizar no deserto e a anunciar (kêrýssô) um batismo de conversão para a remissão dos pecados. E saía (exeporeúeto: imperf. de ekporeúomai) para ele toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram batizados (ebaptízonto: imperf. pass. de baptízô) por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. E João andava vestido de pêlos de camelo e um cinto de pele à volta dos seus flancos, e alimentava-se de ganfanhotos e mel silvestre. E anunciava (ekêryssen: imperf. de kêrýssô), dizendo: “Vem (érchetai) o mais forte do que eu (ho ischyróterós mou) depois de mim, do qual eu não sou competente (ikanós), inclinando-me, de desatar a correia das suas sandálias. Eu batizei-vos em água, mas ele batizar-vos-á no Espírito Santo”» (Marcos 1,1-8).

Em relação a quanto se vai seguir, este texto assinala o início. Em relação a quanto precede (Antigo Testamento), dada a citação do Profeta, este texto assinala o cumprimento. João é o homem do deserto, e aponta o essencial. Indica Aquele-que-Vem, cuja vocação é mesmo vir e ficar no meio de nós. João é provisório. Lava com água as nossas banalidades. Mas mesmo nisto, João é único. Eram conhecidos, entre os judeus, os banhos e abluções religiosas em ordem à purificação. E aqueles que procuram João não tomam um dos habituais banhos de purificação. É João que os batiza. Esta forma de fazer é de tal modo insólita que João recebe o nome de «Batista», sendo, na verdade, em mundo judaico, o primeiro que batiza outros. Aquele-que-Vem é definitivo, Primeiro e Último, dá o Espírito Santo sem medida, a vida divina, admite à comunhão com Deus. João vive em função d’Aquele-que-Vem. O que João faz [«chama à conversão para o perdão dos pecados»] é em ordem ao Fazer novo e criador d’Aquele-que-Vem com o Espírito Santo, que tem e dá a Vida verdadeira.

A citação dita do profeta Isaías (Marcos 1,2) é, afinal, uma composição de Malaquias 3,1 e de Isaías 40,3. Em Malaquias 3,1, lemos assim, com Deus a falar em primeira pessoa: «Vou enviar o meu mensageiro, e ele preparará o meu caminho diante de mim…». O próprio Malaquias dirá mais à frente (3,23) que este mensageiro é Elias. O texto de Marcos atualiza a citação, mudando dois pronomes, para mostrar a importância d’Aquele-que-Vem: «Vou enviar o meu mensageiro diante de ti, o qual preparará o teu caminho». Vê-se bem que continua a ser o mensageiro de Deus (meu) que é enviado; é-o, porém, para preparar o caminho de Jesus (teu), adiante de Jesus (ti). E este mensageiro é agora João Batista, que cumpre, todavia, a função de Elias (cf. Marcos 9,13; Mateus 11,14). A citação de Isaías 40,3 aparece sem alteração no texto de Marcos 1,3: «Voz do que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor”», em que a voz é João, e o caminho do Senhor é o caminho d’Aquele-que-Vem, Jesus, o Filho de Deus, que nós devemos preparar. A vinda d’Aquele-que-Vem é tão importante, que não basta ficar à espera d’Ele. É preciso preparar-se para essa Vinda.

«Caminho santo [Via Sacra]: Ele mesmo andará nesse caminho» (Isaías 35,8). O caminho do Advento não é tanto o nosso caminho para Deus. É mais, muito mais, e aqui está a surpresa boa, desconcertante e transformante, o caminho de Deus para nós! Sim, Deus vem visitar-nos! Deus Vem!

E que significado atribuir à anotação da incompetência (ikanós) de João para desatar a correia das sandálias d’Aquele-que-Vem (1,7)? Será simplesmente uma confissão de humildade por parte de João face a Alguém que lhe é incomparavelmente superior? Esta tonalidade está certamente presente, mas não esgota a metáfora das sandálias. Trata-se, desde logo, de um dizer importante, pois encontramo-lo por cinco vezes no Novo Testamento: Mateus 3,11; Marcos 1,7; Lucas 3,16; João 1,27; Atos dos Apóstolos 13,25. Num célebre artigo, intitulado «As sandálias do Messias noivo», Luís Alonso-Schökel levou este dizer e esta metáfora para o domínio da esponsalidade do Messias. De acordo com o referido nos Salmos 60,10 e 108,9, «pôr a sandália sobre» significa «tomar posse de»; é, portanto, linguagem jurídica de posse. Em Deuteronómio 25,5-9, o não-cumprimento da lei do levirato implica que seja retirada a sandália ao cunhado não cumpridor da lei, gesto que garante a sua perda de posse no domínio matrimonial. Aqui já se trata de direito matrimonial. Em Rute 4,7-10, temos um caso jurídico concreto em que o que tem o direito de resgatar o património e de desposar Rute prescinde desse direito. Para o dizer juridicamente, em reunião pública realizada à porta da cidade (Rute 4,1), o homem em causa tira a sandália e entrega-a a Booz, que fica assim com o direito de resgatar o património e de desposar Rute. A metáfora da sandália em Marcos 1,7 e nos demais dizeres do Novo Testamento que anotámos significa também que é Jesus o noivo, a quem assiste o direito de desposar Israel, e que a João não assiste esse direito ou competência.

Por isso, «Consolai, consolai o meu povo», diz Deus, «falai ao coração de Jerusalém», diz Deus (Isaías 40,1-2). «Sobe a uma alta montanha, EVANGELISTA (mebasseret) Sião, levanta com força a tua voz, EVANGELISTA (mebasseret) Jerusalém; levanta-a, não temas, diz às cidades de Judá: “Eis o vosso Deus, eis o Senhor YHWH! Com poder Ele VEM, no seu braço a soberania para Ele, eis o Seu salário com Ele, e a Sua recompensa diante d’Ele. Como um pastor o seu rebanho apascenta, com o Seu braço reúne-o, no Seu colo os cordeiros carrega, as ovelhas que amamentam conduz com carinho» (Isaías 40,9-11). A boa metodologia da Evangelização tem o seu modelo em Deus-que-Vem ao nosso encontro para cuidar de nós com carinho. E continua a realizar-se através do anúncio que devemos fazer acompanhado do fazer das nossas mãos carinhosas.

O texto de Isaías documenta a fantástica passagem do arauto masculino (mebasser) para o feminino (mebasseret), designando com esse nome a própria Cidade de Sião ou Jerusalém personificada e EVANGELIZADORA das suas cidades irmãs. Esta imagem tem sido vista por alguns comentadores como grotesca. Mas é, na verdade, o que o texto diz. Cidade EVANGELIZADA, que se transforma naturalmente em EVANGELIZADORA. Estamos nas nascentes do termo «Evangelho». E vê-se também já, com suficiente clareza, que a Notícia é Deus que vem! Não, Deus não salva o seu povo com programas feitos à distância nem com conceções teológicas friamente administradas desde cima. Deus vem!

Portanto, adverte S. Pedro (2 Pedro 3,8-14), o tempo de Deus não é o nosso tempo. Um dia, para Ele, é como mil anos, mil anos como um dia (2 Pedro 3,8; cf. Salmo 90,4). É a paciência de Deus que espera a nossa conversão. O nosso tempo é dado, concedido para alijarmos futilidades que nos pesam e nos prendem. Passarão. O Advento reclama de nós vestidos novos, dado que novos céus e nova terra surgirão (2 Pedro 3,13), habitados por filhos e irmãos, que entendem a nova linguagem da paz, justiça, fidelidade, mansidão, misericórdia (Salmo 85).

O famoso poeta inglês John Milton (1608-1674) lerá assim os versos 9-14 do nosso Salmo 85 numa Ode natalícia, datada de 1629: «Sim, Fidelidade e Justiça, então,/ voltarão para junto dos homens,/ envoltas num arco-íris, e, gloriosamente vestida,/ a Bondade sentar-se-á no meio…/ E o céu, como para uma festa,/ escancarará as portas do seu palácio excelso».

O Senhor do Advento
É Aquele-que-Vem
Nascer em Belém,
Bater à nossa porta,
Pedir ao nosso coração
Um bocadinho de pão.

Tão pouco e tanto
Nos pede Jesus,
E para nosso espanto,
E para encanto nosso,
O Filho de Maria
Vem vestido de irmão nosso
De cada dia.

Ele anda por aí,
Ao frio e ao calor,
Rico e pobrezinho,
Nosso Senhor.

Vem, Menino,
Senhor do mundo,
Do sol e da lua,
Bate à minha porta,
Entra em minha casa,
E que, por graça,
Entre eu também na tua.

António Couto

ANEXOS:

  1. Imaculada Conceição – 08.12.2023 – Lecionário
  2. Imaculada Conceição – 08.12.2023 – Oração Universal
  3. Leitura I do Domingo II do Advento – Ano B – 10.12.2023 (Is 40, 1-5.9-11)
  4. Leitura II do Domingo II do Advento – Ano B – 10.12.2023 (2Pe 3, 8-14)
  5. Domingo II do Tempo do Advento – Ano B – 10.12.2023 – Lecionário
  6. Domingo II do Tempo do Advento – Ano B – 10.12.2023 – Oração Universal
  7. ANO B – O ano do evangelista Marcos

Domingo I do Tempo do Advento – Ano B – 03.12.2023

Viver a Palavra       

Com o primeiro Domingo de Advento, abre-se diante de nós um novo Ano Litúrgico: o Povo de Deus volta a pôr-se a caminho, para viver o mistério de Cristo na história. No ritmo hebdomadário da liturgia dominical, percorrendo os diversos tempos litúrgicos, celebramos o mistério de Cristo que ilumina cada tempo e momento da história.

Começar um caminho é sempre motivo para dar graças a Deus que nos concede a graça de viver cada dia e cada tempo como uma nova oportunidade para sermos mais e melhor a partir do Seu amor. Além disso, o início de uma nova etapa é sempre tempo para estabelecer propósitos e compromissos.

O tempo de advento é tempo de espera confiante e vigilante, «da espera de um Jesus que é Deus caído na terra como um beijo» (B. Calati). O Senhor veio, vem e virá e esta certeza anima a nossa esperança, fortalece a nossa confiança e estimula a nossa caridade.

No evangelho deste Domingo, Jesus exorta-nos estar atentos e vigiar: «acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento». Jesus ama-nos e não nos quer desprevenidos. Sabe que o frenesim do nosso quotidiano, o ritmo acelerado das nossas vidas e os nossos múltiplos afazeres fazem-nos dispersar.

Somos homens e mulheres marcados pela fragilidade e os limites da nossa condição humana, e, por isso, o profeta Isaías recorda-nos que somos barro nas mãos do Eterno e Divino Oleiro: «Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai, e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos».

Contudo, a fragilidade e os limites da nossa condição humana não são um impedimento para que Deus derrame sobre as nossas vidas os Seus dons. A parábola evangélica que o Evangelho deste Domingo propõe recorda-nos, uma vez mais, como o nosso Deus se quer confiar em nossas mãos: «será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse». É recorrente no Evangelho esta imagem de um Deus que se assemelha a um patrão que parte de viagem e confia aos seus servos tarefas ou bens. Deus sabe que, não obstante as nossas debilidades e fracassos, que somos capazes de obras grandes e belas. Deus vê para lá do nosso pecado e fragilidade e ensina-nos que quando somos capazes de viver a partir do Seu amor, vigiando sobre a nossa vida e sendo capazes de abrir o coração aos outros, podemos realizar obras belas e grandiosas que fazem do mundo um lugar mais belo e da vida de cada homem e de cada mulher uma vida mais feliz.

Prestar atenção e estar vigilante são atitudes fundamentais no nosso itinerário crente. A pessoa atenta é aquela que mesmo no meio do ruído e da instabilidade do mundo não se deixa tomar pela distração ou pela superficialidade, mas vive numa atitude de atenção ao mundo e aos outros, procurando vencer a globalização da indiferença e marcando o tempo e a história com gestos concretos de amor e misericórdia. A pessoa vigilante é aquela que aceita o convite de vigiar permanentemente e não se deixar dominar pelo sono do desencorajamento, da falta de esperança ou da desilusão.

Que este tempo de espera vigilante e atenta preencha a nossa vida de sentido pois mesmo caminhando entre as luzes e sombras do tempo presente temos sempre de recordar as palavras de S. Paulo: «já não vos falta nenhum dom da graça, a vós que esperais a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo». in Voz Portucalense.

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            Com o Tempo de Advento damos início a um novo Ano Litúrgico – o Ano B – onde seremos acompanhados pelo evangelista Marcos. Tendo em vista a formação bíblica dos fiéis e a importância do conhecimento da Sagrada Escritura como Palavra que ilumina a vida dos batizados, o contexto do início do Ano Litúrgico pode ser uma oportunidade para um conjunto de iniciativas que possam ajudar os fiéis no conhecimento e aprofundamento deste evangelista. No atual contexto sociocultural, o recurso aos meios digitais pode ser uma boa forma de dinamizar estas iniciativas.  in Voz Portucalense

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Estamos a iniciar um novo Ano Litúrgico – o Ano B. Durante todo este ano litúrgico – 2023/2024 -, acompanhamos o evangelista Marcos em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de Marcos.

E faremos isso. Em anexo à Liturgia da Palavra ficará disponível um texto sobre o evangelista Marcos. Também poderão melhorar os conhecimentos bíblicos – do Novo Testamento, mas também do Antigo Testamento – em https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/.Proporciona-se a todos os fiéis, um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

LEITURA I – Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7

«Vós, porém, Senhor, sois nosso Pai, e nós o barro de que sois o Oleiro; somos todos obra das vossas mãos»

Contexto:

O texto do Trito-Isaías (capítulos 56-66 do Livro de Isaías) que nos é proposto situa-nos em Jerusalém, na época posterior ao Exílio (anos 537/520 a.C.). A cidade está em reconstrução. As pedras calcinadas lembram os dramas passados, a população é pouco numerosa, a reconstrução é lenta e modesta porque os retornados são pobres, os inimigos estão à espreita. Há desânimo e medo do futuro…. Desse desânimo resulta a indiferença face a Javé e à Aliança. Consequentemente, o culto é pouco cuidado e Deus ocupa um lugar secundário no coração e nas preocupações do Povo.

Os profetas que desenvolvem a sua missão nesta fase vão tentar acordar a esperança num futuro de vida plena e de salvação definitiva (em que Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o local onde Deus habita no meio do seu Povo); mas não deixam de sublinhar que o Povo tem de se reconverter aos caminhos da Aliança, da justiça, do amor, da fidelidade a Javé.

Este texto é parte de uma perícope que vai de 63,7 a 64,11. Os versículos que o integram não apresentam especial coerência temática. Misturam elementos típicos de súplica ou lamentação com elementos de confissão dos pecados. A situação é a de desgraça nacional. O Povo dirige-se ao Deus da história, pedindo-Lhe que intervenha para salvar; e, uma vez que a desgraça é considerada castigo pelos pecados, o Povo confessa a culpa e pede perdão.in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • O texto de Isaías apresenta em pano de fundo um Povo de coração endurecido, rebelde, indiferente, que há muito prescindiu de Deus e deixou de se preocupar em viver de forma coerente os compromissos assumidos no âmbito da Aliança. É um quadro que reflete bem a realidade deste mundo em que vivemos, em pleno séc. XXI. Que lugar ocupa Deus na nossa vida? Que importância damos às suas propostas? As sugestões e os apelos de Deus têm algum impacto sério nas nossas opções e prioridades?
  • O texto convida-nos também a reconhecer que só Deus é fonte de salvação e de redenção. Nós, por nós próprios, somos incapazes de superar essa rotina de indiferença, de egoísmo, de violência, de mentira que tantas vezes caracteriza o quadro de vida em que nos movemos. Deus, o nosso “Pai” e o nosso “redentor”, é sempre fiel às suas “obrigações” de amor e de justiça e está sempre disposto a oferecer-nos, gratuita e incondicionalmente, a salvação. A nós, resta-nos acolher o dom de Deus com humildade e com um coração agradecido. Estamos conscientes desse dom e estamos disponíveis para o acolher?
  • A ação de Deus, o seu papel de “redentor” concretiza-se através de Jesus e das propostas que Ele veio fazer aos homens e ao mundo. Neste Advento que me preparo para viver, estou disposto a acolher Jesus e a abraçar as propostas que Deus, através d’Ele, me faz? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: Senhor, nosso Deus, fazei-nos voltar, mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos

LEITURA II – 1 Cor 1,3-9

«Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão com seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor»

Contexto:

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52), consagram-se inteiramente ao anúncio do Evangelho.

Corinto era uma cidade nova e muito próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade era de origem grega, embora de condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).

De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10).

Tratava-se de uma comunidade com boas possibilidades, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica.

O texto que nos é hoje proposto é a “ação de graças” inicial. Habitualmente, Paulo começava as suas cartas com uma “ação de graças”. in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • Paulo considera que a comunidade cristã é uma realidade continuamente enriquecida pela vida de Deus. Através dos seus dons, Deus vem continuamente ao encontro dos homens e manifesta-lhes o seu amor. Os crentes devem viver numa permanente atitude de escuta e de acolhimento desses dons. A comunidade de que faço parte está consciente de que Deus vem continuamente ao encontro dos homens através dos dons que Ele oferece? Acolhe os dons de Deus como sinais vivos do seu amor?
  • Qual o objetivo dos dons de Deus? Segundo Paulo, é “tornar firme nos crentes o testemunho de Cristo”. Os dons de Deus destinam-se a promover a fidelidade das pessoas e das comunidades ao Evangelho, de forma que todos nos identifiquemos cada vez mais com Cristo. Os dons que Deus me concedeu destinam-se sempre a potenciar a minha fidelidade e a fidelidade dos meus irmãos às propostas de Jesus, ou servem, às vezes, para concretizar objetivos mais egoístas, como sejam a minha promoção pessoal ou a satisfação de certos interesses e anseios?
  • Há, neste texto, um apelo implícito à vigilância. O cristão tem de estar sempre vigilante e preparado para acolher o Deus que vem ao seu encontro e lhe manifesta o seu amor através dos seus dons… E tem também de estar sempre vigilante para que os dons de Deus não sejam desvirtuados e utilizados para fins egoístas. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mc 13,33-37

«Acautelai-vos e vigiai, porque não sabeis quando chegará o momento».

«Será como um homem que partiu de viagem».

«O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!».

Contexto:

O Evangelho deste domingo situa-nos em Jerusalém, pouco antes da Paixão e Morte de Jesus. É o terceiro dia da estadia de Jesus em Jerusalém, o dia dos “ensinamentos” e das polémicas mais radicais com os líderes judaicos (cf. Mc 11,20-13,1-2). No final desse dia, já no “Jardim das Oliveiras”, Jesus oferece a um grupo de discípulos (Pedro, Tiago, João e André – cf. Mc 13,3) um amplo e enigmático ensinamento, que ficou conhecido como o “discurso escatológico” (cf. Mt 13,3-37).

Este discurso, apresentado com uma linguagem profético-apocalíptica, descreve a missão da comunidade cristã no período que vai desde a morte de Jesus até ao final da história humana. É um texto difícil, que emprega imagens e uma linguagem cheia de alusões enigmáticas, bem ao jeito do género literário “apocalipse”. Não seria tanto uma previsão antecipada de acontecimentos concretos, mas antes uma leitura profética da história humana. O seu objetivo seria dar aos discípulos indicações acerca da atitude a tomar frente às vicissitudes que marcarão a caminhada histórica da comunidade, até à vinda final de Jesus para instaurar, em definitivo, o novo céu e a nova terra.

Os quatro discípulos referenciados no início do “discurso escatológico” representam a comunidade cristã de todos os tempos… Os quatro são, precisamente, os primeiros discípulos chamados por Jesus (cf. Mc 1,16-20) e, como tal, convertem-se em representantes de todos os futuros discípulos. O discurso escatológico de Jesus não seria, assim, uma mensagem privada destinada a um grupo especial, mas uma mensagem destinada a toda a comunidade crente, chamada a caminhar na história com os olhos postos no encontro final com Jesus e com o Pai.

O “discurso escatológico” divide-se em três partes, antecedidas de uma introdução (cf. Mc 13,1-4). Na primeira parte (cf. Mc 13,5-23), o discurso alude a uma série de movimentos que vão marcar a história e que requerem dos discípulos a atitude adequada: vigilância e lucidez. Na segunda parte, o discurso anuncia a vinda definitiva do Filho do Homem e o nascimento de um mundo novo a partir das ruínas do mundo velho (cf. Mc 13,24-27). Na terceira parte, o discurso refere a incerteza quanto ao “tempo” histórico dos eventos anunciados e insiste com os discípulos para que estejam sempre vigilantes e preparados para acolher o Senhor que vem (cf. Mc 13,28-37). in Dehonianos.

INTERPELAÇÕES

  • O Evangelho deste domingo coloca-nos diante de uma certeza fundamental: “o Senhor vem”. A nossa caminhada humana não é um avançar sem sentido ao encontro do nada, mas uma caminhada feita na alegria ao encontro do Senhor que vem. Não se trata de uma vaga esperança, mas de uma certeza baseada na palavra infalível de Jesus. O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra, nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim.
  • O tempo do Advento é o tempo da espera do Senhor. O Evangelho deste domingo diz-nos como deve ser essa espera… A palavra fundamental é “vigilância”: o verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” significa viver, a cada momento e a cada passo, ativo, empenhado, comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz. Significa cumprir, com coerência e sem meias tintas, os compromissos assumidos no dia do batismo e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo. É dessa forma que eu tenho procurado viver?
  • Em concreto, estar “vigilante” significa não viver de braços cruzados, fechado num mundo de alienação e de egoísmo, deixando que sejam os outros a tomar as decisões e a escolher os valores que devem governar a humanidade; significa não me demitir das minhas responsabilidades e da missão que Deus me confiou quando me chamou à existência… Estar “vigilante” é ser uma voz ativa e questionante no meio dos homens, levando-os a confrontarem-se com os valores do Evangelho; é lutar de forma decidida e corajosa contra a mentira, o egoísmo, a injustiça, tudo aquilo que rouba a vida e a felicidade a qualquer irmão que caminhe ao meu lado… Como discípulo de Jesus, assumo essa atitude de constante vigilância?
  • Aquela “casa” referida na parábola é a comunidade de Jesus. Nela, todos são servidores. Todos viverão servindo, desempenhando as tarefas que lhes foram confiadas, enquanto esperam o regresso do único “Senhor” (Jesus). Temos aqui uma bela definição da Igreja, a comunidade que Jesus deixou a fazer caminho na história. A comunidade cristã de que eu faço parte é uma comunidade de irmãos e de irmãs conscientes da missão que Jesus lhes deixou, onde todos desempenham o seu papel com lucidez e responsabilidade, ou é um conjunto de pessoas adormecidas, passivas e acomodadas, que vivem na inércia, na indiferença e na mediocridade? A comunidade cristã de que eu faço parte é uma comunidade de gente que procura servir, de forma simples e humilde, os mais necessitados e desvalidos, como Jesus sempre fez, ou é uma comunidade onde cada um está apenas preocupado em “levar a água ao seu moinho” e concretizar as suas visões e triunfos pessoais? A comunidade cristã de que eu faço parte é uma comunidade onde a responsabilidade de todos é incentivada e potenciada de forma sinodal, ou é uma comunidade desigual, onde existem “os que mandam” e “os que obedecem”, os que se impõem e os que se submetem? in Dehonianos

Para os leitores:

            O início do Ano Litúrgico constitui-se como uma pertinente oportunidade para uma formação de leitores acerca da temática e da estrutura das leituras deste novo Ano Litúrgico e de modo particular do evangelista que nos irá acompanhar.

Na primeira leitura, deve haver especial cuidado na entoação da frase interrogativa e das frases exclamativas. Deve também retirar-se o maior partido das formas verbais no imperativo, mostrando a força expressiva do texto.

A aparente facilidade na proclamação da segunda leitura, não deve permitir descurar a preparação, sobretudo das pausas e respirações para uma leitura mais articulada do texto.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

PARA VÓS, SENHOR, ELEVO A MINHA ALMA

«Para vós, Senhor, elevo a minha alma» (Salmo 25,1). Antífona do Cântico de Entrada que inaugura a celebração eucarística do Advento, do ano litúrgico, do ano inteiro. Aponta a atitude a assumir pela assembleia fiel e orante: a oblação permanente, a oração constante. Extraordinário pórtico de entrada no Advento e no novo ano litúrgico. Belíssima forma de viver, elevando para Deus a nossa vida: a oração é a nossa vida! A nossa vida em ascensão e oração permanente, sacrifício de suave odor, incenso puro subindo para o nosso Deus. Sempre. O Evangelho dirá com a mesma energia e alegria: «Estai atentos», «vigiai», «não sabeis quando virá o dono da casa» (Marcos 13,33-37). Na verdade, nós não o podemos ver: é como um homem que partiu de viagem (Mateus 13,34). Todavia, tudo o que possuímos foi dele que o recebemos (Mateus 13,34). Portanto, vida levantada, rosto erguido para Deus. É o gesto do justo justificado por Deus (Job 22,26). Página em branco, Primeira e Última, que podemos apresentar a Deus neste início de Advento e de ano litúrgico. É de Deus a palavra e a escrita que não passa (Marcos 13,31).

A lição do Evangelho de hoje (Marcos 13,33-37) está atravessada pelo verbo «vigiar», por quatro vezes repetido (13,33.34.35.37), em imperativo: uma vez agrypneîte (agr-, negação, e hypnóô, dormir) (v. 33), e três vezes grêgoreîte, vigiar (v. 34.35.37). No Getsémani, Jesus clarificará em que consiste esta «vigilância», pois aí dirá: «vigiai e orai» (Marcos 14,28). É preciso manter o coração sintonizado com o coração de Deus. Daí as vigílias da noite também enunciadas no v. 35: ao anoitecer (21h00), à meia-noite (24h00), ao cantar do galo (03h00) e às matinas (06h00). A locução «estai atentos» atravessa também por quatro vezes o inteiro Capítulo 13 do Evangelho de Marcos (13,5.9.23.33), que é um Capítulo em que Jesus fala para quatro discípulos: Pedro, André, Tiago e João, sentados no Monte das Oliveiras, diante do Templo (Marcos 13,3).

O Templo ainda está de pé (será destruído no ano 70), e os discípulos admiram a excelência daquelas pedras e do embelezamento do Templo feito por Herodes o Grande, com a intenção de captar as boas graças dos judeus, já que Herodes não era judeu, era Idumeu, e estava interessado em ter os judeus do seu lado. Jesus adverte que aquele luxo passaria, e aproveita para lembrar que passará mesmo tudo, também as nossas seguranças (ou aquilo que pensamos estar seguro), sacudidas por guerras, violências, rapinas, perseguições, pelo normal andamento do tempo e da idade. Com a contundência que lhe é conhecida, diz-nos São Paulo que «passa, na verdade, a figura (tò schêma) deste mundo (toû kósmou toúto)» (1 Coríntios 7,31), isto é, tendo em conta a força das palavras e a expressão gramatical de que se revestem, «a figura que passa (na tela) é este mundo». Sem equívocos: a realidade deste mundo é penúltima, não Última. Neste cenário passageiro, há, porém, uma realidade que não passa: a palavra de Jesus (Marcos 13,31). Salta à vista, portanto, que é a esta âncora que nos devemos agarrar, e não à poeira das nossas grandezas ilusórias! Este discurso é dirigido aos quatro discípulos referidos. Mas, o Evangelho de hoje termina com Jesus a dizer: «O que vos digo a vós, digo-o a todos!». Portanto, a nós, hoje, também.

O escritor argentino Jorge Luis Borges deixou-nos versos densos como estes, acentuando a importância e a intensidade de cada momento da nossa vida a não desperdiçar: «Não há um instante que não esteja carregado como uma arma»; «Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes»; «Em cada instante a clépsidra deixa cair a última gota». E o poeta brasileiro Vinícius de Moraes escreveu assim num belíssimo poema: «A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo/ Como nunca mais». É assim, sempre vigilantes, amantes e esperantes, sempre à escuta e à espera de alguém, com Amor imenso e intenso, que rasga o próprio tempo, que devemos encher todos os nossos instantes, como se fosse a primeira vez, como se fosse a última vez. Aprendamos então que tudo no Evangelho é decisivo, pois é-nos mostrado com toda a clareza que cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta!

Átrio de um tempo novo, habitado, «carregado» de justiça e de bondade. Obra de Deus no nosso mundo. E só dele. Obra terna, tenra e nova, como um «rebento» de um jovem casal ou de uma planta. Sinal de Primavera no meio da invernia e da lama em que nos vamos atolando, ensonados e enlatados, sem sequer darmos por isso. É, portanto, mesmo preciso que Ele venha e que nos acorde e nos levante da nossa letargia com novas pautas e novos acordes musicais! E que nos dê nomes novos a nós, às nossas cidades, às nossas escolas, aos nossos hospitais, às nossas ruas! Nomes novos, isto é, em termos bíblicos, nova expressão e novas maneiras de viver. UpUpUp! Luz nova lá no alto a atrair os nossos olhos embotados. Instrução nova de Deus para todos os povos, armas transformadas em relhas de arado, flores brancas em mãos ensanguentadas (Isaías 2,1-5).

Isaías serve-nos hoje o mais poderoso Salmo de lamentação popular da Bíblia inteira (Isaías 63,17-64,7), nas palavras de Claus Westermann. Nele confessamos a nossa rebeldia, mas também a nossa fugacidade (somos como folhas secas levadas pelo vento), e invocamos o amor paternal, criador e redentor de Deus, para que venha em auxílio da nossa fraqueza. «Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis», ficará para sempre como um grito maravilhoso de quase inultrapassável intensidade e beleza! E, por nós, Deus, nosso Pai, rasgou mesmo os céus, e veio ter connosco (veja-se o cenário maravilhoso da Incarnação, em que o Verbo de Deus comunga da nossa frágil humanidade, e pode ver-se também o cenário do batismo de Jesus, em que se cumpre a expressão dos céus que se abrem).

E São Paulo, a abrir a Primeira Carta aos Coríntios (1,3-9) saúda-nos com a Graça e a Paz de Deus, nosso Pai, e refere ainda esta maravilha: «Dou graças ao meu Deus por vós em todo o tempo» (v. 4). Motivo: as inumeráveis bênçãos com que Deus nos tem enriquecido em Cristo Jesus, o único Senhor da nossa vida. O extrato de hoje fecha com a indicação notável de que Deus nos chamou, não a isto ou àquilo, nem sequer a participar na alegria do Messias, como dizem os rabinos acerca de Abraão, mas a participar na comunhão pessoal com o seu Filho, Jesus Cristo (v. 9).

É neste tom maravilhoso que devemos recitar com amor a autobiografia de Israel, que é também a nossa, e que passa nas notas do poderoso Salmo 80: videira arrancada do Egito e transplantada para a nossa terra livre, bela, boa e espaçosa. Tratada com amor, cresceu, cresceu, cresceu, encheu a terra inteira de folhagem e de frutos. Porém, abandonada, foi devastada pelo javali, pelos animais do campo, pelos parasitas… É tempo, portanto, de levantar a alma e rezar em todo o tempo: «Senhor, nosso Deus, vinde de novo; fazei brilhar a vossa face, e seremos salvos!».

Como é fácil, Senhor Jesus,
Daqui, de ao pé da tua Cruz,
Avistar a paisagem do Advento,
Compreender-lhe a mensagem,
Respirar-lhe o alento.

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,
Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,
Mais alto e mais profundo,
Vê-se bem, com toda a claridade,
Que a lonjura do Advento não é horizontal.
Eleva-se em altura.
Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,
Vertical,
E sem costura.

Tu vens do Alto, Senhor.
Tu vens de Deus.
Tu és Deus.
Tu és o Justo
Que chove das alturas
Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras. 

Vem, Senhor Jesus,
Alumia e rega a nossa terra dura,
Acaricia o nosso humilde chão
E modela com as tuas mãos de amor
Em cada um de nós
Um novo coração
Capaz de ver.
Capaz de Te ver
Nascer
Em cada irmão.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo I do Advento – Ano B – 03.12.2023 (Is 63, 16b-17.19b; 64,2b-7)
  2. Leitura II do Domingo I do Advento – Ano B – 03.12.2023 (1Cor 1,3-9)
  3. Domingo I do Advento – Ano B – 03.12.2023 – Lecionário
  4. Domingo I do Advento – Ano B – 03.12.2023 – Oração Universal
  5. ANO B – O ano do evangelista Marcos

Domingo XXXIV do Tempo Comum – Solenidade de Cristo-Rei

 Ano A – 26.11.2023

XXXVIII Jornada Mundial da Juventude a nível Diocesano

Viver a Palavra       

            No último Domingo do Tempo Comum com que encerramos o ano litúrgico, celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Esta celebração é a oportunidade para dar graças a Deus pelo tempo percorrido e pela graça de podermos celebrar juntos a presença terna e misericordiosa de Deus.

É certo que cada ano é marcado por momentos únicos e ímpares na nossa história pessoal e comunitária e, no meio da instabilidade e dureza dos tempos que vivemos, queremos iluminar a história com a esperança que recebemos de Jesus. A guerra na Ucrânia e no Médio Oriente, a multidão de migrantes e refugiados que arriscam a vida na procura de um futuro melhor, a conjuntura social e política que arrasta tantos irmãos nossos para condições de vida tão difíceis e exigentes poderiam traçar um cenário angustiante para nós. Mas, como crentes, o que nos distingue dos demais não é a posse de certezas absolutas que desfazem como que por magia as dificuldades e problemas. Aquilo que verdadeiramente nos distingue é a confiança que depositamos em Cristo e a esperança que Dele recebemos.

            Esta solenidade foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados e Pio XI, homem de ação, no rescaldo da primeira grande guerra, quer colocar no horizonte dos homens e mulheres do Seu tempo que todos somos filhos muito amados de Deus, que o único que reina sobre nós é Jesus Cristo, Rei do Universo e o Seu Reino é um Reino de Paz e de Amor.

            Nos tempos sombrios e exigentes que vivemos é reconfortante e consolador acolher a mensagem de ternura e cuidado que brota da liturgia da Palavra deste Domingo. Sobre nós reina Jesus Cristo, Rei do Universo, bom e belo Pastor que cuida de nós como um pastor cuida do seu rebanho.

            O desfilar das formas verbais que compõe a primeira leitura traça o perfil deste Rei: «irei em busca»; «vigia»; «guardarei»; «apascentarei»; «levarei a repousar»; «procurar a que anda perdida e reconduzir a que anda tresmalhada»; «tratarei a que estiver ferida»; «darei vigor»; «velarei». Nestas formas verbais não descobrimos apenas como é o rosto do Pai revelado em Jesus Cristo, mas podemos traçar também um programa de vida que nos estimula a afinar o nosso coração com o coração de Deus.

            Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «o Senhor é meu pastor: nada me faltará». Cantar estas palavras sempre me pareceu uma provocação. Na verdade, como homens e mulheres indigentes e frágeis, tantas vezes nos lamentamos daquilo que nos falta. Contudo, mesmo assim cantamos que o Senhor é o nosso pastor e que, por isso, nada nos falta nem faltará. Somos chamados a redescobrir neste salmo a verdadeira confiança que deve caracterizar a vida cristã, depositando toda a nossa esperança no Deus que é o bom e belo pastor.

            Jesus, Rei do Universo, identifica-se com os mais pequeninos. O rosto do irmão que sofre, que tem fome e sede, necessidade de acolhimento ou visita, necessidade de oração ou compreensão, perdão ou consolo é o próprio Jesus. Ele quer identificar-se com a nossa humana condição que assumiu até às últimas consequências. Jesus sabe o que é ter fome e sede, pois, teve fome no deserto e sede no alto da Cruz, Jesus sabe o que é estar preso, ser maltratado, estar doente e ser peregrino. Por isso, se identifica com todos eles e nos recorda que na estrada da vida somos os que ajudam e os que precisam de ser ajudados, os que perdoam e precisam de ser perdoados, os que amam e precisam de ser amados.in Voz Portucalense.

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            A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, sendo o último Domingo do Ano Litúrgico, é uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom deste ano litúrgico que termina e invocar a bênção de Deus para o ano que se vai iniciar. Proclamando a realeza de Jesus Cristo como Senhor do tempo e da história, este Domingo deve ter a marca do louvor e ação de graças que pode traduzir-se no canto solene do Te Deum, hino litúrgico de louvor e de júbilo, agradecendo o dom da vida comunitária e de tantos batizados que corresponsáveis na missão colaboram e edificam a comunidade. No novo Cantoral Nacional podem encontrar quatro propostas musicadas do Te Deum. in Voz Portucalense

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         Estamos no último domingo do tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Durante todo este ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, acompanhamos o evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

        E  faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

       Também neste último Domingo do Ano Litúrgico – Solenidade de Cristo-Rei – se vive, a nível Diocesano, a Jornada Mundial da Juventude. O Papa Francisco escreveu uma mensagem para este dia e que pode ser lida em anexo. As iniciativas, a nível Diocesano, também ficam em anexo.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Ez 34,11-12.15-17

«Eu próprio irei em busca das minhas ovelhas e hei de encontrá-las».

Ambiente

            Ezequiel é conhecido como “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilónia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.

            A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

            A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.

            O texto que nos é hoje proposto pertence, provavelmente, à segunda fase do ministério de Ezequiel. Depois de denunciar os “maus pastores” que exploraram e abusaram do Povo e o conduziram por caminhos de morte e de desgraça, até à catástrofe final de Jerusalém e ao Exílio (cf. Ez 34,1-9), o profeta anuncia a chegada de um tempo novo em que o próprio Deus vai conduzir o seu Povo e apascentar as suas ovelhas. É um oráculo de esperança, que abre uma nova história e propõe um novo futuro ao Povo de Deus. in Dehonianos.

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

            A imagem bíblica do Bom Pastor é uma imagem privilegiada para apresentar Deus e para definir a sua relação com os homens. Sublinha a sua autoridade e o seu papel na condução do seu Povo pelos caminhos da história; mas, sobretudo, sublinha a preocupação, o carinho, o cuidado, o amor de Deus pelo seu Povo. Na nossa cultura urbana, já nem todos entendem a figura do “pastor”; mas todos são convidados a entregar-se nas mãos de Deus, a confiar totalmente n’Ele, a deixar-se conduzir por Ele, a fazer a experiência do seu amor e da sua bondade. É uma experiência tranquilizante e libertadora, que nos traz serenidade e paz.

            Também aqui, a questão não é se Deus é ou não “pastor” (Ele é sempre “pastor”!); mas é se estamos ou não dispostos a segui-l’O, a deixar-nos conduzir por Ele, a confiar n’Ele para atravessar vales sombrios, a deixar-nos levar ao colo por Ele para que os nossos pés não se firam nas pedras do caminho. Uma certa cultura contemporânea assegura-nos que só nos realizaremos se nos libertarmos de Deus e formos os guias de nós próprios. O que escolhemos para nos conduzir à felicidade e à vida plena: Deus ou o nosso orgulho e autossuficiência

Às vezes, fugindo de Deus, agarramo-nos a outros “pastores” e fazemos deles a nossa referência, o nosso líder, o nosso ídolo. O que é que nos conduz e condiciona as nossas opções: a riqueza e o poder? Os valores ditados por aqueles que têm a pretensão de saber tudo? O político e socialmente correto? A opinião pública? O presidente do partido? O comodismo e a instalação? A preservação dos nossos esquemas egoístas e dos nossos privilégios? O êxito e o triunfo a qualquer custo? O herói mais giro da telenovela? O programa de maior audiência da estação televisiva de maior audiência? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão – O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

LEITURA II – 1 Cor 15,20-26.28

«Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram».

Ambiente

            No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, vindo de Atenas, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com Act 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; Act 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga.

            Como resultado da pregação de Paulo nasceu, contudo, a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora, em geral, de condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. Act 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).

            De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos do ambiente corrupto que se respirava na cidade e não podia deixar de ser influenciada por esse ambiente. É neste contexto que podemos entender alguns dos problemas sentidos na comunidade e apontados na Primeira Carta aos Coríntios: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10)… Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em contradição com a pureza da mensagem evangélica.

            Um dos pontos onde havia uma notória dificuldade em conciliar os dados da fé cristã com os valores do mundo grego era na questão da ressurreição. Enquanto a ressurreição dos mortos era relativamente bem aceite no judaísmo (habituado a ver o homem na sua unidade), constituía um problema muito sério para a mentalidade grega. A cultura grega estava fortemente influenciada por filosofias dualistas, que viam no corpo uma realidade negativa e na alma uma realidade nobre e ideal. Aceitar que a alma viveria sempre não era difícil para a mentalidade grega… O problema era aceitar a ressurreição do homem total: sendo o homem (de acordo com a mentalidade grega) constituído por alma e corpo, como podemos falar da ressurreição do homem? in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:

            O nosso texto garante-nos que a meta final da nossa caminhada é o Reino de Deus – isto é, uma realidade de vida plena e definitiva, de onde a doença, a tristeza, o sofrimento, a injustiça, a prepotência, a morte estarão ausentes. Convém ter sempre presente esta realidade, ao longo da nossa peregrinação pela terra… A nossa vida presente não é um drama absurdo, sem sentido e sem finalidade; é uma caminhada tranquila, confiante – ainda quando feita no sofrimento e na dor – em direção a esse desabrochar pleno, a essa vida total que Deus nos reserva.

            Como é que aí chegamos? Paulo responde: identificando-nos com Cristo. A ressurreição de Cristo é o “selo de garantia” de Deus para uma vida oferecida ao projeto do Reino… Demonstra que uma vida vivida na escuta atenta dos projetos do Pai e no amor e no serviço aos homens conduz à vida plena; demonstra que uma vida gasta na luta contra o egoísmo, a opressão e o pecado conduz à vida definitiva; demonstra que uma vida gasta ao serviço da construção do Reino conduz à vida verdadeira… Se a nossa vida for gasta do mesmo jeito, seguiremos Cristo na ressurreição, atingiremos a vida nova do Homem Novo e estaremos para sempre com Ele nesse Reino livre do sofrimento, do pecado e da morte que Deus reserva para os seus filhos.

            Descobrir que o Reino da vida definitiva é a nossa meta final significa eliminar definitivamente o medo que nos impede de atuar e de assumir um papel de protagonismo na construção de um mundo novo. Quem tem no horizonte final da sua vida o Reino de Deus, pode comprometer-se na luta pela justiça e pela paz, com a certeza de que a injustiça, a opressão, a oposição dos poderosos, a morte não podem pôr fim à vida que o anima. Ter como meta final o Reino significa libertarmo-nos do medo que nos paralisa e encontrarmos razões para um compromisso mais consequente com Deus, com o mundo e com os homens. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 25, 31-46

«Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso».

«Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos».

«Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes».

Ambiente

            Esta impressionante descrição do juízo final é a conclusão das três parábolas precedentes (a “parábola do mordomo fiel e do mordomo infiel” – cf. Mt 24,45-51; a “parábola das jovens previdentes e das jovens descuidadas” – cf. Mt 25,1-13; a “parábola dos talentos” – cf. Mt 25,14-30). Tanto no texto que nos é proposto como nessas três parábolas aparecem dois grupos de pessoas que tiveram comportamentos diversos enquanto esperavam a vinda do Senhor Jesus. O autor do texto mostra agora qual será o “fim” daqueles que se mantiveram e daqueles que não se mantiveram vigilantes e preparados para a vinda do Senhor.

            Mais uma vez, para percebermos a catequese que Mateus aqui desenvolve, temos de recordar o contexto da comunidade cristã a quem ela se destina. Estamos nos últimos decénios do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo inicial pela vinda iminente de Jesus para instaurar o Reino definitivo. Os cristãos que constituem a comunidade de Mateus estão desinteressados, instalados, acomodados; vivem a fé de forma rotineira, morna, pouco exigente e pouco comprometida; alguns, diante das dificuldades, deixam a comunidade e renunciam ao Evangelho…

            Mateus, preocupado com a situação, procura revitalizar a fé, reacender o entusiasmo, entusiasmar ao compromisso. Vai fazê-lo através de uma catequese que convida à vigilância, enquanto se espera o encontro final com Cristo.

            No texto que nos é proposto, Mateus mostra aos crentes da sua comunidade – com a linguagem veemente dos pregadores da época – o que espera, no final da caminhada, quer aqueles que se mantiveram vigilantes e viveram de acordo com os ensinamentos de Jesus, quer aqueles que se esqueceram dos valores do Evangelho e que conduziram a vida de acordo com outros interesses e preocupações. in Dehonianos.

Considerar os seguintes pontos:

            Quem é que a nossa sociedade considera uma “pessoa de sucesso”? Qual o perfil do homem “importante”? Quais são os padrões usados pela nossa cultura para aferir a realização ou a não realização de alguém? No geral, o “homem de sucesso”, que todos reconhecem como importante e realizado, é aquele que tem dinheiro suficiente para concretizar todos os sonhos e fantasias, que tem poder suficiente para ser temido, que tem êxito suficiente para juntar à sua volta multidões de aduladores, que tem fama suficiente para ser invejado, que tem talento suficiente para ser admirado, que tem a pouca vergonha suficiente para dizer ou fazer o que lhe apetece, que tem a vaidade suficiente para se apresentar aos outros como modelo de vida… No entanto, de acordo com a parábola que o Evangelho propõe, o critério fundamental usado por Jesus para definir quem é uma “pessoa de sucesso” é a capacidade de amar o irmão, sobretudo o mais pobre e desprotegido. Para mim, o que é que faz mais sentido: o critério do mundo ou o critério de Deus? Na minha perspetiva, qual é mais útil e necessário: o “homem de sucesso” do mundo ou o “homem de sucesso” de Deus?

            O amor ao irmão é, portanto, uma condição essencial para fazer parte do Reino. Nós cristãos, cidadãos do Reino, temos consciência disso e sentimo-nos responsáveis por todos os irmãos que sofrem? Os que não têm trabalho, nem pão, nem casa, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os imigrantes, perdidos numa realidade cultural e social estranha, vítimas de injustiças e violências, condenados a um trabalho escravo e que, tantas vezes, não respeita a sua dignidade, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os pobres, vítimas de injustiças, que nem sequer têm a possibilidade de recorrer aos tribunais para que lhes seja feita justiça, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que sobrevivem com pensões de miséria, sem possibilidades de comprar os medicamentos necessários para aliviar os seus padecimentos, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que estão sozinhos, abandonados por todos, sem amor nem amizade, podem contar com a nossa solidariedade ativa? Os que estão presos a um leito de hospital ou a uma cela de prisão, marginalizados e condenados em vida, podem contar com a nossa solidariedade ativa?

            O Reino de Deus – isto é, esse mundo novo onde reinam os critérios de Deus e que se constrói de acordo com os valores de Deus – é uma semente que Jesus semeou, que os discípulos são chamados a edificar na história (através do amor) e que terá o seu tempo definitivo no mundo que há de vir. Não esqueçamos, no entanto, este facto essencial: o Reino de Deus está no meio de nós; a nossa missão é fazer com que ele seja uma realidade bem viva e bem presente no nosso mundo. Depende de nós fazer com que o Reino deixe de ser uma miragem, para passar a ser uma realidade a crescer e a transformar o mundo e a vida dos homens.

            Alguém acusou a religião cristã de ser o “ópio do povo”, por pôr as pessoas a sonhar com o mundo que há de vir, em lugar de as levar a um compromisso efetivo com a transformação do mundo, aqui e agora. Na verdade, nós os cristãos caminhamos ao encontro do mundo que há de vir, mas de pés bem assentes na terra, atentos à realidade que nos rodeia e preocupados em construir, desde já, um mundo de justiça, de fraternidade, de liberdade e de paz. A experiência religiosa não pode, nunca, servir-nos de pretexto para a evasão, para a fuga às responsabilidades, para a demissão das nossas obrigações para com o mundo e para com os irmãos. in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura deve ser marcada por um tom alegre, revestido de esperança e confiança, respeitando a mensagem do texto proclamado. Pede-se especial atenção para as palavras repetidas ao longo do texto: o pronome pessoal «Eu» e a forma verbal «hei de». A força da repetição deve ser explorada na proclamação do texto.

            A segunda leitura exige uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma melhor articulação do texto e transmissão do conteúdo proclamado.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O ÚNICO REI QUE NÃO REINA DESDE FORA

            A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo». É esta Solenidade que hoje celebramos.

            «O Senhor Reina». É assim que, no Antigo Testamento, o Deus bíblico se apresenta em ação reinando, isto é, salvando, justificando, perdoando, criando. Na verdade, biblicamente falando, Reinar é Salvar, isto é, trazer o bem-estar, a alegria e a prosperidade ao seu Povo. É esta a missão do Rei. Salvar é Justificar, o que implica a extraordinária ação de transformar um pecador em justo. Justificar é, portanto, Perdoar. Neste profundo sentido bíblico, Justificar e Perdoar são ações que só Deus pode fazer, dado que transformar um pecador em justo é igual a Criar ou Recriar um homem novo. E da ação de Criar também só Deus é sujeito em toda a Escritura. Já se sabe que o Novo Testamento transforma o ativo «Deus Reina» no mais abstrato «Reino de Deus», expressão que ressoa no Novo Testamento por mais de 160 vezes.

            Tanta e quase indescritível riqueza a de um Deus, sentado no seu trono de Luz, mas que Vem, como um Filho do Homem, com o domínio novo, frágil e forte, do Amor: «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5). Da lição do Livro de Daniel 7,13-14 e respetivo contexto, vê-se bem que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

            O domínio do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é de sempre e é para sempre. Por isso, é Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

            Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a. É assim que o Amor Reina, nos Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência e estupidez. O Reino do Filho do Homem não pode, na verdade, ser daqui (cf. João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira, da ganância e da violência. É de Amor novo e subversivo, transformante, que se trata.

            Aí está então a página divina do Evangelho deste Último Domingo do Ano Litúrgico, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: Mateus 25,31-46. Texto espantoso. Surge em cena o Filho do Homem, o Pastor, o Rei, mas vê-se bem que é Jesus, o Senhor. Reúne e cria, separando (Mateus 25,31-33), como sucede no texto da criação de Génesis 1,1-2,4a. A mansidão é a nota maior deste Rei, Pastor, Filho do Homem, Jesus e Senhor, que domina os animais, separando os mansos (ovelhas) dos violentos e orgulhosos (cabras). Mas esta ação de separação acontece apenas no entardecer da vida e da história, tal como sucede, para muito espanto nosso, ao trigo e à cizânia da parábola de Mateus 13,30-31 e 36-43. Para muito espanto também de João Batista que tinha anunciado um Messias que vinha aí, já e em força, com o machado e a pá de joeirar (cf. Mateus 3,10 e 12) para proceder aos devidos ajustes de contas com aquela geração má e perversa.

            A parábola de hoje, que difere para o final do Evangelho e da história a separação «já e em força» proclamada por João Batista e por nós tanto apetecida, mostra em Jesus um Messias, Rei e Senhor, que não comunga da nossa atração sádica pelo espetáculo ávido de sangue, mas vem revestido da mansidão do Servo do Senhor, de Isaías 42,1-4, que é, por sinal e de forma significativa, a mais longa citação do Antigo Testamento que o Evangelho de Mateus faz em 12,18-21, retratando com ela Jesus, o Rei manso e novo que desconcerta João Batista e a nós também. O referido texto de Isaías 42,2 diz do Servo do Senhor que «não fará ouvir desde fora a sua voz». Fica então claro que, se não faz ouvir a sua voz desde fora, só a pode fazer ouvir desde dentro. O grande pensador do século XX, de origem hebraica, Emmanuel Levinas, glosava, nas suas lições talmúdicas, este texto em sentido messiânico, escrevendo que «o Messias é o único Rei que não reina desde fora». Se não reina desde fora, então não reina com poder, dinheiro, armas ou decretos. Se não reina desde fora, então só pode reinar desde dentro, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas, salvando as pessoas. Jesus, Rei manso e novo, vai assumir por inteiro a identidade deste Servo e vai cumprir a sua missão.

            Em ordem a uma melhor compreensão do andamento do imenso texto de Mateus 25,31-46, importa notar que começa com um cenário descritivo introdutório (v. 31-33) (A1) e termina com um cenário descritivo conclusivo (v. 46) (A2). Entre os dois cenários descritivos que abrem e fecham o movimento do texto (A1-A2), bem no centro da estrutura, surge a ação da Palavra, o dizer (v. 34-45), que podemos distribuir em duas vagas: um dizer positivo, dizer SIM (v. 34-40) (B1), e um dizer negativo, dizer NÃO (v. 41-45) (B2), como se pode ver na configuração do texto, que hoje aqui deixamos exposto:

«25,31Quando vier o FILHO DO HOMEM na sua glória e todos os anjos com Ele, então sentar-se-á sobre o trono da sua glória, 32e serão REUNIDAS diante d’ELE todas as nações, e SEPARÁ-LOS-Á uns dos outros, como o PASTOR SEPARA as ovelhas das cabras, 33e porá as ovelhas à sua direita e as cabras à esquerda. (A1)

34Então DIRÁ o REI aos que (estão) à sua direita: “Vinde, benditos de meu PAI, recebei em herança o REINO preparado para vós desde a fundação do mundo, 35pois tive fome e destes-ME de comer, tive sede e destes-ME de beber, era estrangeiro e recolheste-ME, 36nu e vestites-ME, estive doente e visitastes-ME, estava na prisão e viestes ter COMIGO”.

37Então os justos responder-lhe-ão, DIZENDO: “SENHOR, quando foi que TE vimos com fome e TE demos de comer, ou com sede e TE demos de beber? 38Ou quando TE vimos estrangeiro e TE recolhemos, ou nu e TE vestimos? 39Ou quando TE vimos doente ou na prisão e viemos ter CONTIGO?

40E, respondendo, o REI DIR-LHES-Á: “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a UM destes meus irmãos, os mais pequenos, a MIM o fizestes”. (B1)

41Então DIRÁ também aos da esquerda: “Afastai-vos de MIM, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos, 42pois tive fome e NÃO ME destes de comer, tive sede e NÃO ME destes de beber, 43era estrangeiro e NÃO ME recolhestes, nu e NÃO ME vestistes, estive doente e na prisão e NÃO ME visitastes”.

44Então também eles responderão, DIZENDO: “SENHOR, quando foi que TE vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou nu ou doente ou na prisão e NÃO cuidámos de TI?”

45Então responder-lhes-á, DIZENDO: “Em verdade vos digo: cada vez que NÃO o fizestes a UM destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO fizestes”. (B2)

46E irão estes para o castigo eterno, e os justos para a vida eterna» (Mt 25,31-46). (A2)

            Lendo este imenso texto e captando o seu movimento, não passará despercebido a ninguém que o seu centro reside nas duas vagas que mostram a ação de dizer SIM (v. 34-40) (B1) ou de dizer NÃO (v. 41-45) (B2), uma e outra em consonância com a ação de FAZER (v. 40) ou de NÃO FAZER (v. 45). Na verdade, aquela declaração afirmativa de Jesus: «Tive fome e destes-ME de comer (1), tive sede e destes-ME de beber (2), era estrangeiro e recolhestes-ME (3), nu e vestites-ME (4), estive doente e visitastes-ME (5), estava na prisão e viestes ter COMIGO (6)» (v. 35-36), tem um alcance quase incontornável e insuperável, que não se confina neste pequeno imenso texto de Mateus, mas se insinua nas pregas da Bíblia inteira, linhas e entrelinhas.

            Diz-nos São João, no prólogo do seu Evangelho, que «foi pelo Verbo que tudo foi feito» (João 1,3), e São Paulo escreve, na Carta aos Colossenses, que «n’Ele foram criadas todas as coisas» (Colossenses 1,16), para acentuar depois, na sua Segunda Carta aos Coríntios, que o «Filho de Deus, Jesus Cristo […], não foi “sim e não”, mas unicamente “sim”» (2 Coríntios 1,19). Acentuações teológicas ricas e densas, que ganham ainda uma maior intensidade, se verificarmos que a narrativa de Génesis 1,1-2,4a, a grande narrativa da Criação, se compõe de 452 palavras hebraicas, não registando, todavia, o que é absolutamente espantoso, um único «não»! Esplêndida e contagiante harmonia das Escrituras. O denso texto de Gn 1,1-2,4a, como o nosso texto de Mateus 25,35-36, que fornece a base das nossas «obras de misericórdia», não contêm nenhuma negação! Antes, são uma extraordinária afirmação que se insinua em todas as linhas e entrelinhas da Escritura Santa, e que mantém o ser humano em permanente tensão e atenção, para mais quando Jesus nos revela que os pobres e necessitados a quem prestámos assistência são, na verdade, seus irmãos (v. 40). E mais ainda: todo o bem que fizemos a UM desses pequeninos, foi, na verdade, feito ao próprio Jesus (v. 40). Vê-se bem que Jesus, o Senhor do SIM, por quem tudo foi feito, em quem tudo foi criado, anda muito metido nos nossos caminhos lamacentos ou empedrados, mas sempre tortuosos, e pede a nossa esmola em cada esquina, e quer que o nosso «fazer» seja criador, sempre marcado pelo SIM, como o d’Ele.

            Toda a atenção, portanto, uma vez que o próprio Jesus se cruza connosco, todos os dias, nos nossos caminhos tortuosos e lamacentos. Mas atenção sobretudo, porque «negar» é «não-dizer-sim» (ne-aiere) ao rosto nu e interpelante do outro, e «não-dizer-sim» ao rosto nu e interpelante do outro é não responder ao apelo-mandamento do seu rosto nu e interpelante, e não responder ao rosto nu e interpelante do outro define-se como «indiferença», pelo que, nos interstícios de negare [neg, forma reforçada de ne], já se entrevê necare [= matar]. Veja-se então, em contraluz, o peso insuportável daquela declaração negativa de Jesus: «Tive fome e NÃO ME destes de comer (-1), tive sede e NÃO ME destes de beber (-2), era estrangeiro e NÃO ME recolhestes (-3), nu e NÃO ME vestistes (-4), estive doente e na prisão e NÃO ME visitastes (-5 e -6) (v. 42-43)», situação bem retratada na confissão de Caim, o assassino do seu irmão: «A minha culpa é demasiado pesada para a suportar» (Génesis 4,13). Mas também o orante que reza nos Salmos confessa: «As minhas culpas estão em acima da minha cabeça; como um fardo pesado, são demasiado pesadas para mim» (Salmo 38,5).

            A selar a declaração afirmativa de Jesus, encontramos uma dupla afirmação sobre o «fazer»: «Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a UM destes meus irmãos, os mais pequenos, a MIM o fizestes» (v. 40). O mesmo acontecendo no final da declaração negativa de Jesus, com uma dupla afirmação sobre o «não-fazer»: «Em verdade vos digo: cada vez que NÃO o fizestes a UM destes, os mais pequenos, também a MIM o NÃO fizestes» (v. 45). O narrador informa-nos, no v. 46, que estes vão para o «castigo eterno», a que Jesus já tinha chamado «fogo eterno» (v. 41), e os justos para a «vida eterna», a que Jesus já tinha chamado «Reino para vós preparado» (v. 34), em linha com a formulação das Bem-Aventuranças 1.ª e 8.ª (Mateus 5,3 e 10). A condenação aqui mostrada, sem que outros critérios tenham sido considerados no âmbito da fé ou da moral, assenta na inação. Tal como nas duas parábolas que precedem imediatamente o nosso texto de Mateus 25,31-46, a parábola das dez virgens (Mateus 25,1-13) e a parábola dos talentos (Mateus 25,14-30), sucede às virgens insensatas, que não se prepararam, e ao servo que ficou paralisado pelo medo, e enterrou o seu talento. As virgens insensatas e o servo que nada fez não se aperceberam da atenção vigilante, da prontidão e da urgência que o Reino dos Céus requer de nós.

            Ouçamos hoje com qualificada atenção Ezequiel 34,11-12.15-17. O cenário apresentado mostra-nos Deus como Pastor amoroso, companheiro de viagem dos seus filhos. Deus surge retratado com os verbos «procurar», «curar», «reunir», «conduzir», «fazer repousar», «apascentar». Mas também é dito que Deus fará justiça entre ovelhas e ovelhas, carneiros e cabritos, preparando assim a cena grandiosa de Mateus 25,31-46. Assim também Jesus, Pastor e Rei, passou pelo meio de nós, tratando as nossas feridas e lavando-nos os pés e a alma, e o seu Reino novo não é inaugurado com uma solene parada militar, mas com a sua prisão e intronização no trono da Cruz!

            Neste imenso e denso contexto, recebemos hoje também a lição magistral que São Paulo oferece aos Coríntios e a nós (1 Coríntios 15,20-28). «Cristo foi ressuscitado dos mortos, primícias dos que adormeceram» (1 Coríntios 15,20). Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro e primícias, então representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens.

            Recebendo este mundo novo, que a nós chega como vida nova dada aos filhos, e por eles recebida, deixemos então ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23»

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXXIV – Solenidade de Cristo-Rei – Ano A – 26.11.2023 (Ez 34, 1-12.15-17)
  2. Leitura II do Domingo XXXIV – Solenidade de Cristo-Rei – Ano A – 26.11.2023 (1 Cor 15, 20-26.28)
  3. Domingo XXXIV do Tempo Comum – Solenidade de Cristo-Rei – Ano A – 26.11.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXXIV do Tempo Comum – Solenidade de Cristo-Rei – Ano A – 26.11.2023 – Oração Universal
  5. Mensagem do Francisco para a XXXVIII Jornada Mundial da Juventude – 26.11.2023
  6. Dia Diocesano da Juventude 2023
  7. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXXIII do Tempo Comum – Ano A – 19.11.2023

VII Dia Mundial dos Pobres

Viver a Palavra       

            A Liturgia da Palavra de hoje é o convite a vivermos com alegria, entusiasmo e compromisso cada dia da nossa vida, aproveitando cada dia, cada momento, cada tempo como uma oportunidade única e irrepetível de fazer do mundo um lugar melhor e mais feliz. Por isso, recordo as palavras do papa Bento XVI, em Portugal, quando reunido no CCB, dizia aos artistas: «Fazei coisas belas, mas sobretudo, fazei das vossas vidas lugares de beleza». A vida é um dos mais belos e mais preciosos dons que Deus colocou em nossas mãos e somos convidados a fazer dela a mais bela obra-prima do amor, na construção de um mundo melhor.

            O Evangelho conta-nos a parábola de «um homem, [que] ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens». O nosso Deus, quando entrou na grande aventura da criação do mundo, na Sua infinita sabedoria criou o homem e a mulher e dotou-os de dons, qualidades e virtudes. Todos os dons, bons e belos, todos os bens criados foram confiados por Deus a cada homem e a cada mulher. Por isso, o evangelho deste Domingo recorda-nos que também cada um de nós é um administrador, um fiel depositário do amor e da graça que Deus abundantemente derrama sobre nós.

            A cada um Deus confiou não só os bens da criação, mas a cada um dotou de tantos dons, qualidades e graças que somos chamados a fazer render, germinar e crescer, pois Deus derrama o Seu amor sobre nós em abundância. Sinal desta abundância é a quantia confiada a cada servo na parábola. O talento era uma unidade de medida de cerca de 60Kg. A supor que o que este senhor confiou a cada servo foram talentos de ouro, imaginemos quanto não valia o que foi depositado nas mãos de cada servo, a um 300kg, a outro 120kg e a outro 60kg.

            O Deus de Jesus Cristo é o Deus generoso que derrama em abundância os seus dons e confia-nos tantos dons e qualidades, sobretudo o dom do seu amor e a sua paz. Aceitemos o desafio de Jesus e não deixemos que o comodismo nos deixe instalados e a viver daquilo que nos foi dado sem o fazer render e crescer.

            Verificamos que na parábola do Evangelho não foi confiado o mesmo a cada um, nem cada um fez render os seus talentos do mesmo modo. Na verdade, todos somos diferentes e a todos Deus confia dons e qualidades diferentes. Mas não deixemos o medo apoderar-se de nós. Não deixemos as falsas imagens de Deus assombrarem a nossa vida, tal como o terceiro servo desta parábola: «Senhor, eu sabia que és um homem severo, que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste. Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra». Este homem tinha uma imagem desfigurada do seu senhor e também nós, tantas vezes, temos uma imagem errada e desfigurada de Deus: um Deus mau e castigador que não nos acolhe e que nos impede de ser verdadeiramente felizes.

            Como afirmou Atenágoras de Constantinopla: «hoje não tenho medo de nada, porque o amor afasta todo o temor. Eis porque não tenho medo: se o Espírito Santo nos dá a graça de nos abrimos ao Deus que faz novas todas as coisas, Ele apaga o nosso bruto passado e abre diante de nós um tempo absolutamente novo, no qual tudo é verdadeiramente possível».in Voz Portucalense.

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            No dia 19 de novembro, Domingo XXXIII do Tempo Comum, celebra-se o VII Dia Mundial dos Pobres. Para este ano, o Santo Padre escreveu uma mensagem com um título retirado do livro de Tobias: «Nunca afastes de algum pobre o teu olhar» (Tb4,7). Além da divulgação do conteúdo e texto desta mensagem, este Domingo é uma ocasião privilegiada para recordar o nosso compromisso cristão com os mais desfavorecidos e indigentes. Pode dar-se a conhecer os diversos grupos e movimentos paroquiais que trabalham ao serviço dos mais pobres, mas sem esquecer que a caridade não é uma tarefa de alguns ou apenas de um grupo, mas de toda a comunidade.

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         Estamos no penúltimo domingo do tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Durante todo este ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, acompanhamos o evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Prov 31,10-13.19-20.30-31

«Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente».

Ambiente

            O “Livro dos Provérbios” apresenta várias coleções de ditos, de sentenças, de máximas, de provérbios (“mashal”) onde se cristaliza o resultado da reflexão e da experiência (“sabedoria”) de várias gerações de “sábios” antigos (israelitas e alguns não israelitas). O objetivo desses provérbios é definir uma espécie de “ordem” do mundo e da sociedade que, uma vez apreendida e aceite pelo indivíduo, o levará a uma integração plena no meio em que está inserido. Dessa forma, o indivíduo poderá viver sem traumas nem sobressaltos que destruam a sua harmonia interior e o incapacitem para dar o seu contributo à comunidade. Ficará, assim, de posse da chave para viver em harmonia consigo mesmo e com os outros, e assegurará uma vida feliz, tranquila e próspera.
O livro apresenta-se como tendo sido composto por Salomão (cf. Prov 1,1), o rei “sábio”, conhecido pelos seus dotes de governação, pelos seus dons literários, por numerosas sentenças sábias (cf. 1 Re 3,16-28; 5,7; 10,1-9.23) e que se tornou uma espécie de “padrão” da tradição sapiencial… Na realidade, não podemos aceitar, de forma acrítica, essa indicação: a leitura atenta do livro revela que estamos diante de coleções de proveniência diversa, compostas em épocas diversas. Alguns dos materiais apresentados no livro podem ser do séc. X a.C. (época de Salomão; no entanto, isso não implica que venham do próprio Salomão); outros, no entanto, são bem mais recentes.

            O texto que nos é hoje proposto aparece no final do Livro dos Provérbios. Apresenta-se literariamente como um “poema alfabético” (poema em que a primeira letra de cada verso segue a ordem das letras do alfabeto: a primeira palavra do primeiro verso começa com a letra “alef”, a primeira palavra do segundo verso começa com a letra “bet” e assim sucessivamente). Tema do poema: a mulher virtuosa.

            Provavelmente, o Livro dos Provérbios foi usado como manual para a formação de jovens que frequentavam as escolas de “sabedoria”. Este poema, situado no final do livro, poderia ser a “instrução final”: antes de abandonar a escola e depois de haver assimilado os ensinamentos dos “sábios”, o aluno era instruído acerca da eleição da esposa. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

            Mais do que uma mulher virtuosa ideal, o “sábio” autor do texto que nos é proposto exalta todos aqueles – mulheres e homens – que conduzem a sua vida de acordo com os valores do trabalho, do empenho, do compromisso, da generosidade, do “temor de Deus”. São estes valores, na opinião do autor, que nos asseguram uma vida feliz, tranquila e próspera. Numa época em que a cultura do “deixa andar”, da desresponsabilização, do egoísmo se afirma cada vez mais, este texto constitui uma poderosa interpelação… Na verdade, por que caminhos é que chegamos à vida e à felicidade?

            O nosso texto sugere também uma reflexão sobre as nossas prioridades… Da mulher virtuosa diz-se que não se preocupa com os valores efémeros (a aparência), mas que se preocupa com os valores eternos (o “temor de Deus”). Quais são as prioridades da nossa vida? Quais são os valores em que apostamos a nossa existência? Os nossos valores fundamentais são valores que nos trazem felicidade duradoura?

            A referência à generosidade para com o pobre e o necessitado é questionante… Como é que consideramos e tratamos aqueles irmãos que nos batem à porta, a pedir um pedaço de pão, um pouco de atenção, ou ajuda para deslindar um qualquer problema burocrático? Temos o coração aberto aos irmãos e pronto para ajudar, ou fechamo-nos à caridade, à partilha, ao dom?

            A referência ao “temor de Deus” como valor primordial na vida da mulher ou do homem “sábio” e virtuoso também merece a nossa consideração. No Antigo Testamento, o “temor de Deus” é a qualidade do homem ou da mulher que ama Deus, que procura conhecer os seus planos e projetos e que cumpre – com obediência radical e com total confiança – a vontade de Deus. Esta dependência de Deus – diz-nos um “sábio” de Israel – não diminui a nossa liberdade, nem atenta contra a nossa realização; pelo contrário, é condição essencial para a realização plena do homem. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 127

Refrão: Ditoso o que segue o caminho do Senhor.

LEITURA II – 1 Tes 5,1-6

«Não durmamos como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios».

Ambiente

            Já vimos, no passado domingo, que um dos problemas fundamentais para os tessalonicenses residia na compreensão dos acontecimentos ligados à parusia (regresso de Jesus, no final dos tempos).

            Paulo e as primeiras gerações cristãs acreditavam que o “dia do Senhor” (o dia da intervenção definitiva de Deus na história, para derrotar os maus e para conduzir os bons à vida plena e definitiva) surgiria num espaço de tempo muito curto e que os membros da comunidade ainda assistiriam ao triunfo final de Jesus. No entanto, os dias foram passando e, provavelmente, faleceu algum membro da comunidade. Por isso, os tessalonicenses perguntavam: qual será a sorte dos cristãos que morreram antes da segunda vinda de Cristo? Como poderão eles sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com Ele no Reino de Deus se já estão mortos?

            A estas questões Paulo respondeu já no texto que nos foi proposto no passado domingo… Mas, no texto de hoje, Paulo continua a sua reflexão sobre o “dia em que o Senhor virá” e sobre a forma como os cristãos o devem preparar. in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta os seguintes dados:

            A questão fundamental que os cristãos devem pôr, a propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas é a questão de como esperar e preparar esse momento. Paulo deixa claro que o que é preciso é estar vigilante. “Estar vigilante” não significa ficar a olhar para o céu à espera do Senhor, esquecendo e negligenciando as questões do mundo e os problemas dos homens; mas significa viver, no dia a dia, de acordo com os ensinamentos de Jesus, empenhando-se na transformação do mundo e na construção do Reino.

            A certeza da segunda vinda do Senhor dá aos crentes uma perspetiva diferente da vida, do seu sentido e da sua finalidade… Para os não crentes, a vida encerra-se dentro dos limites estreitos deste mundo e, por isso, só interessam os valores deste mundo; para os crentes, a verdadeira vida, a vida em plenitude, está para além dos horizontes da história e, por isso, é preciso viver de acordo com os valores eternos, os valores de Deus. Assim, na perspetiva dos crentes, não são os valores efémeros, os valores deste mundo (o dinheiro, o poder, os êxitos humanos) que devem constituir a prioridade e que devem dominar a existência, mas sim os valores de Deus. Quais são os valores que eu considero prioritários e que condicionam as minhas opções?

            A certeza da segunda vinda do Senhor aponta também no sentido da esperança. Os cristãos esperam, em serena expectativa, a salvação que já receberam antecipadamente com a morte de Cristo, mas que irá consumar-se no “dia do Senhor”. Os crentes são, pois, homens e mulheres de esperança, abertos ao futuro – um futuro a conquistar, já nesta terra, com fé e com amor, mas sobretudo um futuro a esperar, como dom de Deus.in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 25,14-30

«Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens».

«Muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes».

«A todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância».

Ambiente

            Mais uma vez, o Evangelho apresenta-nos um extrato do “discurso escatológico” (cf. Mt 24-25), onde Mateus aborda o tema da segunda vinda de Jesus e define a atitude com que os discípulos devem esperar e preparar essa vinda.

            A catequese que Mateus apresenta neste discurso tem em conta as necessidades da sua comunidade cristã. Estamos no final do séc. I (década de 80). Os cristãos, fartos de esperar a segunda vinda de Jesus, esqueceram o seu entusiasmo inicial… Instalaram-se na mediocridade, na rotina, no comodismo, na facilidade. As perseguições que se adivinham provocam o desânimo e a deserção… Era preciso reaquecer o entusiasmo dos crentes, redespertar a fé, renovar o compromisso cristão com Jesus e com a construção do Reino.
É para responder a este contexto que Mateus reelabora o “discurso escatológico” de Marcos (cf. Mc 13) e compõe, com ele, uma exortação dirigida aos cristãos. Lembra-lhes que a segunda vinda do Senhor está no horizonte final da história humana; e que, até lá, os crentes devem “pôr a render os seus talentos”, vivendo na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino.

            A parábola que hoje nos é proposta fala de “talentos” que um senhor distribuiu pelos servos. Um “talento” significa uma quantia muito considerável… Corresponde a cerca de 36 quilos de prata e ao salário de aproximadamente 3.000 dias de trabalho de um operário não qualificado. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

            Antes de mais, é preciso ter presente que nós, os cristãos, somos agora no mundo as testemunhas de Cristo e do projeto de salvação/libertação que o Pai tem para os homens. É com o nosso coração que Jesus continua a amar os publicanos e os pecadores do nosso tempo; é com as nossas palavras que Jesus continua a consolar os que estão tristes e desanimados; é com os nossos braços abertos que Jesus continua a acolher os imigrantes que fogem da miséria e da degradação; é com as nossas mãos que Jesus continua a quebrar as cadeias que prendem os escravizados e oprimidos; é com os nossos pés que Jesus continua a ir ao encontro de cada irmão que está sozinho e abandonado; é com a nossa solidariedade que Jesus continua a alimentar as multidões famintas do mundo e a dar medicamentos e cultura àqueles que nada têm… Nós, cristãos, membros do “corpo de Cristo”, que nos identificamos com Cristo, temos a grave responsabilidade de O testemunhar e de deixar que, através de nós, Ele continue a amar os homens e as mulheres que caminham ao nosso lado pelos caminhos do mundo.

            Os dois “servos” da parábola que, talvez correndo riscos, fizeram frutificar os “bens” que o “senhor” lhes deixou, mostram como devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Eles tiveram a ousadia de não se contentar com o que já tinham; não se deixaram dominar pelo comodismo e pela apatia…. Lutaram, esforçaram-se, arriscaram, ganharam. Todos os dias, há cristãos que têm a coragem de arriscar. Não aceitam a injustiça e lutam contra ela; não pactuam com o egoísmo, o orgulho, a prepotência e propõem, em troca, os valores do Evangelho; não aceitam que os grandes e poderosos decidam os destinos do mundo e têm a coragem de lutar objetivamente contra os projetos desumanos que desfeiam esta terra; não aceitam que a Igreja se identifique com a riqueza, com o poder, com os grandes e esforçam-se por torná-la mais pobre, mais simples, mais humana, mais evangélica; não aceitam que a liturgia tenha de ser sempre tão solene que assuste os mais simples, nem tão etérea que não tenha nada a ver com a vida do dia a dia… Muitas vezes, são perseguidos, condenados, desautorizados, reduzidos ao silêncio, incompreendidos; muitas vezes, no seu excesso de zelo, cometem erros de avaliação, fazem opções erradas… Apesar de tudo, Jesus diz-lhes: “muito bem, servo bom e fiel. Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes. Vem tomar parte na alegria do teu Senhor”.

            O servo que escondeu os “bens” que o Senhor lhe confiou mostra como não devemos proceder, enquanto caminhamos pelo mundo à espera da segunda vinda de Jesus. Esse servo contentou-se com o que já tinha e não teve a ousadia de querer mais; entregou-se sem luta, deixou-se dominar pelo comodismo e pela apatia… Não lutou, não se esforçou, não arriscou, não ganhou. Todos os dias há cristãos que desistem por medo e cobardia e se demitem do seu papel na construção de um mundo melhor. Limitam-se a cumprir as regras, ou a refugiar-se no seu cantinho cómodo, sem força, sem vontade, sem coragem de ir mais além. Não falham, não cometem “pecados graves”, não fazem mal a ninguém, não correm riscos; limitam-se a repetir sempre os mesmos gestos, sem inovar, sem purificar, sem nada transformar; não fazem, nem deixam fazer e limitam-se a criticar asperamente aqueles que se esforçam por mudar as coisas… Não põem a render os “bens” que Deus lhes confiou e deixam-nos secar sem dar frutos. Jesus diz-lhes: “servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde não lancei; devias, portanto, depositar o meu dinheiro no banco e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu”. in Dehonianos.

Para os leitores:

             A primeira leitura abre com uma interrogação que deve ser bem entoada porque ela introduz todo o texto. Seguem-se frases curtas que devem ser lidas pausadamente e bem encadeadas para marcar o ritmo do texto.

            Na segunda leitura, deve haver um especial cuidado na leitura da expressão «Paz e segurança». Deve haver cuidado na pausa que intercala a forma verbal «disserem» e esta expressão para que se introduza o texto que vem a seguir e não como quem conclui a frase.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

NEGOCIANTES OUSADOS OU O TEMPO TODO SENTADOS EM CIMA DO TESOURO

            A parábola do Domingo passado (XXXII) terminava assim: «Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora» (Mateus 25,13). E a parábola deste Domingo, XXXIII do Tempo Comum, que segue imediatamente a anterior (Mateus 25,14-30), agrafa-se a ela, utilizando três motivos temáticos e literários: a) se a parábola do Domingo passado terminava incutindo uma atitude de vigilância: «Vigiai, pois…» [gregoreîte oûn], a de hoje encaixa ou imbrica-se nela, dizendo em que consiste essa atitude de vigilância, iniciando com: «É, na verdade, como…» [hôsper gár] (Mateus 25,14); b) o atraso do noivo na parábola anterior (Mateus 25,5) corresponde ao «muito tempo depois» da parábola de hoje (Mateus 25,19); c) as virgens operosas da parábola anterior, que tinham tudo preparado, correspondem aos dois servos operosos da parábola de hoje: elas entram na sala do banquete (Mateus 25,10), como eles entram na alegria do seu Senhor (Mateus 25,21 e 23); do mesmo modo que as virgens não operosas da parábola anterior, que não tinham tudo preparado, têm o seu paralelo no servo mau e preguiçoso da parábola de hoje: elas ficam fora da porta da sala do banquete (Mateus 25,12), como ele é excluído da alegria do seu Senhor (Mateus 25,30).

            Entrando agora mais dentro da parábola deste Domingo XXXIII (Mateus 25,14-30), somos logo levados a tomar consciência de que um imenso dom, vindo de Deus, precede sempre a nossa ação: cinco talentos, dois talentos, um talento… é sempre uma imensa quantidade dada logo à partida!

            O talento começou por ser uma unidade de peso, usada sobretudo para medir metais preciosos. Por exemplo, na Babilónia, um talento equivalia a 60 quilos. Imagine-se então o valor de um talento de ouro! Em épocas sucessivas, no período helenístico, o valor do talento baixou, situando-se então entre 35 e 26 quilos. De qualquer modo, um talento equivalia então a 6000 denários, sendo que o denário era o salário normal de um dia de trabalho. Um talento, 6000 denários, era assim o equivalente a uma vida inteira de trabalho! Portanto, quer seja um, dois ou cinco talentos, é sempre um imenso dom que nos é entregue! É sabido que o grande humanista Erasmo de Roterdão (1467-1536) partiu desta página do Evangelho para dar a estes «talentos» o sentido novo do «talento» ou «capacidades» que distinguem cada ser humano. Esta acostagem é possível, se respeitarmos as devidas distâncias. O Evangelho não fala tanto do empenho, dos méritos, das capacidades de cada um, mas mais, muito mais da graça preveniente de Deus, do primado da graça de Deus em relação a nós.

            Bem! O andamento da parábola continua a dizer-nos que os talentos entregues por Deus a cada um de nós não são como uma pedra preciosa que há que guardar ciosamente. São antes como uma imensa soma de dinheiro que há que pôr a render, ou como uma semente que há que semear para produzir raízes, caule, ramos, folhas, flores e frutos. Só que esta imensa soma de dinheiro ou esta semente capaz de um tal desenvolvimento são-nos entregues sem instruções!

            É assim que a parábola progride, mostrando-nos que os dois primeiros servos não perderam tempo, mas partiram logo (euthéôs) (Mateus 25,15 e 17) e obtiveram resultados fantásticos [100% de lucro] (Mateus 25,20 e 22). Mas o terceiro, ao contrário, agiu como se o talento recebido fosse uma pedra preciosa, e guardou-a ciosamente, para, a seu tempo, a devolver intacta ao seu dono.

            As razões do comportamento estranho deste terceiro servo, são-nos manifestadas depois, quando este servo se explica aquando da chegada, «muito tempo depois», do seu Senhor. Ele diz, escolhendo mal as palavras: «Eu sei que és um homem duro (sklêrós), que colhes onde não semeaste e juntas onde não espalhaste. Tive medo, e escondi o teu talento na terra» (Mateus 25,24-25).

            Aqui estão as respostas erradas, que vêm desde Adam. Também Adam, nosso lídimo representante, teve medo de Deus e escondeu-se dele (cf. Gn 3,10). Na esteira de Adam, também este terceiro servo da parábola de Mateus ficou tolhido pelo medo e optou por jogar pelo seguro, que se vem a revelar falso. O medo deriva, nos dois casos, de uma falsa imagem de Deus, que é visto como um homem duro e exigente. É assim que ficamos muitas vezes paralisados, sem perceber a lógica dos dons de Deus, a começar pelo dom de Deus por excelência, que é o Espírito Santo. Sim, os dons do Deus da parábola são dinâmicos, e não pedras estáticas e imóveis! E o Deus da parábola é o Senhor da alegria (Mateus 25,21 e 23), e não do medo!

            Portanto, a vigilância de Mateus 25,13 («Vigiai, pois…») manifesta-se em sermos ativos, generosos, corajosos e ousados desde o primeiro momento («partir logo») (Mateus 25,21 e 23), e não em ficarmos tolhidos, frios e inertes, ciosamente guardando um grande tesouro… Negociantes ousados, e não o tempo todo sentados em cima do tesouro.

            A lição do Livro dos Provérbios 31,10-31, hoje lida aos repelões (vv. 10-13.19-20.29-31) mostra-nos, por assim dizer, o retrato da «mulher ideal». Não se fala da sua beleza nem do charme feminino. Vemo-la, antes, como esposa, mãe e dona de casa, sempre atenta a tudo e a todos. Não vive centrada em si mesma, de forma autorreferencial, mas olha para todos e por todos à sua volta, não esquecendo os pobres e necessitados (v. 20), que estão no centro das suas atenções e no centro do poema. Como este belo modelo encaixa bem no coração deste Dia Mundial dos Pobres, que hoje se vive e celebra. Ela faz tudo, e tudo sabe fazer bem. Não perde tempo. Esta figura modelar encaixa à maravilha na parábola dos talentos do Evangelho de hoje. Nas suas mãos e em tudo o que faz, ela põe a render os talentos que Deus, no seu Desígnio Divino, lhe entregou. É ainda de realçar que este magnífico poema (Provérbios 31,10-31) é alfabético, isto é, os seus 22 versículos seguem, uma após outra, as 22 letras do alfabeto hebraico, e constitui o fecho do Livro dos Provérbios.

            O Apóstolo, por sua vez, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses 5,1-6, reclama de nós a vigilância permanente, sem nunca nos deixarmos embalar pelos pregões dos distribuidores de soníferos e de tranquilizantes, que vão pregando «paz e segurança» (1 Tessalonicenses 5,3).

            Sim, as 45 palavras hebraicas do Salmo 128 enchem-nos de paz, luz, serenidade. Respira-se também a fragrância da videira e a juventude da oliveira. Mas a família cantada neste Salmo não está fechada sobre si mesma, mas aberta à comunidade por Deus abençoada. Portanto, do perímetro da casa e da mesa em que vivem e se sentam pais e filhos, avista-se e sente-se a paz da Cidade Santa, Jerusalém. Não é de admirar que a tradição judaica tenha sabido extrair deste Salmo as «sete bênçãos para as núpcias». Saboreemos o perfume deste extrato: «Bendito, ó Senhor, que concedeste ao esposo e à esposa júbilo, canto, gozo, alegria, amor, paz, fraternidade e amizade. Possam depressa e para sempre, ó Senhor, ressoar gritos de gozo em Jerusalém, cidade santa. Possa levantar-se, cheia, a voz jubilosa do esposo e da esposa e os coros gozosos de quem os acompanha na sua alegria. Bendito és tu, Senhor, que alegras o esposo com a sua esposa!».

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXXIII do Tempo Comum – Ano A – 19.11.2023 (Prov 31, 10-13.19-20.30-31)
  2. Leitura II do Domingo XXXIII do Tempo Comum – Ano A – 19.11.2023 (1 Tes 5, 1-6)
  3. Domingo XXXIII do Tempo Comum – Ano A – 19.11.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXXIII do Tempo Comum – Ano A – 19.11.2023 – Oração Universal
  5. Mensagem do Papa Francisco para o VII DIA MUNDIAL DOS POBRES – 19.11.2023
  6. VII Dia Mundial dos Pobres na Diocese do Porto
  7. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXXII do Tempo Comum – Ano A – 12.11.2023

Viver a Palavra

            Somos homens e mulheres que se deixam fascinar por Jesus, o Pregador da Galileia, o Rosto misericordioso do Pai que nos convida a olhar a vida como um tempo de espera vigilante e confiante porque Ele é o Senhor do Tempo e da História, porque a Sua vida rasga para nós horizontes de esperança e nos oferece um horizonte de realização e felicidade que só Ele nos pode oferecer.

            O cristão vive nesta atitude de espera permanente, como sentinela vigilante porque o Senhor veio, vem e virá. Queremos estar vigilantes para acolher Aquele que é a Sabedoria do Pai e que «se deixa ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram». Jesus, a Sabedoria do Pai, é a Ressurreição e a vida, como nos recorda S. Paulo. O Ressuscitado vivo e glorioso, atuante e presente na história e na vida da humanidade é horizonte de esperança mesmo diante do limite maior da nossa existência. Pela Sua morte e ressurreição a morte torna-se porta para a vida, o rebentar das águas para uma vida em plenitude.

            É este Jesus que nós queremos esperar vigilantes, com lâmpadas acesas e com as almotolias cheias de azeite, como homens e mulheres que vivem com o coração disponível para acolher a luz que brota do coração de Deus. Esta arte de viver a esperança tem como segredo deixar-se fascinar, moldar e transformar por Aquele que esperamos em cada dia e que não vem atrasado, mas que no amor nos antecipa e, por isso, nos amou primeiro para que, com Ele e como Ele, aprendamos a amar aqueles que se encontram connosco na estrada da vida.

            «Senhor, senhor, abre-nos a porta!», assim gritam aquelas virgens que não estavam preparadas e que tendo ido comprar azeite voltaram quando a porta estava já fechada. Ouve-se lá de dentro a resposta: «em verdade vos digo: Não vos conheço». Para mim, sempre me pareceu muito duro este diálogo. Como pode, Aquele Jesus de Nazaré que afirmou em alta voz ser a «Porta das Ovelhas», «caminho, verdade e vida», «Pastor que vai ao encontro da ovelha perdida» ser este esposo que apenas responde: «não vos conheço»?

            Onde está o misericordioso Mestre da Galileia que vive de porta aberta para acolher a todos e que como Bom Pastor conhece cada ovelha pelo nome? Jesus, manso e humilde de coração, propõe uma radicalidade de vida que nos provoca e desinstala. Desafia-nos a entrar dentro do nosso coração, a mergulhar no mais íntimo de nós e a responder à pergunta que o Papa Francisco deixava meditando este texto evangélico: «um dia será o último. E se fosse hoje, como estaria preparado?».

            Esta pergunta é para mim e para ti, mas importa responder a esta pergunta com um coração cheio de confiança e esperança, de quem se sabe frágil, pequeno e pecador e, por isso, totalmente entregue nas mãos de Deus, nas mãos Daquele que nos chama da morte à vida, da mentira à verdade, do desespero à esperança. A nossa confiança e esperança não são uma mera alienação ou uma projeção dos nossos sonhos ou desejos mais íntimos, mas têm a consistência de um Rosto, o Rosto misericordioso de Cristo, que nos sustenta no Seu amor e que enche as nossas lâmpadas tantas vezes apagadas e adormecidas. Por isso, queremos cantar e proclamar que só em Jesus encontramos a força necessária para percorrer com esperança o caminho certo: «A minha alma tem sede de Vós, meu Deus».in Voz Portucalense.

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         Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Sab 6,12-16

«A Sabedoria é luminosa e o seu brilho é inalterável; deixa-se ver facilmente àqueles que a amam e faz-se encontrar aos que a procuram.»

Ambiente

            O “Livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira metade do séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e conceções do mundo helénico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.

            O texto que nos é proposto pertence à segunda parte do livro (cf. Sab 6,1-9,18). Aí, o autor do livro coloca na boca do rei Salomão (embora o nome do rei nunca seja referido explicitamente) o “elogio da sabedoria”. Dirigindo-se aos outros reis, Salomão convida-os a acolher a “sabedoria” (cf. Sab 6,11), pois ela é bela, inalterável e garante a imortalidade e o reinado eterno.

            O que é esta “sabedoria” de que aqui se fala? A “sabedoria” é a arte de bem viver, de ser feliz. Consta de um conjunto de princípios práticos, de normas de comportamento deduzidas da reflexão e da experiência, destinadas a orientar o homem sobre a forma de conduzir-se na vida do dia a dia. O objetivo dessas normas é proporcionar ao homem uma vida harmoniosa, equilibrada, ordenada, cheia de êxitos.

            No entanto, a reflexão israelita acabou por identificar a “sabedoria” com a Torah (Lei de Deus). Ser “sábio” é – para a reflexão judaica da época em que o “Livro da Sabedoria” apareceu – cumprir integralmente os mandamentos da Lei. Na “sabedoria”/Torah, revelada por Jahwéh, está o caminho para ter êxito, para ultrapassar os obstáculos que a vida traz e para ser feliz.

            É neste contexto que devemos entender este convite à “sabedoria”.in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

            A “sabedoria” de que o autor da primeira leitura fala é um dom de Deus para que o homem saiba conduzir a sua vida ao encontro da verdadeira vida e da verdadeira felicidade. Deus não é um adversário do homem, com ciúmes do homem, preocupado em impedir a felicidade e a realização do homem; mas é um Deus cheio de amor, preocupado em proporcionar ao homem todas as possibilidades de ser feliz e de se realizar plenamente. A nossa leitura convida-nos a ver em Deus esse Pai cheio de amor, preocupado com a felicidade dos seus filhos, sempre disposto a oferecer-lhes os seus dons e a conduzi-los para a vida e para a salvação; e convida-nos a uma atenção contínua, a fim de detetarmos e acolhermos esses dons que, a cada instante, Deus nos oferece.

            O que é decisivo para que o homem tenha acesso pleno aos dons de Deus é a sua disponibilidade para acolher e para aceitar esses dons… Deus coloca os seus dons à disposição do homem, de forma gratuita e incondicional; ao homem é pedido apenas que não se feche no seu egoísmo e na sua autossuficiência, mas abra o seu coração à graça que Deus lhe oferece. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 62 (63)

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

LEITURA II – 1 Tes 4,13-18

«Se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, do mesmo modo, Deus levará com Jesus os que em Jesus tiverem morrido.».

Ambiente

            De acordo com os “Actos dos Apóstolos”, Paulo não teve muito tempo para evangelizar os tessalonicenses. Depois de poucas semanas de pregação, um motim habilmente preparado pelos judeus da cidade obrigou-o a deixar precipitadamente Tessalónica, deixando atrás de si uma comunidade cristã fervorosa e entusiasta, mas insuficientemente preparada do ponto de vista catequético (cf. Act 17,1-10). Paulo foi para Bereia, depois para Atenas e Corinto. De Corinto, Paulo enviou Timóteo ao encontro dos tessalonicenses, para verificar como é que a comunidade se estava a aguentar face à hostilidade dos judeus. No regresso a Corinto, Timóteo deu conta a Paulo da situação da comunidade: os tessalonicenses continuavam a viver com entusiasmo a sua fé, embora sentissem algumas dúvidas em questões de fé e de doutrina.

            Um dos problemas teológicos que mais preocupava os tessalonicenses era a questão da parusia (regresso de Jesus, no final dos tempos) … Paulo e as primeiras gerações cristãs acreditavam que esse dia surgiria num espaço de tempo muito curto e que assistiriam ao triunfo final de Jesus. A este propósito os tessalonicenses punham, no entanto, um problema muito prático: qual será a sorte dos cristãos que morrerem antes da segunda vinda de Cristo? Como poderão sair ao encontro de Cristo vitorioso e entrar com ele no Reino de Deus se já estão mortos?

            É então que Paulo escreve aos tessalonicenses, encorajando-os na fé e respondendo às suas dúvidas. Estamos no ano 50 ou 51. O texto que nos é proposto é parte desse esclarecimento sobre a parusia que Paulo incluiu na carta. in Dehonianos.

Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

            A certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um projeto de salvação e de vida para cada homem; e que esse projeto está a realizar-se continuamente em nós, até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente com Deus.

            A nossa vida presente não é, pois, um drama absurdo, sem sentido e sem finalidade; é uma caminhada tranquila, confiante – ainda quando feita no sofrimento e na dor – em direção a esse desabrochar pleno, a essa vida total em que se revelará o Homem Novo.

            Isso não quer dizer que devamos ignorar as coisas boas deste mundo, vivendo apenas à espera da recompensa futura, no céu; quer dizer que a nossa existência deve ser – já neste mundo – uma busca da vida e da felicidade; isso implicará uma não conformação com tudo aquilo que nos rouba a vida e que nos impede de alcançar a felicidade plena, a perfeição última (a nós e a todos os homens nossos irmãos).

            Não é possível viver com medo, depois desta descoberta: podemos comprometer-nos na luta pela justiça e pela paz, com a certeza de que a injustiça e a opressão não podem pôr fim à vida que nos anima; e é na medida em que nos comprometemos com esse mundo novo e o construímos com gestos concretos, que estamos a anunciar a ressurreição plena do mundo, dos homens e das coisas. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 25,1-13

«O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo».

«No meio da noite ouviu-se um brado: ‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’».

«Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».

Ambiente

            Nos capítulos 24 e 25 do seu Evangelho, Mateus apresenta um quinto e último discurso de Jesus. Para compô-lo, Mateus reelaborou o chamado “discurso escatológico” de Marcos (cf. Mc 13) e ampliou-o com três parábolas e uma impressionante descrição do juízo final.

            Enquanto em Marcos, o “discurso escatológico” se refere, especialmente, aos sinais que precederão a destruição do Templo de Jerusalém, em Mateus o mesmo discurso aborda, sobretudo, o tema da segunda vinda de Jesus e a atitude com que os discípulos devem preparar essa vinda. Esta mudança de perspetiva tem a ver com as necessidades da comunidade de Mateus…

            Estamos nos finais do séc. I (década de 80) … Já tinha passado a “febre escatológica” e os cristãos já não esperavam a vinda iminente de Jesus. Passado o entusiasmo inicial, a vida de fé dos crentes tinha arrefecido e a comunidade tinha-se instalado na rotina, no comodismo, na facilidade…. Era preciso algo que abanasse os discípulos e os despertasse de novo para o compromisso com o Evangelho.

            Neste contexto, Mateus descobre que as palavras do “discurso escatológico” de Jesus encerram uma poderosa interpelação; então compõe, com elas, uma exortação dirigida aos cristãos. Fundamentalmente, lembra-lhes que a segunda vinda do Senhor está no horizonte final da história humana; mas enquanto esse acontecimento não se realiza, os crentes são chamados a viver com coerência e entusiasmo a sua fé, fiéis aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino. A isto, a catequese primitiva chama “estar vigilantes, à espera do Senhor que vem”.

            A parábola que hoje nos é proposta alude aos rituais típicos dos casamentos judaicos. De acordo com os costumes, a cerimónia do casamento começava com a ida do noivo a casa da noiva, para levá-la para a sua nova casa. Normalmente, o noivo chegava atrasado, pois devia, antes, discutir com os familiares da noiva os presentes que ofereceria à família da sua amada. As negociações entre as duas partes eram demoradas e tinham uma importante função social… Os parentes da noiva deviam mostrar-se exigentes, sugerindo dessa forma que a família perdia algo de muito precioso ao entregar a menina a outra família; por outro lado, o noivo e os seus familiares ficavam contentes com as exigências, pois dessa forma mostravam aos vizinhos e conhecidos o valor e a importância dessa mulher que entrava na sua família. Os que testemunhavam o acordo, estavam prontos para ir avisar a noiva de que as negociações estavam concluídas e o noivo ia chegar…. Enquanto isso, a noiva, vestida a preceito, esperava em casa do seu pai que o noivo viesse ao seu encontro. As amigas da noiva esperavam também, com as lâmpadas acesas, para acompanhar a noiva, entre danças e cânticos, à sua nova casa. Era aí que tinha lugar a festa do casamento.

            É este pano de fundo que a nossa parábola supõe. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

            Nós, os cristãos do séc. XXI, não somos significativamente diferentes dos cristãos que integravam a comunidade de Mateus… Também percorremos um caminho de altos e baixos, em que os momentos de entusiasmo e de compromisso alternam com os momentos de instalação, de comodismo, de adormecimento, de pouco empenho. As dificuldades da caminhada, os apelos do mundo, a monotonia, as nossas fragilidades levam-nos, frequentemente, a esquecer os valores do Reino e a correr atrás de valores efémeros, que parecem garantir-nos a felicidade e só nos arrastam para caminhos de escravidão e de frustração. O Evangelho deste domingo lembra-nos que a segunda vinda do Senhor deve estar sempre no horizonte final da nossa existência e que não podemos alienar os valores do Evangelho, pois só eles nos mantêm identificados com esse Senhor Jesus que há-de voltar para nos oferecer a vida plena e definitiva. Enquanto caminhamos nesta terra devemos, pois, manter-nos atentos e vigilantes, fiéis aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com esse Reino que Ele nos mandou construir.

            “Estar preparado” não significa, contudo, ter a “alminha” limpa e sem mancha, para que, quando nos encontrarmos com o Senhor, Ele não tenha nenhuma falta não confessada a apontar-nos e nos leve para o céu… Mas significa, sobretudo, vivermos dia a dia, de forma comprometida e entusiasta, o nosso compromisso batismal. “Estar preparado” passa por descobrirmos dia a dia os projetos de Deus para nós e para o mundo e procurar concretizá-los, com alegria e entusiasmo; “estar preparado” passa por fazermos da nossa vida, em cada instante, um dom aos irmãos, no serviço, na partilha, no amor, ao jeito de Jesus.

            Embora o nosso texto se refira, primordialmente, ao nosso encontro final com Jesus, todos nós temos consciência de que esse momento não será o nosso único encontro com o Senhor… Jesus vem ao nosso encontro todos os dias e reclama o nosso empenho e o nosso compromisso na construção de um mundo novo – o mundo do Reino. Ele faz ecoar o seu apelo na Palavra de Deus que nos questiona, na miséria de um pobre que nos interpela, no pedido de socorro de um homem escravizado, na solidão de um velho carente de amor e de afeto, no sofrimento de um doente terminal abandonado por todos, no grito aflito de quem sofre a injustiça e a violência, no olhar dolorido de um imigrante, no corpo esquelético de uma criança com fome, nas lágrimas do oprimido… O Evangelho deste domingo avisa-nos que não podemos instalar-nos no nosso egoísmo e na nossa autossuficiência e recusar-nos a escutar os apelos do Senhor.

            A história das jovens “insensatas” que se esqueceram do essencial faz-nos pensar na questão das prioridades… É fácil irmos “na onda”, preocuparmo-nos com o imediato, o visível, o efémero (o dinheiro, o poder, a influência, a imagem, o êxito, a beleza, os triunfos humanos…) e negligenciarmos os valores autênticos. Mateus, com algum dramatismo, avisa-nos que só os valores do Evangelho nos asseguram a participação no banquete do Reino. O objetivo da catequese de Mateus não é dizer-nos que, se não nos portarmos bem, Deus nos castiga com o inferno; mas é alertar-nos para a seriedade com que devemos avaliar as nossas opções, de forma a não perdermos oportunidades para nos realizarmos e para chegarmos à felicidade plena e definitiva. in Dehonianos.

Para os leitores:

            A primeira leitura deve ser marcada por um tom alegre e exortativo, convidando à procura e acolhimento do dom da sabedoria.

            A segunda leitura requer uma acurada preparação nas pausas, respirações e ritmo da leitura para uma correta e articulada proclamação do texto.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

CHEGAR COM O CONTROLO ENCERRADO

            O cenário é o de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado pelos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, formando um cortejo, dirigia-se para a casa da noiva, que o esperava, acompanhada pelas suas amigas. Quando o cortejo do noivo chegava ao seu destino, a noiva abandonava a sua casa com as suas amigas, e formava-se então uma única comitiva luminosa e ruidosa, que se dirigia para a casa do noivo onde se celebrava o casamento e tinha lugar o banquete nupcial.

            O Evangelho deste Domingo XXXII do Tempo Comum (Mateus 25,1-13) começa por aludir ao cenário referido no que diz respeito ao grupo das jovens amigas que acompanham a noiva que aguarda a chegada do cortejo do noivo. Note-se, porém, que a noiva nunca é referida no texto, e que o noivo não segue o ritual previsto, pois se atrasa muito para além da hora habitual. Mas também as amigas da noiva saltam fora do espelho, pois são divididas em dois estranhos grupos, iguais em número, mas não em qualidade: cinco prudentes e cinco insensatas.

            Dado o atraso, inesperado, do cortejo do noivo, as amigas da noiva acabam por adormecer todas, não se notando, neste particular, qualquer diferença entre os dois grupos. Até que, no meio da noite, também inesperadamente, a vozearia do cortejo do noivo faz acordar, estremunhadas, as amigas da noiva, e é agora que se notam as primeiras dissonâncias no comportamento dos dois grupos: as prudentes, juntamente com as suas tochas, necessárias para entrar na luminosa comitiva noturna, levam também o indispensável combustível: o azeite. A arqueologia tem mostrado estas antigas tochas e o seu funcionamento: um suporte de madeira em cuja cavidade superior se introduziam trapos e estopa, que eram então embebidos em azeite, e acesos só na hora de sair para o exterior. São, na verdade, luzes de exterior, que nada têm a ver com as lucernas de interior. Depois de embebidas em azeite, e acesas, o seu tempo de duração era de cerca de quinze minutos. Pelo que só deviam ser acesas imediatamente antes de sair. E, ainda assim, se a viagem demorasse, devia transportar-se também a vasilha do azeite, para não se correr o risco de a tocha se apagar. É este segundo aspeto que separa as jovens insensatas das prudentes.

            Com as tochas apagadas e sem o indispensável azeite, as jovens insensatas não puderam integrar a comitiva nupcial. Enquanto foram comprar o azeite, pôs-se em marcha o cortejo até à casa do noivo, deu-se início ao banquete e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as jovens insensatas, e disseram: «Senhor, Senhor, abre-nos a porta» (Mateus 25,11). A resposta, porém, surge com mais estrondo que o fechar da porta, e soa assim: «Em verdade vos digo que não vos conheço» (Mateus 25,12).

            Para se entender bem o alcance das locuções «Senhor, Senhor» e «não vos conheço», importa reler atrás, no Discurso programático da Montanha, Mateus 7,21-23: «Não todo aquele que me diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci”».

            E a propósito do bom conhecimento, importa revisitar ainda Mateus 12,48-50, para descobrir uma nova família, que são as pessoas que melhor conhecemos: «“Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem faz a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”».

            Este noivo que demora a vir é o Senhor. O tempo da sua demora é o tempo que, por graça, nos é dado a todos para estarmos sempre prontos, preparados e operosos. Afinal, as jovens insensatas também sabiam bem o que era necessário, tanto que acabaram por cumprir o programa e chegar à meta. Só que tarde e a más horas, e o controlo já estava encerrado.

            O texto do Antigo Testamento que serve de espelho ao Evangelho de hoje, que fala do noivo, da luz e da vigilância, é o texto do Livro da Sabedoria 6,13-18. Saúda-se já por termos hoje a graça de escutar um bocadinho deste Livro delicioso, que poucas vezes encontramos na Liturgia. Alegramo-nos ainda porque encontramos neste bocadinho de pão da Sabedoria o amor, a luz, o conhecimento, a busca incessante, o encontro feliz. Na verdade, a Sabedoria em Deus é Deus, e constitui uma figura simbólica que indica o amor de Deus, amor nupcial, transformante, unitivo. A Sabedoria é Luz divina inalterável; portanto, Vida divina inalterável. Apresenta-se como uma esposa que vem ao nosso encontro, tomando a iniciativa do Amor. Portanto, a Sabedoria é Graça preveniente, concomitante, consequente, que desposa cada fiel, e todos os fiéis reunidos em comunidade. Trabalho do Amor é a Sabedoria, que atravessa o Novo Testamento como Sabedoria Incarnada. Dá-nos, Senhor, a tua Sabedoria sempre diligente. Ensina-nos a bem contar os nossos dias (Salmo 90,12) e a saber cantar as nossas alegrias. Vem, Senhor Jesus!

            Escutamos e escrutamos uma vez mais um grande e claro texto da Primeira Carta aos Tessalonicenses 4,13-18, saído da pena de S. Paulo que, de Corinto, capital da Acaia, da casa de Priscila e Áquila, onde estava hospedado, escreve aos cristãos de Tessalónica, capital da Macedónia, certamente respondendo a dúvidas que de lá lhe foram trazidas e reportadas. No extrato de hoje, trata-se de saber se a força da ressurreição de Jesus Cristo (cf. Filipenses 3,10) também chega àqueles que já morreram. O texto diz bem, como ainda hoje nós usamos dizer na liturgia, aqueles que adormeceram em Cristo, usando o verbo grego koimáomai, em cuja raiz está também koimêsis [= sono] e koimêtêrion [= cemitério], que é o dormitório, o lugar onde se dorme. A resposta de Paulo é clara: com a vinda do Senhor, e à sua voz de comando, todos ressuscitaremos com Ele, os mortos [= os que dormem] e os vivos. Sim, vem a hora, e é agora, em que os que morreram ouvirão a voz do Filho de Deus, e viverão (cf. João 5,25 e 28). Não nos deixemos, portanto, habitar pela tristeza, porque temos connosco a esperança, que nos atira para além do horizonte das mais elementares leis da natureza. O neopaganismo em que vive atolada esta sociedade vende uma finitude, em que o finito, o defunto, que é aquele que deixou de funcionar, deve ser assumido como tal, ponto final. O Cristianismo também sabe desta finitude, mas enquanto a finitude neopagã é vista como natural, nós, cristãos, vemo-la como criatural. Então, no Cristianismo, o homem tem um fim, não por ser mortal, mas por ser criado. E, portanto, a nossa finitude cristã está fundada sobre o Criador, e não sobre nós mesmos. A maneira de ver neopagã não tem saída, nem a quer ter, nem a pode ter. Ao contrário, a ótica cristã remete para o Criador, deixando-nos, portanto, no terreno firme da esperança e da confiança.

            O Salmo 63 é conhecido como «o cântico do amor místico», atravessado por uma apaixonada intensidade, bem expressa na primeira afirmação ou declaração de amor à boca do Salmo, mas que enche, de resto, o Salmo inteiro: «O meu Deus és Tu» [ʼelî ʼattah], a que responde e corresponde Deus em Isaías 43,1, declarando: «Para mim tu és» [lî ʼattah]. Tudo o resto no Salmo 63 assenta sobre esta certeza. A minha vida recebida (naphshî), por quatro vezes referida (v. 2.5.9.10) agarra-se amorosamente (dabaq) a Ti (v. 9), canta o teu amor, vive de Ti, tem sede de Ti, como cantaremos no refrão. A beleza, intensidade e espiritualidade que atravessam este Salmo ganham visibilidade na liturgia bizantina das manhãs de Domingo, e os v. 3-6 entram no cânone eucarístico armeno.

António Couto

 

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo XXXII do Tempo Comum – Ano A -12.11.2023 (Sab 6, 12-16)
  2. Leitura II – Domingo XXXII dso Tempo Comum – Ano A – 12.11.2023 (1 Tes 4, 13-18)
  3. Domingo XXXII do Tempo Comum – Ano A – 12.11.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXXII do Tempo Comum – Ano A – 12.11.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXXI do Tempo Comum – Ano A – 05.11.2023

Viver a Palavra

A liturgia do 31º Domingo do Tempo Comum convida-nos a uma reflexão séria sobre a seriedade, a verdade e a coerência do nosso compromisso com Deus e com o Reino. De forma especial, as leituras deste domingo interpelam os animadores das comunidades cristãs acerca da verdade do seu testemunho, da pureza dos seus motivos, do seu real empenho na construção de comunidades comprometidas com os valores do  Evangelho. in Dehonianos.

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A Igreja Católica em Portugal vai celebrar a Semana de Oração pelos Seminários 2023, este ano de 5 a 12 de novembro, tem com o tema bíblico “Não tenhas medo. Serás pescador de homens”, do Evangelho de São Lucas (Lc 5,10b).

“Ser sacerdote é anunciar o Evangelho, é ajudar as pessoas a saírem de tudo aquilo que as afoga, libertar da morte das águas e trazer à vida. Essa é uma boa nova e é também um ato de amor. Transmitir confiança, esperança no meio do desânimo e do fatalismo. É um desafio para muitos jovens que participaram de perto ou à distância na Jornada Mundial da Juventude”, escreve D. Vitorino Soares, numa mensagem para esta semana de Oração Pelos Seminários. in Rádio Renascença.

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                             

LEITURA I – Mal 1,14b-2,2b.8-10

Ambiente

O nome “Malaquias” não é um nome próprio. Significa “o meu mensageiro”. É o título tomado por um profeta anónimo, sobre o qual praticamente nada sabemos e que se apresenta como “mensageiro” de Jahwéh.
Trata-se, em qualquer caso, de um profeta que atua em Jerusalém, no período pós-exílico. Ele é um aguerrido defensor dos valores judaicos, fervoroso pregador de reformas, zeloso defensor do culto autêntico, favorável ao Templo, à pureza dos sacerdotes e dos levitas, defensor dos sacrifícios e contrário aos matrimónios mistos (entre judeus e não judeus).

Na sua época, o Templo já havia sido reconstruído (cf. Mal 1,10) e o culto já funcionava – ainda que mal (cf. Mal 1,7-9. 12-13). No entanto, o entusiasmo pela reconstrução estava apagado. Desanimado ao ver que as antigas promessas de Deus (veiculadas por Ezequiel e pelo Deutero-Isaías) não se tinham cumprido, o Povo tinha caído na apatia religiosa e na absoluta falta de confiança em Deus… Duvidava do amor de Deus, da sua justiça, do seu interesse por Judá. Todo este ceticismo tinha repercussões no culto (cada vez mais desleixado) e na ética (multiplicavam-se as falhas, as injustiças, as arbitrariedades). Este quadro, posterior à restauração do Templo, situa-nos na primeira metade do séc. V a.C. (entre 480 e 450 a.C.), muito próximo da época de Esdras e Neemias.

Este “mensageiro de Deus” reage vigorosamente contra a situação em que o Povo de Judá está a cair. Coloca cada um diante das suas responsabilidades para com Jahwéh e para com o próximo, exige a conversão do Povo e a reforma da vida cultual. A sua lógica é a lógica deuteronomista; se o Povo se obstinar em percorrer caminhos de infidelidade à Aliança, voltará a conhecer a morte e a infelicidade; mas se o Povo se voltar para Jahwéh e cumprir os mandamentos, voltará a gozar da vida e da felicidade que Deus oferece àqueles que seguem os seus caminhos.

O texto de Malaquias que hoje nos é oferecido faz parte de uma longa perícope na qual o profeta se queixa pela falta de respeito e pelo desprezo que a comunidade judaica sente pelo nome de Jahwéh (cf. Mal 1,6-2,9). Os culpados da situação são, sobretudo, os sacerdotes… Eles deviam ser os primeiros a potenciar a relação entre o Povo e Deus; mas, preocupados com os seus interesses pessoais e animados pelo espírito de lucro, oferecem sobre o altar alimentos impuros (cf. Mal 1,7), sacrificam animais cegos, coxos ou doentes (cf. Mal 1,8), fazendo com que os actos cultuais sejam a expressão, não do amor, mas da indiferença e da falta de respeito do Povo por Jahwéh.

Culpados da perversão do culto, os sacerdotes são culpados de outra coisa ainda mais grave: eles falsificam gravemente a Palavra de Deus. É a esta questão que a nossa leitura de hoje se refere. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

Por detrás da denúncia que a primeira leitura de hoje nos apresenta, está uma comunidade instalada no desânimo, no ceticismo e na apatia. Estes sentimentos negativos vão conduzir ao laxismo, à indiferença, ao desrespeito pelos compromissos; e, continuando a escorregar pelo mesmo plano inclinado, a comunidade irá, inevitavelmente, cair em atitudes concretas de falta de respeito e de desprezo para com Deus, de injustiça e de violência para com os irmãos. Nenhuma das nossas comunidades cristãs ou religiosas está isenta desta “doença” e pode garantir que não percorrerá um caminho semelhante… Só uma comunidade que aceita pôr-se em contínuo processo de conversão pode evitar um processo deste tipo, ao redescobrir, em cada instante, os fundamentos da sua fé e da sua esperança e ao revitalizar os seus compromissos com Deus e com os irmãos.

Aos animadores das comunidades foi confiada por Deus e pela Igreja a missão fundamental de interpelar a comunidade, de revitalizar o seu ânimo, de recordar a cada crente os seus compromissos, de testemunhar a todos o amor de Deus… Aqueles que, de alguma forma, têm responsabilidades na animação das comunidades, desempenham este serviço com dedicação e entusiasmo, conscientes da grave responsabilidade que assumiram diante de Deus e da Igreja, ou instalam-se no comodismo e na indiferença, deixando que a sua comunidade caminhe à deriva e sem objetivos? Os animadores das nossas comunidades cristãs são apenas funcionários que asseguram o expediente das “nove às cinco”, com intervalo sagrado para almoço e sesta, ou são cristãos responsáveis que, fiéis à missão que lhes foi confiada, põem a vida ao serviço de Deus e dos irmãos? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 130 (131)

Refrão: Guardai-me junto de Vós, na vossa paz, Senhor.

LEITURA II – 1 Tes 2,7b-9.13

Ambiente

Quando escreve a Primeira Carta aos Tessalonicenses, Paulo está em Corinto. De Tessalónica chegaram, por Timóteo, notícias animadoras: os tessalonicenses continuam empenhados em viver, com fidelidade, o Evangelho que Paulo lhes anunciou. Nem as dificuldades do dia a dia, nem a deficiente formação doutrinal, nem a hostilidade das autoridades de Tessalónica conseguiram arrefecer o entusiasmo dos membros da comunidade. Eles são, verdadeiramente, um modelo para as comunidades cristãs de toda a Grécia. Paulo escreve, então, animando-os a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus e ao Evangelho. Aproveita também para esclarecer algumas questões de carácter doutrinal e para corrigir alguns aspetos da vida da comunidade. Estamos na primeira metade do ano 50 ou 51.

Nos três primeiros capítulos da carta, Paulo agradece a Deus pela sua ação em favor da comunidade (cf. 1 Tes 1,1-3,13). A comunidade nasceu e consolidou-se de forma tão prodigiosa e em tão pouco tempo, que é preciso ver em tudo isso a intervenção de Deus. O coração de Paulo de Paulo transborda, pois, de alegria e de agradecimento…

Depois de uma clássica oração de louvor a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo, que tornaram possível em Tessalónica o milagre do Evangelho (cf. 1 Tes 1,2-10), Paulo evoca emocionadamente, sempre em clima de ação de graças, os inícios dessa jovem, mas entusiasta comunidade cristã (cf. 1 Tes 2,1-12). in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta as seguintes linhas:

Esta página diz-nos, em primeiro lugar, que os anunciadores do Evangelho não podem ser simples funcionários, frios e distantes, que cumprem pontual e burocraticamente a tarefa que lhes foi confiada; mas que têm de ser como uma mãe cheia de amor, que ama com ternura os seus filhos, que partilha tudo com eles, que se sacrifica alegremente por eles e que entrega totalmente a sua própria vida para que os filhos tenham mais vida. O anúncio do Evangelho tem de ser, antes de mais, um serviço de amor. É assim que nós – aqueles a quem foi confiada a missão de anunciar o Evangelho – agimos? O nosso trabalho é feito com amor e com entrega total, ou com o espírito de funcionário cansado que despacha o expediente para se ver livre de uma tarefa monótona e fastidiosa? Aqueles que contactam connosco encontram em nós testemunhas vivas e entusiastas do amor de Deus, ou pessoas amargas, egoístas, agressivas cansadas e desanimadas?

Esta página diz-nos, em segundo lugar, que os anunciadores do Evangelho devem dar-se à missão de forma absolutamente gratuita. O Evangelho não pode, nunca, ser o pretexto para a satisfação de interesses pessoais (enriquecimento material, busca de protagonismo, promoção pessoal…), mas deve ser um serviço que se faz com total gratuidade, generosidade e amor. O Evangelho não é um negócio, nem um meio de enriquecimento rápido, nem uma forma de viver uma vida sem grandes preocupações materiais; mas é salvação que, de forma totalmente gratuita, Deus oferece a todos os homens.

Convém estarmos conscientes de que não basta que a Palavra seja proclamada: é preciso que ela seja, também, escutada e acolhida. Escutar não significa apenas “ouvir com os ouvidos”, mas também acolher no coração as propostas que nos são feitas por Deus. Estamos sempre disponíveis para nos deixarmos interpelar e transformar pela Palavra que nos é anunciada, ou o nosso coração é como essa terra dura que recebe a semente e a deixa secar?

No processo de escuta e de acolhimento da Palavra, é preciso não esquecer que os anunciadores não são o essencial: o essencial é a Palavra de Deus. Os homens podem apresentar a Palavra de forma mais ou menos brilhante, mais ou menos sedutora, mais ou menos interpelativa; mas é preciso sabermos discernir a beleza das palavras da força da Palavra de Deus e não deixarmos que o essencial seja ofuscado pelo brilho do acessório. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 23,1-12

Ambiente

O Evangelho deste domingo coloca-nos, mais uma vez, em Jerusalém, nos últimos dias antes da paixão e morte de Jesus. É nesses dias que se desenrola o confronto final entre Jesus e o judaísmo. Os líderes da nação judaica, escudados nas suas certezas, convicções e preconceitos, continuam a recusar a proposta do Reino e a preparar o processo contra Jesus.

A passagem que hoje nos é proposta é a introdução a um extenso discurso de condenação, que Jesus pronuncia contra os líderes religiosos de Israel (cf. Mt 23,13-36). É neste discurso que aparecem os sete famosos “ai de vós, escribas e fariseus…”. Para Mateus, o discurso é a resposta de Jesus à intransigência dos judeus em acolher as propostas de Deus.

Ao longo do discurso, Mateus põe na boca de Jesus uma apreciação extremamente negativa dos escribas (especialistas da Escritura, muitos dos quais eram fariseus) e dos fariseus. É preciso dizer, no entanto, que este retracto dos fariseus não é totalmente justo… No geral, os fariseus eram crentes entusiastas, que procuravam conhecer e se esforçavam por cumprir escrupulosamente a Lei de Moisés. Estavam presentes em todos os passos da vida religiosa dos israelitas e procuravam instilar no Povo o respeito pela Lei, a fim de que Israel fosse, cada vez mais, um Povo santo, dedicado a Jahwéh e vivendo na órbita de Jahwéh. Tratava-se de um grupo sério, bem-intencionado, verdadeiramente empenhado na santificação da comunidade israelita. No entanto, o seu fundamentalismo em relação à Lei foi, algumas vezes, criticado por Jesus. Ao afirmarem a superioridade da Lei, desprezavam muitas vezes o Homem e criavam no Povo um sentimento de pecado e de indignidade que oprimia as consciências…. Dando demasiado relevo à Lei, esqueciam o essencial – o amor e a misericórdia. E ao considerarem-se a si próprios os “puros” que viviam de acordo com a Lei, desprezavam o “‘am aretz” (o “povo do país”) que, por causa da ignorância e da dura vida que levava, não podia cumprir integralmente os preceitos da Lei.

A opinião que Jesus fazia dos fariseus seria tão dura como a que este texto nos apresenta? Provavelmente não. É preciso recordar que o Evangelho segundo Mateus apareceu na parte final do séc. I (década de 80), quando os fariseus eram a corrente dominante no judaísmo e apareciam como o rosto polémico desse adversário judaico com que os cristãos todos os dias se confrontavam. Este texto deve estar marcado por essa perspetiva. Talvez mais do que transmitir a opinião de Jesus sobre os fariseus, apresenta a imagem que os cristãos dos finais do primeiro século tinham do judaísmo e dos seus líderes.in Dehonianos.

A reflexão e a partilha podem fazer-se tendo em conta os seguintes dados:

O Evangelho do 31º Domingo do Tempo Comum dá conta de uma das mais profundas divergências entre a proposta de Jesus e a cultura contemporânea… Os valores que governam o nosso mundo garantem-nos que a realização plena e a felicidade do homem dependem da posição a que ele conseguir elevar-se na estrutura hierárquica da comunidade em que está (social, religiosa, profissional…) e do poder, da importância, do reconhecimento que ele souber granjear, da sua capacidade de obter sucesso; Jesus garante-nos que a realização plena do homem depende da sua capacidade de amar e de servir… Em jogo estão duas visões antagónicas da finalidade da vida do homem e dos caminhos que cada pessoa deve percorrer para atingir a sua realização plena… De acordo com a nossa sensibilidade e a nossa experiência de todos os dias, quem tem razão?

A Igreja, testemunha do Reino e dos valores propostos por Jesus, tem de ser uma comunidade de irmãos que vivem no amor. Nela, não podem ser determinantes os títulos, os lugares de honra, os privilégios, a importância hierárquica… Na comunidade cristã, a única coisa determinante é o serviço simples e humilde que se presta aos irmãos. Na prática, é assim que as coisas se passam? Que valor tem, na Igreja, os títulos, as posições hierárquicas, a visibilidade, os cargos, os privilégios, os lugares de honra? Tudo isso não poderá contribuir decisivamente para criar divisões que afetam a fraternidade e que negam os princípios sobre os quais se constrói o Reino? Quando a vida das nossas comunidades cristãs é marcada por lutas pelo poder, conflitos, ciúmes, a comunidade está a avançar em direção à fraternidade e ao amor?

Mateus, ao apresentar-nos essa poderosa invetiva contra os “fariseus”, está a avisar os crentes contra a perpetuação de um “farisaísmo” que destrói a comunidade. Está a sugerir que quando alguém se arroga o direito divino de se instalar na cadeira do poder e se constitui como único e decisivo critério de verdade, pode facilmente substituir o Evangelho pelas suas próprias normas, pelas suas próprias leis, pelos seus próprios esquemas e visões de Deus e do mundo.

Mateus, ao escalpelizar a incoerência dos “fariseus”, está a avisar-nos contra a tentação de mostrarmos o que não somos, de vendermos uma imagem “corrigida e aumentada” de nós próprios para obtermos o aplauso e admiração dos outros, de vivermos para as aparências e não para o compromisso simples e humilde com o Evangelho… É que a mentira e a incoerência destroem a paz do nosso coração, roubam-nos a alegria e a serenidade, comprometem o nosso testemunho, minam a comunidade e põem em causa os fundamentos do Reino.

Mateus, ao denunciar a tendência dos “fariseus” para impor aos outros pesos insuportáveis, está a avisar-nos contra a tentação de inventar exigências e obrigações, mandamentos e leis que criam escravidão, que oprimem as consciências, que metem medo, que impedem os filhos de Deus de viverem livres e felizes. Isso acontece na Igreja de que fazemos parte? As cargas com que, às vezes, carregamos os homens e mulheres nossos irmãos, serão sempre consequência da radicalidade do Evangelho? in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

ESTILO FRATERNAL E MATERNAL

Neste Domingo XXXI do Tempo Comum, continuamos a ouvir Jesus a ensinar no Templo, no Átrio dos Gentios, seguindo o Evangelho de Mateus 23,1-12. O Capítulo 23 do Evangelho de Mateus apresenta-se assim arrumado: 1) 23,1-12, em que Jesus dirige o seu ensinamento às multidões e aos seus discípulos (Mateus 23,1), primeiro a todos (Mateus 23,2-7), depois particularmente aos seus discípulos (Mateus 23,8-12), pondo diante de uns e de outros a figura oca dos escribas e fariseus, a sua busca de notoriedade e de aplauso, apresentando-os como uma espécie de caricatura do seu verdadeiro discípulo, que deve ser humilde, serviçal, filho de Deus e irmão numa família de irmãos; 2) 23,13-36, em que Jesus se dirige diretamente aos escribas e fariseus com sete «ais», sendo o «ai» uma fórmula de desgraça com que os profetas anunciam a ruína que está já aí à porta; 3) 23,37-39, em que Jesus se lamenta sobre Jerusalém, com aquele célebre «Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os pintainhos…, mas agora a tua casa ficará deserta», que constitui uma espécie de ponte para o Capítulo 24, em que logo no versículo primeiro Jesus sai do Templo.

No Evangelho de Mateus, o mundo dos escribas e dos fariseus é sempre pintado com cores escuras e sombrias. O único bom escriba que o Evangelho de Mateus conhece é aquele que se tornou discípulo: «Todo o escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus é semelhante ao proprietário que do seu tesouro tira coisas novas e coisas velhas» (Mateus 13,52; cf. 23,34).

Portanto, o discípulo de Jesus – e nós, hoje – não devemos preocuparmos com o estatuto nem correr atrás de honras, ambição e carreirismo, da notoriedade tornada visível nas filactérias (tephillîm), pequenas caixas de couro que continham textos-chave da Escritura (Deuteronómio 6,8 e 11,18), e que se atavam à fronte e ao braço esquerdo, para ficar mais perto do coração, ou as franjas de cor azul ou violeta (tsîtsît), que pendiam das vestes (Números 15,38-39), mais tarde do tallît (manto que os judeus piedosos vestem para a oração). Convenhamos em que é bem-intencionada a prescrição, mas acaba por resultar em pura ostentação!

É verdade que ecoa um mundo novo nestes dizeres: «Mas vós não vos façais chamar por Rabbî, literalmente «meu maior», pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). A ninguém chameis «Pai», a ninguém chameis «Guia» (kathêgêtês), que é aquele que indica o caminho, pois «um só», «um só», «um só» (três vezes surge esta expressão no texto de hoje) é o vosso Mestre, o vosso Pai, o vosso Guia. Em consonância, no Evangelho de Mateus, o título de «Mestre» nunca é dado a Jesus pelos seus discípulos, mas apenas pelos de fora; e o título de Rabbî só se ouve nos lábios de Judas, depois da sua apostasia (Mateus 26,25 e 49). Por sua vez, o termo «Guia» só aparece aqui em todo o Novo Testamento, e é desconhecido no texto dos LXX.

Salta à vista que devemos proceder sempre com simplicidade e verdade, sem protagonismo, ostentação ou ambição, e que, por detrás de nós, de tudo o que fazemos ou dizemos, deve ver-se sempre o Senhor Jesus, de quem devemos ser pura transparência. Se assim fosse, e assim deve ser, como seria belo e bem diferente este nosso mundo!

Sempre em linha com o Evangelho, Malaquias 2,10 pergunta hoje de forma certeira: «Não temos todos um único Pai? Por que agimos então com maldade uns para com os outros?». Pergunta certeira, que nos obriga a depor as armas da violência e da mentira e nos obriga a investir mais, muito mais, na luta (agôn) do amor (agápês).

Enfim, aí está hoje S. Paulo (1 Tessalonicenses 2,7-13) a recordar diante de nós, para que nunca mais esqueçamos e a implementemos, a sua metodologia de anunciador do Evangelho. Fala de Deus com particular afeto e proximidade, sobrepondo as metáforas da criança e da mãe, da dependência e pequenez e da dedicação condescendente (1 Ts 2,7). Apóstolos como crianças (népios), sem preconceitos ou prestígio a defender, que tudo recebem com simplicidade e alegria, e apóstolos como mães cheias de ternura, que se dão completamente aos seus filhos. Népios significa, à letra, «criança de peito», e, em sentido translato, «imaturo», «inocente», «dependente», que de per si, não tem nenhum valor. E trophós não significa exatamente «mãe», mas «ama-de-leite». Mas como é dito logo a seguir que acalenta os próprios filhos, então é uma «ama» que é mãe, uma mãe que amamenta, que se dá totalmente aos seus filhos. Evangelho total: o dom da salvação (euaggélion) e o dom da própria vida (psychê) (1 Ts 2,8). Não se pode dar o Evangelho sem dar a vida. O dom da vida não significa, neste contexto, disposição para o martírio estrito, mas condividir (metadoûnai) diariamente aquilo que constitui a vida: o tempo, as energias, a saúde. O tempo significa amor. Àqueles ou àquilo a que concedo tempo, concedo amor. É, portanto, fácil sabermos quem amamos ou o que amamos. Foi assim, de forma intensa, afetuosa, maternal, personificada, um-a-um, a tempo inteiro e de corpo inteiro, que Paulo transmitiu o Evangelho aos Tessalonicenses e em toda a parte.

O Salmo 131, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma», serve de fundamento maravilhoso a um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus exalta na sua «História de uma alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

Que anda por aqui um mundo novo, lá isso anda. Que entre ele em nós, e que entremos nele também.

 

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I de Todos os Santos – Ano A – 01.11.2023 (Ap 7, 2-4.9-14)
  2. Resto da Leitura I e Leitura II de Todos os Santos – Ano A – 01.11.2023 (1 Jo 3, 1-3)
  3. Todos os Santos e Fiéis Defuntos – Ano A – 01 e 02.11.2023 – Lecionário
  4. Todos os Santos – Ano A – 01.11.2023 – Oração Universal
  5. Leitura I do Domingo XXXI do Tempo Comum – Ano A – 05.11.2023 (Mal 1, 14b-2,2b.8-10)
  6. Leitura II do Domingo XXXI do Tempo Comum – Ano A – 05.11.2023 (1 Tes 2, 7b-9.13)
  7. Domingo XXXI do Tempo Comum – Ano A – 05.11.2023-Lecionário
  8. Domingo XXXI do Tempo Comum – Ano A – 05.11.2023 – Oração Universal
  9. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Viver a Palavra

Os nossos dias transcorrem preenchidos por tantos afazeres e ocupações que nos dispersam e questionam. Diante do frenesim do dia-a-dia, sentimos ecoar no nosso coração a pergunta: o que é realmente essencial e fundamental na nossa vida? O que é realmente importante e pelo qual vale a pena gastar a nossa vida e as nossas forças?

A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao centro da mensagem evangélica e, por isso, ao conteúdo fundamental que deve plasmar a nossa vida crente. Poderíamos dizer que o Evangelho deste Domingo se constitui como uma janela aberta com vista direta para o coração de Deus: Deus é amor e ensina-nos a edificar as nossas vidas a partir do amor. Esta é a experiência basilar da nossa experiência crente e sem a qual ficaremos aquém da proposta de realização e felicidade que Jesus nos faz.

Um doutor da lei dirige-se a Jesus com o intuito de o experimentar. A pergunta apesar de armadilhada e mal-intencionada tem sentido. Esta pergunta pretende arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável reflexão académica. Os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio) e pretendendo extrair deles os preceitos e mandamentos neles contidos, contaram 613 preceitos, sendo 365 negativos e 248 positivos. Academicamente, entre os mestres em Israel decorriam as disputas para estabelecer uma ordem nestes 613 preceitos.

Por isso, a pergunta do doutor da lei, ainda que contendo uma armadilha, apresenta uma das grandes questões do povo israelita que, diante de tantos preceitos, tinha dificuldade em perceber o que seria mais importante e decisivo para o cumprimento da Lei.

Jesus não se perde em longos discursos e habilidades retóricas, mas apresenta o decisivo mandamento que deve marcar a vida de cada crente: «‘Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’».

Amar é um verbo fundamental na gramática cristã. Não é possível seguir Jesus Cristo nem se dizer crente no Deus revelado por Ele sem esta experiência amorosa fundamental: um amor absolutamente centrado em Deus e universalmente alargado aos irmãos. Como afirmou Bonhoffer, «o amor a Deus é a melodia principal, à volta da qual se podem cantar outros amores. Assim nasce a polifonia da existência».

Ao ler esta passagem evangélica fica sempre a ecoar no meu coração a totalidade do amor reclamada por Jesus: «com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito». O amor a Deus e aos irmãos reclama a vida toda e toda a vida. O amor não é apenas mais uma coisa a fazer, mas o modo como se fazem todas as coisas.

Colocando o nosso olhar em Jesus, verificamos que Ele não se limitou a anunciar o amor como melodia agradável aos ouvidos ou como poética que comove os corações. O amor ganha carne nas suas palavras e gestos, intimamente unidos entre si (DV 2). Jesus anunciou que «quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo» (Mt 20,26) e na última ceia lavou os pés aos Seus discípulos. Ele afirmou contundentemente que «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13) e, no alto do calvário, de braços abertos oferece a Sua vida por todos e cada um de nós.

Deste modo, palavras e gestos, unidos pela certeza do amor apontam o horizonte de realização e felicidade que Jesus veio anunciar. O amor aos irmãos não é uma consequência do amor a Deus, mas o lugar concreto onde ele se vive e realiza. in Voz Portucalense.

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A Liturgia da Palavra deste XXX Domingo do Tempo Comum abre a porta para a Solenidade de Todos Santos que celebraremos no dia 1 de novembro e para a Comemoração dos Fiéis Defuntos, no dia 2 de novembro. O amor absolutamente centrado em Deus e universalmente alargado aos irmãos é o fundamento da vocação universal à santidade e nos faz entrar em comunhão orante por aqueles que nos precederam para que possam participar da bem-aventurança eterna. Por isso, para uma vivência marcada pela alegria e pela esperança cristãs próprias destes dois dias litúrgicos seria oportuno recordar aos fiéis a importância e distinção de cada um destes dias para uma melhor compreensão dos fiéis daquilo que celebramos. Poderia ser também oportuno um momento de formação ou oração. Um ótimo recurso para este momento pode ser a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate do Papa Francisco sobre a santidade no mundo atual. in Voz Portucalense.

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Ex 22,20-26

«Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso»

Ambiente

O “Decálogo” ou “dez mandamentos” (cf. Ex 20,2-17) era, sem dúvida, o coração da Aliança e apresentava os valores fundamentais que deviam marcar o comportamento do Povo de Deus, quer em relação a Jahwéh, quer em relação à vida comunitária. No entanto, as leis do “Decálogo” eram relativamente gerais e não consideravam todos os casos e situações…

A complexidade da vida diária obrigou, portanto, a um esclarecimento e a uma concretização das leis apresentadas no “Decálogo”. Em consequência, surgiram novas normas, bem concretas, que regulavam o dia a dia do Povo de Deus. Uma ampla recompilação dessas leis aparece no Livro do Êxodo.

Logo a seguir ao “Decálogo”, em lugar de honra, os catequistas de Israel colocaram um bloco heterodoxo de leis, que se convencionou chamar “Código da Aliança” (cf. Ex 20,22-23,19). São leis que os autores do Livro do Êxodo apresentam como ditadas por Deus a Moisés, no Sinai; na realidade, trata-se de leis de proveniência diversa, cuja antiguidade continua a ser discutida, mas que a maioria dos comentadores faz remontar ao tempo dos “juízes” (séc. XII a.C.).

O “Código da Aliança” é um bloco legislativo que regula vários aspetos da vida do Povo de Deus, desde o culto até às relações sociais. Trata-se de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas, que solucionam as dificuldades, explicam os princípios e ordenam a conduta dos homens nas situações comuns e variáveis da condição humana. Nele sobressai, não só uma consciência muito viva de que Israel é chamado à comunhão com Deus, mas também um forte sentido social. Revela um Povo preocupado em concretizar os compromissos da Aliança na vida do dia a dia. Sugere que a fé de Israel não é uma realidade abstrata ou fantasmagórica, mas uma realidade bem viva, que se deve viver em cada sector da vida prática.
O texto que hoje nos é proposto é um extrato do “Código da Aliança”. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

O apelo a não prejudicar nem oprimir o estrangeiro convida-nos a considerar como acolhemos esses imigrantes que cruzam as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida e que, além da solidão, das dificuldades linguísticas, do desenraizamento cultural, ainda são vítimas do racismo, da xenofobia, da má vontade, da exploração, das arbitrariedades cometidas por empresários sem escrúpulos, das violências praticadas pelas máfias que transacionam carne humana. Não podemos ficar indiferentes e insensíveis aos seus dramas e sofrimentos, ou sentir-nos alheados e desresponsabilizados face às injustiças que contra eles se cometem. Precisamos de ver em cada homem ou mulher – russo, moldavo, ucraniano, romeno, cabo-verdiano, angolano, guineense – um irmão que Deus colocou ao nosso lado e que temos de cuidar, proteger e amar.

O apelo a não maltratar nem a fazer qualquer mal à viúva e ao órfão convida-nos a considerar a forma como acolhemos e tratamos os nossos irmãos mais débeis, sem defesa, ou que pertencem a grupos de risco… São as crianças, exploradas, usadas, maltratadas, condenadas precocemente a uma vida de trabalho e impedidas de viver a infância; são os idosos, atirados para lares, condenados em vida a uma existência de sombras, subtraídos ao seu ambiente familiar e às suas relações sociais; são os doentes incuráveis, abandonados, condenados à solidão, que escondemos e que evitamos para não perturbar a nossa boa disposição e o mito de uma vida isenta de sofrimento e de morte… Precisamos de aprender que todos os homens e mulheres – particularmente os mais débeis, os mais carentes, os mais abandonados – devem ser respeitados, protegidos e amados.

O apelo a não explorar os pobres convida-nos a considerar a situação daqueles que não têm instrução e estão condenados a uma vida de trabalho escravo, ou que têm de viver com salários de miséria, ou que são vítimas da especulação com bens essenciais, ou que são enganados e vilipendiados… O nosso texto diz claramente que Deus não aceita um mundo construído deste jeito e sugere que nós, crentes, não podemos tolerar as situações que roubam a vida e a dignidade dos pobres. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 17 (18)

Refrão: Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força.

LEITURA II – 1 Tes 1,5c-10

«Dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos».

Ambiente

Já vimos, no passado domingo, o contexto em que apareceu a Primeira Carta aos Tessalonicenses…
Depois de ter anunciado o Evangelho em Tessalónica e de ter juntado à sua volta uma comunidade viva e entusiasta, constituída maioritariamente por cristãos vindos do mundo pagão, Paulo teve de deixar a cidade à pressa, para fugir às maquinações dos judeus (ano 49/50). Entretanto, preocupado com a fidelidade dos tessalonicenses ao Evangelho, Paulo enviou Timóteo de volta a Tessalónica, a fim de saber notícias e de encorajar os tessalonicenses na fé. Paulo estava em Corinto quando Timóteo regressou de Tessalónica e apresentou o seu relatório. As notícias eram verdadeiramente animadoras: os tessalonicenses eram uma comunidade exemplar e viviam animada e empenhadamente o seu compromisso cristão, apesar das dificuldades e da hostilidade do meio.

Paulo, feliz e confortado, escreveu aos tessalonicenses animando-os a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus e ao Evangelho. Aproveitou também para completar a formação doutrinal dos tessalonicenses e para corrigir alguns aspetos da vida da comunidade. Estamos na Primavera/Verão do ano 50 ou 51. in Dehonianos.

Ter em conta, na reflexão e partilha, os seguintes dados:

Muitas vezes entendemos a fé como um acontecimento pessoal, que diz respeito apenas a nós próprios e a Deus (“eu cá tenho a minha fé”) e que não nos compromete com os outros. Na realidade, a fé liga-nos a uma longa cadeia que vem de Jesus até nós e que inclui uma imensa família de irmãos espalhados pelo mundo inteiro. Tenho consciência de pertencer a uma família de fé e sinto-me unido e solidário com todos os meus irmãos em Cristo? Tenho consciência de que o meu testemunho e a minha vivência ajudam e enriquecem os meus irmãos, assim como a vivência e o testemunho dos meus irmãos me enriquecem e me ajudam a mim?

Nenhuma comunidade cristã é uma ilha. É preciso que as comunidades cristãs partilhem, estabeleçam laços, se interpelem uma às outras, se ajudem, se animem mutuamente… É nesse diálogo e nessa partilha que o projeto de Deus se vai tornando mais claro para todos e que podemos discernir, com mais nitidez, os caminhos de Deus. As nossas comunidades cristãs e religiosas estão abertas à partilha, ou são células isoladas, que vivem num total alheamento dos problemas, das vicissitudes e das dificuldades das outras comunidades?

Paulo considera que o dinamismo do Evangelho se cumpre na experiência paradoxal da alegria e da dor…. Receber o Evangelho com alegria significa abrir-lhe o coração, acolhê-lo, deixar que ele encontre uma terra boa onde possa frutificar e dar fruto… A dor, por sua vez, não é uma realidade boa e que devamos procurar; mas pode ajudar-nos a confiar mais em Deus, a entregarmo-nos nas suas mãos, a amadurecermos o nosso empenho e o nosso compromisso, a percebermos o sentido dos valores evangélicos do dom e da entrega da vida in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 22,34-40

«Um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar».

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?».

«Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».

Ambiente

O Evangelho deste domingo leva-nos, outra vez, a Jerusalém, ao encontro dos últimos dias de Jesus. Os líderes judaicos já fizeram a sua escolha e têm ideias definidas acerca da proposta de Jesus: é uma proposta que não vem de Deus e que deve ser rejeitada… Jesus, por sua vez, deve ser denunciado, julgado e condenado de forma exemplar. Para conseguir concretizar esse objetivo, os responsáveis judaicos procuram argumentos de acusação contra Jesus.

É neste ambiente que Mateus situa três controvérsias entre Jesus e os fariseus. Essas controvérsias apresentam-se como armadilhas bem organizadas e montadas, destinadas a surpreender afirmações polémicas de Jesus, capazes de ser usadas em tribunal para conseguir a sua condenação. Depois da controvérsia sobre o tributo a César (cf. Mt 22,15-22) e da controvérsia sobre a ressurreição dos mortos (cf. Mt 22,23-33), chega a controvérsia sobre o maior mandamento da Lei (cf. Mt 22,34-40). É esta última que o Evangelho de hoje nos apresenta… Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito.

A questão do maior mandamento da Lei não era uma questão pacífica e era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. A preocupação em atualizar a Lei, de forma que ela respondesse a todas as questões que a vida do dia a dia punha, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições e 248 ações a pôr em prática. Esta “multiplicação” dos preceitos legais lançava, evidentemente, a questão das prioridades: todos os preceitos têm a mesma importância, ou há algum que é mais importante do que os outros?

É esta a questão que é posta a Jesus. in Dehonianos.

Na reflexão e partilha, considerar os seguintes pontos:

Mais de dois mil anos de cristianismo criaram uma pesada herança de mandamentos, de leis, de preceitos, de proibições, de exigências, de opiniões, de pecados e de virtudes, que arrastamos pesadamente pela história. Algures durante o caminho, deixámos que o inevitável pó dos séculos cobrisse o essencial e o acessório; depois, misturámos tudo, arrumámos tudo sem grande rigor de organização e de catalogação e perdemos a noção do que é verdadeiramente importante. Hoje, gastamos tempo e energias a discutir certas questões que são importantes (o casamento dos padres, o sacerdócio das mulheres, o uso dos meios anticoncetivos, as questões acerca do que é ou não litúrgico, aos problemas do poder e da autoridade, os pormenores legais da organização eclesial…) mas continuamos a ter dificuldade em discernir o essencial da proposta de Jesus. O Evangelho deste domingo põe as coisas de forma totalmente clara: o essencial é o amor a Deus e o amor aos irmãos. Nisto se resume toda a revelação de Deus e a sua proposta de vida plena e definitiva para os homens. Precisamos de rever tudo, de forma que o lixo acumulado não nos impeça de compreender, de viver, de anunciar e de testemunhar o cerne da proposta de Jesus.

O que é “amar a Deus”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor a Deus passa, antes de mais, pela escuta da sua Palavra, pelo acolhimento das suas propostas e pela obediência total aos seus projetos – para mim próprio, para a Igreja, para a minha comunidade e para o mundo. Esforço-me, verdadeiramente, por tentar escutar as propostas de Deus, mantendo um diálogo pessoal com Ele, procurando refletir e interiorizar a sua Palavra, tentando interpretar os sinais com que Ele me interpela na vida de cada dia? Tenho o coração aberto às suas propostas, ou fecho-me no meu egoísmo, nos meus preconceitos e na minha autossuficiência, procurando construir uma vida à margem de Deus ou contra Deus? Procuro ser, em nome de Deus e dos seus planos, uma testemunha profética que interpela o mundo, ou instalo-me no meu cantinho cómodo e renuncio ao compromisso com Deus e com o Reino?

O que é “amar os irmãos”? De acordo com o exemplo e o testemunho de Jesus, o amor aos irmãos passa por prestar atenção a cada homem ou mulher com quem me cruzo pelos caminhos da vida (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, nacional ou estrangeiro, amigo ou inimigo), por sentir-me solidário com as alegrias e sofrimentos de cada pessoa, por partilhar as desilusões e esperanças do meu próximo, por fazer da minha vida um dom total a todos. O mundo em que vivemos precisa de redescobrir o amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida… Na realidade, a minha vida é posta ao serviço dos meus irmãos, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social? Os pobres, os necessitados, os marginalizados, os que alguma vez me magoaram e ofenderam, encontram em mim um irmão que os ama, sem condições? in Dehonianos.

Para os leitores:

A primeira leitura é marcada pelo tom exortativo que deve ser valorizado na proclamação do texto. O leitor terá uma especial atenção na primeira frase do texto que introduz o discurso e na última que apresenta a grande conclusão do texto.

A segunda leitura requer um especial cuidado nas pausas e respirações, exigindo uma preparação acurada tendo em atenção a articulação de todo o texto. Além disso, o leitor deve estar atento às formas verbais, sobretudo ao «Tornastes-vos», «tornastes», «convertestes».

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O ESSENCIAL E AS SOBRAS

Aí está, no Evangelho deste Domingo XXX do Tempo Comum (Mateus 22,34-40), mais uma pergunta armadilhada [«para o experimentar», verbo grego peirázô, literalmente «montar um laço, uma armadilha»] posta a Jesus por um Fariseu, um doutor da lei (nomikós), única menção deste nome em todo o Evangelho de Mateus. Antes deste «legista» partir ao encontro de Jesus com a sua pergunta traiçoeira, destinada a capturá-lo na armadilha preparada, é-nos dito que os Fariseus se reuniram (Mateus 22,34). Mas já o tinham feito também em Mateus 22,15, antes da pergunta sobre o imposto, e é ainda reunidos que os encontramos em Mateus 22,41, antes da pergunta decisiva de Jesus [aí é Jesus que formula a pergunta] acerca da filiação do Messias, que os reduzirá ao silêncio (Mateus 22,46). Estas sucessivas reuniões dos Fariseus para estudar a maneira de tramar Jesus representam uma clara alusão ao Salmo 2, em que se diz que os reis das nações se amotinam contra Deus e contra o seu Messias (v. 2).

A pergunta armadilhada que o «legista» fariseu coloca hoje a Jesus soa assim: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» (Mateus 22,36). A pergunta parece inofensiva, mas, na verdade, destina-se a tentar arrastar Jesus para o plano inclinado da interminável discussão académica. De facto, os mestres judeus, lendo minuciosamente a Lei, ou seja, os cinco primeiros Livros da Bíblia [= Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio], e reduzindo-a a preceitos, tinham contado lá 613 preceitos, sendo 365, tantos quantos os dias do ano, negativos, e 248, tantos quantos, assim se pensava então, os membros do corpo, positivos.

A questão que entretinha os mestres e as suas escolas era agora a de estabelecer uma ordem nesses 613 preceitos ou mandamentos, dizendo qual consideravam o primeiro ou o mais importante ou o maior, e assim por diante. Discussão interminável e natural fonte de conflitos, pois, como é usual dizer-se, cada mestre sua sentença. Qual seria então a posição de Jesus nesta matéria, e como a defenderia?

Jesus responde ao «legista» fariseu, não caindo, porém, na apertada ratoeira que este lhe arma, mas abrindo portas, janelas e… corações engessados! Na verdade, e como sempre costuma fazer, a resposta de Jesus excede, rebentando-a, a pergunta feita. Jesus cita, em primeiro lugar, o Livro do Deuteronómio 6,5: «AMARÁS o Senhor, teu Deus, com todo o coração, toda a alma, todas as forças». Dito isto, Jesus opera um inesperado, para o «legista», salto de trapézio, e acrescenta: «O segundo, porém, é semelhante (homoía) a este, e cita agora o Livro do Levítico 19,18: «AMARÁS o teu próximo como a ti mesmo».

Ora, o «legista» estava apenas interessado em saber qual era, segundo o Mestre Jesus, o primeiro mandamento. Jesus respondeu, mas fez logo saber ao «legista» também o segundo. Mas não disse simplesmente que era o segundo. Disse que este segundo era semelhante ao primeiro. Ora, se é semelhante (e só Mateus usa aqui este semelhante), já não é apenas segundo, mas faz corpo com o primeiro. Sendo assim, então o AMOR a Deus é verificável no AMOR ao próximo, no nosso dia-a-dia.

Mas Jesus rebenta outra vez a pergunta do «legista», na conclusão que tira, e em que refere que «Destes dois mandamentos se suspende» (krématai) (Mateus 22,40), verbo só aqui usado no Novo Testamento, isto é, «depende», «dependura», «decorre» «toda a Lei e os Profetas» (Mateus 22,40). Não se trata, portanto, de um final, de uma conclusão a que se chega, de um resumo, mas de um ponto de partida, de um fundamento. Na linguagem de Santo Agostinho, seria como o fundamento de um edifício espiritual que se encontra no cume, na pedra cumeeira. A locução «a Lei e os Profetas» é uma forma de dizer toda a Escritura. A pergunta do «legista» visava apenas a Lei, mas Jesus acrescenta «os Profetas», clarificando, pois, na sua resposta, que é a inteira Escritura que está atravessada pelo fio de ouro do AMOR a Deus e ao próximo.

Como quem diz: o grau do teu AMOR a Deus verifica-se pela qualidade do teu AMOR ao próximo. Diretamente de Jesus para o «legista»: se olhas para mim de lado, se vens cheio de más intenções, se colocas um laço, uma armadilha, diante dos meus pés, então estás longe de todos os mandamentos. Do 1.º, do 2.º, do 3.º e do 613.º!

Tudo somado, aquele «legista», perguntador traiçoeiro, não se situava corretamente face a Deus e ao seu próximo. Não era o AMOR que o fazia mover. Não estava no centro da Escritura Santa. Andava muito pela periferia. Ocupava muito do seu tempo, não a AMAR, mas a «ARMAR laços», a tentar tramar os outros! É preciso vigiar todos os dias sobre aquilo que verdadeiramente nos move.

Nem de propósito. Salta daqui uma missão aberta, um imenso convite a sairmos de nós, sem armadilhas e só com amor, ao encontro dos nossos irmãos. Dizia o Papa Bento XVI, na sua mensagem para o 85.º Dia Missionário Mundial (2011): «A missão universal empenha TODOS, TUDO e SEMPRE». Entenda-se bem: TODOS, TUDO e SEMPRE! Um silogismo fácil: se a missão envolve TODOS, TUDO e SEMPRE, então atinge-nos no essencial, e não afeta apenas as sobras, porque ficámos sem sobras! Verificação: então por que razão continuamos com toda a tranquilidade do mundo a dedicar à missão universal apenas as nossas sobras de pessoas, de meios e de tempo? Como podemos andar, afinal, também nós, armadilhados de boas, subtis e sub-reptícias intenções!

A lição de hoje do Livro do Êxodo (22,20-26) é clara e faz de coro e de chão à página sublime do Evangelho: Deus ama com especial predileção os necessitados, em que a Bíblia vê particularmente os pobres, o órfão, a viúva e o estrangeiro, e manda-nos que façamos como Ele. Deus não tolera qualquer armadilha que lhes seja feita!

Da janela embaciada da casa de Priscila e Áquila, em que agora habita, em Corinto, S. Paulo continua a evocar com amor a sua passagem por Tessalónica, como refere um extrato do início da Primeira Carta aos Tessalonicenses hoje lido (1,5-10). Não um amor qualquer, mas aquele amor com que ele próprio foi amado por Jesus Cristo (Gálatas 2,20). Portanto, amor de doação total, amor sem volta atrás. Na página que escreve, Paulo diz saber que os cristãos de Tessalónica estão a imitar o seu modo de proceder, isto é, de amar, que é o do Senhor também. Ressoará sempre na Igreja e nas Igrejas este fortíssimo dizer de Paulo: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1 Coríntios 11,1). É nesta linha que se devem pôr também as Igrejas e os corações que hoje escutam esta página, escrita com amor.

Um Deus fiel, seguro, firme como «rocha», que não oscila nem engana, atento e próximo do homem, sobretudo dos mais fragilizados e em dificuldade, eis o fluxo poético que nos oferece o grande Te Deum que é o Salmo 18, que tem muitas afinidades com o «Cântico de David», registado em 2 Samuel 22. Deixemo-lo tomar conta de nós. Este Deus e este fluxo poético. E cantemos com o orante e como ele, com todo o coração, alma, mente, energia, arte: «Eu te amo, Senhor, minha força!» (Salmo 18,2).

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXX do Tempo Comum – Ano A – 29.10.2023 (Ex 22, 20-26)
  2. Leitura II do Domingo XXX do Tempo Comum – Ano A – 29.10.2023 (1 Tes 1, 5c-10)
  3. Domingo XXX do Tempo Comum – Ano A – 29.10.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXX do Tempo Comum – Ano A – 29.10.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 22.10.2023

15Então, os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras.16Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. 17Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?»18Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» 21«De César» – responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» Mt 22, 15-21

Viver a Palavra

Deus criador e redentor do género humano, por amor, criou cada homem e cada mulher. Moldando-nos com as Suas mãos de hábil oleiro ama-nos e recria-nos pela força transformadora do Seu amor. O Deus que ama, escolhe e chama para a missão, convoca-nos a todos para a construção de um mundo mais fraterno e mais justo. Ser feliz, seguindo a proposta de amor que Jesus tem para cada um de nós, é colocar a nossa vida nas mãos de Deus e disponibilizar o nosso coração para que se realize em nós a Sua obra.

Apesar de mal-intencionados, fariseus e herodianos descrevem Jesus de modo assertivo e surpreendente: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas». Jesus, o Mestre sincero, não deixa ninguém de fora e a todos quer conduzir ao coração do Pai. Tem para cada homem e cada mulher um desígnio de amor e, na missão que o Pai lhe confiou, não quer que nenhum se perca. Desafia-nos a dar a Deus tudo o que a Ele lhe pertence e ensina-nos a arte de nos relacionarmos com os bens e poderes temporais dando-lhes também o que lhe é devido. Se somos obra das mãos de Deus, dar a Deus o que é de Deus significa oferecer a nossa vida toda para que o Reino de Deus se instaure no mundo.

Na Liturgia da Palavra deste Domingo, chama-me particular atenção a consciência de que Deus vai operando na história por meio de homens e mulheres, que apesar da sua fragilidade, encontram a força e segurança das suas vidas na missão que o Senhor lhes confia.

Ciro, rei da Pérsia, conquista a Babilónia e faz os israelitas sonhar com a libertação. O povo de Israel sabe que é Deus quem conduz a história e questiona-se ao saber ser um rei estrangeiro a concretizar o processo de libertação do exílio. Contudo, o rei Ciro é o ungido do Senhor, para conduzir o povo e escrever como instrumento de Deus a história da libertação do Povo de Israel.

Deus ama o Seu Povo e escolhe homens e mulheres que sejam presença próxima do povo para operar as Suas maravilhas. Foi assim com Ciro como foi assim ao longo da história com tantos homens e mulheres escolhidos e enviados por Deus.

É esta certeza que proclama S. Paulo quando se dirige aos tessalonicenses: «nós sabemos, irmãos amados por Deus, como fostes escolhidos». Paulo, Silvano e Timóteo são testemunhos deste mesmo amor que escolhe e envia. A eles juntam-se tantos outros que não apenas por palavras, mas, «mas também com obras poderosas, com a ação do Espírito Santo» realizam a missão que o Senhor lhes confiou.

Conscientes da nossa fragilidade e pequenez, nós somos convidados a responder afirmativa e disponivelmente ao projeto de amor que Deus tem para nós. A Igreja é pela sua própria natureza missionária, isto é, enquanto Povo de Deus reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo, é chamada a levar a todos o amor da Santíssima Trindade. Como batizados somos chamados na comunhão e unidade, a levar a todos a certeza do amor de Deus que convoca e envia, que chama e constitui em missão.

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Porventura, poderíamos perguntar-nos: mas o que é que não é de Deus? Se Deus é o criador de todas as coisas, tudo lhe pertence. Não obstante a autonomia das realidades temporais que somos chamados a reconhecer e colaborar, reconhecemos que tudo pertence a Deus. Se na imagem e inscrição da moeda do tributo está César, no rosto de cada homem e de cada mulher está impressa a imagem de Deus à semelhança do Qual fomos criados. Por isso, se o tributo deve ser dado a César, as nossas vidas devem ser oferecidas a Deus e colocadas ao Seu serviço para a salvação de todos. in Voz Portucalense.

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Neste Domingo XXIX do Tempo Comum celebra-se o 97º Dia Mundial das Missões. Como de costume o Papa Francisco escreveu uma mensagem intitulada «Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15).  Fica como anexo. Os fiéis são também convidados a colaborar materialmente com as necessidades das missões para que o Evangelho possa chegar a todos os homens e mulheres. Contudo, que esta seja sobretudo uma jornada de oração para que a Igreja renove a certeza de que a Igreja é por sua própria natureza missionária e só realizará bem a sua missão se se constituir em estado permanente de missão.

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         Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 45,1.4-6

«Eu sou o Senhor e não há outro; fora de Mim não há Deus».

Ambiente

O texto que hoje nos é proposto pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). “Deutero-Isaías” é um nome convencional com que os biblistas designam um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética na Babilónia, entre os exilados judeus. Estamos na fase final do Exílio, entre 550 e 539 a.C.

Durante o reinado de Nabónides, rei da Babilónia, desponta na Pérsia uma nova estrela da política internacional… Em 553 a.C., Ciro, rei dos Persas, conquista a capital da Média (Ecbátana) e junta no mesmo império os Medos e os Persas. Depois (547 a.C.), marcha contra a Lídia, conquista Sardes e, apodera-se da maior parte da Ásia Menor. Nos anos seguintes, uma série de vitórias fulgurantes dão-lhe o domínio do Irão oriental, do Afeganistão e do Turquestão, até à Índia. Fortalecido em ouro e em homens dirige, em seguida, os seus exércitos contra a Babilónia e, em 539 a.C., entra vitorioso na capital babilónica onde, sem qualquer oposição, é recebido como libertador.

A atividade profética do Deutero-Isaías desenvolve-se nos anos que precederam a entrada vitoriosa de Ciro na Babilónia… As notícias que chegam sobre as vitórias de Ciro fazem os exilados sonhar com a proximidade da libertação do cativeiro. À alegria pela libertação iminente junta-se, no entanto, alguma confusão e perplexidade… Então o libertador não vai sair do meio do Povo de Deus, mas é um rei estrangeiro? E quando a libertação acontecer, a quem deve ser atribuída: a Jahwéh, o Deus dos exilados judeus, ou a Marduk, o deus de Ciro? Jahwéh ter-se-á desinteressado do seu Povo? Ou terá perdido o seu poder?

Trata-se de um problema teológico sério que, em última análise, pode determinar a manutenção ou não da fé do Povo em Jahwéh. O Deutero-Isaías vai procurar esclarecer esta questão e explicar o papel de Jahwéh nos acontecimentos. in Dehonianos.

Considerar os seguintes dados, na reflexão e partilha:

Também nós – como os exilados de Judá – ficamos, tantas vezes, perplexos e inquietos diante dos acontecimentos do nosso tempo. Não percebemos o significado nem o alcance de certos eventos e não conseguimos saber para onde é que a história nos conduz. Sentimo-nos perdidos, assustados, à deriva, como barco sem leme… E, para além disso, Deus parece manter-se em silêncio, assistindo calmamente e sem mexer um dedo, aos dramas que marcam o ritmo da nossa caminhada. Perguntamo-nos: onde está Deus, quando a história humana parece percorrer caminhos tão ínvios? Ele preocupa-Se, realmente, com os homens? Qual o seu papel na condução dos destinos do mundo? Porque é que Ele deixa que os homens destruam o planeta, inventem esquemas sofisticados de destruição e de morte, cultivem a exploração e a injustiça, mantenham tantos homens, mulheres e crianças amarrados à miséria e à escravidão? A primeira leitura deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona os homens. Ele encontra sempre formas de intervir na história e de concretizar os seus projetos de vida, de salvação, de libertação… Talvez as intervenções de Deus nem sempre sejam ortodoxas à luz da lógica dos homens; talvez nem sempre consigamos perceber o verdadeiro alcance dos projetos de Deus; mas Deus lá está, como Senhor da história, conduzindo o mundo de acordo com o projeto de vida que Ele tem para os homens e para o mundo. Resta-nos, mesmo quando não percebemos os seus critérios, confiarmos e entregarmo-nos nas suas mãos.

Normalmente, Deus não intervém na história através de manifestações impressionantes, espetaculares, caídas do céu, que se impõem como verdades infalíveis e que deixam os homens espantados… Deus atua no mundo com simplicidade e discrição, através de pessoas – muitas vezes pessoas limitadas, pecadoras, “normais” – a quem Ele chama e a quem Ele confia uma missão. O que é fundamental é que cada homem ou cada mulher que Deus chama esteja disponível para acolher esse chamamento e para aceitar ser instrumento de Deus na construção de um mundo novo.

Aqueles que detêm responsabilidades na condução das comunidades (civis ou religiosas) devem procurar, através de um diálogo contínuo e próximo com Deus, perceber os seus projetos e planos para o mundo e para os homens. Só assim poderão ser instrumento de Deus na construção de um mundo melhor.

Ciro, frustrando todas as expectativas do Povo de Deus, é um pagão que “não conhecia” Jahwéh… Apesar disso (de acordo com a catequese do Deutero-Isaías), foi ele quem Deus escolheu como seu instrumento a fim de concretizar os seus projetos em favor do seu Povo. Deus pode servir-Se daquele que é pecador e marginal aos olhos do mundo para oferecer aos homens a vida e a salvação. O que interessa não são as “qualidades” do intermediário, mas a força de Deus. É necessário ter isto presente… Se conseguimos fazer algo para tornar o mundo um pouco melhor, isso não se deve às nossas brilhantes qualidades, mas a esse Deus que age por nosso intermédio.

A escolha de Ciro significa também a denúncia de uma perspetiva fechada, nacionalista, racista, de Deus e dos seus projetos. Ninguém tem o monopólio de Deus ou da missão… Deus é totalmente livre de chamar quem quiser, quando quiser e como quiser – seja de que raça for, de que extrato social for, ou sejam quais forem os seus antecedentes religiosos. Certos cristãos que se sentem os únicos detentores da autoridade e da missão e que se ficam quase ofendidos quando aparece alguém a fazer algo de diferente na paróquia, deviam ter isto em conta. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 95 (96)

Refrão: Aclamai a glória e o poder do Senhor.

LEITURA II – 1 Tes 1,1-5b

«Damos continuamente graças a Deus por todos vós, ao fazermos menção de vós nas nossas orações».

Ambiente

            Tessalónica era, no século I da nossa era, a cidade mais importante da Macedónia. Importante porto marítimo e cidade de intenso comércio, era uma encruzilhada religiosa, na qual os cultos locais coexistiam lado a lado com todo o tipo de propostas religiosas vindas de todo o Mediterrâneo.

Tessalónica foi evangelizada por Paulo durante a sua segunda viagem missionária, muito provavelmente no Inverno dos anos 49-50. Paulo chegou a Tessalónica acompanhado de Silvano e Timóteo, depois de ter sido forçado a deixar a cidade de Filipos. O tempo de evangelização foi curto – talvez uns três meses; mas foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída maioritariamente por pagãos convertidos. No entanto, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colónia judaica…

Os judeus acusaram Paulo de agir contra os decretos do imperador e levaram alguns cristãos diante dos magistrados da cidade (cf. Act 17,5-9). Paulo teve de deixar a cidade à pressa, de noite, indo para Bereia e, depois, para Atenas (cf. Act 17,10-15).

Entretanto, Paulo tinha a consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalónica ainda deixava muito a desejar. A jovem comunidade, fundada há pouco tempo e ainda insuficientemente catequizada, estava quase desarmada nesse contexto adverso de perseguição e de provação (cf. 1 Tes 3,1-10). Preocupado, Paulo enviou Timóteo a Tessalónica, a fim de saber notícias e encorajar os tessalonicenses na fé (cf. 1 Tes 3,2-5). Quando Timóteo voltou e apresentou o seu relatório, Paulo estava em Corinto. Confortado pelas informações dadas por Timóteo, o apóstolo decidiu escrever aos cristãos de Tessalónica, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho. Aproveitou também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses e para corrigir alguns aspetos menos exemplares da vida da comunidade.

A Primeira Carta aos Tessalonicenses é, com toda a probabilidade, o primeiro escrito do Novo Testamento. Apareceu na Primavera-Verão do ano 50 ou 51.

O texto que nos é proposto apresenta-nos o endereço da carta (“Paulo, Silvano e Timóteo à Igreja dos Tessalonicenses que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” – 1 Tes 1,1) e um extrato de uma longa oração colocada no início da carta, na qual Paulo dá graças a Deus pelo comportamento exemplar dos tessalonicenses: apesar das provas que tiveram de suportar, permanecem fiéis ao Evangelho e ao ensino de Paulo (cf. 1 Tes 1,2-3,13). in Dehonianos.

Na reflexão e na partilha, considerar os seguintes elementos:

Hoje, uma comunidade cristã que viva, com fidelidade e entusiasmo, a fé, a esperança e a caridade, não será notícia; em contrapartida, os meios de comunicação social explorarão, com gosto, a vida de uma comunidade cristã marcada pelos escândalos, pelos dramas, pelas infidelidades…. Tornamo-nos progressivamente insensíveis às coisas bonitas e boas e só nos deixamos impressionar pelo espampanante, pelo escandaloso, por aquilo que chama a atenção por razões negativas. O nosso texto convida-nos, antes de mais, a repararmos nos testemunhos de fé, de amor e de esperança que encontramos à nossa volta e a vermos aí a presença e a ação de Deus no mundo.

O nosso texto convida-nos, depois, a renovar e potenciar a nossa capacidade de louvar e de agradecer a Deus. Ao contemplarmos tantos gestos de bondade, de amor, de doação, de solidariedade que, em geral, acontecem no mundo e que, em particular, enchem as vidas das nossas comunidades cristãs, não podemos deixar de ver aí a presença amorosa de Deus… Teremos sempre a capacidade de agradecer a Deus a sua presença e a sua ação no mundo, na vida das nossas comunidades cristãs ou religiosas, na vida das nossas famílias e de cada um de nós?

O exemplo da comunidade cristã de Tessalónica interpela-nos e questiona-nos… É uma comunidade que, apesar de uma catequese incipiente e de um ambiente hostil, abraçou com entusiasmo o Evangelho e concretizou a proposta de Jesus na vida do dia a dia, através de uma fé ativa, de um amor esforçado e de uma esperança firme. Nós, seguidores de Jesus, depois de muitos anos de catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão: com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a indiferença de quem não se quer comprometer? A nossa fé não é apenas uma questão de palavras, mas leva-nos a um efetivo compromisso com a transformação da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade ou do mundo que nos rodeia? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, de luta contra tudo o que oprime os pequenos, os débeis, os marginalizados? A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das incompreensões que dia a dia temos de enfrentar? in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 22,15-21

«Os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse».

«É lícito ou não pagar tributo a César?».

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».

Ambiente

O nosso texto situa-nos em Jerusalém, o local onde vai desenrolar-se o confronto final entre Jesus e o judaísmo. De um lado estão os dirigentes judeus: instalados nas suas certezas e preconceitos, recusam-se terminantemente a acolher a proposta do Reino. Do outro lado está Jesus: Ele procura que os dirigentes do seu Povo tomem consciência de que, ao recusar o Reino, estão a recusar a oferta de salvação que Deus lhes faz. Para ilustrar a situação, Jesus conta-lhes três parábolas (que lemos e meditámos nos últimos três domingos). Na primeira, identifica-os com o filho que disse “sim” ao seu pai, mas que não foi trabalhar no campo (cf. Mt 21,28-32); na segunda, equipara-os aos vinhateiros maus que tiveram a ousadia de matar o filho (cf. Mt 21,33-46); na terceira, compara-os com os convidados para o banquete que rejeitaram o convite (cf. Mt 22,1-14). Irritados com a ousadia de Jesus e questionados pelas suas comparações, os líderes judaicos procuram ansiosamente um pretexto para o acusar.

É neste contexto que Mateus nos vai apresentar três controvérsias entre Jesus e os fariseus (cf. Mt 22,15-22.23-33.34-40). Em qualquer caso, o objetivo é surpreender afirmações controversas e encontrar argumentos para apresentar em tribunal contra Jesus.

A primeira questão que os fariseus, aliados com os partidários de Herodes Antipas, põem a Jesus é muito delicada. Diz respeito à obrigação de pagar os tributos ao imperador de Roma…

Além dos impostos indiretos (portagens, direitos alfandegários, taxas várias), as províncias romanas pagavam ao Império o tributo, que era uma quantia estipulada por Roma e que todos os habitantes do Império (com exceção das crianças e dos velhos) deviam pagar. Era considerado um sinal infamante da sujeição a Roma. A questão que põem a Jesus é, portanto, esta: é lícito pactuar com esse sistema gerador de escravidão e de injustiça?

Os partidários de Herodes e os saduceus (a alta aristocracia sacerdotal) estavam perfeitamente de acordo com o tributo, pois aceitavam naturalmente a sujeição a Roma. Os movimentos revolucionários, no entanto, estavam frontalmente contra, pois consideravam o imperador um usurpador do poder que só pertencia a Jahwéh e interditavam aos seus partidários o pagamento do dito tributo. Os fariseus, embora não aceitando o tributo, tinham uma posição intermédia e não propunham uma solução violenta para a questão…
De qualquer forma, era uma questão “armadilhada”. Se Jesus se pronunciasse a favor do pagamento do tributo, seria acusado de colaboracionismo e de defender a usurpação pelos romanos do poder que pertencia a Jahwéh; mas se Jesus se pronunciasse contra o pagamento do imposto, seria acusado de revolucionário, inimigo da ordem romana…

Como é que Jesus vai resolver a questão? in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

A questão essencial que o nosso texto aborda é esta: o homem pertence a Deus e deve considerar Deus o seu único senhor e a sua referência fundamental. No entanto, embriagados pelo turbilhão das liberdades e das novas descobertas, os homens do nosso tempo consideraram que eram capazes de descobrir, por si próprios, os caminhos da vida e da felicidade e que podiam prescindir de Deus… Instalaram-se no orgulho e na autossuficiência e deixaram Deus de fora das suas vidas. É preciso voltarmos a Deus e redescobrirmos a sua centralidade na nossa existência. Deus não atenta contra a nossa identidade e a nossa liberdade. Fomos criados para a comunhão com Deus e só nos sentiremos felizes e realizados quando nos entregarmos confiadamente nas suas mãos e fizermos d’Ele o centro da nossa caminhada.

Em muitos casos, Deus foi apenas substituído por outros “deuses”: o dinheiro, o poder, o êxito, a realização profissional, a ascensão social, o clube de futebol… tomaram o lugar de Deus e passaram a dirigir e a condicionar a vida de tantos dos nossos contemporâneos. Quase sempre, no entanto, essa troca trouxe, apenas, escravidão, alienação, frustração e sentimentos de solidão e de orfandade… Como me sinto face a isto? Há outros deuses a tomarem posse da minha vida, a condicionarem as minhas opções, a dirigirem os meus interesses, a dominarem os meus projetos? Quais são esses deuses? Eles asseguraram-me a felicidade e a plena realização, ou tornam-me cada vez mais escravo e dependente?

O homem e a mulher foram criados à imagem de Deus. Eles não são, portanto, objetos que podem ser usados, explorados e alienados, mas seres revestidos de uma suprema dignidade, de uma dignidade divina. Apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de uma infinidade de organizações e de associações destinadas a proteger e a assegurar os direitos, liberdades e garantias, há milhões de homens, mulheres e crianças que continuam, todos os dias, a ser maltratados, humilhados, explorados, desprezados, diminuídos na sua dignidade. Destruir a imagem de Deus que existe em cada criança, mulher ou homem, é um grave crime contra Deus. Nós, os cristãos, não podemos permitir que tal aconteça. Devemos sentir-nos responsáveis sempre que algum irmão ou irmã, em qualquer canto do mundo, é privado dos seus direitos e da sua dignidade; e temos o dever grave de lutar, de forma objetiva, contra todos os sistemas que, na Igreja ou na sociedade, atentem contra a vida e a dignidade de qualquer pessoa.

Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar; mas isso não significa que o cristão viva à margem do mundo e se demita das suas responsabilidades na construção do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora ativamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias, com coerência e lealdade. Não foge aos impostos, não aceita esquemas de corrupção, não infringe as regras legalmente definidas. Vive de olhos postos em Deus; mas não se escusa a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Como é que eu me situo face ao poder político e às instituições civis: com total indiferença, com sujeição cega, ou com lealdade crítica? Como é que eu contribuo para a construção da sociedade? À luz de que critérios e de que valores julgo os factos, as decisões, as leis políticas e sociais que regem a comunidade humana em que estou inserido? As minhas opções políticas são coerentes com os critérios do Evangelho e com os valores de Jesus? in Dehonianos.

Para os leitores:

Na primeira leitura, deve ter-se em atenção o texto em discurso direto que se encontra entre aspas. É necessária uma leitura pausada e atenta às pausas e respirações sobretudo nas frases mais longas. Tal como na primeira leitura, na segunda leitura é necessária uma especial atenção às frases longas e com diversas orações. Na primeira frase, atenção à forma de saudação de S. Paulo para que se expresse bem o modo como o Apóstolo das Gentes saudava a comunidade e coresponsabilizava todos.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

DEVOLVEI AS COISAS DE CÉSAR A CÉSAR E AS COISAS DE DEUS A DEUS

Depois das parábolas do banquete (Mateus 22,1-10) e do traje nupcial (Mateus 22,11-14), sendo esta última exclusiva de Mateus, mas as duas muito bem articuladas no texto de Mateus 22,1-14, o restante do Capítulo 22 de Mateus oferece-nos uma série progressiva de três questões postas sucessivamente a Jesus por Fariseus e Herodianos (Mateus 22,15-22), Saduceus (Mateus 22,23-33) e um Fariseu (Mateus 22,34-40), a que se segue uma quarta, a mais importante (sequência 3 + 1), posta por Jesus aos Fariseus (Mateus 22,41-46).

Destes quatro episódios, apenas dois serão escutados nos próximos dois Domingos. Assim, neste Domingo XXIX do Tempo Comum, escutaremos o episódio de Mateus 22,15-22 (cf. paralelos em Marcos 12,13-17 e Lucas 20,20-26), em que Fariseus e Herodianos se juntam para tentar tramar Jesus pela palavra, colocando-lhe por isso e para isso uma pergunta traiçoeira, assim formulada: «É permitido dar (dídômi) o imposto a César, ou não?» (Mateus 22,17).

Note-se que o episódio decorre no Templo, certamente no Átrio dos Gentios, uma vasta área de 13,5 hectares, propícia ao encontro de muita gente, judeus e não judeus, onde Jesus se encontra a ensinar desde Mateus 21,23 até Mateus 24,1, em que é referido que Jesus saiu do Templo.

É, portanto, no Átrio dos Gentios que, de forma estudada e matreira, fariseus e herodianos tentam surpreender Jesus com uma pergunta política fechada. Note-se que a pergunta foi preparada e feita para levar Jesus a responder «sim» ou «não». Para o caso, aos maliciosos perguntadores, tanto lhes fazia: para tramar Jesus, tanto lhes servia o «sim» como o «não». Na verdade, se Jesus respondesse «sim», seria visto como colaboracionista com o império romano ocupante e perderia todo o crédito religioso acumulado aos olhos das multidões que o viam como profeta, totalmente do lado de Deus. Cairia assim um dos grandes aliados de Jesus, o povo, que os adversários de Jesus temiam, sendo este medo que até agora os impediu de prender e eliminar Jesus (cf. Mateus 21,46). Se respondesse «não», seria denunciado às autoridades romanas como revolucionário, e certamente executado. Com este dilema aparentemente sem saída, os fariseus pensam retribuir a Jesus o embaraço em que os meteu com a pergunta acerca da origem do batismo de João, se era do céu ou se era da terra, de que não souberam sair de forma airosa (cf. Mateus 21,23-27).

Antes de verificarmos a extraordinária resposta com que Jesus desmonta a armadilha que lhe é posta, é ainda conveniente examinar o grau de adulação e hipocrisia dos perguntadores. De facto, o grupo de fariseus e herodianos aproxima-se de Jesus estendendo-lhe um tapete de louvores: «Sabemos que és verdadeiro», que «ensinas com verdade o caminho de Deus», e que «não fazes aceção de pessoas» (Mateus 22,16). Esta última expressão deriva da locução latina accipere personam [= receber a pessoa], que, por sua vez, traduz à letra o grego lambánein prósôpôn [= tomar o rosto], que tem por detrás a expressão hebraica nasaʼ panîm [= levantar o rosto]. A expressão hebraica faz sentido, e é muito mais clara do que a grega, a latina e a portuguesa. O juiz justo, no ato de administrar a justiça, não levanta o rosto das pessoas, isto é, não julga de acordo com o rosto das pessoas ou por interesse, consoante as pessoas sejam ricas ou pobres, simpáticas ou desprezíveis, do nosso grupo de amigos ou não. O grego tenta traduzir a expressão hebraica, mas o latim e o vernáculo «fazer aceção de pessoas» não significa nada.

Note-se, porém, que este tapete rolante colocado diante de Jesus por fariseus e herodianos é com a intenção de o fazer mais facilmente escorregar e cair.

Mas Jesus descobre logo a malícia deles, e diz as coisas a direito, levando a sério o que os seus interlocutores lhe dizem por malícia. Além disso, chama-lhes «hipócritas» (uma palavra que se conta 30 vezes em Mateus), isto é, mentirosos camuflados debaixo de uma capa de verdade. Jesus, portanto, não responde à adulação com adulação, mas denuncia a máscara de mentira que envolve aqueles rostos! Vai mais longe: pede-lhes que lhe mostrem a moeda do imposto per capita (kênsos, transliteração grega do latim census) que, desde o ano 6 d. C., todos os judeus adultos, mulheres e escravos incluídos, tinham de pagar ao império romano. Além de hábeis impostores, os interlocutores de Jesus são igualmente rápidos a tirar a moeda do bolso, um denário, moeda romana correspondente ao salário de um dia de trabalho. Jesus pergunta, de forma contundente, usando o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: de quem é esta imagem e a inscrição?» (Mateus 22,20). A moeda tinha ao centro a imagem de Tibério coroado de grinaldas, que reinou de 14 a 37 d. C., e à volta a inscrição Ti[berius] Caesar Divi Aug[usti] F[ilius] Augustus, tendo no reverso Ponti[fex] Maxim[us]. Eles têm, portanto, de responder que uma e outra são de César. Note-se que tudo se passa no recinto sagrado do Templo. E a moeda que estes falsos justos ostentam desrespeita os dois primeiros mandamentos (Êxodo 20,3 e 4). Na verdade, Êxodo 20,4 proíbe as imagens (2.º mandamento), e Êxodo 20,3 proíbe o culto a outros deuses (1.º mandamento): ora, a inscrição descrevia o Imperador Romano com Divi Filius [= filho de um deus].

Jesus continua a usar o presente histórico do verbo dizer: «Diz-lhes: devolvei então as coisas de César a César e as coisas de Deus a Deus!» (Mateus 22,21). Note-se ainda como Jesus não responde com o verbo «dar» (dídômi) da pergunta, mas com «devolver» (apodídômi) o seu a seu dono. E introduz a enfática 2.ª parte «e as coisas de Deus a Deus». Fica então claro que a moeda vem de César e a César deve voltar. Mas Jesus, o Filho verdadeiro de Deus, «imagem do Deus invisível» (Colossenses 1,15), que até os falsos interlocutores reconhecem que está vinculado a Deus, pois afirmam que ensina o caminho de Deus (Mateus 22,16), é para devolver a Deus… Mas já sabemos que estes impostores montaram esta armadilha com o fito de o entregar a César (e é o que vão fazer mais à frente). E também fica claro que o ser humano, homem e mulher, criado à imagem de Deus (Génesis 1,26-27), é para devolver a Deus.

O v. 22, que foi cortado (mal) do texto deste Domingo, desenha a reviravolta dos caçadores caçados na sua própria armadilha. Caçados por excesso, pois refere o texto que ficaram maravilhados, e se foram embora (Mateus 22,22). Maravilhados, mas não convertidos. Voltarão cada vez mais envenenados para levar a cabo o projeto iníquo de retirar Jesus de Deus, para o entregar a César.

Como se vê, há nesta extraordinária resposta de Jesus muito mais do que a corrente e banal leitura que vê nesta passagem o mero estabelecimento de regras de convivência entre Estado e Igreja…

Ao contrário da nossa malícia que vamos extravasando, Deus olha-nos com bondade, e os seus desígnios, mesmo quando escolhe um estrangeiro, são sempre por causa de nós, porque nos ama (Isaías 45,1.4-6).

É este também o modo caloroso de agir de Paulo, Silvano e Timóteo, que têm sempre presente, porque a amam, a comunidade de Tessalónica (1 Tessalonicenses 1,1-5). Terá de ser também o nosso modo de agir para com Deus e os nossos irmãos.

Sim, sem malícia, mas com o coração puro, cantemos as notas sublimes do Salmo 96. A música está escrita diante de nós, no pergaminho da natureza e da história, mas também no rosto belo de cada irmão e da inteira criação. O canto é novo. E já aprendemos com Santo Agostinho que só um homem novo pode cantar um canto novo.

Um canto novo nos deve unir e reunir, à volta do Senhor Ressuscitado, nosso contemporâneo, que nos guia e acompanha nos caminhos sempre novos da missão. Passa hoje o 97.º Dia Missionário Mundial, a que o Papa Francisco apôs o belo lema: «Eis-me aqui, envia-me!», que constitui a resposta de Isaías à pergunta de Deus: «Quem enviarei?» (Isaías 6,8). O lema deste ano é:” Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15). Importa que respondamos nós também, pois a missão é sempre resposta. Assim, ficamos todos a saber que «Evangelizar é a nossa maneira de ser, a nossa identidade mais profunda» (Paulo VI, Evangelii nuntiandi [1975], n.º 14), o verdadeiro ADN de todo o cristão batizado. Foi o Papa Pio XI que instituiu este Dia Missionário Mundial em 1926. Vamos hoje na 97.ª edição.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 22.10.2023 (Is 45, 1.4-6)
  2. Leitura II do Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 22.10.2023 (1 Tes 1, 1-5b)
  3. Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 22.10.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXIX do Tempo Comum – Ano A – 22.10.2023 – Oração Universal
  5. Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões – 22.10.2023
  6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A – 15.10.2023

Viver a Palavra

Tudo começa com um convite, um dom e uma oferta. No início não está uma obrigação, uma proibição ou um lamento, mas um Rei que é figura do Pai Celeste e «preparou um banquete nupcial para o seu filho». O nosso Deus é um Deus de festa e convida-nos a entrar na alegria nova que o Seu amor nos oferece.

Continuando o nosso itinerário com o Evangelho de S. Mateus, verificamos que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo continuam na mira da pregação de Jesus. Percebendo que Jesus se dirigia a eles na parábola dos dois filhos (Mt 21,28-32) e na parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-43), eles procuram prender Jesus e a única coisa que os impede é o receio das multidões que consideram Jesus um profeta. Jesus volta-se para eles e conta-lhes uma nova parábola que serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam neles.

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho». O Reino de Deus que somos chamados a construir aqui e agora, sabendo que apenas o habitaremos em plenitude no céu, é comparável à solicitude de um rei que prepara um banquete. Preparar um banquete para alguém significa dizer-lhe quanto o amamos e quanto o queremos na intimidade da nossa mesa.

O rei convida para a sua mesa e não desiste ao primeiro não. Depois dos primeiros servos terem saído a convocar para a festa e terem recebido apenas a indiferença dos convidados, manda outros servos com um apelo mais incisivo: «dizei aos convidados: preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas». Contudo, uma vez mais recusam o convite e, se alguns partiram indiferentes para os seus afazeres quotidianos, outros foram violentos e homicidas, maltratando e matando os servos. Mas este rei não desiste da sua festa e, sendo rejeitado por aqueles que eram os convidados primeiros, envia um convite que se destina a todos aqueles que forem encontrados nas encruzilhadas dos caminhos. A festa encheu-se de convidados, a alegria inundou o palácio e celebraram juntos a certeza de um amor maior que nos faz sentar à mesa do rei.

Como é belo caminhar com Jesus e descobrir no rosto misericordioso de Deus um Pai que nos convoca para as núpcias do seu filho e incessantemente nos chama a tomar parte da Sua alegria.

A parábola desenrola-se na dialética do dom e da responsabilidade. O convite é gratuito, mas compromete quem o recebe e pede-lhe que a ele corresponda. Deus porque nos ama, chama-nos, mas convida-nos a aderir livremente ao projeto de amor e felicidade que tem para cada um de nós.

Como é belo ver um Deus que quando é rejeitado, ao invés de se fechar em si próprio alarga ainda mais o Seu coração e envia os seus servos para que o apelo do seu chamamento chegue cada vez mais longe.

Surpreende-nos o final desta parábola: um dos convidados não traz o traje nupcial. Na verdade, a surpresa maior é que todos os outros «maus e bons» sejam portadores de um traje nupcial. Contudo, na cultura oriental, quem convida oferece o traje nupcial e, por isso, se este homem não traz o traje é porque o rejeitou. Também nós pelo nosso batismo fomos revestidos com a veste branca, símbolo da dignidade cristã, da pureza e da vida nova que somos chamados a cuidar para que a conservemos «imaculada até à vida eterna». O amor que Deus derramado sobre nós é dom a ser acolhido e missão a realizar para que o mundo possa ser o lugar que Deus sonhou para nós e para que a vida de cada homem e de cada mulher seja uma vida mais feliz. in Voz Portucalense

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         Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 25,6-10a

«O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo».

Ambiente

É extremamente difícil situar, no tempo e no momento histórico, o texto que a primeira leitura deste domingo nos apresenta.

Para uns, o oráculo pertence à fase final da vida do profeta Isaías (no final do séc. VIII a.C.) quando, desiludido com a política e com os reis de Judá, o profeta começou a sonhar com um tempo novo de felicidade e de paz sem fim para o Povo de Deus.

Para outros, contudo, este texto não pertenceria ao primeiro Isaías (o autor dos capítulos 1-39 do Livro de Isaías), apesar de aparecer integrado no seu livro. Seria um texto de uma época posterior ao profeta… A referência à superação da morte, das lágrimas e da vergonha, poderia sugerir que a composição deste texto se situaria num momento histórico posterior ao Exílio na Babilónia, quando Judá já teria reconquistado a liberdade.
Em qualquer caso, o texto constrói-se à volta da imagem do “banquete”. O “banquete” é, no ambiente sociocultural do mundo bíblico, o momento da partilha, da comunhão, da constituição de uma comunidade de mesa, do estabelecimento de laços familiares entre os convivas.

Para além de acontecimento social, o “banquete” tem também, frequentemente, uma dimensão religiosa. Os “banquetes sagrados” celebram e potenciam a comunhão do crente com Deus, o estabelecimento de laços familiares entre Deus e os fiéis. É por isso que, na perspetiva dos catequistas que redigiram as tradições sobre a Aliança do Sinai, o compromisso entre Jahwéh e Israel tinha de ser selado com uma refeição entre Deus e os representantes do Povo (cf. Ex 24,1-2. 9-11).

Neste campo são também particularmente significativos os “sacrifícios de comunhão” (“zebâh shelamim”) celebrados no Templo de Jerusalém. Neste tipo de celebração religiosa, o crente trazia ao Templo um animal destinado a Deus. Depois de imolado o animal, a sua gordura era queimada sobre o altar, ao passo que a carne era repartida pelo oferente e pelos sacerdotes. O oferente e a sua família deviam comer a sua parte no espaço sagrado do santuário. Dessa forma, sentavam-se à mesa com Deus, celebravam a sua pertença ao círculo familiar de Deus e renovavam com Deus os laços de paz, de harmonia, de comunhão (cfr. Lv 3).
É este ambiente que o nosso texto supõe.in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

A imagem do “banquete” para o qual Deus convida “todos os povos” aponta para essa realidade de comunhão, de festa, de amor, de felicidade que Deus, insistentemente nos oferece. Nunca será de mais recordar isto: Deus tem um projeto de vida, que quer oferecer a todos os homens, sem exceção. Não somos “filhos de um deus menor”, pobre humanidade abandonada à sua sorte, perdida num universo hostil e condenada ao nada; somos pessoas a quem Deus ama, a quem Ele convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a vida plena e definitiva. A consciência desta realidade deve iluminar a nossa existência e encher de serenidade, de esperança e de confiança a nossa caminhada nesta terra. A nossa finitude, as nossas limitações, os nossos medos e misérias não são a última palavra da nossa existência; mas caminhamos todos ao encontro da festa definitiva que Deus prepara para todos os que aceitam o seu dom.

Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para ter acesso a essa festa de vida eterna. Aceitar o convite de Deus significa renunciar ao egoísmo, ao orgulho e à autossuficiência e conduzir a existência de acordo com os valores de Deus; aceitar o convite de Deus implica dar prioridade ao amor, testemunhar os valores do Reino e construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. No dia do nosso Batismo, aceitamos o convite de Deus e comprometemo-nos com Ele… A nossa vida tem sido coerente com essa opção? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: Habitarei para sempre na casa do Senhor

LEITURA II – Filip 4,12-14.19-20

«Tudo posso n’Aquele que me conforta».

Ambiente

            Mais uma vez, a segunda leitura oferece-nos um excerto de uma carta de Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos.

Estamos nos anos 56/57. Paulo está na prisão (em Éfeso?) por causa do Evangelho. Nesse momento difícil da sua vida apostólica, Paulo recebeu ajuda económica e, mais importante do que isso, a presença solidária e o cuidado de Epafrodito, um membro da comunidade, enviado para ajudar Paulo e para lhe manifestar a solicitude dos seus “filhos” de Filipos.

O nosso texto é tirado do capítulo final da Carta aos Filipenses. Aí, num tom emocionado, Paulo agradece pelos dons recebidos e pela solidariedade que os cristãos de Filipos lhe manifestaram. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes linhas:

Antes de mais, o nosso texto apela a que os cristãos tenham o coração aberto à partilha e ao dom. Ser cristão implica a renúncia a uma vida de egoísmo e de fechamento em si próprio…. Implica abrir o coração às necessidades dos irmãos carentes e desfavorecidos e uma partilha efetiva da vida e dos bens. Numa época em que os valores dominantes convidam continuamente ao egoísmo, à autossuficiência, à preocupação exclusiva com os próprios interesses, o gesto dos filipenses constitui uma poderosa interpelação.

Por outro lado, também somos interpelados pelo sentido de despojamento de Paulo… Como Paulo, o apóstolo de Jesus deve saber “viver na pobreza” e deve saber “viver na abundância”; mas nunca pode colocar as comodidades materiais como prioridade ou como condição essencial para se empenhar na missão. O apóstolo de Jesus tem como prioridade o anúncio do Evangelho, em quaisquer circunstâncias e para além de todos os condicionalismos. Um “apóstolo” que se preocupa, antes de mais, com a sua comodidade ou com o seu bem-estar torna-se escravo das coisas materiais, passa a ser um “funcionário do Reino” com horário limitado e com trabalho limitado e rapidamente perde o sentido da sua entrega e do seu empenhamento.

A solicitude dos filipenses por Paulo é sinal da vontade que eles têm de colaborar na expansão do Reino. Todas as comunidades cristãs deviam sentir este apelo a participar – de forma mais direta ou menos direta – no testemunho de Evangelho de Jesus. Levar o Evangelho ao mundo não é uma missão que apenas diga respeito a um grupo “especial” dentro da Igreja; mas é uma missão que Jesus confiou a todos os discípulos, sem exceção. Todos os cristãos deviam sentir o imperativo de colaborar, na medida das suas possibilidades, no anúncio do Evangelho.

A solicitude dos filipenses por Paulo interpela também as comunidades cristãs acerca da forma como acolhem e tratam aqueles que se entregam a tempo inteiro à causa do Evangelho… A opção que eles fizeram de se entregarem totalmente ao serviço do Reino não os torna menos humanos; eles continuam a ser homens ou mulheres sensíveis às manifestações de afeto, de apreço, de amizade, de solicitude. A comunidade tem o dever de manifestar, em gestos concretos, a sua gratidão pelo trabalho desses irmãos e pelos dons que deles recebe.

Paulo refere-se, finalmente, à retribuição que Deus não deixará de dar a todos aqueles que mostram solicitude e amor com os apóstolos e que se empenham no anúncio do Evangelho. No entanto, Paulo está longe de sugerir uma lógica interesseira no nosso relacionamento com Deus… O cristão não age de determinada forma para daí tirar benefícios, mas porque o seu compromisso com Jesus lhe impõe determinado comportamento. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 22,1-14

«Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo».

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho».

«Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos»

Ambiente

Continuamos em Jerusalém, nos dias que antecedem a Páscoa. Os dirigentes religiosos judeus aumentam a pressão sobre Jesus. Instalados nas suas certezas e seguranças, já decidiram que a proposta de Jesus não vem de Deus; por isso, rejeitam de forma absoluta o Reino que ele anuncia.

O texto que nos é hoje proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos dons de Deus. O nosso texto é a última dessas três parábolas.

A crítica do texto mostra que Mateus juntou aqui duas parábolas diferentes: a parábola dos convidados para o “banquete” (que é comum a Mateus e Lucas, embora as duas versões apresentem diferenças consideráveis – cf. Mt 22,1-10; Lc 14,15-24) e a parábola do convidado que se apresentou sem o traje adequado (que é exclusiva de Mateus – cf. Mt 22,11-14). Originalmente, as duas parábolas teriam ensinamentos diferentes; mas a temática comum do “banquete” aproximou-as e juntou-as.

As nossas duas parábolas situam-nos, portanto, no cenário de um “banquete”. Já dissemos (a propósito da primeira leitura deste domingo) que o “banquete” era, na cultura semita, o lugar do encontro, da comunhão, do estreitamento de laços familiares entre os convivas. Além disso, o “banquete” era também a cerimónia através da qual se confirmava o “status” das pessoas e o seu lugar dentro da escala social. Quem organizava um “banquete” – por exemplo, por ocasião do casamento de um filho – procurava fazer uma seleção cuidada dos convidados: a presença de gente “desclassificada” faria descer consideravelmente, aos olhos de toda a comunidade, o “status” da família; e, por outro lado, a presença à mesa de pessoas importantes realçava a importância e a honra da família. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

No nosso texto, a questão decisiva não é se Deus convida ou se não convida; mas é se se aceita ou se não se aceita o convite de Deus para o “banquete” do Reino. Os convidados que não aceitaram o convite representam aqueles que estão demasiado preocupados a dirigir uma empresa de sucesso, ou a escalar a vida a pulso, ou a conquistar os seus cinco minutos de fama, ou a impor aos outros os seus próprios esquemas e projetos, ou a explorar o bem-estar que o dinheiro lhes conquistou e não têm tempo para os desafios de Deus. Vivemos obcecados com o imediato, o politicamente correto, o palpável, o material, e prescindimos dos valores eternos, duradouros, exigentes, que exigem o dom da própria vida. A questão é: onde é que está a verdadeira felicidade? Nos valores do Reino, ou nesses valores efémeros que nos absorvem e nos dominam?

Os convidados que não aceitaram o convite representam também aqueles que estão instalados na sua autossuficiência, nas suas certezas, seguranças e preconceitos e não têm o coração aberto e disponível para as propostas de Deus. Trata-se, muitas vezes, de pessoas sérias e boas, que se empenham seriamente na comunidade cristã e que desempenham papéis fundamentais na estruturação dos organismos paroquiais… Mas “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”; sabem tudo sobre Deus, já construíram um deus à medida dos seus interesses, desejos e projetos e não se deixam questionar nem interpelar. Os seus corações estão, também, fechados à novidade de Deus.

Os convidados que aceitaram o convite representam todos aqueles que, apesar dos seus limites e do seu pecado, têm o coração disponível para Deus e para os desafios que Ele faz. Percebem os limites da sua miséria e finitude e estão permanentemente à espera de que Deus lhes ofereça a salvação. São humildes, pobres, simples, confiam em Deus e na salvação que Ele quer oferecer a cada homem e a cada mulher e estão dispostos a acolher os desafios de Deus.

A parábola do homem que não vestiu o traje apropriado convida-nos a considerar que a salvação não é uma conquista, feita de uma vez por todas, mas um sim a Deus sempre renovado, e que implica um compromisso real, sério e exigente com os valores de Deus. Implica uma opção coerente, contínua, diária com a opção que eu fiz no Batismo… Não é um compromisso de “meias tintas”, de tentativas falhadas, de “tanto se me dá como se me deu”; mas é um compromisso sério e coerente com essa vida nova que Jesus me apresentou. in Dehonianos.

Para os leitores:

A primeira leitura é marcada pelo anúncio alegre e feliz de um Deus que prepara para todos os povos um banquete que inaugura uma era de paz e consolação. A proclamação desta leitura deve ter presente este tom alegre e jubiloso que anuncia o fim das lágrimas e o início de uma era de felicidade. Além disso, deve ter-se em atenção as descrições e enumerações bem como a repetição da expressão «sobre este monte».

A proclamação da segunda leitura deve ter presente, de modo especial, o centro de todo o texto «tudo posso n’Aquele que me conforta» e a conclusão doxológica «Glória a Deus, nosso Pai, pelos séculos dos séculos. Ámen»

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

QUANDO O REI TE DIZ: «AMIGO…»

No seguimento dos dois Domingos anteriores, também neste Domingo XXVIII do Tempo Comum, os chefes religiosos e civis continuam na mira de Jesus. O Evangelho deste Domingo é retirado de Mateus 22,1-14. Já quando ouviram as duas parábolas anteriores – a dos dois filhos (Mateus 21,28-32) e a dos vinhateiros homicidas (Mateus 21,33-43 –, perceberam bem que as palavras de Jesus se dirigiam a eles, e, parafraseando Jorge Luís Borges, perceberam também que as palavras de Jesus estavam carregadas como uma arma. O narrador informa-nos, de resto, no final, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo», e que só o não fizeram por «receio das multidões, que o tinham por profeta» (Mateus 21,45-46).

É importante, para o leitor, esta última informação do narrador, pois o texto de hoje, que segue imediatamente os anteriores, começa assim: «E, respondendo, JESUS disse-lhes novamente em parábolas» (Mateus 22,1). Ficamos então a saber que o novo dizer parabólico de Jesus serve de resposta aos pensamentos e planos violentos que as parábolas anteriores desencadearam nos chefes.

E segue a primeira, estupenda parábola, que parte da afirmação da semelhança do Reino dos Céus a um banquete nupcial que um Rei fez para o seu filho. «Reino dos Céus», usual em Mateus, é uma circunlocução para dizer «Reino de Deus». E a figura do Rei é muitas vezes usada no Antigo Testamento e no judaísmo para designar Deus. E o verbo «fazer» evoca imediatamente o relato criação (Genesis 1,1-2,4a), em que o verbo fazer se conta por dez vezes. E o filho do Rei, para uma audiência cristã da parábola, designava de imediato Jesus. E o banquete nupcial feito pelo Rei é uma imagem fortíssima de festa e de alegria, tantas vezes anunciado pelos profetas (veja-se, por exemplo, a lição de hoje do profeta Isaías 25,6), e impacientemente aguardado pelos judeus piedosos. É seguro: ser convidado e poder participar num banquete assim era um sonho para qualquer judeu piedoso!

Atravessam o texto várias surpresas. Primeira surpresa: quando o Rei enviou os seus servos a chamar os CONVIDADOS para o banquete, estes não queriam (ouk êthelon: impf. de thélô) vir (Mateus 22,3). O uso do imperfeito indica duração; não se trata de um ato, mas de uma atitude: nem hoje, nem amanhã, nem em dia nenhum. E o uso do verbo querer deixa claro que se trata de uma ação voluntária, e não de uma qualquer predisposição ou sentimento. Mais ainda: que a ação é deliberada, fica patente no facto de o Rei ter enviado outros servos para voltar a chamar os CONVIDADOS, e estes nem prestaram atenção, indo cada um à sua vida (Mateus 22,4-5). E os restantes ainda maltrataram e mataram os servos do Rei (Mateus 22,6).

Note-se ainda que foi o próprio Rei que preparou (hêtoímaka: perf. de hetoimázô) o banquete, empenhando-se pessoalmente nele (Mateus 22,4). O verbo preparar está colocado em lugares-chave em Mateus: veja-se 3,3: «Preparai o caminho do Senhor»; 25,34: «Vinde, benditos de meu Pai, recebei o Reino preparado para vós…; 26,17.19: preparar a Páscoa.

Este cuidado meticuloso posto pelo Rei na preparação do seu banquete para nós parece esbarrar depois na brutalidade com que se irou (ôrgísthê: aor. de orgízomai), enviou as suas tropas, matou aqueles homicidas e incendiou a sua cidade (Mateus 22,7). O sentido voa aqui em duas direções: primeiro, o uso do aoristo em todos os verbos mostra que «a sua ira dura apenas um momento», como diz o Salmo 30,6; segundo, o castigo descrito retrata e interpreta os acontecimentos dramáticos bem conhecidos do ano 70.

Segunda surpresa: as sucessivas e gradativas recusas dos CONVIDADOS não desarmam o Rei, que DIZ (légei) então aos seus servos (Mateus 22,8): IDE às encruzilhadas dos caminhos, e TODOS os que encontrardes, chamai-os para o banquete (Mateus 22,9). Os servos saíram, e reuniram TODOS os que encontraram, maus e bons (Mateus 22,10). Missão universal que brota do amor fontal de Deus Pai (Ad Gentes, n.º 2) … E foi assim, por nova, excessiva e a todos os títulos surpreendente iniciativa do Rei, que se encheu a sala do banquete. Note-se o novo DIZER do Rei, posto no presente histórico («diz então aos seus servos»), que marca um primeiro ponto alto no relato. Note-se ainda que o intervalo militar parece não ter esfriado a comida daquela mesa sempre posta!

Terceira surpresa: o Rei entra, vê «um homem» sem o traje nupcial, e expulsa-o da casa alumiada para as trevas cegas e as lágrimas vazias. Que o homem não tenha o traje nupcial é surpresa para o Rei, que não para nós. Para nós, a surpresa é que TODOS os outros, maus e bons, tenham o traje nupcial, uma vez que foram como que arrastados à pressa dos caminhos lamacentos do mundo! Como é que ainda conseguiram vestir o traje nupcial, não deixa de ser surpreendente para nós! Para o Rei, é aquele «um homem», que não vestiu o traje nupcial, que causa surpresa! E chegamos ao segundo ponto alto do relato, marcado também pelo verbo DIZER no presente histórico. De facto, o Rei trata aquele «um homem» cordialmente, e DIZ-lhe (légei autô): «Amigo» (hetaîre), apelativo que só Mateus usa no Novo Testamento (20,13; 22,12; 26,50), e que apenas é usado quando se aborda alguém de forma muito cordial, de forma especialmente cordial. A este amigo (hetaîros), o Rei concede, mediante esta última abordagem direta e cordial, uma última oportunidade de se dizer, isto é, de reconhecer o seu desarranjo interior e de mudar a sua vida.

Oportunidade desperdiçada, pois o homem simplesmente não responde. Ficou calado e petrificado (Mateus 22,12). Note-se o mesmo tratamento de Jesus para Judas naquela noite escura, mas ainda à beirinha da Luz: «Amigo (hetaîre), para que estás aqui?» (Mateus 26,50). Judas também não respondeu.

  1. É aqui que a parábola nos atinge a TODOS em cheio. Vistas bem as coisas, só o Rei fala nesta parábola. E se ouvirmos bem, DIZ-nos: «Amigo!…».

A razão daquele homem não usar o traje nupcial.

1) Não o usa devido à técnica do arrasto que o apanhou desprevenido e sem tempo para ir a casa ao menos para lavar a cara e mudar de roupa. Este é o entendimento banal e superficial da parábola, que nos rouba as verdadeiras chaves de leitura e nos leva para leituras mais ou menos moralizantes!

2) Também não podemos explicar o não uso do traje nupcial recorrendo, como é habitual, a motivos moralizantes traduzidos em comportamentos menos dignos. Esse motivo e essas pessoas (os CONVIDADOS) já foram excluídos (cf. Mateus 22,8), e é-nos dito expressamente que os servos daquele rei levaram agora para a sala do banquete todos os que encontraram, maus e bons (cf. Mateus 22,10); se foram levados todos, maus e bons, é difícil suportar aqui uma leitura moralizante.

3) Não é, portanto, pelo facto de ser mau ou distraído que aquele homem não usa o traje nupcial.

4) Não o usa, porque não o quis receber. O traje da festa não se vai buscar a casa; tão-pouco traduz a nossa bondade ou qualquer mérito. É um presente do Rei à entrada da sala do banquete. No nosso mundo ocidental, são os convidados que levam os presentes. No mundo oriental, quem convida é que oferece presentes aos convidados, entre os quais se conta o vestido da festa. É sabido que, no mundo bíblico, o vestido significa a vida. Ao fundo da cena está sempre a nossa vida dada e que deve ser com alegria recebida. Ao fundo da cena está, portanto, sempre Deus de mãos abertas, que reclama as nossas mãos também abertas.

Nunca nos esqueçamos de que é de Deus toda a verdadeira iniciativa. Nunca nos esqueçamos de começar sempre por receber. E de gastar o resto do tempo que nos for dado a agradecer e a partilhar.

De banquete para banquete. Aí está a pena de Isaías, na lição de hoje (25,6-10), a descrever um banquete por Deus oferecido a todos os povos (kol-haՙammîm) e um mundo novo aberto aos olhos de todas as nações (kol-haggôyim) e de todos os rostos (kol-panîm), carinhosamente limpos de lágrimas, tudo sobre este monte (bahar hazzehpreparado (Is 25,6-8). Este magnífico cenário reclama ainda Is 56,1-8, e a extraordinária elevação e inclusão dos extrangeiros no povo de Deus, dignos de subir ao «monte da minha santidade» (har qodshî) e de entrar na «casa da minha oração» (bêt tephillatî) (v. 7), assim definitivamente transformada em «casa de oração para todos os povos» (bêt-tephillah lekol-haՙammîm) (v. 7). Declaradamente, fica patente a oposição entre «os jardins» e os lugares altos com árvores frondosas, por um lado, e o «monte do Senhor», o «monte da minha santidade», por outro, confirmando a função do «monte», purificado de maldade e violência, em Is 65,11.25. Texto tardio que abre diante de nós, não apenas as portas de Sião, mas as portas da casa de Deus.

A Carta aos Filipenses, que continuamos a ler aos bocadinhos (4,12-20), como se de pão para a boca se tratasse, continua a mostrar-nos Paulo empenhado na sua missão dia após dia, sem se preocupar, como pediu Jesus, com o que havia de comer ou de vestir (cf. Mateus 6,25). Mostra-se reconhecido e agradecido à comunidade querida de Filipos, mas toda a sua confiança está posta em Deus, a quem dirige a sua bela doxologia final: «A Deus, e nosso Pai, a glória pelos séculos dos séculos, ámen».

Deixemos, entretanto, ressoar em nós a música sublime do Salmo 23, e deixemo-nos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Outra vez o banquete preparado! Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

De banquete para banquete para banquete! Não nos esqueçamos de ver em contraluz o Banquete da Eucaristia em que hoje, Domingo, dia do Senhor, temos a graça de participar.

António Couto

ANEXOS:

        1. Leitura I do Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A – 15.10.2023 (Is 25, 6-10a)
        2. Leitura II do Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A – 15.10.2023 (Filip 4, 12-14.19-20)
        3. Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A – 15.10.2023 – Lecionário
        4. Domingo XXVIII do Tempo Comum – Ano A – 15.10.2023 – Oração Universal
        5. Exortação Apostólica – Laudate Deum – Papa Francisco -04.10.2023
        6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A – 08.10.2023

33«Escutai outra parábola: Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. 34Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam. 35Os vinhateiros, porém, apoderaram-se dos servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram o terceiro. 36Tornou a mandar outros servos, mais numerosos do que os primeiros, e trataram-nos da mesma forma. 37Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Hão-de respeitar o meu filho.’ 38Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: ‘Este é o herdeiro. Matemo-lo e ficaremos com a sua herança.’ 39E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Mt 21, 33-39

Viver a Palavra
O amor oferecido e recebido reciprocamente é fonte de uma imensa alegria e de uma profunda felicidade que todos nós já tivemos a oportunidade de experimentar. A experiência de amar e ser amado realiza o homem e a mulher na sua vocação para o amor e para a felicidade. Contudo, no arco da nossa existência, sejamos nós mais velhos ou mais novos, já fizemos a experiência da dureza de um amor não correspondido, da ingratidão face aos nossos gestos de carinho e bondade ou da indiferença diante do nosso esforço quotidiano de amar e servir aqueles que se cruzam connosco.

A Liturgia da Palavra deste Domingo, sobretudo a primeira leitura e o evangelho, são trechos de teologia da história, isto é, de uma releitura da história da salvação à luz da fé. Narram-nos um amor desmedido que tantas vezes não é correspondido. No cântico de amor à sua vinha que nos conta Isaías ou na parábola dos vinhateiros narrada por Jesus, contemplamos o amor que se faz cuidado, desvelo e atenção e uma resposta estéril, marcada pela ingratidão e falta de acolhimento.

A imagem da vinha remete-nos para o terreno exigente e difícil onde o agricultor investe o seu trabalho, cuidado e suor. Deus ama-nos e cuida de nós como um proprietário cuida da sua vinha: lavra o terreno, limpa as pedras, planta cepas escolhidas, ergue uma torre e escava um lagar.

«A vinha do Senhor é a casa de Israel». Nós somos a vinha amada e cuidada pelo Senhor. Somos obra das Suas mãos. Somos terrenos fértil, lavrado pelas Suas mãos de oleiro. Somos terreno saxoso que Deus quer limpar para que o nosso coração empedernido possa frutificar. Somos cepas escolhidas e ungidas pelo Seu amor. Somos chamados a ser sentinelas vigilantes que no lagar da vida se purificam e oferecem para que o vinho da alegria possa inebriar o coração de cada homem e de cada mulher.

Contudo, quantas vezes produzimos agraços e não somos merecedores de todo este desvelo e cuidado. Quantas vezes não acolhemos os sinais enviados pelo Pai, nem tampouco o sinal maior do Seu amor revelado em Jesus Cristo. Como nos recorda a carta aos Hebreus «muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais» (Heb 1,1). Falou e continua a falar-nos. Criou-nos e por amor continua a acompanhar-nos e a recriar-nos com a força transformadora do Seu amor.

Deus não se cansa de nos amar e perdoar, mesmo que tantas vezes este amor não seja correspondido. Na nossa lógica humana retributiva e necessitada de reciprocidade, já teríamos desistido de amar quem parece não corresponder a tanto amor dispensado.

A nossa resposta será sempre insuficiente diante do imenso amor que Deus tem por cada um de nós. Todavia, as nossas fragilidades e limites não podem ser uma desculpa para a nossa inoperatividade e esterilidade. Pequenos e pecadores, amados por Deus, somos chamados a abrir o nosso coração à força transformadora da conversão que nos estimula a percorrer com alegria e entusiasmo a estrada da santidade e nos convida a ler a nossa história como uma história de salvação.

Como vinha amada e acarinhada por Deus, somos chamados a fazer das nossas vidas lugares que frutificam para que no mundo ecoe a mais bela melodia do amor e mesmo nos momentos de dificuldade e exigência, levantemos o nosso olhar para o céu e, tal como nos desafia S. Paulo: «apresentai os vossos pedidos diante de Deus, com orações, súplicas e ações de graças». in Voz Portucalense

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Na quarta-feira, 4 de outubro, às 09h00, no exterior da Basílica de São Pedro, o Santo Padre presidirá a Celebração Eucarística com os novos Cardeais e o Colégio Cardinalício, também por ocasião da abertura da assembleia geral ordinária dos o Sínodo dos Bispos.

Concelebram com o Santo Padre:

– Os Cardeais recém-criados, que estarão em traje coral, às 8h15, na Capela Gregoriana;

– O Colégio dos Cardeais e dos Patriarcas, que estará na Capela de São Sebastião pelas 8h15, trazendo consigo a mitra adamascada branca;

– Os Arcebispos, Bispos e Presbíteros, membros do Sínodo, munidos de bilhete especial, que estarão no Braço de Constantino pelas 8h00, trazendo consigo: os Arcebispos e Bispos amice, alva, cinto e mitra branca, os presbíteros amito, camisa e cinto;

– Os demais Arcebispos e Bispos, munidos de bilhete especial, emitido pelo Escritório de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice através do procedimento indicado no site https://biglietti.liturgiepontificie.va/, no Braccio di Costantino pelas 8h00, trazendo consigo amito, alva, cinto e mitra branca;

– Os Sacerdotes, munidos de bilhete especial, emitido pelo Escritório de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice através do procedimento indicado no site https://biglietti.liturgiepontificie.va/, às 8h diretamente no setor reservado para eles na Praça São Pedro, onde usarão amito, alva, cinto e estola branca que terão trazido consigo.

Os Patriarcas, Cardeais, Arcebispos e Bispos e todos aqueles que, de acordo com o Motu Proprio «Pontificalis Domus» compõem a Capela Pontifícia e munidos da Notificação solicitada através do endereço eletrônico: celebrazioni@celebra.va, desejam participar da celebração litúrgica sem concelebrar, com traje próprio de coro, são convidados a estar no exterior Basílica de São Pedro às 8h30. in vatican news

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                             

LEITURA I – Is 5,1-7
«A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel, e os homens de Judá são a plantação escolhida».

Ambiente
Isaías, filho de Amós, exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo relativamente longo e abrange vários reinados.

Isaías – como os outros profetas – não fala de realidades abstratas e intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado por Deus a pronunciar-se.

A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam (740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das superpotências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.

No entanto, o olhar crítico do profeta deteta uma realidade distinta. Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedades… Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.

Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e de “comprar” Deus.
Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a “vinha” cuidada por Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor) pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.

A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.

O “cântico da vinha” poderia ser, inicialmente, um “cântico de vindima” ou um “cântico de trabalho”, que um poeta popular entoa diante do seu círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um duplo sentido e passam a evocar outra realidade.

Na cultura judaica, a “vinha” é um símbolo do amor (cf. Cant 1,6.14; 2,15; 8,12). O “cântico da vinha” passa então a ser, na boca do poeta popular, uma “cantiga de amor”, que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada.

Isaías vai utilizar esta “cantiga de amor” como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes dados:
A “parábola da vinha” é uma história de amor. Fala-nos do amor de um Deus que liberta o seu Povo da escravidão, que o conduz para a liberdade, que estabelece com ele laços de família, que lhe oferece indicações seguras para caminhar em direção à justiça, à harmonia, à felicidade, que o protege nos caminhos da história… É preciso termos consciência de que esta história de amor não terminou e que o mesmo Deus continua a derramar sobre nós, todos os dias, o seu amor, a sua bondade, a sua misericórdia. Tenho consciência desse facto? Tenho o coração aberto aos seus dons? Encontro tempo e disponibilidade para Lhe agradecer e para O louvar?

O encontro com o amor de Deus tem de significar uma efetiva transformação do nosso coração e tem de nos levar ao amor ao irmão. Quem trata os irmãos com arrogância, quem assume atitudes duras, agressivas e intolerantes, quem pratica a injustiça e espezinha os direitos dos mais débeis, quem é insensível aos dramas dos irmãos, certamente ainda não fez a experiência do amor de Deus. Às vezes encontramos nas nossas comunidades cristãs ou religiosas pessoas muito válidas do ponto de vista da organização e da animação, que se consideram a si próprias colunas da comunidade, que têm uma fé inabalável, mas que são insensíveis, amargas, agressivas, intolerantes… Será possível ser sinal de Deus e testemunhar o Deus que ama os homens, sem nos deixarmos conduzir pela tolerância, pela misericórdia, pela bondade, pela compreensão?

O nosso texto identifica os “frutos bons” que Deus espera da sua “vinha” com o direito e a justiça e afirma que Deus não tolera uma “vinha” que produza “sangue derramado” e “gritos de horror”. Nos nossos dias, o “sangue derramado” das vítimas da violência, do terrorismo, das guerras religiosas, dos sistemas que geram morte e sofrimento continua a tingir a nossa história; os “gritos de horror” de tantos homens e mulheres privados dos direitos mais elementares, torturados, marginalizados, excluídos, impedidos de ter acesso a uma vida minimamente humana, continuam a escutar-se na Europa, na Ásia, na África, nas Américas… Qual o nosso papel, no meio de tudo isto? Podemos calar-nos, num silêncio cúmplice e alienado, diante do drama de tantos irmãos condenados à morte? O que podemos fazer para que a “vinha” de Deus produza outros frutos? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

LEITURA II – Filip 4,6-9
«O que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim é o que deveis praticar».

Ambiente
            Continuamos a ler a carta enviada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Quando escreve aos seus amigos filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva. Entretanto, recebeu ajuda dos filipenses (uma soma em dinheiro e a visita de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado pelos filipenses de cuidar de Paulo e de prover às suas necessidades) e está sensibilizado pela bondade e pela preocupação que os filipenses manifestam para com a sua pessoa.
A Carta aos Filipenses é, sobretudo, uma carta dirigida a amigos muito queridos, na qual Paulo manifesta o seu apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Enviando de volta Epafrodito – que estivera gravemente doente – Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho.

O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho. in Dehonianos.

Considerar na reflexão e atualização, as seguintes linhas:

As palavras de Paulo aos filipenses definem alguns dos elementos concretos que devem marcar a caminhada do Povo de Deus. Em primeiro lugar, Paulo convida os crentes a não viverem inquietos e preocupados. Os cristãos estão “enxertados” em Cristo e têm a garantia de com Ele ressuscitar para a vida definitiva. Eles sabem que as dificuldades, os dramas, as perseguições, as incompreensões são apenas acidentes de percurso, que não conseguirão arredá-los da vida verdadeira. Os cristãos não são pessoas fracassadas, alienadas, falhadas, mas pessoas com um objetivo final bem definido e bem sugestivo. O caminho de Cristo é um caminho de dom e de entrega da vida; mas não é um caminho de tristeza e de frustração. Porquê, então, a tristeza, a inquietação, o desânimo com que, tantas vezes, enfrentamos as vicissitudes e as dificuldades da nossa caminhada? Porque é que, tantas vezes, saímos das nossas celebrações eucarísticas cabisbaixos, intranquilos, de semblantes tristonhos e ar irritado? Os irmãos que nos rodeiam e que nos olham nos olhos recebem de nós um testemunho de paz, de serenidade, de tranquilidade?

Em segundo lugar, Paulo convida os crentes a terem em conta, na sua vida, esses valores humanos que todos os homens apreciam e amam: a verdade, a justiça, a honradez, a amabilidade, a tolerância, a integridade… Um cristão tem de ser, antes de mais, uma pessoa íntegra, verdadeira, leal, honesta, responsável, coerente. Ouvimos, algumas vezes, dizer que “os que vão à igreja são piores do que os outros”. Em parte, a expressão serve, sobretudo, a muitos dos chamados “cristãos não praticantes” para justificar o facto de não irem à igreja; mas não traduzirá, algumas vezes, o mau testemunho que alguns cristãos dão quanto à vivência dos valores humanos? Quem contacta as receções das nossas igrejas, encontra sempre simpatia, compreensão, amabilidade, verdade, coerência?

A forma como Paulo propõe aos seus cristãos os mesmos valores que constavam das listas de valores dos moralistas gregos da sua época, deve convidar-nos a refletir sobre a nossa relação com os valores do mundo que nos rodeia e sobre a forma como os aceitamos e integramos na nossa vida. Não podemos esconder-nos atrás da nossa muralha fortificada e rejeitar, em bloco, tudo aquilo que o mundo de hoje nos proporciona, como se fosse algo de mau e pecaminoso. O mundo em que vivemos tem valores muito bonitos e sugestivos, que nos ajudam a crescer de uma forma sã e equilibrada e a integrar uma realidade rica em desafios e esperanças. O que é necessário é saber discernir, de entre todos os valores que o mundo nos apresenta, aquilo que nos torna mais livres e mais felizes e aquilo que nos torna mais escravos e infelizes, aquilo que não belisca a nossa fé e aquilo que ameaça a essência do Evangelho… in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 21,33-43
«Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre; depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe».
«A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos».

Ambiente

Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade (cf. Mt 21,1-11). De hora para hora, cresce a tensão entre Jesus e os seus adversários. Os líderes judaicos pressionam Jesus, num esquema que apresenta foros de processo organizado. Adivinha-se, no horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.

O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. O nosso texto é a segunda dessas três parábolas.

A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação socioeconómica da Galileia do tempo de Jesus… A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas. Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a si e à sua família. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta… Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.

É neste cenário que Jesus vai colocar a parábola que hoje nos apresenta. in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:
O problema fundamental posto por este texto é o da coerência com que vivemos o nosso compromisso com Deus e com o Reino. Deus não obriga ninguém a aceitar a sua proposta de salvação e a envolver-se com o Reino; mas uma vez que aceitamos trabalhar na sua “vinha”, temos de produzir frutos de amor, de serviço, de doação, de justiça, de paz, de tolerância, de partilha… O nosso Deus não está disposto a pactuar com situações dúbias, descaracterizadas, amorfas, incoerentes, mentirosas; mas exige coerência, verdade e compromisso. A parábola convida-nos, antes de mais, a não nos deixarmos cair em esquemas de comodismo, de instalação, de facilidade, de “deixa andar”, mas a levarmos a sério o nosso compromisso com Deus e com o Reino e a darmos frutos consequentes. O meu compromisso com o Reino é sincero e empenhado? Quais são os frutos que eu produzo? Quando se trata de fazer opções, ganha o meu comodismo e instalação, ou a minha vontade de servir a construção do Reino?

O que é que é decisivo para definir a pertença de alguém ao Reino? É ter uma “tradição familiar” cristã? É o ter entrado, por um ato formal (Batismo) na Igreja? É o ter feito votos de pobreza, castidade e obediência numa determinada congregação religiosa? É o cumprir determinados atos de piedade? É o participar nos ritos? Nada disso é decisivo. O que é decisivo é o “produzir frutos” de amor e de justiça, que pomos ao serviço de Deus e dos nossos irmãos. Como é que eu entendo e vivo a minha caminhada de fé?

A parábola fala de trabalhadores da “vinha” de Deus que rejeitam o “filho” de forma absoluta e radical. É provável que nenhum de nós, por um ato de vontade consciente, se coloque numa atitude semelhante e rejeite Jesus. No entanto, prescindir dos valores de Jesus e deixar que sejam o egoísmo, o comodismo, o orgulho, a arrogância, o dinheiro, o poder, a fama, a condicionar as nossas opções é, na mesma, rejeitar Jesus, colocá-l’O à margem da nossa existência. Como é que, no dia a dia, acolhemos e inserimos na nossa vida os valores de Jesus? As propostas de Jesus são, para nós, valores consistentes, que procuramos integrar na nossa existência e que servem de alicerce à construção da nossa vida, ou são valores dos quais nos descartamos com facilidade, sob pressão de interesses egoístas e comodistas?

As nossas comunidades cristãs e religiosas são constituídas por homens e mulheres que se comprometeram com o Reino e que trabalham na “vinha” do Senhor. Deviam, portanto, produzir frutos bons e testemunhar diante do mundo, em gestos de amor, de acolhimento, de compreensão, de misericórdia, de partilha, de serviço, a realidade do Reino que Jesus Cristo veio propor. É isso que acontece, ou limitamo-nos a ter muitos grupos paroquiais, a preparar organigramas impressionantes da dinâmica comunitária, a construir espaços físicos amplos e confortáveis, a recitar a liturgia das horas, a produzir liturgias solenes, faustosas, imponentes… e completamente desligadas da vida? in Dehonianos.

Para os leitores:
A primeira leitura abre com uma mensagem de amor e esperança, mas as expectativas são defraudadas. A proclamação desta leitura deve ter em conta esta variedade de sentimentos, com uma especial atenção para as frases interrogativas. Pronunciar as frases interrogativas evitando a tentação de acentuar apenas a palavra final e dando ênfase nas partículas interrogativas.

A segunda leitura é marcada por um forte tom exortativo, sublinhado pelos diferentes verbos no modo imperativo. Pede-se especial atenção ao parágrafo onde se repete a expressão «tudo o que é» para que toda a mensagem seja bem compreendida e se tire partido da força semântica da repetição.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

PELOS SEUS FRUTOS OS CONHECEREIS
O soberbo cântico de Isaías 5,1-7 dá o tom e o aroma da vinha e do amor a este Domingo XXVII do Tempo Comum. O Senhor da vinha e do amor, que é Deus, tratou com infinito desvelo a sua vinha, que é o seu povo, o povo de Israel e de Judá, e somos nós, como se pode ver neste belo «cântico da vinha» de Isaías 5,7: plantou-a numa colina solarenga com castas selecionadas, cavou-a, limpou-a, amou-a, fê-la crescer ao ritmo de música de embalar. Todavia, a vinha assim amada e acariciada produziu agraços, em vez de uvas doces e saborosas. O Cântico di-lo numa extraordinária aliteração hebraica: «Deus esperava mishpath [= retidão],/ e eis mispah [= sangue derramado];/ tsedaqah [= justiça],/ e eis tseʽaqah [= gritos de socorro]» (Isaías 5,7). Depois de uma lírica serena e tranquila, eis-nos agora perante o lamento de um camponês desiludido, de um amante traído, de um amor dorido, não correspondido.

O mesmo canto, ao mesmo tempo dorido e belo, atravessa o Salmo 80,9-17, que canta a videira, e conta a história da videira, que simboliza Israel. Contando a história desta videira, o poeta está, na verdade, a fazer uma autobiografia de Israel. Estava plantada no Egito, de onde Deus a arrancou para a transplantar para outra terra (v. 9). Aí lançou raízes, cresceu e atingiu tais dimensões que a sua folhagem verde cobria todo o mapa de Israel (v. 11 e 12). Mas também aí conheceu o abandono e foi devastada pelo javali, símbolo de impureza pela sua semelhança com o porco. Se, em Isaías 5,1-7, era Deus que se queixava da sua vinha que já não respondia ao amor primeiro de Deus, agora é a vinha que se sente abandonada, e chora o estado de desolação em que se encontra, mas entrecorta o seu lamento com um belo refrão, pedindo a Deus que se levante e volte atrás, que lhe faça graça e a salve (v. 4.8.15.20).

O Evangelho deste Domingo XXVII é retirado de Mateus 21,33-43, e começa por descrever os gestos de amor embevecido de DEUS pela sua vinha, seguindo de perto o cântico da vinha, de Isaías 5,1-7. Mas depois continua de forma incisiva, introduzindo novas personagens: os VINHATEIROS violentos e assassinos são os chefes religiosos e civis (chefes dos sacerdotes e anciãos do povo, ou chefes dos sacerdotes e fariseus), dado que estas parábolas são dirigidas a eles (Mateus 21,23), e são eles que, no final, reagem (Mateus 21,45-46). Os SERVOS sucessivamente enviados por DEUS e maltratados pelos homens são os profetas, todos assassinados, segundo o módulo narrativo mais breve de toda a Escritura (Lucas 11,50-51; cf. Mateus 23,34-35). O FILHO, que é o último enviado, e que é igualmente morto pelos VINHATEIROS, salta à vista que é JESUS, prolepse do que está para acontecer.

Os VINHATEIROS são, neste ponto da parábola, apanhados na pergunta sem saída de JESUS: «Quando vier o dono da vinha, que fará com esses VINHATEIROS?» (Mateus 21,40). Eles respondem fácil e direto, ao jeito de David, quando ouve a história da ovelhinha do pobre, roubada e comida à mesa do rico (2 Samuel 12,5-6): «Mandará matar sem piedade esses malvados, e arrendará a vinha a OUTROS VINHATEIROS, que lhe entreguem os frutos a seu tempo» (Mateus 21,41).

E Jesus remata com uma citação do Salmo 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular» (Mateus 21,42). E ainda: «O Reino de Deus ser-VOS-á tirado, e confiado a UM POVO que produza os seus frutos» (Mateus 21,43). Nesta altura, diz-nos o narrador, que «os chefes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas parábolas, perceberam que JESUS se referia a eles, e procuravam prendê-lo…» (Mateus 21,45-46).

Claramente, os chefes dos sacerdotes e os fariseus são alinhados ao lado dos VINHATEIROS violentos e assassinos, mas já surge no horizonte OUTRO POVO e OUTROS VINHATEIROS, à imagem do último Profeta e dele verdadeira transparência. Não nos esqueçamos de que é este o nosso retrato. Saibamos fazê-lo frutificar.

Esta Parábola faz passar diante de nós a inteira história da salvação, mostra-nos o amor permanente e persistente de Deus, e faz-nos ver também a qualidade do amor da resposta que somos hoje chamados a dar.

  1. E somos seguramente chamados a tornar a vinha de Deus uma maravilha deliciosa e apetitosa, jovem, leve e bela. Mais ou menos como canta um apócrifo de origem judeo-cristã, de finais do séc. I ou princípios do II d. C., o Apocalipse Siríaco de Baruc: «A terra dará fruto, dez mil por um. Cada videira terá mil ramos, cada ramo mil cachos, cada cacho mil bagos, cada bago centenas de litros de vinho!».

Outra vez Paulo e as palavras de antologia que nos dirige na Carta aos Filipenses 4,6-9, que hoje temos a graça de escutar: «Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento» (Filipenses 4,8). E coloca-se como modelo a imitar: «O que aprendestes, recebestes e vistes em mim, isso fazei» (Filipenses 4,9). Já se sabe que por detrás de Paulo está Cristo, que é a sua vida (cf. 1 Coríntios 11,1).

António Couto

ANEXOS:

        1. Leitura I do Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A – 08.10.2023 (Is 5, 1-7)
        2. Leitura II do Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A – 08.10.2023 (Filip 4, 6-9)
        3. Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A – 08.10.2023 – Lecionário
        4. Domingo XXVII do Tempo Comum – Ano A – 08.10.2023 – Oração Universal
        5. PLANO DIOCESANO DE PASTORAL 2023-2024

28«Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha.’ 29Mas ele respondeu: ‘Não quero.’ Mais tarde, porém, arrependeu-se e foi. 30Dirigindo-se ao segundo, falou-lhe do mesmo modo e ele respondeu: ‘Vou sim, senhor.’ Mas não foi. 31Qual dos dois fez a vontade ao pai?» Responderam eles: «O primeiro.» Mt 21, 28-31

Viver a Palavra

«Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio».

Em Jesus Cristo, Deus revela o dinamismo da salvação e manifesta plena e definitivamente que o nosso Deus não é indiferente às nossas dores e angústias, alegrias e esperanças, mas veio ao nosso encontro, assumindo uma carne igual à nossa. Por meio de «palavras e obras intimamente relacionadas entre si» (DV 2), o Verbo Encarnado revelou que o nosso Deus não é um ente divino acomodado às moradas eternas, mas o Deus Trindade que se manifesta e revela no nosso tempo e na nossa história, para que cada tempo e cada história possa ser um tempo e um lugar favorável para a conversão e o arrependimento.

Jesus, interpelando os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, interpela-nos também a cada um de nós hoje: «Que vos parece?». Nós que, tal como os interlocutores de Jesus nesta parábola, temos sempre tantas opiniões e considerações para dar, o que nos apraz dizer diante desta parábola? Jesus narra esta parábola, incluindo na narrativa os Seus interlocutores. Na verdade, eles aparecem no Evangelho de Mateus como aqueles que «dizem, mas não fazem» (Mt 23,3).

Dizer e fazer, acreditar e viver, são binómios fundamentais no nosso itinerário crente que estarão sujeitos a uma tensão permanente. O nosso pecado e a nossa fragilidade impedem a total coincidência entre o dizer e o fazer, entre o acreditar e o viver. Contudo, esta tensão permanente não deve ser fonte de desistência, nem de desgaste, mas o apelo constante ao arrependimento e à conversão.

«Um homem tinha dois filhos» e dirige-se aos dois do mesmo modo, convocando-os para a sua vinha. Este pai carinhosamente dirige-se aos seus filhos e convoca-os para a missão. Convoca do mesmo modo, na esperança de contar com eles para a colheita abundante do vinho novo que alegra o coração do homem (Sl 104,15). Diante desta proposta de amor livre e libertadora, cada filho respondeu a seu modo e não agiu em conformidade.

Como filhos muito amados, também nós somos convocados para a missão e chamados a fazer frutificar a vinha do Senhor. Contudo, bem sabemos que muitas vezes, cheios de boas intenções, com entusiasmo e generosidade, respondemos um SIM pronto e disponível, mas na hora decisiva da ação nos retraímos. Por outro lado, outras vezes, ainda que tenhamos resistido à convocatória, na hora de colocar os pés ao caminho, avançamos decididamente. O nosso coração não é um permanente sim ou não à vontade do Pai, mas um lugar de tensão permanente que reclama coerência, reconhece as fragilidades e confia na misericórdia infinita de Deus, para quem não há caminhos sem saída nem opções sem retorno.

Sentimos a falta de um terceiro filho nesta parábola! Um filho que diga «sim» prontamente e avance sem ociosidade. Contudo, reconhecendo a nossa pequenez e limite, não nos podemos oferecer para ser esse filho, pois sabemos que dias haverá em que mesmo tendo dito «sim» não desceremos à vinha para o trabalho. Somos pecadores, mas de olhos postos «nos publicanos e mulheres de má vida» que escutaram a pregação de João e se converteram, reconhecemos que o nosso pecado não é um caminho sem saída, nem um impedimento à salvação. O reconhecimento do nosso pecado abre o nosso coração à conversão e faz das nossas vidas lugares de anúncio da alegria da vida reencontrada, do amor que gera perdão e aponta o caminho da salvação. in Voz Portucalense

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No dia 1 de outubro de 2023, XXVI Domingo do Tempo Comum, tem início a Semana Nacional da Educação Cristã que decorre até dia 8 de outubro. A Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé publica, em cada ano, uma nota pastoral para a vivência desta semana. Aguardando a publicação da respetiva nota, cada comunidade cristã é chamada a assinalar esta data, sobretudo, convocando alguma atividade, que envolva os educadores cristãos, chamados a ser verdadeiros mestres, pelo anúncio coerente e credível do evangelho de Jesus Cristo. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                             

LEITURA I – Ez 18,25-28

«Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida».

Ambiente

Ezequiel, o “profeta da esperança”, exerceu o seu ministério na Babilónia no meio dos exilados judeus. O profeta fez parte dessa primeira leva de exilados que, em 597 a.C., Nabucodonosor deportou para a Babilónia.
A primeira fase do ministério de Ezequiel decorreu entre 593 a.C. (data do seu chamamento à vocação profética) e 586 a.C. (data em que Jerusalém foi conquistada uma segunda vez pelos exércitos de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados foi encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, o profeta preocupou-se em destruir as falsas esperanças dos exilados (convencidos de que o exílio terminaria em breve e que iam poder regressar rapidamente à sua terra) e em denunciar a multiplicação das infidelidades a Jahwéh por parte desses membros do Povo judeu que escaparam ao primeiro exílio e que ficaram em Jerusalém.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrolou-se a partir de 586 a.C. e prolongou-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de Templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estavam desiludidos e duvidavam de Jahwéh e do compromisso que Deus tinha assumido com o seu Povo. Nessa fase, Ezequiel procurou alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador não tinha abandonado nem esquecido o seu Povo.

Até esta altura, Israel refletia a sua relação com Deus em termos coletivos e não em termos individuais. A catequese de Israel considerava que a Aliança tinha sido feita, não com cada israelita individualmente, mas com toda a comunidade. Assim, as infidelidades de uns (inclusive dos antepassados) traziam sofrimento e morte a toda a comunidade; e a fidelidade de outros (inclusive dos antepassados) era fonte de vida e de bênção para todos.

Os exilados liam à luz desta perspetiva teológica o drama que tinha caído sobre eles. Consideravam que eram justos e bons, que não tinham pecado e que estavam ali a expiar os pecados de toda a nação. Havia até um refrão muito repetido por esta altura: “os pais comeram as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados” (Ez 18,2b). Parece ser uma reprovação velada à ação de Deus que, na perspetiva da teologia da época, fez dos exilados o bode expiatório de todas as infidelidades da nação. É justo, isto? Está certo que os justos paguem. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

Antes de mais, a leitura convida-nos a tomar consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. No nosso tempo – no tempo da cultura do plástico, do “light”, do efémero – há alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: “o que é verdade hoje, é mentira amanhã”). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com Deus no dia do meu Batismo e que ao longo da vida, nas mais diversas circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja ou de cumprir a tradição e batizar os filhos?

O profeta Ezequiel convida-nos também a assumir, com verdade e coerência, a nossa responsabilidade pelos nossos gestos de egoísmo e de autossuficiência em relação a Deus e em relação aos irmãos. Entre nós, no entanto, muitas vezes “a culpa morre solteira”. Há homens e mulheres que não têm o mínimo para viver dignamente? A culpa é da conjuntura económica internacional…. Há situações de violência extrema e de injustiça? A culpa é do governo que não legisla nem coloca suficientes polícias nas ruas… A minha comunidade cristã está dividida, estagnada e não testemunha suficientemente o amor de Jesus? A culpa é do Papa, ou do bispo, ou do padre… E a minha culpa? Eu não terei, muitas vezes, a minha quota-parte de responsabilidades em tantas situações negativas com que, dia a dia, convivo pacificamente? Eu não precisarei de me “converter”? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 24 (25)

Refrão: Lembrai-Vos, Senhor, da vossa misericórdia.

LEITURA II – Filip 2,1-11

«Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus».

Ambiente

Filipos, cidade situada no norte da Grécia, era uma cidade habitada maioritariamente por veteranos romanos do exército. Estava organizada à maneira de Roma e era uma espécie de Roma em miniatura. Os seus habitantes gozavam dos mesmos privilégios dos habitantes das cidades de Itália.

A comunidade cristã de Filipos foi fundada por Paulo no verão de 49, no decurso da sua segunda viagem missionária. Numa das estadias de Paulo na prisão (em Éfeso?), a comunidade enviou um dos seus membros para o ajudar e uma generosa quantia em dinheiro para prover às necessidades do apóstolo.
Apesar de ser uma comunidade viva, piedosa e generosa, a comunidade cristã de Filipos não era uma comunidade perfeita. O desprendimento, a humildade, a simplicidade, não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios romanos que compunham a comunidade.

É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Trata-se de um texto que, em termos literários, apresenta duas partes. A primeira (vers. 1-5), em prosa, contém recomendações concretas de Paulo aos Filipenses acerca dos valores que devem cultivar. A segunda (vers. 6-11), em poesia, apresenta aos Filipenses o exemplo de Cristo (trata-se, provavelmente, de um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs e que Paulo integrou no texto da carta).in Dehonianos.

Para reflexão, podem considerar-se as seguintes indicações:

Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com autossuficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus? in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 21,28-32

«Que vos parece?».

«Qual dos dois fez a vontade ao pai?».

«Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus».

Ambiente

O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos em Jerusalém, na etapa final da caminhada terrena de Jesus. Pouco antes, Jesus entrara em Jerusalém e fora recebido em triunfo pela multidão (cf. Mt 21,1-11); no entanto, o entusiasmo inicial da cidade foi sendo substituído, aos poucos, por uma recusa categórica em acolher Jesus e o seu projeto

Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo – os líderes religiosos judaicos – aparecem como o motor da oposição a Jesus. Eles não estão dispostos a reconhecer Jesus como o Messias de Deus e a aceitar que Ele tenha um mandato de Deus para propor aos homens uma nova realidade – a realidade do Reino. Há uma tensão no ar, que anuncia a proximidade da paixão e da morte de Jesus.

No quadro que antecede o episódio que nos é hoje proposto – mas que está em relação direta com ele-os líderes judeus encontraram-se com Jesus no Templo; perguntaram-Lhe com que autoridade Ele agia e quais eram as suas credenciais (cf. Mt 21,23-27). Jesus respondeu-lhes convidando-os a pronunciarem-se sobre a origem do batismo de João. Os líderes judaicos não quiseram responder: se dissessem que João Baptista não vinha de Deus, tinham medo da reação da multidão (que considerava João um profeta); se admitissem que o batismo de João vinha de Deus, temiam que Jesus lhes perguntasse porque não o aceitaram… Diante do silêncio embaraçado dos seus interlocutores, Jesus deu-lhes a entender que não tinha uma resposta para lhes dar, enquanto eles continuassem de coração fechado, na recusa obstinada da novidade de Deus (anunciada por João e proposta pelo próprio Jesus).

Na sequência, Jesus vai apresentar três parábolas, destinadas a ilustrar a recusa de Israel em acolher a proposta do Reino. Com elas, Jesus convida os líderes da nação judaica a refletir sobre a situação de “gueto” em que se instalaram e a reconhecerem o sem sentido das suas posições fixistas e conservadoras. O nosso texto é a primeira dessas três parábolas. in Dehonianos.

Para a reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

Antes de mais, a parábola dos dois filhos chamados para trabalhar “na vinha” do pai sugere que, na perspetiva de Deus, todos os seus filhos são iguais e têm a mesma responsabilidade na construção do Reino. Deus tem um projeto para o mundo e quer ver todos os seus filhos – sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, de formação intelectual – implicados na concretização desse projeto. Ninguém está dispensado de colaborar com Deus na construção de um mundo mais humano, mais justo, mais verdadeiro, mais fraterno. Tenho consciência de que também eu sou chamado a trabalhar na vinha de Deus?

Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta… Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a autossuficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito “sim” a Deus e tenham sido batizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel ativo no projeto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?

O que é que significa, exatamente, dizer “sim” a Deus? É ser batizado ou crismado? É casar na igreja? É fazer parte de uma confraria qualquer da paróquia? É fazer parte da equipa que gere a Fábrica da Igreja? É ter feito votos num qualquer instituto religioso? É ir todos os dias à missa e rezar diariamente a Liturgia das Horas? Atenção: na parábola apresentada por Jesus, não chega dizer um “sim” inicial a Deus; mas é preciso que esse “sim” inicial se confirme, depois, num verdadeiro empenho na “vinha” do Senhor. Ou seja: não bastam palavras e declarações de boas intenções; é preciso viver, dia a dia, os valores do Evangelho, seguir Jesus nesse caminho de amor e de entrega que Ele percorreu, construir, com gestos concretos, um mundo de justiça, de bondade, de solidariedade, de perdão, de paz. Como me situo face a isto: sou um cristão “de registo”, que tem o nome nos livros da paróquia, ou sou um cristão “de facto”, que dia a dia procura acolher a novidade de Deus, perceber os seus desafios, responder aos seus apelos e colaborar com Ele na construção de uma nova terra, de justiça, de paz, de fraternidade, de felicidade para todos os homens?

Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento “religiosamente correto” ou que não cumprem estritamente as regras do “bom comportamento” cristão… Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar… Na perspetiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar “na vinha”. A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos “santos” príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: “os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus”. Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os “vós”? Hoje, quem são os “publicanos e mulheres de má vida”? in Dehonianos.

Para os leitores:

Na primeira leitura, pede-se especial atenção nas duas frases interrogativas presentes no texto.

A segunda leitura possui uma forma longa e uma forma breve. A escolha do texto a ser proclamado deve ser feita tendo em conta a assembleia e a dinâmica de toda a celebração. A proclamação de qualquer uma destas formas requer uma acurada e atenta preparação devido às frases longas com diversas orações

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

CHAMADOS A MUDAR TANTO COMO MATEUS!

Mais uma parábola de Jesus, dita aos «chefes dos sacerdotes» e aos «anciãos» do povo, no seguimento de Mateus 21,23. São eles, os bem colocados na religião e na vida pública, que são interpelados por Jesus: «Que vos parece?» (Mateus 21,28); «Qual dos dois fez a vontade do Pai?» (Mateus 21,31). No final de duas parábolas em que a temática é a «vinha» (Mateus 21,28-46), são os «chefes dos sacerdotes» e os «fariseus» que reagem às interpelações de Jesus (Mateus 21,45-46).

Os fariseus aparecem no Evangelho de Mateus como aqueles que «dizem, mas não fazem» (Mateus 23,3). E «fazer», em oposição a dizer, é um tema fundamental neste Evangelho, assim expresso por Jesus no Discurso programático da Montanha: «Não todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus» (Mateus 7,21).

Mais ainda: neste Evangelho de Mateus, o verdadeiro «fazer» traduz-se em «fazer fruto», como consequência da conversão ou mudança operada na nossa vida. Como é importante, a ideia é recorrente neste Evangelho: veja-se Mateus 3,8; 7,16-20; 12,33; 13,8; 21,41.43; 25,40.45.

Mas também a «justiça» é um termo recorrente em Mateus. E «justiça», no Evangelho de Mateus, indica o desígnio divino de salvação e a nossa obediência a esse desígnio. Dada a sua importância, esta nota da «justiça» faz-se ouvir por sete vezes neste Evangelho: veja-se Mateus 3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32.

Posto isto, é agora mais fácil deixar entrar em nós a força da parábola de Jesus, contada a gente habituada apenas a dizer, dizer, dizer… O homem e pai, na parábola, é Deus. A vinha é dele, mas é também nossa. Nunca se fala, no corpo desta parábola, da «minha» vinha. A vinha é, portanto, campo aberto de alegria e de liberdade, onde todos os filhos de Deus podem encontrar um novo espaço relacional, porventura ainda inédito, de filialidade e fraternidade.

É dito que este Pai tem dois filhos, que são todos os seus filhos, nas suas semelhanças e diferenças. Somos todos nós, nas nossas semelhanças e diferenças. Ao primeiro, o Pai diz: «Filho, vai hoje trabalhar na vinha» (Mateus 21,28). Note-se o termo carinhoso «filho», o imperativo da liberdade «vai», que nos coloca na estrada de Abraão, o «hoje», que requer resposta pronta e inadiável, e a «vinha», símbolo da festa e da alegria. Note-se ainda a resposta tresloucada deste «filho»: «Não quero» (Mateus 21,29a), e a emenda: «mas, depois, arrependeu-se e foi» (Mateus 21,29b). Note-se também a resposta do segundo filho, depois de ter ouvido o mesmo convite do seu Pai: «Eu vou, Senhor» (Mateus 21,30a), e a constatação do narrador de que, de facto, não foi (Mateus 21,30b).

Como se vê, todos os filhos de Deus-Pai ouvem o mesmo convite e veem a mesma atitude de carinho. Respondem que não ou que sim, e ambos mudam! O que disse que não, de facto, vai HOJE fazer a vontade do PAI; o que disse que sim, ficou apenas em palavras, apenas mudando o sim em não.

Os interpelados por Jesus (chefes dos sacerdotes e anciãos), os que só dizem, dizem, dizem, têm de reconhecer que não é o que se DIZ, mas o que se FAZ, o que verdadeiramente conta. E ainda têm de reconhecer que João Batista bem que os tinha chamado à conversão (mudança de vida e atitude) para fazerem frutos de justiça (Mateus 3,8; 21,32) e obedecerem ao desígnio de Deus, mas nem por isso lhe deram qualquer atenção (Mateus 21,32). Entenda-se: o que fez João Batista é o que Jesus faz agora, e tão-pouco lhe prestam atenção, convertendo-se ou mudando de vida e de atitudes.

É aqui que são chamados a fazer contraponto os publicanos e as prostitutas. Estes ouviram João e ouvem agora Jesus, e estão a mudar a sua vida (Mateus 21,31-32)! Note-se sempre que nem isto podemos desmentir, pois o Autor destas páginas deslumbrantes que estamos a folhear, Mateus, era um publicano. E mudou tanto, que agora é um Apóstolo e Evangelista! E nós?

Ezequiel levanta a sua voz para nos dizer que o pecador salvará a sua vida se abrir os olhos do coração e se afastar do mal, e começar a trilhar os caminhos do direito e da justiça (Ezequiel 18,25-28). Portanto, está sempre aberta a porta que conduz à vida. Não, porém, à custa de Deus, querendo fazer vingar os nossos direitos sobre Ele, para que Ele dê razão aos nossos caprichos, mas dando-lhe o lugar que sempre lhe compete, o primeiro, e convertendo-nos nós aos seus desígnios, isto é, respondendo-lhe nos passos concretos e quotidianos da nossa vida dele por graça recebida.

  1. Paulo coloca diante de nós, para imitar, o exemplo de Jesus Cristo, que desceu ao nosso nível, para nos servir com doçura e humildade (Filipenses 2,1-11). É nele e dele, desde a fundura das entranhas das misericórdias e a transbordar de amor, que devemos viver, unidos e não desavindos, na comunhão do Espírito que opera união e não divisão. Vê-se nascer assim, não obstante os problemas, uma comunidade não autorreferencial em que cada um estará mais atento aos outros do que a si próprio.

Os acordes do Salmo 25, que hoje cantamos, trazem à tona os rumos e os caminhos de Deus, que são sempre bondade, verdade, ternura e misericórdia – caminhos intransitivos, entenda-se –, que se vão insinuando mansamente dentro de nós, mais ou menos como deixou escrito, no seu Diário, com data de 23 de janeiro de 1948, o grande escritor francês George Bernanos: «Que doçura pensar que, embora ofendendo-o, não deixamos de desejar, desde o mais profundo santuário da alma, aquilo que Ele deseja».

António Couto

  1. Leitura I do Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano A – 01.10.2023 (Ez 18, 25-28)
  2. Leitura II do Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano A – 01.10.2023 (Filip 2, 1-11)
  3. Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano A – 01.10.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXVI do Tempo Comum – Ano A – 01.10.2023 – Oração Universal
  5. Algumas palavras antes do Apocalipse – Excerto e índice

Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A – 24.09.2023

Viver a Palavra

O Reino dos Céus que ocupa o centro do anúncio e da pregação de Jesus desconcerta a nossa lógia humana de retribuição e prestação e abre-nos à nova lógica da relação, da gratuidade e da comunhão.

«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha». Mas este proprietário não se limita a convocar para o trabalho na hora mais matutina, também «saiu a meia-manhã», «voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde» e «saindo ao cair da tarde…». O Reino dos Céus é uma realidade dinâmica, lugar permanente de saída, lugar constante de procura para que ninguém permaneça esquecido ou na ociosidade.

Como é belo pensar que somos filhos de um Deus que não se fecha na sua imutabilidade, mas sai permanentemente à nossa procura e veio de modo concreto, pleno e definitivo em Seu Filho Jesus Cristo que enviou como Salvador e Redentor. Em Jesus Cristo, Deus procura-nos e vem ao nosso encontro para nos oferecer um horizonte de sentido na exigente jornada da nossa vida. O pior que poderia acontecer a alguém seria atravessar o arco da sua existência com a sensação de nunca ter encontrado um sentido para a sua vida, uma razão pela qual valha a pena lutar e caminhar os trilhos da história.

O nosso Deus é um “Deus em saída”, que nos convoca para a missão de sermos também nós Igreja em Saída, homens e mulheres que vencem a tentação do comodismo e da ociosidade para que no mundo ninguém possa sentir que a sua vida é irrelevante ou desprovida de sentido.

Cada um de nós é portador de uma história única e irrepetível e encontra este “Deus em saída” num momento concreto da sua existência. Temos de colocar de parte toda e qualquer retribuição equitativa pelos méritos adquiridos contabilisticamente, pois mesmo quando parece que encontramos Deus na hora tardia da nossa existência, a boa notícia do Evangelho recorda-nos que no Seu infinito amor Deus recompensa o operário da última hora do mesmo modo que o da primeira. Apesar da aparente injustiça destas palavras e da má administração de quem paga do mesmo modo a quem trabalha muitas horas ou poucas, esta boa notícia não é injustiça nem laxismo. Segundo a lógica do Evangelho é a certeza de que, aos olhos de Deus, cada operário, cada homem e cada mulher, valem muito mais do que qualquer outra coisa e não podem encerrar-se na lógica de mercado que não conhece atrasos nem descontos. Para Deus, nós não somos números, mas pessoas, homens e mulheres profundamente amados, pelos quais vale a pena oferecer tudo, em todo o tempo e lugar.

Este texto do Evangelho exprime muito bem o primado da misericórdia e da graça, que nos interpela para percebermos o que de verdade está no centro da nossa vida: a relação livre e gratuita ou a prestação? Se concebemos a nossa relação com Deus na lógica contabilística da prestação, então a nossa vida será sempre medida numa lógica retributiva e de competição. Contudo, se, pelo contrário, a nossa vida se constrói numa lógica de relação íntima e pessoal com um Deus que é amor, misericórdia e gratuidade, a nossa vida ganhará um sentido absolutamente novo e há de construir-se numa nova lógica de ser e de estar que se traduz num modo novo de servir e amar. in Voz Portucalense

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O dia 24 de setembro de 2023, Domingo XXV do Tempo Comum, é o 109º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Para este dia o Papa Francisco rescreveu uma mensagem (ver anexo) intitulada “Livres de escolher se migrar ou ficar”. Como afirma o Papa Francisco “O percurso sinodal, que empreendemos como Igreja, leva-nos a ver, nas pessoas mais vulneráveis – e entre elas contam-se muitos migrantes e refugiados -, companheiros de viagem especiais, que havemos de amar e cuidar como irmãos e irmãs. Só caminhando juntos, poderemos ir longe e alcançar a meta comum da nossa viagem”. Cada comunidade cristã é chamada a viver este dia como lugar para cultivar o acolhimento e hospitalidade e para sensibilizar cada batizado para a situação de tantos migrantes e refugiados. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 55,6-9

«Procurai o Senhor, enquanto se pode encontrar, invocai-O, enquanto está perto».

Ambiente

O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e dececionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.

Estes quatro versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do “Livro da Consolação”. Aproxima-se a libertação e, para muitos exilados, está perto o momento do regresso à Terra Prometida. Depois de exortar os exilados a cumprir um novo êxodo e de lhes garantir que, em Judá, vão sentar-se à mesa do banquete que Jahwéh quer oferecer ao seu Povo (cf. Is 55,1-3), o profeta lança-lhes agora um outro repto…

O tempo do Exílio foi um tempo de angústia e de sofrimento, mas também um tempo de amadurecimento e de graça. Aí, Israel tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que o viver longe de Deus não conduz à vida e à felicidade; por outro lado, o tempo de Exílio ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e até do significado de ser Povo de Deus.

O Deutero-Isaías – neste momento em que se abrem novos horizontes – convida os seus concidadãos a percorrerem esse caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direção à Terra Prometida; esse “caminho” não é uma simples deslocação geográfica mas é, sobretudo, um “caminho” espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra da escravidão e voltar à terra da liberdade deve significar, para Israel, uma redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade dinâmica aos mandamentos de Jahwéh. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

Antes de mais, o nosso texto apela à conversão. O “voltar para Deus” (como diz o Deutero-Isaías) significa, neste contexto, reequacionar a vida, de modo que Deus passe a estar no centro da existência do homem.
É infletir o sentido da existência, de forma que Deus (e não o dinheiro, o poder, o sucesso, os amigos, a família) ocupe sempre, na vida do homem, o primeiro lugar. A cultura pós-moderna prescindiu de Deus… Considerou que o homem é o único senhor do seu destino e que cada pessoa tem o direito de construir a sua felicidade à margem de Deus e dos seus valores; considerou que os valores de Deus não permitem ao homem potencializar as suas capacidades e ser verdadeiramente livre e feliz… Na verdade, o que é que nos faz passar da terra da escravidão para a terra da liberdade: o amor, a partilha, o serviço, o dom da vida, ou o egoísmo, o orgulho, a arrogância, a autossuficiência?

No entanto, o homem só poderá converter-se a Deus e abraçar os seus esquemas e valores, se se mantiver em comunhão com Ele. É na escuta e na reflexão da Palavra de Deus, na oração frequente, na atitude de disponibilidade para acolher a vida de Deus, na entrega confiada nas mãos de Deus, que o crente descobrirá os valores de Deus e os assumirá. Aos poucos, a ação de Deus irá transformando a mentalidade desse crente, de forma que ele viva e testemunhe Deus e as suas propostas para os homens.

A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o crente terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro crente nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.

  • Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não podemos construir e testemunhar diante dos outros homens um Deus à nossa imagem, que funcione de acordo com os nossos esquemas mentais e que assuma comportamentos parecidos com os nossos. Temos de descobrir, no diálogo pessoal com Ele, esse Deus que nos transcende infinitamente. Sem preconceitos, sem certezas, temos de mergulhar no infinito de Deus, e deixarmo-nos surpreender pela sua lógica, pela sua bondade, pelo seu amor. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.

LEITURA II – Filip 1, 20c-24.27

«Procurai somente viver de maneira digna do Evangelho de Cristo».

Ambiente

Filipos, cidade situada ao norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada por Paulo. Era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador. Gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.

A comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo no Verão do ano 49, era uma comunidade entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos “filhos” de Filipos um afeto especial.

Quando escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (um membro da comunidade), encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afetuosa, onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu amor. Nela, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.

O texto que nos é hoje proposto faz parte de uma perícope (cf. Flp 1,12-26), na qual Paulo fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e esperanças. Paulo está consciente de que corre riscos de vida; mas está sereno, alegre e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho. in Dehonianos.

A reflexão pode ter em conta as seguintes questões:

Um dos elementos que mais impressionam e questionam neste testemunho é a centralidade de Cristo na vida de Paulo. Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. Paulo aparece, neste aspeto, como o perfeito modelo do cristão: para os batizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a “pedra angular” à volta da qual se constrói a existência cristã. Que significa Cris
to para mim? Ele é a referência fundamental à volta da qual tudo se articula, ou é apenas mais um entre muitos interesses a partir dos quais eu vou construindo a minha vida? Quando tenho de optar, para que lado cai a minha escolha: para o lado de Cristo, ou para o lado dos meus interesses pessoais?

A mesma questão – a questão da centralidade de Cristo – pode colocar-se a propósito do testemunho que a Igreja oferece aos homens e ao mundo… É mais importante falar de Cristo e do seu Evangelho do que dos artigos do Código de Direito Canónico; é mais importante testemunhar Cristo e os seus valores do que discutir a estrutura hierárquica da Igreja; é mais importante anunciar Cristo e a sua proposta de Reino do que debater questões de organização e de disciplina… Cristo está, verdadeiramente, no centro desse anúncio que somos convidados a fazer aos homens do nosso tempo?

Neste texto, impressiona também a liberdade total de Paulo face à morte. Essa liberdade resulta do facto de a fé que anima o apóstolo lhe permitir encarar a morte, não como o mais terrível e assustador de todos os males, mas como a possibilidade do encontro definitivo e pleno com Cristo. Dessa forma, Paulo pode entregar-se tranquilamente ao exercício do seu ministério, sem deixar que o medo trave o seu empenho e o seu testemunho. Também aqui a atitude de Paulo interpela e questiona os crentes… Para um cristão, a morte é o momento da realização plena, do encontro com a vida definitiva. Não é um drama sem sentido, sem remédio e sem esperança. Para um cristão, não faz sentido que o medo da perseguição ou da morte impeça o compromisso com os valores de Deus e com o compromisso profético diante do mundo. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha».

«Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo».

«Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

Ambiente

No texto que nos é proposto, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a testemunhem. Trata-se de mais uma “parábola do Reino”.
O quadro que a parábola nos apresenta reflete bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada “patrão” tinha os seus “clientes” – isto é, homens em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, esses trabalhadores “de confiança” recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, nomeadamente, que esses “clientes” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar uma “jorna” completa (um “denário”, que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado). in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

Antes de mais, o nosso texto deixa claro que o Reino de Deus (esse mundo novo de salvação e de vida plena) é para todos sem exceção. Para Deus não há marginalizados, excluídos, indignos, desclassificados… Para Deus, há homens e mulheres – todos seus filhos, independentemente da cor da pele, da nacionalidade, da classe social – a quem Ele ama, a quem Ele quer oferecer a salvação e a quem Ele convida para trabalhar na sua vinha. A única coisa verdadeiramente decisiva é se os interpelados aceitam ou não trabalhar na vinha de Deus. Fazer parte da Igreja de Jesus é fazer uma experiência radical de comunhão universal.

Todos têm lugar na Igreja de Jesus… Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor – tarde ou cedo, não interessa – e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque “estou aqui há mais tempo do que os outros”, ou porque “tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

O nosso texto denuncia ainda essa conceção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é o Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido fazem certas expressões da vivência religiosa que são autênticas negociatas com Deus (“se tu me fizeres isto, prometo-te aquilo”; “se tu me deres isto, pago-te com aquilo”)?

Entender que Deus não é um negociante, mas um Pai cheio de amor pelos seus filhos, significa também renunciar a uma lógica interesseira no nosso relacionamento com ele. O cristão não faz as coisas por interesse, ou de olhos postos numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, a eliminação da doença, o adivinhar a chave da lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

Com alguma frequência encontramos cristãos que não entendem porque é que Deus ama e aceita na sua família, em pé de igualdade com os filhos da primeira hora, esses que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e condenam, mais ou menos veladamente, essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspetiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a antiguidade e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus. Que sentido faz esta lógica à luz dos ensinamentos de Jesus? in Dehonianos.

Para os leitores:

A primeira leitura abre com dois verbos no modo imperativo: «procurai» e «invocai-O» que marcam logo desde o início o tom exortativo que deve marcar a proclamação deste texto.

A segunda leitura requer uma acurada preparação nas pausas e respirações, para uma correta proclamação do texto. Deve ter-se em atenção a segunda frase do texto que inicia com uma conjunção subordinativa causal – «porque» – e a seguinte que inicia com a conjunção adversativa, «mas». As conjunções, juntamente com as formas verbais marcam o tom e ritmo do texto.

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

EM APENAS UMA HORA SE PODE GANHAR OU PERDER O DIA INTEIRO!

No Evangelho deste Domingo XXV do Tempo Comum (Mateus 20,1-16), Deus conta aos seus filhos mais uma história verdadeira. A praça está sempre cheia de gente simplesmente ali parada, ou à espera de uma oportunidade para ganhar o dia. Rapidamente vem para primeiro plano o dono de uma vinha, preocupado em arranjar trabalhadores para a sua vinha. E é assim que se diz do dono da vinha que SAI às 06h00 da manhã para a praça e contrata logo trabalhadores para cultivar a sua vinha. Acerta com eles que lhes pagará um denário, que era, na altura e naquele pedaço de mundo, o salário normal de um dia de trabalho. O dono da vinha SAI outra vez às 09h00 da manhã, e, encontrando mais gente desocupada na praça, envia-os também para a sua vinha, garantindo que lhes pagará o que for justo. Volta a SAIR às 12h00, às 15h00 e às 17h00, encontra sempre gente desocupada, e a todos vai enviando para a sua vinha.

Impõe-se que anotemos um primeiro indicador: o dono da vinha SAI por cinco vezes à PROCURA de nós. Encontra-nos a toda a hora, e a toda a hora nos envia para a sua vinha. É dele toda a iniciativa e a iniciativa toda. Ele é iniciativa.

Às 18h00, o dono da vinha ordena ao seu capataz que pague o salário (um denário) aos trabalhadores, com uma estranha condição: a começar pelos últimos! O capataz pagou a cada um um denário, que era o salário habitual de um dia de trabalho. Também esta é uma bela iniciativa do dono da vinha. Até aqui tudo bem: todos os que aqui estamos, estamos todos depois e por causa da iniciativa de Deus!

Temos também, todavia, de prestar atenção ao que fazemos, quando somos nós a tomar a iniciativa. O texto não se demora a descrever o trabalho que fazemos, e tão-pouco diz se trabalhámos, ou se fomos preguiçosos, durante o tempo, muito ou pouco, que estivemos na vinha. Mas diz que somos mesquinhos, invejosos e ciumentos, quando reparamos que o dono da vinha nos trata a todos por igual, os da última hora iguais aos da primeira hora. Literalmente, quando se referem ao procedimento do dono da vinha para com os últimos, da boca dos primeiros, ouvimos o seguinte: «fizeste-os iguais a nós» (v. 12). O texto desvenda o nosso instinto de grandeza e superioridade, e a dificuldade que sentimos em aceitar-nos e abraçar-nos como irmãos.

O amor de Deus, esse sim, está lá, bem retratado, em todas as iniciativas do dono da vinha: SAI a toda a hora à nossa PROCURA. Quer-nos a todos por igual. Enche as nossas mãos com os seus dons. Mas nós ficamos tão mal na fotografia ou na radiografia, que mostra bem as invejas e ciúmes, que minam o nosso coração e não nos deixam ser irmãos.

Aquela última hora é a hora da graça. É a nossa hora de filhos de Deus. Mas é também a hora em que podemos ser aceites ou rejeitados como irmãos.

Compreendamos bem: em apenas uma hora se pode ganhar ou perder o dia inteiro, a vida inteira!

A lição do Antigo Testamento que hoje, por graça, nos é dado escutar (Isaías 55,6-9), serve maravilhosamente de fundo ao Evangelho deste Dia. Apresenta-nos um Deus bom, que «se deixa encontrar» (Isaías 55,6), e que é «rico em perdão» (Isaías 55,7), e nos põe a caminho, pois, diz Deus: «Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, / os vossos caminhos não são os meus caminhos» (Isaías 55,8). Vê-se bem que esta última página do caderno do chamado «Segundo Isaías», na verdade um profeta e místico do tempo do exílio (século VI a. C.), foi escolhida para fazer coro com a personagem central do Evangelho de hoje, que vê as coisas de forma muito diferente de nós, muito melhor do que nós.

  1. Paulo, o Apóstolo de Jesus Cristo, escreve à sua comunidade dileta de Filipos, e, no extrato de hoje (Filipenses 1,20-24.27), lê-se a si mesmo, dizendo: «Para mim viver é Cristo» (Filipenses 1,21) e o resto é lixo (Filipenses 3,8). E desafia-nos a todos a viver de maneira digna do Evangelho de Cristo, que não consiste em nenhuma forma de instalação, mas em «lutar juntos (synathléô) pela fé do Evangelho» (Filipenses 1,27), verdadeiros atletas da fé do Evangelho.

Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua presença ao nosso lado, os seus caminhos novos e belos, cheios de graça, misericórdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar a vinda de Deus até nós e a sua insuperável proximidade: «O Senhor está próximo de quantos o invocam» (Salmo 145,18).

António Couto

ANEXOS:

        1. Leitura I do Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A – 24.09.2023 (Is 55, 6-9)
        2. Leitura II do Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A – 24.09.2023 (Filip 1, 20c-24.27a)
        3. Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A – 24.09.2023 – Lecionário
        4. Domingo XXV do Tempo Comum – Ano A – 24.09.2023 – Oração Universal
        5. MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO para o 109º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – 2023
        6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A – 17.09.2023

Viver a Palavra

Celebramos hoje o Domingo XXIV do Tempo Comum. Já estamos bem dentro do IV discurso de Mateus. Continuamos a ouvir o discurso eclesiológico. A Palavra de Deus que a liturgia deste Domingo nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

O mandamento do perdão não é novo – como vimos, aliás, na primeira leitura. Os catequistas de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Os “mestres” de Israel estavam, no entanto, de acordo em que a obrigação de perdoar existia apenas em relação aos membros do Povo de Deus (os inimigos estavam excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia). A grande discussão girava, porém, à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais misericordiosos – aceitavam, contudo, que o perdão tem limites e que não se deve perdoar indefinidamente.

É nesta problemática que Jesus é envolvido pelos discípulos. Pedro, o porta-voz da comunidade, consulta Jesus acerca dos limites do perdão. Ele sabe que, quanto a isto, Jesus tem ideias radicais e, talvez com alguma ironia, pergunta a Jesus se, na sua perspetiva, se deve perdoar sempre (“até sete vezes?” – vers. 21: o número sete, na cultura semita, indica “totalidade”).Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete” – vers. 22). Deve-se perdoar sempre, a toda a gente (mesmo aos inimigos) e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção.

É neste contexto e a propósito da lógica do perdão que Jesus propõe aos discípulos uma parábola (vers. 23-35). A parábola apresenta-se em três quadros ou cenas.

O primeiro quadro (vers. 23-27) coloca-nos diante de uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente de impostos recebidos e nunca entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida. O senhor ordena que o funcionário e a sua família sejam vendidos como escravos; mas, perante a humildade e a submissão do servo, o senhor deixa-se dominar por sentimentos de misericórdia e perdoa a dívida. Neste quadro, o que impressiona mais é o montante astronómico da dívida: dez mil talentos (um talento equivalia a cerca de 36 Kg e podia ser em ouro ou em prata. Dez mil talentos é, portanto, uma soma incalculável). O exagero da dívida serve, aqui, para pôr em relevo a misericórdia infinita do senhor.

O segundo quadro (vers. 28-30) descreve como esse funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor se recusou, logo a seguir, a perdoar um companheiro que lhe devia cem denários (um denário equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de um operário não especializado. Cem denários correspondia, portanto, a uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei).

Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem, por um lado, a desproporção entre as duas dívidas e, por outro, a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor (capaz de perdoar infinitamente) e o funcionário do rei (incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria de ser perdoado).

É precisamente desta diferença de comportamentos e de lógicas que resulta o terceiro quadro (vers. 28-35): os outros companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do seu funcionário, castigou-o duramente.

Antes de mais, a parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na perspetiva de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto.

Depois, a parábola convida-nos a analisar as nossas atitudes e comportamentos face aos irmãos que erram. Mostra como neste capítulo, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de Deus. Diante de qualquer falha do irmão (por menos significativa que ela seja), assumimos a pose de vítimas magoadas e, muitas vezes, tomamos atitudes de desforra e de vingança que são o sinal claro de que ainda não interiorizámos a lógica de Deus.

Finalmente, a parábola sugere que existe uma relação (aliás já afirmada na primeira leitura deste domingo) entre o perdão de Deus e o perdão humano. Mateus estará a sugerir que o perdão de Deus é condicionado e que só se tornará efetivo se nós aprendermos a perdoar aos nossos irmãos? O que Mateus está a dizer, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: se essa é a lógica de Deus, terá de ser a nossa lógica, também. O que Mateus está a sugerir, também, é que se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente aqueles que nos ofenderam.

Deus pagará na mesma moeda e castigará quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia? Não. Decididamente, o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus… Mateus usa aqui – bem ao jeito semita – imagens fortes e dramáticas para sublinhar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção de uma realidade nova, de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino.in Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Sir 27,33-28,9

Ambiente

O livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”), de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, pretende apresentar uma reflexão de carácter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.

Estamos no início do séc. II a.C., numa época em que o helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso, no sentido de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor deste livro, está preocupado com a degradação dos valores tradicionais do seu Povo e as cedências que, sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega. A “fé dos pais” corre riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua identidade.

Jesus Ben Sira procura, então, apresentar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, sublinhando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Por essa razão, escreveu este compêndio de “sabedoria”. Nele, tenta demonstrar aos seus compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.

O texto que a liturgia de hoje nos propõe integra uma secção (cf. Sir 24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura demonstrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos (cf. Sir 1,1-23,38) – tem um campo especial de ação em Israel, o Povo eleito de Deus. Esta secção não tem uma estrutura clara e coerente: os temas vão-se sucedendo, aparentemente sem uma ordem lógica. Dominam, aí, as “máximas” destinadas a ensinar os comportamentos que se devem assumir nas relações sociais.

Uma nota de carácter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9 – que é a apresentada no “Lecionário Dominical”. Esta discrepância resulta do facto de o texto apresentado pelo “Lecionário” seguir uma versão latina, mais longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do Livro de Ben Sira. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

Todos os dias vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do “responder na mesma moeda”. Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e de ódio?

Ben Sira estabelece uma relação clara entre o perdão de Deus e o perdão humano. É claro que não podemos dizer que Deus não nos perdoa se nós não conseguirmos perdoar aos nossos irmãos (a bondade e a misericórdia de Deus são infinitamente maiores do que as nossas); mas, se o nosso coração estiver dominado por uma lógica de ódio e de vingança, o perdão que Deus nos oferece poderá encontrar aí lugar? Um coração duro, violento e agressivo, incapaz de compreender as falhas dos outros, estará suficientemente disponível para acolher a bondade e o amor de Deus?

Ben Sira lembra também, a propósito do perdão, o horizonte final do homem (a morte)… Não se tratará, tanto, de avisar que se não nos portarmos bem, Deus condena-nos (por esta altura, o Povo de Deus ainda não parece ter uma noção clara de que há, para além desta terra, uma vida eterna reservada para aqueles que escolhem Deus e os seus valores); trata-se, sobretudo, de sugerir que a nossa vida nesta terra está marcada pela brevidade e pela finitude e não pode ser estragada com sentimentos que só nos magoam a nós e aos outros.

Muitos homens do nosso tempo pensam que só nos afirmamos, só nos realizamos e só triunfamos quando somos fortes e respondemos com força e agressividade à força e agressividade dos outros. Jesus Ben Sira, contudo, ensina que a “sabedoria”, o êxito e a felicidade do homem não passam por cultivar sentimentos de ódio e de rancor, mas por cultivar sentimentos de perdão e de misericórdia. Quem tem razão? O que é que nos dá paz, nos faz sentir em harmonia connosco, com Deus e com ou outros e nos torna mais felizes: os gestos violentos que mostraram aos outros a nossa força e apaziguaram o nosso orgulho ferido, ou os nossos gestos de perdão, de bondade, de misericórdia? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,

LEITURA II – Rom 14,7-9

Ambiente

Na segunda parte da Carta aos Romanos (já o vimos nos domingos anteriores), Paulo preocupa-se em apresentar aos cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os lugares e tempos) um conjunto de atitudes e de valores que devem marcar a vida pessoal, social e eclesial daqueles que Deus chama à salvação. A segunda leitura deste domingo situa-nos neste contexto e apresenta-nos mais alguns dados sobre esta questão.
O nosso texto faz parte de uma perícope (cf. Rom 14,1-12) em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm perspetivas diferentes da fé e do caminho cristão.~

Paulo considera que existem dois tipos de crentes na comunidade cristã de Roma: os “fortes” e os “débeis”. Estas designações não parecem referir-se, primordialmente, à classe social (“ricos” e “pobres”) ou à origem religiosa (“pagano-cristãos” e “judeo-cristãos”) desses crentes, mas a atitudes diversas quanto à fé… Os “fortes” (na linguagem de hoje, poderíamos caracterizá-los como “progressistas”) são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé. Os “fracos” (na linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes “tradicionalistas”) são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas tradições antigas e ficam escandalizados pelo facto de esses valores não serem assumidos por toda a gente.

Muito provavelmente, estes dois grupos viviam em confronto, provocando uma certa divisão na comunidade. Paulo não aceita atitudes de intolerância ou de desprezo pelos irmãos, venham elas de onde vieram. Na verdade, o pensamento de Paulo aproxima-o mais dos “fortes”; mas ele sabe muito bem que mais importante do que as divergências é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os “débeis” não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspetiva

É precisamente neste contexto que Paulo encaixa os três versículos que constituem a segunda leitura deste domingo. in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta as seguintes questões:

Paulo está consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um fator de enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?

Existem, às vezes, nas comunidades cristãs certas pessoas que se consideram mais esclarecidas e mais preparadas e que manifestam desprezo por aqueles que têm conceções menos racionais da fé, que vivem agarrados a determinadas devoções ou a determinados ritos considerados ultrapassados. Paulo recomenda-lhes: “não desprezeis ninguém; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.

Existem, às vezes, na comunidade cristã certas pessoas que se consideram muito santas e virtuosas porque cumprem determinadas regras, são fiéis a determinados ritos e têm sempre presente os mandamentos da santa madre Igreja… Observam e controlam os outros, julgam-nos sem direito a defesa, condenam-nos e acham-se no sagrado direito de os desacreditar diante dos outros membros da comunidade… Paulo recomenda-lhes: “não julgueis nem condeneis os vossos irmãos; não esqueçais que a única coisa importante e decisiva é Cristo, a quem todos pertencemos”.

Às vezes perdemo-nos na discussão das coisas secundárias e esquecemos o essencial. Discutimos se se deve receber a comunhão na mão ou na boca, se se deve ou não ajoelhar à consagração, se determinado cântico é litúrgico ou não, se os padres devem ou não casar, se a procissão do santo padroeiro da paróquia deve fazer este ou aquele percurso… e, algures durante a discussão, esquecemos o amor, o respeito pelo outro, a fraternidade, e que todos vivemos à volta do mesmo Senhor. É preciso descobrir o essencial que nos une e não absolutizar o secundário que nos divide. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 18,21-35

Ambiente

Continuamos a ler o “discurso eclesial”, que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus. Este “discurso” tem como ponto de partida algumas “instruções” apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou de forma significativa. Os destinatários do discurso são os discípulos (na realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa comunidade cristã a quem este Evangelho se destina).

Por detrás do texto que nos é hoje proposto, podemos entrever uma comunidade onde as tensões e os conflitos degeneram em ofensas pessoais e que tem muita dificuldade em perdoar. in Dehonianos.

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

O Evangelho deste domingo é sobre a necessidade de perdoar sempre, de forma radical e ilimitada. Trata-se – todos estamos conscientes do facto – de uma das exigências mais difíceis que Jesus nos faz. No entanto não há, neste campo, meias tintas, dúvidas, evasivas, desculpas: trata-se de um valor fundamental da proposta de Jesus. Ele deu testemunho, em gestos concretos, do amor, da bondade e da misericórdia do Pai. Na cruz, ele morreu pedindo perdão para os seus assassinos… Ora o cristão é, antes de mais, um seguidor de Jesus. Pessoalmente, como é que me situo face a isto?

O perdão e a misericórdia tornam-se ainda mais complicados à luz dos valores que presidem à construção do nosso mundo. O “mundo” considera que perdoar é próprio dos fracos, dos vencidos, dos que desistem de impor a sua personalidade e a sua visão do mundo; Deus considera que perdoar é dos fortes, dos que sabem o que é verdadeiramente importante, dos que estão dispostos a renunciar ao seu orgulho e autossuficiência para apostar num mundo novo, marcado por relações novas e verdadeiras entre os homens. Na verdade, a lógica do mundo só tem aumentado a espiral de violência, de injustiça, de morte; a lógica de Deus tem ajudado a mudar os corações e frutificado em gestos de amor, de partilha, de diálogo e de comunhão. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido? Qual destes dois caminhos pode ajudar a instaurar uma realidade mais humana, mais harmoniosa, mais feliz?

O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa “deixar correr” enquanto forem coisas que não nos afetem diretamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença… O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada… O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha… Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.

Este Evangelho recorda-nos – talvez ainda de forma mais clara e concludente – aquilo que a primeira leitura já sugeria: quem faz a experiência do perdão de Deus, envolve-se numa lógica de misericórdia que tem, necessariamente, implicações na forma de abordar os irmãos que falharam. Não podemos dizer que Deus não perdoa a quem é incapaz de perdoar aos irmãos; mas podemos dizer que experimentar o amor de Deus e deixar-se transformar por Ele significa assumir uma outra atitude para com os irmãos, uma atitude marcada pela bondade, pela compreensão, pela misericórdia, pelo acolhimento, pelo amor. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

ENTRE A ESPADA E O PERDÃO

Neste Domingo XXIV do Tempo Comum, continuamos a braços com o Discurso Eclesial de Jesus, iniciado no passado Domingo com oportunas e incisivas instruções sobre a correção fraterna (Mateus 18,15-20). O resto do Discurso é servido hoje a Pedro e a todos nós (Mateus 18,21-35). Prevenimos que o Discurso é suficientemente demolidor, capaz de, se atentamente o recebermos, provocar em nós o maior terramoto da história, deixando às claras a radical insuficiência da nossa programação para tão gigantesca onda de perdão.

Estão-nos no sangue as letras da vingança. Aprendemos bastante bem e depressa com Lamec o «Cântico da Espada»: «Caim será vingado sete vezes, mas Lamec setenta vezes sete!» (Génesis 4,24). Face a esta barbaridade desmedida, a chamada «Lei de Talião» [pena, não multiplicada, mas igual ao delito: «olho por olho, dente por dente»] representa um enorme progresso civilizacional. Mas Jesus derruba uma e outra mesa, para nos brindar com a desmesura do Perdão, sempre gratuito, sempre sem motivação.

«Senhor, até quantas vezes devo perdoar ao meu irmão? Até sete?», pergunta Pedro a Jesus (Mateus 18,21). «Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete!», respondeu Jesus (Mateus 18,22). Desarranjo completo na cabeça de Pedro, e na nossa. O Perdão, segundo Jesus, não se conta pelos dedos, nem pela máquina de calcular. Faz-se simplesmente sempre e sem condição.

Mas Jesus, bom pedagogo, desce ao nível de Pedro, e ao nosso. Conta uma história absolutamente inverosímil, para nos prender a atenção e o coração, suspender a respiração. É mais uma parábola do Reino dos Céus (Mateus 18,23-35). A cena é preenchida por um Rei – vê-se que é Deus – e pelos seus servos, dado que o Rei [Deus] entende chamar a contas os seus servos. Entenda-se aqui que estes servos não são escravos, mas altos oficiais ao serviço do Rei. Estreita-se a cena, e vê-se agora apenas o Rei e um dos seus servos. Este servo tinha uma dívida enorme, para com o seu Rei [Deus], contabilizada na soma astronómica de 10.000 talentos (Mateus 18,24). Entreveja-se neste extraordinário dizer de Jesus a forma subtil como Ele sabe trazer Deus para uma questão do quotidiano.

O montante é colossal. Tão colossal, que é difícil de quantificar com exatidão. Lembro, para começar, que os estudiosos calculam em cerca de 900 talentos o valor dos impostos anuais que entravam nos cofres de Herodes o Grande (37-4 a. C.). E, após a sua morte, os impostos anuais da Galileia e da Pereia contavam-se em 200 talentos, sendo de 600 talentos os impostos pagos pela Judeia, Samaria e Idumeia. Ou seja, a dívida do servo da nossa história é muito superior ao dinheiro que então circulava no país inteiro! Mais coisa menos coisa, diz a Bíblia de Jerusalém, como 174 toneladas de ouro, que o estudioso Richard France, no seu belo Comentário ao Evangelho de Mateus, sobe para 300 toneladas! Entrando por outro tipo de contabilidade, lembro agora que um talento equivalia a cerca de 6.000 denários, sendo um denário o correspondente a um salário diário. Avaliados por este critério, os 10.000 talentos equivaleriam a um montante entre 60 e 100 milhões de denários (Vittorio Fusco, Rudolf Schnackenburg, Craig S. Keener, TOB), que o mesmo é dizer entre 60 e 100 milhões de salários! Ou ainda o correspondente ao salário de um trabalhador durante um período que oscila entre 200 e 250 mil anos (Craig S. Keener, John Nolland).

Vê-se bem que este servo não pode pagar aquela dívida imensa, a perder de vista. O Rei [Deus] manda que seja vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possui, em ordem ao pagamento da dívida. Aqui o servo pediu ao Rei [Deus] que lhe desse um prazo, e que pagaria tudo. Auge da cena. Será que o Rei [Deus] dá o prazo, ou mostrar-se-á impiedoso? Adianto eu: se der o prazo, é demasiado lógico e simétrico, e esta não é a medida do Evangelho, que rebenta sempre os nossos mais pensados calculismos. Se não der o prazo, pior ainda, passa por ser um Deus insensível e impiedoso, que não sabe nem quer compadecer-se. Eis, então, a incrível e desconcertante resposta de Deus: «Vai-te embora; estás perdoado!» (Mateus 18,27).

Entenda-se então, porque salta à vista: para Deus e para o Evangelho, um ato de Perdão vale mais do que 10.000 talentos e tudo o que isso representa. E veja-se, no seguimento da história, a rapidez com que perdemos a memória, e como, sem dó nem piedade, condenamos um «com-servo» ao pagamento, aqui e já, de uma bagatela (Mateus 18,28)!

O Livro de Ben Sira (27,33-28,9) lá está hoje também a gritar-te ao coração: perdão, perdão, perdão! Não te deixes encharcar por ódios, iras e rancores! São vícios que operam divisões no teu coração e destruição nos teus irmãos. Estes vícios destroem e corroem, e levam-te a destruir a vida dos outros e a sentires mesmo prazer nisso. Limpa o matagal e a traça que há em ti. Cultiva o amor e o perdão.

E S. Paulo lembra-nos hoje, em duas linhas claras da Carta aos Romanos (14,7-8), que a nossa vida é pura graça; que é, portanto, do Senhor e para o Senhor, como convém a quem pertence ao Senhor. Dá-se muitas vezes o caso que damos por nós a pensar só em nós, debruçados sobre nós (o chamado amor sui), e até utilizando os outros e o mundo, pura res extensa, sem Sentido preliminar e sem Deus, em nosso único proveito, para os fins que temos em vista, pois não há nenhum Sentido e nenhum Senhor no mundo.

O Salmo 103 é um grande canto ao amor de Deus, que dia-a-dia nos perdoa, nos cura, cuida de nós com carinho e misericórdia maternais. Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas do Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

Irmão, deixa-te tomar pela música nova e excessiva do Perdão. Que essa, sim, te encharque até aos ossos, até ao coração!

António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A – 17.09.2023 (Sir 27, 33-28-,9)
      2. Leitura II do Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A – 17.09.2023 (Rom 14, 7-9)
      3. Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A – 17.09.023 – Lecionário
      4. Domingo XXIV do Tempo Comum – Ano A – 17.09.023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A – 10.09.2023

Viver a Palavra

Celebramos hoje o Domingo XXIII do Tempo Comum. Entramos pelo IV discurso de Mateus adentro. O discurso eclesiológico. O fragmento do “discurso eclesial” que nos é hoje proposto refere-se, especialmente, ao modo de proceder para com o irmão que errou e que provocou conflitos no seio da comunidade. Como é que os irmãos da comunidade devem proceder, nessa situação? Devem condenar, sem mais, e marginalizar o infrator?
Não. Neste quadro, as decisões radicais e fundamentalistas raramente são cristãs. É preciso tratar o problema com bom senso, com maturidade, com equilíbrio, com tolerância e, acima de tudo, com amor. Mateus propõe um caminho em várias etapas…

Em primeiro lugar, Mateus propõe um encontro com esse irmão, em privado, e que se fale com ele cara a cara sobre o problema (vers. 15). O caminho correto não passa, decididamente, por dizer mal “por trás”, por publicitar a falta, por criticar publicamente (ainda que não se invente nada), e muito menos por espalhar boatos, por caluniar, por difamar. O caminho correto passa pelo confronto pessoal, leal, honesto, sereno, compreensivo e tolerante com o irmão em causa.

Se esse encontro não resultar, Mateus propõe uma segunda tentativa. Essa nova tentativa implica o recurso a outros irmãos (“toma contigo uma ou duas pessoas” – diz Mateus – vers. 16) que, com serenidade, sensibilidade e bom senso, sejam capazes de fazer o infrator perceber o sem sentido do seu comportamento.
Se também essa tentativa falhar, resta o recurso à comunidade. A comunidade será então chamada a confrontar o infrator, a recordar-lhe as exigências do caminho cristão e a pedir-lhe uma decisão (vers. 16a).

No caso de o infrator se obstinar no seu comportamento errado, a comunidade terá que reconhecer, com dor, a situação em que esse irmão se colocou a si próprio; e terá de aceitar que esse comportamento o colocou à margem da comunidade. Mateus acrescenta que, nesse caso, o faltoso será considerado como “um pagão ou um cobrador de impostos” (vers. 17b). Isto significa que os pagãos e os cobradores de impostos não têm lugar na comunidade de Mateus? Não. Ao usar este exemplo, o autor deste texto não pretende referir-se a indivíduos, mas a situações. Trata-se de imagens tipicamente judaicas para falar de pessoas que estão instaladas em situações de erro, que se obstinam no seu mau proceder e que recusam todas as oportunidades de integrar a comunidade da salvação.

A Igreja tem o direito de expulsar os pecadores? Mateus não sugere aqui, com certeza, que a Igreja possa excluir da comunhão qualquer irmão que errou. Na realidade, a Igreja é uma realidade divina e humana, onde coexistem a santidade e o pecado. O que Mateus aqui sugere é que a Igreja tem de tom
ar posição quando algum dos seus membros, de forma consciente e obstinada, recusa a proposta do Reino e realiza atos que estão frontalmente contra as propostas que Cristo veio trazer. Nesse caso, contudo, nem é a Igreja que exclui o prevaricador: ele é que, pelas suas opções, se coloca decididamente à margem da comunidade. A Igreja tem, no entanto, que constatar o facto e agir em consequência.

Depois desta instrução sobre a correção fraterna, Mateus acrescenta três “ditos” de Jesus (cf. Mt 18,18-20) que, originalmente, seriam independentes da temática precedente, mas que Mateus encaixou neste contexto.
O primeiro (vers. 18) refere-se ao poder, conferido à comunidade, de “ligar” e “desligar”. Entre os judeus, a expressão designava o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido e para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus; aqui, significa que a comunidade (algum tempo antes – cf. Mt 16,19 – Jesus dissera estas mesmas palavras a Pedro; mas aí Pedro representava a totalidade da comunidade dos discípulos) tem o poder para interpretar as palavras de Jesus, para acolher aqueles que aceitam as suas propostas e para excluir aqueles que não estão dispostos a seguir o caminho que Jesus propôs.

O segundo (vers. 19) sugere que as decisões graves para a vida da comunidade devem ser tomadas em clima de oração. Assegura aos discípulos, reunidos em oração, que o Pai os escutará.
O terceiro (vers. 20) garante aos discípulos a presença de Jesus “no meio” da comunidade. Neste contexto, sugere que as tentativas de correção e de reconciliação entre irmãos, no seio da comunidade, terão o apoio e a assistência de Jesus. in Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Ez 33,7-9

Ambiente

Ezequiel é conhecido como “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilónia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista Jerusalém pela primeira vez e deporta para a Babilónia a classe dirigente do país), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (data do seu chamamento) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma segunda leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e as infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C. e prolonga-se até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, privados de templo, de sacerdócio e de culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus salvador e libertador – esse Deus que Israel descobriu na sua história – não os abandonou nem esqueceu.

Pelo conteúdo, não é possível dizer de forma clara se o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura pertence à primeira ou à segunda fase da atividade profética de Ezequiel. Em qualquer caso, ele define – recorrendo à imagem da sentinela – a missão profética: o profeta é, entre os exilados, como uma sentinela atenta, que escuta os apelos de Deus e que avisa o Povo dos perigos que aparecem no horizonte da comunidade. in Dehonianos.

A reflexão pode partir das seguintes questões:

E hoje? Deus continua a amar o seu Povo? Continua a querer que ele se converta e viva? Continua a preocupar-Se em oferecer ao seu Povo a salvação – isto é, a possibilidade de ser feliz neste mundo e de alcançar, no final da sua caminhada nesta terra, a vida definitiva? O Deus de ontem não será o Deus de hoje e de amanhã?

Na verdade, Ele continua a chamar, todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo Batismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens. Temos consciência de que recebemos de Deus uma missão profética e que essa missão nos compromete com a denúncia do que está errado no mundo e na vida dos homens?

O que é que devemos denunciar? Tudo aquilo que contradiz os projetos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir. Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um relacionamento forte com Deus. Encontro tempo para potenciar a relação com Deus, para falar com Deus, para escutar e meditar a sua Palavra?

É preciso também que o profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os acontecimentos à luz de Deus e do projeto de Deus. Estou atento aos sinais dos tempos e procuro analisá-los a partir de uma perspetiva de fé?

É preciso, finalmente, que o profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cómodo, demitindo-se das suas responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afeta a vida de um homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta. Podemos ficar calados diante das escolhas erradas que o mundo faz? O nosso silêncio não nos tornará cúmplices daqueles que destroem o mundo e que condenam ao sofrimento e à miséria tantos homens e mulheres? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 94 (95)

Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor,

LEITURA II – Rom 13,8-10

Ambiente

Continuamos a ler a segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí, Paulo mostra – em termos práticos – como devem viver aqueles que Deus chama à salvação.

Deus oferece a todos a salvação; ao homem resta acolher o dom de Deus, aderindo a Jesus e à sua proposta… Mas a adesão a Jesus implica assumir, na prática do dia a dia, atitudes coerentes com essa vida nova que o cristão acolheu no dia do seu batismo. São essas atitudes que Paulo recomenda aos romanos (e aos crentes em geral) nesta segunda parte da carta.

No ano 49, o imperador Cláudio tinha publicado um édito que expulsava de Roma os judeus (incluindo os cristãos de origem judaica). Ora em 57/58 (quando a Carta aos Romanos foi escrita), muitos desses judeus tinham já voltado a Roma. Será que os cristãos de origem pagã, “donos” da comunidade durante bastante tempo, ostentavam a sua superioridade e manifestavam desprezo pelos cristãos de origem judaica entretanto regressados a Roma? Será que, por essa razão, havia divisões e falta de amor na comunidade de Roma? Nessas circunstâncias, Paulo teria escrito uma “carta de reconciliação”, destinada a unir uma comunidade dividida. O apelo ao amor que o nosso texto nos apresenta poderia entender-se neste contexto. in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa caminhada pela história, esquecemos “o mandamento” de Jesus e distraímo-nos com questões secundárias… Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de organização e de autoridade, códigos de leis, questões de disciplina… e esquecemos “o mandamento” do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o resto é secundário.

As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: “eles são diferentes, são uma mais-valia para o mundo, porque amam mais do que os outros”. É isso que acontece? Quem contempla as nossas comunidades, descobre as marcas do amor, ou as marcas da insensibilidade, do egoísmo, do confronto, do ciúme, da inveja? Os estrangeiros, os doentes, os necessitados, os débeis, os marginalizados são acolhidos nas nossas comunidades com solicitude e amor?

É importante sentirmos que a nossa dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão… mas é preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 18,15-20

Ambiente

O capítulo 18 do Evangelho de Mateus é conhecido como o “discurso eclesial”. Apresenta uma catequese de Jesus sobre a experiência de caminhada em comunidade. Aqui, Mateus ampliou de forma significativa algumas instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37. 42-47) e compôs, com esses materiais, um dos cinco grandes discursos que o seu Evangelho nos apresenta. Os destinatários desta “instrução” são os discípulos e, através deles, a comunidade a que o Evangelho de Mateus se dirige.

A comunidade de Mateus é uma comunidade “normal” – isto é, é uma comunidade parecida com qualquer uma das que nós conhecemos. Nessa comunidade existem tensões entre os diversos grupos e problemas de convivência: há irmãos que se julgam superiores aos outros e que querem ocupar os primeiros lugares; há irmãos que tomam atitudes prepotentes e que escandalizam os pobres e os débeis; há irmãos que magoam e ofendem outros membros da comunidade; há irmãos que têm dificuldade em perdoar as falhas e os erros dos outros…

Para responder a este quadro, Mateus elaborou uma exortação que convida à simplicidade e humildade, ao acolhimento dos pequenos, dos pobres e dos excluídos, ao perdão e ao amor. Ele desenha, assim, um “modelo” de comunidade para os cristãos de todos os tempos: a comunidade de Jesus tem de ser uma família de irmãos, que vive em harmonia, que dá atenção aos pequenos e aos débeis, que escuta os apelos e os conselhos do Pai e que vive no amor. in Dehonianos.

Na reflexão e partilha, considerar as seguintes questões:

A palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. No entanto, o que significa “tolerância”? Significa que cada um pode fazer o mal ou o bem que quiser, sem que tal nos diga minimamente respeito? Implica recusarmo-nos a intervir quando alguém toma atitudes que atentam contra a vida, a liberdade, a dignidade, os direitos dos outros? Quer dizer que devemos ficar indiferentes quando alguém assume comportamentos de risco, porque ele “é maior e vacinado” e nós não temos nada com isso? Quais são as fronteiras da “tolerância”? Diante de alguém que se obstina no erro, que destrói a sua vida e a dos outros, devemos ficar de braços cruzados? Até que ponto vai a nossa responsabilidade para com os irmãos que nos rodeiam? A “tolerância” não será, tantas vezes, uma desculpa que serve para disfarçar a indiferença, a demissão das responsabilidades, o comodismo?

O Evangelho deste domingo sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar… É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor…

Que atitude tomar em relação a quem erra? Como proceder? Antes de mais, é preciso evitar publicitar os erros e as falhas dos outros. O denunciar publicamente o erro do irmão, pode significar destruir-lhe a credibilidade e o bom-nome, a paz e a tranquilidade, as relações familiares e a confiança dos amigos. Fazer com que alguém seja julgado na praça pública – seja ou não culpado – é condená-lo antecipadamente, é não lhe dar a possibilidade de se defender e de se explicar, é restringir-lhe o direito de apelar à misericórdia e à capacidade de perdão dos outros irmãos. Humilhar o irmão publicamente é, sobretudo, uma grave falta contra o amor. É por isso que o Evangelho de hoje convida a ir ao encontro do irmão que falhou e a repreendê-lo a sós…

Sobretudo, é preciso que a nossa intervenção junto do nosso irmão não seja guiada pelo ódio, pela vingança, pelo ciúme, pela inveja, mas seja guiada pelo amor. A lógica de Deus não é a condenação do pecador, mas a sua conversão; e essa lógica devia estar sempre presente, quando nos confrontamos com os irmãos que falharam. O que é que nos leva, por vezes, a agir e a confrontar os nossos irmãos com os seus erros: o orgulho ferido, a vontade de humilhar aquele que nos magoou, a má vontade, ou o amor e a vontade de ver o irmão reencontrar a felicidade e a paz?

A Igreja tem o direito e o dever de pronunciar palavras de denúncia e de condenação, diante de atos que afetam gravemente o bem comum… No entanto, deve distinguir claramente entre a pessoa e os seus atos errados. As ações erradas devem ser condenadas; os que cometeram essas ações devem ser vistos como irmãos, a quem se ama, a quem se acolhe e a quem se dá sempre outra oportunidade de acolher as propostas de Jesus e de integrar a comunidade do Reino. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

TRATA-O COMO UM PAGÃO OU UM PUBLICANO!

Em março de 1947, o beduíno Muhammed ed-Dib, da tribo dos pastores beduínos Taʼamireh, descobriu nas onze grutas situadas junto do Mar Morto os célebres manuscritos da comunidade essénia de Qumran, que ali tinha vivido entre os séculos II a. C. e I d. C. A partir do seu conteúdo, um desses manuscritos acabou por receber o título de Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina. Tratava-se de uma espécie de «regra monástica», e destinava-se a orientar a vida interna daquela comunidade, contendo também uma série de sanções com que eram penalizados os membros transgressores.

Um dos Capítulos desta Regra é dedicado à correção fraterna, e diz assim: «Corrijam-se mutuamente com verdade, humildade e bondade. Ninguém fale ao seu irmão com ira, resmungando e com maldade, mas advirta-o no mesmo dia em que comete a falta, para não carregar ele mesmo com a culpa. Ninguém advirta o seu próximo diante de todos, se primeiro não o fez perante algumas testemunhas» (V,24-26; VI,1).

Convenhamos que se trata de medidas de grande elevação, dignas de serem ainda hoje tidas em consideração. Esta viagem a Khirbet Qumran e à Regra de vida da comunidade judaica que aí viveu, vem a propósito do Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum, em que nos é dada a graça de escutar um bocadinho do chamado Discurso Eclesial de Mateus, que ocupa todo o seu Capítulo 18. Hoje ouviremos apenas Mateus 18,15-20. No próximo Domingo, ouviremos a parte que resta desse Capítulo, exatamente Mateus 18,21-35.

Tendo em conta o teor da Regra da Comunidade de Qumran e o teor do Discurso Eclesial de Mateus (Mateus 18), tem sido este Discurso muitas vezes visto como A Regra da Comunidade Cristã. No bocadinho que hoje nos cabe escutar, aí está, à semelhança de Qumran, a prática da correção fraterna ou promoção fraterna, a levar por diante de forma gradativa e sempre com o perdão no coração e no horizonte. Primeiro, tu a tu, a quatro olhos, dois corações. Depois, com o recurso a testemunhas. Finalmente, na assembleia, sempre multiplicando os olhos e os corações. Entenda-se: multiplicando sempre a atenção e o amor.

Subjaz ao itinerário proposto, que tem de ser sempre o amor fraterno a mover esta importante prática eclesial, e não aquele subtil sentimento que tantas vezes se apodera de nós, levando-nos a pensar que somos melhores ou superiores ao nosso irmão que erra. Contra este pretensiosismo, lá está a clave de abertura deste Discurso Eclesial, com os discípulos de Jesus – connosco, portanto – a entreterem-se com a questão inútil de quem é o maior (Mateus 18,1), e com a paradigmática resposta de Jesus, chamando uma criança e dando-lhe o lugar do meio (Mateus 18,2). E não esqueçamos também que só podemos abeirar-nos de alguém para o advertir, tendo nós o nosso olhar límpido e puro. É fulgurante, a este propósito, a advertência de Jesus num outro importante Discurso no Evangelho de Mateus, o Discurso ou Sermão da Montanha: «Como podes dizer ao teu irmão: deixa-me tirar o argueiro do teu olho, se no teu há uma trave? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e depois verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão» (Mateus 7,4-5). Como é importante que este dizer de Jesus esteja sempre a retinir no nosso coração! E não esqueçamos também que a criança no meio (Mateus 18,2) é igual a Jesus no meio (Mateus 18,20).

Talvez fiquemos satisfeitos e tranquilos, e até, se calhar, cheios de razão, com a declaração final deste itinerário de correção ou de promoção: «Seja para ti como um pagão ou um publicano!» (Mateus 18,17). Mas é, talvez, exatamente aqui que se esconde a carga mais explosiva do Evangelho e se abre o seu horizonte mais amplo! Ou não é verdade que o próprio Jesus se tornou companheiro de viagem e de mesa de publicanos e de pecadores, Ele que veio curar, não os que têm saúde, mas os doentes? (Mateus 9,12; cf. Lc 5,31-32).

Uma última e imensa consideração. Não é o texto deste Domingo um exclusivo do Evangelho de Mateus? E não era Mateus um publicano? E não se abeirou dele um Dia Jesus, quando Mateus, o publicano, estava sentado no seu telónio, um pouco a norte de Cafarnaum, cobrando impostos e ouvindo insultos dos seus concidadãos? Os insultos não demoveram Mateus. Mas Jesus aproximou-se, cravou nos dois olhos tristes e cansados de Mateus os seus dois olhos repletos de amor, e disse-lhe: «Segue-me!» (Mateus 9,9). Mateus levantou-se e seguiu Jesus, e foi fazer uma grande festa para celebrar esta página nova e bela que Jesus tinha acabado de abrir na sua vida triste e cansada. Sim, este episódio é exclusivo de Mateus, porque traduz a coisa mais bela e irresistível que aconteceu na sua vida: aquele olhar bom e belo de Jesus, aquele olhar criador de Jesus, que fez Mateus levantar-se do lodaçal e perceber o poder da lógica do amor e do perdão. E de saber bem que é Jesus que está no meio!

Portanto, aquele «seja para ti como um pagão ou um publicano!» não significa que se pode pôr um ponto final no trabalho do perdão e do amor que são devidos a um irmão, e ficar com a consciência tranquila. Este «seja para ti como um pagão ou um publicano» é virar a página da análise fria e da metodologia cultural, social e profissional em curso, e começar tudo de novo, absolutamente de novo, usando agora a metodologia absolutamente nova de Jesus. A não ser assim, também já podemos antecipar que o nosso ponto final posto ao trabalho do perdão esbarraria logo a seguir com a lógica do «setenta vezes sete» de Jesus para Pedro (Mateus 18,21-22) e do Senhor da história seguinte, que é Deus, e que, de uma assentada, perdoa a um pobre servo a módica quantia de mais coisa menos coisa como o equivalente a 174 toneladas de ouro! (Mateus 18,23-27). Note-se também que os três episódios são exclusivos de Mateus, e veja-se o quão importante é termos feito um dia a experiência do perdão! Decisivo na pessoa de Mateus, e em todo o seu Evangelho, é ter sido perdoado e chamado por Jesus!

Em plena e boa sintonia, a profecia de Ezequiel (33,7-9) lembra-nos a nossa condição de sentinelas atentas e ativas, sensíveis, sempre sintonizadas em Hi-Fi, velando para que não se desperdice a força performativa da Palavra de Deus. Leia-se, em contraponto, a advertência fortíssima de Isaías: «Todas as sentinelas são cegas: não entendem; todas como cães mudos: incapazes de ladrar; sonham, ficam deitadas, gostam de dormir» (Isaías 56,10).

E sempre na mesma boa sintonia, desafia-nos S. Paulo (Romanos 13,8-10) a termos sempre boa consciência para sabermos que temos uns para com os outros uma bela dívida a pagar todos os dias: o amor mútuo. Trata-se de uma dívida de que não podemos fugir, pois não nos é permitido declarar insolvência!

Sim, não nos é permitido declarar insolvência ou adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol em família), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou e todos os dias mostrou aos seus discípulos.

António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A – 10.09.2023 (Ez 33, 7-9)
      2. Leitura II do Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A – 10.09.2023 (Rom 13, 8-10)
      3. Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A – 10.09.2023 – Lecionário
      4. Domingo XXIII do Tempo Comum – Ano A – 10.09.2023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A – 03.09.2023

Viver a Palavra

Celebramos hoje o XXII Domingo do Tempo Comum. O texto central deste Domingo – O Evangelho – pode, claramente, dividir-se em duas partes. Na primeira (vers. 21-23), Jesus anuncia aos discípulos a sua paixão; na segunda (vers. 24-28), Jesus apresenta uma instrução sobre o significado e as exigências de ser seu discípulo.
A primeira parte começa com o anúncio de Jesus de que o caminho para a ressurreição passa pelo sofrimento e pela morte na cruz. Não é uma previsão arriscada: depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois que estes rejeitaram de forma absoluta a proposta do Reino, é evidente que o judaísmo medita a eliminação física de Jesus. Jesus tem consciência disso; no entanto, não se demite do projeto do Reino e anuncia que pretende continuar a apresentar, até ao fim, os planos do Pai.

Pedro não está de acordo com este final e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos, pois Pedro continua a ser o porta-voz da comunidade) significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é muito imperfeita. Para ele, a missão do “Messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; e, na lógica de Pedro – que é a lógica do mundo – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida.

Jesus dirige-Se a Pedro com alguma dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspetiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências (de que a cruz é a expressão mais radical). Ao pedir a Jesus que não embarque nos projetos do Pai, Pedro está a repetir essas tentações que Jesus experimentou no início do seu ministério (cf. Mt 4,3-10); por isso, Mateus coloca na boca de Jesus a mesma resposta que, então, Ele deu ao diabo: “Retira-te, Satanás”. As palavras de Pedro – como as do diabo anteriormente – pretendem desviar Jesus do cumprimento dos planos do Pai; e Jesus não está disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com amor e fidelidade, os projetos de Deus.

Na segunda parte, Jesus apresenta uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo. Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega e de dom da vida.

O que é que significa, exatamente, renunciar a si mesmo? Significa renunciar ao seu egoísmo e autossuficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si próprio, preocupado apenas em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projetos de riqueza, de segurança, de bem-estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom generoso a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.

O que é que significa “tomar a cruz” de Jesus e segui-l’O? A cruz é a expressão de um amor total, radical, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. “Tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma total e completa – por amor a Deus e para que os irmãos sejam mais felizes.

No final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais eles devem abraçar a “lógica da cruz” (vers. 25-27).

Em primeiro lugar, Jesus convida-os a entender que oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos não fracassou; mas ganhou a vida eterna, a vida verdadeira que Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas (vers. 25).

Em segundo lugar, os discípulos são convidados a perceber que a vida que gozam neste mundo não é a vida definitiva. Não devem, pois, preocupar-se em preservá-la a qualquer custo: devem é procurar encontrar, já nesta terra, essa vida definitiva que passa pelo amor total e pelo dom a Deus e aos outros. É essa a grande meta que todos devem procurar alcançar (vers. 26).

Em terceiro lugar, os discípulos devem pensar no seu encontro final com Deus: nessa altura, Deus dar-lhes-á a recompensa pelas opções que fizeram… Esta alusão ao momento do juízo não é rara em Mateus: ele recorre, com alguma frequência, a esta motivação para fundamentar as exigências éticas da vida cristã. in Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Jer 20,7-9

Ambiente

Jeremias nasceu em Anatot (a norte de Jerusalém), por volta de 650 a.C. Ainda novo (por volta de 627/626 a.C.), sentiu que Deus o chamava a ser profeta. A atividade profética de Jeremias prolongou-se até depois da destruição de Jerusalém pelos babilónios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta foi, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).

Jeremias viveu numa época histórica bastante conturbada. Foi um período de grande instabilidade, de injustiças sociais gritantes, de infidelidade religiosa. Quer Joaquim (609-597 a.C.) quer Sedecias (597-586 a.C.) foram reis fracos, incapazes de responder com êxito às exigências da conjuntura internacional e de manter uma política de neutralidade em relação às grandes potências da época (sobretudo o Egipto e a Babilónia). Jeremias – convencido de que Judá estava a ser infiel a Deus ao deixar de confiar em Jahwéh e ao colocar a sua segurança e a sua esperança nas mãos dos povos estrangeiros – criticou duramente os líderes do Povo e anunciou uma invasão estrangeira, destinada a castigar os pecados de Judá.

A pregação de Jeremias não foi, no entanto, apreciada pelo Povo e pelos líderes. Considerado um “profeta da desgraça”, Jeremias apenas conseguiu criar o vazio à sua volta e viu os amigos, os familiares, os conhecidos voltarem-lhe as costas. Conheceu a solidão, o abandono, a maledicência… Acusado de traição e encarcerado (cf. Jer 37,11-16), o profeta chegou a correr perigo de vida (cf. Jer. 38,11-13).

Jeremias é o paradigma dos profetas que sofreram por causa da sua missão. De natureza sensível e cordial, homem de paz, Jeremias não foi feito para o confronto, para a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir” (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, foi continuamente objeto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam e se afastavam mal ele abria a boca. E esse homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o condenava.

Jeremias estava, verdadeiramente, apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas, nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Então, dirigia-se a Deus e censurava-O asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia.

No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões de Jeremias” e são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jer 11, 18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas “confissões”. in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se, considerando as seguintes questões:

A história de Jeremias é, em termos gerais, a história de todos aqueles que Deus chama a ser profetas. Ser sinal de Deus e dos seus valores significa enfrentar a injustiça, a opressão, o pecado e, portanto, pôr em causa os interesses egoístas e os esquemas sobre os quais, tantas vezes, se constrói a história do mundo; por isso, o “caminho profético” é um caminho onde se lida, permanentemente, com a incompreensão, com a solidão, com o risco. Deus nunca prometeu a nenhum profeta um caminho fácil de glórias e de triunfos humanos. Temos consciência disso e estamos dispostos a seguir esse caminho?

No batismo, fomos ungidos como “profetas”, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e se dirige aos homens?

Neste texto – e, em geral, em toda a vida de Jeremias – impressiona-nos o espaço fundamental que a Palavra de Deus ocupa na vida do profeta. Ela tomou conta do seu coração e dominou-o totalmente. É uma “paixão” que – apesar de ter trazido ao profeta uma história pessoal de sofrimento e de risco – não pode ser calada e sufocada. Que espaço ocupa a Palavra de Deus ocupa na minha vida? Amo, de forma apaixonada, a Palavra de Deus? Estou disposto a correr todos os riscos para que a Palavra de Deus alcance a vida dos meus irmãos e renove o mundo?

O lamento de Jeremias não deve escandalizar-nos; mas deve ser entendido no contexto de uma situação trágica de sofrimento intolerável. É o grito de um coração humano dolorido, marcado pela incompreensão dos que o rodeiam, pelo abandono, pela solidão e pelo aparente fracasso da missão a que devotou a sua vida. É o mesmo lamento de tantos homens e mulheres, em tantos momentos dramáticos de solidão, de sofrimento, de incompreensão, de dor. É a expressão da nossa finitude, da nossa fragilidade, das nossas limitações, da nossa humanidade. É precisamente nessas situações que nos dirigimos a Deus (às vezes até com expressões menos próprias) e Lhe dizemos a falta que Ele nos faz e o quanto a nossa vida é vazia e sem sentido se Ele não nos estender a sua mão. Esses momentos não são, propriamente, momentos negativos da nossa caminhada de fé e de relação com Deus; mas são momentos (talvez necessários) de crescimento e de amadurecimento, em que experimentamos a nossa fragilidade e descobrimos que, sem Deus e sem o seu amor, a nossa vida não faz sentido. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 62 (63)

Refrão: A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

LEITURA II – Rom 12,1-2

Ambiente

Depois de apresentar a sua catequese sobre o projeto de salvação que Deus tem para todos os homens (cf. Rom 1,18-11,36), Paulo vai descer a considerações de carácter mais prático, destinadas a mostrar como deve viver aquele que é chamado à salvação.

Essas indicações práticas aparecem na segunda parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 12,1-15,13). Aí Paulo apresenta um longo discurso exortativo, no qual convida os romanos (e os crentes em geral) a comportar-se de acordo com as exigências da sua condição de batizados. Aderir a Cristo e acolher a salvação que Ele veio oferecer não significa ficar no simples campo das verdades teóricas e abstratas (por muito bonitas e profundas que elas possam ser), mas exige um comportamento coerente com os valores de Jesus e com a vida nova que Ele oferece. A adesão a Jesus implica assumir atitudes, nos vários momentos e situações da vida diária, que sejam a expressão existencial desse dinamismo de vida nova que resulta do batismo.

O texto que hoje nos é proposto é a introdução à segunda parte da Carta e a esta reflexão prática sobre as exigências do caminho cristão. Apresentam-se como uma espécie de ponte entre a parte teórica (primeira parte da carta) e a parte prática (segunda parte da carta). in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

Como é que o crente deve responder aos dons de Deus? Com atos rituais solenes e formais, com orações ou gestos tradicionais repetidos de forma mecânica, com a oferta de uma “esmola” para os cofres da Igreja, com uma peregrinação a um santuário? Paulo responde: o culto que Deus quer é a nossa vida, vivida no amor, no serviço, na doação, na entrega a Deus e aos irmãos. Respondemos ao amor de Deus entregando-nos nas suas mãos, tentando perceber as suas propostas, vivendo na fidelidade aos seus projetos. Como é o culto que eu procuro prestar a Deus: é um somatório de gestos mecânicos, rituais e externos, ou é uma vida de entrega e de amor a Deus e aos homens meus irmãos?

“Não vos conformeis com este mundo” – pede Paulo. O cristão é alguém que não pactua com um mundo que se constrói à margem ou contra os valores de Deus. O cristão não pode pactuar com a violência como meio para resolver os problemas, nem com a lógica materialista do sucesso a qualquer custo, nem com as leis do neoliberalismo que deixam atrás uma multidão de vencidos e de sofredores, nem com as exigências de uma globalização que favorece alguns privilegiados, mas aumenta as bolsas de miséria e de exclusão, nem com a forma de organização de uma sociedade que condena à solidão os velhos e os doentes… Eu sou um comodista, egoisticamente instalado no meu cantinho a devorar a minha pequena fatia de felicidade, ou sou alguém que não se conforma e que luta para que os projetos de Deus se concretizem?

  • “Transformai-vos pela renovação espiritual da vossa mente” – diz Paulo. Estou instalado nos meus preconceitos, nas minhas certezas e seguranças, nos meus princípios imutáveis, ou estou sempre numa permanente escuta de Deus, dos seus caminhos, dos seus projetos e propostas? in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 16,21-27

Ambiente

O episódio que o Evangelho de hoje nos propõe vem na sequência daquele que lemos e refletimos no passado domingo. Então (cf. Mt 16,13-20), a comunidade dos discípulos expressava a sua fé em Jesus como o “Messias, Filho de Deus” (é sobre essa fé – diz Jesus – que a Igreja será edificada); agora, Jesus vai explicar a esse grupo de discípulos o sentido autêntico do seu messianismo e da sua filiação divina.
Continuamos, ainda, no âmbito da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27); no entanto, iniciamos, com este episódio, uma secção onde se privilegia a catequese sobre esse destino de cruz que aparece no horizonte próximo de Jesus (cf. Mt 16,21-17,27).

Nesta fase, as multidões ficaram para trás e os líderes já decidiram rejeitar Jesus. Quem continua a acompanhar Jesus, de forma indefetível, é o grupo dos discípulos. Eles acreditam que Jesus é o “Messias, Filho de Deus” e querem partilhar o seu destino de glória e de triunfo. Jesus vai, no entanto, explicar-lhes que o seu messianismo não passa por triunfos e êxitos humanos, mas pela cruz (cf. Mt 16,21-17,21); e vai avisá-los de que viver como discípulo é seguir esse caminho da entrega e do dom da vida (cf. Mt 17,22-27).

Mateus escreve o seu Evangelho para comunidades cristãs do final do séc. I (anos 80/90). São comunidades instaladas, que já esqueceram o fervor inicial e que se acomodaram num cristianismo morno e pouco exigente. Com a aproximação de tempos difíceis (no horizonte próximo estão já as grandes perseguições do final do séc. I), é conveniente que os crentes recordem que o caminho cristão não é um caminho fácil, percorrido no meio de êxitos e de aplausos, mas é um caminho difícil, que exige diariamente a entrega e o dom da vida. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

Frente a frente, o Evangelho deste domingo coloca a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus). A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito; garante-nos que a vida só tem sentido se estivermos do lado dos vencedores, se tivermos dinheiro em abundância, se formos reconhecidos e incensados pelas multidões, se tivermos acesso às festas onde se reúne a alta sociedade, se tivermos lugar no conselho de administração da empresa. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade. Na minha vida de cada dia, estas duas perspetivas confrontam-se, a par e passo…. Qual é a minha escolha? Na minha perspetiva, qual destas duas propostas apresenta um caminho de felicidade seguro e duradouro?

Jesus tornou-Se um de nós para concretizar os planos do Pai e propor aos homens – através do amor, do serviço, do dom da vida – o caminho da salvação, da vida verdadeira. Neste texto (como, aliás, em muitos outros), fica claramente expressa a fidelidade radical de Jesus a esse projeto. Por isso, Ele não aceita que nada nem ninguém O afaste do caminho do dom da vida: dar ouvidos à lógica do mundo e esquecer os planos de Deus é, para Jesus, uma tentação diabólica que Ele rejeita duramente. Que significado e que lugar ocupam na minha vida os projetos de Deus? Esforço-me por descobrir a vontade de Deus a meu respeito e a respeito do mundo? Estou atento a esses “sinais dos tempos” através dos quais Deus me interpela? Sou capaz de acolher e de viver com fidelidade e radicalidade as propostas de Deus, mesmo quando elas são exigentes e vão contra os meus interesses e projetos pessoais?

Quem são os verdadeiros discípulos de Jesus? Muitos de nós receberam uma catequese que insistia em ritos, em fórmulas, em práticas de piedade, em determinadas obrigações legais, mas que deixou para segundo plano o essencial: o seguimento de Jesus. A identidade cristã constrói-se à volta de Jesus e da sua proposta de vida. Que nenhum de nós tenha dúvidas: ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na igreja, organizar a festa do santo padroeiro da paróquia, ou dar-se bem com o padre… Ser cristão é, essencialmente, seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida. O cristão é aquele que faz de Jesus a referência fundamental à volta da qual constrói toda a sua existência; e é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.

O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a autossuficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus não vive fechado no seu cantinho, a olhar para si mesmo, indiferente aos dramas que se passam à sua volta, insensível às necessidades dos irmãos, alheado das lutas e reivindicações dos outros homens; mas vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.

O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências, até à morte. O seguidor de Jesus é aquele que está disposto a dar a vida para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão não tem medo de lutar contra a injustiça, a exploração, a miséria, o pecado, mesmo que isso signifique enfrentar a morte, a tortura, as represálias dos poderosos. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

VAI PARA TRÁS DE MIM!

O Evangelho deste Domingo XXII do Tempo Comum (Mateus 16,21-27) forma uma unidade de alto-a-baixo com o Evangelho do Domingo passado (XXI), em que escutámos a passagem imediatamente anterior (Mateus 16,13-20), que terminava com Jesus a ordenar aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo (Mateus 16,20). No Domingo passado não o podíamos saber. Mas hoje, que ficamos a ter acesso ao texto inteiro, já não precisamos de ficar parados no meio da ponte ou em Cesareia de Filipe, sem nunca chegarmos a Jerusalém. Na verdade, depois de ter dado aos seus discípulos aquela ordem taxativa de não dizerem a ninguém que Ele era o Cristo (Mateus 16,20), Jesus abre uma página nova logo no versículo seguinte, falando pela primeira vez, de forma explícita, da sua Paixão e Ressurreição: «começou a mostrar aos seus discípulos que é necessário (deî) – este deî implica necessidade divina ou teológica – que Ele vá para Jerusalém, sofra muito da parte dos anciãos e dos sumo-sacerdotes e dos escribas, seja morto, e ressuscite ao terceiro dia» (Mateus 16,21).

Ouvindo estes dizeres incríveis de Jesus, Pedro tomou-o consigo à parte e começou a recriminá-lo, dizendo: «Isso não te há de acontecer» (Mateus 16,22). Aí está como Pedro não viu as palavras que disse: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16), como vindas do Pai, por graça, mas como sua produção própria, dentro da sua cultura e religiosidade, colhidas na torrente da tradição religiosa judaica. Para Pedro, tudo normal. Mas atenção que, o que aconteceu com Pedro, acontece connosco muitas vezes, tantas são as ocasiões em que não chegamos a compreender que anda por ali a graça de Deus.

E é aqui que Jesus diz a Pedro estas palavras duríssimas e corretivas: «Vai para trás de mim (hýpage opísô mou), satanás! Pedra de tropeço (skándalon) és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as coisas dos homens» (Mateus 16,23). Note-se que «atrás de mim» é o lugar do discípulo, exatamente o lugar que Pedro deve ocupar e para o qual foi chamado. «Vinde atrás de mim» (deûte opísô mou), são estas as palavras que Jesus dirige a Pedro e a André, aquando do seu chamamento (Mateus 4,19). Portanto, Pedro deve seguir atentamente atrás de Jesus, e não se postar à sua frente para lhe barrar o caminho, e tentar que Jesus siga as ideias que Pedro colheu acerca do Cristo na torrente da tradição cultural e religiosa judaica. O apelativo de «satanás» tem aqui o vulgar significado hebraico de «separador» e «adversário». Em nome dos nossos princípios cómodos adquiridos, ignoramos ou não queremos saber da graça de Deus que agora nos indica outros caminhos. E o texto prossegue no mesmo tom determinado, com Jesus a dizer aos seus discípulos que, para o seguirem, é preciso dizer não a si mesmos (aparnéomai), e carregar a cruz todos os dias, perder a vida para a ganhar. Dizer não a si mesmos e seguir Jesus (Mateus 16,24) implica pôr em Jesus a sua confiança, e não nos bens, que nos gritam todos os dias: «confia em nós!» (apólogo judaico de 1700). «Perder a vida por causa de mim» (Mateus 16,25), diz Jesus. Entenda-se: perder a vida desta maneira é perder-se nos caminhos de Jesus, «imitando-o verdadeiramente, e não segui-l’O só com os pés», para o dizer com as palavras de Erasmo de Roterdão (1469-1536).

Por aqui se vê por que razão Jesus ordenou aos seus discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Cristo. Pedro tinha dito: «Tu és o Cristo!». Mas, como acabámos de ver, fosse qual fosse a ideia que Pedro tivesse de «Cristo», nela não cabia ainda o sofrimento, a rejeição, a morte, a ressurreição, e muito menos a adesão pessoal de Pedro a este «Cristo», a um «Cristo» assim (Mateus 16,21-22). O que Pedro sabia era o que vinha na torrente do judaísmo desde há muito tempo: que o Cristo vinha para triunfar, para ter sucesso, para estabelecer um mundo de excelência para os judeus, libertando-os dos seus adversários. Viria, enfim, pôr fim a todas as necessidades, discórdias e disputas, à guerra, à doença e à velhice, a tudo aquilo que perturba e diminui os níveis da nossa vida. Ele viria trazer a plenitude da vida. É por isto que Pedro e aqueles discípulos seguem Jesus, e não porque andem à procura de novas ideias religiosas, ou queiram aprender alguma oração nova. Portanto, se os discípulos de Jesus fossem dizer que Ele era o Cristo, era isto que iam dizer, e era isto que a sua audiência judaica ia perceber. Gerar-se-ia uma onda de entusiasmo popular, que soaria a falso, como quando nós falamos de messianismo.

O que é que nós dizemos quando dizemos Cristo? E a nossa maneira de viver é verdadeiramente a de quem segue Cristo? Não o Cristo da tradição e do sucesso, mas o Cristo de Deus?

O caminho de Jesus é paradoxal e provocatório. Assim o considerou Pedro, mal ouviu a versão nova de Jesus acerca do seu messianismo. Demorou tempo, equivocou-se várias vezes, ficou parado no caminho, aqueceu-se a outro lume, mas quando foi atingido em cheio pela graça, seguiu Jesus apaixonadamente até ao sangue, não apenas com os pés, portanto. É neste caminho ardente que se pode inserir mais uma passagem das chamadas «confissões» de Jeremias, hoje Jeremias 20,7-9. Olhando para o rastro da sua vida, Jeremias confessa que foi irresistivelmente seduzido pelo seu Deus, para logo o acusar, no limite da blasfémia, de velhacaria e engano, pois o abandonou à sua sorte, colocando-lhe na boca palavras violentas e deixando-o à mercê dos seus opressores, que zombam dele e o torturam sem descanso. Neste contexto, Jeremias confessa-se desanimado e tentado a abandonar a sua missão de profeta. Mas a Palavra de Deus volta a assaltá-lo como um fogo, uma lava ardente de que não se pode fugir, pois arde dentro de nós (Jeremias 20,9).

As «confissões» de Jeremias encontram-se em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia-dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias e subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá.

Não coisas exteriores a nós, mas nós mesmos em oferta a Deus, eis o culto lógico (latreía logikê), isto é, racional, integral, pessoal, que Paulo nos exorta a prestar a Deus, conforme a lição de hoje (Romanos 12,1-2), um texto curto, mas imenso. Claro, tudo sempre envolvido na graça preveniente, concomitante e consequente que nos vem de Deus e nos enche de bondade e de beleza, e que faz da nossa vida sacrifício agradável a Deus.

De toda esta intensidade faz eco o Salmo 63, conhecido como «o canto do amor místico», em que o orante descreve a sua sede psicobiológica de Deus. Sem Deus, estiola e morre. Santa Teresa de Ávila, de quem, em 2015, celebrámos o V Centenário do seu nascimento, descreveu assim esta sede, no seu Caminho de perfeição: «A sede exprime o desejo de uma coisa, mas um desejo de tal modo intenso, que morremos se não o saciarmos».

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A – 03.09.2023 (Jer 20,7-9)
  2. Leitura II do Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A – 03.09.2023 (Rom 12, 1-2)
  3. Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A – 03.09.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXII do Tempo Comum – Ano A – 03.09.2023 – Oração Universal
  5. Mensagem Papa Francisco para Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação – 1 setembro 2023
  6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A – 27.08.2023

Viver a Palavra

No centro da reflexão que a liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum do Ano A nos propõe, estão dois temas à volta dos quais se constrói e se estrutura toda a existência cristã: Cristo e a Igreja

O texto do Evangelho de hoje pode, portanto, dividir-se em duas partes. A primeira, de carácter mais cristológico, centra-se em Jesus e na definição da sua identidade. A segunda, de carácter mais eclesiológico, centra-se na Igreja, que Jesus convoca à volta de Pedro.

Na primeira parte (vers. 13-16), Jesus interroga duplamente os discípulos: acerca do que as pessoas dizem dele e acerca do que os próprios discípulos pensam.

A opinião dos “homens” vê Jesus em continuidade com o passado (“João Baptista”, “Elias”, “Jeremias” ou “algum dos profetas”). Não captam a condição única de Jesus, a sua novidade, a sua originalidade. Reconhecem, apenas, que Jesus é um homem convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão – como os profetas do Antigo Testamento… Mas não vão além disso. Na perspetiva dos “homens”, Jesus é, apenas, um homem bom, justo, generoso, que escutou os apelos de Deus e que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele (vers. 13-14). É muito, mas não é o suficiente: significa que os “homens” não entenderam a novidade do Messias, nem a profundidade do mistério de Jesus.

A opinião dos discípulos acerca de Jesus vai muito além da opinião comum. Pedro, porta-voz da comunidade dos discípulos, resume o sentir da comunidade do Reino na expressão: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (vers. 16). Nestes dois títulos resume-se a fé da Igreja de Mateus e a catequese aí feita sobre Jesus. Dizer que Jesus é “o Cristo” (Messias) significa dizer que Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o seu Povo e para lhe oferecer a salvação definitiva. No entanto, para os membros da comunidade do Reino, Jesus não é apenas o Messias: é também o “Filho de Deus”. No Antigo Testamento, a expressão “Filho de Deus” é aplicada aos anjos (cf. Dt 32,8; Sal 29,1; 89,7; Job 1,6), ao Povo eleito (cf. Ex 4,22; Os 11,1; Jer 3,19), aos vários membros do Povo de Deus (cf. Dt 14,1-2; Is 1,2; 30,1.9; Jer 3,14), ao rei (cf. 2 Sm 7,14) e ao Messias/rei da linhagem de David (cf. Sal 2,7; 89,27). Designa a condição de alguém que tem uma relação particular com Deus, a quem Deus elegeu e a quem Deus confiou uma missão. Definir Jesus como o “Filho de Deus” significa, não só que Ele recebe vida de Deus, mas que vive em total comunhão com Deus, que desenvolve com Deus uma relação de profunda intimidade e que Deus Lhe confiou uma missão única para a salvação dos homens; significa reconhecer a profunda unidade e intimidade entre Jesus e o Pai e que Jesus conhece e realiza os projetos do Pai no meio dos homens. Os discípulos são convidados a entender dessa forma o mistério de Jesus.

Na segunda parte (vers. 17-20), temos a resposta de Jesus à confissão de fé da comunidade dos discípulos, apresentada pela voz de Pedro. Jesus começa por felicitar Pedro (isto é, a comunidade) pela clareza da fé que o anima. No entanto, essa fé não é mérito de Pedro, mas um dom de Deus (“não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus” – vers. 17). Pedro (os discípulos) pertence a essa categoria dos “pobres”, dos “simples”, abertos à novidade de Deus, que têm um coração disponível para acolher os dons e as propostas de Deus (esses “pobres” e “simples” estão em contraposição com os líderes – fariseus, doutores da Lei, escribas – instalados nas suas certezas, seguranças e preconceitos, incapazes de abrir o coração aos desafios de Deus).

O que é que significa Jesus dizer a Pedro que ele é “a rocha” (o nome “Pedro” é a tradução grega do hebraico “Kephâ” – “rocha”) sobre a qual a Igreja de Jesus vai ser construída? As palavras de Jesus têm de ser vistas no contexto da confissão de fé precedente. Mateus está, portanto, a afirmar que a base firme e inamovível sobre a qual vai assentar a Ekklesia de Jesus é a fé que Pedro e a comunidade dos discípulos professam: a fé em Jesus como o Messias, Filho de Deus vivo.

Para que seja possível a Pedro testemunhar que Jesus é o Messias Filho de Deus e edificar a comunidade do Reino, Jesus promete-lhe “as chaves do Reino dos céus” e o poder de “ligar e desligar”. A entrega das chaves equivale à nomeação do “administrador do palácio” de que falava a primeira leitura: o “administrador do palácio”, entre outras coisas, administrava os bens do soberano, fixava o horário da abertura e do fechamento das portas do palácio e definia quais os visitantes a introduzir junto do soberano… Por outro lado, a expressão “atar e desatar” designava, entre os judeus da época, o poder para interpretar a Lei com autoridade, para declarar o que era ou não permitido, para excluir ou reintroduzir alguém na comunidade do Povo de Deus. Assim, Jesus nomeia Pedro para “administrador” e supervisor da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (atenção: todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino; mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos).
Trata-se, aqui, de confiar a um homem (Pedro) um primado, um papel de liderança absoluta (o poder das chaves, o poder de ligar e desligar) da comunidade dos discípulos? Ou Pedro é, aqui, um discípulo que dá voz a todos aqueles que acreditam em Jesus e que representa a comunidade dos discípulos? É difícil, a partir deste texto, fazer afirmações concludentes e definitivas. O poder de “ligar e desligar”, por exemplo, aparece noutro contexto, confiado à totalidade da comunidade e não a Pedro em exclusivo (cf. Mt 18,18). Provavelmente, o mais correto é ver em Pedro o protótipo do discípulo; nele, está representada essa comunidade que se reúne à volta de Jesus e que proclama a sua fé em Jesus como o “Messias” e o “Filho de Deus”. É a essa comunidade, representada por Pedro, que Jesus confia as chaves do Reino e o poder de acolher ou excluir. Isso não invalida que Pedro fosse uma figura de referência para os primeiros cristãos e que desempenhasse um papel de primeiro plano na animação da Igreja nascente, sobretudo nas comunidades da Síria (as comunidades a que o Evangelho de Mateus se destina). in Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 22,19-23

Ambiente

O profeta Isaías nasceu por de 760 a.C., muito provavelmente em Jerusalém. Bastante jovem, sentiu-se chamado por Deus para ser profeta (“no ano da morte do rei Ozias” – Is 6,1 – o que nos coloca por volta de 740-739 a.C.); e vai desempenhar essa missão durante um longo espaço de tempo (os seus últimos oráculos são de finais do séc. VIII ou princípios do séc. VII a.C.), sendo uma espécie de consciência crítica dos vários reis que, nessa fase, presidiram aos destinos do Povo de Deus. De família nobre, Isaías é um homem culto, decidido, enérgico, que frequenta os círculos de poder e faz parte dos notáveis do reino de Judá. Participa nas decisões relativas à condução do reino, fala com autoridade aos altos funcionários (cf. Is 22,15) e mesmo aos reis (cf. Is 7,10). No entanto, isso não significa que apoie as classes altas: os seus maiores ataques são dirigidos aos grupos dominantes – autoridades, juízes, latifundiários, políticos, mulheres da classe alta que vivem num luxo escandaloso (cf. Is 3,16-25)… Defende com paixão os oprimidos, os órfãos, as viúvas (cf. Is 1,17), o povo explorado e desencaminhado pelos governantes (Is 3,12-15). Convida continuamente o seu povo à conversão, pedindo-lhe que se volte para Jahwéh, que respeite os compromissos assumidos, que reaprenda a viver no âmbito da Aliança, que coloque outra vez Deus e os seus mandamentos no centro da vida e da história.

O oráculo de Isaías que nos é hoje proposto leva-nos à época do rei Ezequias. Em 714 a.C., Ezequias atinge a maioridade e toma conta dos destinos de Judá. Movido pelo desejo de reforma religiosa e de independência política, Ezequias manifestará uma certa propensão para alinhar em alianças políticas contra os assírios (que, desde o reinado de Acaz, mantêm Judá sob a sua autoridade). Em resposta, Senaquerib volta-se contra Judá e devasta-a… Em 701 a.C., Jerusalém é cercada pelos assírios e Ezequias tem de aceitar uma submissão ainda mais onerosa do que a anterior.

O episódio que nos é narrado, contudo, não se refere aos grandes acontecimentos políticos em que Judá, por esta altura, se vê envolvido. Refere-se, antes, a um episódio doméstico da vida do palácio. Quer Shebna, quer Elyaqîm, aqui referenciados, são altos funcionários de Ezequias, que o segundo livro dos Reis cita a propósito de um episódio relacionado com a invasão de Senaquerib (cf. 2 Re 18,18.26.37). in Dehonianos.

A reflexão pode partir das seguintes questões:

O texto convida-nos a uma reflexão sobre a lógica e o sentido do poder…. Sugere que o poder é um serviço à comunidade. Quem exerce o poder, deverá fazê-lo com a solicitude, o cuidado, a bondade, a compreensão, a tolerância, a misericórdia, e também com a firmeza com que um pai conduz e orienta os seus filhos. Nessa perspetiva, o serviço da autoridade não é uma questão de poder, mas é uma questão de amor. Será impensável considerar que alguém pode desempenhar com êxito cargos de responsabilidade, se não for guiado pelo amor. É esta mesma lógica que os cristãos devem exigir, seja no exercício do poder civil, seja no exercício do poder no âmbito da comunidade cristã.

O exercício do poder, quer para Shebna, quer para Elyaqîm, aparece associado à corrupção, à venalidade, ao aproveitamento do serviço da autoridade para a concretização de finalidades egoístas, interesseiras, pessoais. A Palavra de Deus que nos é proposta vai em sentido contrário: o exercício do poder só faz sentido enquanto está ao serviço do bem comunitário… O exercício de um cargo público supõe, precisamente, a secundarização dos interesses próprios em benefício do bem comum. in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 137 (138)

Refrão: Senhor, a vossa misericórdia é eterna:
não abandoneis a obra das vossas mãos.

LEITURA II – Rom 11,33-36

Ambiente

Nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos, Paulo reflete sobre a questão do acesso de Israel à salvação. A questão aí abordada é a seguinte: Israel rejeitou oferta da salvação que Deus fez aos homens, através de Jesus Cristo; isso significa que Israel está, definitivamente, arredado da salvação?

Paulo não concorda. Ele acha que Deus – esse Deus que prometeu a salvação a Israel – não pode ser infiel às suas promessas. Talvez Ele tenha deixado que Israel, num primeiro momento, recusasse a salvação, para que os gentios pudessem beneficiar dos dons de Deus… Deus “escreve direito por linhas tortas” e pode ter permitido algo de aparentemente mau, para daí tirar um bem maior.

De resto, Israel foi, desde os primeiros instantes da sua existência, chamado a ser o Povo de Deus; e esse chamamento é irrevogável. O Povo eleito, chamado por Deus desde os seus inícios, não pode deixar de ser objeto especial da misericórdia de Deus.

O texto que nos é hoje proposto é a conclusão da reflexão de Paulo. Trata-se de um belíssimo hino de louvor, de reconhecimento e de adoração que exalta o desígnio salvador de Deus. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

Antes de mais, o nosso texto convida-nos a refletir sobre Deus… Convida-nos a mergulhar no seu mistério, a reconhecer a sua riqueza, sabedoria e ciência; convida-nos a reconhecer a nossa incapacidade de entender cabalmente os seus projetos; convida-nos a perceber que Deus, na sua infinita sabedoria, nos ultrapassa completamente. Por isso, precisamos de ter cuidado com as imagens de Deus que criamos e que apresentamos… O nosso Deus não é um Deus “domesticado” pelo homem, previsível, fantoche, lógico pelos padrões humanos, que se encaixa nas teorias de uma qualquer igreja ou catequese… O verdadeiro crente não é aquele que “sabe” tudo sobre Deus, que tem respostas feitas sobre Ele, que pretende conhecê-l’O perfeitamente e dominá-l’O; mas é aquele que, com honestidade e verdade, mergulha na infinita grandeza de Deus, abisma-se na contemplação do seu mistério, entrega-se confiadamente nas suas mãos… e deixa que o seu espanto e admiração se transformem num cântico de adoração e de louvor.

Esse Deus omnipotente, que nunca conseguiremos definir, controlar e explicar não é um concorrente ou um adversário do homem, preocupado em afirmar a sua grandeza e omnipotência à custa da humilhação do homem… Mas é um pai, preocupado com a felicidade dos seus filhos e com um projeto de salvação que Ele pretende que os homens acolham. É verdade que muitas vezes não percebemos o alcance desse projeto; mas se virmos em Deus, não um concorrente, mas um pai cheio de amor, aprenderemos a não nos fecharmos no orgulho e na autossuficiência e a acolhermos, com gratidão, os seus dons – como um menino que recebe do pai a vida, o alimento, o afeto, o amor. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 16,13-20

Ambiente

O Evangelho deste domingo situa-nos no Norte da Galileia, perto das nascentes do rio Jordão, em Cesareia de Filipe (na zona da atual Bânias). A cidade tinha sido construída por Herodes Filipe (filho de Herodes o Grande) no ano 2 ou 3 a.C., em honra do imperador Augusto.

O episódio que nos é proposto ocupa um lugar central no Evangelho de Mateus. Aparece num momento de viragem, quando começa a perfilar-se no horizonte de Jesus um destino de cruz. Depois do êxito inicial do seu ministério, Jesus experimenta a oposição dos líderes e um certo desinteresse por parte do Povo. A sua proposta do Reino não é acolhida, senão por um pequeno grupo – o grupo dos discípulos.

É, então, que Jesus dirige aos discípulos uma série de perguntas sobre si próprio. Não se trata, tanto, de medir a sua quota de popularidade; trata-se, sobretudo, de tornar as coisas mais claras para os discípulos e confirmá-los na sua opção de seguir Jesus e de apostar no Reino.

O relato de Mateus é um pouco diferente do relato do mesmo episódio feito por outros evangelistas (nomeadamente Marcos – cf. Mc 8,27-30). Mateus remodelou e ampliou o texto de Marcos, acrescentando a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus e a missão confiada a Pedro. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes dados:

Quem é Jesus? O que é que “os homens” dizem de Jesus? Muitos dos nossos conterrâneos veem em Jesus um homem bom, generoso, atento aos sofrimentos dos outros, que sonhou com um mundo diferente; outros veem em Jesus um admirável “mestre” de moral, que tinha uma proposta de vida “interessante”, mas que não conseguiu impor os seus valores; alguns veem em Jesus um admirável condutor de massas, que acendeu a esperança nos corações das multidões carentes e órfãs, mas que passou de moda quando as multidões deixaram de se interessar pelo fenómeno; outros, ainda, veem em Jesus um revolucionário, ingénuo e inconsequente, preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos, preocupados em manter o “status quo”. Estas visões apresentam Jesus como “um homem” – embora “um homem” excecional, que marcou a história e deixou uma recordação imorredoira. Jesus foi, apenas, um “homem” que deixou a sua pegada na história, como tantos outros que a história absorveu e digeriu?

Para os discípulos, Jesus foi bem mais do que “um homem”. Ele foi e é “o Messias, o Filho de Deus vivo”. Defini-l’O dessa forma significa reconhecer em Jesus o Deus que o Pai enviou ao mundo com uma proposta de salvação e de vida plena, destinada a todos os homens. A proposta que Ele apresentou não é apenas uma proposta de “um homem” bom, generoso, clarividente, que podemos admirar de longe e aceitar ou não; mas é uma proposta de Deus, destinada a tornar cada homem ou cada mulher uma pessoa nova, capaz de caminhar ao encontro de Deus e de chegar à vida plena da felicidade sem fim. A diferença entre o “homem bom” e o “Messias, Filho de Deus”, é a diferença entre alguém a quem admiramos e que é igual a nós, e alguém que nos transforma, que nos renova e que nos encaminha para a vida eterna e verdadeira.

“E vós, quem dizeis que Eu sou?” É uma pergunta que deve, de forma constante, ecoar nos nossos ouvidos e no nosso coração. Responder a esta questão não significa papaguear lições de catequese ou tratados de teologia, mas sim interrogar o nosso coração e tentar perceber qual é o lugar que Cristo ocupa na nossa existência… Responder a esta questão obriga-nos a pensar no significado que Cristo tem na nossa vida, na atenção que damos às suas propostas, na importância que os seus valores assumem nas nossas opções, no esforço que fazemos ou que não fazemos para o seguir… Quem é Cristo para mim?

É sobre a fé dos discípulos (isto é, sobre a sua adesão ao Cristo libertador e salvador, que veio do Pai ao encontro dos homens com uma proposta de vida eterna e verdadeira) que se constrói a Igreja de Jesus. O que é a Igreja? O nosso texto responde de forma clara: é a comunidade dos discípulos que reconhecem Jesus como “o Messias, o Filho de Deus”. Que lugar ocupa Jesus na nossa experiência de caminhada em Igreja? Porque é que estamos na Igreja: é por causa de Jesus Cristo, ou é por outras causas (tradição, inércia, promoção pessoal…)?

A Igreja de Jesus não existe, no entanto, para ficar a olhar para o céu, numa contemplação estéril e inconsequente do “Messias, Filho de Deus”; mas existe para O testemunhar e para levar a cada homem e a cada mulher a proposta de salvação que Cristo veio oferecer. Temos consciência desta dimensão “profética” e missionária da Igreja? Os homens e as mulheres com quem contactamos no dia a dia – em casa, no emprego, na escola, na rua, no prédio, nos acontecimentos sociais – recebem de nós este anúncio e este convite a integrar a comunidade da salvação?

A comunidade dos discípulos é uma comunidade organizada e estruturada, onde existem pessoas que presidem e que desempenham o serviço da autoridade. Essa autoridade não é, no entanto, absoluta; mas é uma autoridade que deve, constantemente, ser amor e serviço. Sobretudo, é uma autoridade que deve procurar discernir, em cada momento, as propostas de Cristo e a interpelação que Ele lança aos discípulos e a todos os homens. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

DIZER JESUS

Cesareia de Filipe, atual Banyas, na tetrarquia de Filipe, um dos filhos de Herodes o Grande, é o lugar certo para se pôr a questão da identidade de JESUS, que atravessa o Evangelho (Mateus 16,13-20) deste Domingo XXI do Tempo Comum. Cesareia de Filipe, onde se encontra uma das nascentes do rio Jordão, respirava o paganismo do deus Pã e também o culto do Imperador. Ali construiu Herodes um templo dedicado ao Imperador César Augusto, e o tetrarca Filipe, filho de Herodes, deu à cidade, antes conhecida por Pânias, em honra do deus Pã, o nome de Cesareia, também em honra de César Augusto. Dela resta hoje a gruta do deus Pã, lugar que os peregrinos da Terra Santa costumam visitar.

É aí, em Cesareia de Filipe, cidade marcada pelo paganismo e pelo culto do Imperador, que Jesus põe a questão da sua identidade. Soberanamente Jesus pergunta: «Quem dizem as pessoas que é o Filho do Homem?» (Mateus 16,13). Dizem-lhe que o povo pensa que Jesus é um profeta. Um entre muitos: antes dele apareceram muitos; depois dele, outros poderão aparecer. De qualquer modo, dá-se a entender que o povo não vê em Jesus uma pessoa singular e única. Ouvida esta resposta, Jesus avança, logo de seguida, de forma direta e enfática, com uma nova pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15). A esta nova pergunta, posta por Jesus aos seus discípulos que de há muito o seguiam, Simão Pedro foi rápido a responder: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!» (Mateus 16,16). Jesus declara «Feliz» (makários) Simão, filho de Jonas, não por achar que ele reunia competência humana para expressar aquele dizer, mas por saber que o tinha recebido do Pai (Mateus 16,17). Chamado por Jesus (Mateus 4,18-19). Predestinado pelo Pai (Romanos 8,29-30).

De forma diferente do povo, Simão Pedro atinge a singularidade de Jesus. Enquanto Cristo ou Messias, Jesus não é um entre muitos. É único, primeiro e último, definitivo, enviado por Deus para dar à humanidade a plenitude da vida. Sim, enquanto Filho do Deus vivo, Jesus está com o Pai numa relação singular de conhecimento, igualdade, vida. Tal como o Pai, o Filho é a vida em si mesmo. É sobre este dizer de Simão Pedro e sobre o Simão Pedro deste dizerdizer, não seu, mas recebido do Pai, que Jesus declara que construirá a sua Igreja (Mateus 16,18). Note-se a assonância «Pétros» – «pétra». Mas note-se também que quem constrói a Igreja é Jesus, e não Pedro, e a Igreja a construir também é de Jesus, e não de Pedro: «sobre esta pedra (pétra) construirei a minha Igreja», diz Jesus. Em todo o Novo Testamento, só Jesus e Pedro recebem o apelativo de «pedra». «Rocha», «rochedo», «pedra firme» diz-se, em hebraico, tsûr ou sela‘, terminologia usada no Antigo Testamento por 33 vezes para dizer Deus e a solidez do seu amor fiel. Veja-se, por exemplo, na boca e no coração do Salmista: «O Senhor é a minha Rocha (sela‘) e a minha fortaleza (…), nele me abrigo, meu Rochedo (tsûr), meu escudo e meu baluarte, minha torre forte e meu refúgio» (Salmo 18,3).

Mas a forma originária para designar a rocha é keph, aramaico kêpha’, que mostra a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos, mas várias vezes em Paulo (1 Coríntios 1,12; 3,22; 9,5; 15,5; Gálatas 1,18; 2,9.11.14); kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, e cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kaporet, cobertura, perdão. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas. Esta terminologia abre para um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos e alimentados.

Note-se bem a precisão da pergunta de Jesus. De facto, Jesus não pede aos seus discípulos que se pronunciem ou deem a sua opinião acerca do Sermão da Montanha ou sobre outro assunto qualquer, por importante que possa ser ou parecer. A pergunta de Jesus é acerca de Si mesmo, da sua própria identidade, e do grau de implicação dos discípulos com Ele. Daí que Jesus pergunte sobre o dizer. Pedro diz. Não se trata de pensar ou opinar. Trata-se de dizer. Quem diz, compromete-se. Por isso, face ao dizer de Pedro, Jesus declara de seguida: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus» (Mateus 16,19). As chaves representam um saber e um poder. Falamos de chaves de uma casa, de uma cidade, de um tesouro, da leitura de um texto. Quem as possui, possui um poder em sede administrativa, jurídica, científica, interpretativa. É assim que o texto de Isaías 22,19-23 fala hoje do «rito das chaves» e do poder retirado a Shebna e conferido a Eliaqîm.

As chaves do Reino dos Céus são as chaves do amor e do perdão, traves-mestras de uma comunidade unida e confiante, com os pés na terra e o olhar fixo em Deus. Diz, na verdade, a Constituição Dogmática Lumen Gentium: «Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo» (n.º 9).

É importante, porque esclarecedora e mobilizadora, esta nota do Concílio Vaticano II. De facto, Pedro é a Pedra e tem as Chaves do Reino dos Céus, e é-lhe ainda dada a autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar: «Tudo o que ligares (dêsês: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeménon: part. perf. pass. de déô) nos Céus, e tudo o que desligares (lýsês: conj. aor. de lýô) sobre a terra, ficará para sempre desligado (lelyménon: part. perf. pass. de lýô) nos Céus» (Mateus 16,19). Todavia, esta autoridade de ligar-desligar, isto é, de perdoar, é também confiada à inteira comunidade, exatamente nos mesmos termos em que é confiada a Pedro: «Em verdade vos digo: tudo o que ligardes (dêsête: conj. aor. de déô) sobre a terra, ficará para sempre ligado (dedeména: part. perf. pass. de déô) no céu, e tudo o que desligardes (lýsête: conj. aor. de lýô) na terra, ficará para sempre desligado (lelyména: part. perf. pass. de lýô) no céu» (Mateus 18,18). A inteira comunidade assente na Pedra, que é Pedro, com Pedro, como Pedro, não alijando responsabilidades, mas operante na prática quotidiana do Perdão!

O texto do Evangelho de hoje termina registando a ordem taxativa de Jesus aos seus discípulos para não dizerem a ninguém que Ele é o Cristo (Mateus 16,20). O texto inteiro deste Evangelho (Mateus 16,13-20) é, então, percorrido por um dizer, e fecha com um não-dizer. Trata-se de um dizer novo, não meramente convencional ou tradicional. Não basta dizer um conjunto de palavras que vêm na torrente da tradição, que se recolhem, e se voltam a dizer. É assim que Pedro respondeu bem [«Tu és o Cristo»], e é louvado por isso. Não obstante, Jesus não quer que os discípulos passem esse dizer a ninguém (Mateus 16,20). Por que será?

Para sabermos a razão, temos de esperar pelo próximo Domingo (XXII), pois é aí que escutaremos Mateus 16,21-28, o seguimento imediato do texto deste Domingo XXI (Mateus 16,13-20). Na verdade, o texto integral de Mateus 16,13-28, dividido por estes dois Domingos, forma uma unidade incindível.

Entretanto, que o nosso coração esteja cheio do amor primeiro de Deus, e que o louvor que lhe é devido encha os dias da nossa vida. É a bela oração de Paulo na Carta aos Romanos 11,33-36.

À bela oração de Paulo junta-se hoje a voz do orante do Salmo 138 com a sua bela Ação de Graças, que é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A – 27.08.2023 (Is 22, 19-23)
  2. Leitura II do Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A – 27.08.2023 (Rom 11,33-36)
  3. Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A – 27.08.2023 – Lecionário
  4. Domingo XXI do Tempo Comum – Ano A – 27.08.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XX do Tempo Comum – Ano A – 20.08.2023

25Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor.» 26Ele respondeu-lhe: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros.» 27Retorquiu ela: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.» 28Então, Jesus respondeu-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas.» E, a partir desse instante, a filha dela achou-se curada. Mt, 15, 25-28

Viver a Palavra

Hoje na Liturgia da Palavra somos interpelados por um relato entre Jesus de Nazaré e uma fenícia, mulher de grande Fé. Um grande desafio para o Mestre interpelado por uma não judia.

As três intervenções da mulher fenícia mostram, por um lado, a sua ânsia de salvação; e, por outro, a fé firme e convicta que a anima (as designações “filho de David” – que equivale a “Messias” – e “Senhor” – “Kyrios” – com que ela se dirige a Jesus, lidas em contexto cristão, equivalem a uma confissão de fé). É uma figura que nos impressiona pela fé, pela humildade e também pelo sofrimento que transparece no seu apelo.
Surpreende-nos depois, numa primeira leitura, a forma dura como Jesus trata esta mulher que pede ajuda. Ele começa por passar em silêncio, aparentemente insensível aos apelos da mulher (vers. 23). Depois, perante a insistência dos discípulos, responde: “não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (vers. 24). Finalmente, diante do dramático último apelo da mulher (“socorre-me, Senhor”), responde: “não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cães” (vers. 26).

Como entender esta atitude rude e insensível do mestre galileu, sempre preocupado em traduzir em gestos concretos o amor e a misericórdia de Deus pelos homens? A reação de Jesus será fruto da convicção de que, de acordo com o plano de Deus, a salvação devia derramar-se, em primeiro lugar, pelos judeus, antes de alcançar os gentios?

A atitude de Jesus faz sentido, se a virmos como uma estratégia pedagógica, destinada a mostrar o sem sentido dos preconceitos judaicos contra os pagãos. Jesus conduziu o jogo de forma a demonstrar como eram ridículas as atitudes de discriminação dos pagãos, propostas pela catequese oficial judaica. Endurecendo progressivamente a sua atitude face ao apelo que lhe foi feito pela “cananeia”, Jesus dá à mulher a possibilidade de demonstrar a firmeza e a convicção da sua fé e prova aos judeus que os pagãos são bem dignos – talvez mais dignos do que esses “santos” membros do Povo de Deus – de se sentar à mesa do Reino. Esta mulher, na sua humildade, nem sequer reivindica equiparar-se a esse Povo eleito, convidado por Deus para o banquete do Reino… Ela está disposta a ficar apenas com “as migalhas” que caem da mesa (vers. 27); mas pede insistentemente que lhe permitam ter acesso a essa salvação que Jesus traz. Ao contrário, os fariseus e doutores da Lei, fechados na sua autossuficiência e nos seus preconceitos, rejeitam continuamente essa salvação que Jesus não cessa de lhes oferecer.

No final de toda esta caminhada de afirmação da “bondade” e do “merecimento” desses pagãos que a teologia oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: “Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas”. A afirmação de Jesus significa: “na verdade tu estás disposta a acolher-Me como o enviado do Pai e a aceitar o pão do Reino, o pão com que Deus mata a fome de vida de todos os seus filhos. Recebe essa salvação que se destina a todos aqueles que têm o coração aberto aos dons de Deus”.

É possível que Mateus esteja, nesta catequese, a responder a uma situação concreta da sua comunidade… Nos finais do século primeiro (o Evangelho segundo Mateus aparece durante a década de oitenta), alguns judeo-cristãos ainda tinham dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja de Jesus. Mateus recorda-lhes, então, que para Jesus o que é decisivo não é a raça, a história, a eleição, mas a adesão firme e convicta à proposta de salvação que, em Jesus, Deus faz aos homens.

O texto mostra que a proposta de Jesus é para todos. A comunidade de Jesus é, verdadeiramente, uma comunidade universal. Aquilo que é decisivo, no acesso à salvação, é a fé – isto é, a capacidade de aderir a Jesus e à sua proposta de vida. in Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 56,1.6-7

Ambiente

A primeira leitura deste domingo faz parte de um bloco de textos a que se convencionou chamar “Trito-Isaías” (cfr. Is 56-66). Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílio, que exerceu o seu ministério em Jerusalém, entre os retornados da Babilónia, nos anos 537-520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de uma pluralidade de autores, e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente entre os séc. VI e V a.C.). Estamos, em qualquer caso, na época pós-exílica.

Não é uma época fácil. Os retornados estão desiludidos, pois a tarefa da reconstrução apresenta-se demorada e difícil. O país está arruinado, as cidades destruídas e desabitadas, os campos incultos e abandonados. Os ricos bem depressa começam a oprimir os pobres e a esmagar os humildes. Do ponto de vista religioso, o ambiente caracteriza-se pela incompreensão dos planos de Deus, pelo ceticismo e desconfiança, por um culto meramente exterior e pelo retorno às práticas idolátricas. Nesta fase, desempenham um papel fundamental o sacerdote Josué e o governador Zorobabel, responsáveis pelos trabalhos de reconstrução do Templo.

Como é que os regressados a Jerusalém se relacionam, nesta fase, com os outros povos? A resposta não é clara, até porque não conhecemos bem este período da história do Povo de Deus. Alguns textos desta época mostram uma certa abertura à universalidade, sugerindo que o exílio, ao permitir o contacto com outras realidades culturais e religiosas, levou o Povo de Deus a uma certa tolerância para com as outras nações… No entanto, outros textos da época manifestam um fechamento cada vez mais acentuado (além da experiência dramática do exílio, a oposição dos povos vizinhos na altura em que os retornados tentam reconstruir Jerusalém aumenta a desconfiança em relação aos estrangeiros), que culminará na política xenófoba de Esdras e Neemias, na segunda metade do séc. V a.C. (os casamentos mistos entre judeus e estrangeiros são anulados e proibidos – cf. Esd 9,1-10,44; Nee 13,23-31).

Não podemos situar exatamente, em termos cronológicos, o texto que nos é proposto. Provavelmente, ele aparece nos primeiros decénios após o exílio, quando a comunidade discute se os eunucos e os estrangeiros devem ou não integrar a comunidade do Povo de Deus (cf. Is 56,3). De qualquer forma, o texto leva-nos coloca-nos, sem dúvida, nesse ambiente – rico de desafios, mas cheio de contradições – da época pós-exílica in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

Também nós vivemos num mundo de contradições. Por um lado, o intercâmbio de ideias, de experiências, de notícias, o contacto fácil, rápido e direto com qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, contribuem para nos abrir horizontes, para nos ensinar o respeito pela diferença, para nos fazer descobrir a riqueza de cada povo e de cada cultura… Por outro lado, o egoísmo, a autossuficiência, o medo dos conflitos sociais, o sentimento de que um determinado estilo de vida pode estar ameaçado, provocam o racismo e a xenofobia e levam-nos a fechar as portas àqueles que querem cruzar as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida… Não é, evidentemente, uma questão simples e que possa ser objeto de demagogia… No entanto, o nosso Deus convida-nos a abrir o nosso coração à universalidade, à diferença. Os outros homens e mulheres – estrangeiros, diferentes, com outra cor de pele, com outra língua, com outros valores ou com outra religião – são irmãos nossos, que devemos acolher e amar.

  • A Igreja é a comunidade do Povo de Deus. Todos os seus membros são filhos do mesmo Deus e irmãos em Jesus, embora pertençam a raças diferentes, a culturas diferentes e a estratos sociais diferentes. No entanto: todos são lá acolhidos da mesma forma? O rico e o pobre são sempre tratados da mesma forma nas receções das nossas igrejas? Aqueles que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorretos são sempre tratados com amor e acolhidos com respeito nas nossas comunidades cristãs, ou são tratados como cristãos de segunda? in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão: Louvado sejais, Senhor, pelos povos de toda a terra.

LEITURA II – Rom 11,13-15.29-32

Ambiente

Continuamos, com Paulo, a refletir a questão posta pela segunda leitura do passado domingo… Israel, apesar de ser o Povo de eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou a salvação que Cristo veio oferecer. Que lhe acontecerá, então? Ficará, devido a essa recusa, à margem da salvação?

Vimos como esse problema afetava Paulo e como o fazia sofrer. Na introdução a esta questão (cf. Rom 9,1-5), Paulo confessava a sua dor e tristeza ao ver o seu povo obstinado na recusa da vida nova de Deus. Paulo admitia, até, aceitar ser separado – ele próprio – de Cristo, se isso servisse para que o Povo judeu aceitasse a salvação que Deus não desiste de lhe oferecer.

A desilusão e a tristeza de Paulo significarão a convicção de que não há mais saída, que Israel vai manter-se fechado aos dons de Deus e que está, definitivamente, à margem da salvação? Deus terá rejeitado o seu Povo?

De modo nenhum. Paulo vai, aliás, constatar que a questão não está encerrada. Em primeiro lugar, porque uma parte (uma parte pequena, um “resto”) de Israel aderiu a Jesus (cf. Rom 11,1-6) e entrou na comunidade do Reino (o próprio Paulo faz parte desse grupo); em segundo lugar, porque o endurecimento de Israel face à oferta de salvação feita por Deus já estava previsto na Escritura e insere-se, certamente, nos planos de Deus (cf. Rom 11,7-10).

De resto, a recusa de Israel fez com que o Evangelho fosse proposto aos gentios (cf. Rom 11,11-12). Há males que vêm por bem; Deus escreve direito por linhas tortas…in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:

Em primeiro lugar, o nosso texto convida-nos a ter sempre presente que a misericórdia de Deus não abandona nenhum dos seus filhos, mesmo aqueles que numa determinada fase da caminhada rejeitam as suas propostas. Deus respeita sempre as opções livres dos homens; mas não desiste de propor oportunidades infindáveis de salvação, que só esperam o “sim” do homem.

Em segundo lugar, o nosso texto sugere que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Do mal, Ele é sempre capaz de retirar o bem (se os judeus – com a sua mentalidade fechada aos estrangeiros e com a sua mentalidade de que a salvação era uma proposta exclusiva, só a eles destinada – tivessem aderido em massa ao Evangelho, dificilmente teriam aceitado que a proposta de salvação se tornasse universal). Aquilo que, muitas vezes, nos parece ilógico e sem sentido, talvez faça parte dos projetos de Deus – projetos que nem sempre conseguimos entender e enquadrar nos nossos esquemas mentais. Temos de aprender a confiar em Deus e na forma como Ele dirige a história, mesmo quando não conseguimos entender os seus projetos.

Em terceiro lugar, o nosso texto convida-nos – implicitamente – a não nos arvorarmos em juízes dos nossos irmãos. Por um lado, porque o comportamento tolerante de Deus nos convida a uma tolerância semelhante; por outro, porque aquilo que nos parece estranho e reprovável pode fazer parte, em última análise, dos projetos de Deus. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 15,21-28

Ambiente

Continuamos na secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27). Depois de apresentar a pregação sobre o Reino em parábolas (cf. Mt 13,1-52), Mateus descreve a resposta dos interlocutores de Jesus à proposta que lhes foi transmitida (cf. Mt 14,1-17,27).

De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt 15,1-9; 16,1-4.5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Começa a tornar-se, cada vez mais claro, que a comunidade judaica não está disposta a acolher a proposta de Jesus.

O episódio que nos é proposto é, precisamente, antecedido de um confronto entre Jesus, por um lado, os fariseus e doutores da Lei, por outro, por causa das tradições judaicas (cf. Mt 15,1-9). Em rutura com os fariseus e os doutores da Lei, Jesus “retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e de Sídon”. A recusa de Israel em acolher a proposta do Reino vai fazer com que a pregação de Jesus se dirija para fora das fronteiras de Israel. A comunidade dos discípulos – esse grupo que escutou atentamente a proposta do Reino e a acolheu – acompanha Jesus.

O episódio narrado no Evangelho deste domingo situa-nos na “região de Tiro e Sídon”. Diante de Jesus apresenta-se uma mulher “cananeia”. O apelativo “cananeia” designa, no Antigo Testamento, uma mulher pagã (neste caso, trata-se de uma mulher fenícia, provavelmente residente na região de Tiro e Sídon).
A Fenícia não era, aos olhos dos judeus, uma região “recomendável”. De lá tinham vindo, frequentemente, exércitos inimigos; de lá tinham vindo, muitas vezes, influências religiosas nefastas, que afastavam os israelitas da fé em Jahwéh e os levavam a correr atrás dos deuses cananeus. A famosa Jezabel, mulher do rei Acab, que potenciou o culto a Baal e Asserá (meados do séc. IX a.C., na época do profeta Elias) e que tão má memória deixou entre os fiéis a Jahwéh era filha de um rei de Sídon. Não admira, portanto, que os fariseus e doutores da Lei, defensores intransigentes da Lei e da pureza da fé, considerassem os habitantes dessa zona como “cães” (designação que, para os judeus, tinha um sentido altamente pejorativo).

O apelo da mulher fenícia vai no sentido de que ela possa, também, ter acesso a essa salvação que Jesus veio propor. Jesus passará por cima dos preconceitos religiosos dos judeus e oferecerá a salvação a esta pagã? Uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e, ainda por cima, “mulher”) merecerá a graça da salvação? in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

A primeira questão que o nosso texto põe prende-se com a definição daquilo que é essencial na experiência cristã. Quem é que é cristão? Quem é que pode fazer parte da comunidade de Jesus? A resposta está implícita na história da mulher cananeia: torna-se membro da comunidade de Jesus quem aceita a sua oferta de salvação, quem acolhe o Reino, adere a Jesus e ao Evangelho. O que é determinante, para integrar a comunidade do Reino, não é a raça, a cor da pele, o local de nascimento, a tradição familiar, a formação académica, a capacidade intelectual, a visibilidade social, o cumprimento de ritos, a receção de sacramentos, a amizade com o pároco, os serviços prestados à “fábrica da igreja”, mas a fé (entendida como adesão a Jesus e à sua proposta de salvação). Para mim, o que é que é ser cristão? O que está no centro da minha experiência cristã é a pessoa de Jesus e a sua proposta de salvação? Em que é que se fundamenta a minha fé?

O exemplo da mulher cananeia leva-nos a pensar, por contraste, nesses “fariseus e doutores da Lei” que rejeitam a oferta de salvação que Deus lhes faz, em Jesus. Estão cheios de certezas, de convicções firmes, de preconceitos; mas não têm o coração aberto aos desafios que Deus lhes faz… Conhecem bem a Palavra de Deus, têm ideias definidas acerca do que Deus quer ou não quer, são orgulhosos e autossuficientes porque se consideram um povo santo, eleito de Deus, mas não têm esse coração humilde e simples para acolher a novidade de Deus… Atenção: o verdadeiro crente é aquele que se apresenta diante de Deus numa atitude de humildade e simplicidade, acolhendo com um coração agradecido os dons de Deus e a graça da salvação. O verdadeiro crente não se barrica em certezas imutáveis ou em chavões doutrinais, mas procura descobrir, cada dia, com humildade e simplicidade, a verdade eterna de Deus e as suas propostas para o mundo e para os homens.

Teoricamente, ninguém põe em causa que a Igreja nascida de Jesus seja uma comunidade aberta a todos os homens e mulheres, de todas as raças, culturas, classes sociais, quadrantes políticos… Na prática, será que todos encontram na Igreja um espaço de comunhão, de amor, de fraternidade? Os homens e as mulheres, os casados e os divorciados, os pobres e os ricos, os instruídos e os analfabetos, os conhecidos e os desconhecidos, os bons e os maus, os novos e os velhos, todos são acolhidos na comunidade cristã sem discriminação e todos são convidados a pôr a render, para benefício dos irmãos, os talentos que Deus lhes deu? Independentemente do que os documentos da Igreja dizem, do que o Papa ou os bispos dizem, o que é que eu faço para que a minha comunidade cristã seja um espaço de fraternidade, onde todos se sentem acolhidos e amados?

Como a primeira leitura, também o Evangelho sugere uma reflexão sobre a forma como acolhemos o estrangeiro, o irmão diferente, o “outro” que, por razões políticas, económicas, sociais, laborais, culturais, turísticas, vem ao nosso encontro. Se Deus não discrimina ninguém, mas aceita acolher à sua mesa todos os homens e mulheres, sem distinção, porque não havemos de proceder da mesma forma? Particular cuidado e atenção devem merecer-nos os imigrantes que não falam a nossa língua, que não têm casa, que não têm trabalho, que sentem a ausência da família e dos amigos, que são perseguidos pelas redes que exploram o trabalho escravo… O convite que Deus nos faz é que vejamos em cada pessoa um irmão, independentemente das diferenças de cor da pele, de nacionalidade, de língua ou de valores. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

MULHER DA GRANDE FÉ!

O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante, retirada de Mateus 15,21-28. Desarmante e insólita, pois quando se trata de curar doentes, não é normal que Jesus se faça rogado tanto tempo. A norma é curá-los imediatamente. Mas aqui, é só à quarta tentativa (outra vez o esquema 3 + 1), três tentativas da mulher e uma dos discípulos, que Jesus se decide a curar a filha desta mulher e mãe libanesa. O extraordinário episódio acontece quando Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, atual Líbano, terra pagã. Na maneira de ver do Antigo Testamento, a região de Tiro e de Sídon, a noroeste da Galileia, sobre a costa do Mediterrânio, era uma terra tipicamente pagã.

Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente, situação verdadeira ontem como hoje, talvez ainda mais hoje após o drama da recente explosão no porto de Beirute, e que podemos ainda estender à Palestina, à Síria, ao Iraque e a tantos outros lugares do Médio Oriente, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (Mateus 15,22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura, como ela bem sabia, pois «fazer graça» é coisa de mãe que dirige o seu olhar embevecido para o bebé que embala nos seus braços.

A este primeiro pedido da mulher, refere o texto que Jesus nem lhe respondeu (cf. Mateus 15,23). Mas a mulher não desiste, mas insiste e persiste, e continua a gritar, a gritar, a gritar, de tal modo que agora são os discípulos que pedem (segundo pedido) a Jesus que a despache, «porque ela vem a gritar atrás de nós» (ópisthen hêmôn), dizem eles (Mateus 15,23b). Equívoco deles e nosso. Não é verdade que aquela mulher e mãe «libanesa» venha a gritar atrás deles ou de nós, para eles ou para nós. Está bom de ver que ela grita atrás de Jesus, para Jesus! E leva a sua insistência ainda mais longe, prostrando-se (verbo proskinéô) agora diante de Jesus, e formulando o seu segundo pedido (terceiro do relato): «Senhor, salva-me!» (Mateus 15,25). O gesto da prostração significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reação de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, dizendo-lhe: «Não está bem (kalón) que se tome o pão dos filhos, para o lançar aos cachorrinhos» (Mateus 15,26), catalogando assim aquela pobre mulher e mãe «libanesa» na classe dos cachorros [= pagãos] e não dos filhos [= judeus] (Mateus 15,26). Só para estes é que ele veio.

Mas a mulher replica de modo admirável! É a sua terceira intervenção, que carrega o quarto pedido do relato. A resposta daquela mulher e mãe é de tal modo cortante, que deve ser traduzida à letra, para não se perder a sua força. Ela responde: «Mas sim, Senhor (naí kýrie)! É verdade que também os cachorrinhos se alimentam das migalhas que caem da mesa dos seus donos!» (Mateus 15,27). Face a esta tempestade de humildade e de ternura, Jesus replicou: «Ó Mulher, grande é a tua fé!» (ô gýnai, megálê sou hê pístis), e acrescentou: «faça-se como queres!» (Mateus 15,28).

Note-se bem que é a única vez que Jesus fala de «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se bem que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos), como vimos no episódio do Domingo passado (cf. Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos são também os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (cf. Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo claro da oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mateus 6,10)!

O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes, dos hebreus para os pagãos! Mas fica também às claras o desmascaramento do ridículo das nossas atitudes falsamente endeusadas, de nós, que nos dizemos discípulos de Jesus, e que às vezes somos levados a pensar que as pessoas vêm «atrás de nós», que temos especiais poderes, e que até podemos conseguir especiais favores! Na verdade, discípula de Jesus é a pobre mulher do Evangelho de hoje, que vai «atrás de Jesus», que «se prostra diante dele», que grita para Ele, e que mostra uma fé inquebrantável!

Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia da grande fé desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje. Em primeiro lugar, e em pura sintonia com a universalidade do Evangelho, aí está a lição igualmente aberta de Isaías 56,1-7, que adscreve mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). Jesus citará este texto de Isaías em Mateus 21,13, Marcos 11,17 e Lucas 19,46. Em Mateus e Lucas, só a primeira parte é referida: «A minha casa será chamada casa de oração». Só em Marcos, a citação aparece por inteiro: «A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos». Mas Isaías continua a anunciar que os estrangeiros que quiserem servir e amar o Deus santo e ser fiéis à sua aliança, serão por Ele conduzidos ao monte santo, e os seus sacrifícios e holocaustos serão do agrado de Deus (Isaías 56,6-7). Alguns desses estrangeiros serão mesmo escolhidos por Deus para sacerdotes e levitas (Isaías 66,21).

Mas este tom de comovida universalidade já se tinha feito ouvir, de forma surpreendente, em Isaías 19,24-25, em que Deus une na mesma bênção o Egito, a Assíria e Israel, sendo o Egito e a Assíria inimigos de Israel. Soa assim o requintado dizer de Deus: «Bendito o Egito, meu povo, a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança». O amor de Deus não conhece barreiras. A mesma admirável lição se encontra no Salmo 87,4, um maravilhoso Cântico de Sião: «Recordarei Raab e Babel entre os que me conhecem; eis a Filisteia e Tiro e a Etiópia: este nasceu lá». Eis Deus a escrever no livro anagráfico os nomes dos seus filhos. E aí vemos outra vez inscritos os inimigos de Israel: Raab, que é o Egito (Isaías 30,7), a Babilónia, os Filisteus, e os estrangeiros mais estrangeiros, a Etiópia (do grego aíthô [= acender, queimar], e ôps [= rosto]), que é país das pessoas de rosto queimado ou de cor negra, o país do fim do mundo, como escreve Homero, no princípio do Canto I da Odisseia.

Vai ainda no sentido da universalidade a lição de hoje da Carta aos Romanos 11,13-15.29-32. São Paulo intitula-se aí «Apóstolo das nações» (v. 13), e diz-nos que Deus usa de misericórdia para com todos (v. 32). É, porém, um facto que o Israel qualificado, entenda-se, a minoria mais fiel e religiosa, não aceitou a visita de Deus mediante o Filho. Foi por esta razão que Paulo foi enviado aos pagãos. Mas os israelitas continuam a ser «amados» (agapêtoí) de Deus (v. 28), e são-no para sempre, tal como o Filho Único é «amado» (agapêtós), pois a Vontade de Deus não muda.

Por isso, bem podemos hoje, com o Salmo 67, juntar as nossas vozes às vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que a todos faz graça e misericórdia. O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo 67 recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do XX Domingo do Tempo Comum – Ano A – 20.08.2023 (Is 56, 1.6-7)
  2. Leitura II do XX Domingo do Tempo Comum – Ano A – 20.08.2023 (Rom 11, 13-15.29-32)
  3. Domingo XX do Tempo Comum – Ano A – 20.08.2023 – Lecionário
  4. Domingo XX do Tempo Comum – Ano A – 20.08.2023 – Oração Universal
  5. Nota Pastoral
  6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XIX do Tempo Comum – Ano A – 13.08.2023

27No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29«Vem» – disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» 31Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 32E, quando entraram no barco, o vento amainou. 33Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» Mt 14, 27-33

Viver a Palavra

Depois de despedir a multidão e de obrigar os discípulos a embarcar para a outra margem, Jesus “subiu a um monte para orar, a sós”. Mateus só se refere à oração de Jesus por duas vezes: aqui e no episódio do Getsemani (cf. Mt 26,36): em ambos os casos, a oração precede um momento de prova para os discípulos.

Enquanto Jesus está em diálogo com o Pai, os discípulos estão sozinhos, em viagem pelo lago. Essa viagem, no entanto, não é fácil nem serena… É de noite; o barco é açoitado pelas ondas e navega dificilmente, com vento contrário. Os discípulos estão inquietos e preocupados, pois Jesus não está com eles…
O quadro refere-se, certamente, à situação da comunidade a que Mateus destina o seu Evangelho (e que não será muito diferente da situação de qualquer comunidade cristã, em qualquer tempo e lugar). A “noite” representa as trevas, a escuridão, a confusão, a insegurança em que tantas vezes “navegam” através da história os discípulos de Jesus, sem saberem exatamente que caminhos percorrer nem para onde ir… As “ondas” que açoitam o barco representam a hostilidade do mundo, que bate continuamente contra o barco em que viajam os discípulos… Os “ventos contrários” representam a oposição, a resistência do mundo ao projeto de Jesus – esse projeto que os discípulos testemunham… Quantas vezes, na sua viagem pela história, os discípulos de Jesus se sentem perdidos, sozinhos, abandonados, desanimados, desiludidos, incapazes de enfrentar as tempestades que as forças da morte e da opressão (o “mar”) lançam contra eles…

É aí, precisamente, que Jesus manifesta a sua presença. Ele vai ao encontro dos discípulos “caminhando sobre o mar” (vers. 26). No contexto da catequese judaica, só Deus “caminha sobre o mar” (Job 9,8b; 38,16; Sal 77,20); só Ele faz “tremer as águas e agitarem-se os abismos” (Sal 77,17); só Ele acalma as ondas e as tempestades (cf. Sal 107,25-30). Jesus é, portanto, o Deus que vela pelo seu Povo e que não deixa que as forças da morte (o “mar”) o destruam. A expressão “sou Eu” reproduz a fórmula de identificação com que Deus se apresenta aos homens no Antigo Testamento (cf. Ex 3,14; Is 43,3.10-11); e a exortação “tende confiança, não temais” transmite aos discípulos a certeza de que nada têm a temer porque Jesus, o Deus que vence as forças da morte e da opressão acompanha a par e passo a sua caminhada histórica e dá-lhes a força para vencer a adversidade, a solidão e a hostilidade do mundo.

Depois, Mateus narra uma cena exclusiva, que não é apresentada por nenhum outro evangelista: a do diálogo entre Pedro e Jesus (vers. 28-33). Tudo começa com o pedido de Pedro: “se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas”. Pedro sai do barco e vai, de facto, ao encontro de Jesus; mas, assustando-se com a violência do vento, começa a afundar-se e pede a Jesus que o salve. Assim acontece, embora Jesus censure a sua pouca fé e as suas dúvidas.

Pedro é, aqui, o porta-voz e o representante dessa comunidade dos discípulos que vai no barco (a Igreja). O episódio reflete a fragilidade da fé dos discípulos, sempre que têm de enfrentar as forças da opressão, do egoísmo, da injustiça. Jesus comunicou aos seus o poder de vencerem todos os poderes deste mundo que se opõem à vida, à libertação, à realização, à felicidade dos homens. No entanto, enquanto enfrentam as ondas do mundo hostil e os ventos soprados pelas forças da morte, os discípulos debatem-se entre a confiança em Jesus e o medo. Mateus refere-se, desta forma, à experiência de muitos discípulos (da sua comunidade e das comunidades cristãs de todos os tempos e lugares) que seguem a Jesus de forma decidida, mas que se deixam abalar quando chegam as perseguições, os sofrimentos, as dificuldades… Então, começam a afundar-se e a ser submersos pelo “mar” da morte, da frustração, do desânimo, da desilusão… No entanto, Jesus lá está para lhes estender a mão e para os sustentar.

Finalmente, a desconfiança dos discípulos transforma-se em fé firme: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus” (vers. 33). É para aqui que converge todo o relato. Esta confissão reflete a fé dos verdadeiros discípulos, que veem em Jesus o Deus que vence o “mar”, o Senhor da vida e da história que acompanha a caminhada dos seus, que lhes dá a força para vencer as forças da opressão e da morte, que lhes estende a mão quando eles estão desanimados e com medo e que não os deixa afundar.

Quando é que os discípulos fizeram a descoberta de que Jesus era o Deus vencedor do pecado e da morte? Naturalmente, após a Páscoa, quando perceberam plenamente o mistério de Jesus (perceberam que Ele não era “um fantasma”), sentiram a sua presença no meio da comunidade reunida, experimentaram a sua ajuda nos momentos difíceis da caminhada, sentiram que Ele lhes transmitia a força de enfrentar as adversidades e a hostilidade do mundo, sentiram que Ele estava lá, estendendo-lhes a mão, nos momentos de fraqueza, de dificuldade, de falta de fé. É esta mesma experiência que Mateus nos convida também a fazer. In Dehonianos

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – 1 Reis 19,9a.11-13a

Ambiente

A nossa leitura situa-nos no Reino do Norte (Israel), durante o reinado de Acab (873-853 a.C.). No país multiplicam-se os lugares sagrados onde se adoram deuses estrangeiros. De acordo com 1 Re 16,31-33, o próprio rei – influenciado por Jezabel, a sua esposa fenícia – erige altares a Baal e Asserá e presta culto a esses deuses. Por detrás deste quadro está, provavelmente, a tentativa de Acab em abrir Israel a outras nações, a fim de facilitar o intercâmbio cultural e comercial. Mas essas razões políticas não são entendidas nem aceites pelos círculos religiosos de Israel.

Contra estes desvios à fé tradicional, levanta-se o profeta Elias. Ele aparece como o representante desses israelitas fiéis, que recusam a substituição de Jahwéh por deuses estranhos ao universo religioso de Israel. Num episódio dramático cuja memória é conservada no primeiro Livro dos Reis, o próprio Elias desafia os profetas de Baal para um duelo religioso, que termina com o massacre de quatrocentos profetas de Baal, no monte Carmelo (cf. 1 Re 18). Esse episódio é, certamente, uma representação teológica dessa luta sem tréguas que se trava entre os fiéis a Jahwéh e os que abrem o coração às influências culturais e religiosas de outros povos.
O texto que nos é proposto como primeira leitura aparece, precisamente, na sequência do massacre do Carmelo. Jezabel, informada da morte dos profetas de Baal, promete matar Elias; e o profeta foge para o sul, a fim de salvar a vida. Atravessa o Reino do Sul (Judá), passa por Beer-Sheva e dirige-se para o deserto, em direção ao monte Horeb/Sinai (cf. 1 Re 19,1-8). É aí que o nosso texto nos situa. in Dehonianos.

A reflexão pode ter em conta os seguintes dados:

Quem é Deus? Como é Deus? É possível provar, sem margem para dúvidas, a existência de Deus? Estas e outras perguntas já as fizemos, certamente, a nós próprios ou a alguém. Todos nós somos pessoas a quem Deus inquieta: há uma “qualquer coisa” no coração do homem que o projeta para o transcendente, que o leva a interrogar-se sobre Deus e a tentar descobrir o seu rosto… No entanto, Deus não é evidente. Se confiarmos apenas nos nossos sentidos, Deus não existe: não conseguimos vê-l’O com os nossos olhos, sentir o seu cheiro ou tocá-l’O com as nossas mãos. Mais ainda: nenhum instrumento científico, nenhum microscópio eletrónico, nenhum radar espacial detetou jamais qualquer sinal sensível de Deus. Talvez por isso o soviético Yuri Gagarin, o primeiro homem do espaço, mal pôs os pés na terra apressou-se a afirmar que não tinha encontrado na estratosfera qualquer marca de Deus… O texto que nos é proposto convida todos aqueles que estão interessados em Deus, a descobri-l’O no silêncio, na simplicidade, na intimidade… É preciso calar o ruído excessivo, moderar a atividade desenfreada, encontrar tempo e disponibilidade para consultar o coração, para interrogar a Palavra de Deus, para perceber a sua presença e as suas indicações nos sinais (quase sempre discretos) que Ele deixa na nossa história e na vida do mundo… Tenho consciência de que preciso encontrar tempo para “buscar Deus”? De acordo com a minha experiência de procura, onde é que eu O encontro mais facilmente: na agitação e nos gestos espetaculares, ou no silêncio, na humildade e na simplicidade?

Hoje como ontem, há outros deuses, outras propostas de felicidade, que nos procuram seduzir e atrair… Há deuses que gritam alto (em todos os canais de televisão?) a sua capacidade de nos oferecer uma felicidade imediata; há deuses que, como um terramoto, fazem tremer as nossas convicções e lançam por terra os valores que consideramos mais sagrados; há deuses que, com a força da tempestade, nos arrastam para atitudes de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de comodismo, de ódio… O nosso texto convida-nos a uma peregrinação ao encontro das nossas raízes, dos nossos compromissos batismais… Temos, permanentemente, de partir ao encontro do Deus que fez connosco uma Aliança e que nos chama todos os dias à comunhão com Ele… Aceito percorrer este caminho de conversão? Encontro tempo para redescobrir o Deus da Aliança com quem me comprometi no dia do meu Batismo? Quais são os falsos deuses que, às vezes, me afastam da comunhão com o verdadeiro Deus?

Na história de Elias (e na história de qualquer profeta), a descoberta de Deus leva ao compromisso, à ação, ao testemunho… Depois de encontrar o Deus da Aliança, aceito comprometer-me com Ele? Estou disposto a cumprir a missão que Ele me confia no mundo? Estou disponível para O testemunhar no meio dos meus irmãos?

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 84 (85)

Refrão: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor

LEITURA II – Rom 9,1-5

Ambiente

Depois de apresentar, nos primeiros oito capítulos da Carta aos Romanos, uma catequese sobre a salvação (apesar do pecado que submerge todos os homens e desfeia o mundo Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente a todos os homens, através de Jesus Cristo, a salvação), Paulo vai referir-se, agora, a um problema particular, mas que o preocupa a ele e a todos os cristãos: que acontecerá a Israel que, apesar de ser o Povo eleito de Deus e o Povo da Promessa, recusou essa salvação que Cristo veio oferecer? Israel ficará, devido a essa recusa, definitivamente à margem da salvação? Na verdade, Deus jurou ao seu Povo, em vários momentos da história, libertá-lo e salvá-lo; ora, se Israel ficar excluído da salvação, podemos dizer que Deus falhou? Podemos continuar a confiar na sua Palavra? É a estas questões que, genericamente, Paulo procura responder nos capítulos 9-11 da Carta aos Romanos.

O texto que nos é proposto como segunda leitura deste domingo é a introdução a esta questão.in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta os seguintes desenvolvimentos:

Uma das coisas que impressiona, neste texto, é a forma como Paulo sente a infelicidade do seu Povo. A obstinação de Israel em recusar a salvação fá-lo sentir “uma grande tristeza e uma dor contínua” no coração. Todos nós conhecemos irmãos – mesmo batizados – que recusam a salvação que Deus oferece ou que, pelo menos, vivem numa absoluta indiferença face à vida plena que Deus lhes quer dar. Como nos sentimos diante deles? Ficamos indiferentes e achamos que não é nada connosco? Deixamo-nos contaminar por essa indiferença e escolhemos, como eles, caminhos de egoísmo e de autossuficiência? Ou sentimos que é nossa responsabilidade continuar a testemunhar diante deles os valores em que acreditamos e que conduzem à vida plena e verdadeira?

Este texto propõe-nos também uma reflexão sobre as oportunidades perdidas… Israel, apesar de todas as manifestações da bondade e do amor de Deus que conheceu ao longo da sua caminhada pela história, acabou por se instalar numa autossuficiência que não lhe permitiu acompanhar o ritmo de Deus, nem descobrir os novos desafios que o projeto da salvação de Deus faz, em cada fase, aos homens. O exemplo de Israel faz-nos pensar no nosso compromisso com Deus… Em primeiro lugar, mostra-nos a importância de não nos instalarmos num esquema de vivência medíocre da fé e sugere que o “sim” a Deus do dia do nosso batismo precisa de ser renovado em cada dia da nossa vida… Em segundo lugar, sugere que o cristão não pode instalar-se nas suas certezas e autossuficiências, mas tem de estar atento aos desafios, sempre renovados, de Deus… Em terceiro lugar, sugere que o ter o nome inscrito no livro de registos da nossa paróquia não é um certificado de garantia de salvação (a salvação passa sempre pela adesão sempre renovada aos dons de Deus). in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 14,22-33

Ambiente

Mateus começa por observar que, depois de muitos sucessos, o último foi o milagre da multiplicação dos pães, Jesus “obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão” (Mt 14,22). Esta nota pode indicar que Jesus quis arrefecer o entusiasmo excessivo dos discípulos (o autor do quarto Evangelho, a propósito do mesmo episódio, refere que Jesus Se retirou sozinho para o monte, pois sabia que “viriam arrebatá-l’O para O fazerem rei” – Jo 6,15).

O episódio situa-nos na área do lago de Tiberíades ou da Genesaré, esse lago de água doce com 21 quilómetros de comprimento e 12 de largura situado na Galileia e que é o grande reservatório de água doce da Palestina.

Para os judeus, o mar – e o lago de Tiberíades ou de Genesaré é considerado, para todos os efeitos, um “mar” – era o lugar onde habitavam os monstros, os demónios e todas as forças que se opunham à vida e à felicidade do homem. Na perspetiva da teologia judaica, no mar o homem estava à mercê das forças demoníacas; e só o poder de Deus podia salvá-lo…

Recordemos, ainda, que o nosso texto está incluído numa secção (cf. Mt 13,1-17,27) do Evangelho segundo Mateus, a que poderíamos chamar “instrução sobre o Reino”. Aí, Mateus põe Jesus a dirigir-Se sobretudo aos discípulos e a instruí-los sobre os valores e os mistérios do Reino. É neste contexto de catequese sobre o Reino que devemos situar o episódio que hoje nos é proposto.

Lembremos, finalmente, que o Evangelho segundo Mateus – escrito durante a década de 80 – se destina a uma comunidade cristã que já esqueceu o seu entusiasmo inicial por Jesus e pelo seu Evangelho e que vive uma fé cómoda, instalada, pouco exigente. Para os crentes, avizinham-se grandes contrariedades e perseguições… A comunidade só poderá subsistir se confiar em Jesus, na sua presença, na sua proteção. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

O Evangelho deste domingo é, antes de mais, uma catequese sobre a caminhada histórica da comunidade de Jesus, enviada à “outra margem”, a convidar todos os homens para o banquete do Reino e a oferecer-lhes o alimento com que Deus mata a fome de vida e de felicidade dos seus filhos. Estamos dispostos a embarcar na aventura de propor a todos os homens o banquete do Reino? Temos consciência de que nos foi confiada a missão de saciar a fome do mundo? Aqueles que são deixados à margem dessa mesa onde se jogam os interesses e os destinos do mundo, que têm fome e sede de vida, de amor, de esperança, encontram em nós uma proposta credível e coerente que aponta no sentido de uma realidade de plenitude, de realização, de vida plena?

A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o “barco”) dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projetos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra – com um sorriso irónico – que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos – às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração – que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância… Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?

Para que seja possível viver de forma coerente e corajosa na dinâmica do Reino, os discípulos têm de estar conscientes da presença de Jesus, o Senhor da vida e da história, que as forças do mal nunca conseguirão vencer nem domesticar. Ele diz aos discípulos, tantas vezes desanimados e assustados face às dificuldades e às perseguições: “tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Os discípulos sabem, assim, que não há qualquer razão para se deixarem afundar no desespero e na desilusão. Mesmo quando a sua fé vacila, eles sabem que a mão de Jesus está lá, estendida, para que eles não sejam submersos pelas forças do egoísmo, da injustiça, da morte. Nada nem ninguém poderá roubar a vida àqueles que lutam para instaurar o Reino. Jesus, vivo e ressuscitado, não deixa nunca que sejamos vencidos.

A oração de Jesus (que em Mateus antecede os momentos de prova) convida-nos a manter um diálogo íntimo com o Pai. É nesse diálogo que os discípulos colherão o discernimento para perceberem os caminhos de Deus, a força para seguir Jesus, a coragem para enfrentar a hostilidade do mundo. in Dehonianos.

Para os leitores:

I Leitura (ver anexo)

II Leitura: (ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

A VOZ DE UM FINO SILÊNCIO!

A Igreja primitiva considerava a BARCA como figura da Igreja. Tertuliano (150-220) parece ter sido o primeiro a expressar esta temática por escrito (De Baptismo, XII, 7). E é fácil perceber a ligação: a BARCA aparece como um dos lugares em que JESUS está no meio dos seus discípulos e a sós com eles. De facto, a BARCA demarca um espaço privilegiado que JESUS condivide apenas com os seus discípulos. Mais ninguém entra nesta BARCA. No relato de Mateus, apenas por uma vez, e é o texto que temos a graça de escutar neste Domingo XIX (Mateus 14,22-33; cf. Marcos 6,45-52; João 6,16-21), os discípulos vão sozinhos na BARCA, sem Jesus. Mas surgem problemas, que os discípulos não conseguem resolver sozinhos. Esta importante cena serve também para mostrar que, sem Jesus, os discípulos não conseguem ter sucesso e correm perigo. A situação preparada por Jesus, que faz os seus discípulos subir sozinhos para aquela BARCA (cf. Mateus 14,22), serve para fazer ver aos seus discípulos de todos os tempos que precisamos de viver sabendo que Ele está sempre presente no meio de nós, ainda que não de modo visível e sensível, ainda que, porventura, nem sequer nos apercebamos da sua presença. A BARCA serve para atravessar o mar encapelado, que são as perseguições e as adversidades deste mundo. Mas apenas na companhia de JESUS. Ontem como hoje.

Na costa ocidental do Mar da Galileia, nas proximidades de Magdala, foi descoberta uma BARCA de pesca do tempo de Jesus. Tinha 8 metros de comprimento por 2,5 metros de largura. Já se vê que se trata de uma embarcação frágil, presa fácil das ondas.

Os relatos de Mateus e de Marcos anotam a hora da chegada de Jesus, andando sobre o mar: quarta vigília da noite, que o mesmo é dizer, entre as três e as seis horas da manhã. «Andando sobre o mar» é claramente um indicador divino, pois Deus é aquele «cuja estrada é no meio do mar,/ e o seu caminho sobre as muitas águas» (Salmo 77,20). Mas Mateus empresta a este episódio uma tonalidade própria, pois é o único a inserir o diálogo de Pedro com Jesus. Também Pedro caminha sobre as águas, a seu pedido, e seguindo a ordem de Jesus: «Vem!». Entenda-se bem: Pedro caminha sobre as águas como Jesus, mas não com autoridade própria. O que Pedro faz, assenta na Palavra de Jesus e na Fé que o liga a Jesus. Importante lição: Pedro faz o mesmo que faz Jesus enquanto permanecer vinculado a Jesus pela Fé. Esmorecendo a Fé em Jesus, Pedro torna-se presa fácil de outras forças e sucumbirá no meio da tempestade. Pedro como nós. Sentindo o perigo, Pedro grita: «Salva-me, Senhor!». E sente logo a mão de Jesus que o segura. Nós como Pedro.

A outra figura deste Domingo é Elias, «o fugitivo» (1 Reis 19,9-13). «Fugitivo» de si mesmo, de todos e de tudo. Todos o procuram para o matar, o mundo perdeu o seu encanto e o seu sentido, e até Deus não parece ser mais o mesmo. Como esta lição está cheia de atualidade…

E o certo é que este Elias, que surge solto na página, sem pai nem mãe, sem livro anagráfico, apenas com Deus do seu lado (cf. 1 Reis 17,1-24), continua a ser conduzido e comandado por Deus, que o salva da morte no deserto (cf. 1 Reis 19,5-8), e que o liberta das suas próprias amarras, fazendo-o sair (SAI!) para fora do escuro e do medo (cf. 1 Reis 19,11), e abrindo à sua frente um caminho novo, tenro e frágil, como o que espera um bebé que sai do ventre materno. SAIR (yatsa’) é o verbo do Êxodo, mas é também o verbo do nascimento! Ouve-se, nesta página imensa, por duas vezes: no v. 11, no imperativo («Sai!»), e no v. 13, no indicativo («Elias saiu»).

É assim que o menino Elias, recém-nascido e recém-libertado, assiste no Sinai à sequência teofânica antiga: vento forte, terramoto, fogo! Tudo manifestações desatualizadas de Deus. Outra vez a sequência 3 + 1, a fazer apostar toda a atenção no 4! E aqui, depois do vento, do terramoto, do fogo, Elias ouve «a voz de um fino silêncio!» (1 Reis 19,12b).

Entenda-se: a voz de um cortante silêncio, voz de Deus que arde e opera dentro de nós. Colagem de figuras: «A tua Palavra ardia no meu coração como um fogo devorador, / encerrado dentro dos meus ossos», confessa Jeremias 20,9. Já Moisés tinha descoberto aquela chama viva, que ardia no meio da sarça e não queimava, / mas chamava (cf. Êxodo 3,2-4). Também os dois de Emaús sentiram o coração a arder, devido à Palavra e ao Sentido novo que abria caminhos onde caminhos não havia (Lucas 24,32). Elias encontrou essa Palavra nova na «voz de um fino silêncio» (1 Reis 19,12), escrita fina de Deus, / com ponta de diamante, / no coração do homem (cf. Jeremias 17,1; 31,33). E o autor da Carta aos Hebreus compara esse «fino dizer» ou «escrever» a uma espada de dois gumes, um bisturi, que opera e limpa a esclerose do coração (cf. João 15,3) e o zelo estéril, que rasga o âmago do homem e lhe deixa soltas as pregas do coração (cf. Hebreus 4,12; Apocalipse 1,16). É claro que este silêncio suave não é o silêncio que Elias se preparou para fazer. Elias não se preparou para silêncio nenhum. Ele partiu para o Sinai à espera de se encontrar lá com o Deus forte e invencível, Senhor do vento, do terramoto e do fogo! Não é, portanto, o silêncio que move Elias. E quando lá chega, Elias também não faz silêncio! É o silêncio que faz Elias! Não sou eu que faço silêncio! É o silêncio que me faz!

Na lição de hoje da Carta aos Romanos, S. Paulo lembra-nos que há um amor maior, que o leva até ao ponto de desejar dar a vida pelos seus irmãos! (Romanos 9,1-5). Vê-se bem que Paulo atingiu a estatura de Cristo! (Efésios 4,13).

Sim, anda por aí um amor maior, que é o tesouro e a pedra preciosíssima de Mateus 13,44-46, que tivemos a graça de ouvir no Domingo XVII. Anda por aí a maravilha, e nós continuamos, desfocados pelo medo do vento ou da tempestade, ou à procura de maravilhas, e, sem dar por isso, estamos a perder a capacidade de cantar! Cantemos então, percorrendo as belíssimas avenidas do Salmo 85, que aqui redesenhamos com as palavras do poeta inglês John Milton (1608-1674): «Sim, a Fidelidade e a Justiça, então, / retornarão ao encontro dos homens, / envoltas num arco-íris, e, gloriosamente vestida, / a Bondade sentar-se-á no meio…/ E o céu, como para uma festa, / escancarará as portas do seu palácio excelso».

Sim, as avenidas são por dentro! É dentro que arde o fogo, que fala o silêncio, que corta o bisturi! Atenção, portanto, ao modo novo, intransitivo, de viver!

Elias anda ao sabor de Deus,
Como um moinho ao vento,
Como um pássaro ao relento,
Como a voz de um fino silêncio,
A amadurar no coração de um grão de trigo
Ou de um amigo.

Como se pode combater este incêndio,
Apagar esta chama que chama,
Calar a voz deste fino silêncio,
Fugir deste bisturi que levamos cá dentro?

Jeremias tem outra vez razão:
É mais fácil enfrentar um furacão.
Esse, sabemos de onde vem e para onde vai!

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo XIX do Tempo Comum – Ano A – 13.08.2023 (1Reis 19, 9a.11-13a)
  2. Leitura II do Domingo XIX do Tempo Comum – Ano A – 13.08.2023 (Rom 9, 1-5)
  3. Domingo XIX do Tempo Comum – Ano A – 13.08.2023 – Lecionário
  4. Domingo XIX do Tempo Comum – Ano A – 13.08.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XVIII do Tempo Comum – Ano A – 06.08.2023

Festa da Transfiguração do Senhor

Viver a Palavra

A vida cristã envolve a vida toda e toda a vida e o convite à conversão recorda-nos precisamente que a conversão exige uma transformação do coração e da vida que chegue a todos os âmbitos da nossa ação. A conversão não é apenas uma adesão intelectual à proposta de Jesus Cristo, nem um conjunto de boas intenções para a prática de boas obras, mas o encontro decisivo com Jesus que nos faz entrar na dinâmica sempre nova de conformar a nossa vida com a Sua vontade.

Na Festa da Transfiguração do Senhor, contemplamos Jesus que sobe o monte com Pedro, Tiago e João. Assim como estes três discípulos foram escolhidos e chamados, também nós, somos convocados pelo amor misericordioso de Jesus que gratuitamente nos escolhe para nos fazer experimentar a luz nova que só o Seu amor e Sua graça nos podem oferecer. Assim nos testemunha S. Paulo: «não foi seguindo fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade». O poder e a bondade, a majestade e a misericórdia de Deus, revelados em Jesus Cristo, só podem ser experimentados pelo encontro íntimo e pessoal com Jesus, que se aprofunda e consolida na vida em comunidade.

Neste Domingo subimos com Jesus ao Monte e como Pedro, Tiago e João somos chamados a contemplar a luz nova que brota da Sua presença no meio de nós. Aos discípulos é antecipada a luz nova da Páscoa que será plena e definitiva na manhã da Ressurreição. Na narrativa que nos apesenta S. Mateus surpreende-me sempre a descrição da experiência que os discípulos fazem de Jesus. Eles contemplam Jesus resplandecente como o sol e com vestes brancas como a luz. Vêm Moisés e Elias e a nuvem luminosa. Escutam a voz do Pai e são tocados por Jesus que os desafia a colocar-se ao caminho. É curioso que apenas a narrativa da Transfiguração no Evangelho de Mateus nos oferece este pormenor de Jesus que toca os seus discípulos. A experiência pascal de encontro com Jesus Cristo, experimentada por antecipação, no episódio da transfiguração, convida-nos a contemplar, a ver, a escutar, a ser tocados, a caminhar, isto é, convida-nos a uma transformação da vida toda, implicando todos os sentidos e desafiando a uma conversão cada vez mais total e totalizante das nossas vidas.

O cimo do monte, as vestes resplandecentes, Moisés e Elias, a nuvem que os cobre e a voz vinda do céu proporcionam a Pedro, Tiago e João uma verdadeira teofania que os faz ver cumpridas as promessas veterotestamentárias e lhes antecipa a glória do Ressuscitado. Também nós, muitas vezes, nos sentimos envolvidos pela incerteza e escuridão que clamam pela luz do Ressuscitado. Por isso, subamos ao monte com Jesus! A nuvem que os cobre com a sua sombra faz ressoar uma voz vinda do céu: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». As nuvens que tantas vezes nos cobrem continuam a trazer dentro de si a certeza de que as dificuldades e as tribulações do tempo e da história não têm a última palavra, pois a única palavra plena e definitiva é a Palavra de Jesus que o Pai nos convida a escutar. Como os discípulos, ainda somos aprendizes sobre o que significa ressuscitar dos mortos, mas a luz resplandecente do Ressuscitado rasga para nós horizontes de esperança e conduz-nos à verdade plena e definitiva que só o Senhor Jesus nos pode revelar. in Voz Portucalense

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A Festa da Transfiguração do Senhor, celebrada no Oriente desde o século V, celebra-se no Ocidente desde 1457. Situada antes do anúncio da Paixão e da Morte, a Transfiguração prepara os Apóstolos para a compreensão desse mistério. Quase com o mesmo objetivo, a Igreja celebra esta festa quarenta dias antes da Exaltação da Cruz, a 14 de setembro. A Transfiguração, manifestação da vida divina, que está em Jesus, é uma antecipação do esplendor, que encherá a noite da Páscoa. Os Apóstolos, quando virem Jesus na sua condição de Servo, não poderão esquecer a sua condição divina. In Dehonianos

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No Domingo, dia 6 de agosto, tem início a Semana Nacional da Mobilidade Humana. A Obra Católica Portuguesa das Migrações (OCPM), da Conferência Episcopal Portuguesa, vai promover a 51ª Semana Nacional de Migrações em que se integra a peregrinação do Migrante e Refugiados a Fátima, presidida por D. Filomeno Dias Vieira, arcebispo de Luanda. O tema do Dia Mundial do Migrante e Refugiado 2023: «Livres de escolher se migrar ou ficar» inspira a 51ª Semana Nacional de Migrações, de 6 a 13 de agosto de 2023, e desafia as comunidades cristãs a resposta concreta aos desafios das migrações atuais. Como escreve o Papa Francisco na sua mensagem para este ano no último parágrafo: «o percurso sinodal, que empreendemos como Igreja, leva-nos a ver, nas pessoas mais vulneráveis – e entre elas contam-se muitos migrantes e refugiados –, companheiros de viagem especiais, que havemos de amar e cuidar como irmãos e irmãs. Só caminhando juntos, poderemos ir longe e alcançar a meta comum da nossa viagem» (ver em anexo a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Migrações e dos Refugiados a celebrar em 24 de setembro). in Voz Portucalense

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         Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Dan 7, 9-10.13-14

«O seu poder é eterno, que nunca passará, e o seu reino jamais será destruído».

Ambiente

Daniel, em visão noturna, vê a história do ponto de vista de Deus. Sucedem-se os impérios e os opressores, mas o projeto de Deus não falha. Ele é o último juiz, que avaliará as ações dos homens e intervirá para resgatar o seu povo. Aos reinos terrenos contrapõe-se o Reino que o Ancião confia a um misterioso “filho de homem” que vem sobre as nuvens. Trata-se de um verdadeiro homem, mas de origem divina.
No nosso texto já não se trata do Messias davídico que havia de restaurar o Reino de Israel, mas da sua transfiguração sobrenatural: o Filho do homem vem inaugurar um reino que, embora se insira no tempo, “não é deste mundo” (Jo 18, 36). Ele triunfará sobre as potências terrenas, conduzindo a história à sua realização escatológica. Jesus irá identificar-se muitas vezes com esta figura bíblica na sua pregação e particularmente diante do Sinédrio, que o condenará à morte.in Dehonianos.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 96 (97)

Refrão: O Senhor é rei, o Altíssimo sobre toda a terra.

LEITURA II – 2 Pedro 1, 16-19

«Não foi seguindo fábulas ilusórias que vos fizemos conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo».

Ambiente

            Pedro e os seus companheiros reconhecem-se portadores de uma graça maior que a dos profetas, porque ouviram a voz celeste que proclamava Filho muito amado do Pai, Jesus, seu mestre. Mas a Palavra do Antigo Testamento continua a ser “uma lâmpada que brilha num lugar escuro” (v. 19), até ao dia sem fim, quando Cristo vier na sua glória. Jesus transfigurado sustenta a nossa fé e acende em nós o desejo da esperança nesta caminhada. A “estrela da manhã” já brilha no coração de quem espera vigilante. in Dehonianos.

EVANGELHO – Mt 17, 1-9

«Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles».

«Senhor, como é bom estarmos aqui!».

«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».

Ambiente

A Transfiguração confirma a fé dos Apóstolos, manifestada por Pedro em Cesareia de Filipe, e ajuda-os a ultrapassar a sua oposição à perspetiva da paixão anunciada por Jesus. Quem quiser Seu discípulo, terá de participar nos seus sofrimentos (Mt 16, 21-27. A Transfiguração é um primeiro resplendor da glória divina do Filho, chamado a ser Servo sofredor para salvação dos homens. Na oração, Jesus transfigura-se e deixa entrever a sua identidade sobrenatural. Moisés e Elias são protagonistas de um êxodo muito diferente nas circunstâncias, mas idêntico na motivação: a fidelidade absoluta a Deus. A luz da Transfiguração clarifica interiormente o seu caminho terreno. Quando a visão parece estar a terminar, Pedro como que tenta parar o tempo. É, então, envolvido com os companheiros pela nuvem. É a nuvem da presença de Deus, do mistério que se revela permanecendo incognoscível. Mas Pedro, Tiago e João recebem dele a luz mais resplandecente: a voz divina proclama a identidade Jesus, Filho e Servo sofredor (cf Is 42, 1).

Meditação para este dia.

Jesus manda os seus discípulos rezar. Hoje, toma à parte os seus prediletos, Pedro, Tiago e João, para os fazer rezar mais longa e intimamente. Estes três representam particularmente os pontífices, os religiosos, as almas chamadas à perfeição. Para rezar Jesus gosta da solidão, a montanha onde reina a paz, a calma, onde pode ver-se a grandeza da obra divina sob o céu estrelado durante as belas noites do Oriente. A transfiguração é uma visão do céu. É uma graça extraordinária para os três apóstolos. Não nos devemos agarrar às graças extraordinárias que são por vezes o fruto da contemplação. Pedro agarra-se a isso. Engana-se. Queria ficar lá: «Façamos três tendas», diz. Não sabia o que dizia. A visão desaparece numa nuvem. Há aqui uma lição para nós. Entreguemo-nos à oração habitual, à contemplação. Não desejemos as graças extraordinárias. Se vierem, não nos agarremos a elas. Os frutos desta festa são, em primeiro lugar, o crescimento da fé. Os apóstolos testemunham-nos que viram a glória do Salvador. «Não são fábulas que vos contamos, diz S. Pedro (2Pd 1, 16), fomos testemunhas do poder e da glória do Redentor. Ouvimos a voz do céu sobre a montanha gritando-nos no meio dos esplendores da transfiguração: É o meu Filho bem-amado, escutai-o». S. Paulo encoraja a nossa esperança recordando a lembrança da glória do salvador manifestada na transfiguração e na ascensão: «Veremos a glória face a face, diz, e seremos transfigurados à sua semelhança» (2Cor 3, 18). – Esperamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo terrestre e o tornará semelhante ao seu corpo glorioso» (Fil 3, 21). Mas este mistério é sobretudo próprio para aumentar o nosso amor por Jesus. Nosso Senhor manifestou-nos naquele dia toda a sua beleza. O seu rosto era resplandecente como o sol. Os apóstolos, testemunhas da transfiguração, estavam totalmente inebriados de amor e de alegria. «Que bom é estar aqui», dizia S. Pedro. «Façamos aqui a nossa tenda». A beleza de Cristo transfigurado, contemplada pelo pintor Rafael, inspirou-lhe a obra-prima da arte cristã. Nosso Senhor falava então da sua Paixão com Moisés e Elias: nova lição de amor por nós. O Coração de Jesus, mesmo na sua glória, não pensa senão em nós e nos sacrifícios que quer fazer por nós. Lições também de penitência, de reparação, de compaixão pelo Salvador. Porque teve de sofrer tanto para nos resgatar, choremos os nossos pecados, amemos o nosso Redentor, consolemo-lo.
Este é o meu Filho muito amado: Escutai-o. – A voz do Pai celeste diz-nos: “Escutai-o”, palavra cheia de sentido, como todas as palavras divinas. Deus dá-nos o seu divino Filho por guia, por chefe, por mestre. Escutai-o, fala-nos nas leis santas do Evangelho e nos conselhos de perfeição. Fala-vos nas vossas santas regras, se sois religiosos; no vosso regulamento de vida, se sois do mundo. Fala-vos pelos vossos superiores, pelo vosso diretor. Têm a missão para vos dizer a vontade divina. Fala-vos pela sua graça, na oração, na união habitual com ele. A palavra de Deus nunca vos falta, é a vossa docilidade que falta habitualmente. Esta palavra divina – «Escutai-o» – espera de vós uma resposta. Não basta apenas uma promessa vaga: «hei-de escutar». É preciso uma disposição habitual: «escuto, escuto sempre; falai, Senhor, o vosso servo escuta». Escutarei no começo de cada ação, para saber o que devo fazer e como devo fazê-lo. (Leão Dehon, OSP 4, p. 132s.).in Dehonianos.

Para os leitores:

A primeira leitura tem um tom descritivo que deve ser tido em conta para uma correta proclamação do texto, requerendo uma leitura pausada e solene do texto num crescendo até ao final do texto que conclui com o ápice do texto, onde é descrito o poder do Filho do Homem.

A segunda leitura exige um especial cuidado com as pausas e respirações para uma articulada proclamação do texto e uma especial atenção à frase em discurso direto que surge no meio do texto.

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

EM LINHA COM A RESSURREIÇÃO E A MISSÃO

A Igreja celebra hoje, dia 6 de agosto, a Festa da Transfiguração do Senhor. Batizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, a meio caminho do seu itinerário, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9), Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa de Jesus ao descer do monte, que aponta também para a Ressurreição: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical pausa e bemol, e mostra-nos a clave em que deve ser vivida, compreendida e transmitida a vida cristã. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor, antes da Ressurreição do Senhor. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (Atos 2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Toda a atenção, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20).

A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora (cf. Juízes 4,4-5,31). As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mateus 17,2). O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o estupendo dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz com de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

Batizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Batismo e na Transfiguração: «o Filho Meu», «o Amado» (Mateus 3,17; 17,5), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Testemunham a cena grandiosa da Transfiguração três discípulos, como dispunha a Lei antiga: duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6), os quais são igualmente confirmados para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado: é para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os Profetas e os Salmos, falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Atos dos Apóstolos 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial batismal até à Cruz: «Senhor, bom é estarmos AQUI… Levantarei AQUI três tendas» (Mateus 17,4). AQUI significa deter-se no provisório, no preliminar e no penúltimo, e recusar caminhar para o definitivo e o último! Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado e confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados estão destinados à mesma Ressurreição, Transfiguração, do Senhor: a Divinização por graça.

Da lição do Livro de Daniel 7,9-10.13-14 e respetivo contexto imediatamente anterior (7,3-8) e posterior (7,15-27), faz transbordar a indescritível riqueza do nosso Deus, solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que têm o aspeto de um leão com asas de águia, de um urso com costelas na boca, de um leopardo alado com quatro cabeças, e de um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura e espezinha. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe, entretanto, um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14). Fica bem claro que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude mansa do Filho do Homem, que dissolve no Amor, que é o poder manso que lhe é dado para sempre, as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, portanto, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7,3), símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir quando forem desenhados os novos mapas de um novo céu e de uma nova terra (Apocalipse 21,1).

O domínio novo do Filho do Homem que nos ama (Apocalipse 1,5), o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é desde sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido e enrugado. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater (só pode ser por amor), a nossa tirania e prepotência!

Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus, o Filho do Homem, atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a.

Pedro, na sua 2 Carta 1,16-19, coloca-se como Testemunha ocular, quer do poder do amor que Jesus recebeu de Deus Pai, quer da sua manifestação gloriosa no monte santo, que confirma a palavra dos profetas. Pedro exorta-nos a prestar atenção a esta palavra, que é como uma luz que brilha no escuro, até que surja a «Estrela da Manhã», que é Cristo (Apocalipse 22,16).

Canta-se Hoje o Salmo 97, que canta o Senhor na ação de reinar, isto é, de salvar, de justificar, de perdoar, de recriar, de trazer a prosperidade e o bem-estar ao seu povo e aos seus fiéis. Deus, como Rei, manifesta-se circundado pelos seus assistentes cósmicos (nuvens, trevas, fogo, relâmpagos) e históricos (justiça, direito, glória) (v. 1-6). Face a tão esplendorosa manifestação, os ídolos e idólatras caem por terra (v. 7-9), e os fiéis exultam de alegria (v. 10-12). Os fiéis e justos são definidos com sete expressões particularmente significativas: 1) aqueles que amam o Senhor; 2) aqueles que odeiam o mal; 3) aqueles que são fiéis (hasîdîm); 4) aqueles que são justos (tsaddîqîm); 5) os retos de coração; 6) homens de alegria; 7) aqueles que celebram o «memorial da sua santidade» (zeqer qodshô). Comenta bem o Livro dos Mistérios, de Qumran, que perante a manifestação e inauguração deste Reino novo de Deus, «a impiedade recuará diante da justiça, como as trevas recuarão diante da luz; a impiedade desaparecerá para sempre, e a justiça, como o sol, apresentar-se-á como princípio de ordem no mundo» (1Q27, I,5-7).

António Couto

ANEXOS:

      1. Festa da Transfiguração do Senhor – Ano A – 06.08.2023 – Lecionário
      2. Festa da Transfiguação do Senhor – Ano A – 06.08.2023 – Oraçãso Universal
      3. MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO para o 109º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – 2023
      4. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XVII do Tempo Comum – Ano A – 30.07.2023

«O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo». Mt 13, 44
«O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.». Mt 13, 45
«O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes». Mt 13, 47

Viver a Palavra

A nossa fragilidade e debilidade marcam indelevelmente a nossa vida e a nossa oração. Somos pobres, pequenos e pecadores e a nossa oração traduz-se muitas vezes num discorrer de pedidos e súplicas. Na verdade, bem sabemos que é assim a relação filial. Faz parte da condição de filhos dirigirem-se aos pais para pedir, contudo, à medida que vão crescendo percebem como aquilo que é essencial nem precisariam pedir, pois a diligência paterna e materna não abandona os seus filhos, sobretudo naquilo que eles mais necessitam. Deste modo, a maturidade da fé conduz-nos muito mais à confiança e abandono nas mãos de Deus do que ao pedido e à súplica. Contudo, na primeira leitura deste Domingo, não é Salomão que toma a iniciativa para pedir algo a Deus. É o próprio Deus que toma a iniciativa e faz uma proposta a Salomão: «Pede o que quiseres».

Quando leio este texto, interrogo-me sempre sobre aquilo que pediria se Deus me fizesse esta proposta e, neste Domingo, cada um de nós também é convidado a colocar-se diante de Deus e a interrogar-se com verdade: o que é que eu pediria?

Porventura, a resposta de Salomão condiciona hoje a nossa resposta. Já não somos capazes de ser interesseiros como esperava o próprio Deus: «porque foi este o teu pedido, e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo».

Salomão pediu a sabedoria, um coração inteligente para governar o povo que lhe foi confiado e a capacidade de distinguir o bem do mal. A verdadeira sabedoria não consiste na acumulação de conhecimentos e conteúdos intelectuais, mas na arte de acolher os desafios de Deus e a missão que Ele nos confia aderindo ao bem e à verdade e afastando-nos daquilo que nos impede de ser fiéis à missão que nos foi confiada.

É esta arte de distinguir o bem do mal que encontramos na terceira parábola evangélica deste Domingo. O Reino dos Céus é semelhante a uma rede cheia de peixe que precisa de ser escrutinada. Nenhum de nós é bom ou mau em estado puro e, por isso, esta arte de destrinçar o bem do mal consiste, em primeiro lugar, na capacidade de descer ao mais íntimo do nosso coração e cultivar o bem e a verdade, afastando-nos do mal, pois ele afasta-nos de Deus e dos irmãos. Distinguir e separar é próprio de Deus que é três vezes Santo. Na verdade, na sua etimologia hebraica a palavra santo significa separado. Deus é totalmente separado do mal, pois é bondade e amor. Nas primeiras páginas da Bíblia, encontramos Deus que cria todas as coisas separando a luz das trevas, as águas superiores das águas inferiores e a água da terra firme (Gn 1,4-9). Contemplando Deus, aprendemos a arte de separar, para ter um coração indiviso. Um coração íntegro e inteiro, todo para Deus e, por isso, todo para os irmãos.

Caminhar na estrada da santidade, segundo o desígnio de Deus, como nos recorda S. Paulo, consiste em deixar-se fascinar pelo Reino dos Céus, tesouro inigualável e pérola preciosa que nos faz relativizar todas as outras coisas. Uma marca fundamental que atravessa todo o Evangelho é que aquele que encontra o tesouro escondido ou a pérola preciosa não se entristece ao deixar tudo, mas alegra-se pelo bem precioso alcançado. Efetivamente, todo aquele que se encontra com Jesus Cristo preenche o seu coração da alegria nova que fortalece a confiança e renova a esperança para que possamos partir como verdadeiras testemunhas da alegria. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – 1 Reis 3,5.7-12

«Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão».

Ambiente

O grande rei David morreu por volta de 972 a.C., após um reinado longo e fecundo, ocupado a expandir as fronteiras do reino, a consolidar a união entre as tribos do norte e do sul e a conquistar a paz e a tranquilidade para o Povo de Deus. Sucedeu-lhe no trono o filho, Salomão.

Salomão desenvolveu um trabalho meritório na estruturação do reino que o pai lhe legou. Organizou a divisão administrativa do território que herdou, dotou-o de grandes construções (das quais a mais emblemática é o Templo de Jerusalém), fortificou as cidades mais importantes, potenciou o intercâmbio cultural e comercial com os países da zona, incentivou e apoiou a cultura e as artes.

Preocupado com a constituição de uma classe política preparada para as tarefas da governação, Salomão recrutou “sábios” estrangeiros (sobretudo egípcios) para a sua corte e rodeou-se de homens que se distinguiam pelo seu “saber”, pela sua justiça e prudência. Esses “quadros”, além de aconselharem o rei, tinham também a tarefa de preparar os futuros “funcionários” para desempenharem funções no aparelho governativo montado por Salomão.

A corte de Salomão tornou-se, assim, um “viveiro” de “sabedoria”. Os “sábios” de Salomão coligiram provérbios, redigiram “máximas” de carácter sapiencial, deram “instruções” (sobre as virtudes que deviam ser cultivadas para ter êxito e para ser feliz). Nesta fase, também se redigiram crónicas sobre os reinados anteriores e publicaram-se textos sobre as tradições dos antepassados (provavelmente, é nesta época que a “escola jahwista” dá à luz algumas das tradições que irão ocupar um lugar fundamental no Pentateuco). Não admira, portanto, que Salomão tenha ficado na memória histórica de Israel como o protótipo do rei sábio, “cuja sabedoria excedia a todos os orientais e egípcios” (1 Re 4,30).

Salomão é também, historicamente, o primeiro rei que “herda” o trono. Até agora, os seus predecessores não chegaram ao trono por herança, mas receberam-no das mãos de Deus (segundo a visão “religiosa” dos catequistas bíblicos). Os teólogos de Israel vão, pois, esforçar-se por sacralizar o poder de Salomão e demonstrar que, se Salomão chegou a governar o Povo de Deus, não foi apenas por um direito hereditário (sempre contestável), mas pela vontade de Deus.

O texto que hoje nos é proposto supõe todo este enquadramento. O chamado “sonho de Gabaon” (cf. 1 Re 3,5) é uma ficção literária montada pelos teólogos deuteronomistas (esse grupo que reflecte a vida e a história na linha das grandes ideias teológicas apresentadas no Livro do Deuteronómio) com uma dupla finalidade: apresentar Salomão como o escolhido de Jahwéh e justificar a sua proverbial “sabedoria”. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito… Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca… O “sábio”, contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O “sábio” é aquele que consegue perceber o que efetivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical, mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?

A figura de Salomão interpela também todos aqueles que detêm responsabilidades na comunidade (seja em termos civis, seja em termos religiosos). Convida-os a uma verdadeira atitude de serviço: o seu objectivo não deve nunca ser a realização dos próprios esquemas pessoais, mas sim o benefício de toda a comunidade, a concretização do bem comum. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

Refrão: Quanto amo, Senhor, a vossa lei!

LEITURA II – Rom 8,28-30

«Nós sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam, dos que são chamados, segundo o seu desígnio».

Ambiente

O texto que nos é proposto como segunda leitura continua a reflexão de Paulo sobre o projeto de salvação que Deus tem para oferecer aos homens.

Já vimos nos domingos anteriores que, na perspetiva de Paulo, todo o homem que chega a este mundo mergulha num contexto de pecado que o marca e condiciona (cf. Rom 1,18-3,20); no entanto, Deus, na sua bondade, oferece gratuitamente ao homem pecador a sua graça e dá-lhe a possibilidade de chegar à salvação (cf. Rom 3,21-4,25); e é em Jesus Cristo que esse dom de Deus se comunica ao homem (cf. Rom 5,1-7,25). É o Espírito Santo que permite ao homem acolher esse dom e viver na fidelidade à graça que Deus oferece (cf. Rom 8,1-39).

Depois de assegurar aos cristãos de Roma (e, através deles, aos cristãos de todas as épocas e lugares) que o Espírito “vem em auxílio da nossa fraqueza” e “intercede por nós” (cf. Rom 8,26-27), Paulo relembra – no texto que nos é proposto como segunda leitura – que Deus tem um projeto de amor que se traduz no oferecimento da salvação ao homem in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

Em todas as cartas de Paulo transparece o espanto que o apóstolo sente diante do amor de Deus pelo homem. Este tema está, contudo, especialmente presente na Carta aos Romanos. O nosso texto convida-nos a dar conta – outra vez – desse facto extraordinário que é o amor de Deus (amor que o homem não merece, mas que Deus, com ternura, insiste em oferecer, de forma gratuita e incondicional), traduzido num projeto de salvação preparado desde sempre, e que leva Deus a enviar ao mundo o seu próprio Filho para conduzir todos os homens e mulheres a uma nova condição. Numa época marcada por uma certa indiferença face a Deus, este texto convida-nos a tomar consciência de que Deus nos ama, vem continuamente ao nosso encontro, aponta-nos o caminho da vida plena e verdadeira, desafia-nos à identificação com Jesus, convida-nos a integrar a sua família.

Nós, os crentes, somos convidados a conduzir a nossa vida à luz desta realidade; e somos convocados a testemunhar, com palavras, com ações, com a vida, no meio dos irmãos que dia a dia percorrem connosco o caminho da vida, o amor e o projeto de salvação que Deus tem.

Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções – opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse “valor mais alto” que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o “valor mais alto”, o “tesouro” pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu batismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha? in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 13,24-43

«O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo».

«O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.».

«O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes».

Ambiente

Concluímos, neste domingo, a leitura do capítulo dedicado às “parábolas do Reino” (cf. Mt 13). Nele, recorrendo a imagens e comparações simples, sugestivas e questionantes (“parábolas”), Jesus apresenta esse mundo novo de liberdade e de vida nova que Ele veio propor aos homens e ao qual Ele chamava Reino de Deus.
Concretamente, o nosso texto apresenta-nos três parábolas que são exclusivas de Mateus (nenhuma delas aparece nos outros três evangelhos considerados canónicos. No entanto, as três aparecem num texto não canónico – o Evangelho de Tomé – embora aí apresentem notáveis variantes em relação à versão mateana): a parábola do tesouro, a parábola da pérola e a parábola da rede e dos peixes.

Para enquadrarmos melhor a mensagem aqui proposta por Mateus, devemos ter em conta a realidade da comunidade a quem o Evangelho se destina…. Estamos no final do primeiro século (anos oitenta). Passaram-se mais de trinta anos após a morte de Jesus. O entusiasmo inicial deu lugar à monotonia, à falta de empenho, a uma vivência “morna”, pouco exigente e pouco comprometida. No horizonte próximo das comunidades cristãs perfilam-se tempos difíceis de perseguição e de hostilidade e os cristãos parecem pouco preparados para enfrentar as dificuldades. Mateus sente que é preciso renovar o compromisso cristão e chamar a atenção dos crentes para o Reino, para as suas exigências e para os seus valores. As parábolas do Reino que hoje nos são propostas devem ser lidas neste contexto. in Dehonianos.

Ter em conta, na reflexão, os seguintes elementos:

A primeira e mais importante questão abordada neste texto é a das nossas prioridades. Para Mateus, não há qualquer dúvida: ser cristão é ter como prioridade, como objetivo mais importante, como valor fundamental, o Reino. O cristão vive no meio do mundo e é todos os dias desafiado pelos esquemas e valores do mundo; mas não pode deixar que a procura dos bens seja o objetivo número um da sua vida, pois o Reino é partilha. O cristão está permanentemente mergulhado num ambiente em que a força e o poder aparecem como o grande ideal; mas ele não pode deixar que o poder seja o seu objetivo fundamental, porque o Reino é serviço. O cristão é todos os dias convencido de que o êxito profissional, a fama a qualquer preço são condições essenciais para triunfar e para deixar a sua marca na história; mas ele não pode deixar-se seduzir por esses esquemas, pois a realidade do Reino vive-se na humildade e na simplicidade. O cristão faz a sua caminhada num mundo que exalta o orgulho, a autossuficiência, a independência; mas ele já aprendeu, com Jesus, que o Reino é perdão, tolerância, encontro, fraternidade… O que é que comanda a minha vida? Quais são os valores pelos quais eu sou capaz de deixar tudo? Que significado têm as propostas de Jesus na minha escala de valores?

A decisão pelo Reino, uma vez tomada, não admite meias tintas, tibiezas, hesitações, jogos duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho. A minha opção pelo Reino é uma opção radical, sincera, que não pactua com desvios, com compromissos a “meio gás”, com hipocrisias e incoerências?

Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental – o Reino – que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?

Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem – todo o tempo do mundo – para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam? in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura narra o diálogo entre Salomão e Deus. A proclamação desta leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto e articulação entre as intervenções de Deus e de Salomão.

A segunda leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente na sua preparação, mas isso não deve descurar a sua preparação. Deve ter-se em atenção a pontuação com as respetivas pausas e respirações devido à presença de vírgulas e ponto e vírgula

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

VAI, VENDE, DÁ, VEM E SEGUE-ME!

Pelo terceiro Domingo consecutivo, a Igreja Una e Santa escuta com amor, da boca do Senhor Jesus, as belíssimas parábolas do Reino dos Céus, guardadas em Mateus 13. Neste Domingo XVII, é-nos dado, por graça, escutar nos nossos ouvidos (cf. Mateus 13,43) o final do «Discurso das Parábolas do Reino» (Mateus 13,44-52), em que nos é oferecida uma nova trilogia de parábolas significativas: a parábola do tesouro escondido no campo (Mateus 13,44), a parábola da pérola (Mateus 13,45-46) e a parábola da rede (Mateus 13,47-50).

As duas primeiras pequeninas parábolas desta trilogia, a do tesouro escondido no campo e a da pérola preciosíssima, constituem dois fortíssimos acenos a deixar tudo por amor, para, por um amor maior, seguir Jesus, que é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254). A tessitura da parábola do tesouro escondido no campo assenta no velho princípio de que quem adquire um bem imóvel, adquire também os bens móveis a ele ligados. É Jesus o tesouro escondido, é Ele a pérola preciosíssima. Para o seguir, é mesmo necessário deixar tudo (Lucas 14,33).

Toda a atenção e empenho, portanto, que o tesouro de Deus não se dá em qualquer campo. São, por isso, necessários novos mapas, novas pautas, novas coordenadas, novas estradas, para se poder procurar e saber encontrar esse tesouro escondido. É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).

A parábola da rede é a que ocupa mais espaço no texto: quatro versículos. Mais do que as duas anteriores juntas. Servindo-se agora de uma imagem tirada do mundo piscatório, Jesus diz que o Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes, requerendo depois que os pescadores se sentem na praia para fazer a destrinça entre os peixes bons e os que não prestam. Naturalmente, guardam os bons e deitam fora os que não prestam. A destrinça entre peixes bons e maus não se deve à qualidade ou ao tamanho. Trata-se da distinção entre o puro e o impuro, o que é considerado kasher e não-kasher. Sobre o assunto, diz o Livro do Levítico, que são puros (kasher) e se podem comer os peixes com barbatanas e escamas (Levítico 11,9), tendo de se deitar fora, como impuros (não-kasher), os peixes sem barbatanas e sem escamas (Levítico 11-10-12).

Este cuidado meticuloso deve-se ao facto de o Mar da Galileia ser muito abundante em peixe e reunir também uma fauna piscícola muito variada e, em alguns casos, original, salientando-se, neste particular, o chamado «peixe de S. Pedro» (chromis Simonis), que possui uma cavidade oral onde conserva os ovos, e, depois as crias, e onde, por vezes, também recolhe pequenos seixos e objetos metálicos, o que explica o episódio da moeda referido em Mateus 17,27.

E tal como na parábola do trigo e da cizânia (ver Domingo XVI), também aqui Jesus difere para o fim do mundo a destrinça entre maus e justos (Mateus 13,49), efetuada ainda assim, não por nós, mas pelos Anjos. Outra vez pausa e bemol na partitura!

Esta secção das sete parábolas acerca do Reino dos Céus, contadas por Jesus, fecha com a pergunta formulada por Jesus aos seus discípulos: «Compreendeis todas estas coisas?», a que eles respondem: «Sim!» (Mateus 13,51). Vê-se que esta pergunta e a respetiva resposta correspondem ao dito de Jesus em Marcos 4,13, no final da parábola da semente: «Não sabeis esta parábola? E como conhecereis todas as parábolas?».

E Jesus termina com uma espécie de oitava parábola: «Todo o escriba feito discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas» (Mateus 13,52). Aí está a imensa sabedoria e alegria do discípulo que deve ser como um pai, que dispõe na sua imensa dispensa de produtos excelentes, novos, como o pão fresco, antigos, como o vinho velho. O escriba apenas transmitia as coisas antigas que vinham na torrente da tradição. Aqui está a Divina dispensa do Novo e Antigo Testamentos, Alimento de vida eterna.

Chegados a este ponto, já não devem restar dúvidas de que, contando estas sete parábolas do Reino dos Céus, Jesus se conta a si mesmo. É Ele a parábola que passa diante de nós, o Reino de Deus em pessoa (autobasileía) que passa diante de nós. Pequenino como a semente, escondido como o crescente, fecundo como a semente e como o crescente, cai à terra ou na farinha e morre (Paixão) para viver (Ressurreição) e dar vida (Pão), escondido como o tesouro ou a pérola, que é preciso procurar apostando tudo: a vida toda, o tempo todo, o dinheiro todo. O Reino dos Céus é também como o campo em que cresce ao mesmo tempo o bom e o mau, ou a rede que recolhe o bom e o mau.

Levanta-se a questão: se, com Jesus e em Jesus, é o Reino de Deus que chega até nós, então porque é que a sua mensagem não é logo recebida por todos sem discussão e com alegria? E porque é que Jesus não se impõe logo com uma autoridade tal que dissipe qualquer dúvida, que ponha de lado logo à partida qualquer pretensão de qualquer pretenso adversário? E porque é que Jesus não estabelece logo, a talho de foice, claras distinções? Parece tudo ambíguo, e, todavia, desenha-se aqui um rasto de claridade: ontem como hoje, na situação atual, convivem lado a lado o bom e o mau (até em cada um de nós essa convivência é verdadeira), mas esta não é a situação definitiva! Do mesmo modo que, na situação atual, o valor eminente do Reino de Deus e o empenho total que lhe é devido, fica muitas vezes escondido por outras realidades, como a família, a profissão, a posição social, a saúde, o bem-estar, os interesses, os desejos, as paixões… Note-se que um tesouro escondido, por não ser imediatamente acessível, não se impõe por si, e há muitas coisas cujo brilho e luminosidade as torna imediatamente atraentes! Mas vai-se dando a entender, no chão mesmo das parábolas, que o valor último que valida todos os outros valores é o Reino de Deus e os seus segredos, que é preciso desvendar.

Outra sabedoria, outro saber, outro sabor. Salomão afinado, avant la lettre, pelo Evangelho. É assim que a lição do Primeiro Livro dos Reis (3,5-12) nos mostra hoje Salomão a pedir a Deus, não coisas, nem a derrota dos inimigos, mas simplesmente um coração sensível, sensato e inteligente, capaz de escutar e de se sintonizar, em alta-fidelidade (hi-fi), com a bondade da Palavra de Deus, muito mais valiosa do que o ouro. Um coração com discernimento (tebûnah), «um coração que saiba distinguir (bîn) entre o bem e o mal» (1 Reis 3,9). A Carta aos Hebreus apresentará, a seu tempo, os cristãos adultos na fé como aqueles que sabem «distinguir (diakrínô) entre o bem e o mal» (Hebreus 5,14). O bem e o mal não são valores no meio de outros valores. O bem é a vida; o mal é a morte. «Vê, ponho hoje diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal…; escolhe, portanto, a vida» (Deuteronómio 30,15.19). O bem e o mal não são valores iguais aos outros. Distinguir entre o bem e o mal é tão importante como distinguir entre a vida e morte.

Na Carta aos Romanos (8,28-30), S. Paulo conta, aos nossos olhos de crianças deslumbradas, a história verdadeira que o amor de Deus já fez acontecer na nossa vida: já fomos chamados, conhecidos, predestinados, justificados e glorificados por Deus! Por isso, damos graças a Deus! Não se trata de «predestinação» individual, como alguns têm interpretado. Trata-se do plano de Deus, o mesmo ontem, hoje e amanhã, que envolve a afeta todos «os muitos irmãos», reunidos e conformados à imagem do seu Filho, «primogénito de toda a criatura» (Colossenses 1,15) e também «primogénito dos mortos» (Colossenses 1,18; Apocalipse 1,5), envolvendo aqui a nossa história inteira desde a Criação à Ressurreição.

O Salmo 119, o mais longo do Saltério, é uma admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus, que alumia a nossa vida. Não é uma coisa comprida e chata, mas uma monotonia admirável, como escreveu bem, no seu livro Rezar os Salmos com Cristo, o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, morto pelos nazis em 9 de abril de 1945, que aconselhou a quem reza este Salmo «a proceder palavra por palavra, frase por frase, muito lentamente, tranquilamente, pacientemente. E descobriremos então que as aparentes repetições são, na verdade, aspetos novos de uma única realidade, o amor pela Palavra de Deus». O eminente cientista francês Blaise Pascal (1623-1662) recitava este Salmo todos os dias, rosário bíblico que percorre a Palavra de Deus, enunciando todos os seus sinónimos e sabores.

Estas linhas leves e ledas
Com que Jesus se expõe em parábolas
São como asas
Que guardam o segredo mais inteiro de Jesus,
O seu tesouro mais profundo,
A pérola preciosa,
Preciosa e firme,
Porque leve e suave como uma almofada,
Onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça,
E tranquilamente conduzir,
Dormindo mansamente à popa,
A nossa barca no meio do mar encapelado
Desta pandemia.

Nos lábios de Jesus,
Chama-se «Pai» este lugar seguro e manso,
Doce e aprazível,
Que acolhe os pequeninos,
Os senta sobre os seus joelhos,
Lhes conta a sua história mais bela,
E lhes afaga o rosto com ternura.

Sim,
Como diz Santo Agostinho,
«O peso de Cristo é tão leve, que levanta,
Como o peso das asas para os passarinhos».

António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XVII do Tempo Comum – Ano A – 30.07.2023 (1Reis 3, 5.7-12)
      2. Leitura II do XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A – 30.07.2023 (Rom 8, 28-30)
      3. Domingo XVII do Tempo Comum – Ano A – 30.07.2023 – Lecionário
      4. Domingo XVII do Tempo Comum – Ano A – 30.07.2023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 23.07.2023

III Dia Mundial dos Avós e dos Idosos

Viver a Palavra

Diante de um mundo onde tudo corre a passo lesto, onde procuramos resoluções rápidas e imediatas e onde as soluções radicais são bastante tentadoras e populistas, emerge a paciência fecunda da metáfora agrícola de um campo de trigo que parece ameaçado pelo joio que cresce conjuntamente ou da pequena semente de mostarda que cresce para se tornar uma árvore grande e frondosa onde as aves do céu se podem abrigar ou até da imagem doméstica da mulher que junta o fermento à farinha para levedar toda a massa.

A paciência fecunda é uma nobre arte que parece passada de moda, pois diante das nossas urgências quotidianas parece quietude, inércia ou até relativismo. Como afirma o P. Nuno Tovar de Lemos, as «soluções radicais» parecem muito tentadoras, quer em nós mesmos («saio de casa e acaba-se com isto de uma vez por todas!), quer em relação ao mundo («o que isto está a precisar é de um bom ditador!», «se não vai a bem, vai a mal!»), quer em relação à religião (com os fundamentalismos religiosos).

Na verdade, continuando a narrar as parábolas evangélicas que ocupam o centro geográfico e teológico do Evangelho de Mateus, Jesus ensina-nos que a pressa de acabar de vez com todo o mal pode destruir o bem e que o desejo de ver a semente germinar e tornar-se uma grande árvore exige a espera e o cuidado paciente que é tanto mais frutuosa quanto mais discreta e humilde como o fermento, que pequeno e discreto leveda toda a massa.

Importa ressalvar que a parábola do trigo e do joio não é um convite ao relativismo. O dono da casa não afirma que trigo e joio são a mesma coisa. Para ele, o joio é claramente mau e claramente distinto do trigo. Num mundo relativista, facilmente perdemos a exigência e deixamos de ter ideais elevados, contudo é essencial ter grandes ideais e lutar por eles. Mas temos de distinguir a necessidade de termos ideais da tentação de sermos idealistas. Uma coisa é ter um ideal como meta que orienta o nosso agir e nos indica a direção do nosso caminho, outra coisa são os idealismos que possuem uma grande dose de impaciência e irritação para connosco e com o mundo pelo facto de a realidade ainda não ser aquilo que devia ser. Esta impaciência e irritação conduzem a duas saídas, ambas erradas: as soluções radicais ou o relativismo.

Contudo, não é assim com o dono deste campo que tolera até à colheita a presença do joio a crescer com o trigo. Se permite isto, é porque não quer que algum trigo se perca na ânsia desesperada de arrancar o joio, isto é, ele está muito mais preocupado com o trigo que com o joio. Na verdade, os nossos perfeccionismos e soluções radicais são muito mais centrados no joio que no trigo.

Jesus sabe que na nossa vida e no nosso coração crescem trigo e joio, bem e mal. Esta mansidão de Deus no seu agir com os homens e mulheres como narra a primeira leitura e que aparece descrita pelo dono do campo na parábola constituem um apelo à arte da paciência e da convivência onde cada batizado indigente da paciência e benevolência de Deus converte o seu coração para que se torne manso, humilde e paciente para com as fraquezas e limitações do próximo. Contudo, a misericórdia e bondade de Deus não são um convite ao comodismo, mas apelo permanente à conversão para que a semente lançada no coração de cada homem e cada mulher germine e cresça como aquele pequeno grão de mostarda, de modo que as nossas vidas sejam ótimo fermento a levedar toda a massa e a fazer ecoar no mundo a mais bela melodia do amor de Deus. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Sab 12,13.16-19

«Aos vossos filhos destes a esperança feliz de que, após o pecado, dais lugar ao arrependimento».

Ambiente

O “Livro da Sabedoria” é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento (aparece durante a primeira metade do séc. I a.C.). O seu autor – um judeu de língua grega, provavelmente nascido e educado na Diáspora (Alexandria?) – exprimindo-se em termos e conceções do mundo helénico, faz o elogio da “sabedoria” israelita, traça o quadro da sorte que espera o justo e o ímpio no mais-além e descreve (com exemplos tirados da história do Êxodo) as sortes diversas que tiveram os pagãos (idólatras) e os hebreus (fiéis a Jahwéh). O seu objetivo é duplo: dirigindo-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), convida-os a redescobrirem a fé dos pais e os valores judaicos; dirigindo-se aos pagãos, convida-os a constatar o absurdo da idolatria e a aderir a Jahwéh, o verdadeiro e único Deus… Para uns e para outros, só Jahwéh garante a verdadeira “sabedoria” e a verdadeira felicidade.

O texto que nos é proposto pertence à terceira parte do livro (cf. Sab 10,1-19,22). Nessa parte, recorrendo, sobretudo, à técnica do midrash, o autor faz a comparação entre os castigos que Deus lançou contra os “ímpios” (os pagãos) e a salvação reservada aos “justos” (o Povo de Deus).

O autor começa por mostrar como a “sabedoria” de Deus se manifestou na história de Israel (cf. Sab 10,1-11,14). Em contraste, vai descrever como é que Deus tratou os egípcios (cf. Sab 11,15-20) e os idólatras cananeus (cf. Sab 12,3-19). O texto que nos é proposto faz parte desta última perícope

Os cananeus eram, na perspetiva dos israelitas, uma raça maldita e perversa, que cometiam crimes especialmente hediondos: “praticavam obras detestáveis, ritos ímpios, e eram cruéis assassinos dos seus filhos” (Sab 12,4-5). Deus podia tê-los eliminado rapidamente (cf. Sab 12,9); no entanto, retardou o mais possível o castigo (cf. Sab 12,8), dando-lhes várias oportunidades de se arrependerem e de mudarem de vida (cf. Sab 12,10).in Dehonianos.

Para a reflexão e atualização da Palavra, podem tomar-se as seguintes indicações:

O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam ações erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada… Mas já o interiorizámos suficientemente?

Interiorizar esta “fotografia” de Deus significa “empapar-nos” da lógica do amor e da misericórdia e deixar que ela transpareça em gestos para com os nossos irmãos. Isso acontece realmente? Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos comportamentos nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam ações erradas?

Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como “castigos” de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores… Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 85 (86)

Refrão: Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

LEITURA II – Rom 8,26-27

«O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos que pedir nas nossas orações».

Ambiente

Há já alguns domingos que Paulo nos vem propondo uma catequese sobre o caminho a seguir para poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,21-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39) – a comunidade do Reino.

No passado domingo, Paulo convidava os crentes a decidirem-se pela vida “segundo o Espírito”. Dizia-nos que essa opção terá uma dimensão cósmica e que ajudará a vencer os desequilíbrios e desarmonias que destroem a criação de Deus. Trata-se, no entanto, segundo Paulo, de um caminho difícil, que exige padecimentos, renúncias, purificações, renovação da vida.

Como é que o cristão pode fazer essa opção? Como é que ele percebe, claramente, qual é o caminho? Donde recebe ele a força para viver “segundo o Espírito”? in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

Antes de mais, há neste texto um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.

O Espírito de Deus, vivo e atuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a “prova provada” do amor de Deus por nós. O Espírito oferece-nos cada dia a vida de Deus, leva-nos ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.

O ritmo da vida moderna é estonteante… As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para refletir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida “segundo a carne” ou “segundo o Espírito”.

O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projeto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele? in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 13,24-43

«O reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo».

«O reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo».

«O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha».

Ambiente

Continuamos em contacto com as “parábolas do Reino”. O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de três imagens ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do “Reino”.

Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por “parábolas”: porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante; porque a “parábola” é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em contextos polémicos; porque a “parábola” faz as pessoas pensar e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as “parábolas” são uma linguagem privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o Reino e para as levar a aderir ao Reino.

Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga coleção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”).

Também desta vez percebe-se – tanto nas parábolas, como nas explicações que as acompanham – a preocupação “pastoral” de Mateus: ele não é um jornalista a transcrever o que Jesus disse; mas é um “pastor” que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige. in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:

O Evangelho deste domingo garante-nos, antes de mais, que o “Reino” é uma realidade irreversível, que está em processo de crescimento no mundo. É verdade que é difícil perceber essa semente a crescer ou esse fermento a levedar a massa, quando vemos multiplicarem-se as violências, as injustiças, as prepotências, as escravidões… É difícil acreditar que o “Reino” está em processo de construção, quando o materialismo, a futilidade, o comodismo, a procura da facilidade, o efémero, sobressaem, de forma tão marcada, na vida de grande parte dos homens e das mulheres do nosso tempo… A Palavra de Deus convida-nos, contudo, a não perder a confiança e a esperança. Apesar das aparências, o dinamismo do “Reino” está presente, minando positivamente a história e a vida dos homens.

Na verdade, falar do “Reino” não significa falarmos de um “condomínio fechado”, ao qual só tem acesso um grupo privilegiado constituído pelos “bons”, pelos “puros”, pelos perfeitos”, e de onde está ausente o mal, o egoísmo e o pecado… Falar do “Reino” é falar de uma realidade em processo de construção, onde cada homem e cada mulher têm o direito de crescer ao seu ritmo, de fazer as suas escolhas, de acolher ou não o dom de Deus, até à opção final e definitiva. É falarmos de uma realidade onde o amor de Deus, vivo e atuante, vai introduzindo no coração do homem um dinamismo de conversão, de transformação, de renascimento, de vida nova.

Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não preveem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem “todo o tempo do mundo” para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a “paciência” de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.

A “paciência de Deus” com o joio convida-nos também a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O “senhor” da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos “servos” que pretendem “cortar o mal pela raiz” e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro… A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorretos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.

Convém termos sempre presente o seguinte: não há o mal quimicamente puro de um lado e o bem quimicamente puro do outro… Mal e bem misturam-se no mundo, na vida e no coração de cada um de nós. Dividir as nações em boas (as que têm uma política que serve os nossos interesses) e más (as que têm uma política que lesa os nossos interesses), os grupos sociais em bons (os que defendem valores com os quais concordamos) e maus (os que defendem valores que não são os nossos), os indivíduos em bons (os amigos, aqueles que nos apoiam e que estão sempre de acordo connosco) e maus (aqueles que nos fazem frente, que nos dizem verdades que são difíceis de escutar, que não concordam connosco)… é uma atitude simplista, que nos leva frequentemente a assumir atitudes injustas, que geram exclusão, marginalização, sofrimento e morte. Mais uma vez: saibamos olhar para o mundo, para os grupos, para as pessoas sem preconceitos, com a mesma bondade, compreensão e tolerância que Deus manifesta face a cada homem e a cada mulher, independentemente das suas escolhas e do seu ritmo de caminhada. in Dehonianos

Para os leitores:

            As leituras propostas para este Domingo não apresentam nenhuma dificuldade aparente na sua preparação.

Contudo, um texto curto, como o caso da segunda leitura, exige um cuidado ainda maior para uma eficaz proclamação do texto. Em ambos os textos, pede-se o cuidado nas pausas e respirações, porque possuem frases longas com diversas orações

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

GUARDA NO CÉU O TEU CORAÇÃO

O Capítulo 13 do Evangelho de Mateus constitui o centro geográfico e teológico deste Evangelho, com as suas sete parábolas do Reino de Deus, postas na boca de Jesus. É o chamado «Discurso das Parábolas do Reino», o terceiro dos cinco grandes Discursos de Jesus neste Evangelho, depois do «Discurso da Montanha» e do «Discurso Missionário». Neste Domingo XVI do Tempo Comum continuamos, pois, a ouvir o Discurso das Parábolas do Reino iniciado por Jesus no Domingo passado, com a primeira parábola, a parábola da semente ou do semeador (Mateus 13,1-23). Hoje ouviremos as três parábolas seguintes – do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32) e do fermento (13,33) –, a que se segue, a pedido dos discípulos, a explicação de Jesus acerca da parábola do trigo e da cizânia (Mateus 13,36-43).

Tal como a parábola da semente, também a parábola do trigo e da cizânia, que crescem juntos no campo, e que é exclusiva de Mateus, é grandemente ilustrativa e fortemente impressiva. O termo «cizânia» deriva do hebraico zunîm, que provém com certeza do verbo zanah [= prostituir-se]. A cizânia é, portanto, erva ruim e danosa no meio do trigo. A nossa impaciência em esperar por mais tempo o Reino de Deus, que queremos que venha depressa e que tudo clarifique e resolva já, leva-nos, na pessoa dos servos da parábola, a propor ao proprietário do campo: «Queres, então, que vamos arrancá-la?» (Mateus 13,28b). E a resposta inesperada do proprietário: «Deixai-os crescer ambos juntos até à colheita» (Mateus 13,30a), deixa-nos desconcertados. E mais desconcertados ficamos, quando vimos a saber um pouco depois, na explicação da parábola, que «a colheita é o fim do mundo» (Mateus 13,39b), e que só então será queimada a cizânia (Mateus 13,40) e os que praticam a iniquidade (Mateus 13,42).

De notar que, tal como os servos da parábola, e nós com eles, também João Batista era partidário de um julgamento já e em força, levado a efeito por um Messias justiceiro, sem dó nem piedade. De facto, ele conta-se entre os servos que queriam queimar já a palha e a cizânia. Prestemos atenção aos termos e ao tom da sua pregação:

«Já o machado está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mateus 3,10).

«A pá de joeirar está na sua mão: ele purificará completamente a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; a palha, porém, queimá-la-á com fogo inextinguível» (Mateus 3,12).

A mesma linguagem, mas não as mesmas ideias, mostram o contraponto claro e inequívoco do proprietário do campo, e, claro, de Jesus:

«Deixai “crescer juntamente” (synauxánomai) ambos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: “Arrancai primeiro a cizânia, e juntai-a em feixes, para ser queimada; quanto ao trigo, recolhei-o no meu celeiro”» (Mateus 13,30).

Como se vê, próprio de Jesus não é a intolerância, o já e em força, mas a mansidão, a compreensão, a convivência, a tolerância e a distensão.

Espantoso é ainda o milagre do grão de mostarda. Pequenino. Pequenino. Tão pequenino que propriamente nem grão chega a ser. É semelhante, no corpo e na cor, a café moído, uma espécie de pó acastanhada que podemos espalhar na palma da mão. Porém, deitado à terra, dá corpo a uma árvore grande, carregada de passarinhos que dela fazem a sua casa, e a enchem de música e de alegria. Assim é, para espanto nosso, o Reino dos Céus! E o fermento, igualmente pequenino, mas que leveda três medidas de farinha, mais ou menos o equivalente a 60 quilos de farinha! Tanta farinha dá para alimentar, não uma família da Palestina, mas umas 150 pessoas! É do banquete do Reino dos Céus que se trata! E aquele «até que tudo fique levedado» (Mateus 13,33) traz a Eucaristia para o quotidiano da vida de uma mulher e mãe de família da Palestina, pois lembra o «até que Ele venha» da celebração da Ceia do Senhor (1 Coríntios 11,26), tal como fazemos neste Domingo.

Quando a nossa força é a norma que nos rege e nos domina, como afirmam os ímpios no Livro da Sabedoria (2,11), e a prepotente Assíria em Isaías (10,13), então já não somos livres, mas escravos da força, dominados pela força. Estamos, de resto, habituados a ver como é difícil dominar a força: basta ver as forças militares que os impérios deste mundo põem no terreno, e que depois, mesmo querendo, como é difícil voltar atrás! Mas o nosso Deus é apresentado, na lição de hoje do Livro da Sabedoria (12,13.16-19), como aquele que «domina a força» (Sabedoria 12,18), que cuida de todos com carinho, a todos perdoa, e nos chama a ser amigos. Assim também o Espírito, diz-nos hoje S. Paulo numa «migalhinha» da Carta aos Romanos (8,26-27), não grita, mas reza em nós e por nós, suavemente, com «gemidos sem palavras» (stenagmoîs alalêtois) (Romanos 8,26). Trata-se, portanto, de uma lalação filial, em que conta e canta a ternura mais do que as palavras. É assim que a «migalhinha» da Carta aos Romanos acomoda à mesma mesa paterna os meninos e os passarinhos que descem dos ramos da árvore da mostarda para habitar na tua casa (Salmo 84,4).

Enfim, um grande Salmo (86) toma hoje conta de nós, deixando a ressoar em nós as notas da inteira liturgia, desde logo os atributos do nosso Deus, como um Deus de «misericórdia e de graça» (rahûm wehanûn) (Salmo 86,15), como repetidamente cantaremos no refrão. Deixo aqui um pedacinho do comentário apaixonado de Santo Agostinho: «Sobre a terra, o coração não se corrompe, se o elevarmos para Deus. Se tens grão, vais guardá-lo no celeiro, para que não se estrague. E como poderás, então, deixar apodrecer o teu coração, deixando-o na terra? Leva o teu grão para um plano superior, e eleva o teu coração para o céu!».

Talvez venham abrigar-se nele os pássaros do céu! Talvez haja festa em tua casa!

No dia em que os passarinhos,
Que não semeiam nem ceifam,
Vieram cantar à Catedral,
Rodopiando,
Felizes e contentes,
Lá bem no alto,
Junto aos coloridos tetos de Nasoni,
Indiferentes ao outro canto do coral,
Ou talvez com ele condizentes,
Vi bem que era Deus que os recebia em sua casa,
Coisa que, pelo que vi,
Também eles bem sabiam.

Era por isso que expressavam a sua alegria.
Na verdade, reza o Salmo:
«Na Tua casa,
Ó Deus,
Até o passarinho encontrou abrigo,
E a andorinha um ninho para os seus filhos».

Felizes então, Senhor,
Os que moram na Tua casa,
E se sentam à Tua mesa,
E se deliciam com a Tua Palavra,
Saborosa e mansa,
Como a chuva mansa,
Que rega o chão e faz germinar o pão,
Que rega o coração e faz germinar a conversão.

Como no dia
Em que os passarinhos vieram cantar à Catedral,
E receber da Tua mão
Uma migalhinha de pão.

António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 23.07.2023 (Saqb 12, 13.16-19)
      2. Leitura II do Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 23.07.2023 (Rom 8, 26-27)
      3. Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 23.07.2023 – Lecionário
      4. Domingo XVI do Tempo Comum – Ano A – 23.07.2023 – Oração Universal
      5. III Dia Mundial dos Avós e dos Idosos – 23.07.2023
      6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 16.07.2023

Viver a Palavra

A forma longa do Evangelho proposto para este Domingo impele-nos mais à contemplação do que à explicação. Ao contrário das demais parábolas evangélicas, Jesus não narra apenas a parábola à imensa multidão que o rodeia, mas no círculo restrito dos discípulos explica-lhes o sentido da parábola.

Em primeiro lugar, emerge a pergunta: quem somos nós como destinatários desta parábola? Somo apenas mais um elemento desta imensa multidão que se reúne em torno de Jesus que «veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender» ou somos discípulos que se sentam com o Mestre a quem é «dado conhecer os mistérios do reino dos Céus» na consciência de que o Senhor nos oferece em abundância o pão da Sua Palavra para que possamos dar fruto abundante, não obstante a fragilidade do terreno que somos.

Como é belo contemplar o nosso bom Deus como semeador que sai a semear pelas estradas do mundo e no coração dos homens e mulheres que por amor criou. O nosso Deus é um semeador de mão cheia e com gesto largo para que a semente possa chegar a todos os lugares. Não é um desastrado que desperdiça semente, lançando-a fora do terreno fértil, desistindo de todos os outros lugares que aparentemente não estão preparados para a sementeira, mas um semeador generoso, que enche a mão e estende o braço ao longo e ao largo para que a todos possa chegar o gérmen de vida que poderá gerar fruto abundante.

O semeador generoso e ousado arrisca e espera pacientemente a sua colheita. A paciência é uma virtude fundamental da arte de semear. Temos tanto a aprender com o nosso bom Deus como agentes pastorais ao serviço da evangelização. Quanta pressa temos ao lançar a semente querendo ver de imediato os seus frutos! Quanto tempo perdemos a julgar o terreno! Como o Pai do Céu, somos chamados a semear abundantemente, sem desistir de ninguém, sem dar nenhum terreno por perdido, esperando numa paciência activa que me faz colaborar com o semeador, sendo terreno fértil onde permito que Deus actue.

Como a chuva faz regar o chão e faz germinar o pão, a Palavra de Deus rega o coração e faz germinar a conversão, cumprindo assim a sua missão. A parábola do semeador é um verdadeiro ensinamento sobre a arte da escuta, sobre a responsabilidade humana que a Palavra de Deus suscita na vida de cada um de nós. Contudo, importa referir que o centro da parábola não são os erros do homem e as suas limitações e fragilidades, mas Deus que semeia e espera pacientemente. Por mais que eu seja terreno árido, pedregoso e com espinhos, Deus continua a semear sem descanso para que eu possa dar fruto.

Comove-me sempre um Deus que semeia assim abundantemente para colher tão pouco. Deus sabe que por três vezes como diz a parábola e, tantas outras vezes como me diz a minha experiência, não respondo e não permito que a semente floresça. Mas Deus também sabe que, quando sou terreno fértil, a semente germina cem, sessenta e trinta por um.

É a ousadia de quem ama e espera sempre o melhor do outro, para lá dos seus limites e fracassos. É a desmedida confiança paternal que espera sempre mais dos seus filhos e que não desiste deles até que sejam homens e mulheres maduros que pelos seus frutos se tornam também boa semente para que o mundo possa ser o canteiro florido que proclama a beleza e a grandeza do Eterno Semeador.

Como S. Paulo nos recorda, estamos sujeitos «à vã situação do mundo». Somos frágeis e à superficialidade da escuta, como a semente lançada no caminho, temos de responder com a interioridade que permite que a palavra penetre o nosso íntimo. Somos terreno pedregoso que se alegra de modo efémero, mas depressa desvanece e, por isso, temos de responder com a perseverança que resiste às dificuldades. Vivemos rodeados por espinhos que nos querem sufocar e temos de responder com a luta espiritual que nos faz progredir na estrada da santidade. Deste modo, haveremos de nos tornar terra fértil e boa, não por mérito nosso, mas pela grandeza Daquele que em nós continua a semear em abundância. in Voz Portucalense

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O Evangelho deste XV Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra de Deus e exorta-nos a ser boa terra dando fruto abundante de boas obras. Deste modo, este Domingo é uma oportunidade para exortar os fiéis à leitura da Palavra de Deus na oração pessoal e na oração em família, oferecendo orientações concretas para ajudar neste caminho. Para muitos cristãos, o único lugar onde escutam a Sagrada Escritura é a celebração comunitária e a Bíblia permanece ainda como uma ilustre desconhecida. O tempo de férias poderá ser uma ocasião favorável para exercitarem esta relação próxima com a Palavra de Deus. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Is 55,10-11

«A palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».

Ambiente

O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta que exerce a sua missão entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e dececionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.
Na primeira parte desse livro (cf. Is 40-48), o profeta anuncia aos exilados a libertação do cativeiro e um “novo êxodo” do Povo de Deus rumo à Terra Prometida; na segunda parte (cf. Is 49-55), o profeta fala da reconstrução e da restauração de Jerusalém.

Estes três versículos que a primeira leitura de hoje nos propõem, aparecem no final do “Livro da Consolação”. Depois de convidar o Povo (que ainda está na Babilónia) a buscar e invocar o Senhor (cf. Is 55,6-9), o profeta relembra a eficácia da Palavra de Deus que acabou de ser proclamada aos exilados (cf. Is 55,10-11).

Estamos na fase final do Exílio (à volta de 550/540 a.C.). A comunidade exilada está farta de belas palavras e de promessas de libertação que tardam a concretizar-se… A impaciência, a dúvida, o ceticismo vão minando lentamente a resistência e a fé dos exilados… Será que as promessas de Deus se concretizarão? Deus não está a ser demasiado lento, em relação a algo que exige uma intervenção imediata? Deus ter-se-á esquecido da situação do seu Povo? in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, otimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efetivamente, um caminho de felicidade e de vida plena… “Que bom é estarmos aqui” – dizemos… Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados… Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.

A Palavra de Deus não poderá ser uma espécie de ópio do Povo, no sentido de que projeta em Deus as esperanças e os sonhos que nos competem a nós concretizar? Atenção: é preciso estarmos bem conscientes de que Deus não prescinde de nós para atuar na história humana… A sua Palavra dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. A Palavra de Deus não só não adormece a nossa vontade de agir, mas revela-nos os projetos de Deus para o mundo e para os homens e convida-nos ao compromisso com a transformação e a renovação do mundo.

Vivemos na era do relógio. “Tempo é dinheiro” – dizemos. Passamos a vida numa correria louca, contando os minutos, sem tempo para as pessoas, sem tempo para Deus, sem tempo para nós. Tornamo-nos impacientes e exigentes; achamos que ser eficiente é ter feito ontem aquilo que é pedido para hoje… E achamos que Deus também deve seguir os nossos ritmos. Queremos que Ele aja imediatamente, que nos resolva logo os problemas, que atue de imediato, ao sabor dos nossos desejos e projetos. É preciso, no entanto, aprender a respeitar o ritmo de Deus, o tempo de Deus. Não nos basta saber que a Palavra de Deus é sempre eficaz (embora não tenha os nossos prazos) e que não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a vontade de Deus, sem ter realizado a sua missão? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 64 (65)

Refrão – A semente caiu em boa terra e deu muito fruto.

LEITURA II – Rom 8,18-23

«Os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós».

Ambiente

Paulo continua a oferecer-nos a sua catequese sobre o caminho que é preciso seguir para se poder acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom de Deus, dom gratuito, que é fruto da bondade e do amor de Deus (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito que Jesus derrama sobre aqueles que aderem ao seu projeto e entram na sua comunidade (cf. Rom 8,1-39).

Nos versículos anteriores ao texto que hoje nos é proposto (cf. Rom 8,1-17), Paulo mostrou aos crentes o exemplo de Cristo e convidou os cristãos a seguirem o mesmo percurso. De forma especial, disse-lhes que seguir o exemplo de Cristo implica deixar a vida “segundo a carne” (isto é, a vida do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência) e aderir à vida “segundo o Espírito” (isto é, a vida de escuta de Deus, de obediência aos projetos de Deus, de doação aos homens). in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos:

Antes de mais, Paulo exorta os crentes a decidirem-se por uma vida “segundo o Espírito”. Essa opção terá uma dimensão cósmica e afetará a relação do homem com os outros homens e com toda a criação. Uma vida conduzida de acordo com critérios de egoísmo, de orgulho, de autossuficiência, de pecado, gera escravidão, injustiça, arbitrariedade, morte, sofrimento, que se refletem na vida de todos os outros seres criados e criam desequilíbrios que desfeiam este mundo que Deus quis “bom”… Ao contrário, uma vida conduzida de acordo com os critérios de Deus gera respeito, amor, solidariedade, que se refletem na vida dos outros seres criados e criam harmonia, equilíbrio, bem-estar, felicidade. Tenho consciência de que as minhas opções afetam os outros meus irmãos, bem como o mundo que me rodeia? Tenho consciência de que o mundo será melhor ou pior, de acordo com as opções que eu fizer?

No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a ideia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o “novo céu e a nova terra”.

Muitas vezes sentimo-nos confusos com certas novidades que nos desconcertam e que parecem pôr em causa os velhos esquemas sobre os quais o mundo se tem edificado. Criticamos os mais jovens pela sua ousadia, pelos seus valores, pelas suas preocupações, pela sua visão do mundo… Não sabemos para onde vamos e parece que nada faz sentido…. Sentimo-nos abalados e inseguros; lamentamo-nos porque tudo parece ir de mal a pior e não sabemos “onde isto vai parar”. Não é possível que, em muitos casos, a nossa rigidez esconda o comodismo, a instalação, o aburguesamento de quem tem medo da novidade?

Aconteça o que acontecer, somos convidados a olhar para o futuro do mundo e da humanidade com os óculos da esperança. Não caminhamos para o holocausto, para a destruição, para o nada, mas para o “novo céu e a nova terra”, que já estão em gérmen presentes na nossa história e que, cada dia, se manifestam um pouco mais.

Atenção: esse “novo céu e nova terra” não podem ser projetados para um futuro ideal, no céu… Eles estão já a construir-se na terra, na nossa história, sempre que os seguidores de Jesus aceitam o seu convite e se dispõem a viver “segundo o Espírito”. in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 13,1-23

«Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se».

«É por isso que lhes falo em parábolas, porque veem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender».

«Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um».

Ambiente

Hoje e nos próximos dois domingos, o Evangelho apresenta-nos parábolas de Jesus. A “parábola” é uma imagem ou comparação, através da qual se ilustra uma determinada mensagem ou ensinamento.
A linguagem parabólica não foi inventada por Jesus. É uma linguagem habitual na literatura dos povos do Médio Oriente: o génio oriental gosta mais de falar e de instruir através de imagens, de comparações e de alegorias, do que através dos discursos lógicos, frios e racionais, típicos da civilização ocidental.

A linguagem parabólica tem várias vantagens em relação a um discurso mais lógico e impositivo. Em primeiro lugar, porque a imagem ou comparação que caracteriza a linguagem parabólica é muito mais rica em força de comunicação e em poder de evocação, do que a simples exposição teórica: é mais profunda, mais carregada de sentido, mais evocadora e, por isso, mexe mais com os ouvintes. Em segundo lugar, porque é uma excelente arma de controvérsia: a linguagem figurada permite levar o interlocutor a admitir certos pontos que, de outro modo, nunca mereceriam a sua concordância. Em terceiro lugar, porque é um verdadeiro método pedagógico, que ensina as pessoas a refletir, a medir os prós e os contras, a encontrar soluções para os dilemas que a vida põe: espicaça a curiosidade, incita à busca, convida a descobrir a verdade.

No capítulo 13 do seu Evangelho, Mateus apresenta-nos sete parábolas, através das quais Jesus revela aos discípulos a realidade do “Reino”: são as “parábolas do Reino”.

Dessas sete parábolas, três procedem da tradição sinóptica (o semeador, o grão de mostarda, o fermento); as outras quatro (o trigo e o joio, o tesouro escondido, a pérola preciosa, a rede) não se encontram nem em Marcos, nem em Lucas. Provavelmente, são originárias da antiga fonte dos “ditos” de Jesus, que Mateus usou abundantemente na composição do seu Evangelho.

A preocupação do evangelista Mateus é sempre a vida da sua comunidade. Nestas sete parábolas e na interpretação que as acompanha, percebe-se a preocupação de um pastor que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé desses crentes a quem o Evangelho se destina. in Dehonianos.

Refletir nas seguintes questões:

No seu “estado atual”, a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a reflectir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?

A semente que caiu em terrenos duros, de terra batida, faz-nos pensar em corações insensíveis, egoístas, orgulhosos, onde não há lugar para a Palavra de Jesus e para os valores do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que veem no Evangelho um caminho para fracos e vencidos, e que preferem um caminho de independência e de autossuficiência, à margem de Deus e das suas propostas. Este caminho de orgulho e de autossuficiência alguma vez foi “o meu caminho”?

A semente que caiu em sítios pedregosos, que brota nessa pequena camada de terra que aí há, mas que morre rapidamente por falta de raízes profundas, faz-nos pensar em corações inconstantes, capazes de se entusiasmarem com o “Reino”, mas incapazes de suportarem as contrariedades, as dificuldades, as perseguições. É a realidade de tantos homens e mulheres que veem em Jesus uma verdadeira proposta de salvação e que a ela aderem, mas que rapidamente perdem a coragem e entram num jogo de cedências e de meias tintas quando são confrontados com a radicalidade do Evangelho. A Palavra de Deus é, para mim, uma realidade que eu levo a sério, ou algo que eu deixo cair quando me dá jeito?

A semente que caiu entre os espinhos e que foi sufocada por eles, faz-nos pensar em corações materialistas, comodistas, instalados, para quem a proposta do “Reino” não é a prioridade fundamental. É a realidade de tantos homens e mulheres que, sem rejeitarem a proposta de Jesus (muitas vezes são “muito religiosos” e têm “a sua fé”) fazem do dinheiro, do poder, da fama, do êxito profissional ou social o verdadeiro Deus a que tudo sacrificam. As propostas de Jesus são a referência fundamental à volta da qual a minha vida se constrói, ou deixo que outros interesses e valores sufoquem os valores do Evangelho?

A semente que caiu em boa terra e que deu fruto abundante faz-nos pensar em corações sensíveis e bons, capazes de aderirem às propostas de Jesus e de embarcarem na aventura do “Reino”. É a realidade de tantos homens e mulheres que encontraram na proposta de Jesus um caminho de libertação e de vida plena e que, como Jesus, aceitam fazer da sua vida uma entrega a Deus e um dom aos homens. Este é o quadro ideal do verdadeiro discípulo; e é esta a proposta que o Evangelho de hoje me faz.

A parábola, na sua forma original (vers. 1-9) refere-se à inevitável erupção do “Reino”, à sua força e aos resultados maravilhosos que o “Reino” alcançará… Com frequência, olhamos o mundo que nos rodeia e ficamos desanimados com o materialismo, a futilidade, os falsos valores que marcam a vida de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Perguntamo-nos se vale a pena anunciar a proposta libertadora de Jesus num mundo que vive obcecado com as riquezas, com os prazeres, com os valores materiais… O Evangelho de hoje responde: “coragem! Não desanimeis, pois, apesar do aparente fracasso, o ‘Reino’ é uma realidade imparável; e o resultado final será algo de surpreendente, de maravilhoso, de inimaginável”. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é constituída pela palavra dirigida por Deus ao Seu Povo e o discurso direto presente nesse texto é uma longa frase com diversas orações. Apesar de ser uma leitura breve e sem palavras de difícil pronunciamento, exige especial cuidado nas pausas e articulação das diversas orações.

Tal como a primeira leitura, a dificuldade da segunda leitura reside nas frases longas e com diversas orações. A preparação do texto deve ter em atenção a articulação das diversas frases para uma eficaz comunicação da mensagem.

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

A HISTÓRIA DO GRÃO DE TRIGO

Como a chuva rega o chão e faz germinar o pão, assim a Palavra de Deus rega o coração e faz germinar a conversão, cumprindo assim a sua missão. É a lição de Deus em Isaías 55,10-11, que, por graça, escutaremos neste Domingo XV do Tempo Comum.

Brotará então dos nossos lábios a bela canção do Salmo 65, em que o nosso coração se veste de festa e de primavera para enaltecer as maravilhas da criação, também ela com rosto, e com rosto tenso, completamente voltado para Deus, porque tudo recebe de Deus, porque se recebe de Deus. A criação com rosto, e com rosto completamente tendido para Deus, quase saindo fora do pescoço, tal a intensidade da espera, é uma imagem cunhada por Paulo com dois belíssimos termos gregos, ambos utilizados na lição deste Domingo da Carta aos Romanos 8,18-23, de que aqui transcrevemos os versículos 18 e 19: «Penso, de facto, que os sofrimentos do tempo presente não têm medida de comparação com a glória que está para ser revelada (apokalyphthênai) em nós. Com efeito, O ROSTO TENSO (apo-kara-dokía) da criação (tês ktíseos) a revelação (apokálypsis) dos filhos de Deus ESPERA em tensão RECEBER (apekdéchetaiapò + ek + déchomai)» (Romanos 8,18-19).

O primeiro termo é apokaradokía, de apò + kara + dokéô [= fora de + cara (rosto) + esperar/olhar atentamente], que só Paulo usa no Novo Testamento na Carta aos Romanos 8,19 e na Carta aos Filipenses 1,20, e que é desconhecido no grego antes do Cristianismo. Traduz a atitude de quem se coloca em bicos de pés, alongando o pescoço o mais que pode, com ânsia extrema e intensa de tentar ver o que ainda não se vê. É a atitude da esperança. E é esperando assim que se apanha o «tique» da esperança que, na língua hebraica se diz tiqwah! Diz bem o poeta da esperança: «Difícil é esperar, com humildade e paciência. Fácil é desesperar, e é a grande tentação» (Charles Péguy).

O segundo termo é o verbo apekdéchomai, de apò-ek-déchomai [= fora de + desde + receber], usado 8 vezes no Novo Testamento, 6 das quais em Paulo (Romanos 8,19.23.25; 1 Coríntios 1,7; Gálatas 5,5; Filipenses 3,20; ver também Hebreus 9,28; 1 Pedro 3,30), e desconhecido nos LXX, implica uma forte conotação de recepção, tensão para receber a salvação de Deus – viver de (ek) receber e de se receber (déchomai) de Deus (1 Coríntios 1,7), saindo de si (apó) para se orientar completamente para Deus, tensão para o dom, pois um dom não o podemos produzir com as nossas mãos; só o podemos receber de outras mãos. A esperança bíblica e cristã consiste na dupla atitude amante de estarmos sempre à espera de Alguém, e de sabermos bem que Alguém espera por nós. Espera, não vazia, mas grávida de realização e de confiança: «espera que contém a presença, pergunta que contém a resposta, esperança que contém o cumprimento» (Karl Barth).

Este Domingo XV traz-nos também a graça de podermos começar a escutar o Discurso das Parábolas de Jesus, que preenche todo o Capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, e que constitui mesmo o centro deste Evangelho. Este Capítulo 13 é constituído por sete parábolas: da semente (13,1-23), do trigo e da cizânia (13,24-30), do grão de mostarda (13,31-32), do fermento (13,33), do tesouro escondido no campo (13,44), da pérola (13,45-46) e da rede (13,47-50). Ao contrário da nossa tendência para decisões rápidas, do nosso gosto de coisas claras e distintas, imponentes e concludentes, salta à vista a lentidão (semente e fermento), a espera, a paciência e a tolerância (semente, trigo e cizânia, e rede), a pequenez (semente, grão de mostarda e fermento), a riqueza diferente, que não se pode trocar por nada (tesouro escondido e pérola).

A chamada «parábola do semeador» ou «da semente», que ouvimos neste Domingo XV (Mateus 13,1-23), segue o esquema «3 + 1» [caminho, terreno pedregoso, espinhos + terra boa], que põe em destaque o quarto elemento, a terra boa. O próprio modelo ou esquema é já, de per si, ilustrativo, duplamente ilustrativo, pois coloca diante dos nossos olhos um mapa de situações diferentes e falsas, as três primeiras, para depois, finalmente, deixar diante de nós, a situação boa e verdadeira; fazendo este percurso pedagógico, somos ainda obrigados a esperar até ao fim para ver o correto e lento percurso desde a sementeira [novembro/dezembro] até à colheita [abril/maio]. É mesmo dito, na parábola, pedagogicamente, contra a nossa tentação da rapidez, do «pronto-a-vestir», do «pronto-a-comer», etc., que a semente que germina depressa seca depressa:

«Outras, porém, caíram em terrenos pedregosos, onde não havia muita terra, e brotaram logo (euthéôs) por a terra não ter profundidade; mas, ao nascer o sol, foram queimadas, e, por não terem raiz, secaram» (13,5-6).

A mesma pressa soa por duas vezes na explicação:

«O semeado sobre os terrenos pedregosos é o que escuta a palavra e logo (euthýs) a recebe com alegria; não tem, porém, raiz em si mesmo. É inconstante. Quando surge uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo (euthýs) se escandaliza» (13,20-21).

A semente é coisa bem pequenina. É o que há de mais pequeno. Mas, uma vez caída à terra, dará o grão e o pão. Caída à terra, morre para nascer de outra maneira. É a Paixão. Da semente à Paixão e ao Pão: é todo o processo ou parábola de JESUS a passar diante dos nossos olhos atónitos! Portanto, se não entendemos a semente, o início do processo, como entenderemos o inteiro processo? (cf. Marcos 4,13).

Para a correta compreensão das parábolas de Jesus, ou da parábola que é Jesus, importa ler atentamente a missão e lição de Isaías, que, de resto, Jesus faz sua, citando-o (cf. Mateus 13,14-15). Trata-se de uma estranha missão, aparentemente votada ao fracasso. Transcrevemos:

«Ele disse: “Vai e diz a este povo: escutai escutando, e não compreendereis; vede vendo, e não conhecereis. Engorda o coração deste povo, torna-lhe pesados os ouvidos, gruda-lhe os olhos, para que não veja com os seus olhos, e não oiça com os seus ouvidos, e não compreenda com o seu coração, e não se converta e não seja curado” (rapha’). E eu disse: “Até quando, Senhor?” Ele disse: “Até que fiquem desertas as cidades, sem habitantes, e as casas sem gente, e a terra deserta e desolada, e YHWH remova para longe a gente, e muita solidão no interior do país. E se ficar nele ainda um décimo, será por sua vez lançado ao fogo, como o carvalho e o terebinto que são abatidos, ficando lá apenas um toco (matstsebet). Semente santa (zera‘ qodesh) é esse toco (matstsebet)”» (Is 6,9-13).

É esta a verdadeira parábola da palavra e do profeta e de Jesus. Só caindo à terra, como a semente, dará fruto (cf. João 12,24). Desiludam-se os que pensam e dizem que Jesus fala em parábolas para que todos possam compreender. Na verdade, segundo o próprio dizer de Jesus, Ele fala em parábolas para que, de acordo com a lição de Isaías acima transcrita, «vejam sem ver e oiçam sem ouvir» (Mateus 13,13). É, na verdade, o que acontece. Os próprios discípulos estão sempre a pedir explicações (cf. Mateus 13,36; Marcos 4,10). E só a eles Jesus explica tudo devagar (cf. Marcos 4,34).

Na verdade, a parábola que é Jesus passa despercebida às multidões, e até os seus discípulos saem de cena desconcertados (cf. Marcos 14,50). Poucos chegarão a ver e a compreender que Jesus é a semente que cai à terra e morre para viver e fazer viver. Poucos chegarão a ver e a compreender que Jesus é o «toco seco», que é uma semente santa, vinda de Deus e por Deus semeada. E que dará muito fruto.

Se o grão de trigo, que cai na terra,
Não morrer de alegria,
Fica sozinho e triste,
E morre de desgosto
E solidão
E fogo posto.
Mas se morrer de alegria,
Dará muito fruto,
E verá longos dias,
Cheios de alegrias
E novas melodias.

A nossa mesa encher-se-á de pão,
E virão
Os pardais e as cotovias
Partilhar a nossa refeição.

Como é bom, como é belo,
Viverem unidos os irmãos,
Sentados à beira da torrente
Da paz e da alegria,
À beira da nascente
De onde nasce o dia.

Abençoa, Senhor, o nosso coração,
Estende, com a tua mão,
Uma toalha branca à nossa mesa,
E senta-te connosco,
À volta da tua lareira sempre acesa.

Como é bom estarmos aqui, Senhor,
Mesmo sem tendas levantadas,
Basta-nos o teu amor
E as nossas mãos nas tuas entrançadas.

 António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 16.07.2023 (Is 55, 10-11)
      2. Leitura II do Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 16.07.2023 (Rom 8, 18-23)
      3. Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 16.07.2023 – Lecionário
      4. Domingo XV do Tempo Comum – Ano A – 16.07.2023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 09.07.2023

28Vinde a mim, todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos darei descanso. 29Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas vidas, 30pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve». Mt 11, 28-30

Viver a Palavra

Ouvimos muitas vezes dizer que a Boa Notícia que o Evangelho nos traz aparece em clara contracorrente com aquilo que são as nossas pretensões humanas e aquilo que o mundo apresenta como modelo e paradigma. Contudo, importa não fazer destas palavras um mero refrão ou slogan a repetir, mas procurar compreender como o Evangelho nos desinstala e nos desafia a moldar a nossa existência a partir da beleza e da exigência das palavras de Jesus.

Ser «sábio e inteligente», aparecer nas primeiras páginas dos jornais e revistas, ocupar lugares de destaque social e eclesial são pretensões muito humanas e que facilmente conseguimos identificar em tantas pessoas que conhecemos. Porém, antes de tudo, é necessário que o nosso modo de olhar o mundo e a realidade não nos descarte do cenário que analisamos. Somos parte integrante deste mundo que nos educa para sermos os vencedores, os mais bem-sucedidos, os primeiros e os que se destacam dos demais.

Em contracorrente aparece Jesus, que diante da incredulidade de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, entra em oração e diálogo com Deus. Invocando-O como Abbá, Pai, ensina-nos a dirigir a Deus, estabelecendo um colóquio íntimo e próximo com Aquele que sabemos que nos ama.

Jesus louva e bendiz o Pai porque o segredo de uma vida feliz e realizada reside na pequenez evangélica daqueles que reconhecem que a sua fragilidade não é um obstáculo ao amor e à graça de Deus, mas precisamente o lugar onde eles atuam. A nossa pequenez feita oração confiante ao Pai, ao jeito de Jesus, transforma-se em confiança e renova no nosso coração a esperança.

Jesus não rejeita a sabedoria e a inteligência, nem está de modo algum a exortar-nos à baixa autoestima ou ao menosprezo das nossas capacidades e qualidades. Pelo contrário, desafia-nos a colocar as nossas capacidades e qualidades ao serviço do Reino, cultivando no nosso coração a verdadeira sabedoria e inteligência que não se traduz na acumulação de muitos conhecimentos, mas na sublime arte de colocar em prática aquilo que aprendemos na alegria nova que apenas o serviço por amor nos pode oferecer. É a vida segundo o Espírito a que nos exorta S. Paulo, convidando-nos a fazer da nossa humanidade o substrato onde a graça atua e nos permite entrar em comunhão com Deus. Também Jesus assumindo a nossa humanidade não a desprezou, mas fez dela lugar de comunhão e intimidade com o Pai. Aquele que foi enviado pelo Pai, que é conhecido por Ele e que O conhece é Aquele que nos revela o Seu rosto terno e misericordioso.

«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas». Nestas palavras de Jesus encontramos o itinerário discipular que somos chamados a percorrer. Antes de mais somos chamados: «vinde a mim». Jesus conhece as nossas canseiras e dificuldades, as nossas fragilidades e limitações, mas chama-nos e convida-nos a encontrar força e alento no Seu coração manso e humilde. Oferece-nos o Seu coração como escola da arte de amar. Curiosamente, esta é a única passagem evangélica em que Jesus nos diz claramente «aprendei de Mim» e junta-lhe «que sou manso e humilde de coração». Mansidão e humildade serão caminho seguro para acolher a grandeza e a força do Reino de Deus.

Deste modo, como discípulos somos chamados a afinar o nosso coração com o coração do Mestre, para que também as nossas vidas se tornem lugar de anúncio da beleza do amor de Deus e se constituam como lugares de acolhimento, disponibilidade e conforto para quantos caminham cansados e atribulados os trilhos da história. in Voz Portucalense

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O mês de julho na nossa diocese do Porto marca a celebração dos aniversários de ordenação de muitos dos nossos presbíteros. Este ano as ordenações serão no dia 9 de julho e serão ordenados, na Sé do Porto, quatro presbíteros e um diácono para o serviço da nossa diocese e alguns religiosos que se associarão à celebração. Esta ocasião é oportunidade para dar graças a Deus pelo dom do ministério presbiteral, invocando sobre aqueles que vão ser ordenados o dom do Espírito Santo. Nas comunidades paroquiais pode também ser oportuno a realização de uma vigília de oração ou alguma atividade vocacional com os jovens ou adolescentes, propondo o ministério ordenado como caminho de realização e felicidade, servindo a Igreja e o mundo. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Zac 9,9-10

«Exulta de alegria, filha de Sião, solta brados de júbilo, filha de Jerusalém».

Ambiente

O Livro de Zacarias é um livro profético com catorze capítulos. Atualmente, os estudiosos da Bíblia são unânimes em reconhecer que entre os oito primeiros capítulos e os restantes há uma diferença tão grande em contextos, estilo, vocabulário e temática, que devemos falar de dois livros em um e de dois autores diversos. Dado que não conhecemos o nome do autor do segundo livro (capítulos 9-14), convencionou-se chamar-lhe o “Deutero-Zacarias”. É ao “Deutero-Zacarias” que pertence este texto que hoje nos é proposto.

Em que época foram escritos esses textos atribuídos ao Deutero-Zacarias? As opiniões são divergentes; no entanto, a maioria dos comentadores coloca estes oráculos no final do séc. IV ou princípios do séc. III a.C. O ambiente é claramente pós-exílico. O contexto parece revelar a época posterior às vitórias de Alexandre da Macedónia, quando o Povo de Deus estava integrado no império helénico.

O livro do “segundo Zacarias” está marcado por um forte acento messiânico. Refere-se, com frequência, à figura do Messias, apresentado como rei, como pastor e como servo do Senhor. Na primeira parte (cf. Zac 9,1-11,7), o profeta anuncia a intervenção definitiva de Deus em favor do seu Povo, na figura do Messias; na segunda parte (cf. Zac 12,1-14,21), os oráculos descrevem a salvação e a glória futura de Jerusalém. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

Em primeiro lugar, o Deutero-Zacarias deixa clara a preocupação de Deus com a salvação do seu Povo. Na fase em que o profeta leva a cabo a sua missão, o Povo de Deus conhece uma relativa tranquilidade; mas é um Povo subjugado, manipulado, impedido de escolher livremente o seu destino e de construir o seu futuro. É nesse contexto que o profeta anuncia a chegada de um rei “justo e salvador”, que vem ao encontro do Povo para o libertar e para lhe oferecer a paz (“shalom” – no sentido de harmonia, bem-estar, felicidade plena). Ora, Deus não perdeu qualidades, nem mudou a sua essência. O Deus que assim atuou ontem é o Deus que assim atua hoje e que assim atuará sempre. Ao longo da nossa caminhada de todos os dias, fazemos frequentemente a experiência do desencanto, da frustração, da privação de liberdade. Sentimo-nos, tantas vezes, perdidos, sem esperança, incapazes de tomar nas mãos o nosso futuro e de dar um sentido à nossa vida… Nessas circunstâncias, somos convidados a redescobrir esse Deus que vem ao nosso encontro, que restaura a nossa esperança e nos oferece a paz.

Uma certa visão “americanizada” do mundo e da vida defende a necessidade de armar exércitos formidáveis, de gastar uma considerável fatia do orçamento das nações em instrumentos de morte cada vez mais sofisticados, para impor, pela força e pelo medo, a paz e a segurança do mundo. O Deutero-Zacarias diz-nos que a lógica de Deus é outra: Ele chega desarmado, pacífico, humilde, sem arrogância e é, dessa forma, que Ele salva e liberta os homens. Para mim, qual faz mais sentido: a lógica desarmada de Deus ou a lógica musculada dos senhores do mundo?

A história da salvação mostrou, muitas vezes, que é através dos pequenos, dos humildes, dos pobres, dos insignificantes que Deus atua no mundo e o transforma. Deus está mais na viúva que lança no tesouro do Templo umas pobres moedas do que no capitalista que preenche um cheque chorudo para pagar os vitrais da nova igreja da paróquia; Deus está mais no gesto simples do pacifista que oferece uma flor a um soldado do que na violência daqueles que lutam de armas na mão contra os “maus”; Deus está mais no olhar límpido de uma criança do que na palavra poderosa de um pregador inflamado que “sabe tudo” sobre Deus… Já aprendi a descobrir esse Deus que se manifesta na humildade, na pobreza, na simplicidade? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL Salmo 144 (145)

Refrão: Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.

LEITURA II – Rom 8,9.11-13

«Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós».

Ambiente

Continuamos a ler a Carta aos Romanos. Ela apresenta-nos um Paulo amadurecido que, depois de vários anos de incansável trabalho missionário, expõe, de forma serena, a sua reflexão sobre a salvação (numa altura em que a questão da salvação era uma questão teológica “quente”: os judeo-cristãos acreditavam que, para chegar à salvação, era preciso continuar a cumprir a Lei de Moisés; e os judeo-pagãos não manifestavam nenhuma vontade de se submeter aos ritos da Lei judaica).

Na perspetiva de Paulo, a salvação é um dom não merecido (porque todos vivem mergulhados no pecado – cf. Rom 1,18-3,20), que Deus oferece por pura bondade aos homens, a todos os homens (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação chega-nos através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39); e atua em nós pelo Espírito (cf. Rom 8,1-39).

O texto que hoje nos é proposto faz parte de um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida no Espírito. O pensamento teológico de Paulo atinge aqui um dos seus pontos culminantes: todos os grandes temas paulinos (o projeto salvador de Deus em favor dos homens; a ação libertadora de Cristo, através da sua vida de doação, da sua morte e da sua ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus) se cruzam aqui.

O Espírito aparece como o elemento fundamental que dá unidade a toda esta reflexão. Ele está presente por detrás desse projeto salvador que Deus tem em favor do homem e do qual Paulo não se cansa de dar testemunho.in Dehonianos.

A reflexão poderá ter em conta as seguintes questões:

À luz dos critérios que hoje presidem à construção do mundo, a vida de Jesus foi um rotundo fracasso. Ele nunca desempenhou qualquer cargo público nem teve jamais conta num banco qualquer; mas viveu na simplicidade, na humildade, no serviço, sem ter para si próprio uma pedra onde reclinar a cabeça. Ele nunca foi apoiado pelos “cabeças pensantes” da sua terra; apenas foi escutado pela gente humilde, marginalizada, condenada a uma situação de escravidão, de pobreza, de debilidade. Ele nunca se proclamou chefe de um movimento popular; apenas ensinou, àqueles que O seguiam, que Deus os ama e que quer fazer deles seus filhos. Ele nunca se sentou num trono, a dar ordens e a distribuir benesses; mas foi abandonado por todos, condenado a uma morte infame e pregado numa cruz. No entanto, Ele venceu a morte e recebeu de Deus a vida plena e definitiva. Paulo diz aos crentes a quem escreve: não vos preocupeis com aqueles valores a que o mundo chama êxito, realização, felicidade; mas tende a coragem de gastar a vida do mesmo jeito de Jesus, a fim de encontrardes a vossa realização plena, a vida definitiva.

Paulo ensina que a vida “segundo a carne” gera morte; e que a vida “segundo o Espírito” gera vida. O que é viver “segundo a carne”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo a carne”? O que é viver “segundo o Espírito”? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida “segundo o Espírito”?

O cristão tem de viver “segundo o Espírito”. É desse jeito que eu vivo? Estou aberto à ação renovadora e libertadora do Espírito que recebi no dia do meu Batismo? in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 11,25-30

«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos».

«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração».

Ambiente

Após o “discurso da missão” e o envio dos discípulos ao mundo para continuarem a obra libertadora de Jesus (cf. Mt 9,36-11,1), Mateus coloca no seu esquema de Evangelho uma secção sobre as reações e as atitudes que as várias pessoas e grupos tomam frente a Jesus e à sua proposta de “Reino” (cf. Mt 11,2-12,50). O nosso texto integra esta secção.

Nos versículos anteriores ao texto que nos é hoje proposto (cf. Mt 11,20-24), Jesus havia dirigido uma veemente crítica aos habitantes de algumas cidades situadas à volta do lago de Tiberíades (Corozaim, Betsaida, Cafarnaum), porque foram testemunhas da sua proposta de salvação e mantiveram-se indiferentes. Estavam demasiado cheios de si próprios, instalados nas suas certezas, calcificados nos seus preconceitos e não aceitavam questionar-se, a fim de abrir o coração à novidade de Deus.

Agora, Jesus manifesta-Se convicto de que essa proposta rejeitada pelos habitantes das cidades do lago encontrará acolhimento entre os pobres e marginalizados, desiludidos com a religião “oficial” e que anseiam pela libertação que Deus tem para lhes oferecer.

O nosso texto consta de três “sentenças” que, provavelmente, foram pronunciadas em ambientes diversos deste que Mateus nos apresenta. Dois desses “ditos” (cf. Mt 11,25-27) aparecem também em Lucas (cf. Lc 10,21-22) e devem provir de um documento que reuniu os “ditos” de Jesus e que tanto Mateus como Lucas utilizaram na composição dos seus evangelhos. O terceiro (cf. Mt 11,28-30) é exclusivo de Mateus e deve provir de uma fonte própria.in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes desenvolvimentos:

Na verdade, os critérios de Deus são bem estranhos, vistos de cá de baixo, com as lentes do mundo… Nós, homens, admiramos e incensamos os sábios, os inteligentes, os intelectuais, os ricos, os poderosos, os bonitos e queremos que sejam eles (“os melhores”) a dirigir o mundo, a fazer as leis que nos governam, a ditar a moda ou as ideias, a definir o que é correto ou não é correto. Mas Deus diz que as coisas essenciais são muito mais depressa percebidas pelo “pequeninos”: são eles que estão sempre disponíveis para acolher Deus e os seus valores e para arriscar nos desafios do “Reino”. Quantas vezes os pobres, os pequenos, os humildes são ridicularizados, tratados como incapazes, pelos nossos “iluminados” fazedores de opinião, que tudo sabem e que procuram impor ao mundo e aos outros as suas visões pessoais e os seus pseudovalores… A Palavra de Deus ensina: a sabedoria e a inteligência não garantem a posse da verdade; o que garante a posse da verdade é ter um coração aberto a Deus e às suas propostas (e com frequência, com muita frequência, são os pobres, os humildes, os pequenos que “sintonizam” com Deus e que acolhem essa verdade que Ele quer oferecer aos homens para os levar à vida em plenitude).

Como é que chegamos a Deus? Como percebemos o seu “rosto”? Como fazemos uma experiência íntima e profunda de Deus? É através da filosofia? É através de um discurso racional coerente? É passando todo o tempo disponível na igreja a mudar as toalhas dos altares? O Evangelho responde: “conhecemos” Deus através de Jesus. Jesus é “o Filho” que “conhece” o Pai; só quem segue Jesus e procura viver como Ele (no cumprimento total dos planos de Deus) pode chegar à comunhão com o Pai. Há crentes que, por terem feito catequese, por irem à missa ao domingo e por fazerem parte do conselho pastoral da paróquia, acham que conhecem Deus (isto é, que têm com Ele uma relação estreita de intimidade e comunhão) … Atenção: só “conhece” Deus quem é simples e humilde e está disposto a seguir Jesus no caminho da entrega a Deus e da doação da vida aos homens. É no seguimento de Jesus – e só aí – que nos tornamos “filhos” de Deus.

Como nos situamos face a Deus e à proposta que Ele nos apresenta em Jesus? Ficamos fechados no nosso comodismo e instalação, no nosso orgulho e autossuficiência, sem vontade de arriscar e de pôr em causa as nossas seguranças, ou estamos abertos e atentos à novidade de Deus, a fim de perceber as suas propostas e seguir os seus caminhos?

Cristo quis oferecer aos pobres, aos marginalizados, aos pequenos, a todos aqueles que a Lei escravizava e oprimia, a libertação e a esperança. Os pobres, os débeis, os marginalizados, aqueles que não encontram lugar à mesa do banquete onde se reúnem os ricos e poderosos, continuam a encontrar – no testemunho dos discípulos de Jesus – essa proposta de libertação e de esperança? A Igreja dá testemunho da proposta libertadora de Jesus para os pobres? Como é que os pequenos e humildes são acolhidos nas nossas comunidades? Como é que acolhemos aqueles que têm comportamentos social ou religiosamente incorretos? in Dehonianos

Para os leitores:

            A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom alegre e feliz de quem comunica uma boa notícia, convidando ao júbilo e ao louvor.

A segunda leitura apesar de não apresentar nenhuma dificuldade aparente na sua proclamação requer uma acurada preparação nas pausas e respirações e sobretudo nas frases condicionais presentes no texto para uma eficaz transmissão da mensagem

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

A GRANDEZA DOS PEQUENINOS!

As poucas linhas do Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum, retiradas de Mateus 11,25-30, guardam o segredo mais inteiro de Jesus. Há quem considere estas breves linhas como o mais belo e importante dizer de Jesus nos Evangelhos Sinópticos (A. M. Hunter). Na verdade, estas linhas leves e ledas como asas guardam o segredo mais inteiro de Jesus, o seu tesouro mais profundo, o tesouro ou a pedra preciosa da parábola (Mateus 13,44-46), preciosa e firme, porque leve e suave como uma almofada, onde Jesus pode reclinar tranquilamente a cabeça (João 1,18), e tranquilamente conduzir, dormindo mansamente à popa, a nossa barca no meio deste mar encapelado (Marcos 4,38). Nos lábios de Jesus, chama-se «PAI» (Mateus 11,25) este lugar seguro e manso, doce e aprazível, que acolhe os pequeninos (nêpioi), os senta sobre os seus joelhos, lhes conta a sua história mais bela, e lhes afaga o rosto com ternura. Diz bem Santo Agostinho que «o peso de Cristo é tão leve que levanta, como o peso das asas para os passarinhos!».

«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (népioi)» (Mateus 11,25). Sim, aos pequeninos, grego népioi, que em sonoridade portuguesa daria «népias», nada, nenhuma ciência, nenhum poder, nenhum valor autónomo. Ó abismo da sabedoria dos pequeninos, daqueles que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, e sabem que podem confiar, e sabem em quem confiar (cf. 2 Timóteo 2,12). É sobre os pequeninos que recai toda a atenção de Jesus, que, de resto, voluntariamente se confunde com eles, pois diz: «Todas as vezes que fizestes isto (ou o deixastes de fazer) a “um destes meus irmãos, os mais pequeninos” (henì toútôn tôn adelphôn mou tôn elachístôn), foi a Mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45). E, no ritual do Batismo, são estes os dizeres que acompanham a entrega da vela acesa aos pais e padrinhos da criança batizada: «a vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que estes pequeninos, iluminados por Cristo…».

Abre-se aqui um dos mais belos fios de ouro da espiritualidade cristã, habitualmente denominado por «infância espiritual», o «pequeno caminho», «o permanecer pequeno», «o estar nos braços de Jesus», que Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1897) exalta na sua «História de uma alma», que tem a sua nascente mais funda naquela maravilha que é o Salmo 131,2, em que o orante se diz assim: «Estou tranquilo e sereno/, como criança desmamada (gamûl),/ no colo da sua mãe;/ como criança desmamada,/ está em mim a minha alma». Não se trata de uma quietude irracional e cega, semelhante à do recém-nascido, depois de ter mamado no seio da sua mãe. O texto fala de uma criança desmamada (gamul). E é sabido que, no Oriente, o desmame oficial acontecia tarde, pelos três anos, e dava origem a uma grande festa familiar (cf. Génesis 21,8; 1 Samuel 1,22-24). Também o famoso Padre Jesuíta francês, Léonce de Grandmaison (1868-1927), se segurava neste fio de ouro, e rezava assim: «Santa Maria, Mãe de Deus, conserva em mim um coração de criança, puro e transparente, como uma nascente».

Os pequeninos, os népioi, népias, que nada valem de per si, dependem dos seus pais ou de alguém que cuide deles com carinho. Se Jesus os traz desta maneira para a primeira página, temos então de perguntar: o que é que são então cristãos adultos, maduros na sua fé? Serão aqueles que sabem tudo, que estão seguros de si, que chegaram ao fim de um curso ou percurso, que têm um estatuto, um status, que têm um diploma na mão, que já não são dependentes porque já não precisam de ninguém que cuide deles? Seguramente não. Cristãos adultos na sua fé são aqueles que sabem que precisam de Deus a todo o momento, e que sabem debruçar-se sobre os pequeninos com amor. Cristãos adultos na fé não somos nós que pensamos que temos as chaves de tudo e de todos, que abrimos ou fechamos todas as portas, mas somos nós como filhos de Deus, a quem carinhosamente tratamos por PAI (ʼAbbaʼ), em quem depositamos toda a nossa confiança, somos nós como filhos e irmãos, carinhosamente atentos uns aos outros, até ao ponto sem retorno de já não sabermos viver senão repartindo o pão e o coração.

«Eu Te bendigo, ó PAI, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos» (Mateus 11,25; cf. Lucas 10,21). Esta é uma das muitas vezes em que, nos Evangelhos, Jesus aparece a rezar ao PAI, mas é uma das poucas vezes em que nos é dada a graça de ouvirmos o conteúdo da oração de Jesus [além desta vez, só no Getsémani: «PAI, se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha vontade, mas sim a tua» (Mateus 26,39 e 42), e na Cruz: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mateus 27,46); «PAI, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23,34); «PAI, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23,46)]. Note-se que a belíssima oração do «PAI Nosso» (Mateus 6,9-13; cf. Lucas 11,2-4) é-nos ensinada por Jesus, mas não o ouvimos a rezá-la. Um cristão adulto na sua fé, isto é, na sua confiança, tem de se pôr, como Jesus, totalmente nas mãos seguras e carinhosas do PAI, única direção da sua e da nossa vida dada, recebida e oferecida.

É assim que o Evangelho entra por nós adentro, cortante como uma espada de dois gumes ou como um bisturi. Vem-me à memória uma velha história que circula na África Oriental, e que fala de uma mulher pobre que andava sempre com uma Bíblia grande debaixo do braço. Dizem que nunca se separava dela. As pessoas que a viam passar todos os dias, faziam chacota dela com dizeres do género: «Porquê sempre a Bíblia, se há tantos livros para ler?». Mas a mulher lá seguia o seu caminho, imperturbável e indiferente às provocações. Um dia, porém, a mulher da Bíblia viu-se cercada por um bando de escarnecedores. Então, levantando bem alto a sua Bíblia, a mulher, abrindo um grande sorriso, disse: «Eu bem sei que há muitos outros livros que posso ler! Mas este é o único livro que me lê a mim!». Sim, como um bisturi!

Nenhum arrogante raciocínio, nenhum orgulho, nenhuma escada por nós construída, conduz a Deus. Nenhuma arrogância conduz a Deus. Jesus, Mestre novo, não aponta para coisas nem ensina coisas. Ele diz: «Vinde a Mim» e «aprendei de Mim» (Mateus 11,28 e 29). Com Jesus. Como Jesus. Ele não ensina coisas. Ensina-se a si mesmo, dando-se a si mesmo. Aprendeu do Pai, que tudo lhe deu (Mateus 11,27). Dar e receber. Jugo suave e carga leve (Mateus 11,30). Como os missionários do Evangelho, que devem partir sempre sem ouro, nem prata, nem cobre, nem saco, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão, dando de graça o que de graça receberam (cf. Mateus 10,8-9). Nenhum acessório ou mero adereço nos faz falta. Dar o acessório, o adereço, o supérfluo, o que sobra, não tem a marca de Deus, não é fazer a verdadeira memória de Jesus, que se entregou a si mesmo por nós (Efésios 5,2), que se entregou por mim (Gálatas 2,20). Como é da nossa humana experiência, o acessório, o adereço, o supérfluo deixa a vida intacta. O dom de si mesmo, se for verdadeiro, afeta a nossa vida, porque é decisivo, é para sempre, tem a marca da eternidade, põe-nos no seguimento de Jesus. E, neste caminho discipular, não há estratégia que nos valha.

Esta agenda [AGE + NDA] de Jesus, que fica «connosco todos os dias» (Mateus 28,20), podemos vê-la diariamente na sua maneira feliz, ousada, pobre, despojada, humilde, filial, fraternal, próxima e dedicada de viver, bem ao jeito do Rei novo e fazedor de paz e de felicidade, sonhado por Zacarias (9,9-10) no último quartel do século IV a. C., em claro contraponto com o esplendor militar dos cavalos e pesados carros de combate de Alexandre Magno, que então atravessava a costa palestinense a caminho do Egito. Da agenda de Jesus, faz parte indeclinável a completa orientação da sua vida filial para o Pai, abrindo a este mundo novos rumos e desafios imensos de fraternidade. Não carros e cavalos, glória militar, vanglória do poder. Jesus, o Rei novo, belo e manso, vem montado num jumento, que não é animal que se leve para a guerra! «Estrada bela! É andando nela, que encontraremos repouso para a nossa vida» (Jeremias 6,16).

Aí está de novo S. Paulo, escrevendo aos Romanos (8,9-13) e a nós, para nos advertir que não é «na carne» (en sarkí), mas «no Espírito» (en pneúmati), que devemos viver. E ele insiste em dizer como é importante Cristo estar «em vós» (en hymîn), e o Espírito, Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos, habitar (oikéô) «em vós» (en hymîn). A carne tem a ver com o currículo, o status, a importância, a ganância… Mas podemos sempre socorrer-nos do vasto elenco, sempre atualizado, das «obras da carne», que S. Paulo faz na Carta aos Gálatas: «São manifestas as obras da carne, que são: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, magia, inimizades, rixa, ciúme, iras, ambições, dissensões, divisões, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos previno, como já preveni, que os que tais coisas fizerem não herdarão o Reino de Deus» (Gálatas 5,19-21). E podemos também ver o confronto que ele faz com os «frutos do Espírito», que são: «amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

Fica bem hoje cantar com alegria renovada o grande hino alfabético que é o Salmo 145, até que vibrem as cordas do nosso coração. Orígenes classificava este Salmo como «o supremo cântico de ação de graças», e Agostinho viu-o como «a oração perfeita de Cristo, uma oração para todas as circunstâncias e acontecimentos da vida». E enquanto saboreamos as imensas riquezas que nos vêm de Deus: a sua graça, misericórdia, amor e bondade, usando, para o efeito, toda a gama de sabores e todas as letras do alfabeto, continuemos a cantar: «Abris, Senhor, a vossa mão, e saciais a nossa fome!» (Salmo 145,16).

Senhor Jesus,
Dá-me um coração puro e transparente
Como uma nascente,
Como uma semente,
E ensina-me a ser simples e leve
Como aquele pássaro que do céu desce,
E reza e canta e come e agradece.

 António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 09.07.2023 (Zac 9, 9-10)
      2. Leitura II do Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 09.07.2023 (Rom 6, 3-4.8-11)
      3. Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 09.07.2023 – Lecionário
      4. Domingo XIV do Tempo Comum – Ano A – 09.07.2023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 02.07.2023

Viver a Palavra

Habituamo-nos de tal modo à radicalidade da proposta de Jesus que porventura a dureza das Suas palavras quando nos convida a segui-Lo pode muitas vezes soar a mera poesia: «quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim».

A repetição destes «Mim’s» fazem sempre retornar ao meu coração as palavras do Papa Bento XVI quando recorda que na origem do ser cristão não está uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro íntimo, único e decisivo com Jesus Cristo (Deus caritas est, 1). Seguir Jesus implica conjugar a intimidade do encontro com Ele com a missão de ir ao encontro dos irmãos, numa radicalidade única que implica toda a vida e a vida toda.

Não se trata de uma competição de amores para saber quem amamos mais: o pai, a mãe, os filhos, a própria vida ou Jesus Cristo. Antes de tudo, trata-se de saber qual o centro unificador da nossa vida e o lugar onde depositamos a nossa confiança e a nossa esperança. Amar Jesus e segui-Lo de todo o coração nunca nos permitirá desvalorizar os outros, muito menos os nossos pais, os nossos filhos ou até a nossa própria vida. Contudo, abraçar a radicalidade do chamamento que o Senhor dirige a cada um de nós levar-nos-á sempre a olhar o mundo, os outros e as relações de um modo novo e diferente.

Encontrar a vida verdadeira implica inscrever a nossa existência nesse horizonte maior do amor de Deus e entrar numa lógica de amar e servir que nos faz redescobrir que a vida é tanto mais nossa quanto mais for dos outros e que a vida é verdadeiramente vida quando entregue sem medida.

Abraçar a cruz para seguir Jesus não é um ato masoquista de quem procura o sofrimento para alcançar a recompensa. Para compreender e acolher estas palavras de Jesus, teremos sempre de olhar para o crucificado e contemplar o imenso amor que Dele brota. Jesus vai até à morte e até à cruz porque nos ama. Por isso, abraçar a cruz significa sempre abraçar o amor na sua maior radicalidade. Significa amar até ao fim e com todas as nossas forças.

Não deixa de ser curioso que na mesma página evangélica onde Jesus nos propõe a radicalidade do seguimento, nos apresente o gesto mais simples, pequeno e banal da oferta de um copo de água fresca. Seguir Jesus na totalidade da nossa vida e com a radicalidade que Ele nos propõe, começa a partir dos gestos mais simples e vive-se precisamente na atenção para com os mais pequenos e frágeis. Dar a vida toda ou ter um pequeno gesto de amor, a cruz ou um simples copo de água fresca, são os extremos de um mesmo movimento: o amor que se faz entrega, a certeza de que no Evangelho o verbo amar não significa um mero sentimento ou simples afeição, mas que se conjuga sempre com o verbo dar e sobretudo na sua forma reflexiva: dar-se.

Nas palavras que Jesus nos dirige neste evangelho está presente a necessidade de uma liberdade interior em relação às nossas seguranças, sejam elas materiais ou afetivas. O pai, a mãe, os filhos ou a própria vida são bens preciosos que devemos amar e estimar. Contudo, Jesus adverte-nos para o perigo da dependência das relações afetivas e familiares que se podem tornar um obstáculo à liberdade para O seguir de todo o coração. Seguir Jesus e depositar Nele toda a nossa confiança ajudar-nos-á a amar os outros e a vida de um modo absolutamente novo que nos fará entrar num horizonte maior de realização e felicidade que nos projeta para a eternidade. in Voz Portucalense

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Estamos a percorrer o tempo litúrgico designado por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação, poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – 2 Reis 4,8-11.14-16a

«Estou convencida de que este homem, que passa frequentemente pela nossa casa, é um Santo Homem de Deus».

Ambiente

            Após a morte de Salomão (932 a.C.), o Povo de Deus dividiu-se em dois reinos: Israel, a norte, e Judá, a sul. Os dois reinos viveram, a partir daqui histórias separadas e, quase sempre, antagónicas.

O nosso texto situa-nos no reino de Israel, em meados do séc. IX a.C., durante o reinado de Jorão (853-842 a.C.). As relações económicas, políticas e culturais que Israel insiste em estabelecer com outros países da zona tornam-no vulnerável às influências religiosas estrangeiras e favorecem a entrada no país de cultos diversos. É, portanto, uma época de sincretismo e de confusão religiosa.

Eliseu é um profeta, discípulo de Elias (cf. 1 Re 19,16b.19-21) que, continuando a obra do mestre, luta contra o sincretismo religioso e procura trazer de novo os israelitas aos caminhos da fidelidade à aliança. Faz parte, segundo parece, de uma comunidade de “filhos de profetas” (“benê nebi’im” – cf. 2 Re 2,3; 4,1), isto é, de seguidores incondicionais de Jahwéh, que vivem na absoluta fidelidade aos mandamentos de Deus e não se deixam contaminar pelos valores religiosos estrangeiros. Estes “filhos de profetas” vivem pobremente (cf. 2 Re 4,1-7) e são regularmente consultados pelo Povo, que neles busca apoio face aos abusos dos poderosos.
Eliseu é chamado, com muita frequência (29 vezes), o “homem de Deus” (‘ish Elohim). O título designa um homem que é intérprete da Palavra de Jahwéh junto dos outros homens; mas a Palavra que o “homem de Deus” transmite é, sobretudo, uma Palavra poderosa, que opera maravilhas e que tem a capacidade de transformar a realidade. Os “milagres” atribuídos a Eliseu (o grande “milagreiro” do Antigo Testamento”) são a expressão viva da força de Deus, que através do profeta intervém na história e salva os pobres.

Este episódio situa-nos em Sunam, uma pequena cidade situada no sul da Galileia, não longe de Meggido, à entrada da planície de Yezre’el, em casa de uma mulher rica e sem filhos. A história da sunamita tem duas partes distintas: a descrição da hospitalidade que a mulher oferece ao profeta e que é recompensada por este com o anúncio do nascimento de um filho (cf. 2 Re 4,8-17) e a repentina doença e morte desse filho, que exigirá uma nova intervenção do profeta no sentido de devolver a vida ao menino (cf. 2 Re 8,18-37). A nossa leitura apresenta-nos apenas a primeira parte. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

Antes de mais, o texto sugere que o projeto de salvação que Deus tem para os homens e para o mundo envolve toda a gente e é uma responsabilidade que a todos compromete. Uns são chamados a estar mais na “linha da frente” e a desenvolver uma ação mais exclusiva e mais exposta; outros são chamados a desenvolver uma ação menos exclusiva e mais discreta, mas nem por isso menos importante. Mas uns e outros têm de sentir a responsabilidade de colaborar com Deus. Estou consciente disso? Empenho-me verdadeiramente em descobrir o papel que Deus me confia no seu projeto e em cumpri-lo com generosidade?

Numa altura em que a Europa se tornou uma espécie de condomínio fechado, do qual é excluída essa imensa multidão de pobres sem futuro e sem esperança, que mendigam a possibilidade de construir um futuro sem miséria, este episódio convida-nos a refletir sobre o sentido da hospitalidade e do acolhimento. É evidente para todos que não temos os recursos suficientes para acolher, de forma indiscriminada, todos aqueles que batem à nossa porta; mas a política que o nosso mundo segue em relação aos imigrantes não esconderá também uma boa dose de egoísmo e de falta de vontade de partilhar? Como nos situamos face a isto?

A nossa leitura deixa também claro que o dar não nos despoja, nem nos faz perder seja o que for. O dar é sempre uma fonte de vida e de bênção. A dádiva não deve, no entanto, ser interesseira, mas desinteressada e gratuita.

Há pessoas que são chamadas por Deus a deixar a terra, a família, os pontos de referência culturais e sociais, a fim de dedicar a sua vida ao anúncio da Palavra. Não são super-homens ou supermulheres, mas são homens e mulheres como quaisquer outros, com as mesmas necessidades de afeto, de apoio, de solidariedade, de compreensão. É nossa responsabilidade ajudá-los, não apenas com meios materiais, mas também com compreensão, com solidariedade, com amor. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 88 (89)

Refrão: Eu canto para sempre a bondade do Senhor.

LEITURA II – Rom 6,3-4.8-11

«Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos».

Ambiente

Continuamos a explorar essa carta aos romanos, na qual Paulo propõe a todos os crentes – judeus e não judeus – o essencial da mensagem cristã… Fundamentalmente, Paulo está interessado em sugerir aos crentes (divididos pela discussão acerca do caminho mais correto para “conquistar” a salvação) que a salvação é sempre um dom de Deus e não uma conquista do homem. Apesar do pecado dos homens (cf. Rom 1,18-3,20), Deus a todos justifica e salva de forma gratuita e incondicional (cf. Rom 3,1-5,11). Essa salvação é oferecida aos homens através de Jesus Cristo.

O texto que nos é proposto faz parte desse bloco em que Paulo descreve como é que a vida de Deus se comunica aos homens através de Jesus Cristo (cf. Rom 5,12-8,39). De acordo com a perspetiva de Paulo, Cristo – ao contrário de Adão, o homem do orgulho e da autossuficiência – escolheu viver na obediência a Deus e aos seus planos; e foi a obediência de Cristo – isto é, o seu cumprimento incondicional da vontade do Pai – que fez chegar a todos os homens a graça da salvação (cf. Rom 5,12-20).

Isso significará, então, que pecar ou não pecar é indiferente, pois a obediência de Cristo a todos salva, de forma incondicional? O cristão pode pecar tranquilamente (cf. Rom 6,1-2), porque a graça da salvação oferecida por Cristo irá sempre derramar-se sobre o pecador? in Dehonianos.

Para a reflexão, considerar os seguintes elementos:

Nesta leitura sugere-se, antes de mais, que o cristão é aquele que se identifica com Cristo. Enxertado em Cristo pelo Batismo, o cristão faz de Cristo a sua referência e segue-O incondicionalmente, renunciando ao pecado e escolhendo o amor e o dom da vida. Ora, todos os discípulos estão conscientes que ser cristão passa por aqui; mas, dia a dia, são desafiados por outras referências, por outros valores, por outros modelos de vida…. Qual é o modelo e a referência fundamental à volta da qual a minha vida se ordena e se constrói?

Em termos concretos, o que é que implica a nossa adesão a Cristo? Paulo responde: significa morrer para o pecado e viver para Deus. O que é que significa “pecar”? Significa fechar-se no próprio egoísmo e recusar Deus e os outros. “Pecar” é recusar a comunhão com Deus e ignorar conscientemente as suas propostas; é recusar fazer da vida um dom, um serviço, uma partilha de amor com os irmãos… Os homens do nosso tempo acham que falar de “pecado” não faz sentido e que o discurso sobre o pecado é um discurso antiquado, repressivo, alienante. No entanto, o “pecado” existe: é o egoísmo que gera injustiça e exploração; é o orgulho que gera conflito e divisão; é a vingança que gera violência e morte. O que se pede ao discípulo de Jesus é que renuncie a esta realidade e oriente a sua vida de acordo com outros critérios – os critérios e os valores de Jesus in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 10,37-42

«Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim».

«Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la».

«Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou».

Ambiente

O Evangelho deste domingo apresenta-nos a parte final de um discurso atribuído a Jesus e que teria sido pronunciado pouco antes do envio dos discípulos em missão (é chamado, por isso, o “discurso da missão”). Mais do que um discurso histórico, que Jesus pronunciou de uma única vez e num único lugar, é uma catequese que Mateus compôs a partir de diversos materiais (o autor combina aqui relatos de envio, “ditos” de Jesus acerca dos “doze” e várias outras “sentenças” que, originalmente, tinham um outro contexto).

Qual o objetivo de Mateus, ao compor este texto e ao pô-lo na boca de Jesus? Estamos na década de 80. Mateus escreve para uma comunidade onde a tradição missionária estava bem enraizada (a comunidade cristã de Antioquia da Síria?). No entanto, as condições políticas do final do séc. I (reinado de Domiciano e hostilidade crescente do império em relação ao cristianismo) trazem a comunidade confusa e desorientada. Vale a pena “remar contra a maré”? Não é um risco imprudente continuar a anunciar Jesus? Vale a pena arriscar tudo por causa do Evangelho, quando as condições são tão desfavoráveis?

Mateus compõe então uma espécie de “manual do missionário cristão”, destinado a revitalizar a opção missionária da sua comunidade. Nele sugere que a missão dos discípulos é anunciar Jesus e continuar a percorrer o caminho de Jesus – mesmo que esse caminho leve ao dom total da vida. Apresenta, nesse sentido, um conjunto de valores e atitudes que devem orientar a ação dos missionários cristãos.in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

Jesus não é um demagogo que faz promessas fáceis e cuja preocupação é juntar adeptos ou atrair multidões a qualquer preço. Ele veio ao nosso encontro com uma proposta de salvação e de vida plena; no entanto, essa proposta implica uma adesão séria, exigente, radical, sem “paninhos quentes” ou “meias tintas”. O caminho que Jesus propõe não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica; e isso não é para todos, mas apenas para os discípulos que fazem, séria e conscientemente, essa opção. Como é que eu me situo face a isto? O projeto de Jesus é, para mim, uma opção radical, que eu abracei com convicção, a tempo inteiro e a “fundo perdido”, ou é um projeto em que eu “vou estando”, sem grande esforço ou compromisso, por inércia, por comodismo, por tradição?

Dentro do quadro de exigências que Jesus apresenta aos discípulos, sobressai a exigência de preferir Jesus à própria família. Isso não significa, evidentemente, que devamos rejeitar os laços que nos unem àqueles que amamos… No entanto, significa que os laços afetivos, por mais sagrados que sejam, não devem afastar-nos dos valores do “Reino”? As pessoas têm mais importância, para mim, do que o “Reino”? Já me aconteceu renunciar aos valores de Jesus por causa de alguém?

Outra exigência que Jesus faz aos discípulos é a renúncia à própria vida e o tomar a cruz do amor, do serviço, do dom da vida. O que é mais importante para mim: os meus interesses, os meus valores egoístas, ou o serviço dos irmãos e o dom da vida?

A forma exigente como Jesus põe a questão da adesão ao “Reino” e à sua dinâmica, faz-nos pensar na nossa pastoral – vocacionada para ser uma pastoral de “massas” – e na tentação que sentem os agentes da pastoral no sentido de facilitar as coisas, de não ser exigentes… Às vezes, interessa mais que as estatísticas da paróquia apresentem um grande número de batizados, de casamentos, de crismas, de comunhões, do que propor, com exigência, a radicalidade do Evangelho e dos valores de Jesus… O caminho cristão é um caminho de facilidade, onde cabe tudo, ou é um caminho verdadeiramente exigente, onde só cabem aqueles que aceitam a radicalidade de Jesus? A nossa pastoral deve facilitar tudo, ou ir pelo caminho da exigência?

Às vezes, as pessoas procuram os ritos cristãos por tradição, por influências do meio social ou familiar, porque “a cerimónia religiosa fica bonita nas fotografias…”. Sem recusarmos nada devemos, contudo, fazê-las perceber que a opção pelo batismo ou pelo casamento religioso é uma opção séria e exigente, que só faz sentido no quadro de um compromisso com o “Reino” e com a proposta de Jesus.

Integrar a comunidade cristã é assumir o imperativo do testemunho. Sinto verdadeiramente que isso é algo que me diz respeito – seja qual for o lugar que eu ocupo na organização da comunidade?

Como é que, na minha comunidade, são vistos aqueles que se dão, de forma mais plena e mais total, ao anúncio do Evangelho: são reconhecidos e apoiados, ou são injustamente criticados e vítimas de maledicência, de invejas e de ciúmes? in Dehonianos

 

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção o tom narrativo e a articulação das diversas frases em discurso direto. Além disso, deve preparar-se bem as palavras «Sunam» (deve ler-se suname) e «Giezi» (deve ler-se jiézi) e ter em atenção o imperativo «Chama-a», tendo cuidado para não ilidir o pronome «a».

A complexidade da segunda leitura reside nas frases longas com diversas orações. Este texto exige uma acurada atenção nas pausas e respirações para que se compreenda bem a mensagem do texto.

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O MILAGRE DO ACOLHIMENTO

Neste Domingo XIII do Tempo Comum, escutaremos o final do Discurso Missionário do Evangelho de Mateus (10,37-42), que iniciámos há dois Domingos atrás. Específico desta última parte do Discurso é que ele não é dirigido aos missionários, mas àqueles que os acolhem. O acolhimento feito aos missionários reveste-se de extrema importância, pois é dito que é como acolher o próprio Cristo e Aquele que o enviou (Mateus 10,40). Para tornar este aspeto visível e audível, neste pequeno texto de seis versículos, o verbo «acolher» (déchomai) faz-se notar por seis vezes (Mateus 10,40[4 vezes].41[2 vezes]). «Acolher» é, pois, a palavra-chave do texto de hoje.

Acolher os Doze, os discípulos de Jesus, os missionários e evangelizadores de todos os tempos, não consiste apenas em recebê-los educadamente em casa. Consiste também, e sobretudo, em expor-se ao anúncio que trazem, ao testemunho que dão. Não consiste apenas em abrir-lhes as portas da casa, embora isso também seja importante para quem deixou tudo por causa de Cristo (Mateus 10,37-39), e de vez em quando precisa de um quarto de hora de hospitalidade. Tem muito mais a ver com abrir o coração à mensagem de que são portadores, sabendo e vendo bem que por detrás deles, está Jesus, que os enviou.

Acolher os anunciadores, os mensageiros, os profetas, não é fácil, porque o anúncio de que são portadores provoca divisão, requer uma nova postura pró ou contra Cristo, uma escolha que não admite compromissos ou soluções retóricas, divide a humanidade, a família, o coração de cada um. Muitas vezes esperamos que os profetas nos ajudem a justificar os nossos compromissos, a nossa maneira de viver assim-assim. Mas, nesta matéria, o profeta é intolerante e radical. Eis o motivo pelo qual acolher um profeta é coisa difícil. É quase como tornar-se profeta também. Ambos terão, portanto, a mesma recompensa (Mateus 10,41).

Acolher Jesus ou os seus enviados é aceitar expor-se à cirurgia da Palavra, que divide junturas e medula e julga as disposições e intenções do coração (Hebreus 4,12). Acolher não é organizar uma festa de amigos. É aceitar conviver com um bisturi dentro de nós, com um fogo a arder dentro de nós (Jeremias 20,9; Lucas 24,32). É, afinal, tão complicado ou tão simples como oferecer um copo de água fresca a um missionário. É verdade, este simples copo de água fresca pode trazer pela mão a eternidade (Mateus 10,42).

A melodia do acolhimento vem de longe. Nove séculos antes de Cristo, lê-se no Segundo Livro dos Reis 4,8-11.14-16, que uma mulher rica de Sunam, uma aldeiazinha situada na planície meridional do monte Carmelo, acolheu em sua casa o profeta Eliseu, em quem ela reconhece um homem de Deus (2 Reis 4,9). Eliseu, do hebraico ʼelîshaʽ ou ʼelyashaʽ [= «Deus salvou»], é apresentado como filho de Safat, natural de Abel Mehôlah, no vale do Jordão, e os Livros dos Reis mostram-no como sucessor de Elias e continuador da sua missão profética. Para tal, recebe o manto de Elias (1 Reis 19,19; 2 Reis 2,13) e a dupla porção do seu espírito (2 Reis 2,9), e segue o mestre até ao seu arrebatamento (1 Reis 19,21; 2 Reis 2,1-11).

A hospitalidade da mulher de Sunam traduz-se na construção de um pequeno quarto no terraço da casa, equipado com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada (2 Reis 4,10). O suficiente para Eliseu, o homem de Deus, poder repousar quando estiver de passagem por Sunam. Mas, como quem acolhe um profeta por ele ser profeta, recebe recompensa de profeta, também a mulher hospitaleira de Sunam recebe uma recompensa nova: um filho! (2 Reis 4,16). A Palavra profética tem, de facto, uma energia nova: é a Palavra antes das coisas e do homem, de modo diferente da história comummente entendida, que põe as palavras depois das coisas e do homem.

A passagem da Carta aos Romanos 6,3-4.8-11 é um grande texto batismal. Batizados na morte de Cristo e com Ele sepultados, formamos com Ele uma realidade só, e viveremos com Ele, por graça, a vida nova da ressurreição.

Motivos sempre em excesso para cantar, saboreando a bondade do Senhor, e aprender a reconhecer a sua presença no meio de nós com a aclamação terûʽah (Salmo 89,16), grito ruidoso de emocionada alegria, em si intraduzível, mas que é a maneira de o povo fiel assinalar a presença favorável de Deus. É o que fazemos também nós hoje, cantando o Salmo 89, um Salmo Real, que canta Deus e o seu Messias, e o Reino maravilhoso do seu amor já estabelecido no meio de nós.

António Couto

ANEXOS:

      1. Leitura I do Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 02.07.2023 (2 Reis 4, 8-11.14-16a)
      2. Leitura II do Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 02.07.2023 (Rom 6, 3-4.8-11)
      3. Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 02.07.2023 – Lecionário
      4. Domingo XIII do Tempo Comum – Ano A – 02.07.2023 – Oração Universal
      5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XII do Tempo Comum – Ano A – 25.06.2023

Atravessada em seis etapas dominicais (Domingos IV a IX) a paisagem sublime das alturas do Discurso programático da Montanha (Mateus 5,1-7,29), e tendo vivido de perto a cena do chamamento e resposta imediata e festiva de Mateus (Mateus 9,9-13) (Domingo X), ficaremos agora, durante três Domingos (XI, semana passada, XII hoje e XIII na próxima semana) com o chamado “Discurso Missionário” (Mateus 9,36-11,1).

Viver a Palavra

A experiência do medo faz parte da nossa condição humana e traduz-se num estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça, reais, hipotéticos ou imaginários. É verdade, que a experiência do medo, em muitas circunstâncias, é a possibilidade de evitarmos o perigo e impedir que algo de grave aconteça. Contudo, o medo pode ser também paralisador e impedir de avançar e progredir.

Neste Domingo, continuamos a escutar o Discurso Missionário do Evangelho de Mateus onde Jesus exorta os Seus discípulos a vencer o medo. Enviando os Doze em missão porque «a seara é grande e os trabalhadores são poucos», por três vezes Jesus os desafia a não temer. Mas não se trata, apenas, de um reforço positivo ou de uma palmada nas costas para dar ânimo e fazer avançar. Jesus desafia-os à confiança que está alicerçada na certeza de que não caminham sozinhos, que valem muito mais do que todos os passarinhos e que Aquele que os criou por amor e os envia em missão, por amor, continua a recriá-los e a cuidar deles.

Jesus sabe que os medos habitam a nossa casa e o nosso coração e que a nossa existência está suspensa entre tantos limites que condicionam a nossa ação. Quanto mais o medo ganha espaço, mais nos tornamos inseguros, fechados em nós próprios e, porventura, desconfiados e agressivos. O medo faz-nos sentir cercados como Jeremias que sentia as invetivas da multidão. Mas como o profeta haveremos de renovar no nosso coração a certeza: «o Senhor está comigo como herói poderoso, e os meus perseguidores cairão vencidos». O medo não pode ter a última palavra e, por isso, aos discípulos de ontem tal como a nós, discípulos de hoje, Jesus continua a exortar: «não tenhais medo».

Não ter medo não significa ser irresponsável, mas significa não se deixar paralisar pelas dificuldades e exigências do caminho. Os discípulos enviados por Jesus sofrerão perseguições, obstáculos e inimizades, mas são convidados a vencer o medo e a exigência da missão com o amor que se faz entrega e serviço.

É necessário pregar sobre os telhados e nas praças a mensagem do amor e da esperança. É urgente comunicar a todos que o Pai cuida de nós e que até o mais ínfimo cabelo não é descuidado. Contudo, este desvelo e cuidado do Pai não deve ser apenas um dom a saborear e a agradecer, mas constitui-se como uma escola da arte de amar. Amados e cuidados por Deus somos chamados a cuidar e amar aqueles que se cruzam connosco. Jesus adverte que todo aquele que se declarar por Ele diante dos homens será declarado por Ele diante do Pai e bem sabemos que não há melhor confissão de fé do que aquela que se revela com palavras e gestos que unidos entre si comunicam o amor.

Só o amor oferece a possibilidade de uma vida nova e a construção de um mundo novo e diferente, porque foi precisamente o amor feito entrega generosa até ao fim na Cruz que nos abriu as portas da vida eterna e venceu o nosso maior medo: o pecado e a morte. Como nos recorda S. Paulo «se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».

Conscientes desta certeza, podemos caminhar com mais confiança e segurança, mas também com maior responsabilidade, pois chamados a comunicar a quantos vivem desanimados e sem esperança a certeza de que a nossa vida se inscreve num horizonte de graça que nos projeta para a eternidade e que nos faz saborear já, no aqui e agora do tempo e da história, o amor e a misericórdia que viveremos em plenitude no Céu. in Voz Portucalense

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Vivemos, em termos litúrgicos, o que se designa por Tempo Comum. Estamos na parte final do ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A, em que iremos continuar na companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Jer 20,10-13

«Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, que salvou a vida do pobre das mãos dos perversos».

Ambiente

            Jeremias, o profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a sua missão profética desde 627/626 a.C., até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.). O cenário da atividade do profeta é, em geral, o reino de Judá (e, sobretudo, a cidade de Jerusalém).

A primeira fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias. Este rei – preocupado em defender a identidade política e religiosa do Povo de Deus – leva a cabo uma impressionante reforma religiosa, destinada a banir do país os cultos aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, neste período, traduz-se num constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à aliança.

No entanto, em 609 a.C., Josias é morto em combate contra os egípcios. Joaquim sucede-lhe no trono. A segunda fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo de reinado de Joaquim (609-597 a.C.).
O reinado de Joaquim é um tempo de desgraça e de pecado para o Povo, e de incompreensão e sofrimento para Jeremias. Nesta fase, o profeta aparece a criticar as injustiças sociais (às vezes fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (traduzida, sobretudo, na busca das alianças políticas: procurar a ajuda dos egípcios significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convencido de que Judá já ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilónica que castigará os pecados do Povo de Deus. É sobretudo isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém… As previsões funestas de Jeremias concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilónia uma parte da população de Jerusalém.

No trono de Judá, fica então Sedecias (597-586 a.C.). A terceira fase da missão profética de Jeremias desenrola-se precisamente durante este reinado.

Após alguns anos de calma submissão à Babilónia, Sedecias volta a experimentar a velha política das alianças com o Egipto. Jeremias não está de acordo que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh. Mas nem o rei nem os notáveis lhe prestam qualquer atenção à opinião do profeta. Considerado um amargo “profeta da desgraça”, Jeremias apenas consegue criar o vazio à sua volta.

Em 587 a.C., Nabucodonosor põe cerco a Jerusalém; no entanto, um exército egípcio vem em socorro de Judá e os babilónios retiram-se. Nesse momento de euforia nacional, Jeremias aparece a anunciar o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf. Jer 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é encarcerado (cf. Jer 37,11-16) e corre, inclusive, perigo de vida (cf. Jer 38,11-13). Enquanto Jeremias continua a pregar a rendição, Nabucodonosor apossa-se, de facto, de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilónia (586 a.C.). Jeremias é o paradigma dos profetas que sofrem por causa da Palavra. De natureza sensível e cordial, homem de paz, que anseia pelo sossego da família e pelo convívio com os amigos, Jeremias não foi feito para o confronto, a agressão, a violência das palavras ou dos gestos; mas Jahwéh chamou-o para “arrancar e destruir, para exterminar e demolir” (Jer 1,10), para predizer desgraças e anunciar, com violência, destruição e morte (cf. Jer 20,8). Como consequência, foi continuamente objeto de desprezo e de irrisão e todos o maldiziam. Os familiares, os amigos, os reis, os sacerdotes, os falsos profetas, o povo inteiro, todos se afastavam, mal ele abria a boca. E esse homem bom, sensível e delicado sofria terrivelmente pelo abandono e pela solidão a que a missão profética o condenava.

Jeremias estava verdadeiramente apaixonado pela Palavra de Jahwéh e sabia que não teria descanso se não a proclamasse com fidelidade. Mas nos momentos mais negros de solidão e de frustração, o profeta deixou, algumas vezes, que a amargura que lhe ia no coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Dirigia-se a Deus e censurava-o asperamente por causa dos problemas que a missão lhe trazia. Chegou a comparar-se a uma jovem inocente e ingénua, de quem Deus se apoderou e a quem forçou a fazer algo que o profeta não queria (cf. Jer 20,7-9).

No Livro de Jeremias aparecem, a par e passo, queixas e lamentos do profeta, condenado a essa vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões de Jeremias” e são verdadeiros desabafos em que o profeta expõe a Jahwéh, com sinceridade e rebeldia, a sua desilusão, a sua amargura e a sua frustração (cf. Jer 11,18-23; 12,1-6; 15,10.15-20; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18). O texto que hoje nos é proposto faz parte de uma dessas “confissões.in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

Ser profeta não é um caminho fácil: o exemplo de Jeremias é elucidativo (como também o é o testemunho de Óscar Romero, Luther King, Gandhi e tantos outros profetas do nosso tempo). O “mundo” não gosta de ver ser posta em causa a sua “paz podre”, não está disposto a aceitar que se questionem os esquemas de exploração e injustiça instituídos em favor dos poderosos, nem que se critiquem os “valores” de alguns “iluminados” fazedores da opinião pública. O “caminho do profeta” é, portanto, um caminho onde se lida permanentemente com a incompreensão, com a solidão, com o risco… É, no entanto, um caminho que Deus nos chama a percorrer, na fidelidade à sua Palavra. Temos a coragem de seguir esse caminho? As “bocas” dos outros, as críticas injustas, a solidão que dói mais do que tudo, alguma vez nos impediram de cumprir a missão que o nosso Deus nos confiou?

No batismo, fomos ungidos como “profetas”, à imagem de Cristo. Estamos conscientes dessa vocação a que Deus, a todos, nos convocou? Temos a noção de que somos a “boca” através da qual a Palavra de Deus ressoa no mundo e Se dirige aos homens?

A experiência profética é um caminho de luta, de sofrimento, muitas vezes de solidão e de abandono; mas é também um caminho onde Deus está. O testemunho de Jeremias confirma que Deus nunca abandona aqueles que procuram testemunhar no mundo, com coragem e verdade, as suas propostas. Esta certeza deve trazer ânimo e dar esperança a todos aqueles que assumem, com coerência, a sua missão profética.in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 68 (69)

Refrão: Pela vossa grande misericórdia, atendei-me, Senhor.

LEITURA II – Rom 5,12-15

«Se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».

Ambiente

No final da década de 50 (a carta aos Romanos apareceu por volta de 57/58), a “crise” entre os cristãos oriundos do mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão acentua-se. Os cristãos de origem judaica consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras da Lei de Moisés, a fim de ter acesso à salvação; mas os cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja.

Neste cenário, Paulo procura mostrar a todos os crentes a unidade da revelação e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus.

O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 1,18-11,36). Depois de demonstrar que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rom 5,12-8,39). in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

                A história do nosso tempo está cheia de exemplos de homens e mulheres que entregaram a vida para realizar o projecto libertador de Deus no mundo e que foram considerados pela cultura dominante gente vencida e fracassada (embora, com alguma frequência, depois de mortos sejam “recuperados” e apresentados como heróis). Jesus Cristo mostra, contudo, que fazer da vida um dom a Deus aos homens não é um caminho de fracasso e de morte, mas é um caminho libertador, que introduz no mundo dinamismos de vida nova, de vida autêntica, de vida definitiva. Eu estou disposto a arriscar, a fazer da minha vida um dom, para que a vida plena atinja e liberte os meus irmãos?

  • Alguns acontecimentos que marcam o nosso tempo confirmam que uma história construída à margem de Deus e das suas propostas é uma história marcada pelo egoísmo, pela injustiça e, portanto, é uma história de sofrimento e de morte. Quando o homem deixa de dar ouvidos a Deus, dá ouvidos ao lucro fácil, destrói a natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em proveito próprio a vida dos seus irmãos. Qual o nosso papel de crentes neste processo? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da história e as suas propostas sejam acolhidas?
  • A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Exaltou o individualismo e a autossuficiência e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho e o nosso destino. No entanto, onde nos leva esta cultura que prescinde de Deus e das suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz, ou tem potenciado o aparecimento de homens perdidos e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados? in Dehonianos

EVANGELHO – Mt 10,26-33

«Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se».

«Não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos».

Ambiente

Continuamos no mesmo ambiente em que o Evangelho do passado domingo nos situava. Os discípulos – que Jesus chamou e que responderam positivamente a esse chamamento, que escutaram os ensinamentos e que testemunharam os sinais de Jesus – vão ser enviados ao mundo, a fim de continuarem a obra libertadora e salvadora de Jesus. Contudo, antes de partir, recebem as instruções de Jesus: é o “discurso da missão”, que se prolonga de 9,36 a 11,1.

Mateus escreve durante a década de 80. No império romano reina Domiciano (anos 81 a 96), um imperador que não está disposto a tolerar o cristianismo. No horizonte imediato das comunidades cristãs, está uma hostilidade crescente, que rapidamente se converterá em perseguição organizada contra o cristianismo (no ano 95, por iniciativa de Domiciano, começa uma terrível perseguição contra os cristãos em todos os territórios do império romano).

A comunidade cristã a quem Mateus destina o seu Evangelho (possivelmente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria) é uma comunidade com grande sensibilidade missionária, verdadeiramente empenhada em levar a Boa Nova de Jesus a todos os homens. No entanto, os missionários convivem, dia a dia, com as dificuldades e as perseguições e manifestam um certo desânimo e uma certa frustração. Os crentes não sabem que caminho percorrer e estão perturbados e confusos.

~          Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de “manual do missionário cristão”, que é o nosso “discurso da missão”. Para mostrar que a atividade missionária é um imperativo da vida cristã, Mateus apresenta a missão dos discípulos como a continuação da obra libertadora de Jesus. Define também os conteúdos do anúncio e as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir, enquanto testemunhas do “Reino”. in Dehonianos.

Na reflexão, podem considerar-se as seguintes questões:

O projeto de Jesus, vivido com radicalidade e coerência, não é um projeto “simpático”, aclamado e aplaudido por aqueles que mandam no mundo ou que “fazem” a opinião pública; mas é um projeto radical, questionante, provocante, que exige a vitória sobre o egoísmo, o comodismo, a instalação, a opressão, a injustiça… É um projeto capaz de abalar os fundamentos dessa ordem injusta e alienante sobre a qual o mundo se constrói. Há um certo “mundo” que se sente ameaçado nos seus fundamentos e que procura, todos os dias, encontrar formas para subverter e domesticar o projeto de Jesus. A nossa época inventou formas (menos sangrentas, mas certamente mais refinadas do que as de Domiciano) de reduzir ao silêncio os discípulos: ridiculariza-os, desautoriza-os, calunia-os, corrompe-os, massacra-os com publicidade enganosa de valores efémeros… Como a comunidade de Mateus, também nós andamos assustados, confusos, desorientados, interrogando-nos se vale a pena continuar a remar contra a maré… A todos nós, Jesus diz: “não temais”.

O medo – de parecer antiquado, de ficar desenquadrado em relação aos outros, de ser ridicularizado, de ser morto – não pode impedir-nos de dar testemunho. A Palavra libertadora de Jesus não pode ser calada, escondida, escamoteada; mas tem de ser vivamente afirmada com palavras, com gestos, com atitudes provocatórias e questionantes. Viver uma fé “morninha” (instalada, cómoda, que não faz ondas, que não muda nada, que aceita passivamente valores, esquemas, dinâmicas e estruturas desumanizantes), não chega para nos integrar plenamente na comunidade de Jesus.

De resto, o valor supremo da nossa vida não está no reconhecimento público, mas está nessa vida definitiva que nos espera no final de um caminho gasto na entrega ao Pai e no serviço aos homens; e Jesus demonstrou-nos que só esse caminho produz essa vida de felicidade sem fim que os donos do mundo não conseguem roubar.

A Palavra de Deus que nos foi hoje proposta convida-nos também a fazer a descoberta desse Deus que tem um coração cheio de ternura, de bondade, de solicitude. Se nos entregarmos confiadamente nas mãos desse Deus, que é um pai que nos dá confiança e proteção e é uma mãe que nos dá amor e que nos pega ao colo quando temos dificuldade em caminhar, não teremos qualquer receio de enfrentar os homens. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é uma longa intervenção de Jeremias que deve ser proclamada tendo em atenção os diversos tons que o discurso apresenta: ameaçador, vingativo, esperança e o louvor. Este crescendo desde o cenário de terror e ameaça até ao júbilo e louvor deve ser evidente na proclamação do texto.

A segunda leitura requer uma acurada preparação. Devido às frases longas com diversas orações e à sua construção frásica, o leitor deve perceber bem a mensagem a transmitir e proceder a uma leitura articulada e pausada do texto para que possa eficazmente proclamar este texto.

Prevenção adicional aos leitores

As leituras deste domingo têm géneros literários muito diferentes. Nenhuma é fácil de se ler em público. Onde tal não acontece, é bom adquirir o hábito de prevenir os leitores, com antecedência, para prepararem a proclamação das leituras. Melhor ainda, deveria haver um tempo durante a semana para meditarem e prepararem em conjunto os textos bíblicos que vão proclamar no domingo. Existir um grupo de leitores é também para isso, não apenas para constarem de uma lista…

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

NÃO TENHAIS MEDO!

Continuamos a escutar, neste Domingo XII do Tempo Comum, o Discurso Missionário de Jesus no Evangelho de Mateus, hoje Mateus 10,26-33. Omitiu-se Mateus 10,9-25, em que Jesus fazia aos seus Doze Apóstolos apelos ao despojamento radical – sem ouro, nem prata, nem cobre, nem alforge, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado, nem pão; apenas Paz – e os prevenia para as perseguições que viriam de toda a parte. Neste contexto, é importante que não nos precipitemos a expor as nossas razões, que nada valem, mas que saibamos dar lugar ao Espírito do nosso Pai. Ele é que sabe dizer a Paz do Evangelho.

A perícope de hoje está atravessada pela confiança em Deus, nosso Pai, que cuida de nós em todas as circunstâncias. Daí a locução «não tenhais medo!», verbo grego phobéomai, que soa no pequeno texto de hoje por três vezes (Mateus 10,26.28.31). Daí, a coragem serena que deve mover o discípulo e enviado de Jesus a falar claro, à luz do dia ou sobre os telhados, em todas as circunstâncias. De resto, é óbvio que sendo o discípulo de Jesus missionário, não pode viver escondido nas catacumbas ou amuralhado no seu grupo de pertença ou de conforto. O cristão tem sempre pela frente o risco do mundo e da vida.

Depois, para ilustrar as suas palavras, surge o recurso caraterístico de Jesus às imagens simples da vida campestre. Dois passarinhos são vendidos por um asse, uma moedinha de cobre, pequenina, que valia 1/16 avos de um denário. O denário era o equivalente ao salário de um dia de um trabalhador. Portanto, do menor para o maior, à boa maneira rabínica, se Deus, nosso Pai, cuida desses passarinhos, pequeninos, quanto mais fará sentir a sua providência sobre nós (Mateus 10,29-31).

É assim também que, em pura sintonia com o Evangelho, entre a perseguição de todos e o amor de Deus que tudo supera e vence, nos chega hoje a voz simultaneamente dorida e tranquila, mas sempre apaixonada e orante de Jeremias 20,10-13. É um extrato de uma das suas «confissões», que se podem ver em Jeremias 11,18-12,6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18, e que são uma espécie de diário interior, autobiográfico, em que o profeta de Anatôt, uma aldeiazinha situada a meia-dúzia de km a nordeste de Jerusalém, grita a Deus as dores e os amores da sua vida. Jeremias atravessou o período mais dramático da história do seu país, vendo primeiro, em 609, morrer tragicamente o justo rei Josias, subir ao trono o tirano rei Joaquim (609-597), assiste às duas entradas do babilónio Nabucodonosor em Jerusalém, em 597 e 587, sendo a segunda para arrasar Jerusalém e o Templo, deportar o rei Sedecias e pôr fim à nação de Judá. No meio de tudo isto, muita corrupção, muita violência, muitos interesses em jogo.

Jeremias é dotado de uma sensibilidade apuradíssima. Ele é, com certeza, o mais terno dos homens da Bíblia, um romântico afeiçoado ao seu país, à sua religião e ao seu Deus, à sua aldeia natal de Anatôt, aos afetos e ao amor. Todavia, por não poder calar o que tem de dizer, por não poder fugir de Deus e da sua Palavra, vê-se excomungado, perseguido pelos seus conterrâneos de Anatôt, denunciado por parentes e amigos, obrigado a não poder constituir família com a mulher amada (Jeremias 16,2). Por todos amaldiçoado (Jeremias 15,10), perseguido pelo poder, torturado e flagelado (Jeremias 20,1-6), preso (Jeremias 37,13-38,6) e exilado para o Egito (Jeremias 43,6-7), Jeremias continuou sempre a gritar a Palavra a arder que lhe chegava de Deus (Jeremias 15,16; 20,9). Jeremias articula muito bem, na sua vida, tal como Jesus e os seus discípulos de todos os tempos, missão, perseguição e esperança.

Por falar em missão, perseguição e esperança, aí está o Apóstolo. S. Paulo explica bem, na grande lição da Carta aos Romanos de hoje (5,12-15), que a Lei, por melhor que seja, não anula o pecado nem cura da morte. Antes, torna o pecado manifesto, pois a Lei é uma espécie de dique que aumenta a albufeira do pecado, e, portanto, o vau da morte. Aumentando a albufeira do pecado, torna-o visível, mostra-o, fá-lo entrar pelos olhos dentro. É assim que se pode ver depois, também, com todo o relevo e a toda a luz, a graça de Cristo Salvador. Foi quanto Paulo foi forçado a ver na estrada de Damasco. Tanto viu que ficou encandeado, e nunca mais viu como via antes.

O Salmo 69, que é uma súplica individual, continua a mostrar, com linguagem forte, como é habitual nos Salmos, figuras orantes e cheias de esperança, como Jeremias, por todos perseguidas e abandonadas, mas sempre com Deus por perto, que escuta as súplicas e o louvor dos pobres e humildes. O trono de Deus, a sua cátedra, são as nossas misérias e as nossas dores.

Sabes, meu irmão, que em Anatôt,
Há uma amendoeira em flor carregada de esperança.
Sim, em Anatôt, de Anatôt, a amendoeira levanta-se
E planta-se no teu coração róseo-branco de criança.
Sim, em Anatôt, Foz Coa, Kilimanjaro, Lamego,
Aí mesmo no chão do teu coração,
Tanto faz, minha irmã, meu irmão.
Sai dessa reclusão
E vem expor-te
A este vendaval manso de graça e de perdão.

A amendoeira em flor é uma toalha branca estendida pelo chão.
Não pela minha mão,
Incapaz de tecer um tal manto de brancura,
Mas pela mão de Deus,
Que também faz brotar o vinho e o pão
E a ternura
No nosso coração.

António Couto

ANEXOS:

    1. Leitura I do XII Domingo do Tempo Comum – Ano A – 25.06.2023 (Jer 20,10-13)
    2. Leitura II do XII Domingo do Tempo Comum – Ano A – 25.06.2023 (Rom 5, 12-15)
    3. Domingo XII do Tempo Comum – Ano A – 25.06.2023 – Lecionário
    4. Domingo XII do Tempo Comum – Ano A – 25.06.2023 – Oração Universal
    5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 18.06.2023

«5Jesus enviou estes doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: «Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. 6Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. 7Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. 8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.»

Viver a Palavra

Os textos evangélicos referem-nos algumas vezes o olhar de Jesus que se eleva para o Céu (Jo 17,1), que olha o horizonte e contempla os reinos do universo (Lc 4,5), que olha para o chão (Jo 8,6). Contudo, ao ler os evangelhos fica sempre gravado no meu coração o modo como Jesus olha para aqueles que se cruzam com Ele. Tem a capacidade de olhar as multidões e dirigir a todos palavras de alento e esperança. Mas não se detém apenas a olhar para as multidões como uma massa anónima e indiscriminada, mas fixa alguns em particular, chama-os pelo nome, entra na sua história e oferece-lhes um sentido novo.

Jesus olha realmente a realidade não para a julgar e condenar, mas para a conhecer e amar. Jesus, o Enviado do Pai, não é portador de um plano predeterminado, mas diante de cada pessoa, de cada realidade e de cada circunstância faz presente o amor que salva, redime e oferece vida nova.

Seguir Jesus é entrar nesta nova lógica de ser e de estar que se traduz numa nova lógica de servir e amar. Quantas vezes, de modo individual ou coletivo, perdemos tanto tempo a julgar a realidade ou a lutar contra ela ao invés de cultivar um olhar compadecido e misericordioso capaz de dialogar com a realidade, oferecendo a vida nova que nasce da única proposta que temos para levar ao mundo: Jesus Cristo.

Diante das multidões que andam desorientadas e abatidas «como ovelhas sem pastor», Jesus enche-se de compaixão e alerta-nos para a desproporção entre o imenso trabalho a fazer e a escassez dos meios disponíveis: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». O anúncio do Reino de Deus há-de ter sempre esta marca da desproporção entre a imensa missão a realizar e a fragilidade das nossas forças. Contudo, será precisamente esta desproporção a recordar-nos em cada dia que somos operários da seara e que a obra é de Deus e que através das nossas frágeis mãos e das nossas vidas, tantas vezes vacilantes, Deus atua no mundo para lá das nossas capacidades.

Da compaixão pelas multidões e do pedido de oração para que o Senhor envie trabalhadores para a Sua seara nasce a missão dos doze que são chamados cada um pelo seu nome com instruções e recomendações precisas. Na verdade, a missão nasce da compaixão e da oração.

Olhar o mundo com o olhar de Jesus, contemplando «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem» (GS 1) é o ponto de partida para a missão. Mas sabemos que não vamos sozinhos. Não somos senhores da seara nem trabalhadores por conta própria, por isso, unimo-nos a Deus pela oração e nela encontramos a fonte da missão, a força para o caminho e a garantia de que é Deus que age no mundo para que o Reino de Deus aconteça através de nós e em nós. Neste envio dos doze, Jesus convida os seus discípulos a olhar o outro na totalidade da sua vida e a socorrer as suas necessidades: acolher, amar, curar, expulsar os demónios.

Muitas vezes a ação da Igreja centra-se apenas nos sacramentos e, de modo particular, na celebração da Eucaristia e bem sabemos a falta da Eucaristia na vida de uma comunidade. Nos tempos exigentes de pandemia que atravessámos, experimentámos e reconhecemos como a celebração comunitária da fé se constitui como fonte e cume da vida cristã. Contudo, enviados por Jesus como os doze, somos chamados a alargar o nosso horizonte e partir como discípulos missionários para contagiar o mundo com o amor misericordioso de Deus. A compaixão e a oração serão pilares seguros e ponto de partida fundamental para repensar a nossa pastoral e para fazer ecoar no mundo a certeza do amor de Deus que transforma a vida e torna o mundo um lugar melhor e mais feliz. in Voz Portucalense

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No dia de 16 de junho, Sexta-feira depois do segundo Domingo depois do Pentecostes, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Este dia é também dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes. Deste modo, celebrando o amor misericordioso de Jesus revelado pelo Seu coração cheio de amor, somos convidados a rezar pela santificação daqueles a quem o Senhor confiou o ministério ordenado. As comunidades cristãs são convidadas a dinamizar este dia, através dos mais diversos meios, exortando sempre à oração e podendo fazer desta data também uma oportunidade para um trabalho de sensibilização vocacional. in Voz Portucalense

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Vivemos em termos litúrgicos o que se designa por o Tempo Comum. Estamos no ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Ex 19,2-6a

«Se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos».

Ambiente

            O texto que nos é proposto faz parte das “tradições sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel teria assumido com Jahwéh.

O texto situa-nos no deserto do Sinai, “em frente do monte”. No texto bíblico, não temos indicações geográficas suficientes para identificar o “monte da aliança”. Em si, o nome Sinai não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, escassamente povoado, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura.

Uma tradição cristã do séc. IV d.C., no entanto, identifica o “monte da aliança” com o “Gebel Musah” (o “monte de Moisés”), um monte com 2244 metros de altitude, situado a sul da península sinaítica. Embora a identificação do “monte da aliança” com este lugar levante problemas, o “Gebel Musah” é, ainda hoje, um lugar de peregrinação para judeus e cristãos.

Vai ser, pois, aqui, no Sinai, diante de “um monte” que Jahwéh e Israel se vão comprometer numa “aliança”. A palavra hebraica “berit”, usada neste contexto, define um pacto entre duas partes, que implica direitos e obrigações, muitas vezes recíprocos. A “berit” raramente era escrita, mas tinha sempre valor jurídico. Habitualmente, o compromisso era selado por um ritual consagrado pelo uso, que incluía um juramento e a imolação de animais em sacrifício.

Será à luz deste esquema jurídico que Israel vai representar o seu compromisso com Jahwéh. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

Vivemos num tempo em que não é fácil – no meio da azáfama em que a vida decorre – reconhecer a presença, o amor e o cuidado de Deus com essa humanidade que Ele criou; alguns dos nossos contemporâneos chegam mesmo a falar da “morte de Deus”, para exprimir a realidade de uma história de onde Deus parece estar totalmente ausente. O nosso texto, no entanto, revela um Deus empenhado em caminhar ao lado dos homens, em estabelecer com eles laços de familiaridade e de comunhão, em apresentar-lhes propostas de salvação, de libertação, de vida definitiva. É Deus que está ausente da história dos homens, ou são os homens que apostam noutros deuses (isto é, noutros esquemas de felicidade) e não têm tempo nem disponibilidade para encontrar o Deus da “aliança” e da comunhão? Deus ter-Se-á tornado indiferente e insensível ao destino dos homens, ou são os homens que preferem trilhar caminhos de orgulho e de autossuficiência à margem de Deus? Deus terá renunciado a estabelecer laços familiares connosco, ou somos nós que, em nome de uma pretensa liberdade, preferimos construir a história do mundo longe de Deus e das suas propostas?

Os autores do nosso texto definem a resposta do Povo aos desafios do Deus da “aliança” em termos de “ouvir a voz” de Deus e “guardar a aliança”. “Ouvir a voz” de Deus significa escutar as suas propostas, acolhê-las no coração e transformá-las em gestos na vida diária; “guardar a aliança” significa comprometer-se com as propostas de Deus e viver de forma coerente com os mandamentos… Objetivamente, o que é que as propostas feitas por Deus significam na minha vida? O “caminho”, que eu percorro dia a dia, está de acordo com esse “caminho” de felicidade e de vida plena que Deus definiu e que me apresentou? As propostas de Deus interpelam-me e interferem com as minhas opções ou, na hora das decisões, eu escolho de acordo com os meus interesses pessoais, prescindindo das indicações de Deus?

O Povo que aceita o compromisso com Deus e que “embarca” na aventura da “aliança” é um Povo que é propriedade de Deus, que aceita ficar ao serviço de Deus. A sua missão é testemunhar o projeto salvador de Deus diante de todos os povos da terra. Tenho consciência de que, no dia do meu batismo, eu entrei na comunidade do Povo de Deus e assumi o compromisso de testemunhar Deus e o seu projeto de salvação diante do mundo? A minha vida tem sido coerente com esta opção? Tenho sido um sinal vivo do amor e da bondade de Deus diante dos homens e mulheres com quem me cruzo todos os dias? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 99 (100)

Refrão: Nós somos o povo de Deus, as ovelhas do seu rebanho.

LEITURA II – Rom 5,6-11

«Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores».

Ambiente

A Carta aos Romanos – já o dissemos atrás – é um texto sereno e amadurecido, escrito por Paulo por volta do ano 57/58 e no qual o apóstolo apresenta uma síntese da sua mensagem e da sua pregação. O pretexto para a carta é um projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha (cf. Rom 16,23-24): Paulo sente que terminou a sua missão no oriente e quer anunciar o Evangelho de Jesus no ocidente.

No entanto, a opinião da maioria dos estudiosos da Carta aos Romanos é que Paulo se serve deste pretexto para lembrar, quer aos cristãos vindos do judaísmo (e para quem a salvação dependia da prática da Lei de Moisés), quer aos cristãos vindos do paganismo (e para quem a Lei de Moisés constituía um empecilho) o essencial da mensagem cristã. Paulo insiste, sobretudo, no facto de a salvação não ser uma conquista do homem, mas um dom do amor de Deus. Na verdade, todos os homens vivem mergulhados no pecado, pois o pecado é uma realidade universal (cf. Rom 1,18-3,20); mas Deus, na sua bondade, a todos “justifica” e salva (cf. Rom 3,1-5,11); e essa salvação é oferecida por Deus ao homem através de Jesus Cristo; ao homem, resta aderir a essa proposta de salvação, na fé (cf. Rom 5,12-8,39).

O texto que nos é proposto é a parte final de uma perícope que começa em Rom 5,1. Nessa perícope, Paulo explica o que brota dessa “justificação” que Deus nos ofereceu: em primeiro lugar, a paz, que é a plenitude dos bens (cf. Rom 5,1); em segundo lugar, a esperança, que nos permite caminhar por este mundo de cabeça levantada, de olhos postos no futuro glorioso da vida em plenitude (cf. Rom 5,2-4). in Dehonianos.

A reflexão pode partir das seguintes questões:

O cristão é fundamentalmente alguém que descobriu que Deus o ama. Por isso, enfrenta cada dia com a serenidade, a alegria, a esperança que brotam dessa certeza fundamental. A certeza do amor de Deus condiciona a minha vida, a minha forma de enfrentar as dificuldades, o meu jeito de responder aos desafios que a vida me coloca?

O amor de Deus é totalmente gratuito, incondicional e eterno. Não espera nada em troca; não põe condições para se derramar sobre o homem; não é descartável… Numa época em que a cultura dominante (não só a “cultura das telenovelas”, mas também a cultura de certas elites pretensamente iluminadas) vende a imagem do amor interesseiro, condicionado e efémero, o amor de Deus constitui um tremendo desafio aos crentes.

O amor de Deus é universal. Não marginaliza nem discrimina ninguém, não distingue entre amigos e inimigos, não condena irremediavelmente os que falharam nem os afasta do convívio de Deus. Nós, discípulos de Jesus, somos testemunhas deste amor? Como é que tratamos e acolhemos aqueles que não concordam connosco, que assumem atitudes problemáticas, que fracassaram no seu casamento, que têm comportamentos considerados social ou religiosamente incorretos? In Dehonianos

EVANGELHO – Mt 9,36-38.10,1-8

«Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.».

«Depois chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades.».

Ambiente

Depois de ter apresentado Jesus (cf. Mt 1,1-4,22) e de ter mostrado Jesus a anunciar o “Reino” em palavras e em obras (cf. Mt 4,23-9,35), Mateus vai descrever o envio dos discípulos em missão (cf. Mt 9,36-11,1). Os discípulos são aqueles que Jesus chamou, que responderam positivamente a esse chamamento e seguiram Jesus; durante a caminhada que fizeram com Jesus, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus sinais. Formados por Jesus na “escola do Reino”, eles podem agora ser enviados ao mundo, a fim de anunciar a todos os homens a chegada do “Reino dos Céus”.

Os estudiosos do Evangelho segundo Mateus costumam chamar ao texto que vai de 9,36 a 11,1, o “discurso da missão”: nele, Jesus envia os discípulos e define a missão desses discípulos – anunciar a chegada do “Reino”. Este “discurso da missão” consta de várias partes: uma introdução (cf. Mt 9,36-38); o chamamento e o envio dos discípulos (cf. Mt 10,1-15); uma instrução sobre o “caminho” que os discípulos têm de percorrer (cf. 10,16-42); uma conclusão (cf. Mt 11,1).

Trata-se de um discurso composto por Mateus a partir de diversos materiais. O autor combinou aqui relatos de envio, “ditos” de Jesus acerca dos “doze” e várias outras “sentenças” de Jesus que originalmente não foram proferidas neste contexto concreto.

Mateus escreve o seu Evangelho durante a década de 80. Dirige-o a uma comunidade viva e entusiasta, profundamente empenhada na atividade missionária (poderá ser a comunidade cristã de Antioquia da Síria). No entanto, as dificuldades encontradas no anúncio do Evangelho e a perseguição traziam essa comunidade algo desorientada e perturbada. Neste contexto, Mateus compôs uma espécie de “manual do missionário cristão”, que enraíza a missão em Jesus Cristo, apresenta os conteúdos do anúncio que os discípulos são chamados a proclamar e define as atitudes fundamentais que os missionários devem assumir. in Dehonianos.

A reflexão pode partir das seguintes questões e desenvolvimentos:

Como cenário de fundo desta catequese sobre o envio dos discípulos está o amor e a solicitude de Deus pelo seu Povo. Não esqueçamos isto: Deus nunca Se ausentou da história dos homens; Ele continua a construir a história da salvação e a insistir em levar o seu Povo ao encontro da verdadeira liberdade, da verdadeira felicidade, da vida definitiva.

Como é que Deus age hoje no mundo? A resposta que o Evangelho deste domingo dá é: através desses discípulos que aceitaram responder positivamente ao chamamento de Jesus e embarcaram na aventura do “Reino”. Eles continuam hoje no mundo a obra de Jesus e anunciam – com palavras e com gestos – esse mundo novo de felicidade sem fim que Deus quer oferecer aos homens.

Atenção: Jesus não chama apenas um grupo de “especialistas” para O seguir e para dar testemunho do “Reino”. Os “doze” representam a totalidade do Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus (os “doze”) que é enviada, a fim de continuar a obra de Jesus no meio dos homens e anunciar-lhes o “Reino”. Tenho consciência de que isto me diz respeito e que eu pertenço à comunidade que Jesus envia em missão?

Qual é a missão dos discípulos de Jesus? É lutar objetivamente contra tudo aquilo que escraviza o homem e que o impede de ser feliz. Hoje há estruturas que geram guerra, violência, terror, morte: a missão dos discípulos de Jesus é contestá-las e desmontá-las; hoje há “valores” (apresentados como o “último grito” da moda, do avanço cultural ou científico) que geram escravidão, opressão, sofrimento: a missão dos discípulos de Jesus é recusá-los e denunciá-los; hoje há esquemas de exploração (disfarçados de sistemas económicos geradores de bem-estar) que geram miséria, marginalização, debilidade, exclusão: a missão dos discípulos de Jesus é combatê-los. A proposta libertadora de Jesus tem de estar presente (através dos discípulos) em qualquer lado onde houver um irmão vítima da escravidão e da injustiça. É isso que eu procuro fazer?

As obras que eu realizo são verdadeiramente um anúncio do mundo novo que está para chegar? Eu procuro transmitir alegria, coragem e esperança àqueles que vivem imersos no abatimento, na frustração, no desespero? Eu procuro ser um sinal do amor e da ternura de Deus para aqueles que vivem sozinhos, abandonados, marginalizados?

O nosso serviço ao “Reino” é um serviço totalmente gratuito, ou é um serviço que serve para promover os nossos interesses, a nossa pessoa, os nossos esquemas de realização pessoal? in Dehonianos

Para os leitores:

            Na primeira leitura deve ter-se em atenção as palavras «Refidim» e «Sinai» para uma correta pronunciação. Além disso, ter em conta a articulação entre a parte narrativa e o discurso direto em que Deus se dirige a Moisés.

A segunda leitura exige uma acurada preparação, assinalando as pausas e respirações. A falta de atenção na proclamação deste texto pode distorcer completamente a sua mensagem e torná-la impercetível. Pede-se uma especial atenção nesta frase: «Dificilmente alguém morre por um justo; /// por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer». Depois da palavra «justo», deve haver uma clara separação da frase seguinte.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

MISSÃO: MUDANÇA DE LUGAR E DE MODO

Atravessada em seis etapas dominicais (Domingos IV a IX) a paisagem sublime das alturas do Discurso programático da Montanha (Mateus 5,1-7,29), e tendo vivido de perto a cena do chamamento e resposta imediata e festiva de Mateus (Mateus 9,9-13) (Domingo X), ficaremos agora, durante três Domingos (XI-XIII) com o chamado “Discurso Missionário” (Mateus 9,36-11,1).

Neste Domingo XI, escutaremos Mateus 9,36-10,8. Tudo começa pelo princípio. E o princípio é sempre a compaixão de Jesus, dita com o verbo splanchnízomai, que implica um movimento visceral, maternal, de Jesus à vista das multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mateus 9,36). É a mesma comoção visceral, maternal, que encontramos em tantas outras circunstâncias: a cena da viúva de Naim (Lucas 7,13), do bom samaritano (Lucas 10,33), do pai da parábola da misericórdia (Lucas 15,20). A expressão «como ovelhas sem pastor» é uma maneira de dizer muito bíblica para expressar a dispersão, o desalento e o desencanto das pessoas (Números 27,17; 1 Reis 22,17; Judite 11,19; Ezequiel 34,5-6). E sempre com a mesma maneira de ver enternecida e comovida, Jesus diz logo para os seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos; pedi, pois, ao Senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe» (Mateus 9,37-38). A messe, grego therismós, qualifica a colheita, não a sementeira. É outra imagem muito bíblica para desenhar, não o tempo da espera e preparação, mas o tempo da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias. Por isso também, é um tempo novo, de alegria e de canções, como refere o Salmo 126,5-6. A imagem da messe, que traz consigo a realização do Reino de Deus, completa a imagem do jejum, referida pouco atrás, em Mateus 9,14-15. Os discípulos de João Batista e os fariseus jejuam para apressar a vinda do Messias. Os discípulos de Jesus não jejuam, porque o Messias já está com eles. Ele é o Reino-de-Deus em Pessoa, a Autobasileía, no dizer certeiro e contundente de Orígenes (185-254). É por isso que o dizer dos Apóstolos soa: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (Mateus 10,7b), sendo que «fez-se próximo» está escrito em grego com éggiken, que é o perfeito do verbo eggízô. E já se sabe que o perfeito grego começa e continua, não está de passagem.

É neste contexto que Jesus envia em missão os seus Doze Apóstolos, citados pelo nome, e que ficam fortemente vinculados a Jesus: 1) pelo chamamento (10,1a); 2) pela autoridade dada (10,1b); 3) pelo envio (10,5 e 16); 4) pelo anúncio (kêrýssô), que coloca sobre eles a marca da fidelidade (10,7a); 5) pelas palavras que devem dizer: «Fez-se próximo o REINO dos CÉUS» (10,7b), que já foram postas na boca de Jesus (4,17) e de João Batista (3,2); 6) pelas obras que devem realizar (10,1 e 8), que são também realizadas por Jesus (4,23-24; 8,16-17), e servem para identificar Jesus (11,5); 7) indo, antes de mais, à procura das ovelhas perdidas (10,6; cf. 18,12), como Jesus (9,36; 15,24); 8) pela Graça preveniente e concomitante (10,8); 9) pela sobriedade e despojamento, pobreza e simplicidade (10,9-10), que os conforma ao «Filho do Homem», que «não tem onde reclinar a cabeça» (8,20), até à Cruz (João 19,30); 10) pela imensa dignidade impressa em cada ser humano, imagem de Deus: daí o invulgar «sem sandálias (só em Mateus e Lucas 10,4) nem bastão» (10,10); sem sandálias: é assim que se está na presença do Deus santo (Ex 3,5; Js 5,15); sem sandálias e sem bastão: era assim que se entrava no Templo (os sacerdotes oficiavam descalços) e na sinagoga; os enviados de Jesus vão na presença de Deus e veem em cada ser humano a imagem de Deus; 11) pelo sustento (10,10), dado por Deus ao seu Servo e a Jesus, conforme a lição de Isaías 42,1, texto citado por Mateus em 12,18; ver também Elias, que bebe da torrente e é alimentado pelos corvos (1 Reis 17,4-6), e o Rei messiânico que, a caminho, bebe da torrente (Salmo 110,7); 12) sacudir o pó dos pés ao sair de casas e cidades não acolhedoras (10,14) reclama a remoção do pó profano num caminho sagrado; 13) pela rejeição e perseguição que lhes será movida (10,16-19), que é também, desde o princípio, a perseguição movida a Jesus (2,13); 14) pelo acompanhamento permanente e tranquilo do Pai e do seu Espírito, pelo que devemos fazer pausa e bemol, para que seja o Espírito a falar em nós (10,19-20; cf. 17,9); 15) acolher os Doze é acolher Jesus e o Pai (10,40).

As anotações acabadas de fazer dizem respeito a todo o discurso missionário, e devem, por isso, ser tidas em consideração também nos próximos dois Domingos. Jesus chama os Doze, dá-lhes autoridade e envia-os. A autoridade não é coisa própria dos Doze. É dada e recebida da fonte, que é Jesus. E destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curar. Nas pessoas simples da Palestina do tempo de Jesus, estava ancorada a crença nos espíritos bons e maus que governavam o mundo e se instalavam como parasitas nas pessoas. Expulsar os espíritos maus não é nem menos eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas atuais. O envio é para anunciar (kêrýssô) que o Reino dos Céus se fez próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas e encher o mundo de paz e de esperança.

A missão não é resguardar-se no seu grupo de pertença, e, desde aí, fazer proselitismo e propaganda (paradigma identitário e totalitário). A missão implica sair de si, mudança de lugar e de modo, não ficar aqui ou ali e não ficar assim. Implica ir à procura do outro perdido em qualquer margem da vida, acolhê-lo e velar por ele (paradigma alteritário).

Um ícone ilustrativo deste grande Capítulo X de Mateus: num dia de fevereiro de 1208, talvez no dia 24, Festa de S. Matias, na igreja de Santa Maria degli Angeli (Porziuncola), em Assis, um homem rico e até então dado a não poucos devaneios, ouviu a leitura desta página luminosa. Acendeu-se-lhe o coração. Nesse dia nasceu, ou completou o seu novo nascimento, S. Francisco de Assis.

O contraponto musical em pura sintonia vem hoje do grande texto de Êxodo 19,2-6, e lança a semente para tempos de colheita e realização que hão de vir, e que o Evangelho mostra cumpridos. O «dizer» de Deus está guardado no centro da estrutura, como num envelope. Tem a ver com um passado de graça operado por Deus em favor dos Filhos de Israel e por estes experimentado e por um futuro de graça oferecido por Deus e que pode ser também experimentado. «Vós vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe até mim» (Êxodo 19,4), eis o passado de graça, com fé e amor recitado – «o relato acredita-se; a história sabe-se» –, «módulo narrativo» elástico e miniatural que carinhosamente guardamos e transportamos connosco como uma joia de família, junto ao coração: é pequeno, trabalho delicado de artística e carinhosa miniatura, que recolhe com ternura o passado e o torna presente, para ser facilmente transportado e calorosamente recitado por cada um de nós; nele nos reconhecermos, dele vivemos, com ele nos identificamos, com ele nos apresentamos. O passado e o futuro de graça rodam, porém, sobre a resposta de adesão a Deus que Israel tem de dar, e não pode deixar de dar, exigida por aquele enfático «E AGORA» (we‘attah) que ocupa o centro da estrutura. Salta à vista que há um «dizer» de Deus a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos a nós. Note-se ainda que está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta e no cumprimento da Palavra, relação nova de nova proximidade e nova familiaridade entre Deus e o seu povo.

A Carta aos Romanos 5,6-11 mostra-nos aquele Jesus Cristo que se debruça com amor sobre o nosso desvalor, exatamente como aparece no Evangelho de hoje, maternalmente se compadecendo das pessoas perdidas, cansadas e abatidas.

Na tradição judaica, o Salmo 100 constitui uma velha, pequena oração que ressoa no nosso coração como louvor ao Deus bom, cujo amor é eterno. Intitula-se «Um cântico para a tôdah» (mizmôr letôdah), isto é, para a ação de graças ao Senhor. Este pequeno hino articula gritos de alegria, louvor, conhecimento, súplica, bênção. Agostinho comenta assim: «Deixa que a oração se transforme no teu alimento. Rezando, adquires novas energias, e Aquele a quem rezas torna-se mais doce para contigo». No centro do pequeno hino está uma profissão de fé no Senhor: o Senhor é Deus, nosso criador, que estabeleceu a aliança com Israel («nós somos o seu povo»), o amor do Senhor é para sempre, a sua fidelidade para todas as gerações (v. 3 e 5).

Barcas ao largo,
Corações ao alto,
Em pura sintonia com a alegria do Evangelho,
Ide!

Ide
E entrai em cada coração,
Semeai a paz,
Saboreai o pão que houver,
E que a mão de Deus vos der.

Não largueis nunca essa mão de amor.
É ela que vos guia
Rumo à alegria
Da messe e da missão.

Acolhe, Senhor, a nossa prece
Por todos os que continuam a levar o teu amor
A toda a humanidade
E a fazer de cada coração
A casa mais bela da cidade.

António Couto

ANEXOS:

    1. Leitura I -Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 18.06.2023 (Ex 19, 2-6a)
    2. Leitura II -Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 18.06.2023 (Rom 5, 6-11)
    3. Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 18.06.2023 -Lecionário
    4. Domingo XI do Tempo Comum – Ano A – 18.06.2023 – Oração Universal
    5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 11.06.2023

«9Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me!» E ele levantou-se e seguiu-o.» Mt 9, 9

Viver a Palavra

Desconcerta-me sempre a prontidão com que respondem os que são chamados por Jesus nos relatos evangélicos. Mateus está sentado, no posto de cobrança dos impostos, Jesus passa, vê-o, diz-lhe «segue-Me» e «ele levantou-se e seguiu Jesus». A sobriedade do relato, aliada à decidida e pronta resposta de Mateus que se faz seguimento, revela a radicalidade que implica seguir Jesus. Se por um lado nos espanta a pronta resposta àquele chamamento, por outro, interpela-nos a ausência de questões e resistências. É humanamente legítimo sentir dúvidas, colocar questões e sentir dificuldade em sair da nossa zona de conforto, mas um relato vocacional não é uma narrativa de horizonte meramente humano. É a narrativa do olhar divino sobre a nossa humanidade, revelando muito mais do coração misericordioso de Deus que da nossa frágil humanidade.

Deus omnipotente, omnisciente e omnipresente e tudo aquilo que Dele podemos dizer para falar da Sua total e radical separação do que é frágil e tangível assume a natureza humana em Jesus Cristo e faz da nossa humanidade lugar de manifestação da Sua divindade. A frágil condição humana não é necessariamente um obstáculo à graça de Deus, mas o lugar escolhido por Deus para revelar a Sua divindade. Se em Mateus, Pedro e André ou Tiago e João a resposta ao chamamento do Mestre se faz pronta e decidida, percorrendo os evangelhos percebemos como esta resposta se traduziu num processo contínuo e progressivo de acolhimento da pessoa e da mensagem de Jesus. Acolher a iniciativa de Jesus na nossa vida implica uma adesão decidida e pronta, mas consciente do processo permanente de conversão a que somos chamados. A vida da fé é tarefa sempre inacabada e um processo contínuo, onde a tarefa primeira é deixar-se olhar por Jesus.

Percorrendo os caminhos da Judeia e da Galileia, Jesus cruza a vida de Deus com a vida da humanidade. Nos gestos e palavras de Jesus, a Igreja é chamada a encontrar as coordenadas fundamentais para a sua ação no mundo. Ser Igreja em Saída e Hospital de Campanha, partir ao encontro de quantos permanecem longe e sendo hábil na arte de curar as feridas do coração e da vida. Não nos serve uma ação eclesial distante do mundo, tampouco um cristianismo que não seja desenhado na lógica da incarnação. Não somos os sadios que não precisam de médico, mas os pecadores que necessitam da medicinal misericórdia de Deus e, curados pelo Seu amor e pela Sua graça, tornamo-nos curadores feridos. Temos de aprender esta arte de sair ao encontro de quantos vivem nas periferias existenciais e propor um evangelho que se faz caminho e proximidade, misericórdia e encontro. Habitar o sentido do humano e o horizonte antropológico contemporâneo implica deixar-se olhar por Jesus e ser portador desse olhar para quantos se cruzam connosco no caminho.

Jesus Cristo revindica a misericórdia, preterindo-a aos sacrifícios e holocaustos. Jesus reivindica o coração humano, mais do que qualquer sacrifício de touros e carneiros. A nossa frágil condição humana só pode ser curada pela misericórdia do Deus que nos convoca para a missão: «segue-Me!». A nós cabe-nos confiar na promessa de Deus a nosso respeito, mesmo quando parece desafiar o humano nos seus limites, tal como Abraão que é chamado a ser pai de uma numerosa descendência na idade avançada da sua vida e sendo a sua esposa estéril.

Deus torna fecunda a terra árida do nosso coração «com a chuva da Primavera sobre a face da terra» e rasga horizontes de esperança na misericordiosa e acolhedora mesa da Eucaristia: a mesa da festa e da alegria, onde os pecadores se abrem à graça. in Voz Portucalense

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No dia de 16 de junho, Sexta-feira depois do segundo Domingo depois do Pentecostes, celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Este dia é também dedicado à oração pela santificação dos sacerdotes. Deste modo, celebrando o amor misericordioso de Jesus revelado pelo Seu coração cheio de amor, somos convidados a rezar pela santificação daqueles a quem o Senhor confiou o ministério ordenado. As comunidades cristãs são convidadas a dinamizar este dia, através dos mais diversos meios, exortando sempre à oração e podendo fazer desta data também uma oportunidade para um trabalho de sensibilização vocacional. in Voz Portucalense

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Concluído o Tempo Pascal, retomamos o Tempo Comum. Estamos no ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Os 6, 3-6

«Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos».

Ambiente

            Oseias exerceu o seu ministério profético no reino do Norte (Israel), a partir de 750 a.C., numa época bastante conturbada.

Em termos políticos, é uma fase marcada pela violência, pela insegurança e pelo derramamento de sangue. Os reinados são curtos e terminam invariavelmente em revoluções, assassínios, massacres… Por outro lado, o aventureirismo dos dirigentes e os jogos de alianças políticas com as potências da época causam grande instabilidade e anunciam o desastre nacional e a perda da independência (o que acontece alguns anos mais tarde, em 721 a.C., quando a Samaria é arrasada por Salamanasar V, da Assíria).

Em termos religiosos, é uma época de grande confusão… Exposto à influência cultural e religiosa dos povos circunvizinhos, Israel acolhe diversos deuses estrangeiros que coabitam com Jahwéh, no coração do Povo e nos centros religiosos. Mistura-se o Jahwismo com os cultos de Baal e Astarte; embora Jahwéh continue a ser oficialmente o Deus nacional, é, a nível popular, bastante preterido em favor dos deuses cananeus. Por outro lado, as alianças políticas com os povos estrangeiros significam que Israel já não confia em Deus e que prefere pôr a sua confiança e a sua esperança nos guerreiros, nos cavalos, nos carros de guerra das superpotências; dessa forma, a Assíria e o Egipto deixam de ser realidades terrenas e humanas, para se tornarem – aos olhos dos israelitas – novos deuses, capazes de salvar. O Povo passa a confiar neles, prescindindo de Jahwéh.

Oseias sente profundamente o drama do sincretismo religioso que está a pôr em perigo a fé do seu Povo. A sua mensagem apela a que Israel não se deixe dominar pela idolatria (a que Oseias chama “prostituição”: o Povo é como uma “esposa” que abandonou o “marido” para correr atrás dos “amantes”). O profeta convida o seu Povo a redescobrir o amor de Jahwéh – sempre presente na história de Israel – e a responder-Lhe com uma vontade sincera de viver em comunhão com Ele. in Dehonianos.

 

A reflexão pode fazer-se a partir das seguintes questões:

O problema principal que aqui nos é posto é o da nossa relação com Deus. Deus chama-nos a viver em aliança com Ele… Como é que nós respondemos ao “chamamento” de Deus? Com uma adesão verdadeira e sincera, que implica a totalidade da nossa vida, ou com um compromisso de “meias tintas”, sem exigência nem radicalidade?

Como numa relação humana, também na nossa relação com Deus a rotina, a monotonia e o cansaço podem descolorir o amor. Entramos então num esquema religioso de resposta a Deus, que se baseia em gestos rituais, talvez corretos do ponto de vista litúrgico, mas que não são a expressão dos sentimentos do nosso coração. A minha oração é um repetir fielmente uma cassete gravada de antemão, ou é um momento íntimo de encontro com o Senhor e de resposta ao seu amor? A Eucaristia é, para mim, um ritual obrigatório, que eu cumpro diária ou semanalmente porque está no horário, ou é esse momento fundamental de encontro com o Deus que me dá a sua Palavra e o seu Pão?

O culto a Deus, sem o amor ao irmão, não faz sentido. O nosso compromisso com Deus tem de se concretizar em obras em favor dos homens e em gestos libertadores, que levem ternura, misericórdia, à vida de todos aqueles que Deus coloca no nosso caminho. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 49 (50)

Refrão: A quem procede retamente farei ver a salvação de Deus.

LEITURA II – Rom 4, 18-25

«Contra toda a esperança, Abraão acreditou que havia de tornar-se pai de muitas nações, como tinha sido anunciado».

Ambiente

Quando Paulo escreveu aos romanos, preocupava-o bastante a ameaça de cisão da Igreja: os cristãos oriundos do judaísmo e os cristãos oriundos do paganismo tinham perspetivas diferentes da salvação e pareciam em rota de colisão. As crises recentes em Corinto e na Galácia convenceram Paulo da gravidade da situação.
Esse problema também era sentido em Roma? No ano 49, um édito do imperador Cláudio obrigara os judeus a deixar Roma; a comunidade cristã ficara então totalmente entregue aos cristãos de origem pagã… Mas em 57/58, muitos judeus tinham já regressado e a comunidade cristã contava outra vez com um grupo significativo de judeo-cristãos. Estes, ao retornarem, encontraram uma comunidade cristã com características diferentes da que tinham deixado, dirigida por cristãos convertidos diretamente do paganismo e completamente emancipada em relação às tradições judaicas. É de crer que os cristãos de origem judaica não se sentissem bem acolhidos e que não se coibissem de criticar as novas orientações. A questão provocou uma certa instabilidade na comunidade.
Dirigindo-se aos romanos e à Igreja em geral, o apóstolo vai procurar sublinhar aquilo que deve unir todos os crentes – judeus, gregos ou romanos. Para Paulo, apesar da universalidade do pecado (nesse aspeto, judeus e não judeus estão em pé de igualdade), Deus oferece a todos, de forma gratuita, a mesma salvação e de todos faz, em igualdade de circunstâncias, seus filhos. É por Cristo que essa salvação é oferecida aos homens. O cumprimento da Lei não salva, pois, a salvação é um dom de Deus. Ao homem, resta-lhe acolher esse dom na fé (a fé é, neste contexto, entendida como adesão à proposta de salvação que, em Cristo, Deus oferece aos homens).
Como exemplo, Paulo apresenta a figura de Abraão (cf. Rom 4,1-12). O apóstolo demonstra que essa figura modelar para judeus e pagãos não foi salva pela Lei nem pelas obras, mas pela fé. O texto que nos é proposto insere-se neste ambiente. in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir das seguintes linhas:

Este texto convida-nos a tomar consciência daquilo que deve ser a essência da nossa experiência religiosa. Manter uma relação verdadeira e forte com Deus não é primordialmente praticar todos os atos de piedade que conhecemos ou que inventamos, observar escrupulosamente os mandamentos da santa Igreja, ou cumprir à letra cada parágrafo do código de direito canónico… A “justificação” não está na Lei, mas na fé; por isso, a nossa experiência religiosa deve ser um encontro com esse Deus do amor, que nos oferece gratuitamente a salvação; e desse encontro deve resultar um abraçar a proposta de Deus, com total confiança e com total entrega.

Se a salvação é sempre um dom do amor de Deus e não uma conquista nossa, não se justifica qualquer atitude de arrogância ou de exigência do homem face a Deus. Temos de aprender a ver tudo o que somos e temos, não como a retribuição pelo nosso bom comportamento, mas como um dom gratuito de Deus – dom que nunca merecemos, por mais “bonzinhos” que sejamos. Diante dos dons de Deus, resta-nos o louvor e o agradecimento, por um lado, e a confiança, a entrega e a obediência, por outro.

A reflexão de Paulo convida-nos, na mesma linha, a corrigir a imagem que fazemos de Deus… Ele não é um comerciante esperto, que paga com a mercadoria que tem em stock (a salvação) uma outra mercadoria que nós lhe vendemos (o nosso bom comportamento). Deus não precisa do nosso bom comportamento para nada… A salvação que Ele nos oferece é algo totalmente gratuito, que resulta do seu amor infinito e da sua vontade de nos ver plenamente felizes e realizados.

Como é que eu respondo ao dom de Deus? Com o orgulho e a autossuficiência de quem não precisa de Deus para ser feliz e para se realizar? Com a “esperteza saloia” de quem pretende negociar com Deus para obter a salvação? Ou com o reconhecimento de que a salvação é um dom não merecido que, apesar de tudo, Deus me oferece e me convida a acolher? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 9, 9-13

«Jesus ia a passar, quando viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: “Segue-Me”».

«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes».

Ambiente

O nosso texto faz parte de uma longa secção, na qual Mateus põe Jesus – com as suas palavras e as suas ações – a anunciar o “Reino”. Essa secção vai de Mt 4,23 a 9,35.

Na primeira parte da secção (cf. Mt 5-7), Mateus apresenta o “sermão da montanha”: num discurso magnífico, Jesus apresenta a “lei” e o programa desse “Reino” que Ele veio propor: é o anúncio do “Reino” por palavras.

Na segunda parte da secção (cf. Mt 8-9), Mateus apresenta o anúncio do “Reino” através das ações de Jesus. O autor coloca-nos diante de três conjuntos de ações ou “milagres” de Jesus que tornam presente a realidade do “Reino” (cf. Mt 8,1-15; 8,23-9,8; 9,18-31); entre cada um desses conjuntos aparecem reflexões sobre o significado dos “gestos” de Jesus e apelos ao seu seguimento… O nosso texto (cf. Mt 9,9-13) insere-se precisamente neste esquema: é um apelo ao seguimento de Jesus.

Em resumo, temos nesta secção o anúncio do “Reino” nas palavras e nos gestos de Jesus. As palavras de Jesus anunciam a chegada desse mundo novo no qual os pobres e os débeis receberão a salvação de Deus; os gestos de Jesus mostram a realidade desse tempo novo de felicidade, de alegria, de libertação para todos. Os discípulos, evidentemente, são convidados a aderir a esse “Reino” que Jesus vem propor e a tornarem-se testemunhas desse mundo novo.

O texto que nos é proposto apresenta dois episódios distintos. No primeiro, temos o chamamento do publicano Mateus (vers. 9); no segundo, temos a descrição de um banquete em casa de Mateus e de uma controvérsia com os fariseus (cf. vers. 10-13).

Os publicanos estavam catalogados como pecadores públicos notórios. Eram os cobradores de impostos que, além de estarem ao serviço do opressor romano, tinham a fama (e é preciso dizer, também o proveito) de explorarem os pobres. A linguagem oficial associava-os aos ladrões, aos pagãos, aos assassinos e às prostitutas. Os publicanos eram considerados, para todos os efeitos, pecadores públicos, permanentemente afetados de impureza e que nem sequer podiam fazer penitência, pois eram incapazes de reconhecer todos aqueles a quem tinham defraudado. Os fariseus, muito ciosos da sua santidade, mudavam de passeio quando, na rua, viam um publicano vir ao seu encontro.

Eram, portanto, gente desclassificada (apesar de rica), impura, considerada amaldiçoada por Deus e, portanto, completamente à margem da salvação.

Tudo isto nos permite perceber o inaudito da situação criada por Jesus: Ele não só chama um publicano para o seu grupo de discípulos, como também aceita sentar-Se à mesa com ele (estabelecendo assim com ele laços de familiaridade, de fraternidade, de comunhão). O comportamento de Jesus é, não só atentatório da moral e dos bons costumes, mas uma verdadeira provocação.in Dehonianos.

A reflexão e a partilha desta Palavra podem fazer-se contando com os seguintes dados:

A questão essencial é esta: Deus tem um projeto de salvação e de vida plena que oferece, de forma gratuita, a todos os homens. Essa salvação é um dom e não algo que nós podemos exigir de Deus. Todos os homens são chamados a fazer parte da comunidade do “Reino”: Deus não exclui nem discrimina ninguém. O que é decisivo não é o cumprimento das leis e das regras, mas a forma como respondemos ao chamamento que Deus nos faz. Podemos ficar numa atitude de autossuficiência, achando que não precisamos do dom de Deus porque cumprimos os mandamentos e achamos que Deus não tem outra solução senão salvar-nos; ou podemos escutar o chamamento de Deus, aderir à sua proposta, tornarmo-nos discípulos, seguir confiadamente Jesus no seu caminho de amor e de entrega. De acordo com a catequese de Mateus, a primeira atitude exclui-nos da comunidade da salvação, enquanto a segunda atitude nos integra na comunidade do “Reino”. Em que atitude estou eu?

A história de Mateus dá-nos algumas indicações acerca da forma como responder ao chamamento de Deus. Mateus, convidado por Jesus a integrar a comunidade do “Reino”, considerou tudo como secundário, abandonou os projetos pessoais (que passavam pela aposta nos bens materiais, mesmo se conseguidos com recurso à exploração e à injustiça) e correu atrás de Jesus. É esta resposta pronta, decidida, radical, plena, que eu dou aos desafios de Deus? O “Reino” é, para mim, algo de fundamental, que se sobrepõe a todos os outros valores, ou um projeto secundário, que me ocupa nas horas vagas, mas não é uma prioridade na minha vida?

A Palavra de Deus que aqui nos é proposta sugere também que na comunidade do “Reino” não há cristãos de primeira e cristãos de segunda (conforme cumprem ou não as leis e as regras). O que há é pessoas a quem Deus chama e que respondem ou não ao seu convite. De qualquer forma, não pode haver, na comunidade cristã, qualquer tipo de discriminação ou de marginalização…in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura tem a marca da esperança que deve transparecer, na proclamação da leitura. Além disso, devem ter cuidado na proclamação das duas perguntas presentes no texto, evitando a entoação no final da frase que é um vocativo.

Na segunda leitura, devem ter cuidado nas pausas e respirações, sobretudo nas frases mais longas e com diversas orações.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

No início do capítulo 6, o profeta Oseias coloca na boca do Povo uma fórmula de arrependimento ou de penitência, provavelmente tomada da tradição cultual (“vinde, voltemos para o Senhor: Ele nos despedaçou, Ele nos curará; Ele fez a ferida, Ele nos porá o penso que cura” – Os 6,1). Contudo, o profeta olha para esta expressão com um olhar irónico…. Porquê? A conversão do Povo não é sincera? Haverá, por parte do Povo, um desejo real de voltar para Deus e de deixar definitivamente a idolatria?

É a esta questão que Oseias se refere no texto que nos é hoje proposto… O profeta parece ter dúvidas da sinceridade da “conversão” do Povo. O que Israel diz é: “o Senhor é como a aurora, pontual e inevitável, como a chuva que empapa a terra. Já sabemos como é que Ele funciona, pois Ele é perfeitamente previsível; se soubermos fazer bem as coisas, podemos controlá-l’O, pô-l’O do nosso lado e recuperar a vida que perdemos” (vers. 3). Isto parece mais o resultado de uma atitude calculista de quem está convencido de que conhece Deus perfeitamente e é capaz de manejá-l’O e de manipulá-l’O, do que o resultado de uma atitude coerente e sincera, de um desejo verdadeiro de “conversão”.

A isto, como é que Deus reage? O profeta descreve como que uma luta interior de Deus… “Que farei?” – pergunta Deus… Mas logo vem a resposta: repetindo as imagens usadas pelo Povo, Deus assume que não vai ceder, pois essa “conversão” de Israel é totalmente superficial e, portanto, não passa de “conversa fiada” (“o vosso amor é como o nevoeiro da manhã, como o orvalho da madrugada que logo se evapora” – vers. 4). Israel não está disposto a mudar o coração; só está disposto a “controlar” Deus para readquirir a vida… Ora, se não houver uma verdadeira transformação do coração, o apregoado amor do Povo por Deus não passa de uma piedosa declaração de boas intenções.

Como é que Israel manifesta no dia a dia a Jahwéh essa sua vontade de “voltar para o Senhor”? É através de uma vida coerente com os mandamentos? É através de um amor que lhes sai do fundo do coração e que se expressa em gestos concretos de bondade, de justiça, de misericórdia? Não. O “amor” de Israel a Jahwéh expressa-se através de ritos externos, de atos de culto… No entanto, os atos rituais (os “sacrifícios”) não significam nada por si próprios; são apenas atos exteriores ao homem… Não valerá de nada um culto – ainda que magnificente – que não resulte de uma atitude interior de amor e de vontade de comunhão com Deus (“conhecimento de Deus”). O culto não pode ser um conjunto de ritos desligados da vida, destinados a aplacar Deus ou a comprar a sua benevolência; mas tem de ser expressão de uma vida voltada para Deus, vivida ao ritmo da aliança, no respeito por Deus e pelas suas propostas.

Dizer que Deus quer “a misericórdia (“hesed”) e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus (“daat Elohim”), mais que os holocaustos” (vers. 6), insere-se nesta lógica… Significa que Deus não está interessado em rituais externos – mesmo que ricos e espalhafatosos – que não são expressão dos sentimentos que vão no coração; o que interessa a Deus é um coração que aceita verdadeiramente viver em comunhão com Ele (“conhecimento de Deus”) e que é capaz de gestos concretos de amor, de ternura, de bondade, de misericórdia (“hesed”) em favor dos irmãos.

Paulo na carta aos Romanos deixa claro – com argumentação tirada da própria Escritura – porque é que Abraão foi o depositário da “promessa” e se tornou uma fonte de bênção para a sua descendência
. Segundo Paulo, Abraão tornou-se uma referência fundamental para todos os crentes – judeus e não judeus – não por ter realizado obras meritórias ou por ter cumprido estrita e escrupulosamente a Lei; mas Abraão tornou-se um modelo para todos por ter sido o “homem da fé” (isto é, por ter sabido acolher o dom de Deus e por ter sabido responder-Lhe com a entrega incondicional, com a obediência radical, com a confiança ilimitada).
No texto que nos é proposto, Paulo descreve a grandeza e a profundidade da fé de Abraão. O exemplo apontado é talvez o mais conhecido e emblemático: apesar da idade avançada de Abraão e de Sara, a sua esposa, o patriarca não titubeou, não argumentou, não duvidou, quando Deus lhe anunciou o nascimento de Isaac. O facto dá conta da altura, da profundidade, da força, da heroicidade da fé de um homem que fez da sua vida uma entrega completa nas mãos de Deus, que confiou incondicionalmente em Deus, que esperou “contra toda a esperança” (vers. 18). Estas últimas palavras são uma expressão bíblica utilizada para definir a atitude do homem que reconhece tudo dever a Deus e que se entrega incondicionalmente nas suas mãos.

Para Paulo, não há qualquer dúvida: não foram as obras de Abraão, mas sim a sua fé (entrega, obediência, confiança) que o tornaram “o eleito” de Deus e uma fonte de vida e de bênção para os seus descendentes.
A conclusão é óbvia: não são as obras que fazemos que nos asseguram a salvação; mas o que nos assegura a vida plena e definitiva é a nossa fé – isto é, uma adesão radical, confiante, ilimitada à oferta de salvação que, em Jesus, Deus nos faz. A salvação não é uma conquista do homem, mas um dom de Deus, oferecido gratuitamente por amor, e que o homem é convidado a acolher com fé, com serenidade, com confiança.

O relato da vocação de Mateus (vers. 9) não é substancialmente distinto do relato do chamamento de outros discípulos (cf. Mt 4,18-22): em qualquer dos casos fala-se de homens que estão a trabalhar, a quem Jesus chama e que, deixando tudo, seguem Jesus. Os “chamados” não são “super-homens”, seres perfeitos e santos, estranhos ao mundo, pairando acima das nuvens, sem contacto com a vida e com os problemas e dramas dos outros homens e mulheres; mas são pessoas normais, que vivem uma vida normal, que trabalham, lutam, riem e choram… No entanto, todos são chamados ao seguimento de Jesus. O verbo “akolouthéô”, aqui utilizado na forma imperativa, traduz a ação de “ir atrás” e define a atitude de um discípulo que aceita ligar-se a um “mestre”, escutar as suas lições e imitar os seus exemplos de vida… É, portanto, isso que Jesus pede a Mateus. Mateus, sem objeções nem pedidos de esclarecimento, deixa tudo e aceita ser discípulo, numa adesão plena, total e radical a Jesus e às suas propostas de vida. Mateus define aqui o caminho do verdadeiro discípulo: é aquele que, na sua vida normal, se encontra com Jesus, escuta o seu convite, aceita-o sem discussão e segue Jesus de forma incondicional. A esta adesão ao chamamento de Deus chama-se “fé”.

No relato de vocação de Mateus que hoje nos é apresentada (Mt 9, 9-13) há, no entanto, um dado novo em relação a outros relatos de vocação: é que aqui, o “chamado” é um cobrador de impostos. Já sabemos que os cobradores de impostos eram gente desclassificada, excluída da vida social e religiosa do Povo de Deus, catalogada como pecadora, e sem qualquer possibilidade de salvação e de relação com Deus. Jesus, no entanto, pretende demonstrar que, na casa do “Reino”, há lugar para todos, mesmo para aqueles que o mundo considera desclassificados e marginais. Deus tem uma proposta de salvação para apresentar a todos os homens, sem exceção; e essa proposta não distingue entre bons e maus: é uma proposta que se destina a todos aqueles que estiverem interessados em acolhê-la.

Na segunda parte do texto (vers. 10-13), temos uma controvérsia entre Jesus e os fariseus, porque Jesus – depois de convidar o publicano Mateus a integrar o seu grupo de discípulos (coisa inaudita, que nenhum “mestre” da época aceitaria) – ainda “desceu mais baixo” e aceitou sentar-Se à mesa com os publicanos e pecadores.

O “banquete” era, para a mentalidade judaica, o lugar do encontro, da fraternidade, onde os convivas estabeleciam laços de família e de comunhão. Sentar-se à mesa com alguém significava estabelecer laços profundos, íntimos, familiares, com essa pessoa. Por isso, o “banquete” é, para Jesus, o símbolo mais apropriado desse “Reino” de fraternidade, de comunhão, de amor sem limites, que Ele veio propor aos homens (Mt 22,1-14; cf. Mt 8,11-12). Ao sentar-Se à mesa com os publicanos e pecadores, Jesus está a dizer, de forma clara, que veio apresentar uma proposta de salvação para todos, sem exceção; e que nesse mundo novo, todos os homens e mulheres (independentemente das suas opções ou decisões erradas) têm lugar. A única condição que há para sentar-se à mesa do “Reino” é estar disposto a aceitar essa proposta que é feita por Jesus.

Os fariseus (que estão mais preocupados com as obras, com os comportamentos externos, com o cumprimento estrito da Lei) não entendem isto. Jesus recorda-lhes que “não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” (vers. 12); e cita, a propósito, a frase de Oseias que encontramos na primeira leitura: “prefiro a misericórdia ao sacrifício” (vers. 13). Há, nas afirmações de Jesus, uma certa ironia: os fariseus julgavam-se justos e bons, porque cumpriam a Lei; mas, na perspetiva de Deus, os “justos” não são os que estão satisfeitos consigo próprios e vivem isolados na sua autossuficiência, mas são todos aqueles que não se conformam com a triste situação em que vivem, estão dispostos a acolher o dom de Deus e a aderir à sua proposta de salvação.

Para Deus, o que é decisivo, portanto, não é o cumprimento estrito das regras, das leis e dos atos de culto; para Deus, o que é decisivo é estar disposto a acolher a proposta de salvação que Ele faz e a entregar-se confiadamente nas suas mãos. Todos aqueles que, na sua humildade e dependência, estão nesta atitude podem integrar a comunidade do “Reino” e fazer parte da comunidade de Jesus, da comunidade da salvação.
Deus chama todos os homens sem exceção. Os que se consideram bons e justos, frequentemente acham que não precisam do dom de Deus, pois eles merecem, pelos seus atos, a salvação; mas a verdade é que a salvação é sempre um dom gratuito de Deus, não merecido pelo homem… O que Deus pede ao homem (seja ele bom ou mau, pecador ou santo, justo ou injusto) é que aceite o dom de Deus, escute o chamamento de Jesus e, sem objeções, com total confiança e disponibilidade, aceite o convite para seguir Jesus, para ser seu discípulo e para integrar a comunidade do “Reino”.

 In Dehonianos

ANEXOS:

    1. Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano A – 08.06.2023 – Lecionário
    2. Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano A – 08.06.2023 – Oração Universal
    3. Leitura I do Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 11.06.2023 (Os 6, 3-6)
    4. Leitura II do Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 11.06.2023 (Rom 4, 18-25)
    5. Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 11.06.2023 – Lecionário
    6. Domingo X do Tempo Comum – Ano A – 11.06.2023 – Oração Universal
    7. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Solenidade da Santíssima Trindade – Ano A – 04.06.2023

Domingo IX do TEMPO COMUM

Viver a Palavra

Retomando os Domingos do Tempo Comum, o calendário litúrgico convida-nos a celebrar a Solenidade da Santíssima Trindade. Os diversos textos eucológicos apresentados pelo missal sublinham a profundidade e a densidade teológica do mistério que celebramos, tal como rezamos por exemplo no prefácio proposto para esta solenidade: «Senhor Pai Santo, Deus eterno e omnipotente (…)Com o vosso Filho unigénito e o Espírito Santo, sois um só Deus, um só Senhor, não na singularidade de uma só pessoa, mas na trindade de uma só natureza.».

Partindo da revelação bíblica e apoiada na tradição da Igreja e no Magistério, a teologia dogmática, nos seus mais diversos autores, foi desenvolvendo e aprofundando ao longo dos séculos, o modo como nos abeiramos deste mistério de amor e como podemos falar dele evitando heresias e cismas. Deste modo, a celebração da solenidade da Santíssima Trindade pode parecer longe do concreto da nossa vida e ficar apenas pela celebração do Mistério de Deus em si mesmo e do modo como Ele se revela para nós, na descrição teórica e especulativa que a ciência teológica nos legou.

Contudo, a celebração da solenidade da Santíssima Trindade tem tudo que ver com a nossa vida e apresenta-se para nós como uma janela aberta com vista direta para o coração de Deus. Deixamos de parte a nossa lógica matemática e abrimos o coração ao mistério de um Deus que se revela em três pessoas. O nosso Deus não é um deus solitário, um divino solteirão que habita no cimo de uma nuvem. O nosso Deus, o Deus revelado em Jesus Cristo na força do Espírito Santo, é comunhão de amor e não só subsiste como tal, como se revela deste modo: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna».

O nosso Deus é comunhão de amor e constitui a Igreja como Povo reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo (LG 4). A Igreja como ícone da Santíssima Trindade é chamada a contemplar o mistério de amor que é o próprio Deus e a realizar a sua ação no mundo como testemunha da comunhão e da unidade. Deste modo, a solenidade da Santíssima Trindade, revelando-nos o modo como Deus se relaciona connosco, convida-nos a viver à imagem da Santíssima Trindade.

Diante deste imenso mistério, como Moisés prostramo-nos em adoração e sentimos sussurrar no nosso coração: «O Senhor, o Senhor é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade». Moisés coloca-se de joelhos e prostra-se em adoração e estava ainda muito longe da revelação oferecida em Jesus Cristo, onde este amor e misericórdia seriam levados à plenitude.

No silêncio da noite, neste diálogo noturno entre Jesus e Nicodemos, contemplamos o amor superabundante de Deus que apesar dos nossos pecados não nos abandona à nossa sorte. Verdadeiramente apaixonado por cada homem e cada mulher, Deus envia o Seu Filho, para que na força do Espírito Santo o mundo possa ser salvo: «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele». Deste modo, como afirmou o Padre Virgínio Rotondi: «o mundo amado apaixonadamente por Deus não pode deixar de ser amado por nós desse modo». O amor derramado por Deus nos nossos corações envia-nos como testemunhas da alegria ao serviço da bondade e da ternura como nos exorta S. Paulo.

O amor que revela a essência de Deus e nos permite entrever o mistério da Sua comunhão e unidade constitui-se como ontologia da ação eclesial e envia-nos como verdadeiros discípulos missionários para que o mundo acredite em Jesus Cristo e Nele encontre a fonte da salvação e da paz. in Voz Portucalense

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No Domingo da Santíssima Trindade somos convidados pela Liturgia da Palavra a viver como artífices da comunhão e da unidade. A Igreja é Povo de Deus reunido na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo (LG 4) e, por isso, chamada a testemunhar esta comunhão de amor. Deste modo, ao celebrar esta solenidade, cada família e cada comunidade cristã são desafiadas a renovar o seu compromisso de ser testemunhas da alegria da comunhão e da beleza de caminhar juntos. No contexto desta celebração, podem ser apresentadas alguns desafios concretos e ações de saída missionária que em família ou em comunidade se podem levar a cabo para que a comunhão e unidade que somos chamados a testemunhar não sejam apenas um conjunto de boas intenções, mas uma realidade concreta na vida e na missão de cada batizado. in Voz Portucalense

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Concluído o Tempo Pascal, retomamos o Tempo Comum. Estamos no ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Ex 34,4b-6.8-9

«É certo que se trata de um povo de dura cerviz, mas Vós perdoareis os nossos pecados e iniquidades e fareis de nós a vossa herança».

Ambiente

            O nosso texto faz parte das “tradições sobre a aliança do Sinai” – um conjunto de tradições de origem diversa, cujo denominador comum é a reflexão sobre um compromisso (“berit” – “aliança”) que Israel teria assumido com Jahwéh.

O texto situa-nos no deserto do Sinai, “em frente do monte” (cf. Ex 19,1). No texto bíblico, não temos indicações geográficas suficientes para identificar o “monte da aliança”. Em si, o nome “Sinai” não designa um monte, mas uma enorme península de forma triangular, com mais ou menos 420 quilómetros de extensão norte/sul, estendendo-se entre o mar Mediterrâneo e o mar Vermelho (no sentido norte/sul) e o golfo do Suez e o golfo da Áqaba (no sentido oeste/este). A península é um deserto árido, de terreno acidentado e com várias montanhas que chegam a atingir 2400 metros de altura.

Segundo alguns autores, este texto pode ter sido a primitiva versão jahwista da aliança do Sinai (séc. X a.C.); mas, na versão final do Pentateuco (sécs. V-IV a.C.), foi utilizado para descrever a renovação da primeira aliança, entretanto rompida pelo pecado do Povo. No estado atual do Pentateuco, o esquema é o seguinte: Israel comprometeu-se com Jahwéh (cf. Ex 19); mas, durante a ausência de Moisés, no cimo do monte, o Povo construiu um bezerro de ouro para representar Jahwéh – o que lhe estava interdito pelos mandamentos da aliança (cf. Ex 32,1-29); então, Moisés intercedeu pelo Povo e Deus renovou a aliança com Israel (cf. Ex 34,1-10). in Dehonianos.

 

Na reflexão, ter em conta as seguintes linhas:

Deus é sempre, para o homem, o mistério que a “nuvem” esconde e revela: detetamos a sua presença, mas sem O ver; percebemos a sua proximidade, sem conseguirmos definir os contornos do seu rosto. A ânsia do homem em penetrar o mistério de Deus leva-o, com frequência, a inventar rostos de Deus; mas, muitas vezes, esses rostos são apenas a projeção dos sonhos, dos anseios, das necessidades e até dos defeitos dos homens e têm pouco a ver com a realidade de Deus. Para entrarmos no mistério de Deus, é preciso estabelecermos com Ele uma relação de proximidade, de comunhão, de intimidade que nos leve ao encontro da sua voz, dos seus valores, dos seus desafios (“subir ao monte”). Procuro, dia a dia, “subir ao monte” da “aliança” e estabelecer comunhão com Deus através do diálogo com Ele (oração) e da escuta da sua Palavra?

No nosso texto, Deus apresenta-Se. Fundamentalmente, Ele define-Se como o Deus da relação e da comunhão. Deixa claro que é um Deus “com coração” – e com um coração cheio de amor, de bondade, de ternura, de misericórdia, de fidelidade. Apesar de o seu Povo ter violado os compromissos que assumiu, Deus não só perdoa o pecado do Povo, mas propõe o refazer da “aliança”: é que, acima de tudo, este Deus do amor preza a comunhão com o homem: o seu objetivo é integrar os homens na família de Deus. É este Deus em que eu acredito? É deste Deus que eu dou testemunho?

Deus, da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem. Eu sou livre de aceitar, ou não, a proposta de “aliança” que Deus me faz. Como é que eu respondo ao Deus da “aliança”? Eu aceito esta vontade que Ele manifesta de viver em relação de comunhão comigo? O que é que eu faço para responder a este desafio?in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Dan 3

Refrão: Digno é o Senhor de louvor e de glória para sempre.

LEITURA II – 2 Cor 13,11-13

«Sede alegres, trabalhai pela vossa perfeição, animai-vos uns aos outros, tende os mesmos sentimentos, vivei em paz».

Ambiente

A Primeira Carta aos Coríntios (que criticava alguns membros da comunidade por atitudes pouco condizentes com os valores cristãos) provocou uma reação extremada e uma campanha organizada no sentido de desacreditar Paulo. Este, informado de tudo, dirigiu-se apressadamente para Corinto e teve um violento confronto com os seus detratores. Depois, retirou-se para Éfeso. Tito, amigo de Paulo, fino negociador e hábil diplomata, partiu para Corinto, a fim de tentar a reconciliação.

Paulo, entretanto, partiu para Tróade. Foi aí que reencontrou Tito, regressado de Corinto. As notícias trazidas por Tito eram animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo.

Reconfortado, Paulo escreveu uma tranquila apologia do seu apostolado, à qual juntou um apelo em favor de uma coleta para os pobres da Igreja de Jerusalém. Esse texto é a nossa Segunda Carta de Paulo aos Coríntios.             Estamos nos anos 56/57.

O texto que nos é proposto é, precisamente, a conclusão da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios. Se compararmos esta despedida com a da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1 Cor 16,19-24), ela surpreende-nos pela brevidade, frieza e impessoalidade. Não parece a despedida de uma “carta de reconciliação”, mas antes uma despedida entre partes que conservam uma certa tensão na sua relação. in Dehonianos.

Para a reflexão, considerar:

A comunidade cristã é convidada a descobrir que Deus é amor. A fórmula “Pai, Filho e Espírito Santo” expressa essa realidade de Deus como amor, como família, como comunidade.

Os membros da comunidade cristã, que pelo batismo aderiram ao projeto de salvação que Deus apresentou aos homens em Jesus e cuja caminhada é animada pelo Espírito, são convidados a integrarem esta comunidade de amor. O fim último da nossa caminhada é a pertença à família trinitária.

Esta “vocação” deve expressar-se na nossa vida comunitária. A nossa relação com os irmãos deve refletir o amor, a ternura, a misericórdia, a bondade, o perdão, o serviço, que são as consequências práticas do nosso compromisso com a comunidade trinitária. É isso que acontece? As nossas relações comunitárias refletem esse amor que é a marca da “família de Deus”? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 3,16-18

«Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito».

«Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita n’Ele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

Ambiente

O nosso texto pertence à secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Nessa secção, o autor apresenta Jesus e procura – através dos contributos dos diversos personagens que vão sucessivamente ocupando o centro do palco e declamando o seu texto – dizer quem é Jesus.

Mais concretamente, o trecho que nos é proposto faz parte da conversa entre Jesus e um “chefe dos judeus” chamado Nicodemos (cf. Jo 3,1). Nicodemos foi visitar Jesus “de noite” (cf. Jo 3,2), o que parece indicar que não se queria comprometer e arriscar a posição destacada de que gozava na estrutura religiosa judaica.

Membro do Sinédrio, Nicodemos aparecerá, mais tarde, a defender Jesus, perante os chefes dos fariseus (cf. Jo 7,48-52); também estará presente na altura em que Jesus foi descido da cruz e colocado no túmulo (cf. Jo 19,39).

A conversa entre Jesus e Nicodemos apresenta três etapas ou fases.

Na primeira (cf. Jo 3,1-3), Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus, graças às suas obras; mas Jesus acrescenta que isso não é suficiente: o essencial é reconhecer Jesus como o enviado do Pai.

Na segunda (cf. Jo 3,4-8), Jesus anuncia a Nicodemos que, para entender a sua proposta, é preciso “nascer de Deus” e explica-lhe que esse novo nascimento é o nascimento “da água e do Espírito”.

Na terceira (cf. Jo 3,9-21), Jesus descreve a Nicodemos o projeto de salvação de Deus: é uma iniciativa do Pai, tornada presente no mundo e na vida dos homens através do Filho e que se concretizará pela cruz/exaltação de Jesus. O nosso texto pertence a esta terceira parte. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes pontos:

João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o “caminho” da vida eterna… No dia em que celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós – seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias – adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.

O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte, “inferno”. Quais são as manifestações desta recusa da vida plena que eu observo, na vida das pessoas, nos acontecimentos do mundo, e até na vida da Igreja?

Nós, crentes, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário. É isso que acontece? Que contributo posso eu dar para que a minha comunidade – cristã ou religiosa – seja sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?

A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de “um em três”. Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família – pai, mãe e filho – é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue “dizer” o indizível, não consegue definir o mistério de Deus.in Dehonianos

Para os leitores:

            a brevidade das leituras que são propostas para este Domingo não deve fazer descurar o cuidado colocado na sua preparação.

Na primeira leitura, deve ter-se em atenção as frases em discurso direto e, na segunda leitura, o carácter exortativo do texto reforçado pelas diferentes formas verbais na forma imperativa.

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

SANTÍSSIMA TRINDADE

Deus faz-se ver nos interstícios do nosso humilde chão quotidiano. Foi quanto Nicodemos pôde depreender ao ver os sinais (sêmeîa) que Jesus fazia (cf. João 3,2b-3). Todavia, daqui para a frente, não há passo racional, nosso, que possamos dar. Não resta a Nicodemos outra via (não Tomista) que não seja ir ao encontro de Jesus (cf. João 3,2a), não na sua condição de «o mestre de Israel (ho didáscalos toû Israêl)» (João 3,10), mas do discípulo que sabe depor as suas armas de Mestre aos pés de Jesus, «o Mestre que veio de Deus» (apò theoû elêlythas didáskalos) (João 3,2b), o Mestre que não estudou em nenhuma das nossas escolas (João 7,15). As pequenas mãos de Nicodemos, e as nossas também, não dispõem de nenhum argumento ou instrumento de acesso que nos permita ir além da gélida impassibilidade das leis da natureza. Ora, naquele Jesus que Nicodemos via, havia claros sinais de que «Deus estava com Ele» (ho theòs met’ autoû) (João 3,2b). Em Jesus, era então visível um acesso à vida divina. E foi isso que Levou Nicodemos a sair tremulamente do seu quotidiano de «o mestre de Israel», para ir ao encontro de Jesus, o Mestre que veio de Deus e que não estudou nas nossas escolas.

Saiu dali e foi. E dali para a frente é todo o dizer do Evangelho deste dia (João 3,16-18). É Jesus que se diz a Nicodemos. Não é a história ou a narrativa de um dizer anódino. É o Mestre que vem de Deus, para dizer Deus a Nicodemos, a mim e a ti. Jesus não diz coisas; diz Deus. Não ensina conteúdos para aprender; dá-nos Deus que nos ama, e que, por amor, nos entrega o seu Filho, Jesus. Portanto, Nicodemos fica sem jeito: não lhe compete apenas aprender o que Jesus lhe pode ensinar; compete-lhe receber Jesus que Deus lhe entrega por amor. E compete-lhe ainda saber que esta enchente de amor, que vem de Deus, é para todos, e não apenas para ele, pelo que, responder a esta enxurrada de amor, passará sempre por amar também, no quotidiano, os seus irmãos.

Sim, é tal a grandeza do amor de Deus por nós, que, por amor de nós, entrega até o seu Filho, para assumir e absorver os nossos erros, saldar as nossas dívidas, suportar os nossos maus-tratos e a nossa violência, poder ter mesmo que entregar a sua vida nas nossas mãos assassinas, sem deixar de nos amar, para nos salvar.

A afirmação de Jesus é absolutamente assombrosa, impensável, desarmante: «Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (João 3,16), o Filho do seu amor. Para que não nos passe ao lado a força do que acabámos de ouvir, talvez possamos perguntar: Quem é o pai ou a mãe aqui presente que está disposto a entregar o seu filho ou filha a um grupo de malvados para, com esse gesto de extrema ousadia, tentar retirar do mal aqueles malvados? Penso que não haverá aqui ninguém que se atreva a fazer uma coisa destas. O que nós não somos capazes de fazer, fê-lo Deus por nós, que não somos grande coisa! Entregou-nos o seu Filho querido, e nós cravámo-lo naquela Cruz!

O texto do Antigo Testamento que faz equilíbrio com o Evangelho de hoje é a chamada magna charta do amor de Deus, que hoje podemos ler no Livro do Êxodo 34,4-9. A primeira frase [«E passou (ʽabar) o Senhor diante dele (Moisés), e proclamou/invocou (qaraʼ): “Senhor, Senhor”»], é de ligação, mas reveste-se de grande importância. A ação de «passar», por parte de Deus, significa, por um lado, a sua presença livre, boa e bela, e, por outro lado, que nós não podemos pôr sobre Ele a nossa mão, controlá-lo, nossa permanente tentação. «E passou o Senhor» (Êxodo 34,6) cumpre a promessa boa de Deus a Moisés, feita em Êxodo 33,19, de fazer passar diante de Moisés toda a sua bondade e beleza (kol-thûbî). E que esta «passagem» é boa e bela vê-se em contraponto com as visões do Livro de Amós, em que Deus declara: «Veio o fim (qets) para o meu povo, Israel; não continuarei a passar para ele (loʼ… ʽabar lô)» (Amós 8,2; cf. 7,8). E o facto de o Senhor aparecer a proclamar/invocar (qaraʼ) o seu próprio Nome é coisa única, única vez em toda a Escritura em que o Senhor é sujeito do verbo qaraʼ, na expressão qaraʼ beshem, «proclamar/invocar o Nome». Por norma, a locução qaraʼ beshem YHWH encontra-se nos lábios dos adoradores e suplicantes, e significa aí «invocar o Nome de YHWH». Posta na boca do próprio Deus, a locução há de significar, em primeiro lugar, proclamar, mas sem anular a beleza e a surpresa de o próprio Deus invocar também o seu Nome, a sua plenitude de Amor, de que todos recebemos graça sobre graça (cf. João 1,16). A exegese costuma, neste lugar, acentuar o «proclamar», deixando de lado o «invocar», querendo quase explicar que Deus não pode invocar o seu próprio nome, isto é, rezar. Mas só este duplo dizer de Deus, revelatório e orante, constitui a verdadeira revelação de Deus, e assenta as bases para que o crente possa invocar proclamando, ou proclamar invocando, anunciando, rezando, com doçura e estremecimento, este Nome, esta Presença Amante e Fiel. Tão extraordinária maneira de dizer deixa-nos, pois, não no domínio da metafísica, mas da revelação, da anunciação, da oração, da adoração, ato fundador e modelar da nossa oração.

Não será, neste contexto, de estranhar que, nesta exposição de Deus, Deus exposto diante de Moisés com toda a sua bondade e beleza, como acontece em Êxodo 34,6-7, e que não pode deixar de lembrar Jesus Cristo exposto (proétheto) na Cruz (Romanos 3,25), «exposto por escrito (proegráphê) diante dos nossos olhos» (Gálatas 3,1), Moisés se tenha «apressado a responder ajoelhando-se (qadad) no chão e prostrando-se em adoração (hishtahawah, forma hitpael de shahah), e dizendo: “Por favor, se encontrei graça aos teus olhos (՚im-na՚ matsa՚tî hen beՙênêka), Senhor, vem, por favor, Senhor, para o meio de nós, que somos um povo de dura cerviz, e perdoa (salah) a nossa culpa e o nosso pecado”» (Êxodo 34,8-9).

Entre esta necessária aproximação teofânica centrada no essencial, e o essencial é sempre pessoal, que é a passagem boa e bela de Deus (Êxodo 34,6a), exposição de Deus, e a oração e adoração humana por ela provocada (Êxodo 34,8-9), sem os fenómenos exteriores habituais, como relâmpagos, trovões, tremores de terra, fogo devorador (cf. Êxodo 19,16 e 18), aí está, dentro do caixilho, o quadro central, que abre com a repetição do Nome «Senhor, Senhor», única em toda a Escritura, duplicação certamente com valor enfático, mas também litúrgico, orante, adorante. Deus diz-se a Si mesmo como nos diz a nós: «Moisés, Moisés» (Êxodo 3,4), com Amor imenso e intenso, orante, comovido, exposto! Convenhamos que, neste tremendo dizer, não conta apenas o facto de Deus se dizer a Si mesmo. Conta também, e talvez sobretudo, o modo como Deus se diz a Si mesmo.

O Apóstolo traz-nos hoje, no final da sua correspondência com a comunidade de Corinto (2 Coríntios 13,11-13), a fórmula com que abrimos a nossa Eucaristia: «A graça do Senhor Jesus Cristo e o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós». É, de facto, em clave trinitária que vivemos e rezamos.

Depois deste necessário contacto com os textos bíblicos que a liturgia deste dia nos oferece, acrescentamos aqui este espaço de reflexão. De facto, nesta «era do vazio» que nos atravessa, a Trindade pode parecer insignificante, e ficar remetida apenas para velhos compêndios de uma espécie de geometria religiosa. Impõe-se, portanto, uma reflexão forte e renovada, em que a Trindade surja como fonte de vivificação para a nossa experiência cristã quotidiana.

Na Triadologia do Novo Testamento, preparada pelo Antigo Testamento, Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Mas, ao receber tudo, infinita receção, o Filho volta a dar tudo numa infinita doação sem defesa e sem limites. E esta comunhão-comunicação-vida-amor de si-a-si, circular, vertiginosa, tranquila e imperecível, constitui o Espírito Santo, a Pessoa-Dom incriado (segundo a bela expressão de João Paulo II), o Dom que vem de si mesmo a si mesmo, Dom de si a si, o Dom absolutamente um com ele mesmo, o Dom idêntico ao Ser.

Esta feliz definição, se bem compreendida e explorada, pode trazer importantes consequências práticas. A nossa experiência ensina-nos como nós somos sensíveis ao Dom, como o nosso coração se abre diante do Dom. O Dom tem uma força própria. Não é uma força exterior que se imponha desde fora. É uma força interior, persuasiva, suave e calorosa, que move o coração desde dentro, quebrando toda a dureza e resistência. O Dom é uma terceira realidade entre mim e o meu amigo. O meu amigo quer dar-se a mim por amor. Mas não pode deixar de ser ele, para passar a ser eu. Eu quero dar-me ao meu amigo por amor, mas não posso deixar de ser eu, para passar a ser ele. Aliás, se esta fusão pudesse acontecer, punha termo ao amor existente entre mim e o meu amigo. O Dom provém da alteridade e garante a alteridade. Provém da intencionalidade da união entre mim e o meu amigo, mas garante também a nossa alteridade. O Dom é o meu amigo dando-se a si mesmo a mim por amor e sou eu recebendo o meu amigo por amor, princípio e termo da doação. Em Deus, o Pai dá-se ao Filho por amor – princípio da doação –, mas não perde a sua dimensão paternal, tornando-se Filho; do mesmo modo que o Filho, acolhendo o dom da paternidade por amor – termo da doação –, não anula a sua determinação filial, tornando-se Pai. Uma ação requer sempre a outra para se completar, estando as duas pessoas reciprocamente implicadas. Entre mim e o meu amigo, o Dom é um objeto, mas quanto mais intensamente é Dom, isto é, quanto mais significa a nossa doação íntima e pessoal, menos é um objeto materialmente determinado. Por isso eu gasto tanto tempo até encontrar o Presente que quero oferecer ao meu amigo, um objeto que signifique a nossa intimidade. Em Deus, entre o Pai e o Filho, o Dom é o Espírito, Pessoa divina subsistente, distinto do Pai e do Filho, dos quais procede, mas distinto também do ato da doação, de que é o efeito e a significação. Se ele fosse o ato da doação, não constituiria uma pessoa subsistente, pois não existiria como tal; seria a soma de duas pessoas, não uma terceira.

O Espírito, Pessoa-Dom incriado, é o protagonista da missão e de toda a vida eclesial. É, porém, um protagonista silencioso como o Dom é silencioso. Silencioso, mas eficaz. A sua ação calorosa processa-se, não com palavras sensíveis que afetam os órgãos da audição (Romanos 8,26), mas na interioridade da inteligência da fé num «gemido sem palavras» (stenagmòs alálêtos) (Romanos 8,26), que acende no nosso coração o vivo desejo de comunicar com Deus. A ação calorosa do Espírito-Dom não se limita a certos países, línguas, povos, etnias, religiões, e nem sequer tem um alcance limitado como é limitado o alcance daquele que usa as cordas vocais (ou mesmo os meios de comunicação social) para se fazer ouvir. Ele está para além de todas essas barreiras, pois atua diretamente na inteligência e no coração de cada ser humano. E em termos de inteligência e de coração, em termos de humanidade e intimidade, são iguais o chinês, o português e o inglês, o católico, o hinduísta e o muçulmano…

A grande teologia bíblica está atravessada por este Mistério (mystêrion) do Amor de Deus, que é Deus vindo ao mesmo tempo de si mesmo e a si mesmo, Mistério escondido eternamente em Deus (Romanos 16,25; Efésios 3,9; Colossenses 1,26), mas já presente e atuante na história dos homens desde a Criação (João 1,3; Colossenses 1,16), e agora dado a conhecer (gnôrízô) em Cristo (Romanos 16,25-26; Efésios 1,9; 3,3.10; Colossenses 1,27), tornando-se, portanto, Mistério conhecido (!), Revelação divina gratuita, doação do Dom e dicção do Dito, totalmente entregue aos homens, para dela viverem totalmente. Este «para nós» do Mistério do Amor de Deus é o Propósito (próthesis) eterno divino (Romanos 8,28; Efésios 1,11), a Vontade (thélêma) eterna divina (Gálatas 1,4; Efésios 1,5.9.11) – em Deus, pensamento, expressão, comunicação, efeito, Alfa e Omega, são simultâneos e coeternos – de elevar a nossa humanidade a viver por graça ao nível da sua divindade (2 Pedro 1,4; 1 João 3,2). Se, na grande teologia bíblica, o homem confessa que Deus se revela, confessa então que Deus é o ato de se revelar. E, então, o Mistério de Deus é a sua revelação, e a sua revelação é o seu Mistério. Nesse sentido, Deus vem a si mesmo como vem ao mundo. E quando Deus se comunica e se manifesta ao mundo, trata-se verdadeiramente de uma comunicação de si-a-si e de uma manifestação de si-a-si. Donde: comunicação-manifestação de Deus ao mundo = comunicação-manifestação de Deus a si mesmo.

No centro deste Mistério do Amor de Deus em ação na história dos homens está a Missão do Filho de Deus com o Espírito Santo, que é o Mistério de Cristo (Efésios 3,4), que é Cristo em nós (Colossenses 1,27) e nós em Cristo (Romanos 8,28-30). Assumindo a nossa condição humana por puro Dom de Amor total, concebido e nascido na sua / nossa humanidade por Amor, com o nome «Jesus», não da carne e do sangue, mas do Espírito Santo (Mateus 1,18; Lucas 1,34-35; cf. João 3,6), tendo recebido na sua / nossa humanidade a plenitude do Espírito Santo no Batismo do Jordão (Lucas 4,1; cf. João 1,32-33), e tendo-o recebido de novo, na sua / nossa humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada (Atos 2,32-33; 1 Coríntios 15,45.49) na Morte / Ressurreição que é o Batismo consumado (Lucas 12,49-50), Ele pode agora, enquanto Homem verdadeiro divinizado, tornado na sua / nossa Humanidade «Espírito vivificante» (pneûma zôopoioûn) (1 Coríntios 15,45), dar o Espírito Santo aos outros homens seus irmãos, vivos e mortos (João 19,30 e 34; 20,22; cf. 7,37-39; Atos 2,32-33; 1 Coríntios 15,49).

No decurso da sua vida terrena ainda não podia dar o Espírito, embora o possuísse em plenitude. Anota cuidadosamente o Evangelista que «não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado» (João 7,39). Na verdade, na Economia divina, «Economia da carne», como dizem os Padres, porque a carne decaiu, a carne devia levantar-se, e onde a carne tinha sido vencida, a carne devia vencer (Santo Ireneu de Lião). Foi por isso necessário que o Verbo Deus assumisse a condição do Adão antigo «numa carne semelhante à do pecado» (Romanos 8,3), «feito pecado por causa de nós» (2 Coríntios 5,21), «tornado maldição por causa de nós» (Gálatas 3,13), sujeito, enfim, à morte. Sem esta, não se verificava a assunção completa da nossa condição (Hebreus 2,9.14a.17). Assumiu, portanto, as consequências do nosso pecado, sem se tornar, no entanto, cúmplice do pecado (Hebreus 4,15; 1 Pedro 2,22). Impunha-se que fosse sem pecado, para poder enfrentar a morte, não como quem lhe é naturalmente devedor, mas num ato de pura generosidade. Não bastava ser sem pecado. Ao ser sem pecado era necessário juntar uma atitude de puro amor subversivo (Hebreus 2,10.14b.18). No decurso da sua vida terrena, nem a sua união com Deus, nem a sua união com os homens, tinham atingido a sua perfeição: enquanto homem terreno, Jesus não estava perfeitamente unido a Deus na glória: era necessária uma transformação radical da sua humanidade; mas tão-pouco a sua solidariedade com os homens estava completa. É só após ter efetuado esta assimilação total, que a «carne do Verbo Deus» opera agora aquela que é a máxima operação divina: dar o Espírito Santo, vivificar-nos com o contacto do seu corpo pneumatóforo. De facto, é só no fim da sua vida terrena, no extremo da sua incarnação levada até ao extremo – que comporta a sua morte e a sua ressurreição, a glorificação da sua humanidade –, que podemos proclamar a identidade (de ideîn) de Jesus como Filho Deus, obra do Espírito em nós (1 Coríntios 12,3). Por isso, só quando Jesus desaparecer na Glória, o Espírito pode vir para nós. Todas as palavras relativas ao Paráclito, o atestam à sua maneira. Todas falam do envio do Espírito Santo Paráclito no futuro (João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15). O contexto da quarta referência é particularmente elucidativo: «é do vosso interesse que eu vá, porque, se eu não for, o Paráclito não virá para vós; mas se eu for, eu enviá-lo-ei para vós» (João 16,7). A razão não está em que Jesus, que está corporalmente presente, deva desaparecer para que a sua «espiritualidade» possa ser tornada presente, mas em que uma exegese do Verbo feito carne, na sua totalidade, «na verdade toda» (en tê alêtheía pásê) (Jo 16,13), não pode realizar-se senão a partir do momento em que Ele é proferido até ao fim, o que comporta a sua morte e ressurreição.

O Espírito Santo é assim a Dádiva de Deus (hê dôreà toû theoû) (Atos 2,38; 8,20; 10,45; 11,17; Hebreus 6,4; cf. Lucas 11,9.13) que vem a nós sempre da única Fonte inexaurível que é a Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor. É só aí e daí, mediante adesão sacramental ao seu Corpo pneumatóforo – «quem adere (kolláô) ao Senhor torna-se com Ele único Espírito» (1 Coríntios 6,17) –, que recebemos a nossa verdadeira identidade, a filiação divina (hyiothesía) (Romanos 8,15-16; Gálatas 4,5; Efésios 1,5), e ousamos rezar «Abba, Pai!» (Gálatas 4,4-6; Romanos 8,15.26-27) e proclamar «Senhor é Jesus!» (1 Coríntios 12,3; Filipenses 2,11). É verdade que «o Espírito sopra onde quer» (João 3,8), em qualquer povo, debaixo de qualquer céu, avivando as brasas do desejo inscrito na nossa carne humana, mas vem a nós somente através da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, e é para lá que remete e reconduz sempre, desvendando e saciando o nosso desejo do Filho. O Espírito Santo não Se revela – «não falará de si mesmo» (João 16,13) –, mas revela sempre na Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor Jesus, o Filho de Deus. E só o Filho de Deus, concebido e nascido na sua / nossa Humanidade – Jesus –, Crucificado, Ressuscitado e Glorificado na sua / nossa Humanidade, dador do Espírito Santo e por Ele revelado, pode revelar o Pai. Tudo vem do Pai, mediante o Filho, no Espírito; tudo volta ao Pai, mediante o Filho, no Espírito.

O Espírito Santo Deus, Dádiva total do Pai e do Filho, Divina Comunhão (2 Coríntios 13,13; Filipenses 2,1), e que brota para nós da única Fonte sacramental da Humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada do Senhor, está operante na nossa humanidade e na nossa história. Vindo (João 15,26; 16,7.8.13), Ensinando (João 14,26; 1 João 2,20.27) e Recordando (João 14,26), Conduzindo (João 16,13), Recebendo (João 16,14.15) e Anunciando (João 16,13.14.15), Testemunhando (João 15,26), Dando (1 Coríntios 12,7 e 8) e Edificando (1 Coríntios 14,3.4.5.12.26), Vivificando (João 6,63; Romanos 8,10; 2 Coríntios 3,6), Ele (ekeînos) é o verdadeiro protagonista da mesma Missão Filial Batismal do Senhor que a Igreja Fiel Batizada e Confirmada deve prosseguir, para dela viver e para dela fazer viver, como ficou documentado de forma paradigmática na vida das comunidades cristãs nascentes, tal como atestam as Cartas de S. Paulo e o inteiro Livro dos Atos dos Apóstolos.

Vindo, Recebendo, Ensinando, Recordando, Conduzindo, Testemunhando, Dando, Edificando. O Espírito Paráclito recebe (lambánô) do que é de Jesus (João 16,14 e 15), do mesmo modo que Jesus recebeu do Pai (João 10,18; Apocalipse 2,28), que lhe deu tudo o que tem e é. Do mesmo modo, o ensinamento (didachê) do Espírito Paráclito é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência da fé, avivando as brasas do desejo da Palavra primeira e criadora no coração de cada homem, debaixo de qualquer céu. Este ensinamento interior do Espírito é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). Cumpre-se assim a profecia de Jeremias 31,31-34 (38,31-34 LXX) que refere que «todos me conhecerão (eidêsousin)» com uma ciência que não resulta da instrução, mas que é incutida por Deus no coração. Do mesmo modo, a ação de recordar (hypomimnêskô) (João 14,26) não tem nada de comum com a memória banal de um acontecimento ordinário, mas implica uma compreensão nova dos factos e palavras de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Jesus tinha dito que reconstruiria o Templo? Na verdade, ele falava do seu próprio corpo (João 2,22). Jesus tinha entrado em Jerusalém montado num jumento? Na verdade, realizava a profecia de Zacarias 9,9 (João 12,16). Nos dois casos, é dito que os discípulos «se recordaram» (mimnêskomai). O Espírito dá-lhes a inteligência da vida e da paixão de Jesus e de todo o Antigo Testamento. Nesta ação de recordar, o passado é reclamado, não para suscitar em nós o orgulho pela obra feita, mas para salientar o excesso do dom, deixando-nos em estado de recitação que provoca em nós a decisão de nos empenharmos no presente para respondermos agora ao dom que sempre nos precede. É assim que o Espírito atua na memória viva da Igreja: provocando a recitação da criação e avivando o desejo da filiação.

«Ó abismo de riqueza e sabedoria e conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! […] Porque d’Ele, por Ele e para Ele são todas as coisas. A Ele a glória pelos séculos, ámen!» (Romanos 11,33 e 36).

O Filho e o Espírito Santo são,
No dizer de Santo Ireneu de Lião,
As duas mãos do Pai,
Enviadas em missão
Para junto dos seus filhos de adoção.

À semelhança, claro,
Daquelas mãos de amor,
Que, no alvor da Criação,
Modelaram da terra pura o nosso coração,
E de misericórdia o vestiram.

Filhos no Filho, divina hyiothesía,
Hemorragia de graça e de alegria:
Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,
E dá-nos em herança a sua divina filiação.

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,
Divina comunhão, sem confusão,
Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,
E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,
A mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Santíssima Trindade – Ano A – 04.06.2023 – Lecionário
  2. Santíssima Trindade – Ano A – 04.06.2023 – Oração Universal
  3. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Solenidade do Pentecostes – Ano A – 28.05.2023

Viver a Palavra

Cinquenta dias depois da Páscoa os Apóstolos continuam fechados com medo. Não estão em isolamento social recomendado pelas autoridades sanitárias, mas como discípulos de Jesus de Nazaré que foi crucificado estão recolhidos em casa e, com certeza, começam a pensar o que farão para vencer o temor e avançar para o desconfinamento. Contudo, algo de surpreendente e inesperado acontece. No lugar onde se encontravam «fez-se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam».

Este grupo que estava fechado, amedrontado e barricado em casa, subitamente encontra a audácia para enfrentar a multidão e corajosamente sai para a rua, proclamando as maravilhas de Deus nas mais variadas línguas, conforme o Espírito lhes inspirava. Estes homens não estavam habituados a fazer discursos, nem eram profissionais da palavra. São homens simples que não apoiavam os seus discursos na eloquência humana, mas em qualquer coisa de novo e diferente que os fazia anunciar de modo apaixonado e desassombrado as maravilhas de Deus. É o Espírito Santo, o Paráclito que o Mestre prometera e que agora desce sobre eles para os enviar em missão. Cheios do Espírito Santo, o medo deu lugar à coragem e o silêncio e o recolhimento deram lugar à proclamação da Palavra na praça pública.

A primeira leitura situa estes acontecimentos no dia de Pentecostes, isto é, cinquenta dias após a Páscoa. Por seu lado, a narrativa evangélica situa a descida do Espírito Santo «na tarde daquele dia, o primeiro da semana», isto é, no dia de Páscoa. Na verdade, a aparente contradição na descrição temporal destes acontecimentos permite-nos unir a Páscoa e o Pentecostes, recordando que o Espírito Santo é dom de Jesus Ressuscitado à Sua Igreja para que iluminados e guiados pelo Seu Espírito possam continuar no tempo e na história a Sua obra redentora.

«Recebei o Espírito Santo». O Espírito Santo é dom gratuito do amor de Deus que nos faz participar na Sua obra de amor. Deste modo, o Espírito Santo é um dom a invocar e a agradecer. Mas juntamente com o Seu Espírito, o Ressuscitado concede também a Sua paz e envia os discípulos em missão para que sejam anunciadores da Boa Nova da Paz e da reconciliação. Jesus une à missão que o Pai lhe confiou a missão de cada um de nós: «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós».

Somos enviados tal como o Pai enviou o Seu Filho muito amado e unimo-nos assim à missão de Jesus para que o rosto de misericórdia e perdão do Pai continue a brilhar no mundo. Jesus envia os discípulos mostrando-lhes as mãos e o lado e confiando-lhes a missão de perdoar os pecados. Perdoar é dar através das feridas recebidas, é fazer do mal sofrido uma oportunidade para o amor e a reconciliação, é criar paz com uma superabundância de amor que vence o ódio e a violência sofridos.

Unido ao Espírito Santo, o perdão é um acontecimento muito mais escatológico do que ético, porque nos faz participar no aqui e agora do tempo e da história da comunhão e da paz que se viverá em plenitude no céu. Vinde Espírito Santo! Vinde e rasgai horizontes de esperançam e tornai-nos anunciadores da nova civilização do amor para que o mundo possa ser esse lugar que Deus sonhou para nós. in Voz Portucalense

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O diretório litúrgico recorda que o Domingo de Pentecostes é «Dia do Apostolado Organizado dos Leigos e do contributo para o mesmo Apostolado (por decisão da Conferência Episcopal)». O Espírito Santo dom de Jesus Ressuscitado à Sua Igreja constitui cada batizado como um verdadeiro discípulo missionário e protagonista responsável para a construção do Reino de Deus no Mundo. Apesar desta indicação aparecer discretamente no diretório, este dia pode ser uma oportunidade para recordar a importante tarefa de cada fiel leigo na missão da Igreja e o desafio para repensar a pastoral das nossas comunidades, não apenas numa perspetiva sacramental e como garantia de serviços onde os leigos são apenas destinatários passivos da missão dos pastores, mas como uma comunidade corresponsável onde todos partilham a tarefa e a missão de anunciar Jesus Cristo. in Voz Portucalense

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Estamos em Tempo Pascal. Chegamos ao Domingo de Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Actos 2,1-11

«Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas».

Ambiente

Já vimos, no comentário aos textos dos domingos anteriores, que o livro dos “Actos” não pretende ser uma reportagem jornalística de acontecimentos históricos, mas sim ajudar os cristãos – desiludidos porque o “Reino” não chega – a redescobrir o seu papel e a tomar consciência do compromisso que assumiram, no dia do seu batismo

No que diz respeito ao texto que nos é proposto e que descreve os acontecimentos do dia do Pentecostes, não existem dúvidas de que é uma construção artificial, criada por Lucas com uma clara intenção teológica. Para apresentar a sua catequese, Lucas recorre às imagens, aos símbolos, à linguagem poética das metáforas. Resta-nos descodificar os símbolos para chegarmos à interpelação essencial que a catequese primitiva, pela palavra de Lucas, nos deixa. Uma interpretação literal deste relato seria, portanto, uma boa forma de passarmos ao lado do essencial da mensagem; far-nos-ia reparar na roupagem exterior, no folclore, e ignorar o fundamental. Ora, o interesse fundamental do autor é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, que é assistida pelo Espírito e que é chamada a testemunhar aos homens o projeto libertador do Pai.in Dehonianos.

 

Para a reflexão, considerar as seguintes indicações:

Temos, neste texto, os elementos essenciais que definem a Igreja: uma comunidade de irmãos reunidos por causa de Jesus, animada pelo Espírito do Senhor ressuscitado e que testemunha na história o projeto libertador de Jesus. Desse testemunho resulta a comunidade universal da salvação, que vive no amor e na partilha, apesar das diferenças culturais e étnicas. A Igreja de que fazemos parte é uma comunidade de irmãos que se amam, apesar das diferenças? Está reunida por causa de Jesus e à volta de Jesus? Tem consciência de que o Espírito está presente e que a anima? Testemunha, de forma efetiva e coerente, a proposta libertadora que Jesus deixou?

Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja… Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à ação do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?

Para se tornar cristão, ninguém deve ser espoliado da própria cultura: nem os africanos, nem os europeus, nem os sul-americanos, nem os negros, nem os brancos; mas todos são convidados, com as suas diferenças, a acolher esse projeto libertador de Deus, que faz os homens deixarem de viver de costas voltadas, para viverem no amor. A Igreja de que fazemos parte é esse espaço de liberdade e de fraternidade? Nela todos encontram lugar e são acolhidos com amor e com respeito – mesmo os de outras raças, mesmo aqueles de quem não gostamos, mesmo aqueles que não fazem parte do nosso círculo, mesmo aqueles que a sociedade marginaliza e afasta? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 103 (104)

Refrão: Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra.

LEITURA II – 1 Cor 12,3b-7.12-13

«Na verdade, todos nós fomos batizados num só Espírito, para constituirmos um só Corpo».

Ambiente

A comunidade cristã de Corinto era viva e fervorosa, mas não era uma comunidade exemplar no que diz respeito à vivência do amor e da fraternidade: os partidos, as divisões, as contendas e rivalidades perturbavam a comunhão e constituíam um contratestemunho. As questões à volta dos “carismas” (dons especiais concedidos pelo Espírito a determinadas pessoas ou grupos para proveito de todos) faziam-se sentir com especial acuidade: os detentores desses dons carismáticos consideravam-se os “escolhidos” de Deus, apresentavam-se como “iluminados” e assumiam com frequência atitudes de autoritarismo e de prepotência que não favorecia a fraternidade e a liberdade; por outro lado, os que não tinham sido dotados destes dons eram desprezados e desclassificados, considerados quase como “cristãos de segunda”, sem vez nem voz na comunidade.
Paulo não pode ignorar esta situação. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele corrige, admoesta, dá conselhos, mostra a incoerência destes comportamentos, incompatíveis com o Evangelho. No texto que nos é proposto, Paulo aborda a questão dos “carismas”. in Dehonianos.

Para refletir e atualizar a Palavra, considerar os seguintes elementos:

Temos todos consciência de que somos membros de um único “corpo” – o corpo de Cristo – e é o mesmo Espírito que nos alimenta, embora desempenhemos funções diversas (não mais dignas ou mais importantes, mas diversas). No entanto, encontramos, com alguma frequência, cristãos com uma consciência viva da sua superioridade e da sua situação “à parte” na comunidade (seja em razão da função que desempenham, seja em razão das suas “qualidades” humanas), que gostam de mandar e de fazer-se notar. Às vezes, vêem-se atitudes de prepotência e de autoritarismo por parte daqueles que se consideram depositários de dons especiais; às vezes, a Igreja continua a dar a impressão – mesmo após o Vaticano II – de ser uma pirâmide no topo da qual há uma elite que preside e toma as decisões e em cuja base está o rebanho silencioso, cuja função é obedecer. Isto faz algum sentido, à luz da doutrina que Paulo expõe?

Os “dons” que recebemos não podem gerar conflitos e divisões, mas devem servir para o bem comum e para reforçar a vivência comunitária. As nossas comunidades são espaços de partilha fraterna, ou são campos de batalha onde se digladiam interesses próprios, atitudes egoístas, tentativas de afirmação pessoal?

É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 20,19-23

«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus».

«A paz esteja convosco».

«Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

Ambiente

Este texto (lido já no segundo domingo da Páscoa) situa-nos no cenáculo, no próprio dia da ressurreição. Apresenta-nos a comunidade da nova aliança, nascida da ação criadora e vivificadora do Messias. No entanto, esta comunidade ainda não se encontrou com Cristo ressuscitado e ainda não tomou consciência das implicações da ressurreição. É uma comunidade fechada, insegura, com medo… Necessita de fazer a experiência do Espírito; só depois, estará preparada para assumir a sua missão no mundo e dar testemunho do projeto libertador de Jesus.
Nos “Atos”, Lucas narra a descida do Espírito sobre os discípulos no dia do Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa (sem dúvida por razões teológicas e para fazer coincidir a descida do Espírito com a festa judaica do Pentecostes, a festa do dom da Lei e da constituição do Povo de Deus); mas João situa no anoitecer do dia de Páscoa a receção do Espírito pelos discípulos. in Dehonianos.

Para a reflexão, considerar as seguintes coordenadas:

A comunidade cristã só existe de forma consistente, se está centrada em Jesus. Jesus é a sua identidade e a sua razão de ser. É n’Ele que superamos os nossos medos, as nossas incertezas, as nossas limitações, para partirmos à aventura de testemunhar a vida nova do Homem Novo. As nossas comunidades são, antes de mais, comunidades que se organizam e estruturam à volta de Jesus? Jesus é o nosso modelo de referência? É com Ele que nos identificamos, ou é num qualquer ídolo de pés de barro que procuramos a nossa identidade? Se Ele é o centro, a referência fundamental, têm algum sentido as discussões acerca de coisas não essenciais, que às vezes dividem os crentes?

Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos “sinais” que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os “sinais” do amor de Jesus?

As comunidades construídas à volta de Jesus são animadas pelo Espírito. O Espírito é esse sopro de vida que transforma o barro inerte numa imagem de Deus, que transforma o egoísmo em amor partilhado, que transforma o orgulho em serviço simples e humilde… É Ele que nos faz vencer os medos, superar as cobardias e fracassos, derrotar o ceticismo e a desilusão, reencontrar a orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor, sonhar com um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas comunidades e estar atentos aos seus apelos, às suas indicações, aos seus questionamentos.in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura apresenta uma dinâmica narrativa preenchida de movimentos, símbolos e imagens. A proclamação desta leitura requer uma cuidada preparação para que toda a força narrativa possa ser aproveitada. Além disso, pede-se especial cuidado na proclamação da lista de proveniências das pessoas presentes em Jerusalém. Algumas dessas palavras, além de desconhecidas, são de difícil pronunciação.

Na segunda leitura, pede-se especial cuidado aos leitores na proclamação das frases com a expressão «há diversidade». Não só a repetição da expressão, mas também o contraponto com a expressão «o mesmo» requerem uma especial atenção para uma mais eficaz proclamação da leitura.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O ESPÍRITO SANTO E(M) NÓS

O Evangelho da Solenidade deste Dia Grande de Pentecostes (João 20,19-23) mostra-nos os discípulos de Jesus fechados num certo lugar, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, nem as portas fechadas daquele lugar fechado, Vem e fica de pé no MEIO deles, o lugar da Presidência, e por duas vezes os saúda: «A paz convosco!». Mostra-lhes, não o rosto, mas as mãos e o lado, bilhete de identidade de Jesus, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, Vida dada por amor, para sempre e para todos, e vincula os seus discípulos à sua missão de dar a vida por amor: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô: tempo presente)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua. Não terminou nem termina. Ele continua em missão. A nossa missão está no presente. O presente da nossa missão aparece, portanto, vinculado e agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). «Como o Pai me enviou, também Eu vos mando ir». Este como define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus. É-nos dito ainda que os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo foi dissipado) ao verem (idóntes: part. aorde horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo (João 20,8), também eles veem com um olhar histórico e a renovar todos os dias (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão, Jubileu Divino do Espírito. Este sopro, este vento, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

O texto luminoso do Livro dos Atos dos Apóstolos 2,1-11, que enche o dia de hoje, merece ser estendido diante de nós e por nós bem entendido. Ei-lo:

«Ao ser completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. E veio de improviso, do céu, um ruído como de uma ventania impetuosa, que encheu toda a CASA onde estavam sentados. Fizeram-se ver a eles línguas como de fogo, que se dividiram, e sentou-se uma sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, como o Espírito dava a eles de se exprimir.

Estavam então em JERUSALÉM judeus residentes, homens piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. Tendo vindo, então, este som, convergiu a multidão e ficou perplexa, porque ouviam, cada um na própria língua, aqueles que falavam. Estavam fora de si e maravilhavam-se, dizendo: “Não são galileus todos estes que estão a falar? E como é, então, que nós ouvimos, cada um na nossa própria língua em que nascemos? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia vizinhas de Cirene, romanos residentes, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar nas nossas línguas as maravilhas de Deus!”».

É fácil de ver que o texto se articula em duas vagas sucessivas: a primeira agrupa os v. 1-4, e a segunda os v. 5-11. Um único lugar no tempo, um único dia, o 50.º da Páscoa, marca as duas vagas, mas são dois os lugares no espaço que ocupam: a CASA, a sala alta do Cenáculo (v. 1-4), e a CIDADE aberta ao mundo (v. 5-12), que empresta à cena uma ressonância mundial. As duas vagas estão marcadas, logo a abrir (v. 2 e 6), pelo verbo grego gínomai, que é o verbo típico de um acontecimento que não podemos deduzir nem produzir, mas apenas constatar e descrever. Exatamente o contrário de uma doutrina, que se situa na esfera da demonstração e dedução. Qual é o acontecimento? O vento forte e o fogo que, vindos do céu, caem de improviso sobre todos os que estão sentados na casa, irrompendo depois para as praças e ruas da cidade.

Lá estamos nós, como se vê e era hábito, todos reunidos no Cenáculo. Mas somos logo varridos e recriados pelo vento impetuoso e incontrolável do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se (kathízô) – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Senta-se sobre nós, mas entra para dentro, e guia a nossa vida desde dentro. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, que não é o português ou o francês ou o inglês ou o chinês, mas aquele perfeito entendimento que existe entre nós e a nossa mãe, quando somos bebés, do tempo da palavra antes das palavras, divina e humana lalação, que passa por sons e intuições, que não precisam de gramática nem sintaxe nem dicionário. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência de um intérprete entre a mãe e o seu bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem!

É esta divina lalação (alálêtos) (Romanos 8,26) – única vez no Novo Testamento –, do Espírito que nos ensina a compreender que «Jesus é Senhor» (1 Coríntios 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gálatas 4,6; Romanos 8,15). Anote-se também a importante afirmação de que «a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum» (1 Coríntios 12,7) e «não para proveito próprio» (1 Coríntios 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1 Coríntios 10,23-24).

A tradição situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas. É a sala da Ceia Primeira (Lucas 22,12), do último serão de Jesus com os seus discípulos, da Aparição do Senhor aos seus Apóstolos (Lucas 24,36), da eleição de Matias (Atos 1,26), da descida do Espírito Santo no Pentecostes, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria (Atos 1,13-14), a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [«casa-igreja»] do mundo, situada uns duzentos metros a sul da muralha de Jerusalém, em local muito próximo da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Padres Franciscanos no século XIV, e sucedeu a outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Sintomaticamente, por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana da guerra de 70, pois os romanos atacaram e destruíram a cidade a partir da parte norte, mais facilmente expugnável.

Associada às cenas acima identificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30 metros por 9,40 metros] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos então lá registados. Veja-se, a propósito, a bela descrição que deles faz Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.): «Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes». Mas também Babel é evocada em contraponto: em Génesis 11,7, «ninguém compreendia mais a língua do seu próximo», mas em Atos 2,6, «cada um compreendia na sua própria língua materna».

O Espírito Santo é também enviado em missão. E é Aquele que recebe o que é do Filho (João 16,14 e 15), e que o Filho recebeu do Pai. O Filho é a transparência do Pai. O Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (João 14,26), e processa-se, ao contrário do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição de um público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento interior do Espírito Santo é comparado à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: «Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)» (1 João 2,20); ou então: «a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas» (1 João 2,27). É a unção que lentamente penetra em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as nossas asperezas, cura as nossas dores e faz nascer entre nós comunidade e comunhão. Maravilhoso saber que nos assemelha a Deus, que sabe de nós (Êxodo 2,25), e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Génesis 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mateus 26,70.72.74).

Ensinamento novo. Não exterior, com sons e palavras, mas diretamente nas pregas da inteligência e do coração. É assim que a linguagem nova do Espírito afeta ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como quando, em vez de se porem a falar cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro! É assim que fala o Espírito, é assim que age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1 Coríntios 12,3-13).

O Salmo 104 põe-nos a contemplar hoje as obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Salmo 104,31), e a alegria de Deus é a nossa alegria (Salmo 104,34). De notar que a temática de Deus que se alegra é muito rara na Escritura. Aparece hoje no meio deste mundo novo e maravilhoso. Tema, portanto, para recuperar, pois é também a fonte da nossa alegria!

Nós somos do tempo da missão do Espírito. Note-se a fortíssima vinculação: «O Espírito Santo e nós» (Atos 15,28).

Deus habitando em nós (João 14,24). Deus connosco (Apocalipse 21). Cidade nova, Consolação nova, Bênção nova, Paz nova, não com a medida do mundo, mas de Deus (João 14,27; Salmo 67).

O medo não habita a nossa casa.
O medo transforma a nossa casa em fortaleza,
Tranca portas e janelas,
Esconde-se debaixo da mesa.

Mas vem Jesus e senta-nos à mesa.
Começa a contar histórias e estrelas,
Leva-nos até ao colo de Abraão,
Até à Criação,
Sopra sobre nós um vento novo,
Rasga uma estrada direitinha ao coração:
Chama-se Perdão, Espírito, Amor, Nova Criação.

Varrido para o canto da casa pelo vento,
Rapidamente todo o medo arde.
Ardem também bolsas, portas e paredes,
E surge um lume novo a arder dentro de nós,
Mas esse não nos queima nem o podemos apagar.

Estamos lá tantos à roda desse vento, desse fogo,
Com esse vento, com esse fogo dentro,
Portugueses, russos, gregos e chineses,
Começamos a falar e tão bem nos entendemos,
Que custa a crer que tenhamos passaportes diferentes.

E afinal não temos.
Vendo melhor, maternais mãos invisíveis nos embalam,
Nos sustentam.
Sentimos que estamos a nascer de novo,
Percebemos que somos irmãos,
Filhos renascidos deste vento, deste lume.
E não é verdade que falamos,
Mas que alguém dentro de nós fala por nós,
Chama por Deus,
Como um menino pelo Pai.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Pentecostes – Ano A – 28.05.2023 (Act 2, 1-11)
  2. Leitura II – Pentecostes – Ano A – 28.05.2023 (1 Cor 12, 3b-7.12-13)
  3. Domingo de Pentecostes – Ano A – 28.05.2023 – Lecionário
  4. Domingo de Pentecostes – Ano A – 28.05.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Ascensão do Senhor – Ano A – 21.05.2023

Viver a Palavra

O ser humano é por natureza curioso. Gosta de saber e conhecer o mundo e a realidade à sua volta. Esta ânsia de saber mais possui também muitas vezes o desejo de conhecer o futuro, de saber como se desenvolverão os acontecimentos do mundo e as suas vicissitudes, como será a nossa vida e até a vida dos outros. Alguns até procuram os caminhos do esoterismo para satisfazer essa necessidade de saber aquilo que está para vir. Em momentos difíceis e exigentes da história, pensamos como seria útil saber o que estava para vir e em algumas decisões difíceis de tomar, como seria bom saber um pouco mais do que nos espera. Contudo, respondendo àqueles que lhe perguntavam se estava prestes a restauração do Reino de Israel, Jesus adverte os Seus discípulos e neles dirige-se a cada um de nós: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade».

Deus Pai é Criador e Senhor de todas as coisas. Criou com amor e para a liberdade. Não é um programador do universo que o determinou com coordenadas precisas para que tudo decorra deterministicamente tal como Ele projetou. É o Deus da liberdade que tem um desígnio de amor: um projeto de realização e felicidade para o mundo e para cada homem e cada mulher. Mas um projeto que respeita a nossa liberdade e se constrói numa relação dialógica de um Deus que ama, chama e convoca para a missão e pacientemente espera a nossa resposta frágil e limitada. Por isso, somos colaboradores da construção da civilização do amor e protagonistas responsáveis da instauração do Reino de Deus no mundo. Não nos compete saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a Sua autoridade, mas acolher a Sua Palavra, seguir as Suas instruções, depositar Nele a nossa vida e as nossas esperanças e confiar que com Ele o caminho ganha um sentido absolutamente novo.

Desconhecer o futuro, aquilo que poderá acontecer no amanhã das nossas vidas, poderia ser angustiante pelo medo ou incerteza. Contudo, somos portadores da mais bela e boa notícia: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos». Jesus Ressuscitado, enviando os seus discípulos em missão, garante-lhes a Sua presença terna e amorosa. Diante das alegrias e conquistas, das dificuldades e vicissitudes que são próprias da existência humana e da missão que nos é confiada, levamos connosco a mais bela certeza: Ele está connosco, Ele caminha connosco, Ele precede-nos, acompanha-nos e aponta-nos o caminho. Prefiro desconhecer o futuro e a sucessão dos acontecimentos da história que estão para vir e poder contar com a presença amorosa do Pai, que em Jesus Cristo e na força do Espírito Santo se faz presente na minha vida.

Jesus sobe ao Céu, mas não nos abandona. Por isso, fazemos festa e celebramos a Ascensão do Senhor. Não é a festa da partida de Jesus, mas a celebração de uma presença absolutamente nova na força do Espírito Santo, que Ele tinha prometido aos seus discípulos. Se percorrendo os caminhos da Judeia e da Galileia Jesus se encontrou com tantos homens e mulheres e a todos anunciou o amor do Pai, agora, ressuscitado e na força do Espírito Santo sobe ao Céu e está connosco em qualquer tempo e lugar, renovando no nosso coração a certeza de que fomos sonhados e pensados para o Reino de Deus, para a vida nova e eterna que só Ele nos pode oferecer.

Mas a Sua obra de amor tem de continuar: «Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo». Jesus conta connosco para que o Reino de Deus se continue a fazer presente no mundo. Somos os braços que devem continuar a abraçar e a consolar, os lábios que devem continuar a anunciar a Boa Nova da paz e da esperança, as vidas que devem fazer ecoar no tempo e na história as maravilhas do amor de Deus. A Ascensão do Senhor não nos pode deixar imóveis e de olhar fito no Céu, mas envia-nos em missão e faz de nós discípulos missionários, suas «testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria, e até aos confins da terra». in Voz Portucalense

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De 14 a 21 de maio decorre a Semana da Vida, este ano com o tema: «Levanta-te! A tua vida é um dom». Os diversos recursos preparados pela Comissão Episcopal Laicado e Família através do Departamento Nacional da Pastoral Familiar estão disponíveis na internet (https://dnpf.pt/semana-da-vida/). São propostos diferentes recursos – meditações para o terço, esquema para a adoração eucarística, jogos e dinâmicas em família, cartazes diários – que podem servir como ponto de partida e inspiração para a dinamização comunitária desta semana. No atual contexto social e cultural é urgente e necessário ser testemunhas de uma cultura da vida que valoriza e defende a dignidade da vida humana desde a sua conceção até à sua morte natural

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No dia 21 de maio, Domingo da Ascensão do Senhor, a Igreja celebra o 57.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Para este ano, o Papa Francisco escreveu uma mensagem intitulada: «Falar com o coração. “Testemunhando a verdade no amor” (Ef 4, 15)». A comunicação é inerente ao homem, enquanto ser em relação, contudo, alguns dedicam a sua vida ao serviço da comunicação e devem ser promotores de uma cultura de diálogo e de verdade. Que este Domingo das comunicações sociais seja uma oportunidade para valorizar o trabalho daqueles que se dedicam à comunicação dentro e fora da Igreja e, sobretudo, ao serviço do mundo na Igreja. Fica, em anexo, a mensagem do Papa Francisco para este 57º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Vale a pena ser lida.

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Actos 1,1-11

«Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria, e até aos confins da terra».

 

Ambiente

O livro dos “Atos dos Apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem num certo contexto de crise. Estamos na década de 80, cerca de cinquenta anos após a morte de Jesus. Passou já a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o “Reino” e há uma certa desilusão. As questões doutrinais trazem alguma confusão; a monotonia favorece uma vida cristã pouco comprometida e as comunidades instalam-se na mediocridade; falta o entusiasmo e o empenho… O quadro geral é o de um certo sentimento de frustração, porque o mundo continua igual e a esperada intervenção vitoriosa de Deus continua adiada. Quando vai concretizar-se, de forma plena e inequívoca, o projeto salvador de Deus?

É neste ambiente que podemos inserir o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura. Nele, o catequista Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação que Jesus veio apresentar passou (após a ida de Jesus para junto do Pai) para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do “Reino” é uma tarefa que não está terminada, mas que é preciso concretizar na história e exige o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são convidados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu. in Dehonianos.

 

Ter em conta, para a reflexão e atualização, os seguintes elementos:

A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos, antes de mais, que uma vida, vivida na fidelidade aos projetos do Pai, é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.

A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projeto libertador no meio dos homens nossos irmãos. É essa a atitude que tem marcado a caminhada histórica da Igreja? Ela tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou?

O nosso testemunho tem transformado e libertado a realidade que nos rodeia? Qual o real impacto desse testemunho na nossa família, no local onde desenvolvemos a nossa atividade profissional, na nossa comunidade cristã ou religiosa?

É relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 46 (47)

Refrão: Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta

LEITURA II – Ef 1,17-23

«Colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania».

 

Ambiente

A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.

Alguns veem nesta Carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que a missão do apóstolo está praticamente terminada no oriente.

Em concreto, o texto que nos é proposto aparece na primeira parte da Carta e faz parte de uma ação de graças, na qual Paulo agradece a Deus pela fé dos Efésios e pela caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé. in Dehonianos.

Ter em conta, na reflexão, as seguintes linhas:

Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição/ascensão/glorificação de Jesus é a garantia da nossa própria ressurreição/ glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta perspetiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu.

Dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo “corpo”, alimentados pela mesma vida. Estas duas coordenadas estão presentes na nossa existência?

Dizer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo significa que temos a obrigação de testemunhar Cristo, de torná-l’O presente no mundo, de levar à plenitude a projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Essa tarefa só estará acabada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”.in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 28,16-20

«Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram.».

«Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos»».

 

Ambiente

O texto situa-nos na Galileia, após a ressurreição de Jesus (embora não se diga se é muito ou pouco tempo após a descoberta do túmulo vazio – cf. Mt 28,1-15). De acordo com Mateus, Jesus – pouco antes de ser preso – havia marcado encontro com os discípulos na Galileia (cf. Mt 26,32); na manhã da Páscoa, os anjos que apareceram às mulheres no sepulcro (cf. Mt 28,7) e o próprio Jesus, vivo e ressuscitado (cf. Mt 28,10), renovam o convite para que os discípulos se dirijam à Galileia, a fim de lá encontrar o Senhor.

A Galileia – região setentrional da Palestina – era uma região próspera e bem povoada, de solo fértil e bem cultivado. A sua situação geográfica fazia desta região o ponto de encontro de muitos povos; por isso, um número importante de pagãos fazia parte da sua população. A coabitação de populações pagãs e judias fazia, certamente, com que os judeus da Galileia vivessem a religião de uma maneira diferente dos judeus de Jerusalém e da Judeia: a presença diária dos pagãos conduzia, provavelmente, os galileus a suavizar a sua prática da Lei e a interpretar mais amplamente as regras que se referiam, por exemplo, às impurezas rituais contraídas pelo contacto com os não judeus. No entanto, isto fazia com que os judeus de Jerusalém desprezassem os judeus da Galileia e considerassem que da Galileia “não podia sair nada de bom”.

No entanto, foi na Galileia que Jesus viveu quase toda a sua vida. Foi, também, na Galileia que Ele começou a anunciar o Evangelho do “Reino” e que começou a reunir à sua volta um grupo de discípulos (cf. Mt 4,12-22). Para Mateus, esse facto sugere que o anúncio libertador de Jesus tem uma dimensão universal: destina-se a judeus e pagãos.

Mateus situa este encontro final entre Jesus ressuscitado e os discípulos num “monte que Jesus lhes indicara”. Trata-se, no entanto, de uma montanha da Galileia que é impossível identificar geograficamente, mas que talvez Mateus ligue com a montanha da tentação (cf. Mt 4,8) e com a montanha da transfiguração (cf. Mt 17,1). De qualquer forma, o “monte” é sempre, no Antigo Testamento, o lugar onde Deus se revela aos homens.in Dehonianos.

Na reflexão, considerar os seguintes elementos:

Jesus foi ao encontro do Pai, depois de uma vida gasta ao serviço do “Reino”; deixou aos seus discípulos a missão de anunciar o “Reino” e de torná-lo uma proposta capaz de renovar e de transformar o mundo. Celebrar a ascensão de Jesus significa, antes de mais, tomar consciência da missão que foi confiada aos discípulos e sentir-se responsável pela presença do “Reino” na vida dos homens. Estou consciente de que a Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus, a que eu também pertenço – é, hoje, a presença libertadora e salvadora de Jesus no meio dos homens? Como é que eu procuro testemunhar o “Reino” na minha vida de todos os dias – em casa, no trabalho ou na escola, na paróquia, na comunidade religiosa?

A missão que Jesus confiou aos discípulos é uma missão universal: as fronteiras, as raças, a diversidade de culturas, não podem ser obstáculos para a presença da proposta libertadora de Jesus no mundo. Tenho consciência de que a missão confiada aos discípulos é uma missão universal? Tenho consciência de que Jesus me envia a todos os homens – sem distinção de raças, de etnias, de diferenças religiosas, sociais ou económicas – a anunciar-lhes a libertação, a salvação, a vida definitiva? Tenho consciência de que sou responsável pela vida, pela felicidade e pela liberdade de todos os meus irmãos – mesmo que eles habitem no outro lado do mundo?

Tornar-se discípulo é, em primeiro lugar, aprender os ensinamentos de Jesus – a partir das suas palavras, dos seus gestos, da sua vida oferecida por amor. É claro que o mundo do século XXI apresenta, todos os dias, desafios novos; mas os discípulos, formados na escola de Jesus, são convidados a ler os desafios que hoje o mundo coloca, à luz dos ensinamentos de Jesus. Preocupo-me em conhecer bem os ensinamentos de Jesus e em aplicá-los à vida de todos os dias?

No dia em que fui batizado, comprometi-me com Jesus e vinculei-me com a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A minha vida tem sido coerente com esse compromisso?

É um tremendo desafio testemunhar, hoje, no mundo os valores do “Reino” (esses valores que, muitas vezes, estão em contradição com aquilo que o mundo defende e que o mundo considera serem as prioridades da vida). Com frequência, os discípulos de Jesus são objeto da irrisão e do escárnio dos homens, porque insistem em testemunhar que a felicidade está no amor e no dom da vida; com frequência, os discípulos de Jesus são apresentados como vítimas de uma máquina de escravidão, que produz escravos, alienados, vítimas do obscurantismo, porque insistem em testemunhar que a vida plena está no perdão, no serviço, na entrega da vida. O confronto com o mundo gera muitas vezes, nos discípulos, desilusão, sofrimento, frustração… Nos momentos de deceção e de desilusão convém, no entanto, recordar as palavras de Jesus: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”. Esta certeza deve alimentar a coragem com que testemunhamos aquilo em que acreditamos. in Dehonianos

Para os leitores:

            Na primeira leitura, além das frases longas com diversas orações deve ter-se um especial cuidado na proclamação das frases em discurso direto que se encontram entre aspas. Estas frases para que sejam bem lidas devem ser bem preparadas com as respetivas pausas e respirações e sobretudo numa especial atenção às frases interrogativas.

A segunda leitura, tal como a primeira, possui longas frases com diversas orações que requerem uma acurada preparação para uma clara e articulada proclamação do texto.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

UM OLHAR CHEIO DE JESUS FAZ VER JESUS, FAZ VIR JESUS

Mateus 28,16-20: última página do Evangelho de Mateus, que hoje, Solenidade da Ascensão do Senhor, é solenemente proclamada para nós. Encerra o Evangelho, condensa-o e resume-o, e abre aos Discípulos e Irmãos do Ressuscitado novos e insuspeitados horizontes. Visitemos atentamente o texto:

«Então os Onze Discípulos partiram para a Galileia, para o monte que lhes tinha ordenado Jesus. E vendo-o, adoraram-no (proskynéô); alguns deles, porém, duvidaram. E aproximando-se, Jesus falou-lhes (laléô), dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade (exousía) no céu e na terra. 19Indo, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei. E eis que Eu convosco Sou todos os dias até ao fim do mundo”».

Algumas notas surpreendentes enchem a página, o pátio, o átrio sempre entreaberto do Evangelho para o mundo: 1) a autoridade soberana e nova de Jesus, assente, não na distância, mas na proximidade e familiaridade; 2) a missão universal confiada a uma Igreja discipular, toda reunida à volta de um único Mestre e Senhor; 3) só nesta página é dito que os Discípulos devem, por sua vez, ensinar, não se tornando, todavia, Mestres, mas permanecendo Discípulos; 4) não ensinam, por isso, nada de próprio nem por conta própria, mas apenas «tudo o que Ele ordenou», como Jesus, o Filho, que só diz o que ouviu dizer (João 7,16-17; 8,26.38.40; 14,24; 17,8) e só faz o que viu fazer (João 5,19; 17,4), e como o Espírito Santo, que não falará de si mesmo, mas apenas o que tiver ouvido (João 16,13); 5) a Presença nova e permanente [= «todos os dias»] do Ressuscitado na comunidade discipular; 6) este é o tempo novo e cheio, plenificado, a transbordar de plenitude e universalidade: daí a repetição por quatro vezes do adjetivo todo (pãs): foi-me dada toda a autoridade, fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a observar todas as coisas, convosco sou todos os dias.

A soberania nova, próxima e familiar, é já preparada pela cena anterior em que o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia, dizendo-lhes: «Indo depressa, dizei aos seus discípulos que Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia» (Mateus 28,7). De forma grandemente significativa, o próprio Jesus surpreende as mulheres no caminho, e reformula assim o dizer do anjo: «Ide e anunciai aos meus irmãos que partam para a Galileia, e lá me verão» (Mateus 28,10). Aí está a nascer a nova e indestrutível familiaridade: meus irmãos, diz Jesus, o Ressuscitado, apontando para nós e envolvendo-nos num imenso abraço fraternal. E chegados à Galileia, de acordo com o dizer de Jesus, e ao monte indicado por Jesus (Mateus 28,16), é ainda Jesus que toma a dianteira e se aproxima deles e de nós (Mateus 28,18). É sempre d’Ele a iniciativa. O monte lembra e reúne em analepse todos os montes que atravessam o Evangelho de Mateus: o monte da tentação (Mateus 4,8), o das bem-aventuranças (Mateus 5,1), o da oração (Mateus 14,23), o das curas (Mateus 15,29-31) e o da Transfiguração (Mateus 17,1), em que é sempre Ele que abraça e abre caminhos novos à nossa frágil humanidade.

Aquele «Indo, fazei discípulos (mathêteúsate) de todas as nações» (Mateus 28,19) é a missão sem fim que é colocada diante dos nossos olhos, pois todas as nações são todos os corações. E «Indo» é não ficar aqui ou ali à espera. Implica mudança de lugar e de modo: não ficar aqui ou ali e não ficar assim, preparando já as palavras inteiras de S. João Paulo II na preparação do Grande Jubileu do ano 2000, e que Bento XVI evocou em 2005: «Paróquia, procura-te a ti mesma e encontra-te a ti mesma fora de ti mesma». É a estrada sem medida de Abraão que se abre à nossa frente. E se medida tem é a medida sem medida da eleição, da bênção e da missão. Mas não estamos sozinhos nessa estrada. Ele está connosco todos os dias. Aquele «Indo» (poreuthéntes), particípio aoristo, implica, pois, a nossa participação diária n’Ele e na missão d’Ele. O seu nome, a sua identidade, é estar connosco. É assim a terminar o Evangelho: «Eu convosco Sou todos os dias até ao fim dos tempos» (Mateus 28,20). Note-se a intensidade e a beleza da sanduíche: «Eu [convosco] Sou» (Egô [meth’ hymôn] eimi). É assim também a abrir o Evangelho: «Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-lo-ão (kalésousin) Emanuel, que se traduz: “connosco Deus”» (Mateus 1,23). Connosco a abrir. Connosco a fechar. Então é assim todo o Evangelho, como indica a figura da inclusão literária. Mas a inclusão literária em paralelismo ou em confronto vai ainda da Galileia para onde se dirige Jesus (Mateus 4,12-17) à Galileia para onde se dirigem os Discípulos (Mateus 28,16), da visão do Menino pelos Magos (Mateus 2,11) à visão do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), da adoração do Menino pelos Magos (Mateus 2,2 e 11) à adoração do Ressuscitado pelos Discípulos (Mateus 28,17), do (algum) poder deste mundo prometido pelo diabo a Jesus (Mateus 4,9) ao (todo) o poder sobre o céu e a terra dado por Deus ao Ressuscitado (Mateus 28,18). Sim, o Senhor sempre no meio de nós, Deus sempre connosco. Não apenas com alguns. Mas com todos. Note-se como o narrador, que está a citar Isaías 7,14, atualizou para o plural a forma verbal: de chamá-lo-ás (kaléseis) para chamá-lo-ão (kalésousin).

E aquele «ensinando» (didáskontes) discipular, e não magistral, apela mais à nossa fidelidade do que à nossa autoridade, iniciativa e capacidade. De resto, para evitar dúvidas e deixar tudo claro, lá está bem expresso o conteúdo deste ensinamento novo: «tudo o que Eu vos ordenei» (Mateus 28,20). É só permanecendo Discípulos fiéis que se pode ensinar. Discípulo define o estilo de vida de quem segue com fidelidade o Senhor que nos preside e nos precede sempre (Mateus 28,7). Portanto, «Vós, não vos façais chamar por Rabbî [literalmente «meu maior»], pois um só é o vosso Mestre (didáskalos), e vós sois todos irmãos» (Mateus 23,8). Irmãos e pequeninos. Tornemo-nos, pois, imitadores de Paulo, por sua vez imitador de Cristo (1 Coríntios 11,1): «Tornámo-nos crianças (nêpioi) no meio de vós, como uma mãe (trophós) que acalenta (thálpê) os próprios filhos (heautês tékna) (1 Tessalonicenses 2,7); «fiz-me escravo de todos», «fiz-me tudo para todos»; «tudo faço por causa do Evangelho» (1 Coríntios 9,19.22.23). Disse bem S. João Paulo II: «Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-l’O para si; tem de O anunciar» (Novo Millennio Ineunte, 2001, n.º 40).

É esta imensa, impenetrável notícia que os Discípulos de Jesus devem saber levar e semear de mansinho no subtilíssimo segredo de cada humano coração. Jesus Cristo, o Ressuscitado, vem visitar os seus Irmãos. Não. Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.

O Livro dos Atos dos Apóstolos 1,1-11 retoma esta lição. «E estas coisas tendo dito, vendo (blépô) eles, ELE foi Elevado (epêrthê), e uma nuvem O subtraiu (hypolambánodos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E como tinham o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde ELE ia, eis (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e DISSERAM: “Homens Galileus, por que estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu”» (Atos 1,9-11).

Tanto VER. Da panóplia de verbos registados (blépôatenízôhoráôemblépôtheáomai), os mais fortes e intensos são, com certeza, atenízô [= «olhar fixamente»] e emblépô [= «perscrutar», «ver dentro»]. Ambos exprimem a observação profunda e prolongada, para além das aparências: VER o invisível (cf. Hebreus 11,27), VER o céu, VER a glória de Deus. Mas mais ainda do que o que se vê, estes verbos acentuam o modo como se vê. É para aí que apontam os dois homens vestidos de branco, de rompante surgidos na cena, para entregar um importante DIZER que interpreta e orienta tanto VER. Já os tínhamos encontrado no túmulo reorientando os olhos entristecidos das mulheres: «Por que () procurais entre os mortos Aquele que está Vivo? Não está aqui. Ressuscitou!» (Lucas 24,5-6). Dizem agora: «Por que () estais de pé, perscrutando (emblépontes) o céu? Este JESUS que foi arrebatado (analêmphtheís) diante de vós para o céu, assim VIRÁ (eleúsetai) do modo (trópos) que O vistes (etheásthe) IR para o céu» (Atos 1,11). Ao Arrebatamento de JESUS para o céu, os dois homens vestidos de branco agrafam a Vinda de JESUS. Importante colagem da Ascensão com a Vinda. E importante passo em frente para quem estava ali simplesmente especado. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Sim, Ver. Porque ELE Virá do mesmo modo que O Vistes IR. É, pois, importante guardar este Ver, viver este Ver, Ver com este Ver. Porque é Vendo assim que o SENHOR Virá. Vinda que não tem de ser relegada para uma Parusia distante e espetacular, mas que começa, hic et nunc, neste Olhar novo e significativo de quem Vê o SENHOR JESUS. Vinda que não é tanto um regresso, mas o desvelamento de uma presença permanente. Vinda já em curso, portanto, ainda que não plenamente realizada.

Guardemos este Olhar e prossigamos. Eis-nos no primeiro ACTO propriamente dito dos Atos dos Apóstolos depois do Pentecostes: a cura de um coxo de nascença descrita em Atos 3,1-10: «Então Pedro e João subiam ao Templo para a oração da hora nona [= 15h00]. E um certo homem, que era coxo (chôlós) desde o ventre da sua mãe, era trazido e posto todos os dias diante da Porta do Templo, dita a Bela, para pedir esmola àqueles que entravam no Templo. Vendo (idôn) Pedro e João, que estavam a entrar no Templo, pedia esmola para receber. Então, fixando o olhar (atenísas) nele, Pedro, com João, disse: “Olha para nós” (blépson eis hemâs). Então ele observava-os (epeîchen), esperando receber deles alguma coisa. Disse então Pedro: “Prata e ouro não tenho, mas o que tenho, isso te dou: no nome de JESUS CRISTO, o Nazareno, [levanta-te e] caminha. E, tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente se firmaram os seus pés e os calcanhares. Com um salto, pôs-se em pé, e caminhava, e entrou com eles no Templo caminhando e saltando e louvando a Deus. E todo o povo o viu (eîden) a caminhar e a louvar a Deus. E reconheciam que era aquele que, sentado, pedia esmola à Porta Bela do Templo, e ficaram cheios de admiração e de assombro por aquilo que lhe aconteceu» (Atos 3,1-10).

Outro impressionante condensado de olhares marca este primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos. Soam no texto cinco notas visuais, servidas por quatro verbos: horáôatenízôblépôepéchôAtenízô desenha o Olhar de Pedro e João fixado no coxo de nascença. Blépô retrata o Ver com que o coxo é mandado olhar o Olhar dos Apóstolos. Significativo agrafo: estes dois Olhares, com atenízô e blépô, só tinham sido usados antes, no Livro dos Atos dos Apóstolos, uma única vez, precisamente no relato da Ascensão (Atos 1,9-10). De resto, blépô conhecerá apenas mais quatro menções no Livro dos Atos dos Apóstolos: duas no relato da vocação de Paulo (Atos 9,8-9), a terceira no discurso de Paulo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos 13,41; cit. de Habacuc 1,5), e a quarta e última no decurso da viagem marítima de Paulo para Roma (Atos 27,12). Atenízô, por sua vez, far-se-á notar em lugares de relevo, sempre para expressar um Ver novo e significativo, um Ver sem haver: os membros do Sinédrio fixam os olhos (atenízô) em Estêvão, e veem-no semelhante a um anjo (Atos 6,15); Estêvão, por sua vez, fixa os olhos (atenízô) no céu, e vê a glória de Deus e JESUS, de pé, à direita de Deus (Atos 7,55); Cornélio fixa os olhos (atenízô) no anjo do Senhor, que o interpela (Atos 10,4); Pedro fixa os olhos (atenízô) na visão, vinda do céu, dos animais impuros (Atos 11,6); Paulo fixa os olhos (atenízô) no mago Elimas, de Chipre, para o fulminar pela sua falsidade e malícia (Atos 13,9), e o mesmo faz no Sinédrio, dando testemunho de JESUS (Atos 23,1).

É este Ver JESUS, Ver sem haver, sem poder, sem ouro nem prata (Atos 3,6), que se fixa sobre o coxo de nascença, mandado, por sua vez, olhar para este Olhar, Ver desta maneira. Como Abraão e Moisés, convidados a Ver para receber, e não para haver, a Terra Prometida: «a terra que Eu te farei Ver» (Génesis 12,1), «que YHWH lhe fez Ver» (Deuteronómio 34,1), «Eu a fiz Ver aos teus olhos» (Deuteronómio 34,4). O narrador anota mais à frente que o coxo de nascença, agora curado, tinha mais de 40 anos (Atos 4,22), tipologia do povo perdido no deserto antes de entrar na Terra Prometida. Como o homem doente havia 38 anos, que Jesus encontra junto da piscina de Bezetha, e que será curado (João 5,1-9).

É sintomático que o Ver da Ascensão e da Vinda do SENHOR JESUS seja o Ver que preenche por inteiro o primeiro ATO dos Atos dos Apóstolos, com realce para Pedro. Mas é ainda grandemente sintomático que o primeiro ATO de Paulo, descrito em Atos 14,8-10, que é também o primeiro passo da missão perante o paganismo popular, em Listra, quase copie o primeiro ATO dos Apóstolos e de Pedro, certamente com o intuito de pôr em paralelo os dois grandes Apóstolos e os dois tempos da missão. Eis o texto referido de Atos 14,8-10: «E em Listra um homem estava sentado, sem força nos pés, coxo desde o ventre da sua mãe, e que nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, o qual, tendo fixado os olhos (atenísas) nele, e tendo visto que tinha fé para ser salvo, diz com voz forte: “Levanta-te direito sobre os teus pés!” E ele deu um salto e caminhava» (Atos 14,8-10). Aqui temos o mesmo coxo de nascença, o mesmo Olhar significativo e diaconal, sem poder, sem ouro nem prata, Ver JESUS, o mesmo levantamento do coxo. E também aqui, na sequência do texto, temos o aceno à multidão que disperdia o olhar, vendo em Paulo e Barnabé deuses em forma humana, e a mesma correção, feita por Paulo, apontando JESUS (Atos 14,11-18).

Importante agrafo da Ascensão com a Vinda do Senhor. Tanto Ver. Não é mais possível Ver a Ascensão sem Ver a Vinda. Guardemos este Olhar cheio de Jesus e olhemos agora para esta terra árida e cinzenta, para tantos corações tristes e perdidos. Nascerá um mundo muito mais belo, novos corações pulsarão nas pessoas. Os olhos do coração iluminados, como diz o Apóstolo à comunidade mãe da Ásia Menor, Éfeso (Efésios 1,18). Um Olhar cheio de Jesus faz Ver Jesus, faz Vir Jesus!

Ponhamos tudo isto em imagem, como convém neste Domingo em que a Igreja celebra o Dia das Comunicações Sociais, instituição que tem as suas raízes diretamente no Concílio Vaticano II (Decreto Inter Mirifica, n.º 18), e que foi celebrado pela primeira vez, com mensagem de Paulo VI, em 7 de maio de 1967. Eis então diante de nós, no cume do Monte das Oliveiras, um pequeno Templo, arredondado, chamado Imbomon [= «sobre o cume»], grecização do hebraico bamah [= «lugar alto»], a 818 metros de altitude, um pouco acima da Ecclesia in Eleona [= «no Olival»], que remonta a Santa Helena, hoje Pater Noster, e a curta distância de Jerusalém, a distância do caminho de um sábado (Atos 1,12), que é de 1892 metros. As construções cristãs do Imbomon remontam ao longínquo ano de 376, com reconstrução dos Cruzados em 1152, ocupadas depois, em 1187, pelos muçulmanos. A construção dos Cruzados, que respeitava a primitiva construção, tinha no centro um tambor encimado por uma cúpula aberta no centro, justamente para servir de suporte à imagem da Ascensão patente em Atos 1,9-11. Em 1200, os muçulmanos fecharam esse ponto de luz com uma cúpula de estilo árabe, escondendo assim a visão de Atos 1,11: «Porque estais aí a olhar para o céu?».

O texto de hoje da Carta aos Efésios 1,17-23 completa maravilhosamente as passagens da Escritura que já vimos. Depois do grande hino (v. 3-14), em que se bendiz o Pai, mediante o Filho, no Espírito Santo a nós dado, cantamos agora, guiados sempre por São Paulo, o primado da Humanidade do Senhor, obra admirável do Pai, para proveito nosso. E começamos com a epiclese ao Pai para que nos dê o dom do Espírito, que é a Sabedoria divina, o «conhecimento profundo» (epígnôsis) das Realidades divinas (v. 17). Tudo provém do único e omnipotente Acontecimento divino: Jesus Cristo Ressuscitado e Sentado à direita nos Céus (v. 19-20). É assim que, da sua Humanidade glorificada vem para nós, por graça, o Espírito Santo, a verdadeira plenitude (v. 23).

O Salmo 47 é um Salmo da realeza de YHWH, que canta, com grande energia, a soberania de Deus sobre todos os povos (v. 1-3.7-10), sem deixar também de particularizar Israel (v. 4-5), «a mais bela entre todas as nações» (Ezequiel 20,6). Ajusta-se também perfeitamente, no mundo católico, à Festa da Ascensão de Cristo, sobretudo por causa do v. 6, em que lemos que «Deus se eleva por entre aclamações». Devido ao seu tom geral, Israel canta este Salmo sete vezes antes de soar o toque do shôphar para assinalar a entrada do Ano Novo.

Com a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus,
É glorificada a humanidade do Filho de Deus e de Maria,
Jesus,
E é desta humanidade glorificada,
À direita de Deus sentada,
Que vem o Espírito Santo para nós.

 
É, portanto, do vosso interesse, diz Jesus, que Eu vá,
Pois se Eu não for,
O Espírito Santo não virá para vós.

 
Com a Ressurreição, a Ascensão e o Pentecostes,
Celebramos, pois, a humanidade glorificada de Jesus,
Da qual,
Por contágio sacramental,
Recebemos o Dom de Deus, o Espírito Santo.

 
Senhor Jesus,
Enche a nossa frágil humanidade da riqueza da tua divindade,
E derrama no nosso humano coração
O Espírito da consolação,
Da paz e da alegria.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I da Ascensão do Senhor (parte)- Ano A – 21.05.2023 (Atos 1, 1-11)
  2. Resto leitura I e leitura II da Ascensão do Senhor – Ano A – 21.05.2023 (Ef 1, 17-23)
  3. Ascensão do Senhor – Ano A – 21.05.2023 – Lecionário
  4. Ascensão do Senhor – Ano A – 21.05.2023 – Oração Universal
  5. Mensagem do Papa Francisco paras o 57º Dia Mundial das Comunicações Sociais
  6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo VI da Páscoa – Ano A – 14.05.2023

Viver a Palavra

Aquele que encontra em Jesus Cristo a fonte de sentido para a sua vida é chamado, em cada tempo e em cada lugar, a dar testemunho alegre e generoso da sua fé. Como afirma o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: «não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tateando, não é a mesma coisa poder escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa» (EG 266).

Deste modo, vivendo o Tempo Pascal em que celebramos e saboreamos a presença ressuscitada e ressuscitadora de Jesus Cristo, somos chamados a ser portadores da esperança e anunciadores do evangelho da alegria, tal como nos desafia S. Pedro: «venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança». Como seria belo se cada cristão pudesse ser, no seu campo de ação e para aqueles com quem se cruza na estrada da vida, um sinal de esperança e um apelo a encontrar um sentido novo, mesmo diante dos desafios mais sombrios e exigentes.

Os cristãos são chamados a ser narradores da esperança e não apenas para com os outros homens e mulheres. Ainda antes de o ser em relação aos outros homens e mulheres, a esperança é responsabilidade dos cristãos em relação a Deus como resposta Àquele que nos chamou à fé e à esperança (cf. Ef 1,18). Assim, a esperança como responsabilidade cristã situa-se entre o chamamento de Deus e a demanda dos homens. É uma responsabilidade única e dupla ao mesmo tempo, tal como o mandamento de amar a Deus e ao próximo é único e duplo concomitantemente.

Além disso, esta esperança não é uma esperança desencarnada como mero otimismo utópico ou uma projeção dos nossos sonhos ou desejos mais íntimos. A nossa esperança tem um rosto: Jesus Cristo, vivo e ressuscitado. Como S. Paulo podemos afirmar: «a esperança não nos engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Na força do Espírito prometido por Jesus Cristo e enviado pelo Pai como «paráclito», somos enviados como testemunhas da esperança, anunciando com a vida e nos gestos concretos de amor e misericórdia a esperança que recebemos do Pai.

«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos».

Como é bom escutar a liberdade com que Jesus nos propõe o Seu projeto de amor: «se me amardes». Jesus não se impõe porque o amor é uma adesão livre. Fomos criados para a verdadeira liberdade e para a felicidade plena que só o amor de Jesus nos pode oferecer e garantir. Acolher o mandamento novo do amor significa abraçar a perene novidade que dá sentido à nossa vida: a comunhão com Jesus Cristo que o Espírito Santo realiza em nós. Na verdade, a novidade do mandamento do amor não reside no convite a amar a Deus e o próximo, pois bem sabemos que esse convite estava já presente nas páginas do Antigo Testamento. Além disso, esta novidade também não é apenas amar «como Jesus nos amou», porque deste modo o cristianismo seria apenas uma espécie de esforço moral extremo. A novidade do mandamento novo do amor está precisamente na dinâmica de comunhão que ele estabelece com Cristo e do viver Nele e para Ele: «se alguém aceita os meus mandamentos e os cumpre, esse realmente Me ama. E quem Me ama será amado por meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».in Voz Portucalense

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De 14 a 21 de maio decorre a Semana da Vida, este ano com o tema: «Levanta-te! A tua vida é um dom». Os diversos recursos preparados pela Comissão Episcopal Laicado e Família através do Departamento Nacional da Pastoral Familiar estão disponíveis na internet (https://dnpf.pt/semana-da-vida/). São propostos diferentes recursos – meditações para o terço, esquema para a adoração eucarística, jogos e dinâmicas em família, cartazes diários – que podem servir como ponto de partida e inspiração para a dinamização comunitária desta semana. No atual contexto social e cultural é urgente e necessário ser testemunhas de uma cultura da vida que valoriza e defende a dignidade da vida humana desde a sua conceção até à sua morte natural

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                                                                                                              

LEITURA I – Actos 8,5-8.14-17

«As multidões aderiam unanimemente às palavras de Filipe, ao ouvi-las e ao ver os milagres que fazia».

 

Ambiente

Durante os primeiros anos, o cristianismo praticamente não saiu de Jerusalém: os primeiros sete capítulos do livro dos Atos dos Apóstolos apresentam-nos a Igreja de Jerusalém e o testemunho dado pelos primeiros cristãos no espaço restrito da cidade.

Por volta do ano 35, no entanto, desencadeou-se uma perseguição contra os membros da comunidade cristã de Jerusalém. Pode supor-se, com grande probabilidade, que esta perseguição (desencadeada após a morte de Estêvão) não afetou de igual forma todos os membros da comunidade (os apóstolos continuam em Jerusalém), mas dirigiu-se, de forma especial, contra os judeo-helenistas do círculo de Estêvão (os cristãos “hebreus”, que mantêm uma fidelidade relativa à Lei e ao judaísmo, ficam – até nova ordem – ao abrigo da perseguição). Estes, contudo, não se conformaram com uma morte inútil: deixaram Jerusalém e espalharam-se pelas outras regiões da Palestina. Tratou-se de um facto providencial (porque não ver nele a ação do Espírito?), que permitiu a difusão do Evangelho pelas outras regiões palestinas.

A primeira leitura deste domingo fala-nos de Filipe – um dos sete diáconos, do mesmo grupo do mártir Estêvão (cf. Act 6,1-7) – que, deixando Jerusalém foi anunciar o Evangelho aos habitantes da região central da Palestina, a Samaria.

É curioso que a difusão do Evangelho fora de Jerusalém ocorra, precisamente, na Samaria. A Samaria era, para os judeus, uma terra praticamente pagã. Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista. O anúncio do Evangelho aos samaritanos mostra que a Igreja não tem fronteiras e anuncia o passo seguinte: a evangelização do mundo pagão. in Dehonianos.

 

Para a reflexão, considerar os seguintes dados:

Uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma fé. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma fé, que se manifesta a vida do Espírito. Cada crente precisa de desenvolver a consciência de que não é um caso isolado, independente, autónomo: afirmações como “eu cá tenho a minha fé” não fazem sentido, se traduzem a vontade de percorrer um caminho à margem da comunidade, sem aceitar confrontar-se com os irmãos… Cada comunidade precisa de desenvolver a consciência de que não é um grupo autónomo e sem ligações, mas uma parcela de uma Igreja universal, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma fé.

Constitui, para nós, um tremendo desafio a ação evangelizadora de Filipe… Apesar dos riscos corridos em Jerusalém, Filipe não desistiu, não sentiu que já tinha feito o possível, não se acomodou; mas simplesmente partiu para outras paragens a dar testemunho de Jesus. É o mesmo entusiasmo que nos anima, quando temos de dar testemunho do Evangelho de Jesus?

O nosso texto deixa claro, ainda, que “Deus escreve direito por linhas tortas”: de uma situação má (perseguição aos crentes), nasce a possibilidade de levar a Boa Nova da libertação a outras comunidades. Às vezes, Deus tem de usar métodos drásticos para nos obrigar a sair do nosso cantinho cómodo e levar-nos ao compromisso. Muitas vezes, os aparentes dramas da nossa vida fazem parte dos projetos de Deus. É necessário aprender a olhar para os acontecimentos da vida com os olhos da fé e aprender a confiar nesse Deus que, do mal, tira o bem. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 65 (66)

Refrão: A terra inteira aclame o Senhor.

LEITURA II – 1 Pedro 3,15-18

«Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança».

 

Ambiente

A primeira carta de Pedro tem-nos acompanhado nos últimos domingos… Por isso, já sabemos que se trata de um texto exortativo, enviado às comunidades cristãs estabelecidas em certas zonas rurais da Ásia Menor. Os cristãos que compõem essas comunidades pertencem maioritariamente às classes menos favorecidas. Apresentam, portanto, um quadro de fragilidade, que os torna bastante vulneráveis às perseguições que se aproximam.
O objetivo do autor é animar esses cristãos e exortá-los à fidelidade aos compromissos que assumiram com Cristo, no dia do seu Batismo. Para isso, o autor lembra-lhes o exemplo de Cristo, que percorreu um caminho de cruz, antes de chegar à ressurreição. in Dehonianos.

 

Considerar, na reflexão, os seguintes pontos:

Mais uma vez (tem sido um tema que tem aparecido, volta não volta, na liturgia deste tempo pascal), põe-se-nos o problema do sentido de uma vida feita dom e entrega aos outros, até à morte (sobretudo se esses “outros” são os nossos perseguidores e detratores). É possível “dar o braço a torcer” e triunfar? O amor e o dom da vida não serão esquemas de fragilidade, que não conduzem senão ao fracasso? Esta história de o amor ser o caminho para a felicidade e para a vida plena não será uma desculpa dos fracos? Não – responde a Palavra de Deus que nos é proposta. Reparemos no exemplo de Cristo: Ele deu a vida pelos pecadores e pelos injustos e encontrou, no final do caminho, a ressurreição, a vida plena.

Diante das dificuldades, das propostas contrárias aos valores cristãos, é em Cristo – o Senhor da vida, do mundo e da história – que colocamos a nossa confiança e a nossa esperança? Ou é noutros esquemas mais materiais, mais imediatos, mais lógicos, do ponto de vista humano?

Diante dos ataques – às vezes incoerentes e irracionais – daqueles que não concordam com os valores de Jesus, como nos comportamos? Com a mesma agressividade com que nos tratam? Com a mesma intolerância dos nossos adversários? Tratando-os com a lógica do “olho por olho, dente por dente”? Como é que Jesus tratou aqueles que o condenaram e mataram? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 14,15-21

«Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos».

«Não vos deixarei órfãos: voltarei para junto de vós».

«E quem Me ama será amado por meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele».

 

Ambiente

Continuamos no mesmo contexto em que nos colocava o Evangelho do passado domingo. A decisão de matar Jesus já está tomada pelas autoridades judaicas e Jesus sabe-o. A morte na cruz é mais do que uma probabilidade: é o cenário imediato.

Nessa noite de quinta-feira do ano trinta, na véspera da sua morte na cruz, Jesus reuniu-Se com os seus discípulos numa “ceia”. No decurso da “ceia”, Jesus despediu-Se dos discípulos e fez-lhes as últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a “testamento final”: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo. Jesus fala-lhes, então, do caminho que percorreu (e que ainda tem de percorrer, até à consumação da sua missão e até chegar ao Pai); e convida os discípulos a seguir o mesmo caminho de entrega a Deus e de amor radical aos irmãos. É seguindo esse “caminho” que eles se tornarão Homens Novos e que chegarão a ser “família de Deus” (cf. Jo 14,1-12).

Os discípulos, no entanto, estão inquietos e desconcertados. Será possível percorrer esse “caminho” se Jesus não caminhar ao lado deles? Como é que eles manterão a comunhão com Jesus e como receberão d’Ele a força para doar, dia a dia, a própria vida? in Dehonianos.

A reflexão e atualização da Palavra podem fazer-se a partir dos seguintes desenvolvimentos:

A paixão de Jesus continua a acontecer, todos os dias, na vida de cada um de nós e na vida de tantos irmãos nossos. Sentimo-nos impotentes face à guerra e ao terrorismo; não conseguimos prever e evitar as catástrofes naturais; sofremos por causa da injustiça e da opressão; vemos o mundo construir-se de acordo com critérios de egoísmo e de materialismo; não podemos evitar a doença e a morte… Acreditamos no “Reino de Deus”, mas ele parece nunca mais chegar, e caminhamos, desanimados e frustrados, para um futuro que não sabemos aonde conduzirá a humanidade. No entanto, nós os crentes temos razões para ter esperança: Jesus garantiu-nos que não nos deixaria órfãos e que estaria sempre a nosso lado. Na minha leitura do mundo e da história, o que é que prevalece: o pessimismo de quem se sente só e perdido no meio de forças de morte, ou a esperança de quem está seguro de que Jesus ressuscitado continua presente, a acompanhar a caminhada da sua comunidade pela história?

O “caminho” que Jesus propõe aos seus discípulos (o “caminho” do amor, do serviço, do dom da vida) parece, à luz dos critérios com que a maior parte dos homens do nosso tempo avaliam estas coisas, um caminho de fracasso, que não conduz nem à riqueza, nem ao poder, nem ao êxito social, nem ao bem estar material – afinal, tudo o que parece dar verdadeiro sabor à vida dos homens do nosso tempo. No entanto, Jesus garantiu-nos que era no caminho do amor e da entrega que encontraríamos a vida nova e definitiva. Na minha leitura da vida e dos seus valores, o que é que prevalece: o pessimismo de alguém que se sente fraco, indefeso, humilde e que vai passar ao lado das grandes experiências que fazem felizes os grandes do mundo, ou a esperança de alguém que se identifica com Jesus e sabe que é nesse “caminho” de amor e de dom da vida que se encontra a felicidade plena e a vida definitiva?

Jesus garantiu aos seus discípulos o envio de um “defensor”, de um “consolador”, que havia de animar a comunidade cristã e conduzi-la ao longo da sua marcha pela história. Nós acreditámos, portanto, que o Espírito está presente, animando-nos, conduzindo-nos, criando vida nova, dando esperança aos crentes em caminhada. Quais são as manifestações do Espírito que eu vejo na vida das pessoas, nos acontecimentos da história, na vida da Igreja?

A comunidade cristã, identificada com Jesus e com o Pai, animada pelo Espírito, é o “templo de Deus”, o lugar onde Deus habita no meio dos homens. Através dela, o Deus libertador continua a concretizar o seu projecto de salvação. A Igreja é, hoje, o lugar onde os homens encontram Deus? Ela dá testemunho (em gestos de amor, de serviço, de humanidade, de liberdade, de compreensão, de perdão, de tolerância, de solidariedade para com os pobres) do Deus que quer oferecer aos homens a salvação? O que é que nos falta – a nós, “família de Deus” – para sermos verdadeiros sinais de Deus no meio dos homens? in Dehonianos

Para os leitores:

            A aparente facilidade na proclamação da primeira leitura não deve descurar a sua preparação com uma especial atenção ao seu tom narrativo e descritivo, bem como às pausas e respirações. Pede-se ainda especial cuidado na proclamação do verbo «pregar» que se deve ler «prégar».

Na segunda leitura, deve ter-se em atenção o carácter exortativo do texto e, por isso, deve ter-se um especial cuidado nas formas verbais no imperativo.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

DAR A RAZÃO DA NOSSA ESPERANÇA

O texto que o Evangelho deste Domingo VI da Páscoa (João 14,15-21) nos oferece enquadra-se naquele monumental Testamento que, no IV Evangelho, Jesus pronuncia, em ondas sucessivas, após a Ceia com os seus Discípulos (João 13,12-17,26). Neste imenso texto, cujas linhas temáticas vêm e refluem e voltam a vir e a refluir, à maneira das ondas do mar que vêm sobre a praia, refluem e voltam, assistimos hoje ao primeiro dos cinco dizeres de Jesus relativos à Vinda do Espírito Santo, Paráclito (paráklêtos), isto é, Defensor [Advogado de defesa], Consolador e Intérprete. Este último significado deriva do aramaico paráklita, dos rabinos, que não tem o significado usual do grego (Defensor e Consolador), mas Intérprete, aquele que traduz Deus para nós e nós para Deus, fonte e ponte permanente de comunicação, compreensão e comunhão. O Espírito Paráclito é assim o grande construtor de pontes entre nós uns com os outros e com Deus. É, por isso, que Ele é o Amor, que destrói todos os muros, preconceitos, ódios, divisões, incompreensões. Eis os cinco mencionados dizeres de Jesus sobre a Vinda do Espírito Santo, sempre dita no futuro: João 14,16; 14,26; 15,26; 16,7; 16,13-15.

Sente-se, no monumental Testamento de Jesus, apresentado em João 13,12-17,26, que a dor da separação, provocada pela partida de Jesus, atravessa o coração dos discípulos de então. Se virmos bem, também no coração dos discípulos de hoje pode vir ao de cima a perceção de que Jesus está ausente, pouco percetível e dificilmente acessível. A dor da separação revela o deles e o nosso amor por Jesus. E Jesus mostra-nos que não nos deixa abandonados e sós, como órfãos (João 14,18). Ele permanece connosco, e continua a tratar-nos carinhosamente por «filhinhos» (teknía) (João 13,33). De facto, Jesus morre, mas não desaparece na morte. Volta sempre, na sua condição de Ressuscitado, para nos comunicar a sua própria vida nova. Sim, com a sua morte, Ele desaparece aos olhos do mundo, que apenas sabe que Ele morreu numa Cruz. O mundo conhece apenas a morte, e não a vida (João 14,19). É sabido que também aqueles discípulos não superarão a prova ou o teste da Paixão e Morte de Jesus, tendo-o abandonado e fugido todos (Mateus 26,56; Marcos 14,50). Será Jesus, Amor permanente e dissolvente, que reparará esta brecha, chamando de novo estes discípulos reprovados (Mateus 28,7.10.16; Marcos 16,7). E eles, como nós, levando consigo toda a sua história anterior de amor e rutura e de milagrosa cura, voltam para a Galileia, para um encontro novo com o Ressuscitado, de quem, agora sim, nunca mais se separarão.

O texto de hoje põe Jesus a dizer que, a seu pedido, o Pai nos dará outro Paráclito (João 14,16). Outro. Este outro é o Espírito Santo. Mas o emprego deste outro diz-nos ainda que Jesus Cristo é também Paráclito, portanto, nosso Defensor, Consolador e Intérprete, como de resto surge afirmado com todas as letras na Primeira Carta de S. João 2,1: «Temos um Defensor (paráklêtos) junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo».

O primeiro enviado do Pai é o Filho Jesus, que cumpre e revela o conteúdo da própria missão. O segundo enviado é o Espírito Paráclito. O Pai é, em relação aos dois, o enviante; o Filho e o Espírito são, em relação ao Pai, ambos enviados. Confrontando os textos, vemos que há semelhança da relação entre o Pai e o Paráclito com a relação entre o Pai e o Filho: ambas são expressas pelo mesmo verbo «enviar» (pémpô). Mas, juntamente com a semelhança, deparamos também com diferenças. A primeira diferença está no facto de que, em relação ao Filho, o verbo enviar está no passado, encontrando-se no futuro em relação ao Paráclito. O envio de Jesus pelo Pai já se realizou [«o Pai que me enviou»: João 5,23.37; 6,44; 8,16.18; 12,49; 14,24; «Aquele que me enviou»: João 4,34; 5,24.30; 6,38.39.40; 7,16.28.33; 8,26.29; 9,4; 12,44-45; 13,20; 15,21; 16,5], enquanto que o envio do Paráclito é anunciado, mas deve ainda realizar-se [«o Pai enviá-lo-á no meu nome»: João 14,26], do mesmo modo que a sua tarefa de ensinar e de recordar aparece igualmente enunciada no futuro. A segunda diferença reside no facto de o envio de Jesus ser feito diretamente pelo Pai, sem intermediários, enquanto o envio do Paráclito é feito pelo Pai mediante a intervenção de Jesus, traduzida pela expressão «no meu nome». O que se passa com o verbo «enviar» em termos de semelhança e diferenças, passa-se também com o verbo «dar» (dídômi): «Deus… deu o seu Filho unigénito» (João 3,16), e «dará a vós outro Paráclito» a pedido de Jesus (João 14,16). Mas em relação ao Paráclito, o próprio Jesus é por duas vezes sujeito do verbo enviar: «Eu enviá-lo-ei de junto do Pai» (João 15,26); «Quando eu for, enviá-lo-ei para junto de vós» (João 16,7).

O cúmulo. Filipe, «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8), leva a Palavra de Deus à Samaria, exatamente àquele «estúpido povo que habita em Siquém» (Ben-Sirá 50,26), e houve por lá também grande alegria (Atos dos Apóstolos 8,5-8). Sim! Os pobres são evangelizados! Bendito seja Deus que nos surpreende sempre. Quando eu lá chego, às portas da cidade ou do coração do meu irmão, constato com espanto que Tu já lá estás há muito tempo, e já derrubaste portas e muralhas! Tu chegas sempre primeiro e já preparaste tudo! Escreve Kierkegaard num belo poema: «Falamos de Ti/ como se Tu nos tivesses amado primeiro uma só vez./ É, porém, dia após dia, a vida inteira,/ que Tu nos amas primeiro./ Quando acordo pela manhã e elevo para Ti a minha alma,/ Tu és o primeiro,/ Tu amas-me primeiro./ Se pela madrugada me levanto,/ e logo/ para Ti a minha alma e a minha oração elevo,/ Tu precedes-me,/ Tu já me amaste primeiro./ É sempre assim./ E nós, ingratos,/ Falamos como se Tu nos tivesses amado primeiro/ uma só vez…».

E, portanto, aí está a lição que São Pedro (3,15-18) aprendeu e viveu e hoje nos comunica: «estai sempre, sempre prontos [atentos, preparados] para dar convictamente a quem vos pedir a razão da esperança que há em vós» (hétoimoi aeì pròs apologían pantì tô aitoûnti hymãs lógon perì tês en hymîn elpídos) (cf. 1 Pd 3,15). Não se trata de «razões»; trata-se da «razão», do lógos. A razão, o lógos, não é aqui um terreno intelectual ou um objeto do pensamento, mas uma pessoa: Jesus Cristo. É Ele a razão, o lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Então, Ele habita e enche o universo e a nossa vida. «É n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos» (Atos dos Apóstolos 17,28). Nós com Ele, e Ele em nós, santuários vivos do Deus vivo. De forma intensa, como sempre, grita S. Paulo aos ouvidos dos cristãos de Corinto e aos nossos: «Não sabeis que sois Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (…). Na verdade, o Templo de Deus é santo, e esse Templo sois vós!» (1 Coríntios 3,16 e 17). Sem equívocos agora: estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar o lógos, isto é, Jesus, a razão de fundo da vida de Pedro e da nossa; a razão não são as razões, arrazoados; é a pessoa de Jesus, o lógos. Estar prontos a dar a razão é estar prontos a dar a mão, isto é, o pão, compreensão, amor, esperança e confiança, engenheiros de um mundo novo, verdadeiro, credível, transparente.

Diz, de forma absolutamente maravilhosa, o velho comentário rabínico aos Salmos, dito Midrash Tehillîm, que, quando Israel estava no Sinai para fazer aliança com Deus, «o ventre das mulheres grávidas se tornou transparente como vidro, para que os embriões pudessem ver Deus e conversar com Ele». Oh admirável mundo novo!

O Espírito Santo faz nascer em nós esta transparência luminosa e maravilhosa. Luz que alumia, e não engana, Amor, só Amor, nada mais que Amor. Vem, Espírito de Luz, construtor e Senhor das mais belas transparências e vivências. Precisamos tanto de Ti nesta calçada enlameada e escura e escorregadia em que andamos.

Missão nossa será sempre cantar a glória de Deus e convocar a terra inteira para verificar as maravilhas operadas por Deus. Todos e cada um. A comunidade e eu de mãos dadas e levantadas para Deus, como acontece muitas vezes nos Salmos. Temos muito a relatar e a agradecer, repassando diante de nós, não apenas a paisagem bíblica, mas também a nossa paisagem humana. Também o Salmo de hoje começa em tom comunitário (Salmo 66,1-12) para nos mostrar depois também o papel do solista (v. 13-20).

O Filho e o Espírito Santo são,
No dizer de Santo Ireneu de Lião,
As duas mãos do Pai,
Enviadas em missão
Para junto dos seus filhos de adoção.

À semelhança, claro,
Daquelas mãos de amor,
Que, no alvor da Criação,
Modelaram da terra pura o nosso coração,
E de misericórdia o vestiram.

Filhos no Filho, divina hyiothesía,
Hemorragia de graça e de alegria:
Jesus, o Filho, assume a nossa humana condição,
E dá-nos em herança a sua divina filiação.

E o Espírito, que une e distingue o Pai e o Filho,
Divina comunhão, sem confusão,
Toma conta do nosso coração de filhos recém-nascidos,
E faz circular em nós, já hoje, já esta manhã,
A mais bela lalação que há, o nome novo Ab-ba!

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo VI da Páscoa – Ano A – 14.05.2023 (Atos 8, 5-8.14-17)
  2. Leitura II do Domingo VI da Páscoa – Ano A – 14.05.2023 (1 Pedro 3, 15-18)
  3. Domingo VI da Páscoa – Ano A – 14.05.2023 – Lecionário
  4. Domingo VI da Páscoa – Ano A – 14.05.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo V da Páscoa – Ano A – 07.05.2023
DIA da MÃE

Viver a Palavra

A missão de anunciar o Evangelho e de o fazer presente no tempo e na história é tarefa permanente e primeira da Igreja e nunca deve ser descurada. Contudo, é urgente em cada tempo um acurado e aturado discernimento para que saibamos responder às exigências da pregação evangélica. Fixando o nosso olhar na comunidade nascente e de modo concreto na primeira leitura proposta para este Domingo, verificamos como o anúncio do evangelho não pode ignorar as reais necessidades dos homens e mulheres do nosso tempo.

Continuadora da obra redentora de Cristo no mundo, a Igreja tem a missão de proclamar o Evangelho que é o próprio Jesus Cristo. Contudo, deve fazê-lo num permanente exercício de kairologia, isto é, numa atenta leitura dos sinais dos tempos, que nos permite projetar uma ação pastoral como verdadeira resposta ao chamamento do Senhor para colaborar na Sua obra. A perene novidade que deve revestir a ação eclesial não decorre apenas da mutabilidade do tempo e das transformações da realidade humana, mas também da perene novidade de que se reveste o Evangelho que deve incarnar a história humana em cada tempo e em cada lugar. É esta relação dialética e assimétrica entre a Palavra revelada e a realidade que somos chamados a responder que deve presidir à ação evangelizadora da Igreja para que sejamos efetivamente «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores d’Aquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável».

Assim encontramos a comunidade nascente apresentada pela narrativa dos Atos dos Apóstolos. Os Doze convocam a assembleia dos discípulos, renovam a certeza da primazia do anúncio da Palavra de Deus que não deve descurado, mas reforçam também a necessidade de responder às necessidades concretas dos mais pobres e, para isso, escolhem «sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiar esse cargo». Reside aqui a verdadeira criatividade da Igreja que não é excentricidade, mas fidelidade criativa ao Espírito Santo, discernindo comunitariamente o que o Senhor nos pede aqui e agora.

É certo que como Tomé perguntamos muitas vezes: «Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?». Mas esta deve ser precisamente a primeira pergunta. Invocar o Senhor para saber para onde Ele nos chama, descobrir aquilo que Ele nos pede e simultaneamente ter a ousadia do discernimento pessoal e comunitário, eclesial e articulado que nos permite responder com criatividade e autenticidade à missão evangelizadora da Igreja. Se esta missão é urgente e necessária em cada tempo, tanto mais no tempo que vivemos. Este tempo reclama o exercício de um discernimento pastoral e evangélico que nos permita sinodalmente rasgar caminhos novos de evangelização para que saibam habitar o horizonte antropológico do nosso tempo.

Esta é uma tarefa urgente e necessária, mas concomitantemente árdua e exigente que não nos atemoriza, pois recordaremos sempre as palavras de Jesus: «não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim. (…) Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim». Com Jesus e como Jesus, escutando a Sua Palavra, contemplando os seus gestos de amor e misericórdia e iluminados pela força do Espírito Santo, seremos capazes de anunciar a permanente novidade do Evangelho nos tempos sempre novos que vivemos. in Voz Portucalense

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            O mês de maio é tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora e as comunidades cristãs reúnem-se para levar a cabo as mais variadas práticas de piedade popular marianas, sobretudo a recitação comunitária do terço e as procissões de velas. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco fala da «força evangelizadora da piedade popular». Através das diversas iniciativas e atividades, é importante ajudar os fiéis a redescobrir a beleza e a centralidade da fé, em Jesus Cristo, e a necessidade de uma vida consentânea com a fé professada e celebrada. Neste primeiro Domingo de Maio, assinala-se, também, o Dia da Mãe. Na Eucaristia deste Domingo pode dirigir-se uma palavra especial a todas as mães, acompanhada de algum gesto que assinale este dia. Pode dirigir-se uma bênção especial às mães presentes na celebração, bem como um envolvimento da catequese e da pastoral familiar para que este dia seja valorizado como lugar de ação de graças pelo dom da maternidade. in Voz Portucalense

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Actos 6,1-7

«Escolhei entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para lhes confiarmos esse cargo».

Ambiente

A primeira leitura deste domingo pertence, ainda, à secção que apresenta o testemunho da Igreja de Jerusalém. No entanto, vão aparecer-nos pela primeira vez esses “helenistas” que irão ter um papel fundamental na ulterior expansão do cristianismo.

O nosso texto dá conta de um clima de alguma tensão entre os “hebreus” e os “helenistas”. Quem são estes grupos?

Trata-se, sempre, de membros da comunidade cristã de Jerusalém. Os “hebreus” são cristãos de origem judaica, originários da Palestina, que falam o aramaico, que leem a Escritura em hebraico e que teriam sido convertidos pela pregação de Jesus e dos apóstolos. Continuam, no entanto, muito apegados às suas tradições e têm, normalmente, um alto apreço pela Lei e pelas interpretações dos rabis.

Os “helenistas” são cristãos de origem judaica, também, mas originários da “diáspora” israelita – isto é, das comunidades judaicas espalhadas por todo o império romano e, até, por fora dele. Falam o grego e leem as Escrituras em grego. Residem em Jerusalém temporariamente. O seu contacto com outras realidades culturais torna-os, ordinariamente, mais tolerantes e abertos à novidade.

Com dois grupos tão diversos – quer do ponto de vista cultural, quer do ponto de vista religioso, quer do ponto de vista social – a integrar a mesma comunidade, era natural que, mais tarde ou mais cedo, surgissem tensões e conflitos. Aparentemente, aquilo que provoca a questão evocada no nosso texto é um problema de ordem material: na distribuição dos alimentos aos membros necessitados da comunidade, as viúvas helenistas sentiam-se prejudicadas. O facto provocou queixas, levando à intervenção dos líderes da comunidade. De qualquer forma, Lucas não entra em demasiados pormenores sobre a questão. in Dehonianos.

 

A reflexão pode considerar os seguintes pontos:

É difícil encontrarmos, no nosso tempo, uma realidade que suscite tantas paixões e ódios como a Igreja: uns defendem-na intransigentemente, justificando até as falhas mais injustificáveis, outros atacam-na cegamente, culpando-a de todos os males do mundo. Uns e outros deviam ter presente que se trata de uma comunidade que vem de Jesus e é animada pelo Espírito, mas formada por homens; que ela é a testemunha no mundo do plano de salvação de Deus, mas é também (dada a sua faceta humana) uma realidade “a fazer-se”, em contínuo processo de conversão. Os homens do nosso tempo devem exigir que a Igreja seja fiel à sua missão no mundo; mas devem também compreender as suas falhas, dificuldades e infidelidades.

A comunidade cristã referida no nosso texto leva-nos a uma época muito recuada, em que as estruturas não estavam ainda definidas e organizadas; mas, no quadro que Lucas nos propõe, há já irmãos investidos do serviço da autoridade (os Doze), que são ponto de referência quando surgem questões e problemas. Os Doze, no entanto, não reservam para si toda a autoridade, nem aceitam ser os únicos protagonistas no processo de condução da comunidade… De acordo com o quadro que nos é apresentado, eles convocam a comunidade, convidam-na a escolher as pessoas a quem devem ser confiados certos serviços, envolvem-na na busca do caminho. Infelizmente, ao longo dos séculos esquecemos, muitas vezes, esta dinâmica: a Igreja foi muitas vezes apresentada como uma sociedade de desiguais, onde uns mandam e outros obedecem em silêncio. É preciso redescobrir o valor do diálogo e da participação, na Igreja. Não se trata de discutir se a Igreja deve ou não ser uma sociedade democrática; trata-se de termos consciência de que somos uma família onde todos temos voz, porque em todos habita o mesmo Espírito; trata-se de potenciar mecanismos de escuta, de diálogo e de participação, a fim de que a Igreja seja uma família, onde todos participam na descoberta dos caminhos do Espírito.

Desde o início, a Igreja aparece como uma comunidade de serviço: os membros da comunidade cristã são convidados a seguir Jesus, que fez da sua vida uma entrega total ao serviço de Deus, ao serviço do Reino e ao serviço dos homens. Quando Deus concede determinados dons e confia determinadas missões, não se trata de privilégios que conferem à pessoa mais dignidade ou mais importância: trata-se de dons que devem ser postos ao serviço da comunidade, em ordem à construção da comunidade. As missões que nos são confiadas no âmbito comunitário não podem ser utilizados para promoção pessoal ou para concretizar sonhos egoístas; mas devem ser missões que desempenhamos com verdadeiro espírito de serviço, em benefício dos irmãos. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)

Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

LEITURA II – 1 Pedro 2, 4-9

«Vós, porém, sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores».

Ambiente

Há já algumas semanas que a Primeira Carta de Pedro acompanha a nossa caminhada litúrgica. Já sabemos, portanto, que ela se destina a comunidades cristãs de certas zonas rurais da Ásia Menor; essas comunidades são maioritariamente formadas por cristãos de classes sociais baixas, vulneráveis à hostilidade do mundo que os rodeia, para quem se aproximam tempos muito difíceis (por causa das perseguições que se adivinham). Estamos no final do século I (talvez no final da década de 80).

O autor recorda aos destinatários da carta o exemplo de Cristo, que passou pela cruz, antes de chegar à ressurreição. Toda a carta é um convite à esperança: apesar dos sofrimentos do tempo presente, os crentes não devem desanimar, pois estão destinados a triunfar com Cristo. Pede-se-lhes que enfrentem corajosamente as adversidades e que viam com fidelidade o seu compromisso batismal

O texto que nos é proposto faz parte de uma secção parenético-doutrinal (cf. 1 Pe 2,1-10), que tem como finalidade exortar os cristãos a crescer na fé, de forma a chegarem à salvação. in Dehonianos.

 

Considerar as seguintes questões:

Depois de dois mil anos de cristianismo, parece que nem sempre se nota a presença efetiva de Cristo nesses caminhos em que se constrói a história do mundo e dos homens. O verniz cristão de que revestimos a nossa civilização ocidental não tem impedido a corrida aos armamentos, os genocídios, os atos bárbaros de terrorismo, as guerras religiosas, o capitalismo selvagem… Os critérios que presidem à construção do mundo estão, demasiadas vezes, longe dos valores do Evangelho. Porque é que isto acontece? Podemos dizer que Cristo é, para os cristãos, a referência fundamental? Nós cristãos fizemos d’Ele, efetivamente, a “pedra angular” sobre a qual construímos a nossa vida e a história do nosso tempo?

Os cristãos são “pedras vivas” de um “templo espiritual” do qual Cristo é a “pedra angular”. A imagem traduz a realidade de uma comunidade que se junta à volta de Cristo, que vive em união com Ele, que comunga do seu destino, que assume totalmente o seu projeto. A esta comunidade chama-se Igreja… Sinto-me pedra integrante deste “edifício”? Procuro, todos os dias, limar as arestas que me impedem de aderir – de forma mais plena – a Cristo? Procuro, todos os dias, revitalizar o “cimento” que me une às outras pedras do edifício – os meus irmãos?

As “pedras vivas” do Templo do Senhor formam um Povo de sacerdotes, cuja missão é viver uma vida coerente com os compromissos assumidos no dia do Batismo – isto é, viver (como Cristo) na entrega a Deus e no amor aos irmãos. Quais são os “sacrifícios” que eu procuro entregar a Deus, todos os dias? A minha “oferta” a Deus é um conjunto de ritos desligados da vida (por mais sagrados que sejam) ou é a vivência do amor, nos gestos simples do dia a dia?

Neste texto há ainda um convite a não ter medo da incompreensão do mundo. O próprio Cristo foi rejeitado pelos homens; mas a Sua fidelidade aos projetos do Pai fizeram d’Ele a “pedra angular” da construção de Deus. É esse exemplo que devemos ter diante dos olhos, quando doer mais a incompreensão do mundo. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 14,1-12

«Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim».

«Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim.».

«Acreditai-Me: Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras».

Ambiente

Estamos na fase final da caminhada histórica do “Messias”. Até este momento, Jesus cumpriu a sua missão em confronto aberto com os dirigentes judeus. Precisamente o último e mais importante dos seus “sinais” – a ressurreição de Lázaro – levou o Sinédrio a decidir matá-l’O (cf. Jo 11,45-54). Jesus está consciente de que a morte está no seu horizonte próximo.

O ambiente em que este trecho nos coloca é o de uma ceia de despedida. Nessa ceia (realizada na quinta-feira à noite, pouco tempo antes da prisão, na véspera da morte), estão Jesus e os discípulos. No decurso da ceia, Jesus despede-Se dos discípulos e faz-lhes as suas últimas recomendações. As palavras de Jesus soam a “testamento” final: Ele sabe que vai partir para o Pai e que os discípulos vão continuar no mundo.

~          Os discípulos, da sua parte, já perceberam que o ambiente é de despedida e que, daí a poucas horas, o seu “mestre” lhes vai ser tirado. Estão inquietos e preocupados. A aventura que eles começaram com Jesus, na Galileia, terá acabado? Essa relação que eles construíram com o “mestre” irá morrer? Os discípulos não sabem o que vai acontecer nem que caminho vão, a partir daí, percorrer. Sobretudo, não sabem como é que manterão, após a partida de Jesus, a sua relação com Ele e com o Pai.

É neste contexto que podemos situar as palavras de Jesus que o Evangelho de hoje nos apresenta. in Dehonianos.

 

Para a reflexão, considerar os seguintes dados:

A Igreja é essa comunidade de Homens Novos, que se identifica com Jesus que, animada pelo Espírito, segue “o caminho” de Jesus (caminho de obediência aos planos do Pai e de dom da vida aos irmãos), que procura dar testemunho de Jesus no meio dos homens e que é a “família de Deus”. No dia do nosso batismo, fomos integrados nesta família… A nossa vida tem sido coerente com os compromissos que, então, assumimos? Sentimo-nos “família de Deus”, ou deixamos que o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, falem mais alto e escolhemos caminhar à margem desta família? É verdade que esta família tem falhas, e é verdade que nem sempre encontramos nela humanidade e amor. Que fazemos, então: afastamo-nos, ou esforçamo-nos para que ela viva de forma mais coerente e verdadeira?

Falar do “caminho” de Jesus é falar de uma vida dada a Deus e gasta em favor dos irmãos, numa doação total e radical, até à morte. Os discípulos são convidados a percorrer, com Jesus, esse mesmo “caminho”. Paradoxalmente, dessa entrega (dessa morte para si mesmo) nasce o Homem Novo, o homem na plenitude das suas possibilidades, o homem que desenvolveu até ao extremo todas as suas potencialidades. É esse “caminho” que eu tenho vindo a percorrer? A minha vida tem sido uma entrega a Deus e doação aos meus irmãos? Tenho procurado despir-me do egoísmo e do orgulho que impedem o Homem Novo de aparecer?

A comunhão do crente com o Pai e com Jesus não resulta de momentos mágicos nos quais, através da recitação de certas fórmulas ou do cumprimento de certos ritos, a vida de Deus bombardeia e inunda incondicionalmente o crente; mas a intimidade e a comunhão com Jesus e com o Pai estabelecem-se percorrendo o caminho do amor e da entrega, em doação total a Deus e aos irmãos. Quem quiser encontrar-se com Jesus e com o Pai, tem de sair do egoísmo e a fazer da sua vida um dom a Deus e aos homens. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura exige uma acurada preparação sobretudo pelo conjunto de palavras de difícil pronunciação que não fazem parte do nosso vocabulário corrente. No verbo «pregar» pronunciar «prégar» porque se trata da evangelização e do anúncio e proclamação solene da Boa Nova e não do ato de fixar um prego. Além disso, deve ter-se em atenção os nomes dos sete homens escolhidos e a designação atribuída a Nicolau de «prosélito».

A segunda leitura está marcada por um forte tom exortativo sublinhado pelo conjunto de verbos na forma imperativa. A leitura deste texto deve ter em atenção esta particularidade para uma mais eficaz proclamação do texto.

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

JESUS, O PAI E NÓS SEMPRE EM REDE

Os nomes JESUS e PAI juntam-se para entretecer uma rede finíssima que atravessa e extravasa o corpo do inteiro IV Evangelho, onde se ouvem respetivamente por 237 vezes e 124 vezes. Entenda-se: a vida de JESUS está completamente nas mãos do PAI, dele provém e para ele se orienta totalmente, de modo a JESUS poder dizer: «EU e o PAI somos um (hén)» (João 10,30) – não para indicar uma só pessoa, mas uma só realidade, bem traduzida no modo neutro, e não masculino, do numeral «um» (hén) – ou: «Quem ME vê, vê o PAI» (João 14,9). Só no Evangelho deste Domingo V da Páscoa (João 14,1-12), pode contar-se o nome PAI por 12 vezes!

Total orientação da sua vida para o PAI. Diz, na verdade, Jesus para os seus discípulos: «Para onde EU vou, vós conheceis o caminho» (João 14,4), mudando logo o lugar pela pessoa: «EU para o PAI vou» (João 14,12). Pelo meio, cruza-se a incompreensão ou incompetência expressa de dois dos seus discípulos: Tomé e Filipe, que o mesmo é dizer, a nossa incompreensão e incompetência. Tomé, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»], não sabe para onde vai JESUS; logo, não sabe o caminho (João 14,5), e Filipe recebe de Jesus uma repreensão que também nos atinge, pois é proferida no plural, e soa assim: «Há tanto tempo estou convosco, e não ME conheces, Filipe?» (João 14,9).

Tomé é bem Gémeo nosso, nosso irmão gémeo, muito parecido connosco, nesta passagem e em muitas outras. E Filipe [«Amigo dos cavalos»], único nome verdadeiramente grego, isto é, pagão, entre os Apóstolos de Jesus, também se manifesta muito semelhante a nós aqui e em outros lugares, como, por exemplo, João 6,5-7, onde é literalmente posto à prova por Jesus, e reprova claramente no teste. Na verdade, Jesus pergunta-lhe, para o pôr à prova: «Filipe, onde compraremos pão para que eles comam» (João 6,5). E Filipe põe-se a contar o dinheiro, dizendo onde põe a sua confiança, e responde que não há nada a fazer, porque não há dinheiro (João 6,7). Filipe, talvez como nós, ainda não sabia que o onde (póthen) a que Jesus se refere não é o shopping, mas é o PAI. Ainda não sabia ou conhecia Isaías 55,1-2, em que Deus nos convida a comprar a Ele pão, sem gastar qualquer dinheiro: «Todos vós que tendes sede, vinde às águas! / Vós, que não tendes dinheiro, vinde! / Comprai (agorázô LXX) cereal e comei! / Comprai cereal sem dinheiro,/ e sem pagar, vinho e leite./ […] Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom!» (Isaías 55,1-2).

O Jesus que anima este diálogo connosco é verdadeiramente o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA (João 14,6). Não é um caminho de terra batida ou uma estrada de asfalto. É um CAMINHO pessoal, uma maneira de viver, com entranhas, pés, mãos e coração. Não é uma verdade de tipo filosófico, jurídico ou político, a usual adequação da mente à coisa. Não é uma coisa. A VERDADE bíblica [hebraico ʼemet] não responde à pergunta: «O que é a verdade?», à boa maneira de Pilatos (João 18,38), mas à pergunta inédita: «QUEM é a VERDADE?». De facto, ʼemet deriva de ʼem [= mãe] e de ʼaman [= firmar, confiar], e remete para CONFIANÇA e FIDELIDADE. Não é uma verdade que se saiba. É uma atitude que se aprende. É aquela VERDADE que uma criança vai aprendendo ao colo da sua mãe. Está ali ALGUÉM que a segura e que a ama, ALGUÉM em quem a criança pode confiar, que em caso algum a vai deixar cair ao chão, como bem refere Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz). A VERDADE é ALGUÉM de fiar como uma MÃE, realidade bem patente na etimologia, dado que ʼemet [= verdade] deriva de ʼem [= mãe]. Não engana, portanto. É assim que JESUS é também a VIDA toda recebida (do PAI), toda a nós dada.

É assim também, maternalmente, que se entende a jovem e bela comunidade cristã nascente, atenta, outra vez como uma mãe, aos seus filhos que necessitam de assistência (Atos dos Apóstolos 6,1-7). Como é belo ver crescer, e cresce mesmo, uma comunidade de rosto maternal, de braços sempre abertos para acolher e abraçar, de mãos sempre abertas para receber, dar e acariciar. Tudo tão ao jeito e ao estilo de Jesus. Total dedicação à oração e ao serviço (diakonía) da Palavra de Deus (6,4). Total dedicação ao serviço (diakonía) da caridade. Atenção, porém: Filipe não aparece com o título de diácono (diákonos). O seu trabalho é evangelizar (Atos 8,26-40), e, se algum título lhe é atribuído, é o de «o evangelista» (ho euaggelistês) (Atos 21,8).

É claro, diz S. Pedro (1 Pedro 2,4-9), que Jesus é a pedra viva, base de um novo tipo de edifício, que nenhum arquiteto sabe desenhar ou projetar. É, na verdade, um edifício espiritual, feito de pedras vivas (!). E nós somos essas pedras vivas, esse Templo espiritual, que tem em Cristo a sua referência permanente. Um Templo novo e inédito com sangue, entranhas, mãos, pés e coração.

Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração com a música do amor misericordioso que nos vem de Deus. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

«O lugar para onde Eu vou,
Vós sabeis o caminho para lá», diz Jesus.
«Nós não sabemos para onde vais,
Como podemos saber o caminho para lá?»,
Retorquiu Tomé.

Tomé é como nós:
Não sabe trabalhar sem metas e objetivos.
E é em função das metas e objetivos,
Que escolhe caminhos e metodologias.

Deus disse a Abraão: «Vai do teu país
Para o país que Eu te fizer ver».
E o narrador diz-nos que «Abraão foi».
Para onde? Para qual país?
Não interessa.
Interessa é saber que uma mão segura nos guia,
E que o caminho que trilhamos nos conduz sempre ao destino.

É assim que faz Jesus também.
Não nos indica no mapa o lugar do destino,
Mas mostra-nos o caminho para chegar lá.
Por isso nos diz: «Vinde atrás de Mim…».

É assim a procissão e a peregrinação.
Ele vai connosco e à nossa frente.
Ele é o caminho,
A mão segura,
A água pura,
O pão de trigo.

Ensina-nos, Senhor,
A caminhar contigo.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo V da Páscoa – Ano A – 07.05.2023 (Atos 6, 1-7)
  2. Leitura II do Domingo V da Páscoa – Ano A – 07.05.2023 (1 Pedro 2, 4-9)
  3. Domingo V da Páscoa – Ano A – 07.05.2023 – Lecionário
  4. Domingo V da Páscoa – Ano A – 07.05.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo IV da Páscoa – Domingo do Bom Pastor – Ano A – 30.04.2023

Viver a Palavra

No quarto ano de catequese, quando os catequizandos abordam as Cartas de S. Paulo são convidados a escrever uma carta ao pároco onde lhe agradecem o seu serviço à comunidade e onde lhe fazem algumas perguntas. Apesar da minuta que o guia do catequista propõe para a resposta do pároco, sempre fiz questão de responder a cada um de acordo com o seu texto e com as perguntas que me dirigia. Não consigo esquecer as muitas cartas que li e respondi, mas hoje recordo particularmente uma delas em que um dos miúdos me agradecia porque sempre que se encontrava comigo, eu o chamava pelo seu nome. Para o pequeno Tiago chamá-lo pelo nome manifestava a proximidade, a atenção e o carinho que tinha por ele. Ele não era mais um numa massa indistinta a quem o padre era chamado a servir, mas alguém que era conhecido pelo seu próprio nome, reconhecido na sua individualidade e irrepetibilidade. Ao ler esta carta era inevitável não recordar as palavras de Jesus em que se apresenta como Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e chama a cada uma pelo seu nome. Como recorda o biblista Raymond Brown no seu comentário ao Evangelho de João, os rebanhos que pastavam nas montanhas da Judeia pertenciam a diversos proprietários e, assim, cada pastor fazia-se reconhecer junto das suas ovelhas através da sua voz e pelo nome com que as chamava.

A imagem do pastor apresentada por Jesus fazia parte do quotidiano daqueles que o escutavam e esta figura bucólica do pastor descrevia o modo solícito, disponível e total que caracteriza a arte de cuidar. Não se pode ser pastor de segunda a sexta, com folgas e feriados. Ser pastor implica uma disponibilidade e atenção constantes, uma ternura e desvelo que cuida, ama, conhece, nutre e protege.

É muito curioso que apesar de Jesus sublinhar esta atenção e cuidado em chamar cada ovelha pelo seu nome, os evangelhos falam sempre de rebanhos e não de ovelhas isoladas. Quando se fala de uma ovelha sozinha ou separada é para descrever uma situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida que se afastou do rebanho, que deixou de seguir o pastor e ouvir a sua voz.

Fixando o nosso olhar em Jesus, Bom, Belo e Perfeito Pastor, somos chamados a reconhecer o cuidado e o desvelo com que o Senhor cuida de nós. Como cantávamos no Salmo: «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma». Somos amados e agraciados pelo Deus do amor e da misericórdia que em Jesus Cristo se entrega todo e até ao fim para salvar o Seu rebanho da morte e do pecado.

«Eu sou a porta das ovelhas». Jesus é a «Porta» pela qual entramos em comunhão com o Pai e descobrimos um novo horizonte de sentido para as nossas vidas. Não é uma porta para o isolamento e fechamento, mas uma «Porta» que nos faz verdadeiramente livres e nos aponta a plenitude para a qual somos chamados. Deste modo, Jesus é a «Porta» de ingresso por onde entramos para saborear a bondade e a ternura do Pai e a «Porta» de saída de onde partimos ao encontro dos irmãos como testemunhas da alegria do serviço por amor que transforma a vida e o mundo num lugar mais belo e mais feliz.

Salvos e redimidos pelo amor misericordioso do Bom Pastor, como a multidão que na manhã de Pentecostes escutava a Boa Nova da Ressurreição, também nós perguntamos: «Que havemos de fazer, irmãos?». Na verdade, temos consciência que a vida cristã não é apenas uma doutrina a saber ou uma moral a cumprir, mas um amor a acolher como dom e a concretizar em obras de ternura e misericórdia que fazem presente o acontecer de Deus no mundo, no fazer das nossas mãos generosas e operantes que se abrem à conversão e à vida nova. in Voz Portucalense

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            O IV Domingo do Tempo da Páscoa é tradicionalmente designado como Domingo do Bom Pastor e nele celebramos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Assinalando o Domingo do Bom Pastor recordamos aqueles que seguindo Jesus, Bom e Belo Pastor, pelo dom do ministério sacerdotal, exercem o seu ministério em favor do Povo de Deus. Agradecendo, também, o dom de tantas vidas que se fazem pão partido e repartido em favor dos irmãos, rezamos para que o Senhor conceda à Igreja o dom de homens e mulheres comprometidos com a sua vocação, na variedade de serviços e ministérios para os quais o Senhor nos chama. O tema deste ano para esta semana é «Troquemos o instante pelo eterno» e os materiais já estão disponíveis no site da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios (http://ecclesia.pt/cevm/) in Voz Portucalense

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                              

                                                                                               

LEITURA I – Atos 2,14a.36-41

«Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados»

Ambiente

Continuamos no mesmo ambiente em que nos colocava a primeira leitura do passado domingo: em Jerusalém, na manhã do dia do Pentecostes. Pedro é o porta-voz de uma comunidade que, iluminada pelo Espírito, toma consciência da necessidade de testemunhar Jesus, a sua vida, a sua morte e a sua ressurreição. Diante dos habitantes de Jerusalém e dos forasteiros – idos das comunidades judaicas da “Diáspora” – reunidos para a festa judaica do “Savu’ot” (Pentecostes – a festa que celebrava a aliança do Sinai e o dom da Lei), a comunidade cristã apresenta o kerigma sobre Jesus e proclama a sua fé.

Este discurso é uma construção do autor dos Atos e não uma transcrição textual das palavras de Pedro, nesse dia; no entanto, é razoável supor que, nesse momento inicial da caminhada da Igreja, o testemunho dos discípulos de Jesus não se afastou muito das ideias aqui apresentadas. in Dehonianos.

A reflexão pode partir das seguintes questões:

Em cada linha da leitura que nos foi proposta, está presente a lógica de um Deus que não se conforma com o facto de os homens rejeitarem a sua oferta de salvação e que insiste em desafiá-los, em acordá-los, em questioná-los, até que eles percebam onde está a verdadeira vida e a verdadeira felicidade. Este Deus é, verdadeiramente, o Pastor que nos conduz para as nascentes de água-viva.

Perante a interpelação que Deus faz, por intermédio de Pedro, os membros da comunidade judaica perguntam: “que havemos de fazer, irmãos?” É a atitude de quem toma, bruscamente, consciência dos caminhos errados que tem trilhado, percebe o sem sentido de certas opções, comportamentos e valores, aceita questionar as suas certezas e seguranças, para aceitar os desafios de Deus. Trata-se de uma atitude corajosa: é mais fácil continuar comodamente instalado na sua autossuficiência, do que “dar o braço a torcer” e reconhecer, com humildade, a necessidade de eliminar os preconceitos, de refazer os esquemas mentais, de admitir as falhas, os limites, as incoerências. Aceito questionar-me, estou disposto a admitir os meus limites, procuro humildemente o caminho certo, ou sou daqueles que nunca me engano e raramente tenho dúvidas?

“Convertei-vos” – pede Pedro aos seus interlocutores. Converter-se é deixar os velhos esquemas de egoísmo, de prepotência, de orgulho, de autossuficiência que tantas vezes constituem o cenário privilegiado em que se desenrola a vida, para ir atrás de Jesus e aprender com Ele a amar, a servir, a dar a vida. Estou disponível para encarar a minha vida sob o signo da conversão? O que é que, na minha vida, mais necessita de ser transformado, em termos de ideias, valores, comportamentos? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

LEITURA II – 1 Pedro 2,20b-25

«Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, sobre o madeiro da cruz».

Ambiente

Continuamos com essa Primeira “Carta de Pedro”, escrita por um autor desconhecido e dirigida, durante a década de 80, a comunidades cristãs de zonas rurais do interior da Ásia Menor. Trata-se de comunidades constituídas maioritariamente por pessoas provenientes do paganismo, de classe económica débil: muitos são camponeses que cultivam as terras dos senhores locais, pastores que cuidam de rebanhos alheios, ou mesmo escravos. Este ambiente torna-as altamente vulneráveis face à hostilidade que os defensores da ordem romana manifestam para com os cristãos.

O autor da carta conhece perfeitamente a situação de debilidade em que estas comunidades estão e prevê que, num futuro próximo, o ambiente se vá tornar menos favorável ainda. Recorda, pois, aos destinatários da carta, o exemplo de Cristo, que sofreu e morreu, antes de chegar à ressurreição. É um convite à esperança: apesar dos sofrimentos que têm de suportar, os crentes estão destinados a triunfar com Cristo; por isso, devem viver com alegria e coragem o seu compromisso batismal

O texto que nos é proposto integra uma perícope em que o autor apresenta aos destinatários da carta um conjunto de conselhos práticos sobre a conduta que os cristãos devem assumir em várias situações da vida (cf. 1 Pe 2,11-5,11). Mais especificamente, o nosso texto reflete sobre os deveres dos servos (cf. 1 Pe 2,18) face aos seus senhores. in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes linhas:

Como devemos lidar com a injustiça e com a violência? Haverá uma violência justa e aceitável? Os fins justificam os meios? É a este tipo de questões que a nossa leitura responde. O autor não está interessado em grandes argumentações filosóficas, sociológicas ou teológicas: propõe apenas o exemplo de Cristo, que passou pelo mundo fazendo o bem e foi preso, torturado, assassinado sem resistir, sem Se revoltar, sem responder “na mesma moeda” aos seus assassinos. É uma lógica incompreensível, ou até mesmo demente, aos olhos do mundo… Mas é a lógica de Deus; e Jesus demonstrou que só este caminho conduz à ressurreição, à vida nova, a um dinamismo gerador de um mundo novo. O cristão é chamado a ser testemunha no meio dos homens desta novidade absoluta: só o amor gera vida nova e transforma o mundo.

Esta leitura apresenta Cristo como “o Pastor” que guarda e conduz as suas ovelhas. Neste contexto, em concreto, seguir o Pastor é responder à injustiça com o amor, ao mal com o bem. Cristo é, de facto, o meu “Pastor”, a minha referência, o modelo de vida que eu tenho sempre diante dos olhos – tanto nesta como noutras questões? Quem é que eu ouço, quem é que eu sigo, quem é o meu modelo? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 10,1-10

«Aquele que não entra no aprisco das ovelhas pela porta, mas entra por outro lado, é ladrão e salteador».

«Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem.».

«Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».

Ambiente

O capítulo 10 do 4º Evangelho é dedicado à catequese do “Bom Pastor”. O autor utiliza esta imagem para propor uma catequese sobre a missão de Jesus: a obra do “Messias” consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.

A imagem do “Bom Pastor” não foi inventada pelo autor do 4º Evangelho. Literariamente falando, este discurso simbólico está construído com materiais provenientes do Antigo Testamento. Em especial, este discurso tem presente Ez 34 (onde se encontra a chave para compreender a metáfora do “pastor” e do “rebanho”). Falando aos exilados da Babilónia, Ezequiel constata que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”, que conduziram o Povo por caminhos de morte e de desgraça; mas – diz Ezequiel – o próprio Deus vai agora assumir a condução do seu Povo; Ele porá à frente do seu Povo um “Bom Pastor” (o “Messias”), que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida.

A catequese que o 4º Evangelho nos oferece sobre o “Bom Pastor” sugere que a promessa de Deus – veiculada por Ezequiel – se cumpre em Jesus. in Dehonianos.

Considerar, na atualização da Palavra, os seguintes elementos:

Na nossa cultura urbana, a figura do “Pastor” é uma figura de outras eras, que pouco evoca, a não ser um mundo perdido de quietude e de amplos espaços verdes; em contrapartida, conhecemos bem a figura do presidente, do líder, do chefe: não raras vezes, é alguém que se impõe pela força, que manipula as massas, que escraviza os que estão sob a sua autoridade, que se aproveita dos fracos, que humilha os mais débeis… Ao propor-nos a figura bíblica do “Bom Pastor”, o Evangelho convida-nos a refletir sobre o serviço da autoridade… Propõe como modelo de presidência (ou de “Pastor”) uma figura que oferece a vida, que serve, que respeita a liberdade das pessoas, que se dedica totalmente, que ama gratuitamente.

Para os cristãos, “o Pastor” por excelência é Cristo: Ele recebeu do Pai a missão de conduzir o “rebanho” de Deus das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade, da morte para a vida. O nosso “Pastor” é, de facto, Cristo, ou temos outros “pastores” que nos arrastam e que são as referências fundamentais à volta das quais construímos a nossa existência? O que é que nos conduz e condiciona as nossas opções? Cristo? A voz do político e socialmente correto? A voz da opinião pública? A voz do presidente do partido? A voz do comodismo e da instalação? A voz do preservar os nossos esquemas egoístas e os nossos privilégios? A voz do êxito e do triunfo a qualquer custo? A voz do herói mais giro da telenovela? A voz do programa de maior audiência da estação televisiva de maior audiência?

Atentemos na forma como Cristo desempenha a sua missão de “Pastor”: Ele conhece as “ovelhas” e chama-as pelo nome, mantendo com cada uma delas uma relação única, especial, pessoal. Dirige-lhes um convite a deixarem a escuridão, mas não força ninguém a segui-l’O: respeita absolutamente a liberdade de cada pessoa. É dessa forma humana, tolerante, amorosa, que nos relacionamos com os outros? Aqueles que receberam de Deus a missão de presidir a um grupo, de animar uma comunidade, exercem a sua missão no respeito absoluto pela pessoa, pela sua dignidade, pela sua individualidade?

As “ovelhas” do rebanho de Jesus têm de “escutar a voz” do “Pastor” e segui-l’O… Isso significa, concretamente, tornar-se discípulo, aderir a Jesus, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, na entrega total aos projetos de Deus e na doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Cristo) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho não leva aonde nós pretendemos ir?

Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Podemos aceitar, sem problemas, que elas receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições; mas convém igualmente ter presente que o nosso único “Pastor”, Aquele que somos convidados a escutar e a seguir sem condições, é Cristo. Os outros “pastores” têm uma missão válida, se a receberam de Cristo; e a sua atuação nunca pode ser diferente do jeito de atuar de Cristo.

Para que distingamos a “voz” de Jesus de outros apelos, de propostas enganadoras, de “cantos de sereia” que não conduzem à vida plena, é preciso um permanente diálogo íntimo com “o Pastor”, um confronto permanente com a sua Palavra e a participação ativa nos sacramentos onde se nos comunica essa vida que “o Pastor” nos oferece. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é a continuação do longo discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Além do tom exortativo que deve caracterizar a proclamação desta leitura, o leitor deve ter em atenção a interpelação que a multidão faz a Pedro e o modo como essa questão desperta o convite de Pedro à conversão e ao Batismo.

A segunda leitura sendo de fácil proclamação requer apenas um especial cuidado nas pausas e respirações para uma articulada e eficaz leitura do texto.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

BOM E BELO PASTOR

Domingo IV da Páscoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. É este o significado largo do adjetivo grego kalós e do hebraico tôb, que qualifica o nome «Pastor». De notar que o Domingo IV da Páscoa, Domingo do Bom e Belo Pastor, é sempre também Dia Mundial de Oração pelas Vocações, e este ano sai ainda mais enriquecido com a celebração do «Dia da Mãe».

O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande é João 10,1-10, que surge enquadrado na Festa judaica anual da Dedicação do Templo (ver João 10,22). Situemo-nos. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Este acontecimento remonta ao ano 167 a. C. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, no ano 164 a. C., Judas Macabeu procedeu à Purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. É este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir do dia 25 do mês de Kisleu, que, no ano litúrgico 2019-2020 ocorreu entre os dias 23-30 de dezembro de 2019, e, no ano litúrgico 2020-2021, acontecerá entre os dias 11-18 de dezembro de 2020.

A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmude que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiyyah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respetivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial, cultural e, no referente a este ano, também sanitário. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz. Mais luz. Mais luz. Mais luz.

Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece desconstruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E é ainda necessário que esta Luz saia: uma «igreja em saída», como sonha e pede o Papa Francisco! E está em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom e Belo Pastor, que é Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso coração. Atear esta Luz de Jesus no nosso coração é também o segredo maior deste 57.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, a que o Papa Francisco apôs o lema: «As palavras da vocação», que articula em quatro palavras-chave: gratidão, coragem, cansaço e louvor, todas elas endereçadas a situações reais da nossa vida.

Da mesa da Escritura deste Domingo IV da Páscoa transbordam tonalidades e sabores intensos, harmoniosos e deliciosos. Música encantatória. Água pura. Óleo perfumado. Verde prado em festa. Proximidade. Ternura. Confiança. Beleza em flor e fruto. Vida a transbordar. Tudo da ordem do sublime.

A figura do Pastor belo e bom como que salta da página fechada (João 10,1-10), para surgir em pessoa à nossa frente. Ao dizer «Eu sou», Jesus está também, ao mesmo tempo, a dizer «vós sois». Está, portanto, a estabelecer uma relação pessoal de proximidade, confiança e intimidade connosco, bem expressa, de resto, pelos verbos «chamar pelo nome», «conhecer», «ouvir a voz», «conduzir», «caminhar à frente de», «seguir», «dar a vida».

Mas esta vida livre, plena e bela, assente na verdade e na confiança, sem mentiras nem imposturas, sem imposições nem malabarismos, deixa ver em expresso contraponto o seu oposto. É que também saltam da página os ladrões, os salteadores e os estranhos, que, em vez de conjugarem os verbos acima indicados para traduzir a relação do pastor belo e bom com o seu rebanho, conjugam antes os verbos «roubar», «matar», «destruir». Como esta página antiga e sempre nova de João 10,1-10 lê e desvenda os tempos de hoje!

Mas o texto grandioso de João 10,1-10 passa também mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade cristã. Assim, quando Jesus diz: «Eu sou a porta», não está a usar uma linguagem da ordem da arquitetura e da carpintaria. É de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazaré, Jesus de Deus. E esta porta serve para «entrar e sair». «Entrar e sair» é um merisma [= figura literária que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda. É a nossa vida toda sempre em referência a Jesus Cristo. Entende-se, não com a atual criação industrial de gado, em que os animais estão quase sempre em clausura e o pasto lhes é fornecido em manjedouras apropriadas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os «apriscos» [= mais abrir do que fechar, como indica o étimo aprire] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladrões, e procuravam fora o seu alimento, sempre conduzidos e sob a atenção vigilante do pastor.

Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho, e não de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, é para descrever a situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se ainda que as ovelhas «entram pela porta», mas não é para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas, hoje diríamos «confinadas». É para sair, pois é fora que encontrarão pastagem. Lição para a comunidade dos discípulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mantém saudáveis espera-nos lá fora! Que Deus nos dê então sempre um grande apetite! A messe ondulante está à espera de ceifeiros que saibam cantar (Salmo 126,5-6), porque também sabem que é Deus o Senhor da messe.

A cristalina melodia do Salmo 23, que hoje cantamos, entranha-se suavemente em nós, fazendo-nos experimentar os mil sabores da paz, do pão e da alegria que em cada dia recebemos do Pastor belo e bom que amorosamente nos guia. Ele é o companheiro para quem as horas do seu rebanho são também as suas, corre os mesmos riscos, experimenta a mesma fome e a mesma sede, o sol que cai sobre o rebanho cai também sobre ele. Deixemo-nos, portanto, conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… Como é importante recitar e saborear esta alegria pessoal que nos traz o Pastor belo e bom que nos chama e nos inebria. Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

E aí está outra vez Pedro a exortar-nos na manhã de Pentecostes: «Salvai-vos desta geração perversa» (Atos 2,40). «Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora regressastes para o pastor e supervisor (epískopos) das vossas almas» (1 Pedro 2,25). «Segui, pois, os seus passos» (1 Pedro 2,21).

Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz que chama e ama a cada irmão perdido em casa ou numa estrada de lama.

Senhor Jesus Cristo,
Único Senhor da minha vida,
Bom Pastor dos meus passos inseguros
E do silêncio inquieto do meu coração,
Cheio de sonhos, anseios, dúvidas, inquietações.

Senhor Jesus,
Faz ressoar em mim a tua voz de paz e de ternura.
Eu sei que pronuncias o meu nome com doçura,
E me envias ao encontro daquele meu irmão que Te procura.

Fico contigo sentado junto ao poço.
Alumia o meu pobre coração.
Vejo que, de toda a parte, chega gente de cântaro na mão.
Dispõe de mim, Senhor,
Nesta hora de Nova Evangelização.

Que eu saiba, Senhor,
Interpretar bem a tua melodia.
Que eu saiba, Senhor,
Dizer sempre SIM como Maria.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo IV da Páscoa – Ano A – 30.04.2023 (Atos 2, 14a.36-41)
  2. Leitura II do Domingo IV da Páscoa – Ano A – 30.04.2023 (Pedro 2, 20b-25)
  3. Domingo IV da Páscoa – Ano A – 30.04.2023 – Lecionário
  4. Domingo IV da Páscoa – Ano A – 30.04.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo III da Páscoa – Ano A – 23.04.2023

25Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 27E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. Lc 24, 25-27

Viver a Palavra

A Boa Notícia que brota do sepulcro aberto ecoa no tempo e na história para renovar a esperança e fortalecer a confiança de todos quantos trilham os caminhos tortuosos e exigentes da nossa existência. A proclamação alegre e jubilosa da manhã de Páscoa prolonga-se liturgicamente ao longo de cinquenta dias como oportunidade de aprofundar e saborear a presença de Jesus Cristo Ressuscitado.

O Evangelho deste terceiro Domingo do Tempo da Páscoa oferece-nos uma das mais belas viagens narradas pela Sagrada Escritura. Doze quilómetros de estrada, onde o céu e a terra se tocam, onde o Ressuscitado se coloca a caminho para iluminar a esperança e renovar a confiança no coração daqueles discípulos que tristes e desanimados regressam à sua terra.

«Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho». Deus precede-nos sempre e em Jesus Cristo vem ao nosso encontro. Nas angústias e incertezas, nas dores e nos sofrimentos, Jesus vem ao nosso encontro, vestido de humanidade, percorrendo as nossas estradas e fazendo caminho connosco. A fé cristã não é um rito mágico que elimina do nosso caminho as dificuldades e desafios, mas a certeza de que, não obstante os desafios e dificuldades do caminho, Deus está connosco, Deus caminha connosco, Deus oferece-nos a força e a coragem necessárias para caminhar, mesmo quando parecem fraquejar as forças e o ânimo parece desvanecer.

A Páscoa deste ano declina-se inevitavelmente com o estado de emergência e a pandemia que nos assola. Contudo, bem sabemos, que Páscoa deriva do verbo hebraico pesach que significa passar. Celebram e vivem a Páscoa aqueles que são capazes de rasgar brechas de esperança e abrir caminhos que nos permitem alargar os nossos horizontes e compreender que o amor é mais forte do que a morte e que a dor e o sofrimento se abrem ao horizonte maior e mais largo da esperança e da confiança.

Estes dois discípulos vão a caminho de Emaús. Vão desanimados e desalentados. Eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Escutaram as Suas palavras cheias de novidade e de vida, viram os Seus milagres e contemplaram o Seu amor que se fazia perdão, encontro e entrega. Contudo, «os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado»Por isso, apesar de terem depositado Nele a sua esperança e acreditado que poderia ser Ele quem libertaria Israel, «afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu». Nem a palavra das mulheres que tinham ido ao sepulcro de madrugada era suficiente para lhes oferecer qualquer réstia de esperança. Apesar de elas terem dito que o sepulcro estava vazio e que uns anjos lhes tinham anunciado que Ele estava vivo, a Ele não o viram.

Como é desconcertante a pedagogia de Jesus! Coloca-se a caminho, quer ouvir pela boca dos discípulos as razões do seu desânimo e desalento. Recorda-lhes a história de amor que Deus construiu com o Seu Povo «começando por Moisés e passando pelos Profetas». Preparado e abrasado o coração dos discípulos pela Palavra, senta-se com eles à mesa e parte o Pão. Contemplando o gesto do pão partido e repartido, os discípulos recordam aquela outra ceia em que se sentaram com Jesus à mesa e reconhecem, naquele gesto, Jesus Vivo Ressuscitado.

Diante das nossas dores e sofrimentos, das nossas dúvidas e incertezas, Jesus continua a colocar-se no meio de nós, a querer escutar a nossa vida com as suas dificuldades e faltas de esperança e convida-nos a recordar a história de amor que Deus constrói connosco. Dirige-nos a Sua palavra de amor e recorda-nos que a Sua vida feita pão partido e repartido continuará a abrir os nossos olhos para uma nova esperança que só a Sua Páscoa nos pode oferecer e garantir. in Voz Portucalense

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Atos 2,14.22-33

«Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas»

Ambiente

O nosso texto situa-nos na manhã do dia do Pentecostes, em Jerusalém. A comunidade cristã, transformada pelo Espírito, deixou a segurança das paredes do cenáculo e prepara-se para dar testemunho de Jesus, em Jerusalém e até aos confins do mundo. Nesse contexto, Lucas coloca na boca de Pedro – o porta-voz dos Doze – um discurso, que constitui um primeiro anúncio de Jesus (“kerigma”) aos habitantes da cidade e a todos os que se encontram ali para celebrar a festa judaica de “Shavu’ot” (“Pentecostes” – festa celebrada cinquenta dias após a Páscoa, e na qual se ofereciam a Deus os primeiros frutos da terra. Na época neotestamentária, celebrava a “aliança” e, sobretudo, o dom da Lei ao Povo de Deus, na montanha do Sinai).
Este discurso, colocado na boca de Pedro, não é a reprodução histórica exata de um discurso feito por Pedro junto do cenáculo, no dia da festa do Pentecostes; mas é um discurso construído pelo autor dos Atos, que reproduz, em parte, a pregação que a primitiva comunidade cristã fazia sobre Jesus.

Este discurso é muito semelhante a outros discursos do livro dos Atos (cf. Act 3,12-26; 4,8-12; 10,34-43; 13,16-41). Em qualquer um deles, aparece sempre um núcleo central que procede do kerigma primitivo e o resume: apresentação breve da atividade de Jesus, anúncio da sua morte e ressurreição e salvação que daí brota. Mesmo que o texto não reproduza exatamente a pregação de Pedro no dia do Pentecostes, reproduz a fórmula mais ou menos consagrada do kerigma primitivo e a catequese que a comunidade cristã primitiva costumava apresentar sobre Jesus.in Dehonianos.

 

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

O nosso texto insiste numa mensagem que, nestes dias, aparece com grande insistência: Deus ressuscitou Jesus e não permitiu que a morte O derrotasse… A ressurreição de Cristo prova que uma vida gasta ao serviço do plano do Pai, na entrega aos homens, não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à exaltação, à vida plena. É conveniente lembrarmos isto, sempre que nos sentirmos desiludidos, dececionados, fracassados, derrotados, criticados, por gastarmos a vida numa dinâmica de serviço, de entrega, de amor. Uma vida que se faz dom nunca é um fracasso; uma vida vivida de forma egoísta e autossuficiente, à margem de Deus e dos outros, é que é fracassada, pois não conduz à vida em plenitude.

Uma outra ideia, que está bem vincada no nosso texto, é a do testemunho… Pedro é o porta-voz de uma comunidade que conheceu e apreendeu a proposta de salvação que Cristo veio oferecer e que se sente, agora, investida da missão de dar testemunho dela diante dos homens – de todos os homens. A Igreja – da qual fazemos parte – é hoje, no mundo, a testemunha da proposta de salvação que Cristo fez; ela deve dizer a todos os homens o que aconteceu com Cristo e como Ele mostrou que a vida plena resulta do amor e do dom da vida. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão, ou é o mundo que nos convence a viver de acordo com valores diferentes dos de Jesus? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 15 (16)

Refrão: Mostrai-me, Senhor, o caminho da vida.

LEITURA II – 1 Pedro 1,17-21

«Por Ele acreditais em Deus, que O ressuscitou dos mortos e Lhe deu a glória, para que a vossa fé e a vossa esperança estejam em Deus.».

Ambiente

Já vimos no passado domingo que a Primeira Carta de Pedro é um texto dirigido aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor, provavelmente na parte final do séc. I (talvez pelos anos 80). Trata-se de comunidades do meio rural, pobres e altamente vulneráveis, nesse contexto de hostilidade que começa a manifestar-se cada vez mais contra os cristãos. As violentas e organizadas perseguições de Domiciano (que se traduzirão, para os cristãos, em massacres, torturas e sofrimentos indizíveis) estão já no horizonte próximo (década de 90).

Neste contexto, o autor da Carta exorta os crentes a manterem a fidelidade à sua fé, apesar da hostilidade atual e dos sofrimentos futuros. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coragem, coerência e fidelidade a sua opção cristã. in Dehonianos.

 

A reflexão pode considerar os seguintes passos:

            O nosso texto convida-nos, antes de mais, a contemplar o imenso amor de Deus pelos homens. Esse amor traduziu-se no envio do próprio Filho (Jesus Cristo), com uma proposta de salvação. Da fidelidade do Filho ao projeto do Pai resultou o seu confronto com o egoísmo e o pecado e a morte na cruz. Não há maior expressão de amor do que entregar a vida em favor de alguém; e é dessa forma que Deus nos ama. Temos consciência disso?

Da contemplação do amor de Deus tem de resultar uma resposta nossa. Segundo o autor da Primeira Carta de Pedro, essa resposta deve traduzir-se numa conduta nova de obediência a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos seus planos, valores e projetos. O amor de Deus inspira-me e motiva-me para viver – com coerência e fidelidade – os seus valores?

O mundo em que vivemos potencia mais o egoísmo e a autossuficiência do que o amor e a doação… Os homens do nosso tempo vivem, de forma geral, voltados para si mesmos, para os seus pequenos interesses pessoais e para a realização imediata dos seus sonhos, desejos e prioridades. Nós, os crentes, no entanto, somos convidados a viver e a anunciar a lógica de Deus, que é a lógica do amor e da entrega da vida até às últimas consequências. Qual é a lógica que domina a minha vida e que eu transmito nas minhas palavras e nos meus gestos: a lógica do amor, da entrega, da doação até às últimas consequências, ou a lógica do egoísmo, do orgulho, do amor-próprio? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Lc 24,13-35

«Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús».

«Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite».

«Eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão».

Ambiente

A história que o Evangelho deste domingo nos apresenta é exclusiva de Lucas: nenhum outro evangelista a refere. O texto põe-nos a caminhar com dois discípulos de Jesus que, no dia de Páscoa, vão de Jerusalém para Emaús.
De acordo com o autor do nosso texto, os dois homens dirigiam-se para uma aldeia chamada Emaús, a sessenta estádios de Jerusalém (cerca de 12 quilómetros). Uma localidade com esse nome, a essa distância de Jerusalém é, no entanto, desconhecida… Pensou-se que o texto poderia referir-se a Amwas, uma localidade situada a cerca de trinta quilómetros a oeste de Jerusalém (alguns manuscritos antigos não falam de sessenta estádios, mas de cento e sessenta estádios, o que nos colocaria no sítio certo); no entanto, parece ser uma distância excessiva para percorrer num dia, sem paragens e a conversar despreocupadamente.

Os comentadores destacaram, muitas vezes, a intenção teológica deste relato. Que é que isto significa? Significa que não estamos diante de uma reportagem jornalística de uma viagem geográfica, mas de uma catequese sobre Jesus. O que interessa ao autor não é escrever um relato lógico e coerente (se Lucas estivesse preocupado com a lógica e com a coerência, teria mais cuidado com a situação geográfica de Emaús; e, certamente, explicaria melhor algumas incongruências do texto – nomeadamente porque é que estes discípulos partiram para a sua aldeia na manhã de Páscoa sem investigar os rumores de que o túmulo estava vazio e Jesus tinha ressuscitado). O que interessa ao autor é explicar aos cristãos para quem escreve – na década de 80 – como é que podem descobrir que Jesus está vivo e como podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Trata-se, portanto, de uma página de catequese, mais do que a descrição fiel de acontecimentos concretos.in Dehonianos.

Na reflexão, considerar as seguintes questões:

Na nossa caminhada pela vida, fazemos, frequentemente, a experiência do desencanto, do desalento, do desânimo. As crises, os fracassos, o desmoronamento daquilo que julgávamos seguro e em que apostámos tudo, a falência dos nossos sonhos deixam-nos frustrados, perdidos, sem perspetivas. Então, parece que nada faz sentido e que Deus desapareceu do nosso horizonte… No entanto, a catequese que Lucas nos propõe hoje garante-nos que Jesus, vivo e ressuscitado, caminha ao nosso lado. Ele é esse companheiro de viagem que encontra formas de vir ao nosso encontro – mesmo se nem sempre somos capazes de O reconhecer – e de encher o nosso coração de esperança.

Como é que Ele nos fala? Como é que Ele faz renascer em nós a esperança? Como é que Ele nos passa esse suplemento de entusiasmo que nos permite continuar? Lucas responde: é através da Palavra de Deus, escutada, meditada, partilhada, acolhida no coração, que Jesus nos indica caminhos, nos aponta perspetivas novas, nos dá a coragem de continuar, depois de cada fracasso, a construir uma cidade ainda mais bonita. Que lugar é que a Palavra de Deus desempenha na minha vida? Tenho consciência de que Jesus me fala e me aponta caminhos de esperança através da sua Palavra?

Quando é que os olhos do nosso coração se abrem para descobrir Jesus, vivo e atuante? Lucas responde: é na partilha do Pão eucarístico. Sempre que nos sentamos à mesa com a comunidade e partilhamos o pão que Jesus nos oferece, damo-nos conta de que o Ressuscitado continua vivo, caminhando ao nosso lado, alimentando-nos ao longo da caminhada, ensinando-nos que a felicidade está no dom, na partilha, no amor. Sempre que nos juntamos com os irmãos à volta da mesa de Deus, celebrando na alegria e na festa o amor, a partilha e o serviço, encontramos o Ressuscitado a encher a nossa vida de sentido, de plenitude, de vida autêntica.

E quando O encontramos? Que fazer com Ele? Lucas responde: Temos de levá-l’O para os caminhos do mundo, temos de partilhá-l’O com os nossos irmãos, temos de dizer a todos que Ele está vivo e que oferece aos homens (através dos nossos gestos de amor, de partilha, de serviço) a vida nova e definitiva. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é um longo discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Deste modo, a proclamação desta leitura deve ter presente o tom jubiloso e desassombrado com que Pedro proclama a ressurreição de Jesus Cristo.

A segunda leitura requer uma acurada preparação das pausas e respirações porque apresenta longas frases e com diversas orações. Atenção que as vírgulas podem não ser necessariamente lugares de pausa.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

FICA CONNOSCO, SENHOR!

O Evangelho deste III Domingo da Páscoa convida-nos a fazer aquela que pode ser considerada a mais bela viagem de doze quilómetros de toda a Escritura. A viagem que nos leva de Jerusalém a Emaús, atual aldeia palestiniana de nome El-Kubèibeh, que guarda a memória deste maravilhoso episódio de Lucas 24,13-35.

Aperceber-nos-emos, porém, rapidamente que se trata menos de uma viagem transitiva sobre o mapa, e mais, muito mais, de uma viagem intransitiva nas estradas poeirentas do nosso embotado coração. É assim que dois deles (dýo ex autôn) – e está aqui assinalada uma rutura destes dois com a comunidade reunida em Jerusalém – saem da comunidade. O texto retrata-os bem: estão em dissensão com a comunidade, pelo caminho conversam familiarmente (homiléô) sobre as coisas acontecidas em Jerusalém (Lucas 24,14 e 15), mas também debatem (syzêtéô) (Lucas 24,15), e entram mesmo em dissensão um com o outro, opondo argumentos (antibállô) (Lucas 24,17).

Estando assim as coisas, narra o texto que um terceiro viajante, que é Jesus – informa-nos o narrador –, se aproximou deles e caminhava com eles, mas os seus olhos estavam impedidos de o reconhecer (Lucas 24,15-16). Neste ponto preciso, impõem-se duas pequenas anotações. Primeira: Jesus é sempre aquele que caminha com, faz conjunção, onde nós, e quando nós, estamos em disjunção. E não caminha connosco apenas algum tempo. Caminha connosco sempre, pois o verbo grego está no imperfeito de duração (syneporeúeto): caminhava com. Segunda: não é a incapacidade deles ou a nossa que nos impede de reconhecer Jesus. Na verdade, o texto diz, na sua crueza, que os seus olhos estavam impedidos (ekratoûnto). O verbo grego está num imperfeito passivo. Entenda-se então corretamente: é Deus que impede os nossos olhos de o reconhecerem agora. Esta indicação deixa-nos alerta para o momento em que Deus vai desimpedir os nossos olhos para o reconhecermos.

Este terceiro, que caminha sempre connosco, e que faz conjunção sobre as nossas disjunções, é também aquele que conduz o nosso caminho. Ele é o Presidente. Preside sempre. Por isso, começa a fazer perguntas: «Que são estas palavras que opondes entre vós enquanto caminhais?» (Lucas 24,17). Ele é o Mestre que nos faz perguntas pedagógicas, para nós nos dizermos, e manifestarmos o ponto de compreensão em que estamos. A primeira consequência em nós desta pergunta certeira é fazer com que mostremos a nossa tristeza e desilusão: «E eles pararam com o rosto triste» (Lucas 24,17). E depois, atónitos, perguntamos: «Tu és o único (mónos) estrangeiro residente (pároikos) em Jerusalém que não conheces as coisas que nela aconteceram nestes dias?» (Lucas 24,18). E ele pergunta outra vez pedagogicamente: «O que foi?» (Lucas 24,19). Duas anotações. Primeira: sem o sabermos, fazemos uma afirmação correta: de facto, ele é o único que não conhece as coisas como nós, mas as conhece de outra maneira. Segunda: quando ele pergunta: «O que foi?», é para nos levar a dizer a desilusão e o sem-sentido que nos habita. Ele é o Mestre que faz as perguntas, para depois poder corrigir as respostas (Lucas 24,25-27).

Nestas conversas guiadas, parece que o caminho se encurtou. Ei-los que estão em Emaús. E, chegados aí, Jesus fez como se (prosepoiêsato: aor. de prospoiéomai) fosse caminhar para mais longe (Lucas 24,28). «Fez como se» é uma finta pedagógica. O texto não diz que ele ia caminhar para mais longe. Diz que Ele «fez como se fosse…». Finta pedagógica, que provoca logo ali a nossa oração: «Fica connosco…» (Lucas 24,29). Atenção, portanto: também a nossa oração não é produção nossa; é provocada por Ele. Ele é o Mestre, o Presidente.

No seguimento do nosso pedido, ele entra para ficar connosco. Não apenas algum tempo, como fazemos nós quando visitamos os amigos. Ele entra para ficar connosco sempre, para presidir à nossa vida toda. Preside, portanto, à nossa mesa: recebe o pão, bendiz a Deus, parte o pão e dava (epedídou: imperf. de epidídômi), imperfeito de duração. Atitude que continua ainda hoje. É aqui que são abertos (por Deus) os nossos olhos, antes impedidos por Deus de reconhecer Jesus. Decifração da Cruz. Ele está vivo e presente. A sua vida é uma vida a nós dada. Sempre a ser dada, dado que, se dar reclama a presença do dom do doador ao donatário, dar-se reclama a presença do doador no donatário. É agora e daqui que vemos a luzinha que ele acendeu já no nosso coração, no caminho… Não é o escuro da noite exterior que nos mete medo. O que nos mete medo é o escuro interior. Ei-los que partem em plena noite para Jerusalém. Viagem da conjunção, fazendo o caminho inverso da primeira viagem da disjunção.

Ainda hoje é bom e salutar fazer esta viagem no mapa e no coração a Emaús (El-Kubèibeh). O peregrino encontra nesta aldeia palestiniana uma igreja, à guarda dos Padres Franciscanos da Custódia da Terra Santa, que recorda os acontecimentos narrados no sublime episódio de Lucas 24, que acabámos de recordar. A atual igreja é uma construção de inícios do século XX, estilo românico-gótico de transição, que respeita as linhas e integra algumas pedras de uma igreja construída pelos Cruzados no século XII. Esta igreja encontrava-se ainda de pé no século XIV, mas estava já em ruínas no século XV, de acordo com o testemunho de peregrinos qualificados. Esta construção dos Cruzados enquadra aquilo que se pensa serem os fundamentos da casa de Cléofas, um dos dois que, naquele primeiro dia da semana (Lucas 24,1 e 13), se dirigiam para uma aldeia, chamada Emaús, que distava 60 estádios (11-12 km) de Jerusalém.

Nas paredes desta igreja, pode ler-se em várias línguas um belo e significativo poema, que aqui passa também a conhecer a versão portuguesa: «Todos os dias/ Te encontramos/ no caminho./ Mas muitos reconhecer-Te-ão/ apenas/ quando/ repartires connosco/ o Teu pão./ Quem sabe?/ Talvez/ no último entardecer».

E o poeta inglês Thomas S. Eliot faz esta evocação da cena de Emaús: «Quem é o terceiro, que vai sempre ao teu lado? Se me ponho a contar, juntos vamos apenas eu e tu. Porém, se olho à minha frente sobre a estrada branca, vejo sempre outro que caminha ao teu lado. Quem é esse que vai sempre do outro lado?».

É o Senhor, que vós entregastes à morte, mas que Deus ressuscitou, responde Pedro, falando ao povo no dia de Pentecostes (Atos 2,14.22-33). Reside aqui, não apenas o essencial do anúncio, mas o anúncio essencial, sem glosas e sem filtros, que somos chamados a fazer, com alegria e determinação (Atos 2,23-24). Este veio fundamental percorre, como verdadeira filigrana, o Livro dos Atos dos Apóstolos: 2,23-24.32.36; 3,15-16; 4,10; 5,30-31; 10,39-40; 13,28-30; 17,31; 25,19. Chamemos-lhe «primeiro anúncio», ou, como já se diz hoje, nesta sociedade que já recebeu o «primeiro anúncio», mas que vive distante da seiva do Evangelho, «segundo (primeiro) anúncio».

Pedro continua a ensinar-nos que vivemos aqui como «estrangeiros e hóspedes», isto é, como «paroquianos» (paroikía), mas que, como Jesus e à sua maneira, somos também filhos e chamamos a Deus «nosso Pai». E é neste Senhor Jesus que, conforme desígnio eterno do Pai, deu a vida por nós, temos posta a nossa fé e a nossa esperança, muito para além das coisas corruptíveis, como prata e oiro, e de tudo o que se avalia, mede ou pesa (1 Pedro 1,17-21). É-nos pedida, portanto, vida nova de acordo com o estatuto por graça concedido.

Portanto, «o Senhor sempre diante de mim», cantamos hoje com o Salmo 16,8. Só Ele nos pode guiar no caminho da vida. Na verdade, as pedras e as coisas, as casas e as terras, nunca devem ocupar, muito menos encher, o nosso coração. Os sacerdotes, descendentes de Aarão, não tinham terra distribuída em Israel. A sua herança era o Senhor (cf. Números 18,20). E nós também cantamos no nosso Salmo de hoje, o Salmo 16, «Senhor, Tu és a minha herança» (v. 5). No seu Sermão 344, Santo Agostinho comenta assim: «O salmista não diz: “Ó Deus, dá-me uma herança”. Diz antes: “Tudo o que me podes dar fora de Ti, é vil. Sê Tu a minha herança. É a Ti que eu amo… Esperar Deus de Deus, estar cheio de Deus. Basta-te Ele; fora dele, nada te pode bastar». Esta melodia deve encher o nosso coração e este Dia de Domingo, Dia do Senhor, de doação radical, total, ao Senhor. Entenda-se: é um caminho novo que se abre à nossa frente. Sem retrocessos, sem desvios, sem distrações, sem nostalgias, sem saídas de emergência ou de segurança!

Tristes, desanimados, pesarosos,
Trilhamos um caminho apenas de regresso,
De confinamento,
Esvaziamento,
Em que não se vê nenhum acesso,
Nenhum ingresso,
Nenhuma luz
Se vê lá para os lados de Emaús.

Vem Jesus
E começa a caminhar connosco,
Vai connosco.
Não se apresenta,
Mas faz perguntas,
Corrige as respostas,
Abre as Escrituras,
Cura as fraturas,
Põe-nos a arder o coração,
Reparte o pão,
Parece que desaparece,
Mas fica mais presente do que nunca.

E pode recomeçar tudo aqui,
E aí,
Em Emaús,
Em casa e à mesa,
Com Jesus.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo III da Páscoa – Ano A – 23.04.2023 (Atos 2, 14.22-33)
  2. Leitura II do Domingo III da Páscoa – Ano A – 23.04.2023 (1 Pedro 1, 17-21)
  3. Domingo III da Páscoa – Ano A – 23.04.2023 – Lecionário
  4. Domingo III da Páscoa – Ano A – 23.04.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo II da Páscoa – Ano A – 16.04.2023

Viver a Palavra

A fé cristã não é uma aventura isolada, mas vive-se e concretiza-se na forma comunitária que a sustenta. Se a adesão a Jesus Cristo nasce do encontro íntimo e pessoal com Ele, esta adesão abre-nos a um modo novo de ser e viver em comunidade. Na verdade, se Jesus afirmou: «quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te» (Mt 6,6), também declarou: «onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20). O encontro íntimo e pessoal com Jesus Cristo desafia-nos a reforçar os laços da adesão a Ele na partilha e no encontro com aqueles que comungam a mesma fé.

O Evangelho deste Domingo situa-se: «na tarde daquele dia, o primeiro da semana». Os discípulos estavam reunidos com medo dos judeus, mas Jesus coloca-se no meio deles e saúda-os com a Sua Paz, mostra-lhes as marcas da Paixão e concede-lhes o dom do Espírito Santo para que eles sejam sinal de reconciliação e de paz junto daqueles a quem são enviados.

Mas Tomé não estava com o grupo neste momento e, tendo regressado, afirma que só acreditará se vir com os seus próprios olhos e tocar com as suas mãos. Por isso, Jesus volta a aparecer aos Seus discípulos e o Evangelho indica que tudo isto aconteceu «oito dias depois».

As indicações temporais que o Evangelho nos apresenta não são apenas as anotações jornalísticas para situar a ação descrita. Nestas indicações temporais encontramos o ritmo da vida da Igreja: «o primeiro da semana» e «oito dias depois». Este é o ritmo da assembleia cristã que hebdomadariamente, isto é, semanalmente, se reúne, Domingo após Domingo, para celebrar a sua fé e proclamar a certeza de que o Ressuscitado acompanha a Sua Igreja, oferecendo-lhe a Sua Paz e concedendo-lhe o dom do Espírito.

Por isso cada Domingo é o Dia do Senhor, dia de festa e de alegria, onde a comunidade cristã reunida à volta da mesa do altar, escutando a Palavra do Senhor e partilhando o Seu pão, renova a certeza desse amor maior que se faz entrega total e plena na Cruz. Como Tomé, quando nos afastamos da comunidade, o desafio de acreditar torna-se mais difícil e exigente. Aquele que se afasta da comunidade afasta-se da experiência comunitária de Jesus, do lugar privilegiado onde Deus se revela e manifesta como Rosto da misericórdia do Pai.

Deste modo, somos chamados a redescobrir a alegria da vida comunitária mesmo quando estamos impedidos de nos reunir fisicamente nas nossas Igrejas. Mas mais do que isso, somos chamados a tomar consciência que a vida comunitária não se traduz apenas na vivência comum da assembleia dominical. Na primeira leitura deste Domingo, escutámos como na comunidade nascente aliada à oração, à escuta do ensino dos Apóstolos e à fração do Pão está a comunhão fraterna que me faz olhar o outro como irmão. in Voz Portucalense

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No ano 2000, o Papa S. João Paulo II canonizou Santa Faustina e declarou que daquele dia em diante, o segundo Domingo da Páscoa seria também designado como Domingo da Misericórdia. Além disso, S. João Paulo II «estabeleceu que o citado Domingo seja enriquecido com a Indulgência Plenária, para que os fiéis possam receber mais amplamente o dom do conforto do Espírito Santo e desta forma alimentar uma caridade crescente para com Deus e o próximo e, obtendo eles mesmos o perdão de Deus, sejam por sua vez induzidos a perdoar imediatamente aos irmãos» (Decreto da Penitenciaria Apostólica, 2002). Neste Domingo da Misericórdia aliada à prática das diversas devoções deixadas por Santa Faustina como o Terço da Misericórdia, poderá ser oportuna a meditação em família de uma das Parábolas da Misericórdia. Além disso, podemos usar as redes sociais e os nossos meios de comunicação à distância para agradecer àqueles que são para nós sinal próximo e imediato da misericórdia de Deus. in Voz Portucalense

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Estamos em Tempo Pascal. Percorremos os 50 dias até ao Pentecostes. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Atos 2,42-47

«Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações.».

 

Ambiente

Depois de descrever a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos no cenáculo (cf. Act 2,1-13) e de apresentar (através de um discurso posto na boca de Pedro) um resumo do testemunho dado pelos primeiros discípulos sobre Jesus (cf. Act 2,14-36), Lucas refere o resultado da pregação dos apóstolos: as pessoas aderem em massa (Lucas fala de três mil pessoas que, nesse dia, se juntaram aos discípulos) e nasce a comunidade cristã de Jerusalém (cf. Act 2,37-41). São os primeiros passos de um caminho que a Igreja de Jesus vai percorrer, desde Jerusalém a Roma (o coração do mundo antigo).

O nosso texto faz parte de um conjunto de três sumários, através dos quais Lucas descreve aspetos fundamentais da vida da comunidade cristã de Jerusalém. Este primeiro sumário é dedicado ao tema da unidade e ao impacto que o estilo cristão de vida provocou no povo da cidade (os outros dois sumários tratam da partilha dos bens – cf. Act 4,32-35 – e do testemunho da Igreja através da atividade miraculosa dos apóstolos – Act 5,12-16).

Naturalmente, este sumário não é um retrato histórico rigoroso da comunidade cristã de Jerusalém, no início da década de 30 (embora possa ter algumas bases históricas). Quando Lucas escreve este relato (década de 80), arrefeceu já o entusiasmo inicial dos cristãos: Jesus nunca mais veio para instaurar definitivamente o “Reino de Deus” e posicionam-se no horizonte próximo as primeiras grandes perseguições… Há algum desleixo, falta de entusiasmo, monotonia, divisão e confusão (até porque começam a aparecer falsos mestres, com doutrinas estranhas e pouco cristãs). Neste contexto, Lucas recorda o essencial da experiência cristã e traça o quadro daquilo que a comunidade deve ser.in Dehonianos.

 

Para a reflexão e atualização, considerar as seguintes linhas:

A comunidade cristã é uma família de irmãos, reunida à volta de Cristo, animada pelo Espírito e que tem por missão testemunhar na história a salvação. Os homens do séc. XXI podem acreditar ou não na ressurreição de Cristo; mas têm de descobrir a vida nova e plena que Deus lhes oferece, através do testemunho dos discípulos de Jesus. A comunidade cristã tem de ser uma proposta diferente, que mostra aos homens como o amor, a partilha, a doação, o serviço, a simplicidade e a alegria são geradores de vida e não de morte.

A comunidade cristã é uma comunidade de irmãos. A minha comunidade cristã é uma comunidade de irmãos que vivem no amor, ou é um grupo de pessoas isoladas, em que cada um procura defender os seus interesses, mesmo que para isso tenha de magoar os outros? No que me diz respeito, esforço-me por amar todos, por respeitar a liberdade e a dignidade de todos, por potenciar os contributos e as qualidades de todos?

A comunidade cristã é, também, uma comunidade assídua à catequese dos apóstolos. A minha comunidade cristã é uma comunidade que se constrói à volta da Palavra de Deus, que escuta e que partilha a Palavra de Deus? Da minha parte, procuro descobrir as propostas de Deus num diálogo comunitário e numa partilha com os irmãos, ou deixo-me levar por pretensas “revelações” pessoais, convicções pessoais, impressões pessoais – que muitas vezes não são mais do que formas de manipular a Palavra de Deus para “levar a água ao meu moinho”?

A comunidade cristã é, ainda, uma comunidade que celebra liturgicamente a sua fé. A celebração da fé comunitária dá-nos a dimensão de um povo peregrino, que caminha unido, voltado para o seu Senhor e tendo Deus como a sua referência. Da celebração comunitária da fé, sai uma comunidade mais fortalecida, mais consciente da vida que une todos os seus membros, mais adulta e com mais força para ser testemunha da salvação. O que é que significa, para mim, a celebração comunitária da fé? A celebração eucarística é um rito aborrecido, a que “assisto” por obrigação, ou uma verdadeira experiência de encontro com o Jesus do amor e do dom da vida e uma experiência de amor partilhado com os meus irmãos de fé?

A comunidade cristã é uma comunidade de partilha. No centro dessa comunidade está o Cristo do amor, do serviço, do dom da vida… O cristão não pode, portanto, viver fechado no seu egoísmo, indiferente à sorte dos outros irmãos. Em concreto, o nosso texto fala na partilha dos bens… Uma comunidade onde alguns desperdiçam os bens e onde outros não têm o suficiente para viver dignamente será uma comunidade que testemunha, diante dos homens, esse mundo novo de amor que Jesus veio propor? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão: Aclamai o Senhor, porque Ele é bom: o seu amor é para sempre.

LEITURA II – 1 Pedro 1,3-9

«Isto vos enche de alegria, embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo, passar por diversas provações».

 

Ambiente

A primeira Carta de Pedro é uma carta dirigida aos cristãos de cinco províncias romanas da Ásia Menor (a carta cita explicitamente a Bitínia, o Ponto, a Galácia, a Ásia e a Capadócia – cf. 1 Pe 1,1). O seu autor apresenta-se com o nome do apóstolo Pedro; no entanto, a análise literária e teológica não confirma que Pedro seja o autor deste texto: em termos literários, a qualidade literária da carta não corresponde à maneira de escrever de um pescador do lago de Tiberíades, pouco instruído; a teologia apresentada demonstra uma reflexão e uma catequese bem posteriores à época de Pedro; e o “ambiente” descrito na carta corresponde, claramente, à situação da comunidade cristã no final do séc. I. Se Pedro morreu em Roma durante a perseguição de Nero (por volta do ano 67), não pode ser o autor deste escrito. O autor da carta será, portanto, um cristão anónimo culto – provavelmente um responsável de alguma comunidade cristã – e que conhece profundamente a situação das comunidades cristãs da Ásia Menor. Ele escreve em finais do séc. I (nunca antes dos anos 80), provavelmente a partir de uma comunidade cristã não identificada da Ásia Menor.

Os destinatários desta carta são as comunidades cristãs que vivem em zonas rurais da Ásia Menor. A maioria destes cristãos são pastores ou camponeses que cultivam as propriedades das classes dominantes. Também há, nestas comunidades, pequenos proprietários que vivem em aldeias, à margem das grandes cidades. De qualquer forma, trata-se de gente que vive no meio rural, economicamente débil, vulnerável a um ambiente que começa a manifestar alguma hostilidade para com o cristianismo.

O autor da carta conhece as provações que estes cristãos sofrem todos os dias. Exorta-os, no entanto, a manterem-se fiéis à sua fé, apesar das dificuldades. Convida-os a olharem para Cristo, que passou pela experiência da paixão e da cruz, antes de chegar à ressurreição; e exorta-os a manterem a esperança, o amor, a solidariedade, vivendo com alegria, coerência e fidelidade a sua opção cristã. in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, os seguintes dados:

Antes de mais, a Palavra de Deus convida-nos a tomar consciência de que, pelo batismo, nos identificamos com Cristo. A nossa vida tem de ser, como a de Cristo, vivida na obediência ao Pai e na entrega aos homens nossos irmãos: é esse o caminho que conduz à ressurreição. A lógica do mundo diz-nos que servir e dar a vida é um caminho de fracos e perdedores; a lógica de Deus diz-nos que a vida plena resulta do amor que se faz dom. Em quem é que acreditamos? De acordo com que lógica é que conduzimos a nossa vida e fazemos as nossas opções?

A questão do sentido do sofrimento (sobretudo do sofrimento que atinge o justo) é tão antiga como o homem; as respostas que o homem foi encontrando para essa questão foram sempre parciais e insatisfatórias… A Palavra de Deus que hoje nos é proposta não esclarece definitivamente a questão, mas acrescenta mais uma achega: o sofrimento ajuda-nos, muitas vezes, a crescer, a amadurecer, a despirmo-nos de orgulhos e autossuficiências, a confiar mais em Deus… Somos convidados a tomar consciência de que o sofrimento pode ser, também, um caminho para ressuscitarmos como homens novos, para chegarmos à vida plena e definitiva.

De qualquer forma, somos convidados a percorrer a nossa vida com esperança, olhando para além dos problemas e dificuldades que dia a dia nos fazem tropeçar e vendo, no horizonte, a salvação definitiva. Isto não significa alhearmo-nos da vida presente; mas significa enfrentar as contrariedades e os dramas de cada dia com a serenidade e a paz de quem confia em Deus e no seu amor. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 20,19-31

«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana».

«Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles».

«Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto».

 

Ambiente

Continuamos na segunda parte do Quarto Evangelho, onde nos é apresentada a comunidade da Nova Aliança. A indicação de que estamos no “primeiro dia da semana” faz, outra vez, referência ao tempo novo, a esse tempo que se segue à morte/ressurreição de Jesus, ao tempo da nova criação.

A comunidade criada a partir da ação de Jesus está reunida no cenáculo, em Jerusalém. Está desamparada e insegura, cercada por um ambiente hostil. O medo vem do facto de não terem ainda feito a experiência de Cristo ressuscitado.in Dehonianos.

Ter em conta, na reflexão, os seguintes desenvolvimentos:

A comunidade cristã gira em torno de Jesus, constrói-se à volta de Jesus e é d’Ele que recebe vida, amor e paz. Sem Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude; sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos, em conflito, e não seremos uma comunidade de irmãos… Na nossa comunidade, Cristo é verdadeiramente o centro? É para Ele que tudo tende e é d’Ele que tudo parte?

A comunidade tem de ser o lugar onde fazemos verdadeiramente a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. É isso que a nossa comunidade testemunha? Quem procura Cristo, encontra-O em nós?

Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas e egoístas que encontramos Jesus ressuscitado; mas encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida. O que é que significa, para mim, a Eucaristia? in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é a descrição da vitalidade e comunhão vivida na comunidade nascente. A proclamação desta leitura deve ter presente o tom narrativo, mas também o entusiasmo e a maravilha do modo como cresciam em número e santidade os primeiros cristãos.

A segunda leitura é um hino de ação de graças ao Pai pela salvação revelada em Jesus Cristo. Ao tom de louvor e ação de graças que deve caracterizar a proclamação desta leitura, junta-se a recomendação de uma acurada preparação das pausas e respirações sobretudo nas frases mais longas e com diversas orações.

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

O PERCURSO DE TOMÉ, CHAMADO GÉMEO

Novos percursos se abrem, e é aqui que se inicia o Evangelho do Domingo II da Páscoa (João 20,19-31), que o Papa João Paulo II, em 30 de abril do ano 2000, consagrou como «Domingo da Divina Misericórdia». Os discípulos estão num lugar, com as portas fechadas, por medo dos judeus. O Ressuscitado, vida nova e modo novo de estar presente, que nada nem ninguém pode reter, vem e fica no MEIO deles, o lugar da Presidência e da Precedência, e saúda-os: «A paz convosco!». Mostra-lhes as mãos e o lado, sinais que identificam o Ressuscitado com o Crucificado, e agrafa-os à sua missão: «Como o Pai me enviou (apéstalken: perf. de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)». O envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): está sempre em missão; o nosso está no presente, e passa. O presente da nossa missão aparece, portanto, agrafado à missão de Jesus, e não faz sentido sem ela e sem Ele. Nós implicados e imbricados n’Ele e na missão d’Ele, sabendo nós que Ele está connosco todos os dias (cf. Mateus 28,20). É-nos dito que os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, também eles vêm com um olhar histórico (tempo aoristo) a identidade do Senhor. O sopro de Jesus sobre eles é o sopro criador (emphysáô), com o Espírito, para a missão frágil-forte do Perdão. Este sopro só aparece aqui em todo o Novo Testamento! Mas não é difícil construir uma bela ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.

A identidade do Senhor Ressuscitado está para além do rosto. Por isso, vê-lo não implica necessariamente reconhecê-lo, como sucede em não poucas páginas dos Evangelhos. A identidade do Ressuscitado não é do domínio da fotografia. Vem de dentro. Reside na sua vida a nós dada por amor até ao fim, aponta para a Cruz. Por isso, Jesus mostra as mãos e o lado, sinais abertos para entrar no sacrário da sua intimidade, dádiva infinita que rebenta as paredes dos nossos olhos embotados e do nosso coração empedernido. Entenda-se também que a missão que nos é confiada é mostrar Jesus. Está bom de ver que não basta exibir as capas do catecismo que mostram um Jesus de olhos azuis. Só o podemos mostrar com a nossa vida dele recebida, e igualmente dada e comprometida.

O narrador informa-nos logo a seguir que, afinal, Tomé (Toma’), chamado Gémeo (Dídymos), não estava com eles quando veio Jesus. Dídymos é, na verdade, a tradução literal, em grego, do aramaico Toma’ [= «Gémeo»]. Mas os outros diziam-lhe repetidamente (élegon: imperf. de légô), imperfeito de duração, com a mesma linguagem da Madalena, mas no plural: «Vimos (heôrákamen: perf. de horáô) o Senhor!» (João 20,25). Portanto, também eles são testemunhas, pois viram e continuam a ver o Senhor, de acordo com o tempo perfeito do verbo grego. Mas Tomé quer tudo controlado e verificado, ponto por ponto, e refere: «Se eu não vir (ídô: conj. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) nas suas mãos a marca dos cravos, e não meter o meu dedo na marca dos cravos e não meter a minha mão no seu lado, não acreditarei» (João 20,25).

Novo desarme: oito dias depois, estavam outra vez os discípulos com as portas fechadas (mas o medo já não é mencionado), e Tomé estava com eles. Veio Jesus, ficou no MEIO, saudou-os com a paz, e dirigiu-se logo a Tomé desta maneira: «Traz o teu dedo aqui e vê (íde: imper. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo) as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Aí está Tomé adivinhado, desvendado e desarmado. Também ele podia ter pensado: «E como é que ele sabia que eu queria fazer aquilo?». Tomé cai aqui, adivinhado e antecipado, por assim dizer, rasteirado, precedido por Aquele que nos precede sempre. Não quer tirar mais provas. Confessa de imediato: «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), uma das mais belas profissões de fé de toda a Escritura. E Jesus diz para ele: «Porque me viste e continuas a ver (heôrakás me), tempo perfeito de horáô, acreditaste e continuas a acreditar (pepísteukas), tempo perfeito de pisteúô; felizes (makárioi) os que, não tendo visto (idóntes: part. aor2 de horáô) com um olhar histórico (tempo aoristo), acreditaram (pisteúsantes: part. aor. de pisteúô)!» (João 20,29), tempo aoristo, fé e confiança, adesão histórica. Esta felicitação é para nós.

Notável o percurso dos Discípulos. Fechados e com medo, viram Jesus entrar e ficar no MEIO deles, sem que as portas e as paredes constituíssem obstáculo. Trocaram o medo pela alegria, e também eles começaram a ver de forma continuada o Senhor e a dizê-lo repetidamente. Notável e exemplar para nós o percurso de Tomé, chamado Gémeo: não estava com a comunidade, tão-pouco aceitou o seu testemunho; queria provas. Mas quando veio Jesus e o adivinhou, entrando dentro dele, precedendo-o e presidindo-o, entregou-se completamente! Tomé, chamado Gémeo! Irmão gémeo! Irmão gémeo de quem? Meu e teu, assim pretende o narrador. De vez em quando, também nós não estamos com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. Por vezes, também duvidamos e queremos provas. Como Tomé, chamado Gémeo. Salta à vista que também devemos estar com a comunidade. Como Tomé, chamado Gémeo. E professar convictamente a nossa fé no Ressuscitado que nos preside (no MEIO) e nos precede sempre. Como Tomé, chamado Gémeo.

A lição do Livro dos Atos dos Apóstolos (2,42-47, mas ver também 4,32-35 e 5,12-16) deste Domingo II da Páscoa é outra vez soberba. Trata-se de uma visita guiada ao Cenáculo, a primeira Catedral da Igreja nascente – mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações –, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fração do pão (3) e a oração (4). Com a boca cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

Filhos renascidos da grande misericórdia do nosso Deus, verificada pela Ressurreição de Jesus Cristo, exultamos de alegria. Não o tendo visto na história (aoristo de ideîn), nós o amamos agora, e não o vendo agora com os nossos olhos (horôntes), acreditamos agora (pisteúontes). A Primeira Carta de Pedro (1,3-9) apresenta-nos uma síntese feliz da visão nova da fé e da obra da misericórdia de Deus em nós, os dois grandes temas deste Domingo II da Páscoa ou da Divina Misericórdia.

Cantemos, por isso, o Salmo 118, que é o último canto do chamado «Pequeno Hallel Pascal» (113-118), mas que era seguramente cantado noutras festividades de Israel, nomeadamente na Festa das Tendas, tendo em conta o seu teor processional, e até a sua distribuição por coros. Este Salmo levanta-se do meio da alegria própria da Festa [«Este é o dia que o Senhor fez,/ nele nos alegremos e exultemos!»: v. 24], e eleva ao Deus sempre fiel uma grande Ação de Graças por todas as maravilhas que Ele tem realizado em favor do seu povo. Sim, toda a nossa energia e toda a melodia que nos habita é o próprio Senhor, conforme o belíssimo v. 14: «Minha força e meu canto YAH!», que soa assim em hebraico: ‘azzî wezimrat YAH. Além do nosso Salmo, a expressão densa e impressiva encontra-se ainda em Êxodo 15,2 e Isaías 12,2. YAH está por YHWH. O refrão que vamos cantar aparece a abrir e a fechar este grande Salmo, e constitui como que o envelope onde guardamos a bela melodia que cantamos. Soa assim: «Louvai o Senhor porque Ele é bom, / porque para sempre é o seu amor!» (vv. 1 e 29).

Senhor Jesus,

Há tanta gente que Te procura à pressa e Te quer ver.

Mas quando dizem que Te querem ver,

Não é para Te conhecer.

É o teu rosto, a cor dos teus olhos e cabelos,

A tez da tua pele, a tua forma de vestir que os atrai e contagia.

Querem ver-te como se fosse numa fotografia.

Mas Tu, Senhor Jesus Ressuscitado,

Quando Te dás a conhecer a nós,

Não mostras o rosto,

Uma fotografia,

O cartão de cidadão.

Se fosse assim,

Mal seria que os teus amigos Te não reconhecessem.

E o facto é que,

Quando surges no meio deles,

Não Te reconhecem.

E em vez do rosto,

São, afinal, as mãos e o lado que apresentas.

Entenda-se: é a tua maneira de viver que nos queres fazer ver.

Na verdade, a tua identidade é dar a vida,

É dar a mão e o coração.

É essa a tua lição, a tua paixão, a tua ressurreição.

Senhor, dá-nos sempre desse pão!

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo II da Páscoa – Domingo da Divina Misericórdia – Ano A – 16.04.2023 (Atos 2, 42-47)
  2. Leitura II do Domingo II da Páscoa – Domingo da Divina Misericórdia – Ano A – 16.04.2023 (1 Pedro 1, 3-9)
  3. Domingo II da Páscoa – Ano A – 16.04.2023 – Lecionário
  4. Domingo II da Páscoa – Ano A – 16.04.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor – Ano A – 09.04.2023
Missa do Dia

8Então, entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, 9pois ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. 10A seguir, os discípulos regressaram a casa. Jo 20, 8-10

Viver a Palavra

«No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro».

Maria Madalena sai de casa muito cedo, ainda escuro no céu e, mais ainda, no seu coração. Ela dirige-se ao sepulcro Daquele que lhe ofereceu uma vida nova e uma possibilidade renovada de escrever a sua existência quando a libertou dos seus «sete demónios» (Mc 16,9). Ao contrário das narrativas de Marcos e de Lucas que indicam que as mulheres que se dirigem ao sepulcro levam perfumes e aromas, seguindo assim as tradições funerárias próprias da sua cultura, nesta narrativa, Maria Madalena nada leva consigo. No crepúsculo daquela jornada que marcará indelevelmente o curso da história, ela dirige-se ao sepulcro, transportando apenas a história de libertação e de vida que o crucificado lhe ofereceu quando outrora a acolheu e renovou no seu coração a esperança e a confiança. Ela acorre ao sepulcro levando no seu coração a certeza que escreve Gabriel Marcel: «amar é dizer: tu não morrerás!». Como pode morrer Aquele que lhe ofereceu um horizonte novo de vida? Como pode estar ausente Aquele cuja presença transformou o seu coração e a sua história?

Contudo, abeiramo-nos da Páscoa do Senhor como Maria Madalena do sepulcro e, se caminhamos ainda no escuro da noite, levamos connosco a história de ressurreição e de vida que o Ressuscitado inscreve na nossa existência. Não podemos deixar que as trevas e sombras, que tantas vezes nos invadem, nos impeçam de fazer ecoar no tempo e na história a certeza de que o sepulcro vazio é anúncio de vida nova. Tão vazio, mas tão cheio de sinais, aquele sepulcro anuncia que um tempo novo se abre diante da humanidade, porque a morte e o pecado foram vencidos pela força transformadora do amor.

Cristo ressuscitou e a Sua ressurreição enche de esperança a nossa vida e a nossa história. Cristo crucificado atravessando o limiar da dor e do sofrimento, ensina-nos que as trevas e a dor não têm mais a última palavra. Como recorda Luigi Maria Epicoco: «não somos chamados à Cruz, mas à Ressurreição, tal como uma mãe não é chamada às dores, mas ao parto». Somos chamados à ressurreição e à vida e ainda que o sofrimento e a dor possam integrar a nossa existência, e, por isso, caminhamos animados pela certeza que cantamos no Salmo: «este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria».

«Cristo Ressuscitou! Aleluia! Aleluia». Estas palavras cheias de alegria e de esperança são repetidas mundo fora por milhões de homens e mulheres, trazendo a certeza de que nem a morte, nem a pedra do sepulcro, por mais pesada que seja, conseguiu conter o grito do amor que brotou do coração de Deus e que em Jesus Cristo quer abraçar o coração da humanidade. Cantemos de alegria porque o Senhor ressuscitou, renovemos no nosso coração a confiança e a esperança porque Ele está vivo e caminha connosco. Como nos exorta S. Paulo: «se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra». De olhos postos no céu, caminhando com os pés bem assentes na terra, atravessamos os trilhos da história na certeza de que Cristo está vivo e que a Sua ressurreição continuará a fazer irromper nas sombras e trevas deste mundo a certeza da mais bela e luminosa Primavera. in Voz Portucalense

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A alegria que brota da Ressurreição do Senhor prolonga-se ao longo de cinquenta dias na celebração do Tempo Pascal. Os diversos sinais litúrgicos, como o círio pascal, os ritos da aspersão, entre outros sinais e gestos, favorecem a tomada de consciência de que o Tempo Pascal se prolonga até ao Pentecostes. Porém, ao contrário do Tempo Quaresmal onde se propõem tantas atividades e dinâmicas, frequentemente o Tempo Pascal aparece desprovido de uma proposta de reflexão e vivência além da Eucaristia Dominical. Por isso, seria de grande proveito para os fiéis, a valorização deste tempo com a proposta de momentos de oração e reflexão como a Via Lucis, as Catequeses ou celebrações mistagógicas, entre outras propostas criativas e dinâmicas, em jeito de saída missionária, que estimulem a comunidade a testemunhar a alegria do Ressuscitado. in Voz Portucalense

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Ainda em Quaresma, estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Atos 10, 34a.37-43

«Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos».

Ambiente

A obra de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) aparece entre os anos 80 e 90, numa fase em que a Igreja já se encontra organizada e estruturada, mas em que começam a surgir “mestres” pouco ortodoxos, com propostas doutrinais estranhas e, às vezes, pouco cristãs. Neste ambiente, as comunidades cristãs começam a necessitar de critérios claros que lhes permitam discernir a verdadeira doutrina de Jesus, da falsa doutrina dos falsos mestres.

Lucas apresenta, então, a Palavra de Jesus, transmitida pelos apóstolos sob o impulso do Espírito Santo: é essa Palavra que contém a proposta libertadora que Deus quer apresentar aos homens. Nos Atos, em especial, Lucas mostra como a Igreja nasce da Palavra de Jesus, fielmente anunciada pelos apóstolos; será esta Igreja, animada pelo Espírito, fiel à doutrina transmitida pelos apóstolos, que tornará presente o plano salvador do Pai e o fará chegar a todos os homens.

Neste texto, em concreto, Lucas propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (cf. Act 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a sua família (cf. Act 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze (o etíope de que se fala em Act 8,26-40 já era “prosélito”, isto é, simpatizante do judaísmo). Significa que a vida nova que nasce de Jesus é para todos os homens. in Dehonianos.

 

A reflexão pode partir das seguintes coordenadas:

A ressurreição de Jesus é a consequência de uma vida gasta a “fazer o bem e a libertar os oprimidos”. Isso significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se esforça por vencer o egoísmo, a mentira, a injustiça e por fazer triunfar o amor, está a ressuscitar; significa que, sempre que alguém – na linha de Jesus – se dá aos outros e manifesta, em gestos concretos, a sua entrega aos irmãos, está a construir vida nova e plena. Eu estou a ressuscitar (porque caminho pelo mundo fazendo o bem e libertando os oprimidos), ou a minha vida é um repisar os velhos esquemas do egoísmo, do orgulho, do comodismo?

A ressurreição de Jesus significa, também, que o medo, a morte, o sofrimento, a injustiça, deixam de ter poder sobre o homem que ama, que se dá, que partilha a vida. Ele tem assegurada a vida plena – essa vida que os poderes do mundo não podem destruir, atingir ou restringir. Ele pode, assim, enfrentar o mundo com a serenidade que lhe vem da fé. Estou consciente disto, ou deixo-me dominar pelo medo, sempre que tenho de agir para combater aquilo que rouba a vida e a dignidade, a mim e a cada um dos meus irmãos?

Aos discípulos pede-se que sejam as testemunhas da ressurreição. Nós não vimos o sepulcro vazio; mas fazemos, todos os dias, a experiência do Senhor ressuscitado, que está vivo e que caminha ao nosso lado nos caminhos da história. A nossa missão é testemunhar essa realidade; no entanto, o nosso testemunho será oco e vazio se o nosso testemunho não for comprovado pelo amor e pela doação (as marcas da vida nova de Jesus). in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão: Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

LEITURA II – Col 3, 1-4

«Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus».

Ambiente

Quando escreveu a Carta aos Colossenses, Paulo estava na prisão (em Roma?). Epafras, seu amigo, visitou-o e falou-lhe da “crise” por que estava a passar a Igreja de Colossos. Alguns doutores locais ensinavam doutrinas estranhas, que misturavam especulações acerca dos anjos (cf. Col 2,18), práticas ascéticas, rituais legalistas, prescrições sobre os alimentos e a observância de determinadas festas (cf. Col 2,16.21): tudo isso deveria (na opinião desses “mestres”) completar a fé em Cristo, comunicar aos crentes um conhecimento superior de Deus e dos mistérios cristãos e possibilitar uma vida religiosa mais autêntica. Contra este sincretismo religioso, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo.

O texto que nos é proposto como segunda leitura é a introdução à reflexão moral da carta (cf. Col 3,1-4,6). Depois de apresentar a centralidade de Cristo no projeto salvador de Deus (cf. Col 1,13-2,23), Paulo recorda aos cristãos de Colossos que é preciso viver de forma coerente e verdadeiro o compromisso assumido com Cristo. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões, na reflexão:

O batismo introduz-nos numa dinâmica de comunhão com Cristo ressuscitado. Tenho consciência de que o meu batismo significou um compromisso com Cristo? Quando, de alguma forma, tenho um papel ativo na preparação ou na celebração do sacramento do batismo, tenho consciência – e procuro passar essa mensagem – de que o sacramento não é um ato tradicional ou social (que, por acaso, até proporciona fotografias bonitas), mas um compromisso sério e exigente com Cristo?

A minha vida tem sido uma caminhada coerente com esta dinâmica de vida nova que começou no dia em que fui batizado? Esforço-me, realmente, por me despojar do “homem velho”, egoísta e escravo do pecado, e por me revestir do “homem novo”, que se identifica com Cristo e que vive no amor, no serviço, na doação aos irmãos? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 20, 1-9

«Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro».

«Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos».

Ambiente

Na primeira parte do Quarto Evangelho (cf. Jo 4,1-19,42), João descreve a atividade criadora e vivificadora do Messias (o último passo dessa atividade destinada a fazer surgir o Homem Novo é, precisamente, a morte na cruz: aí, Jesus apresenta a última e definitiva lição – a lição do amor total, que não guarda nada para si, mas faz da sua vida um dom radical ao Pai e aos irmãos); na segunda parte (cf. Jo 20,1-31), João apresenta o resultado da ação de Jesus: a comunidade de Homens Novos, recriados e vivificados por Jesus, que com Ele aprenderam a amar com radicalidade. Trata-se dessa comunidade de homens e mulheres que se converteram e aderiram a Jesus e que, em cada dia – mesmo diante do sepulcro vazio – são convidados a manifestar a sua fé n’Ele.in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

A lógica humana vai na linha da figura representada por Pedro: o amor partilhado até à morte, o serviço simples e sem pretensões, a entrega da vida, só conduzem ao fracasso e não são um caminho sólido e consistente para chegar ao êxito, ao triunfo, à glória; da cruz, do amor radical, da doação de si, não pode resultar realização, felicidade, vida plena. É verdade que é esta a perspetiva da cultura dominante; é verdade que é esta a perspetiva de muitos cristãos (representados na figura de Simão Pedro). Como me situo face a isto?

A ressurreição de Jesus prova, precisamente, que a vida plena, a vida total, a transfiguração total da nossa realidade finita e das nossas capacidades limitadas passa pelo amor que se dá, com radicalidade, até às últimas consequências. Tenho consciência disso? É nessa direção que conduzo a caminhada da minha vida?

Pela fé, pela esperança, pelo seguimento de Cristo e pelos sacramentos, a semente da ressurreição (o próprio Jesus) é depositada na realidade do homem/corpo. Revestidos de Cristo, somos nova criatura: estamos, portanto, a ressuscitar, até atingirmos a plenitude, a maturação plena, a vida total (quando ultrapassarmos a barreira da morte física). Aqui começa, pois, a nova humanidade.

A figura de Pedro pode também representar, aqui, essa velha prudência dos responsáveis institucionais da Igreja, que os impede de ir à frente da caminhada do Povo de Deus, de arriscar, de aceitar os desafios, de aderir ao novo, ao desconcertante, ao incompreensível. O Evangelho de hoje sugere que é, precisamente aí que, tantas vezes, se revela o mistério de Deus e se encontram ecos de ressurreição e de vida nova. in Dehonianos

Para os leitores:

            A primeira leitura é marcada por um longo discurso de Pedro anunciando a ressurreição de Jesus. A proclamação desta leitura deve ter em atenção as longas frases com diversas orações que exigem um especial cuidado na respiração e nas pausas.

A brevidade da segunda leitura, tirada da Carta aos Colossenses, não deve diminuir o cuidado na sua preparação. A ressurreição de Cristo é fonte de transformação da vida dos fiéis. Deste modo, a proclamação desta leitura deve ser marcada pelo tom exortativo, valorizando as formas verbais no imperativo: «aspirai» e «afeiçoai-vos».

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

TÚMULO ABERTO, MAS NÃO VAZIO: CHEIO DE SINAIS!

«Esta é a Obra do Senhor!», assim gritava com «voz forte» (grito de Vitória e de Revelação) Jesus na Cruz, deci­frando a Cruz, recitando o Salmo 22 todo (entenda‑se a meto­nímia de Mateus 27,46 e Marcos 15,34, citando apenas o início). Par­ticularmente ao longo da Semana Santa, dita «Grande» ou «dos Mistérios» pela Igreja do Oriente, Deus expôs (proétheto) diante dos nossos olhos atónitos – e logo a partir do Domingo de Ramos – o Rei Vitorioso no seu Trono de Graça e de Glória, que é a Cruz (veja‑se aqui demoradamente Romanos 3,24‑25), tomando posse da sua Igreja‑Esposa para o efeito redimida na «água e no sangue» (João 19,34; Efésios 5,25‑27), isto é, no Espírito Santo, conforme ensina Jesus com «voz forte» (!) no grande texto de João 7,37-39. Para aqui apontava também a «caminhada» quaresmal, a qual – vê‑se agora claramente – só daqui podia afinal ter partido. É este «o Mistério Grande» (Efésios 5,32) que nos foi dado a conhecer por Deus (Romanos 16,25‑26; 1 Coríntios 2,7‑10; Efésios 3,3‑11; Colossenses 1,26‑27). E só Deus pode dar tanto a conhecer (veja‑se agora o texto espantoso de Efésios 3,14‑21). É quanto Deus operou na Cruz! Por isso, exultamos e nos alegramos (com a Chará, a alegria grande da Páscoa), pois «este é o Dia que o Senhor fez» (Salmo 118,24) e em que o Senhor nos fez! É o «Primeiro Dia» (Mateus 28,1; Marcos 16,2 e 9; Lucas 24,1; João 20,1 e 19; Atos 20,7; 1 Coríntios 16,2), e tal permanecerá para sempre (!), o «Dia do Senhor, o Dia Grande» (Atos 2,20; Apocalipse 1,10), o Domingo, todos os Domingos, o Ano Litúrgico todo, o Ano da Graça do Senhor, em que a Igreja‑Esposa, redi­mida, santificada, bela (apresentada no Apocalipse com voz forte), celebra jubilosamente o seu Senhor, à volta do al­tar, do ambão, do batistério: tudo «sinais» do túmulo aberto do Senhor Ressuscitado, donde emerge continuamente a mensagem da Ressurreição. Aleluia!

O Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor oferece-nos o grande texto de João 20,1-10, com a descoberta do túmulo aberto, mas não vazio! Túmulo aberto: a pedra muito grande (Marcos 16,4) do poder da morte tinha sido retirada, e o Anjo do Senhor sentou-se sobre ela (Mateus 28,2), impressionante imagem de soberania e vitória! Mas não vazio: está, na verdade, cheio de sinais, que é preciso ler com atenção: um jovem sentado à direita com uma túnica branca (Marcos 16,4), dois homens com vestes fulgurantes (Lucas 24,4), as faixas de linho no chão e o sudário enrolado noutro lugar (João 20,6-7). É importante ler os sinais e ouvir as mensagens! Se o túmulo estivesse vazio, como vulgarmente e inadvertidamente dizemos, estávamos perante uma ausência cega e muda. Na verdade, os sinais e as mensagens mostram uma presença nova que somos convidados a descobrir.

O texto imenso de João 20,1-10 coloca-nos ainda diante dos olhos o início de diferentes percursos por parte de diferentes figuras face aos sinais encontrados ou ainda não, lidos ou ainda não:

A Madalena vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) que até causa aflição a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. De facto, até dói e aflige que se veja o inefável como quem vê uma coisa qualquer, cegos como estamos tantas vezes pelos nossos preconceitos! Esta pedra para sempre retirada por Deus reclama e estabelece contraponto com a pedra por algum tempo retirada (aoristo de aírô) pelos homens do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41). Cega pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Mas o leitor atento e competente do IV Evangelho não estranha esta cegueira da Madalena. É que o narrador informa-nos que ela anda ainda no escuro (João 20,1), e, no IV Evangelho, quem anda na noite e no escuro, anda perdido na incompreensão e na cegueira, e nada entende ou dá bom resultado. A oposição luz – trevas atravessa de lés-a-lés o inteiro texto do IV Evangelho. A Luz verdadeira que vem a este mundo para iluminar todos os homens é Jesus (João 1,9). Sem esta Luz que é Jesus, andamos às escuras, na noite, na cegueira, na dor, no fracasso, na incompreensão. É assim, narrativamente – e, portanto, exemplarmente, para nós, leitores –, que somos levados a constatar como Nicodemos, que anda de noite (João 3,2) e nada entende, como os discípulos, que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas (João 18,17-18).

A notícia levada pela Madalena põe em movimento Simão Pedro e o «discípulo amado». Anote‑se a progressão e repare-se atentamente nos verbos utilizados: 1) Maria Madale­na vai ao túmulo, e vê (blépô) a pedra (da morte) retirada. 2) O outro discípulo, «o discípulo amado», corria juntamente com Pedro, mas chegou primeiro (!), inclina-se e vê (blépô) as faixas de linho no chão. 3) Pedro, que corria juntamente com «o discípulo amado», mas SEGUINDO-O e chegando depois… Na verdade, ainda em João 18,15, os dois SEGUIAM Jesus, que é a correta postura do discípulo. Pedro, porém, não SEGUIU Jesus até ao fim: ficou ali estacionado no pátio do Sumo-Sacerdote! Mais do que isso e pior do que isso, em vez de estar com Jesus, Pedro ficou com os guardas, a aquecer-se com os guardas! (João 18,18). Pedro, portanto, não fez o curso ou o percurso de discípulo de Jesus até ao fim! Deixou por fazer umas quantas unidades curriculares. É por isso que agora tem de SEGUIR alguém que tenha SEGUIDO Jesus até ao fim. É por isso, e só por isso – nada tem a ver com idades (Pedro mais idoso, o «discípulo amado» mais jovem!) – que Pedro tem agora de SEGUIR o «discípulo amado», chegando naturalmente ao túmulo atrás dele. Note-se ainda que, não obstante um ir à frente e o outro atrás, correm os dois juntos. É aquilo que ainda hoje vemos na catequese e na mistagogia cristãs: corremos sempre juntos, mas alguém vai à frente, para ensinar o caminho aos outros! Belíssima comunhão em corrida!

Pedro, que corria juntamente com o «discípulo amado», mas SEGUINDO-O, entra no túmulo que o «discípulo amado» cuidadosamente sinaliza e lhe aponta (ele é o grande sinalizador de Jesus: veja-se João 13,24 e 21,7), e vê (theôréô: um ver que dá que pensar e que abre para a fé: cf. João 2,23; 4,19; 6,2.19.40.62) as faixas de linho no chão e o sudário que cobrira o Rosto de Jesus, à parte, dobrado cuidadosamente, como «sinal» do Corpo ausente do Ressuscitado! Conclusão: o corpo de Jesus não foi roubado, como supôs a Madalena equivocada! Os ladrões não costumam deixar a casa roubada tão em ordem! Por isso, Pedro vê com o olhar de quem fica a pensar no que se terá passado… Talvez seja coisa de Deus… Com a indica­ção preciosa de que o véu foi cuidadosamente retirado do seu Rosto, a Revelação convida agora a contemplar o Rosto divino no Rosto humano do Ressuscitado: vendo‑o a Ele, vê‑se o Pai (cf. João 14,9).

«O discípulo amado» entrou, viu com um olhar histórico (tempo aoristo) de quem vê por dentro a identidade (verbo grego ideîn), e acreditou (v. 8). É o olhar de quem vê o inefável, verdadeiro clímax do relato: anote‑se a passagem do verbo ver do presente para o aoristo, e de fora para dentro: «o discípulo amado» viu na história a identidade dos «sinais»: toda a Economia divina realizada! O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde.

A narrativa de João 20 abre com a Madalena, que vai de manhã cedo, ainda escuro, ao túmulo, e vê, com um olhar normal (verbo grego blépô) a pedra retirada (êrménos) para sempre e por Deus (João 20,1), tal é o significado imposto por êrménos, particípio perfeito passivo de aírô. Conforme a grandiosa narrativa, a Madalena tem diante dos olhos o inefável. Mas cega como está pelos seus preconceitos, a Madalena falha a visão do inefável, e corre logo, equivocada, a levar uma falsa notícia: «Retiraram (aoristo de aírô) o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o puseram» (João 20,2). Não é de admirar, dado que a Madalena anda pelo escuro, e, no IV Evangelho, quem anda no escuro ou na noite, não vê a Luz.

Ainda que não faça parte do Evangelho deste Dia Grande, vale a pena, para que não fique perdido, acostar aqui o percurso que a Madalena continua a fazer em João 20,11-18. Mudou de olhar. Aparece agora junto do túmulo a chorar, inclina-se e vê, agora também (como Pedro) com um ver que dá que pensar (verbo grego theôréô), dois anjos vestidos de branco (cor divina), estrategicamente colocados no túmulo, como sinais. Perguntam à Madalena: «Mulher, por que choras?». Na verdade, ela ainda está do lado da morte, do escuro, da dor, da tristeza. A paisagem em que se move ou a página que a move ainda é o Capítulo 19 de João, daquele Jesus morto por mãos humanas retirado (João 19,38), daquele Rei por mãos humanas retirado (João 19,15[2x]), ou até daquela pedra por mãos humanas retirada do túmulo de Lázaro (João 11,39 e 41) – em todos os casos o verbo aírô no aoristo –, não sabendo ainda ler a pedra para sempre retirada por Deus, de João 20,1. É ainda à procura de um corpo morto que ela anda. De um corpo morto a que ela se acha com direito de posse. Talvez seja este o preconceito que lhe tolhe o olhar e a impede de ver o inefável. Na verdade, responde assim à pergunta feita pelos dois anjos: «Retiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram» (João 20,13). Note-se outra vez o aoristo do verbo aírô, e note-se agora também o possessivo «meu» afeto a Senhor.

Voltando-se para o jardim, vê, outra vez com um ver que dá que pensar (theôréô), um homem de pé, que ela pensa ser o jardineiro, mas que, na verdade, é Jesus, que a deixa espantada com a segunda pergunta que lhe faz: «Mulher, por que choras? (normal, pois ela continuava a chorar); a quem procuras?». Esta segunda pergunta desvenda a Madalena, retirando-a dos preconceitos que a cegam. Precedendo-a, antecipando-se a ela, adivinhando-a com aquela pergunta direita ao coração, Jesus dá-se a conhecer à Madalena, deixando-a a pensar mais ou menos assim: «E como é que este desconhecido sabe que eu ando à procura de alguém neste jardim?». Compreendendo-se compreendida, a Madalena começa a sair aqui da sua cegueira, mas ainda precisa de algum tempo para mudar de paisagem, de margem, de página, do Capítulo 19 para o Capítulo 20. A resposta que dá é elucidativa: «Se foste tu que o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (João 20,15).

Ao responder com um pronome três vezes repetido, que esconde o nome, vê-se bem que a Madalena sabe que aquele desconhecido bem sabe quem ela procura. E confessa aqui o intento que desde aquela madrugada, ainda escuro, a movia: retirar para si aquele corpo morto! Manifesta que anda ainda perdida no Capítulo 19, quando responde «em hebraico» (hebraïstí) a Jesus que acabava de pronunciar o nome dela: «Maria!» (João 20,16). A locução adverbial «em hebraico» (hebraïstí) é uma ponte para João 19,13 e 17. Equivocada como anda, ainda quer reter o Ressuscitado, mas não pode: aprende ainda que nada nem ninguém pode reter o Ressuscitado, aquela vida nova, aquele modo novo de estar presente! Leva tempo até passar da margem da morte para a margem da vida verdadeira! E finalmente vai anunciar aos discípulos, que Jesus significativamente chama «meus irmãos» (João 20,17), enviada pelo Ressuscitado: «Vi (heôraka) o Senhor!» (João 20,18). Nova mudança de olhar. O que ela diz agora é: Vi e continuo a ver o Senhor! É o que significa o verbo grego horáô, no tempo perfeito. É o olhar da testemunha que vê o inefável! Aqui termina a Madalena o seu longo e belo percurso, e sai de cena.

É o amor, ainda que imperfeito,
É o amor, ainda que com defeito,
É o amor que faz correr a Madalena.
 
É o amor, ainda que imperfeito,
É o amor, ainda que com defeito,
É o amor que faz chorar a Madalena.
 
Mas tu sabes, meu irmão da Páscoa plena,
Tu sabes que há outro amor em cena,
E é esse amor que faz amar a Madalena.
 

Os primeiros cristãos rapidamente fizeram do Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto, que o Imperador Adriano (117-135) soterrou e paganizou, estabelecendo ali cultos pagãos (no lugar da Ressurreição, colocou a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore), com o intuito de desviar deles os cristãos. O mesmo fez em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, Em 326, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, que aí terá descoberto a Cruz do Senhor, mandou demolir as construções pagãs, e vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela Anástasis, grandioso mausoléu que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota, e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de setembro desse ano 335, teve lugar e origem a veneração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. Esta comemoração ganhou novo relevo quando, em 630, o imperador Eráclio derrotou os Persas, e as relíquias da Cruz foram trazidas processionalmente para Jerusalém. Esta bela Basílica Constantiniana foi danificada por diversas invasões e ocupações. A atual Basílica do Santo Sepulcro, que os ortodoxos e os árabes chamam Anástasis e Qiyama, termos que em grego e árabe significam «Ressurreição», é fruto de cinquenta anos de trabalho dos Cruzados (1099-1149). Aqui estão guardadas as mais fundas raízes da nossa vida cristã, hoje quase uma espécie de «condomínio» de três Igrejas cristãs, infelizmente separadas entre si: a igreja greco-ortodoxa, a romano-católica e a armena. Aqui se sente ao vivo a mesma e comum fé pascal, mas também o drama da separação.

Na Leitura que hoje escutamos do Livro dos Atos dos Apóstolos (10,34-43), os Apóstolos dão testemunho do que viram. Foi‑lhes dado ver exatamente para dar teste­munho. Viram e testemunham o Batismo de Jesus, a execução da sua missão filial batismal, a sua Morte na Cruz, a sua Ressurrei­ção Gloriosa, a sua Vinda Gloriosa. Mas os Apóstolos insistem que também os Profetas [= Antigo Testamento] dão testemunho d’Ele Ressuscitado, no qual se cumpre para nós a «remissão dos pecados», o Jubileu divino do Espírito Santo (v. 43). A base profética é imponente: Jeremias 31,34; Isaías 33,24; 53,5‑6; 61,1; Ezequiel 34,16; Daniel 9,24. Ver depois João 20,19‑23. «As Escrituras» (então o Antigo Testamento) apontam para o Ressuscitado! O Ressuscitado remete para «as Escrituras». Cumplicidade entre o Ressuscitado e «as Escrituras». Na verdade, o Ressuscitado cumpre e enche as «Escrituras». Não está depois delas ou no fim delas. Está no meio delas, fá-las transbordar, transborda delas.

O Capítulo III da Carta aos Colossenses (3,1-4) trata a «vida nova» em Cristo, que é vida batismal, operada pelo Espírito Santo que faz morrer e renascer na Fonte da Graça. Por isso, adverte solenemente Paulo: «procurai as coi­sas do alto» (v. 1), «pensai as coisas do alto» (v. 2), exorta­ção que ecoa ainda no Diálogo que antecede o Prefácio: «Corações ao alto!», a que respondemos com a alegria e a sabedoria do Espírito: «O nosso coração está em Deus!», enquanto ecoa ainda em cada coração habitado pelo Espírito o «Glória a Deus nas alturas!».

Em alternativa a Colossenses 3,1-4, pode ler-se e escutar-se 1 Coríntios 5,6-8. A sua linguagem é da cor da Páscoa (grego páscha, hebraico pesah). O Novo Testamento usa o termo grego páscha [= Páscoa] por 28 vezes, assim distribuídas: 24 vezes nos Evangelhos + Atos 12,4 e Hebreus 11,28, todas em referência exclusiva à Páscoa hebraica do Antigo Testamento; as duas menções que faltam são precisamente 1 Coríntios 5,7 e Lucas 22,15, esta com o precioso lógion de Jesus: «Desejei ardentemente esta Páscoa (toûto tò páscha) comer convosco». Em 1 Coríntios 5,7, lemos a expressão tò páscha hêmôn etýthê Christós, cuja tradução não pode ser «Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado», como se vê habitualmente, mas «durante a nossa Páscoa (hebraica), foi imolado Cristo». Os motivos são gramaticais (tò páscha hêmôn é um acusativo adverbial) e teológicos: o cordeiro da Páscoa não é um sacrifício imolado; não é queimado sobre o altar; é comido em família. Sacrifício da Páscoa era a ʽôlat-tamid, o holocausto perpétuo, diário, o sacrifício de dois cordeiros, filhos de um ano, um de manhã e outro de tarde, conforme Êxodo 29,38-42 e Números 28,3-8, e que, sendo diário, precedia qualquer celebração festiva. Só depois deste sacrifício quotidiano, se procedia, em dias de festa, como é a Páscoa, ao sacrifício da festa propriamente dito, sacrifício suplementar, e que, na Páscoa, consistia num «sacrifício de ovelhas e bois», este sim, «Páscoa imolada para o Senhor» (Deuteronómio 16,2). De notar também que o Novo Testamento desconhece em absoluto o adjetivo «pascal», de que nós fazemos uso indiscriminado, e não pensado. A restante linguagem da cor da Páscoa que 1 Coríntios 5,6-8 mostra é o fermento (hamets) e os pães ázimos (matstsôt). Servem os termos para Paulo reclamar dos cristãos vida nova (pães ázimos), sem malícia (fermento velho).

Páscoa é Páscoa. Simplesmente.
Sem I.V.A. nem adjetivo pascal.
 
Páscoa é lua cheia, inconsútil, inteira,
Sementeira de luz na nossa eira.
 
Deixa-a viver, crescer, iluminar.
Afaga-lhe a voz e o olhar.
 
Não lhe metas pás, não lhe deites cal.
Não lhe faças mal.
Não são notas enlatadas, brasas apagadas.
É música nova, lume vivo e integral.
 
Não é paragem, mas passagem,
Aragem a ferver e a gravar em ponto Cruz
A mensagem que arde no coração dos dois de Emaús.
A Páscoa é Jesus.

António Couto

ANEXOS:

  1. Tríduo Pascal 2023 -Ano A- Leituras para preparação
  2. Triduo Pascal – Ano A – 06.04.2023 a 09.04.2023- Lecionário
  3. Triduo Pascal – Ano A – Oração Universal
  4. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo de Ramos – Ano A – 02.04.2023

Viver a Palavra

Com a celebração do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor damos início à Semana Santa onde somos convidados a fixar o nosso olhar na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. A Semana Santa inicia e termina com um evangelho de festa, marcado pela alegria. Iniciamos a celebração deste Domingo com a proclamação do Evangelho que narra a entrada de Jesus em Jerusalém onde é aclamado com brados de alegria e de júbilo que ainda hoje repetimos na celebração da Eucaristia: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» e na soleníssima noite de Páscoa haveremos de escutar o solene anúncio da Ressurreição gloriosa. Contudo, esta moldura de alegria e de festa encerra no seu interior a paixão e morte, o duro caminho da paixão que escutamos no Evangelho da missa.

No atual contexto social e eclesial que estamos a atravessar, nas dificuldades pessoais ou alheias com que nos deparamos no quotidiano, haveremos de ter sempre presente esta moldura de alegria e de festa que encerra a paixão e morte de Jesus. Diante das dificuldades, exigências e sofrimentos, com toda a certeza, levantamos tantas perguntas e assaltam ao nosso coração tantas dúvidas e incertezas. Podemos até fazer a nossa oração a partir das palavras que Jesus proclama na cruz e que cantávamos no salmo: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?». Alguns exegetas afirmam que uma tradução mais fiel deste versículo deveria ser: «Meu Deus, meu Deus, porque me fizeste chegar até aqui?». Na verdade, estas palavras podem muito bem ser o ecoar da nossa oração, em tantas circunstâncias que atravessamos, e quão bom seria se elas traduzissem a atitude de quem se coloca humildemente diante do mistério da dor e do sofrimento. Não temos respostas, nem fórmulas mágicas e instantâneas, mas temos a humilde confiança de quem se sabe amado por um Deus que não é indiferente às nossas dores e angústias e podemos proclamar como escutávamos na primeira leitura: «o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido».

O nosso Deus não nos desilude e a confiança que depositamos nele há-de abrir-nos ao horizonte de alegria e de festa que a Páscoa do Senhor nos aponta. Se Jesus nos convida à alegria e à felicidade, à conversão e à santidade, também desce à dor e ao sofrimento para nos ensinar a arte de estar ali onde o amor se faz mais exigente. Jesus sobe até à cruz, abraça a dor e sofrimento, porque o amor é tanto mais verdadeiro, quanto mais se realiza em gestos concretos de compaixão e misericórdia. Entre os muitos deveres do amor está aquele primeiro de estar ali, precisamente ali, onde está o amado. Por isso, Jesus vai até ao sofrimento e à morte, porque Ele sabe bem que a nossa frágil humanidade atravessa caminhos de dor e de sofrimento. Contudo, também aprendemos com Jesus que a nossa dor e sofrimento se abrem à alegria pascal que a manhã de Páscoa nos há-de trazer.

Sobre a terra, no meio dos nossos limites e fracassos, é tempo de caminhar humilde e confiadamente a estrada da fragilidade fortalecida pelo amor e pela graça e, um dia, haveremos de compreender ou pelo menos entrever não o «porquê?», mas o «para quê?» destes tempos difíceis e exigentes. Durante a paixão e morte de Jesus os discípulos não foram capazes de compreender o modo livre, disponível e confiante com que Jesus se entregava à vontade do Pai, mas na manhã de Páscoa e na força transformadora do dia de Pentecostes os discípulos viram abrir-se os seus olhos e os seus corações para alegria nova que o amor transporta. Por isso, que as horas exigentes de dor e desilusão nos conduzam sempre ao dia esplendoroso, onde celebraremos juntos a alegria do amor que vence as trevas e que enche de esperança as nossas vidas. in Voz Portucalense

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Com o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor entramos na Semana Santa. Este Domingo deve ser marcado pelo convite à participação no Tríduo Pascal, centro de todo o ano litúrgico. Não nos devemos limitar a um anúncio dos horários e locais das celebrações, mas, por exemplo, elaborar um pequeno folheto com uma apelativa descrição de cada uma das celebrações. Além disso, pode apontar-se como ação missionária para esta semana o convite aos vizinhos e amigos para a participação nas diversas celebrações pascais. in Voz Portucalense

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Ainda em Quaresma, estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Is 50, 4-7

«Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam.»

 

 

Ambiente

No livro do Deutero-Isaías (Is 40-55), encontramos quatro poemas que se destacam do resto do texto (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12). Apresentam-nos uma figura enigmática de um “servo de Jahwéh”, que recebeu de Deus uma missão. Essa missão tem a ver com a Palavra de Deus e tem carácter universal; concretiza-se no sofrimento, na dor e no abandono incondicional à Palavra e aos projetos de Deus. Apesar de a missão terminar num aparente insucesso, a dor do profeta não foi em vão: ela tem um valor expiatório e redentor; do seu sofrimento resulta o perdão para o pecado do Povo. Deus aprecia o sacrifício do profeta e recompensá-lo-á, elevando-o à vista de todos, fazendo-o triunfar dos seus detratores e adversários.

Quem é este profeta? É Jeremias, o paradigma do profeta que sofre por causa da Palavra? É o próprio Deutero-Isaías, chamado a dar testemunho da Palavra no ambiente hostil do Exílio? É um profeta desconhecido? É uma figura coletiva, que representa o Povo exilado, humilhado, esmagado, mas que continua a dar testemunho de Deus, no meio das outras nações? É uma figura representativa, que une a recordação de personagens históricas (patriarcas, Moisés, David, profetas) com figuras míticas, de forma a representar o Povo de Deus na sua totalidade? Não sabemos; no entanto, a figura apresentada nesses poemas vai receber uma outra iluminação à luz de Jesus Cristo, da sua vida, do seu destino.

O texto que nos é proposto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”. in Dehonianos.

 

A reflexão pode tocar os seguintes aspetos:

Não sabemos, efetivamente, quem é este “servo de Jahwéh”; no entanto, os primeiros cristãos vão utilizar este texto como grelha para interpretar o mistério de Jesus: Ele é a Palavra de Deus feita carne, que oferece a sua vida para trazer a salvação/libertação aos homens… A vida de Jesus realiza plenamente esse destino de dom e de entrega da vida em favor de todos; e a sua glorificação mostra que uma vida vivida deste jeito não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.

Jesus, o “servo” sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projeto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?

Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 21 (22)

Refrão: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

LEITURA II – Filip 2, 6-11

«Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio».

Ambiente

A cidade de Filipos era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia diretamente do imperador; gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália. A comunidade cristã, fundada por Paulo, era uma comunidade entusiasta, generosa, comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da coleta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5), por quem Paulo nutria um afeto especial. Apesar destes sinais positivos, não era, no entanto, uma comunidade perfeita… O desprendimento, a humildade e a simplicidade não eram valores demasiado apreciados entre os altivos patrícios que compunham a comunidade.

É neste enquadramento que podemos situar o texto que esta leitura nos apresenta. Paulo convida os Filipenses a encarnar os valores que marcaram a trajetória existencial de Cristo; para isso, utiliza um hino pré-paulino, recitado nas celebrações litúrgicas cristãs: nesse hino, ele expõe aos cristãos de Filipos o exemplo de Cristo. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes desenvolvimentos:

Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes “ganhadores” não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com autossuficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido, nestes últimos dias antes da Páscoa, um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de “perdedores” e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 26,14 – 27,66

«Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

«Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus».

 

Ambiente

O Evangelho segundo Mateus começa por apresentar Jesus (cf. Mt 1,1-4,22). Descreve, depois, o anúncio central de Jesus: nas suas palavras e nos seus gestos, Jesus anuncia esse mundo novo a que Ele chama “o Reino dos céus” (cf. Mt 4,23-9,35). Do anúncio do “Reino” nasce a comunidade dos discípulos – isto é, nasce um grupo que assimila as propostas de Jesus (cf. Mt 9,36-12,50). Os discípulos são a “comunidade do Reino”: instruídos por Jesus, formados na mentalidade do “Reino”, os discípulos recebem a missão de testemunhar o “Reino”, após a partida de Jesus (cf. Mt 13,1-17,27). Na parte final do seu Evangelho, Mateus descreve a rutura final de Jesus com o judaísmo (cf. Mt 18,1-25,46) e o final do caminho de Jesus: a paixão, morte e ressurreição (cf. Mt 26,1-28,15).

A leitura que hoje nos é proposta é o relato da paixão de Jesus. Descreve como o anúncio do Reino choca com a mentalidade da opressão e, portanto, conduz à cruz e à morte; no entanto, não podemos dissociar os acontecimentos da paixão daqueles que celebraremos no próximo domingo: a ressurreição é a prova de que Jesus veio de Deus e tinha um mandato do Pai para tornar realidade no mundo o “Reino dos céus”. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

Celebrar a paixão e a morte de Jesus é abismar-se na contemplação de um Deus a quem o amor tornou frágil… Por amor, Ele veio ao nosso encontro, assumiu os nossos limites e fragilidades, experimentou a fome, o sono, o cansaço, conheceu a mordedura das tentações, tremeu perante a morte, suou sangue antes de aceitar a vontade do Pai; e, estendido no chão, esmagado contra a terra, atraiçoado, abandonado, incompreendido, continuou a amar. Desse amor resultou vida plena, que Ele quis repartir connosco “até ao fim dos tempos”: esta é a mais espantosa história de amor que é possível contar; ela é a boa notícia que enche de alegria o coração dos crentes.

Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade… Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor…

Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição. in Dehonianos

 

 

 

Para os leitores:

             A primeira leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente na sua proclamação. Requer uma leitura pausada e atenta que exprima toda a densidade e intensidade dramática do texto. A última frase exige uma especial atenção para que se possa transmitir a confiança e esperança que o auxílio de Deus oferece.

A segunda leitura é um hino litúrgico e poético e apresenta duas partes distintas: uma primeira mais dramática e uma segunda mais jubilosa e marcada pela exaltação de Jesus. A proclamação desta leitura deve ter presente todos estes elementos. A narrativa evangélica da Paixão do Senhor, na ausência de diáconos, pode ser lida por mais dois leitores, reservando a parte de Cristo ao sacerdote. Tendo em conta os diversos diálogos e a dimensão do texto, aqueles que participam na leitura devem fazer uma acurada preparação das diversas intervenções ao longo do texto.

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

COM UM CORAÇÃO DE DISCÍPULO

Batizado com o Espírito Santo no Jordão, confirmado com o Espírito Santo no Tabor, Jesus realizou a sua missão filial batismal anunciando o Evangelho do Reino de Deus e fazendo as suas «obras». A sua «viagem» chega agora ao fim, na Judeia, em Jerusalém, onde o seu Batismo deve (plano divino) ser consumado (ainda Lucas 12,49-50) na sua Morte Gloriosa: única Fonte do Espírito Santo para nós, porque única Fonte da Vida Eterna verdadeiramente Dada (sempre Atos 2,32-33; João 19,30 e 34; 7,38-39), pois não se alcança através da nossa programação ou planificação. As coisas supremas não são planificáveis. Já estão prontas para receber. A missão filial batismal do Filho de Deus finalmente consumada! É que fomos, de facto, batizados na sua Morte (Romanos 6,3-4), e, com Ele, fomos , para usar a vigorosa linguagem paulina, «com-sepultados», «com-ressuscitados», «com-vivificados» e «com-sentados» na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13: tudo verbos cunhados por Paulo e postos em aoristo (passado) histórico!). Formamos, por isso, «a Igreja que Ele amou» (Efésios 5,25). A este grande amor de Cristo pela Igreja chama Paulo «o mistério grande» (Efésios 5,32). Nós, a Igreja do amor de Cristo, somos, portanto, a Esposa bela, a nova Jerusalém (Apocalipse 19,7-9; 21,2.9-14) que, juntamente com o Espírito, diz ao Senhor Jesus: Vem! (Apocalipse 22,17).

O tom deste Domingo de Ramos é dado pela bela página de Mateus 21,1-11, que nos mostra o Rei messiânico a tomar posse da sua Cidade, a «Cidade do Grande Rei» (Salmo 45,5; 47,2-3; Tobias 13,11; Mateus 5,35), a Esposa bela que nascerá do seu Sangue: Esposa cúmplice da Morte do Esposo, e beneficiária da Morte do Esposo! Esposa, portanto, e no entanto! Que ao encontro do Esposo desce em vestido de noiva, não de viúva! (Apocalipse 21,2). O Rei messiânico toma posse da sua Cidade, a Filha de Sião, a Esposa; vem montado sobre o jumento da paz, e não sobre cavalos de guerra, cumprindo Zacarias 9,9. De notar que Zacarias escreveu esta página deslumbrante de um Rei diferente, pobre, manso e humilde, em contraponto com o imponente espetáculo do grande Alexandre Magno, quando este, em finais do século IV a. C., descia a costa palestinense a caminho do Egito, com todo o seu arsenal de riqueza e de prepotência militar! Estendem-se as capas e ramos de árvores no caminho: assim se procedia quando o rei subia ao trono (cf. 2 Reis 9,13). A multidão canta «Hossana» [= «Salva, por favor!»] (Salmo 118,5), saudando o Rei-que-Vem, «Aquele-que-Vem» (título divino) (Salmo 118,26), com o Reino de David, o novo David!

Ainda hoje, no domingo de Ramos, não obstante o ambiente abertamente hostil aos cristãos que se respira, se faz, desde Betfagé, uma pequena aldeia hoje totalmente muçulmana com um pequeno santuário à guarda dos Franciscanos, uma impressionante procissão e manifestação de fé que, descendo o Monte das Oliveiras, termina na Igreja de Santa Ana, junto da porta de Santo Estêvão (ou dos Leões).

O Evangelho que enche este Domingo de Ramos na Paixão do Senhor é o imenso e impressionante relato da Paixão de Mateus 26,14-27,66, que marca o ritmo da nossa «Semana Santa», que as Igrejas Orientais chamam «Semana Grande», e que o antigo rito da Igreja de Milão conhecia por «Semana Autêntica». Somos nós, portanto, carregando os nossos ódios, raivas, mentiras, invejas e violências, seguindo a par e passo o Rei manso e obediente que a nós e por nós se entrega por amor, absorvendo, absolvendo e dissolvendo assim o nosso lado sombrio e pecaminoso. O rei assume, no seu perfil, duas valências fundamentais: 1) pôr-se totalmente nas mãos de Deus, escutando a sua Palavra e cumprindo-a; 2) pôr-se totalmente ao serviço do seu povo, a quem deve fazer chegar a prosperidade e o bem-estar, a plenitude dos bens espirituais e materiais. O que esta Semana nos oferece são, pois, momentos e tonalidades intensos e decisivos, em que a Esposa bela, tornada bela, segue o Rei-Esposo passo a passo, gesto a gesto: a unção para a sepultura em Betânia, a Ceia Primeira (e não última!) da intimidade que deixa ver melhor as traições e as negações que já se desenham no horizonte, a afirmação solene de Pedro e de todos os discípulos de que estão dispostos a morrer por Jesus, mas nunca a negá-lo, o abismo do Getsémani, onde Cristo, sendo embora o Filho de Deus, Deus Ele mesmo, treme perante a morte, mas aceita-a, submetendo a sua vontade humana à sua Vontade divina, que é a mesma Vontade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, a oração de Jesus e o sono pesado dos discípulos (uma, duas, três vezes), Judas que vem prender Jesus com um beijo (a traição num gesto de intimidade!), acompanhado de outros que trazem espadas e varapaus, mas é um dos que estão com Jesus que puxa da espada e a usa (!), a prisão de Jesus «segundo as Escrituras» (Mateus 26,54 e 56), altura em que todos o abandonam e fogem (Mateus 26,56), deixando Jesus sozinho como verdadeiro «Resto de Israel!», os processos e a condenação [Jesus afirma-se como «o Cristo», «o Filho de Deus», «o Filho do Homem-que-Vem-na-sua-Glória», «o Rei»], Pilatos que «lava as mãos» como quem nada quer ter a ver com o assunto (Mateus 27,24), gesto que só Mateus relata, a entrega à morte de cruz por Pilatos (Mateus 27,26) e por Judas (Mateus 26,15-16.21-25; 27,3), mas na verdade por Deus (1 Coríntios 11,23: paredídeto: passivo divino ou teológico!), a coroa de espinhos, Pedro disposto a morrer com Jesus (Mateus 26,35), mas negando-O logo de seguida com aquele triplo «não sei!» (Mateus 26,70.72.74), a Cruz Santa e Gloriosa, as três tentações por parte dos transeuntes, dos chefes dos sacerdotes juntamente com os escribas e os anciãos, dos ladrões: «salva-te a ti mesmo», «desce da cruz» (Mateus 27,39-44), a oração do Salmo 22 (todo): começa «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», e termina «Esta é a obra do Senhor!», a agonia e a Morte precedida do «grande grito» (Mateus 27,46 e 49), que indica que Jesus continua a ser o sujeito ativo de todos os seus atos, mas indica também a Vitória de Deus… Proclamação da máxima Obra de Deus no mundo, a indizível Economia divina na vida terrena do Filho de Deus! Segue-se a sepultura num túmulo novo (Mateus 27,60), como convém ao Rei, sempre o primeiro em tudo, as mulheres à distância do recolhimento, observando tudo com atenção (verbo theôréô) (Mateus 27,55), como farão depois na sua visita ao túmulo (Mateus 28,1), os únicos dois lugares em que Mateus usa o verbo theôréô! A cena da guarda do túmulo reclamada pelos judeus e a lenda do roubo do seu corpo pelos discípulos entretanto espalhada (só em Mateus) costura-se ainda com as páginas iniciais do Génesis, que relatam a história de um fruto e a lenda de um furto (cf. Génesis 1,29 vs. 3,1-6). A proclamação deste imenso texto deve seguir-se com a conversão no coração, e, sobretudo, com o louvor no coração.

Vendo bem, somos todos levados a percorrer e a reviver as últimas decisivas vinte e quatro horas de Jesus, desde as 15h00 de Quinta-Feira Santa até perto das 18h00 de Sexta-Feira Santa:

15h00 = Preparação da Ceia

18h00 = Ceia Primeira!

21h00 = Getsémani

24h00 = Prisão de Jesus

03h00 = Pedro nega e o galo canta

06h00 = Jesus diante de Pilatos

09h00 = Crucifixão de Jesus

12h00 = As trevas em vez da Luz!

15h00 = Morte de Jesus

18h00 = Sepultamento de Jesus

Note-se que, na cronologia dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), esta Quinta-Feira é o dia da Preparação da Páscoa, comendo-se a Ceia Pascal logo após o pôr-do-sol (no calendário religioso hebraico já é Sexta-Feira, dado que o dia começa com o pôr-do-sol). Como se vê, esta cronologia vê na Ceia de Jesus com os seus Discípulos uma Ceia Pascal. Também de acordo com esta cronologia, Jesus é preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado em Sexta-Feira, Dia da Páscoa dos judeus, o que seria muito estranho! O Evangelho de S. João apresenta outra cronologia, hoje defendida pela maioria dos estudiosos, segundo a qual Jesus terá comido uma Ceia, a sua Ceia Nova em Quinta-Feira, mas não a Ceia ritual da Páscoa dos judeus, e foi preso, julgado, condenado, crucificado, morto e sepultado, em Sexta-Feira, dia da Preparação, antes da Ceia ritual da Páscoa dos judeus, que João coloca no Sábado, e não na Sexta-Feira. No seu Último Livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI defende também esta cronologia joanina. De resto, as Igrejas do Ocidente seguem a cronologia dos Sinóticos: por isso, a nossa Eucaristia é com pão Ázimo, derivado do ritual da Ceia da Páscoa dos judeus. Por seu lado, as Igrejas do Oriente seguem a cronologia joanina, sendo a sua Eucaristia com pão comum, dado não derivar do ritual da Páscoa dos judeus.

O Antigo Testamento serve-nos hoje o chamado «terceiro canto do Servo» (Isaías 50,4-7). Gerado na dor de Israel como verdadeiro filho do milagre (Isaías 49,21), ergue-se esta singular figura de «Servo» (‘ebed), totalmente nas mãos de Deus, desde a sua predestinação desde o seio materno (Isaías 49,1 e 5), passando pela sua entrega à morte (Isaías 53,12), até à sua exaltação e glorificação (Isaías 52,13), de tal modo que Deus o pode chamar «meu Servo» (‘abdî). Na lição de hoje, o «Servo» é um Discípulo a quem Deus abre os ouvidos até ao coração, para ouvir bem a música de Deus, e poder levar uma palavra de consolo aos dela necessitados. «Tornando o seu rosto duro como uma pedra» (Isaías 50,7), apresenta-se como um Servo, não insensível e indiferente, mas decidido a levar até ao fim a missão que lhe é confiada. A mesma expressão será dita acerca de Jesus em Lucas 9,51. O Novo Testamento passa por aqui!

Em claro paralelismo com o «Servo», cantado por Isaías, aí está Jesus apresentado por Paulo aos Filipenses (2,6-11). Mas aqui, o «Servo» tem um Rosto e um Nome: Jesus recebeu, na sua Humanidade, o Nome divino (ver também Hebreus 1,1-4), Nome incomparável (Filipenses 2,9). Por isso, agora, todos os seres criados adoram o Nome-Jesus (Filipenses 2,10), e «toda a língua», isto é, todo o ser humano racional, professa: «Senhor é Jesus Cristo!» (Kýrios Iêsoûs Christós). Notar a ordem dos três termos, errada nas versões modernas: Senhor, isto é, Deus eterno, é o Homem-Jesus Cristo. O sujeito é o que não se conhece; o predicado é o que se conhece. O acento cai, pois, sobre Senhor. O fim em vista: a Glória do Pai com o Espírito (Filipenses 2,11). É quanto Deus operou na Cruz e semeou no nosso coração.

Voltamos à música do Salmo 22, uma oração que nasce na Paixão e termina na Páscoa! É belo tomarmos consciência de que Jesus nos pediu estas palavras emprestadas, para no-las devolver a transbordar de sentido. Já se sabe que aquele «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?», que Jesus reza na Cruz, e que são as primeiras palavras do Salmo, implica, segundo a praxe judaica, a recitação do Salmo inteiro, que tem uma primeira parte de fortíssima lamentação (vv. 2-22), passando logo para uma segunda parte que expressa consolação por ver Deus ao nosso lado, tão próximo de nós (vv. 23-27), e terminando em verdadeira exultação (vv. 28-32). O grande pregador francês Jacques Bossuet (1627-1704) declarava bem-aventurados aqueles que, recitando este Salmo, se encontram com Jesus, tão santamente tristes e tão divinamente felizes!

Senhor Jesus,
Senhor dos Passos
Serenos e seguros no caminho da vida e da Paixão,
Da ressurreição.

Senhor Jesus,
Senhor dos Passos
Sossegados e firmes,
Resolutos,
Até à porta do meu coração.

Senhor Jesus,
Senhor dos Passos,
Dos meus e dos teus,
Finalmente harmonizados,
Finalmente lado a lado:
Os meus, imprecisos, indecisos,
Atravessados pelo teu Perdão;
Os teus, sossegados e firmes,
Sincronizados pelo pulsar do meu coração.

Sim,
Eu sei que foi por mim que desceste a este chão
Pesado, íngreme, irregular,
De longilíneas lajes em que é fácil escorregar.
Mas os teus braços sempre abertos ajudam-me a levantar.

Senhor Jesus,
Deixa-me chegar um pouco mais junto de ti,
Chega-te tu também mais junto de mim.
Segura-me.
Dá-me a tua mão firme, nodosa e corajosa.
Agarro-me.
Sinto sulcos gravados nessa mão.
Sigo-os com o dedo devagar.
Percebo que são as letras do meu nome.
Foi então por mim que desceste a este chão.
O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

Senhora das Dores, Maria, minha Mãe,
Que seguiste até ao fim os passos do teu Filho,
Acompanha e protege os meus passos também.

Obrigado, Senhor Jesus,
Meu Senhor, meu Irmão e companheiro.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo de Ramos – Ano A – 02.04.2023 (Is 50, 4-7)
  2. Leitura II do Domingo de Ramos – Ano A – 02.04.2023 (Filip 2, 6-11)
  3. Domingo Ramos – Ano A – 02.04.2023 – Lecionário
  4. Domingo Ramos – Ano A – 02.04.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo V da Quaresma – Ano A – 26.03.2023

25Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Jo 11, 25-26

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste quinto Domingo da Quaresma apresenta-nos um quadro raro da narrativa evangélica: Jesus chora. Nos evangelhos, encontramos apenas dois momentos em que Jesus chora: a morte do seu amigo Lázaro (Jo 11,35) e sobre a cidade de Jerusalém (Lc 19,41).

Diante do túmulo de Lázaro, Jesus chorou, levando os presentes a afirmar: «vede como era seu amigo». As Suas lágrimas, junto ao túmulo de Lázaro e sobre a cidade de Jerusalém são sinal do amor que sente pela humanidade. Jesus ama-nos e não quer que nenhum se perca, por isso, veio ao nosso encontro, assumiu a nossa humanidade, desceu às águas do Jordão para ser batizado, acolheu com ternura e misericórdia os doentes e os marginalizados, foi ao encontro dos pecadores e rejeitados e levou esse amor às últimas consequências abraçando a cruz e abrindo para nós as portas da ressurreição e da vida nova.

Jesus chora e ensina-nos a arte da compaixão. As lágrimas não são sinal de desespero ou de incapacidade de reagir diante do mal e do sofrimento, mas sinal de amor e compaixão diante das situações dramáticas da história. Jesus chora, mas não se detém no choro e no lamento. Dirige-se ao túmulo, pede que removam a pedra, dá graças ao Pai e brada com voz forte para que Lázaro saia do túmulo.

Diante das situações de dor e sofrimento pessoais e alheias não devemos ficar presos às nossas lágrimas e lamentos. Choramos e compadecemo-nos, mas devemos assumir uma atitude proactiva, capaz de responder com ousadia e coragem aos desafios que se colocam diante de nós. A misericórdia e a compaixão despertam o nosso coração e as nossas emoções, mas devem despertar também a nossa vida e a nossa ação. Com Jesus e como Jesus, acreditamos que o Pai nos escuta e, por isso, partimos na aventura do amor, na certeza de que as nossas ações unidas à sua graça podem realizar maravilhas no aqui e agora do tempo e da história.

Contudo, diante de nós coloca-se o grande desafio da fé que nos convida a depositar toda a nossa esperança em Jesus Cristo e no Seu amor. Como naquele dia a Marta, Jesus pergunta a cada um de nós: «acreditas nisto?». Acreditas que comigo os impossíveis se podem tornar possíveis? Acreditas que a fé abre diante de nós um caminho de esperança que vai muito para lá dos limites do visível e do palpável? Acreditas que quem caminha com Jesus recebe um modo novo de olhar o tempo e a história?

Como nos recorda S. Paulo, batizados em Cristo somos já herdeiros da vida nova que brota da Páscoa do Senhor e habitados pelo Espírito Santo somos chamados a semear no aqui e agora do tempo e da história a certeza de que os sofrimentos e incertezas do tempo presente se hão-de abrir à plenitude do amor e da graça que brotam do coração de Deus. in Voz Portucalense

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No dia 25 de março a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor. Neste dia, recordamos o anúncio do Arcanjo Gabriel a Maria, comunicando-lhe o desígnio do Pai de que Ela foi escolhida para acolher no Seu seio virginal o Salvador do Mundo. Apesar de não nos podermos reunir como comunidade cristã para celebrar esta solenidade, somos convidados a celebrar este dia e a meditar no mistério de amor que esta solenidade encerra: o nosso Deus não é indiferente às nossas dores e sofrimentos, mas compadecido da nossa frágil humanidade vem ao nosso encontro e em Jesus Cristo faz-se homem no seio de Maria. A recitação dos mistérios gozosos do Rosário, a Liturgia das Horas ou a meditação dos textos litúrgicos desta solenidade são algumas das formas com que podemos viver este dia. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a Quaresma até à Páscoa. São 40 dias que querem significar “mudança”. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Ez 37,12-14

«Infundirei em vós o meu espírito e revivereis».

 

Ambiente

Ezequiel é chamado “o profeta da esperança”. Desterrado na Babilónia desde 597 a.C. (no reinado de Joaquin, quando Nabucodonosor conquista, pela primeira vez, Jerusalém e deporta para a Babilónia um primeiro grupo de jerusalimitanos), Ezequiel exerce aí a sua missão profética entre os exilados judeus.

A primeira fase do ministério de Ezequiel decorre entre 593 a.C. (altura em que sentiu o chamamento de Deus) e 586 a.C. (data em que Jerusalém é arrasada pelas tropas de Nabucodonosor e uma nova leva de exilados é encaminhada para a Babilónia). Nesta fase, Ezequiel procura destruir falsas esperanças e anuncia que, ao contrário do que pensam os exilados, o cativeiro está para durar… Eles não só não vão regressar em breve a Jerusalém, mas os que ficaram em Jerusalém (e que continuam a multiplicar os pecados e infidelidades) vão fazer companhia aos que já estão desterrados na Babilónia.

A segunda fase do ministério de Ezequiel desenrola-se a partir de 586 a.C., até cerca de 570 a.C. Instalados numa terra estrangeira, sem Templo, sem sacerdócio e sem culto, os exilados estão desesperados e duvidam da bondade e do amor de Deus. Nessa fase, Ezequiel procura alimentar a esperança dos exilados e transmitir ao Povo a certeza de que o Deus libertador e salvador não os abandonou.

O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence à segunda fase. Faz parte da famosa “visão dos ossos calcinados” (cf. Ez 37). Ezequiel descreve a visão de uma planície cheia de ossos calcinados e sem vida; mas, na visão do profeta, o Espírito do Senhor sopra sobre os ossos calcinados e eles são revestidos de pele, de músculos e ganham vida. Nesta parábola, os ossos calcinados representam o Povo de Deus, que jaz abandonado, sem esperança e sem futuro, no meio da planície mesopotâmica. in Dehonianos.

 

Refletir as seguintes questões:

Na nossa existência pessoal passamos, muitas vezes, por situações de desespero, em que tudo parece perder o sentido. A morte de alguém querido, o desmoronar dos laços familiares, a traição de um amigo ou de alguém a quem amamos, a perda do emprego, a solidão, a falta de objectivos lançam-nos muitas vezes num vazio do qual não conseguimos facilmente sair. A Palavra de Deus garante-nos: não estamos perdidos e abandonados à nossa miséria e finitude… Deus caminha ao nosso lado; em cada instante Ele lá está, tirando vida da morte, “escrevendo direito por linhas tortas”, dando-nos a coragem de “sair do sepulcro” e avançar mais um passo ao encontro da vida plena.

Mais: Deus recria-nos, cada dia, oferecendo-nos o Espírito transformador e renovador, que elimina dos nossos corações o orgulho e o egoísmo (afinal, os grandes responsáveis pelo sofrimento, pela injustiça
, pela violência) e transformando-nos em pessoas novas, com um coração sensível ao amor e às necessidades dos outros.

Ver os telejornais ou ler os jornais é – mais do que nos mantermos a par dos passos que o mundo vai dando – um autêntico exercício de masoquismo: parece que só há dramas, sofrimentos, injustiças e violências, como se o mundo fosse um imenso campo de morte. No entanto, nós os crentes sabemos que, apesar do sofrimento que faz parte da condição de fragilidade em que vivemos, Deus está presente na história humana, criando vida e oferecendo a esperança aos homens nesses mil e um gestos de bondade, de ternura e de amor que acontecem a cada instante (e que não chegam aos jornais ou às objetivas da televisão porque “não vendem” e, por isso, não são notícia). A Palavra Deus que hoje nos é proposta sugere que o crente – pelo simples facto de acreditar em Deus – deve ser um arauto da esperança.

É sempre Deus – e só Deus – que oferece aos homens a vida e a esperança… No entanto, Deus age no mundo através de homens – como Ezequiel – que distribuem a vida nova de Deus, com palavras e com gestos. Já pensei que Deus me chama a ser uma luz de esperança no mundo? Tenho consciência de que é através dos meus gestos e das minhas palavras que Deus oferece a sua vida aos homens meus irmãos? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 129 (130)

Refrão: No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.

LEITURA II – Rom 8,8-11

«Se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós».

Ambiente

Já dissemos, noutras circunstâncias, que a Carta aos Romanos é um texto sereno e didático, no qual Paulo faz uma espécie de resumo do seu pensamento teológico e expõe a sua conceção daquilo que é essencial na mensagem cristã. Numa época (anos 57/58) em que existem problemas graves de entendimento e de perspetiva entre os cristãos vindos do judaísmo e os cristãos vindos do paganismo, Paulo sublinha a unidade da revelação e da história da salvação: Deus tem um projeto de salvação e de vida plena, que se destina a todos os homens, sem exceção.

Depois de provar que todos os homens (judeus e pagãos) vivem no domínio do pecado (cf. Rom 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” oferece a vida a todos, sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo mostra como é que, através de Jesus Cristo, essa vida se comunica ao homem (cf. Rom 5,12-8,39).
Indo mais ao pormenor: como é, então, que a vida de Deus se comunica ao homem? Paulo desenvolve o seu pensamento de acordo com a seguinte sequência: a obediência de Cristo ao plano do Pai fez com que a graça da salvação fosse oferecida a todos os homens (cf. Rom 5,12-20); acolhendo essa graça e aceitando receber o Batismo, os homens tornam-se todos participantes do dom de Deus (cf. Rom 6,1-23); a adesão a Cristo faz os homens livres das cadeias do egoísmo e do pecado e transforma-os em homens novos (cf. Rom 7,1-25); e é o Espírito (dado ao crente no batismo) que potencia essa vida nova (cf. Rom 8,1-39).in Dehonianos.

Para a reflexão, considerar os seguintes dados:

Na verdade, no dia do meu Batismo, eu escolhi a vida “segundo o Espírito” (provavelmente, fui batizado muito pequenino, numa altura em que não tinha consciência plena do que isso significava; mas, mais tarde, tive a oportunidade – em vários momentos da minha caminhada cristã – de validar e confirmar essa opção inicial). A minha vida tem sido coerente com essa opção? A minha vida tem-se desenrolado à margem de Deus e das suas propostas (“vida segundo a carne”) ou na escuta atenta e consequente dos projetos de Deus (“vida segundo o Espírito”)?

O batizado é alguém que escolheu identificar-se com Cristo – isto é, alguém que escolheu viver na obediência aos planos do Pai e no dom da vida em favor dos irmãos. O exemplo de Cristo garante-me: uma vida gasta desse jeito não termina no fracasso, mas na vida definitiva, na felicidade total. A realização plena do homem não está nos valores efémeros (muitas vezes propostos como os valores mais fundamentais), mas no amor e no dom da vida. É daí que brota a ressurreição. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 11,1-45

«Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá».

«Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá. Acreditas nisto?».

 

Ambiente

O Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora e vivificadora do Messias. O texto que hoje nos é proposto é, exatamente, a quinta catequese (a da vida) do “Livro dos Sinais”. Trata-se de uma narração única, que não tem paralelo nos outros três Evangelhos.

A cena situa-nos em Betânia, uma aldeia a Este do monte das Oliveiras, a cerca de três quilómetros de Jerusalém. O autor da catequese coloca-nos diante de um episódio – um triste episódio – familiar: a morte de um homem. A família mencionada, constituída por três pessoas (Marta, Maria e Lázaro), parece conhecida de Jesus: no vers. 5, diz-se que Jesus amava Marta, a sua irmã Maria e Lázaro. A visita de Jesus a casa desta família é, aliás, mencionada em Lc 10,38-42; e João tem o cuidado de observar que a Maria, aqui referenciada, é a mesma que tinha ungido o Senhor com perfume e lhe tinha enxugado os pés com os cabelos (vers. 2, cf. Jo 12,1-8). in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

A questão principal do Evangelho deste domingo – e que é uma questão determinante para a nossa existência de crentes – é a afirmação de que não há morte para os “amigos” de Jesus – isto é, para aqueles que acolhem a sua proposta e que aceitam fazer da sua vida uma entrega ao Pai e um dom aos irmãos. Os “amigos” de Jesus experimentam a morte física; mas essa morte não é destruição e aniquilação: é, apenas, a passagem para a vida definitiva. Mesmo que estejam privados da vida biológica, não estão mortos: encontraram a vida plena, junto de Deus. A história de Lázaro pretende representar essa realidade.

No dia do nosso batismo, escolhemos essa vida plena e definitiva que Jesus oferece aos seus e que lhes garante a eternidade. A nossa vida tem sido coerente com essa opção? A nossa existência tem sido uma existência egoísta e fechada, que termina na morte, ou tem sido uma existência de amor, de partilha, de dom da vida, que aponta para a realização plena do homem e para a vida eterna?

Ao longo da nossa existência nesta terra, convivemos com situações em que somos tocados pela morte física daqueles a quem amamos…. É natural que fiquemos tristes pela sua partida e por eles deixarem de estar fisicamente presentes a nosso lado. A nossa fé convida-nos, no entanto, a ter a certeza de que os “amigos” não são aniquilados: apenas encontraram essa vida definitiva, longe da debilidade e da finitude humanas.

Diante da certeza que a fé nos dá, somos convidados a viver a vida sem medo. O medo da morte como aniquilamento total torna o homem cauteloso e impotente face à opressão e ao poder dos opressores; mas libertando-nos do medo da morte, Jesus torna-nos livres e capacita-nos para gastar a vida ao serviço dos irmãos, lutando generosamente contra tudo aquilo que oprime e que rouba ao homem a vida plena. in Dehonianos

 

Para os leitores:

             A brevidade da primeira leitura não deve permitir descurar a sua preparação. Deus dirige-se ao Seu povo e a proclamação desta leitura deve ter isso em conta. Além disso, pede-se atenção à repetição do vocativo «ó meu povo».

A segunda leitura exige uma acurada preparação tendo em conta as pausas e respirações. É necessário ter em atenção as frases longas, com diversas orações, bem como as diversas frases condicionais.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

VIDA DADA EM ABUNDÂNCIA

A «caminhada» quaresmal aproxima-se da sua meta e do seu verdadeiro ponto de partida: a Cruz Gloriosa onde resplandece para sempre o Rosto do imenso, indizível amor de Deus. Nesta altura do percurso (supõe-se que encetámos uma subida espiritual: entenda-se no Espírito Santo e com o Espírito Santo), batizados e catecúmenos devem estar já a ser iluminados por essa luz, a ponto de se desfazerem das «obras das trevas» e de abraçarem as «obras da Luz», como verdadeiros discípulos que seguem o Mestre até ao fim, que é também o princípio, a Fonte da Vida verdadeira donde jorra o Espírito Santo (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Os catecúmenos têm neste Domingo V da Quaresma – Domingo da dádiva da Ressurreição – os seus terceiros «escrutínios»: última «chamada» para a Liberdade antes da Noite Pascal Batismal.

A Ressurreição de Lázaro (João 11,1-45) constitui o sexto dos sete «sinais» do Mistério de Cristo segundo o Evangelho de João. Depois das bodas de Caná (João 2,1-12) (1.º), da cura do filho do oficial em Cafarnaum (João 4,46b-54) (2.º), da cura do paralítico na «piscina probática» (João 5,1-47) (3.º), da multiplicação dos pães e dos peixes (João 6,1-14) (4.º), da Iluminação da cego de nascença (João 9,1-41) (5.º), e antes do Sétimo Grande Último Primeiro «Sinal» que é a própria Ressurreição do Senhor, «o Sinal da Santa Cruz», decifrado pelo Espírito Santo, com que todos fomos (somos) marcados para sempre (Efésios 1,13; 4,30).

Em boa verdade, o episódio da morte / ressurreição de Lázaro remete de forma clara para a Morte / Ressurreição do Senhor. O tempo que marca a narrativa não é o tempo de Lázaro (da sua doença, da sua morte, do seu sepultamento), mas é o tempo (a hora) de Jesus, o Filho de Deus, Aquele-que-Vem sempre, passageiro total, pascal. Por isso, quando recebe a notícia da doença do amigo, Jesus deixa passar propositadamente dois dias (João 11,6), e é ao terceiro dia que se encaminha para a Judeia (João 11,7), e é ao terceiro dia que chama Lázaro da morte (João 11,43). Pouco importa que para Lázaro seja já o quarto dia! (João 11,17 e 39). Verdadeiramente importante é a hora-que-vem (!), agora, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus (João 5,25 e 28), Aquele-que-dá-a-vida (João 5,21; 1 Coríntios 15,45), esplendoroso Rio de Luz e de Sentido a inundar a terra inteira, enchendo-a de Vida e de Saúde (Ezequiel 47,1-12; Apocalipse 22,1-2). Verdadeiramente importante é este terceiro dia em que o Filho de Deus é glorificado (João 11,4), e suscita a fé de todos os intervenientes na cena: dos discípulos (João 11,15), de Marta (João 11,27), de Maria (João 11,29.32), da multidão (João 11,42), de muitos judeus (João 11,45).

Marta permanece ligada à corrente de uma teologia tradicional: «Eu sei (oìda) que ressuscitará na ressurreição no último dia» (João 11,24), e não deixa entrar em si a torrente da novidade enunciada por Jesus, que é Jesus: «Eu Sou (egô eimi) a ressurreição e a vida» (João 11,25). E, quando Jesus dá ordens para retirar (árate: imperativo aor. de aírô) a pedra (João 11,39), Marta avança logo a inutilidade, mesmo o desconforto, o mau cheiro, de uma tal ação, dado que já lá vão quatro dias desde que Lázaro morreu (João 11,39). O certo é que, por ordem de Jesus, mãos humanas retiraram (êran: aoristo de aírô) a pedra (João 11,41), e, mediante nova ordem de Jesus, Lázaro sai ligado com as faixas e o rosto envolto num sudário (João 11,44). É preciso ainda uma nova ordem de Jesus, para que Lázaro seja libertado das faixas que o prendem na morte e do sudário da morte que lhe tapa o rosto (João 11,44).

Como tudo isto aponta, em contraponto, para a ressurreição de Jesus. Aqui, no caso de Lázaro, a pedra é mandada retirar (árate) e é por mãos humanas por algum tempo retirada (êran). O verbo aírô [= retirar] aparece nos dois casos na forma ativa e no tempo aoristo, que traduz uma ação no tempo. Entenda-se: por mãos humanas e por algum tempo. Mas, para o leitor competente, esta ação remete já para o cenário da Ressurreição de Jesus. E quando se tratar do túmulo de Jesus, o leitor competente não pode deixar de notar que a pedra se apresenta retirada (êrménon: part. perf. passivo), na forma passiva e no tempo perfeito (João 20,1). Entenda-se: por Deus e para sempre! É o inefável que se abre diante dos nossos olhos! E também as faixas não prendem, e o sudário não encobre! As faixas estão no chão, e o sudário cuidadosamente enrolado em um lugar (João 20,6-7). Tudo está feito, e bem feito. Nenhuma ação de libertação é necessária, como o foi em João 11,44).

Significativamente estes discípulos de Jesus ficam confusos com o sono-morte de Lázaro (João 11,11-13) – a morte confunde-nos a todos (!) – mas compreendem perfeitamente que a ida de Jesus para a Judeia é a sua entrega à Morte (João 11,8), e vislumbram até o significado Batismal dessa Morte, uma vez que manifestam o desejo de morrer com Ele (João 11,16), isto é, querem Viver aquela Morte! Como bons catecúmenos que seguiram fielmente o Mestre, aprenderam já que a Vida verdadeira brota daquela Morte na qual verdadeiramente somos batizados (Romanos 6,3-4), com-mortos, com-sepultados, com-ressuscitados, com-vivificados, com-sentados na Glória! (Efésios 2,5-6; Colossenses 2,12-13). Sentada estava Maria (João 11,20), figura do discípulo (Lucas 10,39); mas quando lhe é dito ao ouvido que o Senhor a chama (João 11,28), levantou-se (êgérthê: verbo técnico da Ressurreição: Lucas 24,34; 1 Coríntios 15,4) de imediato e foi ao seu encontro (João 11,29).

Belo, belo, belo este Jesus que vem ao nosso encontro, que sente as nossas dores e chora connosco e também por nós (notem-se as três menções do verbo «chorar», duas por parte de Maria (cf. 11,31-32, e uma por parte dos judeus (cf. 11,33). O verbo empregado é, nos três casos, klaíô. No mesmo contexto, é dito também que Jesus se comove connosco (cf. 11,33) e que também chora (cf. 11,35). Ao constatarmos que Jesus chora, fácil se torna perceber que Jesus chora connosco, misturando as suas lágrimas com as nossas nesta situação dolorosa. Mas é preciso notar ainda que o narrador põe Jesus a «chorar» com um verbo diferente do que usou para nós nas três vezes anteriores. Jesus chora com o verbo dakrýô. Com este procedimento, talvez o narrador nos queira dizer que, além de chorar connosco, Jesus também chora por nós, ao ver a nossa incredulidade. É só o 3.º Dia dele e a voz dele, daquele que nos ama e nos chama sempre, inclusive dos vales onde vamos caindo mortos, que nos salva. Ele é a Vida. Ainda hoje, em Betânia, atual al-Azariye, aldeiazinha situada na colina oriental que desce do monte das Oliveiras, a cerca de três km de Jerusalém, se pode visitar, descendo 24 degraus, o túmulo que a tradição popular atribui a Lázaro. Ao lado está a igreja franciscana, dita «da amizade», levantada pelo famoso arquiteto Barluzzi, em 1952-1953.

O imenso texto de Ezequiel 37,12-14 é uma belíssima metáfora plantada no meio da Escritura, uma lampadazinha (2 Pedro 1,19) que aponta já para a Luz nova e grande de Jesus. A metáfora mostra-nos que os exilados na Babilónia são como ossos ressequidos e sem nenhuma esperança. Eles estão na morte e na humilhação. O seu discurso não deixa dúvidas: «Os nossos ossos estão secos; a nossa esperança está desfeita; para nós está tudo acabado» (Ezequiel 37,11). Mas a Palavra de Deus manda também na morte. Apontando para o Novo Testamento, Deus chama os mortos dos seus túmulos, e fá-los reviver. Jesus que passa no Evangelho de Hoje «grita com voz forte» (João 11,43), e Lázaro, morto, saiu do túmulo.

Paulo não se cansa de nos lembrar a vida nova que habita os filhos de Deus (Romanos 8,8-11). «Viver em Cristo» ou «no Espírito» são fórmulas batismais intensas que indicam a vida nova do batizado: com o dom da Iluminação, marcado pelo Espírito até à Vida eterna. Mas agora é tempo de passar, como Jesus, ao estilo de Jesus, dando um testemunho credível da nossa condição nova de filhos de Deus, deixando o fruto do Espírito iluminar a nossa vida. E «o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio» (Gálatas 5,22-23).

Sim, o Salmo 130 é um grito desde o abismo profundo em que jazemos atolados. São apenas 52 palavras hebraicas que atiramos a Deus, Senhor do Amor fiel (hesed) da Redenção (pedût). Cada orante que grita este Salmo sabe em que grau ou degrau de profundidade está. Sim, este é um dos 15 Salmos graduais ou das subidas ou das peregrinações (120-134). É uma voz que se levanta e sobe até àquele Senhor que não desprezou as nossas profundezas, mas até elas desceu, e até elas desce, para nos ajudar a subir!

Concede-nos, Senhor Jesus,
Que neste tempo de dor e desalento,
Nos refugiemos aqui,
Nos ajoelhemos aqui,
Ao pé da tua Cruz,
À espera de encontrar algum alento.

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,
Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,
Mais alto e mais profundo,
Vê-se bem, com toda a claridade,
Que a lonjura do tempo não é horizontal.
Eleva-se em altura.
Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,
Vertical,
E sem costura.

Tu vens do Alto, Senhor.
Tu vens de Deus.
Tu és Deus.
Tu és o Justo
Que chove das alturas
Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

Vem, Senhor Jesus,
Alumia e rega a nossa terra dura,
Acaricia o nosso humilde chão,
Limpa as nossas lágrimas,
E modela com as tuas mãos de amor
Em cada um de nós
Um novo coração,
Capaz de ver,
Desde al-Azariye,
A alegria do teu terceiro dia
E a força nova

Da tua Ressurreição.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do V Domingo da Quaresma – Ano A – 26.03.2023 (Ez 37, 12-14)
  2. Leitura II do V Domingo da Quaresma – Ano A – 26.03.2023 (Rom 8, 8-11)
  3. Domingo V do Tempo da Quaresma – Ano A – 26.03.2023 – Lecionário
  4. Domingo V do Tempo da Quaresma – Ano A – 26.03.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo IV da Quaresma – Ano A – 19.03.2023

Domingo Laetare. – Dia de S. José – Dia do Pai

Viver a Palavra

 

O ser humano pela sua contingência faz a experiência do limite e da insatisfação. Quantas vezes já nos lamentamos por algo que nos faz falta ou por vermos alguns irmãos nossos que muitas vezes não possuem o necessário para uma vida digna. Contudo, não obstante esta experiência, ousamos cantar com o salmista: «O Senhor é meu pastor: nada me faltará». Este aparente paradoxo deve conduzir-nos à raiz das nossas insatisfações e renovar no nosso coração a certeza que o salmista proclama. O caminho quaresmal que estamos a percorrer e que nos conduzirá à Páscoa do Senhor recorda-nos a nossa condição de peregrinos e este itinerário de conversão e penitência deve ajudar-nos a fazer a passagem de uma condição de insatisfação a uma renovada confiança Naquele que conduz o curso da nossa história.

Revestidos desta confiança podemos caminhar iluminadas pela luz que brota do coração de Jesus Cristo e abrir a nossa vida à alegria nova que só Jesus e o Seu infinito amor nos podem oferecer e garantir. Este quarto Domingo da Quaresma quer renovar no nosso coração o chamamento à alegria e, por isso, a antífona de entrada da missa deste Domingo proclama: «Alegra-te, Jerusalém; rejubilai, todos os seus amigos». O tempo da Quaresma é o tempo alegre e feliz de quem vê a sua vida renovada pela certeza do amor de Deus que nos escolhe para lá das nossas aparências. Deus conhece bem o nosso coração, conhece a cegueira que tantas vezes nos impede de olhar o mundo e os outros. Contudo, Jesus não se detém a olhar o nosso pecado e a nossa miséria, mas fixa-se sobretudo naquilo que o amor e a graça podem realizar em nós.

Sempre me fascinou ler o Evangelho fixando a atenção no olhar de Jesus. Aquele olhar misericordioso que diante das multidões se compadece delas porque são como ovelhas sem pastor (Mt 9,36). O olhar que se volta para o Céu para louvar o Pai que revela as verdades do Reino aos humildes e aos simples (Mt 11,25). O erguer do olhar para o cimo da árvore e procurar Zaqueu para que a salvação possa entrar em sua casa (Lc 19,5). E poderíamos continuar a percorrer o Evangelho para nos deixarmos fascinar por este olhar que nos seduz e encanta porque nos olha com misericórdia e ternura.

Bem diferente do olhar de Jesus é o olhar dos discípulos e dos fariseus. Os discípulos olham para aquele homem e procuram o pecado que tenha desencadeado aquela cegueira: «Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?». Os fariseus, diante de um homem que pela primeira vez consegue ver o mundo e os outros, olham-no com desconfiança porque foi curado em dia de Sábado.

Por seu lado, aquele cego de nascença, curado por Jesus, começa a ver de um modo novo e diferente e progressivamente deixa-se iluminar pela luz nova que Jesus lhe oferece. Quando lhe perguntam, pela primeira vez, quem o curou, responde com prontidão que foi um homem chamado Jesus. Interpelado pelos fariseus declara Jesus como um profeta e interrogado de novo reafirma a sua origem divina: «Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer». Interpelado por Jesus, professa a sua fé no Filho do Homem: «Eu creio, Senhor». Deste modo, este homem não recupera apenas a sua visão física, mas pode contemplar o mundo e os outros com o olhar novo que brota do encontro com Cristo.

No nosso caminho quaresmal, somos convidados a renovar no nosso coração a alegria do encontro com Jesus, a acolher a luz que Ele derrama sobre os nossos corações e a olhar de um modo novo aqueles que se cruzam connosco na estrada da vida, porque como nos recorda S. Paulo: «outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade».in Voz Portucalense

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No dia 19 de março a Igreja celebra a Solenidade S. José, Esposo da Virgem Santa Maria. Como este ano o dia 19 coincide com o IV Domingo da Quaresma, a solenidade é transferida para a segunda-feira, dia 20. Celebrando aquele que recebeu a missão de ser pai de Jesus, este dia é também dedicado a todos os pais. Esta ocasião é uma oportunidade pastoral para reunir as famílias e celebrar o dom da paternidade. Pode fazer-se na solene celebração da Eucaristia com uma especial bênção para os pais ou aproveitando o fim-de-semana para uma atividade catequética mais alargada envolvendo os pais e os filhos.

Neste dia assinala-se também o décimo aniversário do início do pontificado do Papa Francisco, escolhido pelo colégio cardinalício para o sucessor de Bento XVI no dia 13 de março de 2013. Esta ocasião é uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom da sua vida e do seu ministério. Pode fazer-se uma especial celebração de ação de graças com o canto do Te Deum, incluir esta intenção na Eucaristia, de modo particular na Oração Universal ou uma atividade formativa ou de reflexão quaresmal sobre os vários desafios que o magistério do Papa Francisco nos tem colocado.

No dia 19 de março a Igreja celebra a Solenidade S. José, Esposo da Virgem Santa Maria e que, neste ano litúrgico, ano A, vai coincidir com o IV Domingo da Quaresma – o Domingo da Alegria – Domingo Laetare. Celebrando aquele que recebeu a missão de ser pai de Jesus, este dia é também dedicado a todos os pais. Esta ocasião é uma oportunidade pastoral para reunir as famílias e celebrar o dom da paternidade. Neste dia assinala-se também o décimo aniversário do início do pontificado do Papa Francisco escolhido para chefe da Igreja Católica em 13 de março de 2013. Esta ocasião é uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom da sua vida e do seu ministério. Pode fazer-se uma especial celebração de ação de graças com o canto do Te Deum, incluir esta intenção na Eucaristia, de modo particular na Oração Universal ou uma atividade formativa ou de reflexão quaresmal sobre os vários desafios que o magistério do Papa Francisco nos tem colocado. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a Quaresma até à Páscoa. São 40 dias que querem significar “mudança”. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – 1 Sam 16,1b.6-7.10-13a

«Deus não vê como o homem: o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».

 

Ambiente

Na segunda metade do séc. XI a.C., os filisteus constituíam uma ameaça bastante séria para as tribos do Povo de Deus. Instalados na orla costeira, os filisteus pressionavam cada vez mais os outros grupos que habitavam a terra de Canaã, nomeadamente as tribos do Povo de Deus que ocupavam as montanhas do interior do país. A necessidade de uma liderança única e forte levou os anciãos das tribos a equacionar, pela primeira vez, a possibilidade da união política das tribos sob a autoridade de um rei, à imagem do que sucedia com os outros povos da zona.

A primeira experiência monárquica aconteceu com Saúl e agrupava as tribos do centro e algumas do norte do país. Essa experiência terminou, no entanto, de forma dramática: Saúl e seu filho Jónatas morreram na batalha de Gelboé, em luta contra os filisteus, por volta do ano 1010 a.C.

Era preciso encontrar um outro “herói”, capaz de gerar consensos entre tribos muito diferentes, juntá-las e conduzi-las vitoriosamente ao combate contra os inimigos filisteus. A escolha dos anciãos – tanto das tribos do Norte, como das tribos do Sul – recaiu, então, num jovem chamado David.

David nasceu por volta de 1040 a.C., em Belém de Judá, no sul do país. Como é que David se tornou notado e se impôs, de forma a ser considerado uma solução para o problema da realeza?

O Livro de Samuel apresenta três tradições sobre a entrada de David em cena. A primeira apresenta David como um admirável guerreiro, cuja valentia chamou a atenção de Saúl, sobretudo após a sua vitória sobre o gigante filisteu Golias (cf. 1 Sm 17). A segunda tradição apresenta David como um poeta, que vai para a corte de Saúl para cantar e tocar harpa (segundo esta tradição – bastante hostil a Saúl – o rei só conseguia reencontrar a calma e o bem-estar quando David o acalmava com a sua música – cf. 1 Sm 16,14-23. Aos poucos, o poeta/cantor David foi ganhando adeptos na corte, tornando-se amigo de Jónatas, o filho de Saúl, e casando mesmo com Mical, a filha do rei). Finalmente, a terceira tradição – a menos verificável historicamente, mas a de maior importância teológica – apresenta a realeza de David como uma escolha de Jahwéh. É esta terceira tradição que o nosso texto nos apresenta.in Dehonianos.

 

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

            Se olharmos para o mundo com olhos de esperança, vemos muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência… Não há mal nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu empenho e compromisso. No entanto, nós os crentes somos convidados a olhar mais além e a ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para colaborarem com Ele na salvação do mundo.

A nossa leitura mostra, mais uma vez, que Deus tem critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem sempre coincide com a nossa. “Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração” – diz o texto. É preciso entrar na lógica de Deus e aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do “curriculum” profissional ou académico; é preciso aprender a ver com o coração e a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes e sem pretensões… É preciso, sobretudo, aprender a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes. É isso que acontece nos “guichets” dos nossos serviços públicos?

É isso que acontece nas receções das nossas igrejas? É isso que acontece nas portarias das nossas casas religiosas? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 22 (23)

Refrão: O Senhor é meu pastor: nada me faltará.

LEITURA II – Ef 5,8-14

«Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade».

Ambiente

A Carta aos Efésios é, provavelmente, um dos exemplares de uma “carta circular” enviada a várias Igrejas da Ásia Menor, numa altura em que Paulo está na prisão (em Roma? em Cesareia?). O seu portador é um tal Tíquico. Estamos por volta dos anos 58/60.

Alguns veem nesta carta uma espécie de síntese da teologia paulina, numa altura em que Paulo sente ter terminado a sua missão apostólica na Ásia e não sabe exatamente o que o futuro próximo lhe reserva (recordemos que ele está, por esta altura, prisioneiro e não sabe como vai terminar o cativeiro).
O tema central da Carta aos Efésios é aquilo a que Paulo chama “o mistério”: o desígnio (ou projeto) salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos aos homens, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na Igreja.
O texto que nos é aqui proposto faz parte da “exortação aos batizados” que aparece na segunda parte da carta (cf. Ef 4,1-6,20). Nessa exortação, Paulo retoma os temas tradicionais da catequese primitiva e convida os crentes a deixarem a antiga forma de viver para assumirem a nova, revestindo-se de Cristo (cf. Ef 4,17-31), imitando Deus (cf. Ef 4,32-5,2) e passando das trevas à luz (cf. Ef 5,3-20). in Dehonianos.

Na reflexão, ter em conta os seguintes dados:

“Luz” e “trevas” são, nesta passagem, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto, é aquele que optou por “viver na luz”. Para mim, o que significa, em concreto, “viver na luz”? O que é que isso, em termos práticos, implica? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da minha vida, a fim de que eu seja um testemunho da “luz”?

Para Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e decidida – as “trevas” que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos. Na minha perspetiva, quais são os gestos, comportamentos e atitudes que contribuem para apagar a “luz” de Deus e para manter este mundo nas “trevas”? Com que é que eu devo pactuar e o que é que eu devo denunciar?

A expressão “desperta tu que dormes”, citada por Paulo, convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços cruzados diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contravalores que enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de manter uma atitude de vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa. Diante dos contravalores, qual a minha atitude: é a atitude comodista de quem deixa correr as coisas porque não está para se chatear, ou é a atitude de quem se sente realmente incomodado com a escuridão do mundo e pretende intervir para que o mundo se construa de uma forma diferente? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 9,1-41

«Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego? Ele ou os seus pais?».

«Vai lavar-te à piscina de Siloé».

«Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».

 

Ambiente

Já vimos, na semana passada, que o Evangelho segundo João procura apresentar Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. Também vimos que, no chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

O nosso texto é, exatamente, a terceira catequese (a da luz) do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da “luz”, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. A catequese sobre a “luz” é colocada no contexto da “Festa de Sukkot” (a festa das colheitas); um dos ritos mais populares dessa festa era, exatamente, a iluminação dos quatro grandes candelabros do átrio das mulheres, no Templo de Jerusalém.

No centro do quadro aparece-nos (além de Jesus) um cego. Os “cegos” faziam parte do grupo dos excluídos da sociedade palestina de então. As deficiências físicas eram consideradas – pela teologia oficial – como resultado do pecado (os rabis da época chegavam a discutir de onde vinha o pecado de alguém que nascia com uma deficiência: se o defeito era o resultado de um pecado dos pais, ou se era o resultado de um pecado cometido pela criança no ventre da mãe).

Segundo a conceção da época, Deus castigava de acordo com a gravidade da culpa. A cegueira era considerada o resultado de um pecado especialmente grave: uma doença que impedisse o homem de estudar a Lei era considerada uma maldição de Deus por excelência. Pela sua condição de impureza notória, os cegos eram impedidos de servir de testemunhas no tribunal e de participar nas cerimónias religiosas no Templo.in Dehonianos.

Considerar, na reflexão, as seguintes propostas:

Nós, os crentes, não podemos fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão… No entanto, também não podemos esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há, objetivamente, situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. O que é que, no nosso mundo, gera escuridão, trevas, alienação, cegueira e morte? O que é que impede o homem de ser livre e de se realizar plenamente, conforme previa o projeto de Deus?

A catequese que João nos propõe hoje garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e autossuficiência que geram “trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor. Aderir a esta proposta é viver na “luz”. Como é que eu me situo face ao desafio que, em Jesus, Deus me faz?

O Evangelho deste domingo descreve várias formas de responder negativamente à “luz” libertadora que Jesus oferece. Há aqueles que se opõem decididamente à proposta de Jesus porque estão instalados na mentira e a “luz” de Jesus só os incomoda; há aqueles que têm medo de enfrentar as “bocas”, as críticas, que se deixam manipular pela opinião dominante, e que, por medo, preferem continuar escravos do que arriscar ser livres; há aqueles que, apesar de reconhecerem as vantagens da “luz”, deixam que o comodismo e a inércia os prendam numa vida de escravos… Eu identifico-me com algum destes grupos?

O cego que escolhe a “luz” e que adere incondicionalmente a Jesus e à sua proposta libertadora é o modelo que nos é proposto. A Palavra de Deus convida-nos, neste tempo de Quaresma, a um processo de renovação que nos leve a deixar tudo o que nos escraviza, nos aliena, nos oprime – no fundo, tudo o que impede que brilhe em nós a “luz” de Deus e que impede a nossa plena realização. Para que a celebração da ressurreição – na manhã de Páscoa – signifique algo, é preciso realizarmos esta caminhada quaresmal e renascermos, feitos Homens Novos, que vivem na “luz” e que dão testemunho da “luz”. O que é que eu posso fazer para que isso aconteça?

Receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo. O que é que eu faço para eliminar as “trevas” que geram sofrimento, injustiça, mentira e alienação? A “luz” de Cristo que os padrinhos me passaram no dia em que fui batizado brilha em mim e ilumina o mundo?  in Dehonianos

 

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve ter-se em atenção os diversos diálogos presentes no texto. Além disso, deve preparar-se bem as palavras menos usuais e que podem ser de difícil pronunciação: «âmbula», «Jessé» e «unge-o». Estas palavras devem pronunciar-se tal como estão escritas respeitando a sua acentuação.

Na segunda leitura, é importante ter presente o tom exortativo presente no texto e que é sublinhado pelas diferentes formas verbais no imperativo

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

LUZ QUE LAVA E ALUMIA O CORAÇÃO

Com o olhar cada vez mais fixo na Cruz Gloriosa, em que foi entronizada a Luz que dá a Vida verdadeira, batizados e catecúmenos continuam a sua «caminhada» quaresmal: memória do batismo [= execução do programa filial batismal] para os batizados, preparação para o batismo por parte dos catecúmenos (Sacrosanctum Concilium 109), que têm neste Domingo IV da Quaresma – Domingo da dádiva da Luz – os seus segundos «escrutínios»: segunda «chamada» para a Liberdade.

O Evangelho narra a dádiva da Luz por Jesus à nossa pobre e cega humanidade (João 9,1-41). Deus é Luz (1 João 1,5), e é na sua Luz que nós vemos a Luz (Salmo 35,10). Ora, a Luz veio ao mundo (João 3,19; 12,46) para dar a Vida ao mundo. Veio (elêluthen) ao mundo e permanece acesa no mundo, como indica o perfeito usado no texto grego. Marcos recorre à crueza da linguagem para nos fazer ver melhor o Mistério desta Luz-que-vem: «Vem a Luz para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não, antes, para ser colocada sobre o candelabro? Na verdade, nada está escondido que não seja para se manifestar» (Marcos 4,21-22). Na verdade, o Divino, o Filho Unigénito de Deus, Aquele-que-vem, passa escondido na humildade da nossa condição humana. É Ele a Luz-que-vem, que agora está escondida, mas que se manifestará no novo e último candelabro do amor de Deus (Atos 2,36), a Cruz Gloriosa, única fonte do Espírito Santo para nós (sempre Atos 2,32-33; João 19,30.34; 7,38-39). Não esqueçamos que ver o Filho é obra do Espírito Santo em nós (1 Coríntios 12,3). É por isso que o Filho do Homem, Aquele (o Único) -que-de-Deus-vem-e-a-Deus-volta (João 9,13) tem de (deî) ser levantado [= crucificado / ressuscitado /glorificado / exaltado] (João 3,14; cf. Filipenses 2,9): só então se saberá que «Eu Sou» (título divino) (João 8,28), e atrairei todos a Mim (João 12,32).

Mas agora, após o Batismo no Jordão e a Transfiguração / Confirmação no Tabor, durante o dia que é a sua vida toda, eis Jesus passando sempre (parágôn: particípio presente durativo) (João 9,1) e executando a «obra» daquele que o enviou (João 9,4). Na sua condição de «passageiro» total, pascal, no sentido «que de Deus veio e para Deus voltava» (João 13,3), Jesus viu um cego de nascença, e os seus discípulos também viram. Mas Jesus e os discípulos não viram a mesma coisa. Os discípulos viram um cego, e por detrás do cego viram o encadeado «pecado – doença», e por detrás do encadeado viram a manifestação do Deus-garante da «ordem da retribuição». Jesus viu um cego, mas não viu naquela cegueira a manifestação de Deus; antes, viu que «era preciso» (deî) (João 9,4) aquele cego para que Deus se manifestasse nele. Jesus viu um cego e como que disse: preciso deste cego! «É preciso» (deî) que Deus se manifeste neste cego. E como é que Deus se podia manifestar naquele cego? Através das «obras» (tà érga) daquele que Ele enviou (João 9,4), fazendo passar aquele cego do domínio da cegueira para a liberdade da glória dos filhos de Deus, para usar a expressão feliz de Romanos 8,21. Sendo a Luz do mundo (João 8,12; 9,5), Jesus concede o dom da vista ao cego de nascença acompanhado do dom da Luz (Iluminação) em ordem à contemplação das coisas divinas (veja-se a propósito Hebreus 6,4-5: texto batismal espantoso!). Atente-se bem que o cego de nascença recebeu o dom da vista e o dom batismal da «divinização» para ver e ouvir as coisas divinas. Perante este segundo dom, também os fariseus eram cegos de nascença, e não o sabiam!

Significativamente, o cego recupera a vista e recebe o dom da Luz na «piscina de Siloé» (João 9,7). De notar que «piscina» se diz em grego kolymbêthra, nome que ainda hoje para a Igreja grega significa «fonte batismal». Siloé é a grecização do aramaico shlîha, hebraico shalîah, que quer dizer «enviado». Santo Agostinho comenta, sempre de forma acertada e penetrante: «Sabeis bem quem é o enviado; se Cristo não tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido desviado do pecado. O cego lavou os olhos naquela fonte que se traduz “Enviado”: foi batizado em Cristo». A «fonte batismal» do «enviado» de Deus, daquele-que-vem-de-Deus, o Filho do Homem. O cego recobrou a vista imediatamente. A luz da fé, essa é gradual. Passa por: «não sei» (João 9,12); «é um profeta» (João 9,17); «vem de Deus» (João 9,33); «eu creio, Senhor» (João 9,38).

A narrativa vai abrindo cenários sucessivos. O primeiro (João 9,1-7) põe Jesus e os seus discípulos face ao cego, mostra as suas diferentes maneiras de ver, e deixa claro que é a postura criadora e redentora de Jesus que cura o cego. O segundo (João 9,8-12) mostra-nos a discussão estéril que se gera entre os vizinhos acerca do cego. Só palavras. O terceiro (João 9,13-17) traz para a cena a presença dos fariseus, que também discutem o assunto, e também não o entendem nem se entendem. O quarto (João 9,18-23) mostra a atitude dos pais que não se querem comprometer. O quinto (João 9,24-34) põe de novo em cena os judeus e o cego, que apontam os respetivos mestres: Moisés para os judeus; Jesus para o cego. Mas acerca de Jesus, dizem os judeus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego responde com penetrante clarividência, apontando a cegueira deles: «Isso é «espantoso (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! O último cenário (João 35-41) traz-nos de volta Jesus, que se revela ao cego, iluminando-o, e deixa os fariseus cada vez mais às escuras!

Temos todos algo a ver com o cego de nascença: os batizados receberam como ele o dom batismal da Luz para ver e ouvir e viver a vida divina; os catecúmenos recebê-lo-ão. Temos todos a ver com o Enviado, Aquele-que-vem: Ele é o único enviado do Pai para fazer a sua «obra»; nós somos enviados por Ele (João 20,21) para continuar no mundo a sua «obra». Mas temos de reconhecer que muitas vezes ainda vemos as pessoas e as coisas de forma bem diferente de Jesus!

O Primeiro Livro de Samuel 16,1-13 serve-nos hoje um texto fantástico em clara sintonia com o Evangelho. Trata-se da unção real do menor dos filhos de Jessé, David, um garoto que andava nos montes a guardar o rebanho. Nem entrava nas contas do seu pai. Teve de ser o profeta Samuel a perguntar a Jessé, depois de este lhe ter apresentado sete filhos e não ter dado sequer a entender que ainda tinha mais um: «Acabaram os teus filhos?» (1 Samuel 16,11). Só aqui é que Jessé se apercebeu que ainda tinha mais um. Mas, como David era ainda um garoto, nunca Jessé pensou que passasse por ele a escolha de Deus! A sua presença é, portanto, tão paradoxal como a do cego de nascença! Mas Deus não vê como nós. Deus vê o coração, e nele deposita o seu Espírito (1 Samuel 16,13; Romanos 5,5). Levamos este tesouro em vasos de barro… (2 Coríntios 4,7). Brilha melhor a Luz de Deus (2 Coríntios 4,6).

Cumpre-nos ler também hoje o grande texto da Carta aos Efésios 5,8-14. Iluminados pela Luz da Luz, que é também a Luz do mundo, somos a Luz do mundo: constatação, mas sobretudo desafio e programa! Somos, por isso, «filhos da Luz» (Efésios 5,8; 1 Tessalonicenses 5,5) – um dos termos técnicos de «divinização» – e «filhos do dia» (1 Tessalonicenses 5,5). Chamados das trevas para a luz maravilhosa de Deus (1 Pedro 2,9), devemos tornar-nos operadores das «obras da Luz», que não têm parte com as «obras das trevas». O Apóstolo [= Enviado] dá testemunho do Evangelho e continua no mundo o Evangelho. Passando como Jesus. Vendo como Jesus. Aí está a nossa missão.

Tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos…

Vai adiantado o tempo da Quaresma,
E eu continuo ainda aqui parado
Nesta página em branco da calçada.

Sei bem que foste tu que me puseste em movimento,
Que teceste o meu ser,
Que me deste a vida e de comer,
Que me acolheste e me acolhes sempre em tua casa.

Como é que estou então aqui parado na berma desta estrada,
Pensando que fui eu que me pus no ser,
Que sou dono de mim,
Que esta vida é minha,
Minha é esta casa, este pedaço de chão,
Este naco de pão
E até este coração?

Não fiques aí parado, meu irmão.
Ergue-te e vai pelos nós do vento,
Chegarás por certo à pátria do Espírito
Submisso ao sopro obsessivo do silêncio.

Olha com mais atenção
O chão que sonhas,
O céu que lavras.
Recomeça!
Conquista o espaço
Onde a palavra cresça
Longe do ruído das palavras!

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo IV da Quaresma – Ano A – 19.03.2023 (1 Sam 16,1b.6-7.10-13a)
  2. Leitura II do Domingo IV da Quaresma – Ano A – 19.03.2023 (Ef 5, 8-14)
  3. Domingo IV do Tempo da Quaresma – Ano A – 19.03.2023 – Lecionário
  4. Domingo IV do Tempo da Quaresma – Ano A – 19.03.2023- Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo III da Quaresma – Ano A – 12.03.2023

Viver a Palavra

Na nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor somos convidados a sentarmo-nos com Jesus à beira do poço. Passamos os nossos dias a correr entre os múltiplos afazeres do nosso quotidiano e às vezes parece tão escasso o tempo para serenar e descansar. Neste frenesim quotidiano marcado pelas rotinas, pela sucessão de tarefas a realizar e horários a cumprir, irrompe Jesus, o enviado do Pai, o Deus das surpresas que enche e preenche de novidade os nossos dias. O tempo da Quaresma é o tempo favorável e especialíssimo para abrir o nosso coração ao Deus que nos visita e surpreende sempre com o Seu amor e o Seu perdão. Por isso, se o tempo da Quaresma é tempo de penitência e conversão, é também «tempo para cantar a alegria do perdão» (Ir. Roger). A experiência da penitência e da conversão abre a nossa vida à alegria da vida reencontrada, à experiência feliz da transformação do coração.

«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço». Esta poderia ser apenas uma indicação cénica para situar Jesus no contexto desta passagem evangélica. Contudo, as ações de Jesus devem ser sempre lidas em chave teológica, mesmo quando parecem ser apenas subsidiárias da narrativa. Na Sagrada Escritura, a ação de sentar apresenta diferentes significados: a ação de ensinar na relação mestre/discípulo (Mt 5,1), a evocação da majestade de Deus (Dn 7,9) ou a referência escatológica do Filho do Homem na sua glória (Mt 25,31). Contudo, aqui Jesus senta-se cansado e pede água à Samaritana e no evangelho estão bem identificados aqueles que se sentam para pedir: são os mendigos. Mendigos como aqueles que estão sentados à beira da estrada, na saída de Jericó, que ao ouvirem que Jesus está a passar começam a gritar (Mt 20,30-31) ou então Bartimeu, um mendigo cego, sentado na beira do caminho (Mc 10,46).

Jesus, cansado do caminho, senta-se á beira do poço e pede de beber à samaritana. Este pedido como que antecipa aquele grito da Cruz: «tenho sede». Misterioso Senhor que, para dar, pede! Jesus apresenta-se como mendigo do homem, com uma sede de salvação que nos desconcerta. Assim nos recorda Simon Weil quando afirma: «Deus espera como um mendigo, imóvel e silencioso, diante de qualquer um que lhe estenda um bocado de pão. O tempo é a espera de Deus que mendiga o nosso amor».

Jesus tem sede. Sede da água que dessedenta os que caminham nas estradas poeirentas, mas também sede de salvação. Sede de tocar as nossas sedes, de contactar com os nossos desertos e as nossas feridas. Ele quer salvar cada homem e cada mulher e, independentemente da sua vida de pecado ou do seu errado caminho, Ele quer oferecer uma oportunidade nova de vida plena e cheia de sentido.

Jesus encontra-se com a Samaritana ao meio-dia, precisamente a mesma hora em que Jesus é apresentado por Pilatos à multidão (Jo 19,13-14). Como afirma o Cardeal Tolentino de Mendonça: «só compreenderemos verdadeiramente o diálogo entre Jesus com a Samaritana se tivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz»Na verdade, o meio-dia é a hora central do dia, o ponto que determina a passagem de uma parte para outra da jornada. O meio do tempo assinala um antes e um depois, o meio do caminho e a encruzilhada da vida.

O encontro com Jesus marca assim um rumo novo na nossa história, pois sempre que abrimos o nosso coração ao verdadeiro encontro com Jesus é «meio-dia», é hora decisiva para avançar com um alento renovado e uma vontade nova de fazer da nossa vida doação. in Voz Portucalense

 

 

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No dia 19 de março a Igreja celebra a Solenidade S. José, Esposo da Virgem Santa Maria e que, neste ano litúrgico, ano A, vai coincidir com o IV Domingo da Quaresma – o Domingo da Alegria – Domingo Laetare. Celebrando aquele que recebeu a missão de ser pai de Jesus, este dia é também dedicado a todos os pais. Esta ocasião é uma oportunidade pastoral para reunir as famílias e celebrar o dom da paternidade. Neste dia assinala-se também o décimo aniversário do início do pontificado do Papa Francisco. Esta ocasião é uma oportunidade para dar graças a Deus pelo dom da sua vida e do seu ministério. Pode fazer-se uma especial celebração de ação de graças com o canto do Te Deum, incluir esta intenção na Eucaristia, de modo particular na Oração Universal ou uma atividade formativa ou de reflexão quaresmal sobre os vários desafios que o magistério do Papa Francisco nos tem colocado. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a Quaresma até à Páscoa. São 40 dias que querem significar “mudança”. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Ex 17,3-7

«Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber».

 

Ambiente

O texto que nos é proposto como primeira leitura pertence às “tradições sobre a libertação” (cf. Ex 1-18). Trata-se de um bloco de tradições que narram a libertação dos hebreus do Egipto (por ação de Jahwéh e do seu Servo Moisés) e a caminhada pelo deserto até ao Sinai.

O texto leva-nos até ao deserto do Sinai. O vers. 1 do nosso texto situa o episódio de Massa/Meribá nos arredores de Refidim, provavelmente no sul da península do Sinai (cf. Nm 33,14-15); mas Nm 20,7-11 situa-o nos arredores de Kadesh, a norte (aliás, não é possível traçar com rigor o caminho percorrido pelos hebreus, desde o Egipto até à Terra Prometida: estamos diante de textos que provêm de “fontes” diferentes, aqui combinados por um redator final; e essas “fontes” referem-se, provavelmente, a viagens distintas e a grupos distintos, que em épocas distintas atravessaram o deserto do Sinai). De qualquer forma, também não interessa definir exatamente o enquadramento geográfico: mais do que escrever um diário de viagem, aos catequistas de Israel interessa fazer uma catequese sobre o Deus libertador, que conduziu o seu Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade.
A questão fundamental para este grupo de fugitivos que, chefiados por Moisés, fugiu do Egipto, é a questão da sobrevivência num cenário desolado como é o deserto do Sinai. Os beduínos conheciam diversos “truques” que lhes asseguravam a sobrevivência no deserto. Um desses “truques” pode relacionar-se com o texto que nos é proposto… Alguns autores garantem a existência no deserto do Sinai de rochas porosas que, quando quebradas em certos lugares, permitem o aproveitamento da água aí armazenada. Terá sido qualquer coisa parecida que aconteceu na caminhada dos hebreus e que deixou um sinal na memória do Povo? É possível; mas o importante é que Israel viu no facto um sinal da presença e do amor do Deus libertador. in Dehonianos.

 

Refletir sobre os seguintes dados:

A caminhada dos hebreus pelo deserto é, um pouco, o espelho da nossa caminhada pela vida. Todos nós fazemos, todos os dias, a experiência de um Deus libertador e salvador, que está presente ao nosso lado, que nos estende a mão e nos faz passar da escravidão para a liberdade. No entanto, ao longo da travessia do deserto que é a vida, experimentamos, em certas circunstâncias, a nossa pequenez, a nossa dependência, as nossas limitações e a nossa finitude; as dificuldades, o sofrimento e o desencanto fazem-nos duvidar da bondade de Deus, do seu amor, do seu projeto para nos salvar e para nos conduzir em direção à verdadeira felicidade. No entanto, a Palavra de Deus deste domingo garante-nos: Deus nunca abandona o seu Povo em caminhada pela história… Ele está ao nosso lado, em cada passo da caminhada, para nos oferecer gratuitamente e com amor a água que mata a nossa sede de vida e de felicidade.

Ao longo da caminhada do Povo de Deus pelo deserto vêm ao de cima as limitações e as deficiências de um grupo humano ainda com mentalidade de escravo, agarrado à mesquinhez, ao egoísmo e ao comodismo, que prefere a escravidão ao risco da liberdade. No entanto, Deus lá está, ajudando o Povo a superar mentalidades estreitas e egoístas, fazendo-o ir mais além e obrigando-o a amadurecer. À medida que avança, de mãos dadas com Deus, o Povo vai-se renovando e transformando, vai alargando os horizontes, vai-se tornando um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais santo.

É esta, também, a experiência que fazemos. Muitas vezes somos egoístas, orgulhosos, comodistas, “meninos mimados” que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus e os outros pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. No entanto, as dificuldades da caminhada não são um castigo ou uma derrota; são, tantas vezes, parte dessa pedagogia de Deus para nos forçar a ir mais além, para nos renovar, para nos amadurecer, para nos tornar menos orgulhosos e autossuficientes. Devíamos, talvez, aprender a agradecer a Deus alguns momentos de sofrimento e de fracasso que marcam a nossa vida, pois através deles Deus faz-nos crescer. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 94 (95)

Refrão: Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

LEITURA II – Rom 5,1-2.5-8

«Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores».

 

Ambiente

Quando escreve aos Romanos, Paulo está a terminar a sua terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. O apóstolo sentia que tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente. Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contactar a comunidade de Roma e para apresentar aos romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de Roma, então afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58.

Paulo aproveita para dizer aos romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), Paulo nota que todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a “justiça de Deus” que a todos dá a vida, sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11).

No texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe, Paulo refere-se à ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem. in Dehonianos.

Para refletir:

Este texto convida-nos a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho connosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na autossuficiência e no pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.

A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar connosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência, a fim de nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.

A presença do Espírito acentua no nosso tempo – o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que continua presente e atuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que, dia a dia, vamos percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo. É esse caminho que a Palavra de Deus nos convida a percorrer, neste tempo de Quaresma.

Está em moda uma certa atitude de indiferença face a Deus, ao seu amor e às suas propostas. Em geral, os homens de hoje preocupam-se mais com os resultados da última jornada do campeonato de futebol, com as últimas peripécias da “telenovela das nove”, com os investimentos na Bolsa, com as vantagens da última geração de computadores ou com o caminho mais rápido e mais seguro para atingir o topo da carreira profissional do que com Deus e com o seu amor. Não será tempo de redescobrirmos o Deus que nos ama, de reconhecermos o seu empenho em conduzir-nos rumo à felicidade plena e de aceitarmos essa proposta de caminho que Ele nos faz? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 4,5-42

«Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço».

«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede».

«Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

Ambiente

O Evangelho deste domingo situa-nos junto de um poço, na cidade samaritana de Sicar. A Samaria era a região central da Palestina – uma região heterodoxa, habitada por uma raça de sangue misturado (de judeus e pagãos) e de religião sincretista.

Na época do Novo Testamento, existia uma animosidade muito viva entre samaritanos e judeus. Historicamente, a divisão começou quando, em 721 a.C., a Samaria foi tomada pelos assírios e foi deportado
a cerca de 4% da população samaritana. Na Samaria instalaram-se, então, colonos assírios que se misturaram com a população local. Para os judeus, os habitantes da Samaria começaram, então, a paganizar-se (cf. 2 Re 17,29). A relação entre as duas comunidades deteriorou-se ainda mais quando, após o regresso do Exílio, os judeus recusaram a ajuda dos samaritanos (cf. Esd 4,1-5) para reconstruir o Templo de Jerusalém (ano 437 a.C.) e denunciaram os casamentos mistos. Tiveram, então, de enfrentar a oposição dos samaritanos na reconstrução da cidade (cf. Ne 3,33-4,17). No ano 333 a.C., novo elemento de separação: os samaritanos construíram um Templo no monte Garizim; no entanto, esse Templo foi destruído em 128 a.C. por João Hircano. Mais tarde, as picardias continuaram: a mais famosa aconteceu por volta do ano 6 d.C., quando os samaritanos profanaram o Templo de Jerusalém durante a festa da Páscoa, espalhando ossos humanos nos átrios.
Os judeus desprezavam os samaritanos por serem uma mistura de sangue israelita com estrangeiros e consideravam-nos hereges em relação à pureza da fé jahwista; e os samaritanos pagavam aos judeus com um desprezo semelhante.

A cena passa-se à volta do “poço de Jacob”, situado no rico vale entre os montes Ebal e Garizim, não longe da cidade samaritana de Siquém (em aramaico, Sicara – a actual Askar). Trata-se de um poço estreito, aberto na rocha calcária, e cuja profundidade ultrapassa os 30 metros. Segundo a tradição, teria sido aberto pelo patriarca Jacob… Os dados arqueológicos revelam que o “poço de Jacob” serviu os samaritanos entre o ano 1000 a.C. e o ano 500 d.C. (embora ainda hoje se possa extrair dele água).

O “poço” acaba por transformar-se, na tradição judaica, num elemento mítico. Sintetiza os poços abertos pelos patriarcas e a água que Moisés fez brotar do rochedo no deserto (primeira leitura de hoje); mas, sobretudo, torna-se figura da Lei (do poço da Lei brota a água-viva que mata a sede de vida do Povo de Deus), que a tradição judaica considerava observada já pelos patriarcas, antes de ser dada ao Povo por Moisés.
O Evangelho segundo São João apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, enviado pelo Pai para criar um Homem Novo. No chamado “Livro dos Sinais” (cf. Jo 4,1-11,56), o autor apresenta – recorrendo aos “sinais” da água (cf. Jo 4,1-5,47), do pão (cf. Jo 6,1-7,53), da luz (cf. Jo 8,12-9,41), do pastor (cf. Jo 10,1-42) e da vida (cf. Jo 11,1-56) – um conjunto de catequeses sobre a ação criadora do Messias.

O nosso texto é, exatamente, a primeira catequese do “Livro dos Sinais”: através do “sinal” da água, o autor vai descrever a ação criadora e vivificadora de Jesus. in Dehonianos.

Considerar, para a reflexão, os seguintes pontos:

A modernidade criou-nos grandes expectativas. Disse-nos que tinha a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades. Garantiu-nos que a vida plena estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem dependência de Deus; disse-nos que a vida plena estava nos avanços tecnológicos, que iriam tornar a nossa existência cómoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a vida plena estava na conta bancária, no reconhecimento social, no êxito profissional, nos aplausos das multidões, nos “cinco minutos” de fama que a televisão oferece… No entanto, todas as conquistas do nosso tempo não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem. Eu já descobri isto, ou a minha procura de realização e de vida plena faz-se noutros caminhos? O que é preciso para conseguirmos que os homens do nosso tempo aprendam a olhar para Jesus e a tomar consciência dessa proposta de vida plena que Ele oferece a todos?

Essa “água-viva” de que Jesus fala faz-nos pensar no batismo. Para cada um de nós, esse foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nessa altura acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que faz de nós “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva. A minha vida de cristão tem sido, verdadeiramente, coerente com essa vida nova que então recebi? O compromisso que então assumi é algo esquecido e sem significado, ou é uma realidade que marca a minha vida, os meus gestos, os meus valores e as minhas opções?

Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos os esquemas de procura de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena. Eu estou disposto a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o meu coração ao Espírito que Jesus me oferece e que me exige uma vida nova?

A samaritana, depois de encontrar o “salvador do mundo” que traz a água que mata a sede de felicidade, não se fechou em casa a gozar a sua descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado. Eu sou, como ela, uma testemunha viva, coerente, entusiasmada dessa vida nova que encontrei em Jesus in Dehonianos

 

Para os leitores:

            Na primeira leitura, deve haver um especial cuidado com as palavras de mais difícil pronunciação: «altercar», «altercação», «Massa» (deve pronunciar-se Mássá) e «Meriba» (deve pronunciar-se Méribá). Neste texto, deve ainda ter-se em atenção o texto em discurso direto, articulando bem as diferentes interrogações, que devem ser proclamadas evitando a exagerada acentuação interrogativa no final de cada frase, mas acentuando a partícula interrogativa ou a forma verbal.

A segunda leitura exige uma acurada preparação assinalando as pausas e as respirações, pois o texto é marcado por frases longas e com várias orações.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

O MAIS BELO DIÁLOGO DO NOVO TESTAMENTO

No programa de «preparação» para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã, o Domingo III da Quaresma está marcado pelos primeiros «escrutínios» para os catecúmenos: primeira «chamada» para a Liberdade. Em ordem a uma melhor compreensão integrada dos Domingos da Quaresma, e particularmente do III que hoje nos ocupa, tenha-se sempre presente a linha dos Evangelhos: Cristo batizado, tentado na sua condição de batizado, e Vitorioso (Domingo I), confirmado na sua missão filial batismal com a Transfiguração (Domingo II), promete a Água da Vida (Domingo III), dá a Luz (Domingo IV), dá a Ressurreição (Domingo V). A linha cristológica torna-se também «antropológica». A «obra» divina na Humanidade do Filho dirige-se, nesta mesma Humanidade, com amor, aos homens. Água, Luz, Ressurreição, são os elementos batismais primários (simbologia batismal da Quaresma) quer para os batizados quer para os catecúmenos.

O Evangelho do Domingo III da Quaresma oferece-nos o grande diálogo de Jesus com a samaritana (João 4,5-42). A meticulosa preparação da cena mostra-nos Jesus a fazer a viagem da Judeia para a Galileia, com o narrador a anotar que «era preciso passar pela Samaria» (João 4,4). Aquilo que parece óbvio à primeira vista, na verdade não o é. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria: desde logo porque a estrada era montanhosa, mas também porque eram hostis as relações entre judeus e samaritanos. A viagem habitual fazia-se, descendo de Jerusalém para Jericó, atravessando depois o Jordão para Oriente, junto de Damyiah, percorrendo então por terra plana o Além-Jordão (atual Jordânia) sempre junto do rio Jordão, para voltar depois a atravessar o Jordão, agora para Ocidente, junto de Bet-Shean, um pouco a sul do Mar da Galileia. E estava-se na Galileia. Evitava-se assim a estrada montanhosa da Samaria, bem como eventuais hostilidades com os samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, é assunto teológico, de resto, explicitado naquele «era preciso», e não geográfico: trata-se de revestir Jesus dos traços do mensageiro de Isaías 52,7: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que leva boas novas a Sião», e do noivo do Cântico dos Cânticos 2,8, de quem a noiva diz: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». O que faz correr sobre os montes é, pois, uma grande notícia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.

O texto refere ainda que Jesus se sentava com tempo (ekathízeto: imperfeito que implica duração) junto do poço-fonte de Jacob (João 4,6). É sabido, desde o Antigo Testamento, que o poço-fonte é visto como um cenário de noivado. É assim em Génesis 24, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Isaac com Rebeca; é assim em Génesis 29, onde, junto de um poço, se trata o casamento de Jacob com Raquel; é assim em Êxodo 2, onde, junto de um poço, se prepara o casamento de Moisés com Séfora. Um grande amor e grandes e belas notícias movem Jesus, na sua viagem «necessária» sobre os montes da Samaria. Fazendo-o sentar com tempo junto do poço-fonte, são cenários de noivado que o narrador evoca e cuidadosamente prepara. Ao anotar, outra vez com tinta teológica, que «era por volta do meio-dia [= hora sexta]» (João 4,6), o narrador evoca outra vez a hora do Noivo dos Cântico dos Cânticos 1,7, mas deixa-nos também expostos à máxima e irresistível revelação (Atos 22,6; 26,13). O meio-dia representa a luz a pique, penetrante, como uma espada de dois gumes (cf. Hebreus 4,12). Em contraponto, procurar Jesus de noite, como fez Nicodemos na página anterior (João 3,2) é não entender nada, como os discípulos que nada pescam de noite (João 21,3) e no meio do escuro andam perdidos (João 6,17-18), como a Madalena que vai de madrugada, ainda escuro, ao túmulo de Jesus, e nada entende (João 20,1), como o homem da noite na noite perdido, que é Judas (João 13,30; 18,3), enfim, como Pedro, perdido na noite e no meio dos guardas, com os guardas e sem Jesus (João 18,17-18).

Eis Jesus sentado, com tempo, junto do poço-fonte à hora do meio-dia. E aí vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao nível da mulher que vinha buscar água, com aquele pedido direto: «Dá-me de beber» (João 4,7), com que se abre o maior diálogo de todo o Novo Testamento (sete intervenções de Jesus; seis da mulher da Samaria). Salta à vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do diálogo sobre a água, é a mulher que diz para Jesus: «Senhor, dá-me dessa água…» (João 4,15).

Neste ponto preciso, Jesus imprime um novo ritmo ao diálogo, dizendo agora à mulher: «Vai, chama o teu marido, e vem aqui» (João 4,16). Ao que a mulher responde: «Não tenho marido!» (João 4,17). Quem tem o ouvido sintonizado na onda finíssima que percorre o Evangelho de João, começa já a aperceber-se do verdadeiro efeito retórico deste «Não tenho», e para onde nos leva este Não ter. Na verdade, pouco antes, em plenas bodas de Caná, Maria tinha anotado para Jesus: «Não têm vinho!» (João 2,3). E a verdade é que vão ter vinho em excesso! Em João 5,7, anota-se o caso do doente que não é curado por Jesus, porque não tem ninguém que o lance à água. Vai, portanto, ter cura em excesso! É ainda o caso dos discípulos que, à pergunta de Jesus: «Filhinhos (paidía), não tendes alguma coisa para comer, pois não?», respondem: «Não!» (João 21,5). Também já se sabe que irão ter peixe em excesso! É, portanto, de suspeitar, por parte do leitor atento de João, que a mulher da Samaria, que não tem marido, vá encontrar o esposo definitivo, o próprio Deus, cumprindo Isaías 62,5: «Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrará em ti».

E aí está Jesus, o conhecedor que nos conhece, e que nós ainda não conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de nós mesmos, dizendo: «Disseste bem: “Não tenho marido”. Na Verdade, tiveste cinco maridos, e o que tens agora [= sextonão é teu marido”» (João 4,17-18). Abre-se aqui outra janela de luz e sentido. Olhando através dela, podemos ver uma mulher atónita, a olhar para Jesus com redobrado espanto, e a dizer consigo mesma: «Mas como é que este desconhecido sabe tanto de mim? Como é que este desconhecido conhece a minha vida toda? Que experiência será esta de nos sentirmos ditos, adivinhados, conhecidos? Não será o conhecimento conhecido, obra de Deus em nós, de que fala Paulo em 1 Coríntios 13,12? Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensação de estar perante o saber que a ultrapassa de alguém que a conhece perfeitamente, e que ela ainda não conhece. Mas esta técnica da «antecipação» ou «adivinhação» pode ver-se noutras passagens do IV Evangelho, pelo que, se a mulher é completamente surpreendida, o leitor competente não o é. De facto, a mesma estratégia narrativa já foi encontrada em João 1,45-49, quando Jesus se adianta a Natanael, dizendo dele: «Eis um verdadeiro israelita!» (João 1,47), ao que Natanael reage com espanto: «De onde me conheces?» (João 1,48). Ver-se-á também em João 20,15, quando aquele que, aos olhos da Madalena, era um simples jardineiro, se adianta a ela, atravessando-a com uma pergunta penetrante: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» (João 20,15a). Se a primeira pergunta («Porque choras?») parece óbvia (porque a Madalena estava, de facto, a chorar), a segunda («A quem procuras?») apanha a Madalena completamente de surpresa. Na verdade, pensará a Madalena: «Quem será este que sabe que eu procuro alguém neste jardim?» E se sabe que eu procuro alguém, seguramente saberá também quem eu procuro. Por isso, porque se sentiu adivinhada e pressente que ele sabe quem ela procura, responde-lhe em código: «Se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu o retirarei» (Jo 20,15b). Esta estratégia pode ver-se ainda na manifestação de Jesus Ressuscitado a Tomé. Na verdade, depois de Tomé ter dito aos outros discípulos que afirmaram diante dele terem visto o Senhor (João 20,25), que não acreditaria se ele próprio não visse nas suas mãos a marca dos cravos, e se não metesse o seu dedo na marca dos cravos e a sua mão no seu lado (João 20,25), surge Jesus, dirige-se a Tomé e diz: «Traz o teu dedo aqui e vê as minhas mãos, e traz a tua mão e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente!» (João 20,27). Tomé já não vai investigar nada, e responde de imediato, certamente atónito, porque adivinhado (como é que Jesus tomou conhecimento das condições postas por ele?): «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20,28), a mais alta confissão de fé no plano narrativo do IV Evangelho.

E quanto às contas feitas com os maridos, o leitor atento, mas incauto, contentar-se-á, talvez, com a simples aritmética, mas se fizesse as operações mentais e afetivas reclamadas pelo texto, seria levado a compreender que aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido – teve cinco, o que tem agora e que não é seu marido, é o sexto. Compreende-se então que aquela mulher já vai no sexto marido provisório, sendo seis um número imperfeito. Mas o sexto, enquanto provisório e imperfeito, aponta para o definitivo e perfeito. Em boa gramática simbólica, aponta para o sétimo, que está ali à beira, que está aqui à beira, e é Jesus! É por isso que a sua voz é a voz do noivo, daquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da Páscoa, o Messias suspeitado (João 4,25) e confesso: «EU SOU (egô eimi), o que estou a FALAR contigo (ho lalôn soi)!» (João 4,26), verdadeiro clímax narrativo e da revelação. E a samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manhã de Páscoa: abandona o cântaro antigo e provisório (João 4,28) que servia apenas para recolher a água antiga e provisória tirada do poço antigo e provisório (João 4,11), e correu à cidade para dizer a todos… (João 4,28). Notável movimento Batismal Pascal!

Mas o que é que diz a mulher aos homens da Samaria? Diz: «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (João 4,29). Note-se o importante dizer reticente e pedagógico, mas também cristológico, da mulher da Samaria. Dizendo como diz, a mulher da Samaria evita dizer «judeu» e «messias», duas realidades que provocariam nos samaritanos uma reação de hostilidade, e não os mobilizariam para irem ao encontro de Jesus. Usando, porém, o título de «Homem», aqui dado a Jesus pela primeira vez no Evangelho de João, mas que o atravessa completamente (4,29; 5,12; 7,46; 8,40; 9,11.16.24; 10,33; 11,47.50; 18,14.17.29; 19,15), e mesmo a inteira Escritura (Génesis 1,26-30), é a singular humanidade de Jesus que se salienta, o seu saber penetrante, bem como a sua palavra mansa e dialógica. E a interrogação: «Não será ele o Cristo?» não é expressão de dúvida acerca da identidade de Jesus, mas uma finíssima interrogação pedagógica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experiência, de irem ver Jesus. Muitas vezes, uma afirmação põe fim a um processo de pesquisa. A interrogação, ao contrário, mobiliza e desperta. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-vem, e chegaram à fé em Jesus, confessando que Ele é verdadeiramente «o salvador do mundo» (João 4,42). O definitivo.

É estranho, mas também pedagógico e ilustrativo, que enquanto Jesus dialoga com a samaritana, circulando entre os dois o verbo «dar», os seus discípulos andem pelo shopping a «comprar»!

É igualmente estranho e nada edificante que estes discípulos de Jesus, que regressam do shopping exatamente quando termina este imenso diálogo de Jesus com a samaritana, tenham ficado admirados de ver Jesus a falar com uma mulher, mas evitem fazer qualquer pergunta a Jesus (João 4,27-28). Em vez disso, convidam Jesus a comer alguma coisa, e ouvem de Jesus um dizer espantoso: «Tenho para comer um alimento que vós não conheceis» (João 4,32). Nós, que assistimos ao crescendo das reações da samaritana às propostas de Jesus, achamos agora estranhíssimo que estes discípulos não digam a Jesus: «Dá-nos então também desse alimento!», e que nem sequer formulem a pergunta: «Então que alimento novo é esse?». Em vez disso, diz-nos o narrador que perguntavam, não a Jesus, de quem, pelos vistos, não querem que diga nada, mas uns aos outros: «Porventura alguém lhe terá trazido alguma coisa de comer?» (João 4,33).

Estranhos discípulos desacertados de Jesus e do seu tempo novo. Descompassados e descompensados. Andam ainda no tempo do inverno e da sementeira: «Não dizeis vós que faltam ainda quatro meses para a ceifa?» (João 4,35a). Eles não querem ouvir, mas Jesus abre diante deles um tempo novo: «Levantai os olhos e vede os campos: estão brancos para a ceifa!» (João 4,35b). Sim, o tempo que Jesus abre diante de nós é o tempo novo da ceifa e da alegria (cf. Salmo 126,6).

O relato do Livro do Êxodo (17,3-7) mostra-nos hoje que o Senhor está sempre no meio de nós e sacia a nossa sede no deserto da caminhada da vida. Então a sua «obra» nova não consiste também em fazer jorrar a água no deserto? (Isaías 35,6-7; 41,18; 43,19-20). Deus é muitas vezes, por 33 vezes, designado no Antigo Testamento, sobretudo nos Salmos, como a Rocha ou o Rochedo da nossa salvação. Por isso, é da Rocha, do Rochedo que jorra a água que mata a sede do povo de Israel, e a nossa, no deserto. Como sempre, o Antigo Testamento aponta para o Novo: no Evangelho de hoje, Jesus, o Filho de Deus, oferece a Água da Vida que mata a nossa sede para sempre. E Paulo, encontrado pelo Senhor Ressuscitado (Filipenses 3,12), que é quem dá a Água da Vida que é o Espírito Santo, pode agora dizer, relendo o Antigo Testamento, que aquela Rocha donde jorrava a água no deserto é Cristo (1 Coríntios 10,4).

A Rocha, o Poço e a Água-viva. Deixo aqui a bela interpretação que os targûmîm (paráfrases aramaicas) fizeram da passagem do Livro dos Números 21,16-18: «Foi então que Israel cantou este poema de louvor, quando voltou o poço que lhes tinha sido dado por mérito de Miriam, depois de ter estado escondido: “Sobe, poço! Sobe, poço!”, assim cantavam. E ele subia. O poço que tinham escavado os patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob, os príncipes de outrora, os chefes do povo, Moisés e Aarão, perfuraram-no os dirigentes de Israel, mediram-no com as suas varas. E, depois do deserto, deu-se a eles como um dom. E depois de se dar a eles como um dom, pôs-se a subir com eles pelas altas montanhas, a descer com eles pelos vales. Passando por todo o território de Israel, dava-lhes de beber a todos e a cada um à entrada da sua tenda». Um poço que acompanha o povo por todo o lado, por montes e vales, e que dá de beber ao povo. Bela metáfora que pode traduzir também o Jesus de João 4, que vai à nossa procura e sacia a nossa sede mais profunda.

Na Carta aos Romanos (5,1-2.5-8), Paulo dá testemunho do acontecimento central da sua e da nossa vida. Dá testemunho do Evangelho. Cristo morreu por nós, dando-nos a Água da Vida que é o Espírito Santo (de novo Atos 2,32-33; João 19,30.34 decifrado por João 7,38-39). O Espírito Santo dado (Romanos 5,5) como selo (Efésios 4,30) para a vida eterna ensina-nos tudo sobre o Pai – em nós clama: Abbá (Gálatas 4,6); nele clamamos: Abbá (Romanos 8,15) – e sobre o Filho: «ninguém pode dizer “Senhor é Jesus” a não ser no Espírito Santo» (1 Coríntios 12,3). É ele que derrama o amor de Deus no nosso coração: unidos a Deus até à vida eterna (Romanos 8,16-17; 1 Coríntios 12).

Sim, não nos é permitido adormecer ou entorpecer, de modo a ficarmos inativos, infecundos, insensíveis, tipo «tanto faz!». O Salmo 95, que hoje cantamos, e que é, para os judeus fiéis, a oração de ingresso ou de entrada no sábado (reza-se sexta-feira ao pôr-do-sol), e para nós, cristãos, é o Salmo invitatório recitado todas as manhãs, é o mais quotidiano dos Salmos. E deve ser um permanente despertador para não nos deixarmos andar ao sabor de qualquer música, mas apenas e sempre ao sabor da música de Deus. Sim, não é tempo de nos instalarmos aqui, em qualquer «aqui». É necessário levar a todos os lugares e a todas as pessoas este vendaval manso de graça e de bondade e de fé que um dia Jesus ensinou à mulher da Samaria e todos os dias mostrou e mostra aos seus discípulos.

Era por volta do meio-dia,
E Jesus sentava-se com tempo à beira do poço de Jacob,
À espera que chegasse a mulher da Samaria.
O meio-dia é a hora da Luz e da Revelação,
Coisa que Nicodemos não sabia,
E a mulher da Samaria vem ao poço buscar água e Luz,
Vem buscar Jesus,
Para beber e para viver.

Jesus, que a esperava, desceu ao nível dela,
Fez-se pedinte, e disse-lhe: «Dá-me de beber!».
Mas o seu intuito era
Transformar em pedinte a mulher,
Que pouco depois pede a Jesus: «Dá-me Tu dessa água-viva, Senhor!».

E depois foi chamar os samaritanos,
Que também vieram ver o poço novo aberto em Siquém.
Todos beberam da água-viva,
E descobriram-se irmanados na alegria
Daquele meio-dia.

Vem, Senhor Jesus,
Senta-te à nossa beira,
E ensina aos teus irmãos
O segredo
E o enredo
Daquela nova ceifa e sementeira.

 D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo III da Quaresma – Ano A – 12.03.2023 (Ex 17, 3-7)
  2. Leitura II do Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 12.03.2023 (Rom 5, 1-2.5-8)
  3. Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 12.03.2023 – Lecionário
  4. Domingo III do Tempo da Quaresma – Ano A – 12.03.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo II da Quaresma – Ano A – 05.03.2023

Viver a Palavra

A vida cristã envolve a vida toda e toda a vida e o convite à conversão que se torna mais incisivo neste tempo quaresmal recorda-nos precisamente que a conversão exige uma transformação do coração e da vida que chegue a todos os âmbitos da nossa ação. A conversão não é apenas uma adesão intelectual à proposta de Jesus Cristo, nem um conjunto de boas intenções para a prática de boas obras, mas o encontro decisivo com Jesus que nos faz entrar na dinâmica sempre nova de conformar a nossa vida com a Sua vontade.

No nosso itinerário quaresmal, o segundo Domingo da Quaresma irrompe luminosamente, apresentando Jesus sobre o monte com Pedro, Tiago e João. Assim como estes três discípulos foram escolhidos e chamados, também nós, somos convocados pelo amor misericordioso de Jesus que gratuitamente nos escolhe para nos fazer experimentar a luz nova que só o Seu amor e Sua graça nos podem oferecer. Assim nos testemunha S. Paulo, escrevendo a Timóteo e recordando-lhe a livre, gratuita e generosa ação de Deus nas nossas vidas: «sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça». Deste modo, agradecidos pelo dom generoso da vida divina que nos é concedida para lá das nossas boas obras, somos convidados a conformar a nossa vida com este mistério de amor que nos inquieta, desinstala e coloca a caminho. Partir é palavra de ordem para quem encontra em Jesus o sentido da sua vida.

Jesus não se detém nem nos detém, mas envia-nos: «levantai-vos e não temais». Como é importante recordar aqui o convite dirigido por Deus a Abraão para deixar a sua terra e a sua família. Mais importante ainda porque Deus não lhe indica uma meta geográfica, mas apenas a certeza da sua presença: «vai para a terra que Eu te indicar». Se é o Senhor Deus que lhe vai indicar o caminho, então Ele caminhará com Ele, estará com Ele para o guiar, proteger e defender. Por isso, Abraão parte confiado na palavra do Senhor, ainda que humanamente tivesse razões para desconfiar, pois a promessa de Deus é de fazer dele uma grande nação e oferecer-lhe uma inúmera descendência, mas Abraão e sua mulher Sara são de idade avançada. Todavia, «Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado» e a promessa de Deus realizou-se para nos testemunhar a certeza que quando somos capazes de abandonar os nossos comodismos, as nossas certezas fundadas apenas nas nossas capacidades humanas e nos abrimos à livre, gratuita e generosa iniciativa de Deus a nossa vida se torna lugar de bênção que difunde ao longe e ao largo o suave perfume da ternura e da bondade do Pai.

Neste Domingo subimos com Jesus ao Monte e como Pedro, Tiago e João somos chamados a contemplar a luz nova que brota da Sua presença no meio de nós. Aos discípulos é antecipada a luz nova da Páscoa que será plena e definitiva na manhã da Ressurreição. Na narrativa que nos apesenta S. Mateus surpreende-me sempre a descrição da experiência que os discípulos fazem de Jesus. Eles contemplam Jesus resplandecente como o sol e com vestes brancas como a luz. Vêm Moisés e Elias e a nuvem luminosa. Escutam a voz do Pai e são tocados por Jesus que os desafia a colocar-se ao caminho. É curioso que apenas a narrativa da Transfiguração no Evangelho de Mateus nos oferece este pormenor de Jesus que toca os seus discípulos. A experiência pascal de encontro com Jesus Cristo, experimentada por antecipação, no episódio da transfiguração, convida-nos a contemplar, a ver, a escutar, a ser tocados, a caminhar, isto é, convida-nos a uma transformação da vida toda, implicando todos os sentidos e desafiando a uma conversão cada vez mais total e totalizante das nossas vidas. in Voz Portucalense

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O dia 8 de março é dedicado pela sociedade civil à celebração do Dia Internacional da Mulher. Enquanto comunidade eclesial que habita o tempo e a história e procura iluminar os diversos âmbitos da vida humana, a Igreja não deve ficar à margem da comemoração deste dia. Cada comunidade pode pensar um modo criativo de assinalar este dia. A mulher assume um papel fundamental na sociedade e na vida da Igreja e este dia pode ser a ocasião para o reconhecer e valorizar. Contudo, como recorda o Papa Francisco na sua recente exortação pós-sinodal Querida Amazónia, é necessário pensar o lugar da mulher na Igreja sem o reduzir ao funcionalismo, mas no horizonte da corresponsabilidade eclesial onde cada um tem lugar na edificação da comunidade e na ação evangelizadora da Igreja. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a Quaresma até à Páscoa. São 40 dias que querem significar “mudança”. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Gen 12,1-4a

«Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar».

 

 

Ambiente

A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco de textos a que se dá o nome genérico de “tradições patriarcais” (cf. Gn 12-36). Trata-se de um conjunto de relatos singulares, originalmente independentes uns dos outros, sem grande unidade e sem carácter de documento histórico. Nesses capítulos aparecem, de forma indiferenciada, “mitos de origem” (descreviam a “tomada de posse” de um lugar pelo patriarca do clã), “lendas cultuais” (narravam como um deus tinha aparecido nesse lugar ao patriarca do clã), indicações mais ou menos concretas sobre a vida dos clãs nómadas que circularam pela Palestina durante o 2º milénio e reflexões teológicas posteriores destinadas a apresentar aos crentes israelitas modelos de vida e de fé.

Por detrás do quadro teológico e catequético que nos é proposto, estão as migrações históricas de povos nómadas, antepassados do povo bíblico, nos inícios do 2º milénio a.C. Por essa época, a história regista um forte movimento migratório de povos amorreus entre a Mesopotâmia e o Egipto, passando pela terra de Canaan. São povos que não conseguiram fixar-se na Mesopotâmia (ou que tiveram de a abandonar por causa de convulsões políticas registadas nessa zona no início do 2º milénio) e que continuaram o seu caminho migratório, à procura de uma terra onde “plantar definitivamente a sua tenda”, de forma a escapar aos perigos e incomodidades da vida nómada. Os nossos patriarcas bíblicos fazem, provavelmente, parte dessa onda migratória.

Os clãs referenciados nas “tradições patriarcais” – nomeadamente os de Abraão, Isaac e Jacob – tinham os seus sonhos e esperanças. O denominador comum desses sonhos era a esperança de encontrar uma terra fértil e bem irrigada, bem como possuir uma família forte e numerosa que perpetuasse a “memória” da tribo e se impusesse aos inimigos. O deus aceite pelo grupo era o potencial concretizador desse ideal. in Dehonianos.

 

Na reflexão e partilha, considerar os seguintes dados:

A figura de Abraão que nos foi apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma figura inspiradora para todos os crentes. Abraão é o homem que encontra Deus, que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada… Esta figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional. Eu tenho tempo para me encontrar com Deus, para aprofundar a comunhão com Ele? Preocupo-me em detetar a sua presença, as suas indicações e propostas nos acontecimentos do dia a dia? A minha resposta aos seus desafios é um “sim” incondicional, ou é uma procura de razões para justificar os meus pontos de vista e esquemas pessoais?

A figura de Abraão questiona, também, o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação. Estou disposto a mudar, a “pôr-me a caminho” em direção a essa terra nova da vida plena e autêntica, ou prefiro continuar prisioneiro dos meus esquemas pré-concebidos, dos meus medos, dos meus velhos hábitos, das minhas velhas formas de pensar, de agir e de julgar os outros?

Este texto diz-nos, também, que por detrás da história da humanidade há um Deus que tem um projeto para os homens e para o mundo e que esse projeto é de amor e de salvação… Apesar de os homens O ignorarem e prescindirem das suas orientações e propostas, Deus continua a vir ao seu encontro, a desafiá-los a caminhar em direção ao novo, a propor-lhes ir mais além. O homem, por sua vez, é convidado a participar neste projeto, por meio da fé (entendida como adesão plena aos planos de Deus). Estou disposto a colaborar com esse Deus que tem um plano para o mundo e para os homens e a embarcar com Ele na construção de um mundo mais feliz? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 32 (33)

Refrão: Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.

LEITURA II – 2 Tim 1,8b-10

«Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça».

 

Ambiente

Segundo os Atos dos Apóstolos, Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. Act 16,1). No entanto, Paulo não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedónia e da Grécia. Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1 Tim 5,23 Paulo aconselha: “não continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. Act 16,3); e, numa data desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf. 1 Tim 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho de Jesus.

A atividade de Timóteo está bastante ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão, colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1 Tes 3,2); e faz referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1 Tes 11,1; 2 Tes 1,1), na 2 Coríntios (cf. 2 Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rom 16,21), na Carta aos Filipenses (cf. Flp 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Col 1,1) e na Carta a Filémon (cf. Flm 1).

Encarregou-o, também, de missões particulares entre os Tessalonicenses (cf. 1 Tes 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1 Cor 4,17).

Em relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, um problema sério: a maioria dos comentadores considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1 Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do séc. I ou princípios do séc. II). A questão continua em aberto.

Timóteo é, por esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo – mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as dificuldades que se avizinham. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

Mais uma vez somos convidados a recordar que Deus tem um projeto de salvação e de vida plena para os homens, para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus convida-nos a tomar consciência desse facto; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização, a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar cativo no projeto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.

Também é preciso termos consciência de que nós, os crentes, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu projeto para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.

É verdade que não é fácil ser testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que Deus nos chama. in Dehonianos

 

 

EVANGELHO – Mt 17,1-9

«Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte

e transfigurou-Se diante deles».

«Senhor, como é bom estarmos aqui!».

«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».

 

 

Ambiente

A secção de Mt 16,21-20,34 é uma catequese sobre o discipulado, como seguimento de Jesus até à cruz. O texto que hoje nos é proposto faz parte dessa catequese.

O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mt 16,21-23) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mt 16,24-28). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que o querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles veem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.

É neste contexto que Mateus coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projeto que Jesus apresenta é um projeto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto.

Literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro que descreve todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus. in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se partindo das seguintes questões:

A questão fundamental expressa no episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus, que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que, como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.

Na verdade, os homens do nosso tempo têm alguma dificuldade em perceber esta lógica… Para muitos dos nossos irmãos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom, com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de conquista de honras, de glórias e de êxitos. Na verdade, onde é que está a realização plena do homem? Quem tem razão: Deus, ou os esquemas humanos que hoje dominam o mundo e que nos impõem uma lógica diferente da lógica do Evangelho?

Por vezes somos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus; ou então, parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores e fracassados, que nunca integraremos a elite dos senhores do mundo e que nunca chegaremos a conquistar o reconhecimento daqueles que caminham ao nosso lado… A transfiguração de Jesus grita-nos, do alto daquele monte: não desanimeis, pois a lógica de Deus não conduz ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.

Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga a atolarmo-nos no mundo, nos seus problemas e dramas, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é um ópio que nos adormece, mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens. in Dehonianos

 

Para os leitores:

             A brevidade da primeira leitura não deve fazer descurar a sua preparação com uma atenção especial aos verbos no futuro que constituem a promessa de Deus a Abraão. Mais do que uma ordem, os verbos no imperativo constituem uma proposta que Deus faz a Abraão.

A segunda leitura, tal como é habitual no epistolário Paulino, apresenta frases longas que requerem uma especial atenção nas pausas e respirações.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

MÚSICA NOVA COM PAUSA E BEMOL

Batizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, Domingo II da Quaresma, o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1-9) – Luz incriada e inacessível (Mateus 17,2; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição –, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de agosto, «a Páscoa do verão». Mas está também claro na ordem taxativa de Jesus ao descer do monte: «A ninguém digais esta visão até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos» (Mateus 17,9).

Jesus impõe, portanto, na nossa pauta musical, pausa e bemol. Não podemos dizer a Transfiguração do Senhor, antes da Ressurreição do Senhor. E não podemos, porque não sabemos. E não sabemos, porque é só o Ressuscitado que faz vir o Espírito Santo sobre nós. Veja-se a lição do Livro dos Atos dos Apóstolos: «Este Jesus, Deus o Ressuscitou, e disto todos nós somos testemunhas. Exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou-o, e é o que vedes e ouvis» (2,32-33). E o comentário preciso e precioso do narrador às palavras que Jesus acabava de proferir: «Isto disse do Espírito que haviam de receber os que tinham acreditado n’Ele, pois não havia ainda Espírito [para nós], porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (João 7,39). Pausa e bemol, porque importa que não sejamos nós a falar. Importa que seja o Espírito Santo a falar em nós. Toda a atenção, neste sentido, para o grande dizer de Jesus: «Quando vos entregarem, não vos preocupeis com ou como falais (laléô). Ser-vos-á dado naquela hora o que falar (laléô). Na verdade, não sois vós que falais (laléô), mas será o Espírito do vosso PAI que falará (laléô) em vós» (Mateus 10,19-20).

A tradição situa o «monte alto», que abre o episódio da Transfiguração (Mateus 17,1), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora. As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (Metamórphôsis), a partir das palavras do texto: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João], e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mateus 17,2). O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz como de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

Batizado para a Cruz Gloriosa, Confirmado para a Cruz Gloriosa. As mesmas palavras do Pai no Batismo e na Transfiguração / Confirmação: «o Filho Meu», «o Amado» (Mateus 3,17; 17,5), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!», dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Testemunham a cena grandiosa da Transfiguração / Confirmação três discípulos – como dispunha a Lei antiga: duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6) –, os quais são igualmente confirmados para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado: é para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os Profetas e os Salmos, falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Atos dos Apóstolos 10,43). É o «Segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial batismal até à Cruz: «Senhor, bom é estarmos AQUI… Levantarei AQUI três tendas» (Mateus 17,4). AQUI significa deter-se no provisório, no preliminar e no penúltimo, e recusar caminhar para o definitivo e o último! Marcos 9,6 e Lucas 9,33 anotam criteriosamente que «não sabia o que dizia». Não sabia, porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo; quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado / confirmado, levar por diante a missão filial batismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados / confirmados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração do Senhor: a Divinização.

A lição do Livro do Génesis (12,1-4) abre diante de nós o caminho novo já apontado no Evangelho: «VAI para ti (lek-leka), do teu país, da tua parentela e da casa do teu pai, para o país que Eu te farei ver» (Génesis 12,1). Com este imperativo, Deus põe em marcha Abraão e a inteira história da salvação que se lhe segue. «E Abraão partiu» (Génesis 12,4). Com este gesto esplendorosamente mudo, Abraão comprometeu-se e comprometeu-nos a nós também. Abraão arrasta consigo a história toda. Ele parte (e a história com ele) em direção a Jesus Cristo, que é a sua verdadeira descendência (Gálatas 3,16). Abraão viu-O e saudou-O de longe (Hebreus 11,13), cheio de alegria (João 8,56). A sua meta é clara e define e alumia a sua estrada que até lá conduz e em que caminha Abraão, fazendo assim dele também antecipadamente «filho da Luz». Abraão não se despede do passado, e faz ao futuro um aceno de esperança e de alegria. São tão simples, tão novos e tão decididos os gestos e os passos de Abraão! Talvez devamos mesmo seguir o conselho de Isaías, o profeta: «Olhai para Abraão, vosso Pai» (Isaías 51,2). E partir com ele DAQUI, do provisório, do preliminar, do penúltimo, ao encontro de Jesus Cristo Ressuscitado.

Movido pela Palavra de Deus, único verdadeiro motor da sua vida, Abraão parte do seu país e da casa do seu pai. Mas não se trata apenas de uma viagem no mapa. Não é meramente da ordem da geografia. É sobretudo da ordem suprema da pessoa e da liberdade. Note-se bem que o texto não diz simplesmente: «VAI (lek) do teu país», mas «VAI para ti (lek-leka) do teu país», especialíssima locução que a gramática hebraica classifica como «dativo ético». Viagem diferente, que implica um trabalho de casa, dentro da própria casa, dentro da própria pessoa, trabalho de libertação para a liberdade, até nos fazermos verdadeiramente livres, abertos, disponíveis, acolhidos, acolhedores, abençoados, abençoadores.

É ainda nesse sentido que Abraão é chamado «o hebreu» (ha-‘ibrî) (Génesis 14,13). ‘ibrî reporta-se a ‘eber, que significa «margem». Ele vem da «outra margem do Rio» (Josué 24,3). Mas reporta-se também a ‘abar, que significa «passar», «atravessar», «ir além de», «converter-se», «abrir uma passagem», «transferir», o que implica um movimento ao mesmo tempo objetivo e subjetivo, ativo e passivo. Abraão é o homem que atravessa fronteiras, mas é sobretudo o homem que se atravessa a si mesmo. Viajante transitivo e intransitivo.

E o Apóstolo testemunha (2 Timóteo 1,8-10) que o mesmo Deus que chamou Abraão, também nos chamou a nós (2 Timóteo 1,9). Por pura graça. Para dar testemunho do Evangelho e participar na sua vida. Por isso, tal como Abraão, também Paulo saiu do passado e correu para o futuro (Filipenses 3,13). E quer agora empenhar nesta «corrida» o seu discípulo Timóteo. E a nós também. Contra a contínua tentação de querermos ficar AQUI, no provisório, no preliminar, no penúltimo, como Pedro (Evangelho) e todos os discípulos (Atos dos Apóstolos 1,11).

Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

A Quaresma é uma estrada
Entrecortada
Por estações de serviço de paz e de perdão,
Uma avenida
Florida
De oração,
Uma praça
De graça
E contemplação.

A Quaresma é uma escada,
Que do céu desce,
Trazendo até nós a mão de Deus,
E ao céu se eleva,
Levando até Deus a nossa prece.

A Quaresma é um caminho
Direitinho
Ao coração.
É preciso limpá-lo
De todo o lixo acumulado.
É preciso entregá-lo a Deus,
Limpo e cultivado.

Senhor desta estrada deserta,
Que vai de Jerusalém a Gaza,
Conduz os meus passos
Até ao limiar da tua casa.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 05.03.2023 (Gen 12, 1-4a)
  2. Leitura II – Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 05.03.2023 (2 Tim 1, 8b-10)
  3. Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 05.03.2023 – Lecionário
  4. Domingo II do Tempo da Quaresma – Ano A – 05.03.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo I da Quaresma – Ano A – 26.02.2023

10Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Mt 4, 10

Viver a Palavra

«A liberdade é o maior [dom]. Deus cria o homem livre e respeita-lhe a liberdade. Chama feliz àquele que pode fazer o mal e não o faz; ao que pode transgredir e não transgride» (Venerável Padre Américo Aguiar). A verdadeira liberdade, como afirma o Pai Américo, nasce da exigente tarefa de discernir, optar e decidir pelo caminho do bem, da verdade e da justiça. Ninguém é livre pelo caminho da mentira, pois o mal escraviza-nos e impede-nos de experimentar a verdadeira realização e felicidade.

Fomos criados pelo amor misericordioso de Deus, que nos formou do pó da terra e nos moldou com as Suas mãos, soprou em nós o Seu hálito de ternura e de bondade, para que possamos participar da Sua vida divina. Como recordamos na celebração de Quarta-Feira de Cinzas com que damos início ao Tempo da Quaresma, somos pó da terra, criatura frágil e débil, mas pó amado por Deus e sustentado pelas Suas mãos ternurentas que não cessam de moldar a nossa vida. Contudo, Deus não se impõe, mas tudo propõe.

Deus quer-nos verdadeiramente livres e, para isso, dota-nos de liberdade para podermos escolher o caminho a seguir, mas adverte-nos diante do perigo como fez com Adão e Eva: «podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem lhe tocar, senão morrereis». Apesar da indicação dada por Deus, cabe ao homem e à mulher decidir se comerão ou não do fruto da árvore que está no meio do jardim. Na verdade, discernir e decidir são experiências humanas exigentes, mas absolutamente necessárias para uma vida mais feliz. Ao longo do nosso caminho são muitas as ocasiões onde temos de tomar decisões e nem sempre entre algo bom e algo mau, pois se assim fosse, aparentemente pareceria mais fácil. Decidir significa tomar uma opção, arriscar um caminho e renunciar, deixando algo para trás.

À luz do Evangelho deste Domingo, diríamos que somos permanentemente expostos à tentação, que implica uma decisão pronta e ousada, capaz de romper com o mal que nos afasta de Deus e dos irmãos. Tal como Jesus, também nós somos tentados, mas conscientes que é o Espírito Santo que nos conduz aos desertos exigentes e dramáticos da história: será Ele a iluminar o caminho que somos chamados a trilhar. As tentações são uma ocasião fundamental na nossa vida, pois são a oportunidade de voltar a escolher Deus e o Seu infinito amor. Três vezes tentado pelo diabo, por três vezes Jesus renova a Sua fidelidade ao Pai. Ser tentado é ser colocado à prova exigente de voltar a escolher Deus, de renovar o nosso desejo de O seguir, sustentados pela Sua Palavra.

É certo que pela nossa fragilidade muitas vezes nos afastamos do projeto que Deus tem para nós e diante de escolhas exigentes optamos pelo mal e pelo que divide. Contudo, este não é um caminho sem saída, pois «se pelo pecado de um só todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens».

Tempo de Quaresma é tempo de conversão, tempo de transformação do coração, uma oportunidade para voltar a escolher Deus e o Seu amor. Que ao longo deste tempo, a leitura frequente e atenta da Palavra de Deus nos ajude a recentrar a vida, a estabelecer prioridades e a descobrir a verdadeira felicidade, que se experimenta pelo amor recebido e oferecido, pela prática da misericórdia e do perdão.in Voz Portucalense

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«Abraça o presente da Páscoa: é Cristo vivo. Agarrado a Ele, viverás»: este é o tema e o lema que nos acompanhará na caminhada diocesana durante o Tempo da Quaresma e da Páscoa. Deste modo, ao iniciar este tempo favorável e oportuno para a conversão e a renovação da vida é importante apontar quais as ferramentas necessárias para viver melhor este tempo. O diretório litúrgico recorda que se deve «lembrar aos fiéis que, em união com a Paixão do Senhor e em espírito de penitência mais visível, nas sextas-feiras da Quaresma se deve escolher uma alimentação simples e pobre, que poderá concretizar-se na abstenção de carne. Lembrar-lhes também a finalidade das Renúncias Quaresmais deste ano, proposta pelo Bispo da Diocese». Além disso, deve também recordar-se as atitudes fundamentais características deste tempo da Quaresma – jejum, oração e esmola – que ajudam a promover o espírito de verdadeira conversão.

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Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Gen 2,7-9; 3,1-7

«O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo».

 

Ambiente

O texto de Gn 2,4b-3,24 – conhecido como relato jahwista da criação – é, de acordo com a maioria dos comentadores, um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante, colorido, pitoresco. Parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes.

Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem jornalística de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Jahwéh. Trata-se, portanto, de uma página de catequese e não de um tratado destinado a explicar cientificamente as origens do mundo e da vida.

Para apresentar essa catequese aos homens do séc. X a.C., os teólogos jahwistas utilizaram elementos simbólicos e literários das cosmogonias mesopotâmicas (por exemplo, a formação do homem “do pó da terra” é um elemento que aparece sempre nos mitos de origem mesopotâmicos); no entanto, transformaram e adaptaram os símbolos retirados das narrações lendárias de outros povos, dando-lhes um novo enquadramento, uma nova interpretação e pondo-os ao serviço da catequese e da fé de Israel. Ou seja: a linguagem e a apresentação literária das narrações bíblicas da criação apresentam paralelos significativos com os mitos de origem dos povos da zona do Crescente Fértil; mas as conclusões teológicas – sobretudo o ensinamento sobre Deus e sobre o lugar que o homem ocupa no projeto de Deus – são muito diferentes.in Dehonianos.

 

Considerar, na reflexão, os seguintes elementos:

De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que o homem de todos os tempos coloca a si próprio. A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia perdido numa galáxia qualquer; mas somos seres que Deus criou com amor, a quem Ele deu o seu próprio “sopro”, a quem animou com a sua própria vida. O fim último da nossa existência não é o fracasso, a dissolução no nada, mas a vida definitiva, a felicidade sem fim, a comunhão plena com Deus.

Como é que chegamos a essa felicidade que está inscrita no projeto que Deus tem para os homens e para o mundo? Deus nada impõe e respeita sempre – de forma absoluta – a nossa liberdade; no entanto, insiste em mostrar-nos, todos os dias, o caminho para essa plenitude de vida que Ele sonhou para os homens. Quando aceitamos a nossa condição de criaturas e reconhecemos em Deus esse Pai que nos dá vida, que nos ama e que nos indica caminhos de realização e de felicidade, construímos uma existência harmoniosa, um “paraíso” onde encontramos vida, harmonia, felicidade e realização.

E o mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo: vem de Deus ou do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus; o mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, prescindindo das indicações de Deus? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 50 (51)

Refrão: Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

LEITURA II – Rom 5,12-19

«Como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos».

 

Ambiente

No final da década de 50 (a Carta aos Romanos apareceu por volta de 57/58), multiplicavam-se as “crises” entre os cristãos oriundos do mundo judaico e os cristãos oriundos do mundo pagão. Uns e outros tinham perspetivas diferentes da salvação e da forma de viver o compromisso com Jesus Cristo e com o seu Evangelho. Os cristãos de origem judaica consideravam que, além da fé em Jesus Cristo, era necessário cumprir as obras da Lei (nomeadamente a prática da circuncisão) para ter acesso à salvação; mas os cristãos de origem pagã recusavam-se a aceitar a obrigatoriedade das práticas judaicas. Era uma questão “quente”, que ameaçava a unidade da Igreja. Este problema também era sentido pela comunidade cristã de Roma.

Neste cenário, Paulo vai mostrar a todos os crentes (a Carta aos Romanos, mais do que uma carta para a comunidade cristã de Roma, é uma carta para as comunidades cristãs, em geral) a unidade da revelação e da história da salvação: judeus e não judeus são, de igual forma, chamados por Deus à salvação; o essencial não é cumprir a Lei de Moisés – que nunca assegurou a ninguém a salvação; o essencial é acolher a oferta de salvação que Deus faz a todos, por Jesus Cristo.

O texto que nos é proposto faz parte da primeira parte da Carta aos Romanos (cf. Rom 11,18-11,36). Depois de demonstrar que todos (judeus e não judeus) vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a justiça de Deus que a todos salva, sem distinção (cf. Rom 3,21-5,11), Paulo ensina que é através de Jesus Cristo que a vida de Deus chega aos homens e que se faz oferta de salvação para todos (cf. Rom 5,12-8,39). in Dehonianos.

Considerar os seguintes desenvolvimentos:

A modernidade ensinou-nos que a fonte da salvação não é Deus, mas o homem e as suas conquistas. Disse-nos que as propostas de Deus são resquícios de uma época pré-científica, obscurantista, ultrapassada, e que a plenitude da vida está no corte radical com qualquer autoridade exterior à nossa Razão – inclusive com Deus. Exaltou o individualismo e a autossuficiência e ensinou-nos que só nos realizaremos totalmente se formos nós – orgulhosamente sós – a definir o nosso caminho e o nosso destino. No entanto, onde nos leva esta cultura que prescinde de Deus e das suas sugestões? A cultura moderna tem feito surgir um homem mais feliz, ou tem potenciado o aparecimento de homens perdidos e sem referências, que muitas vezes apostam tudo em propostas falsas de salvação e que saem dessa experiência de busca mais fragilizados, mais dependentes, mais alienados?

Alguns acontecimentos que marcam a história do nosso tempo confirmam que uma história construída à margem das propostas de Deus é uma história marcada pelo egoísmo, pela injustiça, pela prepotência e, portanto, é uma história de sofrimento e de morte. Quando o homem deixa de dar ouvidos a Deus, dá ouvidos ao lucro fácil, destrói a natureza, explora os outros homens, torna-se injusto e prepotente, sacrifica em proveito próprio a vida dos seus irmãos… Qual é o nosso papel de crentes, neste processo? O que podemos fazer para que Deus volte a estar no centro da história e a as suas propostas sejam acolhidas? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 4,1-11

«Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Diabo».

«Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães».

«Então o Diabo deixou-O, e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O».

 

Ambiente

A cena das tentações antecede, em Mateus (e nos outros Sinópticos), a vida pública de Jesus. A cena segue-se imediatamente – quer em termos cronológicos, quer em termos lógicos – ao Batismo (cf. Mt 3,13-17): porque recebeu o Espírito (batismo), Jesus pode afrontar e vencer a tentação de uma proposta de atuação messiânica que o convida a subverter a proposta do Pai.

A cena coloca-nos no deserto. Mateus diz explicitamente que “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo demónio”. Os quarenta dias e quarenta noites que, de acordo com o relato, Jesus aí passou, resumem os quarenta anos que Israel passou em caminhada pelo deserto. O deserto é, no imaginário judaico, o lugar da “prova”, onde os israelitas experimentaram, por diversas vezes, a tentação do abandono de Jahwéh e do seu projeto de libertação (embora seja, também, o lugar do encontro com Deus, o lugar da descoberta do rosto de Deus, o lugar onde o Povo fez a experiência da sua fragilidade e pequenez e aprendeu a confiar na bondade e no amor de Deus). Será que a história se vai repetir, que Jesus vai ceder à tentação e dizer “não” ao projeto de Deus – como aconteceu com os israelitas?

O relato que hoje nos é proposto não é, contudo, uma reportagem histórica elaborada por um jornalista que presenciou um combate teológico entre Jesus e o diabo, algures no deserto… É, sim, uma página de catequese, cujo objetivo é ensinar-nos que Jesus, apesar de ter sentido – como nós – a mordedura das tentações, soube pôr acima de tudo o projeto do Pai.

O relato de Mateus (bem como o de Lucas) parte, sem dúvida, do relato – muito mais breve – de Marcos (cf. Mc 1,12-13); mas o texto que hoje nos é proposto amplia o relato original de Marcos, com um diálogo entre Jesus e o diabo, feito de citações do Antigo Testamento (sobretudo do livro do Deuteronómio). in Dehonianos.

A reflexão e a partilha poderão ter em conta os seguintes dados:

A questão essencial que a Palavra de Deus hoje nos propõe é, portanto, esta: Jesus recusou, de forma absoluta, conduzir a sua vida à margem de Deus e das suas propostas. Para Ele, só uma coisa é verdadeiramente decisiva e fundamental: a comunhão com o Pai e o cumprimento obediente do seu projeto… E nós, seguidores de Jesus? É essa também a nossa perspetiva? O que é que é decisivo na minha vida: as propostas de Deus, ou os meus projetos pessoais?

Quando o homem esquece Deus e as suas propostas, e se fecha no egoísmo e na autossuficiência, facilmente cai na escravidão de outros deuses que, no entanto, estão longe de assegurar vida plena e felicidade duradoura. Quais são os deuses que, hoje, dominam o horizonte desse homem moderno que prescindiu de Deus? Quais são os deuses que estão no centro da minha própria vida e que condicionam as minhas decisões e opções?

Deixar-se conduzir pela tentação dos bens materiais, do acumular mais e mais, do subordinar toda a vida à lógica do “ter mais”, é seguir o caminho de Jesus? Olhar apenas para o seu próprio conforto e comodidade, fechar-se à partilha e às necessidades dos outros, pagar salários de miséria e malbaratar fortunas em noitadas de jogo ou em coisas supérfluas… é seguir o exemplo de Jesus?

Usar Deus ou os seus dons para saciar a nossa vaidade, para promover o nosso êxito pessoal, para brilhar, para dar espetáculo, para levar os outros a admirar-nos e a bater-nos palmas… é seguir o exemplo de Jesus?

Procurar o poder a todo o custo (às vezes, entregando ao diabo os nossos valores mais importantes e as nossas convicções mais sagradas) e exercê-lo com prepotência, com intolerância, com autoritarismo (quantas vezes humilhando e magoando os pobres, os débeis, os humildes) … é seguir o exemplo de Jesus? in Dehonianos

 

Para os leitores:

             Na preparação da primeira leitura deve ter-se em atenção a presença do discurso direto com frases interrogativas. A leitura de uma frase interrogativa deve fazer-se acentuando a partícula interrogativa ou o verbo presente na frase e não acentuando apenas o final da frase.

A segunda leitura, tal como já nos habituamos no epistolário paulino, devido às frases longas com diversas orações, requer uma acurada preparação na articulação do texto, assinalando as pausas e respirações

I Leitura

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

NO DESERTO A CÉU ABERTO

Só secundariamente a Quaresma «prepara» para a Ressur­reição do Senhor. Na verdade, todos os «Tempos» e todos os Domingos do Ano Litúrgico, portanto, também a Quaresma e os seus Domingos, estão depois da Ressurreição e por causa da Ressurreição. E é só sob a intensa luz do Senhor Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lucas 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar autenti­camente a sua fé, proceder à correta «leitura» das Escri­turas e encetar a «caminhada» quaresmal. Neste sentido, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário conhecemos: desde o Batismo no Jordão, passando pela Trans­figuração / Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Batismo consumado!), escutando / anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho do Reino e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as «obras» do Reino (Atos dos Apóstolos 10,37-43: texto emblemático); os catecúmenos, acompanhados sempre pela Assembleia dos batizados, «pre­param‑se» intensamente para a Noite Pascal Batismal, início e meta da vida cristã.

A Igreja Santa, toda Batizada e Crismada, sabe bem que é dali, daquela Cruz Santa e Gloriosa, e da enxurrada de Vida Nova, Ressuscitada, da dádiva do Espírito que dela jorra, que nos é oferecida a «consumação» (teleíôsis) (cf. João 19,28-30), o cumprimento, a chegada à perfeição da nossa vida, deste segmento de tempo que, por graça, nos é dado viver.

O Evangelho deste Domingo I da Quaresma oferece-nos o episódio das Tentações de Jesus (Mateus 4,1-11). Batizado com o Espírito Santo, e declarado por Deus publicamente: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo» (Mateus 3,16). Note-se bem que, em Mateus, o dizer do Pai é para nós, pois fala em 3.ª pessoa: «Este é o Filho meu, o Amado, em quem me comprazo». De modo diferente, em Marcos e em Lucas, o dizer do Pai é para Jesus, pois fala em 2.ª pessoa: «Tu és o Filho meu, o Amado, em ti me comprazo» (Marcos 1,11; Lucas 3,22).

Jesus é conduzido pelo Espírito Santo para o deserto (Mateus 4,1). Note-se bem que este «deserto» bíblico não se ajusta ao que dizem os dicionários ou enciclopédias. Até contradiz esses dizeres. Na verdade, não é um lugar geográfico, mas teológico, pois é apresentado com muita água (João 3,23) cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (Mateus 11,7; Lucas 7,24) e relva verde (Marcos 6,39) cumprindo Isaías 35,1 e 7 e 41,19. É um lugar provisório e preliminar, preambular, longe do que é nosso, onde se está «a céu aberto» com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Isaías 40,3), de João Batista (Mateus 3,1-3), do próprio Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a «obra» nova de Deus (Isaías 43,19). Mas é um lugar provisório, onde estamos de passagem, e não definitivo, para se habitar lá (à maneira dos Essénios). Sendo um lugar provisório e de passagem, aponta para o definitivo, que é a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o seu povo fiel. Este deserto é uma metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. O deserto é todo igual: não tem pontos de referência nem marcos de sinalização. Quer dizer que só podemos prosseguir rumo à Terra Prometida e à Vida verdadeira, se tivermos um bom guia. Aí está o deserto como lugar onde temos de saber escutar a «Voz do fino silêncio» de Deus e ler o mapa da sua Palavra.

Por 40 dias e 40 noites Jesus jejuou (Mateus 4,2). 40 é simbolicamente o tempo de uma geração, de uma vida. Jesus jejuou, portanto, a vida toda. Modelo para nós. E o que é que significa jejuar? Jejuar é fazer pausa e pôr bemol na nossa maneira habitual de viver, até compreender que tudo o que está na minha mesa, mãos, pés, inteligência, entranhas, coração, é dom de Deus, não apenas para mim, mas para nós, todos filhos de Deus e, portanto, todos irmãos. A alegria da partilha. Os dons são para partilhar, não para usurpar.

É assim que as tentações diabólicas pretendem atingir Jesus na sua condição filial batismal, separando-o de Deus e dos irmãos, não fosse o diabo, diá-bolos, o máximo «divisor» ou «separador» comum. É, portanto, na sua condição de batizado, isto é, de Filho de Deus, que Jesus é tentado. Na verdade, toda a tentação, a de Jesus Cristo como a nossa, começa sempre da mesma maneira: «Se és o Filho de Deus…». Atente-se em como se repete nos mesmos termos sob a Cruz (Mateus 27,39-44), também por três vezes, em três vagas, sendo aqui os tentadores os transeuntes, os chefes dos sacerdotes e os ladrões. Portanto, sempre. Do Batismo até à Morte, a tentação visa afastar-nos de Deus e dos seus dons, e pôr-nos ao serviço do «deus deste mundo» (2 Coríntios 4,4; cf. João 12,31). Veja-se a última oferta do Tentador do Evangelho de hoje: «todos os reinos deste mundo» em troca do afastamento de Deus (Mateus 4,8-9). E a resposta decidida de Jesus: «Vai-te, Satanás!» (Mateus 4,10).

Leem-se também hoje dois bocadinhos do Livro do Génesis 2,7-9 e 3,1-7. O homem de todos os tempos e de todos os lugares, nós também, modelado pelas mãos puras de Deus e acariciado com um «beijo de Deus» – é assim que os rabinos interpretam aquele sopro de Deus no rosto do homem (Génesis 2,7) –, cedeu à tentação, afastando-se do Bom Deus Criador e aderindo aos «deuses deste mundo», aqui simbolizados na cobra, animal que anda rente ou por dentro da terra, a grande deusa-mãe, comungando da sua vitalidade, e tornando-se, por isso, em símbolo do culto da fertilidade, fecundidade e vitalidade em todo o Médio Oriente Antigo e ainda hoje no nosso mundo: vejam-se os painéis que assinalam as portas das farmácias, ostentando uma cobra enrolada numa árvore verde! Está diante de nós o orgulho do homem de todos os tempos, que não quer ser dependente e contingente, que é a condição da criatura boa que se recebe sempre do Deus Criador, mas quer ser autónomo e independente, senhor tirânico e prepotente, como os deuses dos mitos mesopotâmicos ou gregos. Admirável contraponto do Evangelho de hoje.

No grande texto da Carta aos Romanos 5,12-19, S. Paulo repete que somos pecadores, pois todos nos podemos ver em Adão como em um espelho. Mas agora, insiste Paulo, é tempo de vermos a nossa vida à luz de Cristo, com Cristo, em Cristo, para Cristo. Fixamente, para não nos perdermos no caminho filial, fraternal, batismal. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. É esta a Sabedoria que Paulo nos transmite.

Cantamos hoje o Salmo 51, a súplica penitencial por excelência, que constitui a ossatura espiritual de Agostinho, de Charles de Foucauld, de Joana D’Arc, que inspirou a pena de muitíssimos Padres da Igreja, e ecoa na música de Bach, Lulli, Donizetti, Honegger… Hoje é a nossa vez de nos sentarmos um pouco a trautear a música que nos atravessa e nos põe de pé. Está aqui a letra e a música do homem, de qualquer homem, de qualquer tempo, seja ele quem for, de que raça for, de que religião for. Deixo aqui, a fechar, as palavras altíssimas da grande mística muçulmana do século VIII, Rabiʽa, de seu nome: «Um homem disse a Rabiʽa: “Cometi muitos pecados e muitas transgressões; se me arrepender, Deus perdoar-me-á?”. Disse Rabiʽa: “Não. Tu arrepender-te-ás, se Ele te perdoar”» (I detti di Rabiʽa, XII, 2).

Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,

Devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos

Intransitivos do nosso coração,

Isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,

Que tantas vezes preenchem os nossos dias.

A Quaresma é tempo de nos expormos

Ao vendaval criador e purificador do Espírito,

Sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.

Toma em tuas mãos, Senhor,

A nossa terra ardida.

Beija-a.

Sopra nela outra vez o teu alento,

A tua aragem,

E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.

Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.

Mas contigo por perto,

Seremos fortes e ágeis,

Capazes de abrir estradas no deserto,

A céu aberto.

António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo I da Quaresma – Ano A – 26.02.2023 (Gen 2, 7-9;3, 1-7)
  2. Leitura I – Domingo I da Quaresma (continuação)
  3. Leitura II – Domingo I da Quaresma – Ano A – 26.02.2023 (Rom 5,12.17-19)
  4. Leitura II – Domingo I da Quaresma (continuação)
  5. Domingo I da Quaresma – Ano A – Lecionário
  6. Domingo I da Quaresma – Ano A – Oração Universal
  7. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo VII do Tempo Comum – Ano A – 19.02.2023

43«Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 44Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Mt 5, 43-44  …..  48Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.» Mt 5, 48

Viver a Palavra

Quando se caminha sem uma meta, qualquer caminho serve e se não sabemos para onde ir, podemos tomar qualquer rumo, mas apenas andaremos a divagar na ausência de sentido, na busca de novas experiências e na procura insatisfeita de realização e felicidade. Zigmut Bauman, reconhecido sociólogo polaco, que apresenta uma interessante análise e interpretação do mundo em que vivemos, afirma que a nossa existência se pode inscrever sobre dois paradigmas: o turista ou o peregrino. O homem e a mulher contemporâneos, segundo ele, vivem muito mais a experiência do turista, na procura insatisfeita de tantos lugares a conhecer e explorar. Se a insatisfação, por um lado, oferece um estímulo a colocar-se a caminho, por outro lado, ela pode desembocar num caminho de frustração e angústia, porque somos incapazes de encontrar o nosso lugar e o nosso caminho.

A Liturgia da Palavra deste Domingo recorda-nos que como cristãos não caminhamos sem rumo, nem privados de uma meta a alcançar. Somos chamados à felicidade verdadeira que tem como nome a santidade: «sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Só Deus é santo, porque só Ele é perfeito no amor, mas na sua infinita misericórdia chama-nos a viver a comunhão com Ele, para que possamos saborear a alegria da santidade, a felicidade verdadeira que nasce do amor.

Ungidos pelo amor de Deus revelado em Jesus Cristo e derramado sobre nós pela força do Espírito Santo, somos chamados a percorrer com ousadia e perseverança a estrada da santidade e se vivemos como peregrinos rumo à perfeição não nos serve qualquer caminho. Assim, como qualquer sistema de navegação GPS configura a sua rota através de um ponto de partida e um ponto de chegada, também nós deveremos configurar a nossa vida caminhando entre aquilo que somos e o que o Senhor nos chama a ser.

Como cantamos no salmo deste Domingo, «o Senhor é clemente e cheio de compaixão». O Senhor conhece a nossa fragilidade e o nosso pecado, mas o seu nome é amor e misericórdia e, por isso, desafia-nos a ser mais e melhor a partir do Seu amor. Não caminhamos sozinhos a aventura da fé e a estrada da santidade não se constrói apenas confiados às nossas forças e capacidades. Como nos recorda S. Paulo, somos habitados pelo Espírito Santo que faz de nós verdadeiros templos e que nos assinala como pertença de Deus, em Jesus Cristo: «tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus».

Contudo, este caminho só será verdadeiramente cristão quando inscrevermos a nossa existência na radicalidade que Jesus nos propõe. As palavras de Jesus no Evangelho marcam uma ruptura com a nossa lógica humana de egoísmo e violência e abrem-nos à nova lógica do Reino: «ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos». A radicalidade da proposta de Jesus aponta a medida alta da santidade como tarefa inacabada, como caminho dinâmico de crescimento e progresso. Neste itinerário, Deus não é um espectador que se limita a ver o nosso desempenho, mas precede-nos no caminho, espera-nos na meta e acompanha-nos na jornada.

Jesus aponta a radicalidade que deve ser marca característica da nossa vida cristã. Não basta uma justiça retributiva como a lei de talião, nem apenas não fazer o mal. É necessário responder ao mal e à violência com o amor que pode transformar o mundo e inaugurar uma etapa nova na espiral de violência e egoísmo onde tantas vezes se inscreve a existência humana. Amar os inimigos, fazer bem a quem nos faz mal, ser um rosto do amor e da misericórdia onde ela não existe e, por isso, é mais necessária, é o único caminho para sermos verdadeiramente filhos de Deus e viver com alegria e entusiasmo o convite à santidade. in Voz Portucalense

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                No dia 22 de fevereiro, com a celebração da Quarta-Feira de Cinzas tem início o Tempo da Quaresma. Na nossa diocese, caminharemos com o tema: «Abraça o presente da Páscoa: é Cristo vivo. Agarrado a Ele, viverás.». Tal como afirma a introdução à caminhada quaresmal diocesana: «Pretende-se que esta proposta seja sobretudo mais um estímulo em ordem a fazer da reta final da preparação e da celebração da JMJ 2023 uma extraordinária oportunidade para o envolvimento e rejuvenescimento de toda a comunidade diocesana ousando novas propostas e respostas criativas às necessidades pastorais emergentes». As diversas propostas desta caminhada diocesana não devem ficar reduzidas ao contexto da celebração eucarística, mas ajudar os fiéis a redescobrir em Cristo Crucificado e Ressuscitado o nosso Presente pascal: Cristo vivo. Cada comunidade cristã deverá encontrar o modo de envolver todos os batizados nesta caminhada, criando dinamismos que não reduzam esta proposta ao ad intra da comunidade, mas que possa ser capaz de chegar aos que estão mais longe, ajudando-os a reavivar e a renovar a beleza do seu batismo e do seu compromisso cristão. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Lev 19,1-2.17-18

«Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo».

 

Ambiente

O Livro do Levítico (assim chamado porque trata de questões preferencialmente relacionadas com o culto, que era incumbência dos sacerdotes, considerados membros da tribo de Levi) apresenta-se como um discurso de Jahwéh, no qual este explica ao seu Povo o que deve fazer para viver sempre em comunhão com Deus. Apresenta um conjunto de leis, de preceitos, de ritos, quase sempre relacionados com o culto, que o Povo deve praticar, para viver como Povo de Deus. Fundamentalmente, o Levítico preocupa-se em instilar na consciência dos fiéis que a comunhão com o Deus vivo é a verdadeira vocação do homem.

O texto que nos é proposto pertence à quarta parte do Livro do Levítico (cf. Lv 17-26), conhecida como “lei da santidade”. O nome provém do refrão insistentemente repetido: “sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2; 20,7; 21,8; 22,16…).

Na teologia de Israel, Jahwéh é o Deus “santo”, quer dizer, transcendente, incomparável, inefável, inatingível, perfeito. Este Deus santo elegeu Israel, chamou-o, distinguiu-o entre todos os povos da terra, fez aliança com Ele. Introduzido na comunhão com Deus, Israel participa da santidade de Deus. É, portanto, um Povo à parte, separado dos outros, cuja vocação consiste na comunhão com o Deus santo.

Esta “eleição” conduz, necessariamente, à exigência de santidade: o Povo tem de viver de acordo com determinadas regras para manter esta comunhão de vida com Deus. Daí que o Levítico apresente as leis que devem orientar a vida do Povo, a fim de que ele possa manter-se na órbita do Deus santo e testemunhar a santidade de Deus no mundo.

Neste “código da santidade”, encontramos os temas mais diversos. Uma parte significativa das leis aqui propostas dizem respeito à vida cultual (cf. Lv 17-18; 21-22); mas outras dizem respeito à vida social (cf. Lv 19). in Dehonianos.

Para refletir:

“Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo”. Porque é que o convite à santidade soa como algo de estranho para os homens de hoje? Porque uma certa mentalidade contemporânea vê os santos como extraterrestres, seres estranhos que pairam um pouco acima das nuvens sem se misturar com os outros seus irmãos e que passam ao lado dos prazeres da vida, ocupados em conquistar o céu a golpes de renúncia, de sacrifício e de longos trabalhos ascéticos… No entanto, a santidade não é uma anormalidade, mas uma exigência da comunhão com Deus. É o “estado normal” de quem se identifica com Cristo, assume a sua filiação divina e pretende caminhar ao encontro da vida plena, do Homem Novo. A santidade é algo que está no meu horizonte diário e que eu procuro construir, minuto a minuto, sem dramas nem exaltações, com simplicidade e naturalidade, na fidelidade aos meus compromissos?

Como o nosso texto deixa claro, ser santo não significa viver de olhos voltados para Deus esquecendo os homens; mas a santidade implica um real compromisso com o mundo. Passa pela construção de uma vida de verdadeira relação com os irmãos; e isso implica o banimento de qualquer tipo de agressividade, de vingança, de rancor; implica uma preocupação real com a felicidade e a realização do outro (“corrigirás o teu próximo”); implica amar o outro como a si mesmo. Tenho consciência de que não posso ser santo se o amor não se derramar dos meus gestos e das minhas palavras? Tenho consciência de que não posso ser santo se vivo fechado em mim mesmo, na indiferença para com os meus irmãos (ainda que reze muito)?

Para que a santidade não seja uma miragem, temos de ter o cuidado de viver num contínuo processo de conversão, que elimine do nosso coração as raízes do mal, responsáveis pelo egoísmo, pelo ódio, pela injustiça, pela exploração. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: O Senhor é clemente e cheio de compaixão.

LEITURA II – 1 Cor 3,16-23

«Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus».

 

Ambiente

Continuamos no contexto da comunidade cristã de Corinto. Depois de apresentar a “sabedoria de Deus”, revelada em Jesus Cristo (sobretudo através da “loucura da cruz”) e oferecida aos homens (cf. 1 Cor 1,18-2,16), Paulo constata que os coríntios ainda não acolheram essa sabedoria: mantêm-se na dimensão do homem carnal (isto é, do homem fraco, limitado, pecador, escravo das suas paixões e apetites), imaturos na fé; cultivam as divisões e os conflitos, em flagrante contradição com o que Jesus lhes ensinou; correm atrás de mestres humanos como se eles tivessem a chave da felicidade e da realização plena, esquecendo que, por detrás de Paulo ou de Apolo, está Deus (cf. 1 Cor 3,1-15). Ao viverem, ainda, de acordo com a “sabedoria do mundo”, os coríntios estão a ser infiéis à sua vocação: não dão testemunho de Deus e não o tornam presente no mundo. in Dehonianos.

 

 

Para refletir:

Os cristãos são Templo de Deus, onde reside o Espírito. Isso quer dizer, em concreto, que, animados pelo Espírito, eles têm de ser o sinal vivo de Deus e as testemunhas da sua salvação diante dos homens do nosso tempo. O testemunho que damos, pessoalmente, fala de um Deus cheio de amor e de misericórdia, que tem um projeto de salvação e libertação para oferecer – sobretudo aos pobres e marginalizados, aqueles que mais necessitam de salvação? No nosso ambiente familiar, no nosso espaço de trabalho, no nosso círculo de amigos, somos o rosto acolhedor e alegre de Deus, as mãos fraternas de Deus, o coração bondoso e terno de Deus?

            A nossa comunidade paroquial ou religiosa é uma comunidade fraterna, solidária, e que dá testemunho da “loucura da cruz” com gestos concretos de amor, de partilha, de doação, de serviço, ou é uma comunidade fragmentada, dividida, cheia de contradições, onde cada membro puxa para o seu lado, ao sabor dos interesses pessoais?

            O que é que preside à minha vida: a “sabedoria de Deus” que é amor e dom da vida, ou a “sabedoria do mundo”, que é luta sem regras pelo poder, pela influência, pelo reconhecimento social, pelo bem-estar económico, pelos bens perecíveis e secundários? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 5,38-48

«Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos»

«Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus».

«sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».

 

Ambiente

Continuamos com o “discurso da montanha” e com a apresentação da “nova Lei” que deve conduzir a caminhada cristã.

Vimos, no passado domingo, como Mateus estava preocupado em definir, para os cristãos vindos do judaísmo, a relação entre Cristo e a Lei de Moisés. Os cristãos continuam obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus?

A perspetiva de Mateus é que Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude. No entanto, considera Mateus, a Lei tornou-se um conjunto de prescrições que são cumpridas mecanicamente, dentro de uma lógica casuística que, tantas vezes, não tem nada a ver com o coração e com a vida. É preciso que a Lei deixe de ser um conjunto de preceitos externos a cumprir para conquistar a salvação, para se tornar expressão de um verdadeiro compromisso com Deus e com o “Reino”.

Vimos como Mateus apresentava um conjunto de exemplos, destinados a tornar mais clara e concreta esta perspetiva. Dos seis exemplos apresentados por Mateus, quatro apareceram no Evangelho do passado domingo; para hoje, ficam os dois últimos exemplos dessa lista.in Dehonianos.

 

Para refletir:

Este Evangelho recorda-me que, ao aceitar o desafio de viver em comunhão com Deus, eu sou chamado a dar testemunho da vida de Deus diante de todos os meus irmãos e a ser um sinal vivo de Deus, do seu amor, da sua perfeição, da sua santidade, no meio do mundo. Aceito esse desafio e estou disposto a corresponder-lhe?

A leitura que nos foi proposta coloca, mais uma vez, como cenário de fundo, as exigências do compromisso com o “Reino”. Sugere que viver na dinâmica do “Reino” implica, não o cumprimento de ritos ou de leis, mas uma atitude nova, revolucionária, que resulta de um compromisso interior com Deus verdadeiramente assumido, e manifestado em atitudes concretas. Exige a superação de uma religião feita de leis, de códigos, de ritos, de gestos externos e o viver em comunhão com Deus, de tal forma que a vida de Deus encha o coração do crente e transborde em gestos de amor para com os irmãos. O que é que define a minha atitude religiosa: o cumprimento dos ritos, a letra da lei, ou a comunhão com Deus que enche o meu coração de vida nova e que depois se expressa em atitudes de amor radical para com os irmãos?

Jesus pede, aos que aceitaram embarcar na aventura do “Reino”, a superação de uma lógica de vingança, de responder na mesma moeda, e o assumir uma atitude pacífica de não resposta às provocações, que inverta a espiral de violência e que inaugure um novo espírito nas relações entre os homens. Não é, no entanto, esta a lógica do mundo, mesmo do mundo “cristão”: em nome do direito de legítima defesa ou do direito de resposta, as nações em geral e as pessoas em particular recusam enveredar por uma lógica de paz e respondem ao mal com um mal ainda maior. Como é que eu vejo a questão da violência, do terrorismo, da guerra? Tenho consciência de que a lógica da violência, da vingança, não tem nada a ver com os métodos do “Reino”? O que é que é mais questionante, interpelador e transformador: a violência das armas, ou a violência desarmada do amor?

Jesus pede, também, aos participantes do “Reino” o amor a todos, inclusive aos inimigos, subvertendo completamente a lógica do mundo. Como é que eu me situo face a isto? A minha atitude é a de quem não exclui nem discrimina ninguém, mesmo aqueles de quem não gosto, mesmo aqueles contra quem tenho razões de queixa, mesmo aqueles que não compreendo, mesmo aqueles que assumem atitudes opostas a tudo em que eu acredito?in Dehonianos

 

Para os leitores:

             A primeira leitura é marcada pelo tom exortativo com que Deus se dirige a Moisés para que ele seja portador de uma mensagem para todo o povo. Para uma mais eficaz proclamação da leitura deve ter-se em atenção as diversas formas verbais no imperativo retirando delas toda a sua força expressiva: «fala», «sede», «não odiarás», «não te vingarás», e «amarás».

A segunda leitura requer uma especial preparação: possui uma longa frase interrogativa, frases longas, citações e uma enumeração. Deste modo, é necessário preparar bem as pausas e respirações para uma articulada e eficaz proclamação do texto.

 

I Leitura

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

OH SUBLIME CIÊNCIA DAS ALTURAS!

Neste Domingo VII do Tempo Comum, continuamos a escutar nas alturas, em alta frequência e alta-fidelidade, o que não se pode escutar cá por baixo, em onda média, no meio do barulho e do entulho. E soam hoje, aos nossos ouvidos atónitos, no nosso coração atónito, as duas últimas das «seis antíteses» proferidas por Jesus no SERMÃO DA MONTANHA, e referentes à lei de talião e ao amor ao próximo (Mateus 5,38-48).

Diz a conhecida «Lei de talião» – do latim taliotalis [tal, igual] ou ius talionis [lei do corte ou contusão] –, assim formulada no Livro do Êxodo: «vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão» (Êxodo 21,24-25). Formulação semelhante desta Lei já se encontra, de resto, nos parágrafos 196 e 197 do famoso código de Hammurabi, que remonta mais ou menos a 1700 anos antes de Cristo. E, ao contrário do que se diz habitualmente, esta Lei não representa a barbaridade, mas um avanço civilizacional, pois assenta, não na multiplicação desenfreada da vingança e da violência, mas na sua contenção, pois condena o agressor a receber apenas a sanção igual àquela que ele provocou à vítima.

Bem diferente é a chamada Lei da vingança desenfreada, traduzida, por exemplo, no famoso «Cântico da espada» de Lamec, que se expressa assim no Livro do Génesis: «Eu matei um homem por uma ferida, uma criança por uma contusão. Sim, Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes!» (Génesis 4,23-24). O que se vê aqui é que Lamec respira uma vingança irracional, um ódio irracional. O que ouvimos nas alturas da Montanha é que Jesus respira e ensina um amor irracional, até ao paroxismo, ao absurdo e à estupidez, dissolvendo completamente os ódios, vinganças e violências do «Cântico de Lamec», mas ultrapassando também a fria simetria da «Lei de talião». «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente”. Porém, eu digo-vos: “Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda; se alguém te levar ao tribunal para ficar com a tua túnica, oferece-lhe também o manto; se alguém te forçar a acompanhá-lo durante cinco km, acompanha-o durante dez!”» (Mateus 5,38-41). Oh sublime ciência das alturas!

E Jesus continua em alta sintonia, altíssima alegria, altíssimo amor, estendendo o amor para além dos círculos restritos das nossas simpatias, até aos nossos próprios inimigos! Amor assimétrico, que Jesus ensina agora nas alturas, mas que praticará e ensinará até à Cruz! Ele leva até ao alto do Monte das Bem-Aventuranças e até ao alto do Calvário os nossos ódios desenfreados e a nossa fria justiça distributiva, e restitui-nos em troca o perdão excessivo e o amor transbordante.

Ao tempo de Jesus, o panorama do judaísmo palestinense era dominado por duas escolas: a escola conservadora e rigorista de Shammai e a escola liberal de Hillel. Conta-se que, um dia, um homem se terá apresentado na escola de Shammai, e fez ao mestre um estranho pedido: «quero que», diz o homem, «enquanto eu me mantiver apenas com um pé no chão, tu me expliques toda a Lei». Diz-se que Shammai se limitou a pegar na sua vara de mestre e a correr o homem pela porta fora, pois era óbvio que o homem fazia um pedido impossível de cumprir, tal era a vastidão da Lei, e o pouco tempo concedido para a sua explicação. Mas o homem não desanimou e dirigiu-se à escola de Hillel, a quem formulou o mesmo pedido. E Hillel terá respondido de pronto: «Nada mais fácil: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!”».

A esta sentença de Hillel, na sua formulação negativa, deu-se o nome de «regra de ouro». Em boa verdade, ela já aparece no Livro de Tobias 4,15. É, todavia, fácil de verificar, que esta sentença é de fácil cumprimento. Dado que o seu teor é negativo, para a cumprir, basta a alguém cruzar os braços e nada fazer. Procedendo assim, nada fará de inconveniente a ninguém, cumprindo assim escrupulosamente a sentença formulada.

Tentando talvez evitar a inação acoitada na formulação negativa anterior, os Evangelhos apresentam desta máxima uma formulação positiva: «Faz aos outros o que queres que te façam ti!» (Mateus 7,12; Lucas 6,31). Levando a sério esta formulação, já não é suficiente jogar à defesa e nada fazer, mas é, de facto, requerido fazer alguma coisa. Seja como for, as duas formulações apresentadas, quer a negativa quer a positiva, padecem do mesmo vício: sou eu o centro, é à minha volta que tudo roda, e o que eu faço ou deixo de fazer é com o objetivo claro de que me seja retribuído outro tanto!

O tom positivo da referida «regra de ouro» recebe ainda outra bem conhecida formulação: «Ama o teu próximo como a ti mesmo!», que atravessa a inteira Escritura: Levítico 19,18; Mateus 22,39; Romanos 13,9; Gálatas 5,14; Tiago 2,8. Mas também esta formulação é perigosa: primeiro, porque eu continuo o ser o centro, sendo eu a medida do amor devido aos outros; segundo, porque, se alguém não se ama a si mesmo (e são, infelizmente, cada vez mais os casos!), como poderá cumprir devidamente esta máxima?

É aqui que cai, como uma lâmina, a força do Evangelho que sai dos lábios de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!» (João 13,34; 15,12). Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus, o das alturas, o do alto das montanhas. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim! Oh sublime ciência das alturas!

  1. O texto do Antigo Testamento que faz hoje companhia ao Evangelho é retirado do Livro do Levítico 19,1-2.17-18, e nele fica desenhado o caminho e a fonte da santidade: «Sede santos, porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Levítico 19,2); mas é também tirado a limpo que o nosso caminho, isto é, o nosso comportamento para com os nossos irmãos, não pode passar nunca pelo ódio nem pela vingança, mas apenas pelo amor (Levítico 19,18), ainda que numa formulação muito simétrica: «Ama o teu próximo como a ti mesmo», a única vez, de resto, que encontramos esta formulação no AT.

O Apóstolo Paulo continua a interpelar, com a força do Evangelho, a comunidade cristã de Corinto e as nossas comunidades cristãs de hoje (1 Coríntios 3,16-23). Sim, diz Paulo com extrema precisão: «O Espírito Santo habita em vós» (1 Coríntios 3,16). E acrescenta ainda: «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (1 Coríntios 3,22-23). Portanto, tudo e todos caminhamos para a casa do Pai; entretanto, é Cristo o único Senhor, o único caminho e o único companheiro da nossa vida.

O Salmo 103 é uma das joias do Antigo Testamento e constitui um grande canto ao amor de Deus, uma espécie de prelúdio ao «Deus é amor» (1 João 4,8). Desenrola-se em dois movimentos. O primeiro (vv. 1-9) trata o amor e o perdão de Deus com sucessivos particípios hínicos, que mostram um Deus que perdoa, cura, redime, coroa de amor e misericórdia, sacia de bem, e uma série de nomes (justiça, dá a conhecer, obras, misericordioso, gracioso). O segundo movimento (vv. 10-18) põe lado a lado o amor permanente de Deus e a nossa humana fraqueza. A linha vertical (céu-terra) serve para mostrar a imensidão do amor de Deus (v. 11), escrevendo-se na linha horizontal (oriente-ocidente) a grandeza sem medida do seu perdão (v. 12). O belíssimo v. 13 passa a imagem inultrapassável de Deus como um pai com ventre maternal (rehem). A fragilidade humana aparece traduzida nas imagens do pó (v. 14) e da erva (vv. 15-16), em contraponto com a estabilidade do amor de Deus (v. 17). Sem este amor, sem esta música, seríamos talvez levados melancolicamente a pensar que é o mesmo o destino das folhas outonais e dos homens! Deixemos ecoar em nós as belas notas deste grande Salmo 103, que alguns autores já chamaram o Te Deum do Antigo Testamento.

«A santidade é a medida alta da vida cristã ordinária».
Os santos vivem, portanto, nas alturas,
Sem, todavia, levantarem os pés da terra.

Também Jesus se sentou no alto do Monte,
Para aí declarar felizes, felizes, felizes
Os pobres, os mansos, os aflitos,
Os famintos, os sedentos, os misericordiosos,
Os pacificadores, os perseguidos.

E Jesus repete estas felicitações,
E por nove vezes as atira
Contra os vidros embaciados
Do nosso empedernido coração.

É do alto do monte que Jesus proclama estas maravilhas.
Há coisas que só se podem dizer nas alturas.

Senhor Jesus,
Mestre diferente dos escribas de todos os tempos,
Ensina-nos a descobrir a sabedoria que há nos pobres
Quando estendem para nós as suas mãos abertas e vazias,
A ternura que há nos pacificadores e misericordiosos
Quando se colocam diante das nossas armas,
A esperança que há nos perseguidos e refugiados
Quando batem às nossas portas fechadas.

Ensina-nos, Senhor, a compreender
Que sempre foram os santos e os justos
A abrir caminhos novos e belos
Onde os poderosos só sabem estender muros e arame farpado.

 D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo VII do Tempo Comum – Ano A – 19.02.2023 (Lev 19, 1-2.17-18)
  2. Leitura II – Domingo VII do Tempo Comum – Ano A – 19.02.2023 (1 Cor 3, 16-23)
  3. Domingo VII do Tempo Comum – Ano A – 19.02.2023 – Lecionário
  4. Domingo VII do Tempo Comum – Ano A – 19.02.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 12.02.2023

21«Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá de responder em juízo. 22Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar ‘imbecil’ será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar ‘louco’ será réu da Geena do fogo. Mt 5, 21-22

Viver a Palavra

Sobre o Monte, Jesus continua a falar ao coração dos Seus discípulos, apresentando as coordenadas fundamentais para O seguir e para colaborar na missão de estabelecer no mundo o Reino de Deus. Ser feliz, ser bem-aventurado, é partir na aventura de subir ao Monte com Jesus. É abraçar o desafio de caminhar rumo à medida alta da santidade. É ser luz e sal para que no mundo possa ecoar a mais bela melodia do amor e, assim, contemplando as nossas boas obras, cada homem e cada mulher eleve o seu olhar para Aquele que é a fonte de todo o amor.

Subir ao monte é uma experiência humana verdadeiramente marcante não só pela possibilidade de contemplar o mundo e a natureza de um modo novo, mas também porque exige esforço e determinação para atingir a meta. Sabemos como os nossos antepassados, desde os cultos mais primitivos até às capelas e santuários cristãos, escolheram o cimo do monte como lugar privilegiado para o encontro com Deus. Subir para descer, chegar mais alto para trilhar melhor os caminhos cá em baixo, aproximar-se de Deus para melhor nos aproximarmos dos irmãos. É esta a nova lógica do Reino que Jesus faz ecoar sobre o monte e que nos aponta a radicalidade do Seu Evangelho.

Jesus apresenta a novidade da sua mensagem, levando à plenitude a lei que outrora também sobre o monte foi dada ao povo por meio de Moisés. Esta lei nova, que Jesus não vem revogar, mas completar, deve ser inscrita não em tábuas de pedra, mas no coração dócil de cada homem e cada mulher. Esta é uma proposta livre que reclama do nosso coração uma adesão consciente e determinada: «se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade. Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares». Seguir Jesus Cristo, acolhendo a radicalidade do Seu Evangelho é um caminho de verdadeira liberdade e, por isso, tão exigente. Livremente eu aceito não viver uma lei de mínimos, livremente eu desejo ser mais e melhor a partir do amor de Jesus, livremente eu acolho o desafio de viver a permanente tensão entre aquilo que sou e aquilo que o Senhor me chama a ser.

Viver com radicalidade o que Jesus nos propõe no Evangelho deste Domingo pode ser frustrante e até desanimador e podemos até ser tentados a afirmar que esta proposta está para lá das nossas capacidades humanas. Na verdade, sozinhos nunca seremos capazes, mas conscientes de que Aquele que nos aponta o caminho também caminha connosco, poderemos avançar com renovada esperança e revigorada confiança. A exigência do caminho e a medida alta que está colocada diante de nós são a garantia de que estaremos permanentemente a caminhar, numa atitude de permanente conversão, superando os nossos limites, vencendo as nossas fragilidades e acolhendo o convite de Jesus para que a nossa linguagem seja sempre marcada pela determinação de quem sabe dizer sim ao amor e não a tudo o que nos afasta dele.

«Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu, porém, digo-vos». Estas palavras estão entre as mais radicais do Evangelho, mas são também as mais humanas, porque nos indicam o caminho da verdadeira felicidade, a possibilidade de viver de modo novo a relação com os outros e realizar no tempo e na história o Reino de Deus que haveremos de experimentar em plenitude no Céu. in Voz Portucalense

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                No dia 14 de fevereiro, comemora-se o Dia dos Namorados. A Pastoral Familiar da paróquia pode convidar os namorados a participar de modo especial na celebração deste Domingo ou noutro momento considerado mais oportuno e valorizar-se a sua presença com uma oração rezada em conjunto ou uma especial bênção para os namorados/noivos. Recordo que a Exortação Amoris Laetitia convida «as comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos» (AL 207). Além disso, este momento torna-se uma oportunidade para os casais de namorados cristãos olharem o tempo de namoro como tempo feliz de preparação para o sacramento do matrimónio num caminho comunitário. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Sir 15,16-21 (15-20)

«Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser fiel depende da tua vontade.».

 

Ambiente

O Livro de Ben Sira (designado na Bíblia Católica com o nome de “Eclesiástico”) é um livro “sapiencial” – isto é, um livro cujo objetivo é apresentar indicações de carácter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei) dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria.

Estamos no início do séc. II a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre da Macedónia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egipto) minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel. Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa cultura universal, que era a cultura helénica…

Jesus Ben Sira escreve para ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra, uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega.
Nos capítulos 14 e 15 do Livro de Ben Sira, há uma reflexão sobre como encontrar a verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto: dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo. in Dehonianos.

Para refletir:

A questão fundamental que aqui nos é posta é esta: existem caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de escolher o nosso destino. Sentimos essa responsabilidade e procuramos responder ao desafio, ou passamos a vida a encolher os ombros e a deixar-nos ir na corrente, ao sabor das modas, do “politicamente correto”, aceitando que sejam os outros a impor-nos os seus esquemas, os seus valores, a sua visão das coisas?

Uma proposta leva à vida e à felicidade. Quem quiser ir por aí, tem de seguir os “sinais” (mandamentos) com que Deus delimita o caminho que leva à vida. Percorrer esse caminho implica, evidentemente, viver numa escuta permanente de Deus, num diálogo nunca acabado com Deus, numa descoberta contínua das suas propostas. Esforço-me por viver na escuta de Deus e por descobrir os “sinais” de que Ele me deixa?

A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles que escolhem o egoísmo, a autossuficiência, o orgulho, o isolamento em relação a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria, exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente, este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao lado dos “sinais” de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções.

Este texto levanta, também, a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e… deixa-nos escolher.

Atenção: a morte e a desgraça nunca são um castigo de Deus por nos termos portado mal e por termos escolhido caminhos errados; mas é o resultado lógico de escolhas egoístas, que geram desequilíbrios e que destroem a paz, o equilíbrio, a harmonia do mundo, da família e de mim próprio. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 118 (119)

Refrão: Ditoso o que anda na lei do Senhor.

LEITURA II – 1 Cor 2,6-10

«Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam».

 

Ambiente

Continuamos no ambiente da comunidade cristã de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que o ponto de partida para a reflexão de Paulo é a pretensão dos coríntios em equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. Paulo está consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz.

Depois de denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, Paulo vai apresentar – de forma mais desenvolvida – a “sabedoria de Deus”. in Dehonianos.

Para refletir:

O projeto de salvação que Deus tem para os homens, e que resulta do seu imenso amor por nós, é um projeto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Os crentes são, em consequência deste dinamismo de esperança que o projeto de salvação de Deus introduz na nossa história, pessoas que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em direção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.

No entanto, Deus não força ninguém: a opção pelo caminho que conduz à vida plena, ao Homem Novo, é uma escolha livre que cada homem e cada mulher devem fazer. O que Deus faz é ladear o nosso caminho de “sinais” (mandamentos) que indicam como chegar a essa meta final de vida definitiva. Como é que eu percorro esse caminho: na atenção constante aos “sinais” de Deus, ou na autossuficiência de quem quer ser o responsável único pela sua liberdade e não precisa de Deus para nada? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 5, 17-37

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar».

«Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus».

«A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’».

 

Ambiente

Terminado o preâmbulo do “sermão da montanha” (que vimos nos dois anteriores domingos), entramos no corpo do discurso. Recordamos aquilo que dissemos nos domingos anteriores: o discurso de Jesus “no cimo de um monte” transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a Lei; agora, é Jesus que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus essa nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”. Neste discurso (o primeiro dos cinco grandes discursos que Mateus apresenta), o evangelista agrupa um conjunto de “ditos” de Jesus e oferece à comunidade cristã um novo código ético, a nova Lei, que deve guiar os discípulos de Jesus na sua marcha pela história.

Para entendermos o “pano de fundo” do texto que nos é hoje proposto, convém que nos situemos no ambiente das comunidades cristãs primitivas e, de forma especial, no ambiente da comunidade mateana: trata-se de uma comunidade com fortes raízes judaicas, na qual preponderam os cristãos que vêm do judaísmo… As questões que a comunidade põe, na década de oitenta (quando este Evangelho aparece), são: continuamos obrigados a cumprir a Lei de Moisés? Jesus não aboliu a Lei antiga? O que é que há de verdadeiramente novo na mensagem de Jesus? in Dehonianos.

Para refletir:

Os discípulos de Jesus são convidados a viver na dinâmica do “Reino”, isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projeto de salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena.

Cumprir um conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus. Os nossos comportamentos externos têm de resultar, não do medo ou do calculismo, mas de uma verdadeira atitude interior de adesão a Deus e às suas propostas. É isso que se passa na minha vida? Os “mandamentos” são, para mim, princípios sagrados que eu tenho de cumprir, mecanicamente, sob pena de receber castigos (o maior dos quais será o “inferno”), ou são indicações que me ajudam a potenciar a minha relação com Deus e a não me desviar do caminho que conduz à vida? O cumprimento das leis (de Deus ou da Igreja) é, para mim, uma obrigação que resulta do medo, ou o resultado lógico da opção que eu fiz por Deus e pelo “Reino”?

“Não matar”, é, segundo Jesus, evitar tudo aquilo que cause dano ao meu irmão. Tenho consciência de que posso “matar” com certas atitudes de egoísmo, de prepotência, de autoritarismo, de injustiça, de indiferença, de intolerância, de calúnia e má-língua que magoam o outro, que destroem a sua dignidade, o seu bem estar, as suas relações, a sua paz? Tenho consciência que brincar com a dignidade do meu irmão, ofendê-lo, inventar caminhos tortuosos para o desacreditar ou desmoralizar é um crime contra o irmão? Tenho consciência que ignorar o sofrimento de alguém, ficar indiferente a quem necessita de um gesto de bondade, de misericórdia, de reconciliação, é assassinar a vida?

Não podemos deixar, nunca, que as leis (mesmo que sejam leis muito “sagradas”) se transformem num absoluto ou que contribuam para escravizar o homem. As leis, os “mandamentos”, devem ser apenas “sinais” indicadores desse caminho que conduz à vida plena; mas o que é verdadeiramente importante, é o homem que caminha na história, com os seus defeitos e fracassos, em direção à felicidade e à vida definitiva. in Dehonianos

 

Para os leitores:

             Na primeira leitura pede-se a atenção para a frase condicional que abre a leitura, bem como para as duas frases seguintes cuja dinâmica em jeito de proposta alternativa deve ser sublinhada na proclamação da leitura.

A segunda leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente, contudo pede-se o especial cuidado a ter nas cartas de Paulo na atenção às frases longas com diversas orações e uma preparação que ajude a estabelecer os lugares de pausa e paragem para uma melhor articulação da leitura.

 

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

NÃO MATARÁS!

Continuamos a escutar, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime Discurso da Montanha, hoje as quatro primeiras das famosas «seis antíteses» (Mateus 5,17-48), cujos temas são: o homicídio, o adultério, o divórcio, o perjúrio, a lei de talião, o amor ao próximo. Ouviremos então, neste VI Domingo do Tempo Comum, o sublime dizer de Jesus sobre os primeiros quatro temas: homicídio, adultério, divórcio e perjúrio (Mateus 5,17-37), enquanto nos preparamos para ouvir no próximo Domingo, VII do Tempo Comum, os últimos dois importantes temas: a lei de talião e o amor que a todos devemos (Mateus 5,38-48).~

Não nos esqueçamos que continuamos na Montanha, nas alturas, pois há certas maneiras de viver e de sentir que só podem ter o seu habitat nas alturas. O Papa S. João Paulo II escreveu na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte [2001], n.º 31, que perguntar a um catecúmeno se ele quer receber o batismo é o mesmo que perguntar-lhe se ele quer ser santo, e fazer-lhe esta última pergunta é colocá-lo no caminho do Sermão da Montanha. E logo a seguir, na mesma Carta e no mesmo número, S. João Paulo II define a santidade como a «medida alta” da vida cristã ordinária». É, portanto, imperioso que o cristão aprenda a ganhar altura, não para se separar dos caminhos lamacentos do quotidiano, mas para os encher de um amor maior.~

Cada uma das «seis antíteses» abre com as palavras de Jesus: «Ouvistes o que foi dito […]; porém, eu digo-vos». Com esta técnica de contraponto, Jesus não quer que se desperdice nada do Antigo Testamento; quer antes enchê-lo, levar quanto aí é dito, que é Palavra de Deus, ao seu ponto mais fundo e mais alto. Por exemplo, quando ouvimos o que foi dito: «Não matarás!», não basta determo-nos no limiar do assassínio, como manda a letra, de acordo com uma leitura literalista e legalista da Palavra de Deus. É preciso ir mais fundo e mais alto: mondar todas as raízes da ira, do ciúme, da inveja, do ódio, desprezo e desamor, e encher todos os regos e cicatrizes de mais amor, mais amor, mais amor, só amor. Não se trata apenas de travar a fundo no último momento, evitando o acidente; trata-se de viver permanentemente a nova cultura do amor. Neste sentido, escreve S. João, com ponta fina de diamante, não na pedra ou no papiro ou no papel, mas no nosso coração meio embotado e engessado: «Quem não ama o seu irmão, é homicida» (1 João 3,15).

«Não matarás!». Palavra fortíssima e de extrema mansidão, inscrita no Rosto ou viso nu do Outro, de qualquer outro, pobre e nu e senhor, pobre porque nu, e senhor porque pobre e nu, que de improviso te visita e te elege, e te ordena, de forma imperativa e não optativa, entregando-te uma palavra que é um mandamento, que não te deixa em estado de decisão, que não se dirige, portanto, à tua liberdade de escolha, mas à tua responsabilidade, pois te manda responder por ele, pela sua vida, resposta que não podes adiar nem delegar. É a ti que ele elege, é a ti que ele dirige o mandamento: «Não matarás!», concedendo-te apenas responder, obedecendo, e não decidir o que fazer. Reclama a tua responsabilidade: por muito que te custe compreender, trata-se de uma responsabilidade anterior à liberdade! Coisa simples, que só não compreendes se não quiseres. É o “bom dia” antes do cogito. Atentos, porque o rosto pobre e nu do outro é o único soberano que existe. Pode estar em coma à beira da estrada, na soleira da tua porta, na cama de um hospital. Não tem nenhum poder (não te aponta uma arma, não tem dinheiro para te seduzir ou para te pagar…), e, todavia, obriga-te a debruçares-te sobre ele. Vês, então, como ele é soberano? É o único que te pode libertar dos cadeados da tua Sinngebung (da tua capacidade de produção de sentido preliminar e subjetivo). Os que têm pistolas e dinheiro, na verdade, pouco podem: apenas te podem escravizar! Não te podem libertar! São tiranos e prepotentes. Não são soberanos!

E assim também o adultério, o divórcio, o perjúrio. Qualquer destes pontos representa o fim de um amor, que é sempre um acontecimento dramático. Veja-se atentamente, neste mundo cinzento e insípido, sem sol e sem sal, em que vivemos, o drama imenso que cada divórcio comporta. Mas, para encher de sentido o «porém, eu digo-vos» de Jesus sobre estes pontos precisos, também não basta viver uma vida cinzenta e mentirosa e evitar em cima da linha chegar ao adultério, ao divórcio ou ao perjúrio. É necessário encher a vida inteira de amor, de mais amor, só de amor.

É preciso levantar a vida, o coração, até ao cimo do monte das Bem-Aventuranças, e deixar-se deslumbrar, como a multidão, com este novíssimo, em conteúdo e método, ensinamento de Jesus (Mateus 7,28-29).

O belo Livro de Jesus Ben-Sirá, de que hoje recebemos a deliciosa lição de 15,16-21, lembra-nos que os mandamentos de Deus estão sempre cheios apenas de bondade. Serve essa fortíssima afirmação para nos advertir que a nenhum de nós foi dada licença para pecar, nem sequer para produzirmos coisas vãs e ocas, sem ponta de sal ou de sentido. Vale ainda saber que este livro delicioso, de tom edificante, terá sido escrito por Jesus Ben-Sirá em hebraico no primeiro quartel do século II a. C., aí por volta dos anos 180-175, tendo sido depois lido e muito apreciado por um seu neto, no Egito, parece que no ano 132 a. C. Tanto o neto apreciou o texto do seu avô, que resolveu traduzi-lo para grego, para possibilitar que muitos outros o pudessem ler também com proveito. Bela também esta ligação entre as gerações.

S. Paulo fala-nos na lição de hoje da Primeira Carta aos Coríntios 2,6-10 da Sabedoria de Deus. E lembra-nos que a Sabedoria de Deus não está à venda em nenhum mercado deste mundo, nem está na posse dos senhores deste mundo. E precisa ainda que a sabedoria dos senhores deste mundo, que é sempre a sabedoria orgulhosa e arrogante que nos pode fazer senhores do mundo, mas nos conduz sempre fatalmente para a ruína. A verdadeira sabedoria, a de Deus, é depositada no nosso coração pelo Espírito de Deus, dando-nos assim acesso, por graça, às riquezas divinas que Deus, desde sempre, tem preparadas para nós. Em vez da ruína, fica aberta diante de nós uma maneira nova de viver e de morrer. Chama-se santidade, «medida alta» da vida cristã ordinária.

À nossa frente estão sempre os caminhos do Senhor, que devemos calcorrear com alegria e felicidade recebida e dada, enquanto cantamos a imensa partitura do Salmo 119, admirável composição de 1064 palavras hebraicas reunidas, repartidas, repetidas, entretecidas e entretidas à volta da Palavra de Deus que alumia a nossa vida. Blaise Pascal recitava este Salmo todos os dias.

Ensina-me, Senhor, a subir mais alto,
Como os lírios do campo,
Como os passarinhos.
Ensina-me a ser santo
Como os pequeninos.
Só sendo assim me posso sentar à tua mesa,
Onde se come e se reza,
E o ambiente é familiar e quente
Como uma lareira acesa.

Até as aves do céu vêm abrigar-se em tua casa,
Comer à tua mesa.
Aqui fazem os passarinhos os seus ninhos,
E até os bandos de estorninhos
Encontram aqui o seu descanso.

Dá-nos, Senhor,
Em cada dia
Da nossa vida
Às vezes escura,
A água pura da tua luz e alegria,
Que nos enche de paz e nos sacia.

António Couto

 

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 12.02.2023 (Sir 15, 16-21 (15-20))
  2. Leitura II – Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 12.02.2023 (1 Cor 2, 6-10)
  3. Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 12.02.2023 – Lecionário
  4. Domingo VI do Tempo Comum – Ano A – 12.02.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 05.02.2023

Viver a Palavra

Como cristãos somos chamados a habitar o mundo em que vivemos, vencendo a globalização da indiferença, libertando-nos do nosso comodismo e testemunhando com ousadia a felicidade de viver com os olhos e o coração abertos sobre o mundo.

Dirigindo-se aos discípulos de outrora, Jesus interpela cada um de nós, discípulos de hoje, neste lugar e tempo concreto da história humana: «Vós sois o sal da terra! Vós sois a luz do mundo!». Jesus diz precisamente «vós sois» e não «vós deveis ser». Ser sal e ser luz fazem parte da nossa identidade cristã e devem moldar todo o nosso querer e agir. Bem sabemos que muitas vezes a nossa vida é insípida e opaca, mas no nosso coração Deus derramou o sal que transforma e dá sabor e a luz que dissipa as trevas e ilumina mesmo os recantos mais recônditos da nossa existência.

Somos chamados a ser sal que não perde a força e luz que não se esconde. Como discípulos missionários somos convocados para ser verdadeiros protagonistas na construção da civilização do amor, apontando sempre para Jesus Cristo, meta das nossas vidas e garante da eficácia da nossa missão, não obstante a nossa fragilidade e pecado. Como Paulo, diante da missão que nos é confiada, somos tentados a dizer: «apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras». Contudo, devemos fixar o nosso olhar e a nossa atenção na confiança que Jesus deposita em cada um de nós: Ele conhecendo a nossa fragilidade e debilidade não hesita em fazer de nós sal e luz e faz das nossas vidas lugares luminosos e saborosos para que no mundo se possa saborear a misericórdia e a ternura de Deus e se possa contemplar a luz terna e suave do Seu amor. Não tenhamos medo da nossa fragilidade, nem tampouco deixemos que ela nos paralise. Escutemos o Papa Francisco: «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (EG 49). Vencendo o comodismo, somos chamados a lançar-nos ao caminho, a ser sal e luz, a ser testemunhas criativas de que só o amor pode transformar o mundo num lugar melhor e mais feliz.

O sal é, antes de tudo, um elemento saído das águas do mar, respondendo ao luminoso apelo do sol. Assim, cada um de nós é chamado a ascender pela força atrativa da Luz divina. Mas como o sal que depois deve descer aos alimentos e dissolver-se neles para que discreta e humildemente possa dar sabor na medida certa e ajustada, também cada cristão é chamado a ser no mundo e para mundo um testemunho discreto mas eficaz do amor e da ternura de Deus.

A luz permite ver a realidade e os outros de um modo novo e diferente. Só Jesus é a Luz do Mundo, mas convocados pela sua palavra, somos chamados a irradiar no tempo e na história a luz terna e suave do Seu amor. Mas gosto de imaginar o nosso ser luz como um rasto luminoso que não encandeia aqueles com quem nos cruzamos mas que os conduz à fonte de toda a Luz que é Jesus Cristo. A primeira leitura que escutamos neste Domingo aponta de modo claro as condições necessárias para ser luz: abrir o nosso coração e a nossa vida aos que precisam de nós com gestos concretos de amor e misericórdia. Transportando na fragilidade do nosso barro o precioso tesouro que é «Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado», seremos um sinal saboroso e um rasto luminoso do amor de Deus, fazendo ecoar no tempo e na história a mais bela melodia da bondade e da ternura pela prática concreta e exigente das obras de misericórdia. in Voz Portucalense

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No Evangelho escutado neste Quinto Domingo do Tempo Comum Jesus convida os seus ouvintes a serem verdadeiro sal e esplendorosa luz para que o mundo seja um verdadeiro lugar de louvor ao Pai pelas obras de bondade e misericórdia. Deste modo, este Domingo é uma oportunidade para convidar os cristãos a renovarem o seu compromisso de serem verdadeiros protagonistas da construção de um mundo mais justo e fraterno. Na celebração deste Domingo, na homilia ou até numa breve admonição antes do envio dos fiéis no final da celebração poderá recordar-se este compromisso cristão fundamental de nos nossos lugares de trabalho, nas nossas famílias e nos diversos ambientes onde somos enviados, sermos anunciadores do Evangelho de Jesus através de gestos concretos de amor e ternura. in Voz Portucalense

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Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Is 58,7-10

«A tua luz despontará como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a sarar».

Ambiente

Os capítulos 56 a 66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto heterodoxo de temas, de situações, de géneros e de estilos; por isso, a maior parte dos estudiosos recentes atribuem estes textos, não a um autor, mas a uma pluralidade de autores – embora continuem a catalogar estes capítulos sob o nome genérico de “Trito-Isaías”.

Embora se discuta também a época em que estes textos apareceram (as opiniões vão desde o séc. VII ao séc. II a.C.), a maioria dos estudiosos costuma situar estes textos na época pós-exílica, provavelmente dos últimos decénios do séc. VI, ou nos primeiros anos do séc. V. a.C. Estamos em Jerusalém; os repatriados da Babilónia chegaram cheios de entusiasmo, mas depressa conheceram a desilusão… A cidade está destruída; o domínio persa continua a recordar ao povo de Jerusalém que não é livre nem tem nas próprias mãos a chave do seu futuro; e, acima de tudo, as belas promessas de reconstrução, de libertação, parecem ter-se desvanecido e a intervenção definitiva de Deus tarda em chegar.

Alguns autores recentes falam (a propósito desta época) de uma forte tensão entre dois grupos que procuram impor-se em Jerusalém: de um lado, o sacerdócio sadoquita (de Sadoc, sacerdote do tempo de Salomão), que voltou do exílio na Babilónia convencido de que tinha sido provado e perdoado das suas faltas, que está em boas relações com o império persa, que domina a política, que está disposto a fazer valer os seus direitos e privilégios e que define as coordenadas do culto oficial; do outro, o partido levítico, que se manteve em Jerusalém durante o exílio, que dominou o culto durante essa época e que tem uma visão mais “democrática”, mais pragmática, menos “oficial” e legalista da fé. Os autores do nosso texto pertencem, provavelmente, a este último grupo.

O capítulo 58 (a que pertence o texto que nos é proposto) apresenta-se como uma reclamação de Deus contra o Povo. Nessa reclamação, há dois temas: a denúncia de um culto vazio e estéril, que cumpre as leis externas, mas que não sai do coração nem tem a necessária correspondência na vida (cf. Is 58,1-12); e um convite a que o Povo respeite a santidade do sábado (cf. Is 58,13-14).

No nosso texto, a palavra “jejum” (que, no contexto do capítulo, aparece sete vezes) é a palavra-chave. in Dehonianos.

A reflexão do texto pode fazer-se a partir dos seguintes dados:

A questão essencial é esta: como é que podemos ser uma luz que acende a esperança no mundo e aponta no sentido de uma nova terra, mais cheia de paz, de esperança, de felicidade? Esta leitura responde: não é com liturgias solenes ou com ritos litúrgicos espampanantes, muitas vezes estéreis e vazios; mas é com uma vida onde o amor a Deus se traduz no amor ao irmão e se manifesta em gestos de partilha, de fraternidade, de libertação.

Atenção: não se diz aqui que os momentos de oração e de encontro pessoal com Deus sejam supérfluos, inúteis, desnecessários; o que se diz aqui é que os ritos em si nada significam, se não correspondem a uma vivência interior que se traduz em gestos concretos de compromisso com Deus e com os seus valores. A multiplicidade de ritos, de orações solenes, de celebrações, por si só nada vale, se não tem a devida correspondência na vida de relação com os irmãos.

Sinto o imperativo de ser uma “luz” que se acende na noite do mundo e que dá testemunho do amor e da misericórdia de Deus? A minha fé e a minha relação com Deus têm tradução na luta pela libertação dos meus irmãos? O meu compromisso de crente leva-me a estar atento à partilha com os pobres, os débeis, os desfavorecidos? A minha vivência religiosa traduz-se no ser profeta do amor e servidor da reconciliação? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 111 (112)

Refrão – Para o homem reto nascerá uma luz no meio das trevas.

 

LEITURA II – 1 Cor 2,1-5

«Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado».

 

Ambiente

Já vimos, na passada semana, que um dos grandes problemas que a comunidade cristã de Corinto enfrentava tinha a ver com a propensão dos coríntios para a busca de uma sabedoria puramente humana, que os levava a apostar em pessoas (Pedro, Paulo, Cefas), em mestres humanos capazes de transportar os discípulos ao encontro da sua realização; mas, dessa forma, acabavam por esquecer Jesus Cristo e por passar ao lado da “sabedoria da cruz”.

Neste contexto, Paulo recorda aos coríntios que a “sabedoria humana” não salva nem realiza plenamente o homem. A realização plena do homem está em Jesus Cristo e na “loucura da cruz”.
Como é que a salvação e a realização plena do homem podem, no entanto, manifestar-se nesse facto paradoxal de um Deus condenado à fragilidade, que morre na cruz como um bandido?

Para que as coisas se tornem perfeitamente claras, Paulo apresenta dois exemplos. No primeiro (a segunda leitura do passado domingo), Paulo refere o caso da própria comunidade de Corinto: apesar da pobreza, debilidade e fragilidade dos membros da comunidade, Deus chamou-os a serem testemunhas da sua salvação no mundo. No segundo (e que é a leitura que nos é aqui proposta), Paulo apresenta com humildade o seu próprio caso. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

Após dois mil anos de Evangelho, a nossa civilização “cristã” ainda age como se a salvação do mundo e dos homens estivesse no poder das armas, na estabilidade da economia, no desenvolvimento sustentado, no controle do buraco do ozono, no pleno emprego, na paz social, na eliminação do terrorismo, na defesa da floresta amazónica, nas declarações de boas intenções feitas pelos senhores do mundo nos grandes areópagos internacionais… Mas Paulo diz, muito simplesmente, que a salvação está na “loucura da cruz” e que a vida em plenitude está no amor que se dá completamente. Quem tem razão: os nossos teóricos, formados pelas grandes universidades internacionais, ou o judeu Paulo, formado na universidade de Jesus?

A força e a “sabedoria de Deus” manifestam-se, tantas vezes, na fragilidade, na pequenez, na obscuridade, na pobreza (como o exemplo de Paulo o comprova). Sendo assim, não nos parecem ridículas e descabidas as nossas poses de importância, de autoridade, de protagonismo, de brilho intelectual?

Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem recordar sempre que a eficácia da Palavra que anunciam não depende deles e que o êxito da missão não resulta das suas qualidades pessoais ou das técnicas sofisticadas postas ao serviço da evangelização: somos todos instrumentos humildes, através dos quais Deus concretiza o seu projeto de salvação para o mundo… Para além do nosso esforço, da nossa entrega, da nossa doação, das nossas técnicas, está o Espírito de Deus que potencia e torna eficaz a Palavra que anunciamos. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 5,13-16

«Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo».

«Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

 

Ambiente

Continuamos no contexto do “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Jesus está (na versão de Mateus) no cimo de um monte, a apresentar a nova Lei que deve reger a caminhada do novo Povo de Deus na história (já vimos, no passado domingo, que a indicação geográfica – no cimo de um monte – nos transporta à montanha do Sinai, onde Jahwéh Se revelou ao seu Povo e lhe deu a sua Lei; aqui Jesus é, portanto, apresentado como o Deus que, no cimo de um monte, dá ao seu Povo os “mandamentos” da nova aliança).
Mateus agrupa, neste primeiro discurso, um conjunto de “ditos” de Jesus (provavelmente, pronunciados em contextos e ocasiões diversas), destinados a proporcionar à comunidade concreta a que o Evangelho se destinava, um conjunto de ensinamentos básicos para a vida cristã. in Dehonianos.

A reflexão pode considerar os seguintes aspetos:

A questão essencial que este trecho do Evangelho nos apresenta é esta: Deus propôs-nos um projeto de libertação e de salvação que conduzirá à inauguração de um mundo novo, de felicidade e de paz sem fim; e aqueles que aderiram a essa proposta têm de testemunhá-la diante do mundo e dos homens com palavras e com gestos concretos, a fim de que o “Reino” se torne uma realidade. Como é que me situo face a isto? Para mim, ser cristão é um compromisso sério, profético, exigente, que me obriga a testemunhar o “Reino”, mesmo em ambientes adversos, ou é um caminho “morno”, instalado, cómodo, de quem se sente em regra com Deus porque vai à missa ao domingo e cumpre alguns ritos que a Igreja sugere?

Eu sou, dia a dia, o sal que dá o sabor, que traz uma mais-valia de amor e de esperança à vida daqueles que caminham ao meu lado? Para aqueles com quem lido todos os dias, sou uma personagem insípida, incaracterística, instalada numa mediocridade cinzenta, ou sou uma nota de alegria, de entusiasmo, de otimismo, de esperança numa vida nova vivida ao jeito do Evangelho, ao jeito do “Reino”? No meio do egoísmo, do desespero, do sem sentido que caracteriza a vida de tantos dos meus irmãos, eu dou um testemunho de um mundo novo de amor e de esperança?

Ser cristão é também ser uma luz acesa na noite do mundo, apontando os caminhos da vida, da liberdade, do amor, da fraternidade… Eu sou essa luz que aponta no sentido das coisas importantes, impedindo que a vida dos meus irmãos se gaste em frivolidades e bagatelas? Para os que vivem no sofrimento, na dúvida, no erro, para os que vivem de olhos no chão, eu sou a luz que aponta para o mais além e para a realidade libertadora do “Reino”?

Atenção: eu não sou “a luz”, mas apenas um reflexo da “luz”… Quer dizer: as coisas bonitas que possam acontecer à minha volta não são o resultado do exercício das minhas brilhantes qualidades, mas o resultado da ação de Deus em mim. É Deus que é “a luz” e que, através da minha fragilidade, apresenta a sua proposta de libertação e de vida nova ao mundo. O discípulo não deve, pois, preocupar-se em atrair sobre si o olhar dos homens; mas deve preocupar-se em conduzir o olhar e o coração dos homens para Deus e para o “Reino”. in Dehonianos

 

Para os leitores:

             A proclamação da primeira leitura deve ser marcada pelo tom exortativo que está presente em todo o texto. Na segunda parte do texto deve ter-se em atenção as diversas frases condicionais, aproveitando a expressividade que elas pretendem transmitir.

Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases mais longas e com diversas orações respeitando as pausas e respirações, articulando bem as diversas frases para uma clara compreensão do texto.

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

VÓS SOIS O SAL DA TERRA, A LUZ DO MUNDO!

Fortíssimos os sabores da Mesa da Palavra de Deus neste Domingo V do Tempo Comum. Comecemos por onde se deve sempre começar. Pelo Evangelho, hoje Mateus 5,13-16, que, dada a sua importância, sabor e sabedoria, aqui deixamos transcrito:

«Vós sois o sal da terra. Mas se o sal se tornar insípido, com que o salgaremos? Não serve para nada, senão para se deitar fora e ser calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro para alumiar todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus».

Acabámos de ouvir acordes como estes: «Vós sois o SAL da terra» (Mateus 5,13); «Vós sois a LUZ do mundo» (Mateus 5,14). O SAL dá sabor. A LUZ alumia. O mundo inteiro por horizonte. É, portanto, necessário abrir os horizontes. O mundo é a nossa casa. Compreenda-se já que o SAL e a LUZ são belíssimas metáforas das OBRAS que fazemos: «Assim brilhe a vossa LUZ diante dos homens, para que vejam as vossas BOAS OBRAS» (Mateus 5,16). Mas entenda-se também de imediato que «as nossas OBRAS BOAS» não são do domínio das nossas mãos (a LUZ escapa-nos das mãos), mas do domínio da Graça de Deus que, como em Maria, também em nós «faz grandes coisas» (Lucas 1,49). São mesmo as OBRAS que se devem ler no cone de luz da LUZ e do SAL. De resto, é sabido que, quimicamente falando, o SAL não pode perder o seu sabor. Mas um homem sem OBRAS BOAS é insípido e inútil.

É também urgente entender bem que aquele plural «Vós sois» se reveste seguramente de significado comunitário, como é usual em Mateus, que nunca perde de vista a comunidade eclesial. Assim, sois vós em comunidade que sois a Luz do mundo, que sois o Sal da terra, e não cada um por si. Assim também a lâmpada é para alumiar todos os que estão na casa, toda a comunidade da família de Deus. E o sal, o sal da aliança (Levítico 2,13), lá está também para dar o autêntico sabor da aliança a toda a oferta feita pela comunidade a Deus (Êxodo 30,25; Levítico 2,13), e a todo o recém-nascido a nós dado por Deus (Ezequiel 4,16).

Sim. O mundo é a nossa casa. E, neste vasto mundo que habitamos, são muitos os irmãos que passam fome, que não têm casa, que andam nus. Para nossa vergonha, cerca de um bilião e meio de irmãos nossos vivem abaixo do limiar da pobreza! Isaías 58,7-10 não nos deixa ficar insensíveis perante este triste panorama, mas mostra-nos, em contraponto, que muitas vezes nos blindamos dentro das portas e das janelas do nosso egoísmo e comodismo. É assim que nos tornamos insípidos e deixamos apagar a nossa luz.

O Livro do Deuteronómio atira-se contra a nossa tranquila indiferença: «Se houver no meio de ti qualquer irmão necessitado, não endureças o teu coração e não feches a tua mão» (Deuteronómio 15,7). Precisamos, hoje mais do que nunca, de viver ao estilo de Jesus, Bom Pastor, e ao estilo do Bom Samaritano, com «um coração que vê», para usar a expressão feliz de Bento XVI (Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n.º 31

É assim que Isaías 58,10 nos desafia literalmente (aí está o sabor das traduções literais!) a «oferecer ao faminto a tua alma (nefesh),/ e saciar a alma (nefesh) do oprimido». Trata-se de muito mais do que uma simples ajuda material. É um abraço entre duas almas, entre duas vidas, entre dois intensos desejos de viver, entre dois alentos de vida! Portanto, com o Deus criador e providente sempre por detrás.

Só entende esta intensidade quem sabe que a sua LUZ é reflexa, porque a recebe de Deus. É assim, com «um coração que vê» à flor da pele ou da alma, que S. Paulo não se apresenta no meio de nós ou da comunidade de Corinto com fortes argumentos da sabedoria humana, conforme a sua lição de hoje (1 Coríntios 2,1-5). Ele quer que nós compreendamos bem que a nossa fé assenta em Cristo e no seu poder, e não em qualquer humano raciocínio e respetiva força. «A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Coríntios 1,25). E «quando eu sou fraco, então é que eu sou forte» (2 Coríntios 12,10). Portanto, Paulo não se apresentou em Corinto cheio de si, mas cheio de Deus. Não se anunciou (kêrýssô) a si mesmo, mas a Cristo Jesus (2 Coríntios 4,5). Sim, é a Luz que devemos saber levar em vasos de barro, para que se veja bem que esse tesouro e esse poder (dýnamis) vêm de Deus, e não de nós (2 Coríntios 4,7). É o poder (dýnamis) de Deus que move Paulo (1 Coríntios 2,5), e que nos deve mover também a nós.

Com tanta Luz a alumiar a nossa vida, e com tantos exemplos vindos da Escritura Santa, o nosso tempo é sempre tempo dado para nos questionarmos de verdade, pondo em causa os nossos egoísmos e as nossas portas fechadas à graça de Deus e aos irmãos que Ele nos deu: cheio de mim ou cheio de Ti? Estou no centro das atenções ou sei orientar todos os olhares para Ti? Conheço-Te e celebro-Te e dou testemunho da Tua Ressurreição? Os meus atos anunciam a tua Vinda, isto é, revelam e desvelam a tua presença permanente? Ou será que o meu olhar é mau porque Tu és Bom? (Mateus 20,15; cf. Ben-Sirá 14,9-10). Porque é que eu tenho tão poucos (ou nenhuns) encontros CONTIGO marcados na minha agenda? O que faço eu com o relógio na mão o dia inteiro? Por que corro tanto e para onde corro tanto? Debruço-me com amor, e com tempo, sobre os meus irmãos abandonados à beira do caminho ou postos ali mesmo à entrada da minha porta?

O Salmo 112 é irmão gémeo do Salmo 111. Neste é Deus o sujeito. Naquele o homem justo, «imitador de Deus». O Salmo de hoje tem apenas 77 palavras divididas por dez versículos, em nove dos quais se desenha o homem justo, de coração e mãos largas para dar com abundância. Ao ímpio é reservado apenas um versículo, e é retratado só para ver o sucesso do justo e para se roer de raiva e de inveja até se atolar na ruína. O justo é uma casa iluminada. O ímpio desaparece nas trevas.

Se o Senhor não construir a casa,
Em vão trabalham os que a constroem.
Se o Senhor não guardar a cidade,
Em vão vigiam as sentinelas.

Não se pode esconder uma cidade
Situada no cimo de um monte,
Ou sobre a linha do horizonte,
Porque alumia, alumia, alumia,
Irradia, irradia, irradia,
De noite e de dia.
Cidade de alto-a-baixo erguida,
Como um manto de orvalho caída,
Como uma ermida,
Uma jazida
De luz
E de Jesus.

Tudo ao contrário do que vem nos manuais ou nos jornais,
Lançai os fundamentos no céu,
Construí desde o cume,
Sobre o gume da Palavra
Que de Deus vem
Rasgar
E salgar os nossos destemperados corações.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 05.02.2023 (Is 58, 7-10)
  2. Leitura II – Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 05.02.2023 (1 Cor 2, 1-5)
  3. Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 05.02.2023 – Lecionário
  4. Domingo V do Tempo Comum – Ano A – 05.02.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 29.01.2023

Viver a Palavra

            Uma das imagens neotestamentárias que mais me impressiona é contemplar Jesus rodeado pelas multidões. Num contexto onde as notícias não tinham o suporte de comunicação que conhecemos hoje, ver como eram tantos os homens e mulheres que iam ao encontro de Jesus, diz-nos como a palavra e a ação de Jesus eram portadoras de uma força absolutamente transformadora. Com toda a certeza, naquelas imensas multidões estavam presentes as mais diversas motivações: os que se abeiravam movidos pela curiosidade dos milagres e feitos narrados, os doentes e fragilizados movidos pelo interesse nalguma cura ou milagre, os desanimados com tantas palavras banais que buscavam uma palavra de alento e de esperança doadora de sentido para a sua vida… Tantos homens e mulheres, portadores de tão díspares motivações. Dois mil anos volvidos, integramos esta multidão de homens e mulheres que se colocam em torno de Jesus e, por isso, devemos também interrogar-nos quais são as motivações que invadem o nosso coração: porque quero seguir Jesus? O que me move a escutar a Sua palavra? Quais as motivações e interrogações que habitam o meu coração e me fazem ir ao encontro de Jesus e da comunidade?

            Como as multidões de outrora colocamo-nos em torno de Jesus e Ele conduz-nos ao cimo do monte. O ensino de Jesus conduz-nos ao centro da vida cristã: as bem-aventuranças. A palavra de Jesus fala-nos da felicidade plena e verdadeira que exige atravessar o limiar da frágil condição humana: a pobreza, a humildade, as lágrimas, a fome e a sede, a necessidade da misericórdia, a exigente tarefa da construção da paz, a perseguição e o insulto.

            As bem-aventuranças são o como afirma o Papa Francisco: «o bilhete de identidade do cristão» e, por isso, continua o Santo Padre: «se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão?”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida. A palavra «feliz» ou «bem-aventurado» torna-se sinónimo de «santo», porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade» (GE 63-64).

            Jesus é o Bem-aventurado por excelência: é o pobre em Espírito que inaugura no tempo e na história o Reino dos Céus. Ele é Manso e Humilde de coração e, assim, o Seu coração torna-se uma escola onde queremos aprender em cada dia. Ele assume sobre si as nossas dores e angústias e chorando connosco enxuga as nossas lágrimas e anuncia o mistério da consolação. Ele que teve fome no deserto e sede no alto da Cruz sacia a nossa fome e sede e oferece o Seu Corpo como alimento e o Seu Sangue como bebida verdadeira. Ele é o rosto da misericórdia do Pai e faz-nos alcançar a misericórdia que o Seu coração cheio de amor e ternura distribui sobre cada um de nós. Ele é o puro de coração que pelo Sangue da Sua Cruz nos purifica de toda a imundice. Ele é o Príncipe da Paz que nos convida a viver como construtores da paz nova que o Seu amor veio trazer. Ele que foi perseguido, maltratado e insultado por amor do Reino dos Céus fortalece a nossa caminhada na exigente tarefa de ser testemunha do Seu amor.

            Movidos pela proposta exigente das bem-aventuranças, reconhecemos como «Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo, para confundir os sábios», reconhecemos como a nossa pequenez e fraqueza só pode ser testemunho de graça e misericórdia, quando se deixa conduzir por Jesus até ao cimo do monte e, guiado pelas suas palavras, olha o mundo e a história com esse horizonte de plenitude que o amor de Deus oferece à nossa vida. in Voz Portucalense

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            O Evangelho deste Domingo propõe à nossa reflexão um texto absolutamente decisivo para a construção da nossa identidade cristã. Na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco oferece-nos uma belíssima meditação e interpelação acerca deste texto nos números 63 a 94. A leitura deste texto é um ótimo instrumento para o aprofundamento deste evangelho e pode ser um importante ponto de partida para um exercício de exame de consciência. Chamados à santidade, somos chamados ao caminho exigente das bem-aventuranças para que a nossa vida se conforme cada vez mais e melhor com a vontade de Deus. in Voz Portucalense

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           Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Sof 2,3; 3,12-13

«Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra, que obedeceis aos seus mandamentos».

Ambiente

            O profeta Sofonias pregou em Jerusalém na época do rei Josias (Josias reinou entre 639 e 609 a.C.). Os comentadores costumam situar a profecia de Sofonias durante o tempo de menoridade de Josias (que subiu ao trono aos oito anos); durante esse tempo, foi um Conselho real que presidiu aos destinos de Judá.
Trata-se de uma época difícil para o Povo de Deus. Judá está – há cerca de um século – submetida aos assírios (desde que Acaz pediu ajuda a Tiglat-Pileser III contra Damasco e a Samaria, no ano 734 a.C.); a influência estrangeira sente-se em todos os degraus da vida nacional e a nação sofre as consequências da invasão de costumes estranhos e de práticas pagãs. Por outro lado, o país acaba de sair do reinado do ímpio Manassés (698-643 a.C.), que reconstruiu os lugares de culto aos deuses estrangeiros, levantou altares a Baal, ofereceu o próprio filho em holocausto, dedicou-se à adivinhação e à magia, colocou no Templo de Jerusalém a imagem de Astarte (cf. 2 Re 21,3-9).

            Aos pecados contra Jahwéh e contra a aliança, somam-se as injustiças que, todos os dias, atingem os mais pobres e desprotegidos. Os príncipes e ministros abusam da sua autoridade e cometem arbitrariedades, os juízes são corruptos e os comerciantes especulam com a miséria…

            Sofonias está consciente de que Jahwéh não pode continuar a pactuar com o pecado do seu Povo; vai chegar o dia do Senhor, isto é, o dia da intervenção de Deus em que os maus serão castigados e a injustiça será banida da terra. Da ira do Senhor escaparão, contudo, os humildes e os pobres, os que se mantiveram fiéis à aliança. O fim da pregação de Sofonias não é, contudo, anunciar o castigo; mas é provocar a conversão, passo fundamental para chegar à salvação. in Dehonianos.

Considerar, para a reflexão, os seguintes pontos:

            O Deus que Se revela na palavra e na interpelação de Sofonias é o Deus que não pactua com os orgulhosos e prepotentes que dominam o mundo e que pretendem moldar a história com a sua lógica. A primeira indicação que a Palavra de Deus hoje nos fornece é esta: o nosso Deus não está onde se cultiva a violência e a lei da força, nem apoia a política dos dominadores do mundo – mesmo que eles pretendam defender os valores de Deus e da civilização cristã. Os valores de Deus não se defendem com uma lógica de imposição, de violência, de apelo à força. Atenção à história e aos acontecimentos: sempre que alguém se apresenta em nome de Deus a impor ao mundo uma determinada lógica, temos de desconfiar; Deus nunca esteve desse lado e esses nunca foram os métodos de Deus. Sofonias garante: para os prepotentes e orgulhosos, chegará o dia da ira de Deus; e, nesse dia, serão os humildes e os pobres que se sentarão à mesa com Deus.

            A nossa civilização ocidental diz-se cristã, mas está ainda longe de assimilar a lógica de Deus. A lógica da nossa sociedade exalta os que têm poder, os que triunfam por todos os meios, os poderosos, os que vergam a história e os homens a golpes de poder, de esperteza e de força… Hoje, como ontem, a sociedade exalta os que triunfam e marginaliza e rejeita os pobres, os débeis, os simples, os pacíficos, os que não se fazem ouvir nos areópagos do poder e dos mass-media, aqueles que recusam impor-se e mandar nos outros, aqueles que estão à margem dos acontecimentos sociais que reúnem a fina-flor do jet-set, aqueles que não aparecem nas páginas das revistas da moda. Podemos deixar que a sociedade se construa na base destes pressupostos? Que podemos fazer para que o nosso mundo se construa de acordo com os valores de Deus?

            O apelo à conversão significa objetivamente, na perspetiva de Sofonias, a renúncia ao orgulho, à prepotência, ao egoísmo e um regresso à comunhão com Deus e com os irmãos. Estamos dispostos, pessoalmente, a este caminho de conversão? Estamos dispostos a renunciar a uma lógica de imposição, de prepotência, de orgulho, de autoritarismo, de autossuficiência, quer na nossa relação com Deus, quer na nossa relação com os outros homens? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 145 (146)

Refrão: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus

 

LEITURA II – 1 Cor 1,26-31

«Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios».

 

Ambiente

            Vimos, na passada semana, que um dos graves problemas da comunidade cristã de Corinto era a identificação da experiência cristã com uma escola de sabedoria: os cristãos de Corinto – na linha do que acontecia nas várias escolas de filosofia que infestavam a cidade – viam várias figuras proeminentes do cristianismo primitivo como mestres de uma doutrina e aderiam a essas figuras, esperando encontrar nelas uma proposta filosófica credível, que os conduzisse à plenitude da sabedoria e da realização humana. É de crer que os vários adeptos desses vários mestres se confrontassem na comunidade, procurando demonstrar a excelência e a superior sabedoria do mestre escolhido. Ao saber isto, Paulo ficou muito alarmado: esta perspetiva punha em causa o essencial da fé. Paulo vai esforçar-se, então, por demonstrar aos coríntios que entre os cristãos não há senão um mestre, que é Jesus Cristo; e a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Aliás, Cristo não foi um mestre que se distinguiu pela elegância das suas palavras, pela sua arte oratória ou pela lógica do seu discurso filosófico… Ele foi o Deus que, por amor, veio ao encontro dos homens e lhes ofereceu a salvação, não pela lógica do poder ou pela elegância das palavras, mas através do dom da vida.

            O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. N’Ele manifesta-se, de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É aí e em mais nenhum lado que os coríntios devem procurar a verdadeira sabedoria que conduz à vida eterna.in Dehonianos.

A reflexão e a partilha podem considerar as seguintes questões:

            Uma percentagem significativa dos homens do nosso tempo está convencida de que o segredo da realização plena do homem está em fatores humanos (preparação intelectual, êxito profissional, reconhecimento social, bem-estar económico, poder político, etc.); mas Paulo avisa que apostar tudo nesses elementos é jogar no “cavalo errado”: o homem só encontra a realização plena, quando descobre Cristo crucificado e aprende com Ele o amor total e o dom da vida. Para mim, qual destas duas propostas faz mais sentido?

            A teologia aqui apresentada por Paulo diz-nos que o Deus em quem acreditamos não é o Deus que só escolhe os ricos, os poderosos, os influentes, os de “sangue azul”, para realizar a sua obra no mundo; mas que o nosso Deus é o Deus que não faz aceção de pessoas e que, quase sempre, se serve da fraqueza, da fragilidade, da finitude para levar avante o seu projeto de salvação e libertação.

            Não se trata, aqui, de valorizar romanticamente a pobreza, ou de apresentar Deus como o chefe de um sindicato da classe operária, a reivindicar o poder para as classes desfavorecidas; trata-se de revelar o verdadeiro rosto de um Deus que Se solidariza com os pobres, com os humilhados, com os ofendidos, com os explorados de todos os tempos e a todos oferece, sem distinção, a salvação. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 5, 1-12a

«Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se».

«Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus».

«Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

 

Ambiente

            Depois de dizer quem é Jesus (Mt 1,1-2,23) e de definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.

            Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus reside na importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos é hoje proposto é a primeira parte – é conhecido como o “sermão da montanha” (cf. Mt 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que Mateus colecionou com a evidente intenção de proporcionar à sua comunidade uma série de ensinamentos básicos para a vida cristã. O evangelista procurava, assim, oferecer à comunidade cristã um novo código ético, uma nova Lei, que superasse a antiga Lei que guiava o Povo de Deus.

            Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei (Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus, que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.

            As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das “bem-aventuranças” propostas por Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem nove “bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano; outras notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres” de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos” originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o texto de Mateus tenha sido mais trabalhado. in Dehonianos.

A reflexão e a partilha podem fazer-se à volta dos seguintes elementos:

            Jesus diz: “felizes os pobres em espírito”; o mundo diz: “felizes vós os que tendes dinheiro – muito dinheiro – e sabeis usá-lo para comprar influências, comodidade, poder, segurança, bem-estar, pois é o dinheiro que faz andar o mundo e nos torna mais poderosos, mais livres e mais felizes”. Quem é, realmente, feliz?

            Jesus diz: “felizes os mansos”; o mundo diz: “felizes vós os que respondeis na mesma moeda quando vos provocam, que respondeis à violência com uma violência ainda maior, pois só a linguagem da força é eficaz para lidar com a violência e a injustiça”. Quem tem razão?

            Jesus diz: “felizes os que choram”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes motivos para chorar, porque a vossa vida é sempre uma festa, porque vos moveis nas altas esferas da sociedade e tendes tudo para serdes felizes: casa com piscina, carro com telefone e ar condicionado, amigos poderosos, uma conta bancária interessante e um bom emprego arranjado pelo vosso amigo ministro”. Onde está a verdadeira felicidade?

            Jesus diz: “felizes os que têm ânsia de cumprir a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que não dependeis de preconceitos ultrapassados e não acreditais num deus que vos diz o que deveis e não deveis fazer, porque assim sois mais livres”. Onde está a verdadeira liberdade, que enche de felicidade o coração?

            Jesus diz: “felizes os que tratam os outros com misericórdia”; o mundo diz: “felizes vós quando desempenhais o vosso papel sem vos deixardes comover pela miséria e pelo sofrimento dos outros, pois quem se comove e tem misericórdia acabará por nunca ser eficaz neste mundo tão competitivo”. Qual é o verdadeiro fundamento de uma sociedade mais justa e mais fraterna?

            Jesus diz: “felizes os sinceros de coração”; o mundo diz: “felizes vós quando sabeis mentir e fingir para levar a água ao vosso moinho, pois a verdade e a sinceridade destroem muitas carreiras e esperanças de sucesso”. Onde está a verdade?

            Jesus diz: “felizes os que procuram construir a paz entre os homens”; o mundo diz: “felizes vós os que não tendes medo da guerra, da competição, que sois duros e insensíveis, que não tendes medo de lutar contra os outros e sois capazes de os vencer, pois só assim podereis ser homens e mulheres de sucesso”. O que é que torna o mundo melhor: a paz ou a guerra?

            Jesus diz: “felizes os que são perseguidos por cumprirem a vontade de Deus”; o mundo diz: “felizes vós os que já entendestes como é mais seguro e mais fácil fazer o jogo dos poderosos e estar sempre de acordo com eles, pois só assim podeis subir na vida e ter êxito na vossa carreira”. O que é que nos eleva à vida plena? in Dehonianos

 

Para os leitores:

            A primeira leitura exige uma acurada preparação das pausas e respirações, articulando as diferentes frases e orações para uma correta proclamação do texto.

            Na segunda leitura, deve prestar-se atenção ao tom exortativo que Paulo emprega e ter especial cuidado na expressão «naturalmente falando» que indica o tom coloquial do discurso. A frase final que se encontra entre aspas marca o culminar do texto e deve ser pronunciada com especial cuidado

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

FELIZES, FELIZES, FELIZES!

            Neste Domingo IV do Tempo Comum, iniciamos a proclamação e a escuta qualificada do grande Discurso programático de Jesus, ou Discurso da Montanha, que nos ocupará durante seis Domingos, do IV ao IX. Hoje, Jesus sobe à MONTANHA para dizer a rapsódia mais bela e encantatória e revolucionária das «FELICITAÇÕES» ou «BEM-AVENTURANÇAS». É verdade. Há certas maravilhas que só se podem dizer nas alturas e compreender nas alturas, perto do céu, como que à altura e velocidade de cruzeiro. Destas FELICITAÇÕES envolve-nos, de facto, a sua cadência encantatória ainda antes dos seus conteúdos. Para entrar no coração destas fragrâncias, é preciso levantar o coração (sursum corda), e ir com os pássaros que Deus alimenta em pleno voo.

            Só um Deus belo e bom pode e sabe felicitar os pobres. Com um tom carregado de felicidade, não restritivo, mas alargado a toda a humanidade, as «Felicitações» do Rei novo atingem todas as pessoas, chegando às franjas da sociedade, onde estão os pobres de verdade. No meio destas «Felicitações» – é por nove vezes que soa o termo «FELIZES –, note-se a centralidade da MISERICÓRDIA (5.ª felicitação) (5,7). Atente-se ainda na diferente formulação desta felicitação. Salta à vista que todas as outras se abrem a uma recompensa imediata ou futura. A MISERICÓRDIA, porém, roda sobre si mesma, retornando, por obra de Deus (passivo divino ou teológico) sobre os MISERICORDIOSOS. Notem-se igualmente as inclusões assentes na repetição da locução «reino dos céus» (1.ª e 8.ª) (5,3 e 10) e do termo «justiça» (4.ª e 8.ª) (5,6 e 10). Estas inclusões convidam-nos também ao reconhecimento de duas tábuas de felicitações, a primeira à volta da POBREZA EVANGÉLICA (5,3-6), e a segunda à volta da BONDADE DO CORAÇÃO (5,7-10).

«5,1Vendo as multidões, subiu à montanha.

Tendo-se sentado, vieram ter com ele os seus discípulos.

2Abrindo então a sua boca, ensinava-os dizendo:

3FELIZES (makárioi / ’ashrê) os pobres de espírito (ptôchoì tô pneúmati),

porque deles é o reino dos céus;

4FELIZES os aflitos,

porque serão consolados;

5FELIZES os mansos,

porque herdarão a terra;

6FELIZES os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados;

7FELIZES os misericordiosos (eleêmones),

porque lhes será feita misericórdia (eleêthêsontai);

 8FELIZES os puros de coração,

porque verão a Deus;

9FELIZES os fazedores de paz,

porque serão chamados filhos de Deus;

10FELIZES os perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o reino dos céus.

11FELIZES sois vós, quando vos ultrajarem e perseguirem,

e, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal

por causa de mim (éneken emoû)» (Mateus 5,1-11).

            Os «pobres de espírito», aqui referidos, não são pobres de Espírito Santo nem de inteligência, mas pessoas humildes, no sentido em que uma pessoa humilde é «baixa de rûah» (shephal rûah) (Provérbios 16,19; 29,23), isto é, sem espaço físico, económico, social, cultural ou psicológico. Não precisam de se afirmar. São claramente os últimos da sociedade, mas que, na sua humildade e pobreza, desafiam a sociedade, pois os ptochoí são pobres ao lado de gente rica, acomodada, que estendem a mão para nós, apontando o dedo ao nosso egoísmo, afirmação, instalação e comodidade. Situação que, seguramente, não nos deixa de boa consciência, encarregando-se a Constituição Dogmática Lumen Gentium, n.º 9, de nos lembrar que «Apouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo». O Povo de Deus, a Igreja de Deus, não são alguns tranquilamente instalados entre paredes douradas, num círculo restrito, mas uma imensa comunhão de irmãos sem paredes nem barreiras de qualquer espécie.

            Note-se ainda que, na mentalidade e na língua hebraica, «FELIZES» ou «BEM-AVENTURADOS» diz-se ’ashrê, termo que qualifica os pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e belos e de vida nova e boa e bela para o mundo. E é verdade, por paradoxal que pareça. Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos e belos neste mundo enlatado, saciado, enjoado, dormente e anestesiado em que vivemos.

            Aos misericordiosos será feita (por Deus) misericórdia. Belíssimo círculo bem no centro das Bem-Aventuranças.

            A profecia de Sofonias (2,3; 3,12-13) faz ressonância desta nova e bela maneira de viver, trazendo para primeiro plano aqueles que dão lugar a Deus, que estão abertos à ação de Deus, os pobres e os humildes, que tudo recebem de Deus, e em Deus encontram refúgio, sossego e felicidade, entrando assim na rota de cruzeiro das FELICITAÇÕES!

            E São Paulo, na lição de hoje da I Carta aos Coríntios (1,26-31), faz-nos voltar completamente para Deus, para sabermos quem somos: «Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que fostes chamados por Deus» (1 Coríntios 1,26). Se não ouvirmos Deus a chamar por nós, se não ouvirmos Deus a dizer o nosso nome, isto é, a criar-nos e a cuidar de nós, é certo que não sabemos quem somos, não sabemos qual é a nossa identidade!

            É assim que o Salmo 146, que é uma espécie de carrilhão musical, nos convida a cantar os «doze belíssimos nomes» de Deus, decalcando aqui a expressão muçulmana que exalta os «99 belíssimos nomes» de Allah. É claro que os doze nomes que passaremos em revista não celebram tanto a essência divina, mas a sua ação em favor das suas criaturas, sobretudo dos mais pobres e desfavorecidos. É assim que o Salmo evoca o Deus que fez o céu, a terra, o mar, o Deus Criador (1), o Deus da verdade (ʼemet) (2), o Deus que faz justiça aos oprimidos, defensor dos últimos (3), que dá pão aos famintos (4), que liberta os prisioneiros (5), que abre os olhos aos cegos (6), que levanta os abatidos (7), que ama os justos (8), que protege os estrangeiros (9), que sustenta o órfão e a viúva (10), que entrava o caminho dos ímpios (11), o Deus que reina eternamente (12). Este maravilhoso Salmo ajuda-nos a saborear musicalmente toda a liturgia de hoje.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 29.01.2023 (Sof 2, 3; 3, 12-13)
  2. Leitura II – Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 29.01.2023 (1 Cor 1, 23-31)
  3. Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 29.01.2023 – Lecionário
  4. Domingo IV do Tempo Comum – Ano A – 29.01.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Domingo III do Tempo Comum – Domingo da Palavra – Ano A – 22.01.2023

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a olhar a nossa vida como um lugar dinâmico, onde seguir Jesus implica uma permanente conversão que abre a nossa vida ao desígnio de salvação que Deus nos oferece em Cristo.

As trevas são vencidas pela luz esplendorosa que brota do Coração de Deus: «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou». Na verdade, peregrinando os trilhos da história são muitas as sombras que nos assaltam no caminho, contudo, elas não têm a última palavra. No provisório da dor e do sofrimento, irrompe a certeza incorruptível de que o amor de Jesus e a Sua luz são mais fortes que as trevas e sombras que nos envolvem. Uma doença, a partida de alguém que amamos, a falta de esperança diante das dificuldades e tantos outros desafios e obstáculos fazem parte da nossa condição humana e esta difícil e exigente condição seriam catastróficas se estivéssemos abandonados unicamente à nossa capacidade humana. Somos obra das mãos de Deus, salvos e redimidos pelo amor de Jesus Cristo e olhamos a nossa existência e as vicissitudes da história com o olhar amoroso Daquele que por nós morreu e ressuscitou.

Como outrora Simão e André, Tiago e João também nós contemplamos Jesus que atravessa o nosso quotidiano, vem ao nosso encontro, às fadigas e canseiras das nossas redes tantas vezes vazias. Irrompendo no concreto da nossa história, Jesus propõem-nos um novo rumo e um novo sentido: «Vinde e segui-Me».

Parece tão vaga a proposta. Contudo, seguir Jesus é a escolha decisiva que inaugura um tempo novo na nossa existência. Não quer dizer que por seguirmos Jesus as dificuldades deixarão de fazer parte da nossa vida. Contudo, elas ganharão uma forma diferente, pois diante das contingências da nossa história, está Jesus, Aquele que quando nos toma pela mão nunca nos abandona.

No texto do Evangelho que escutamos neste Domingo estão intrinsecamente unidos o seguimento e a conversão. Seguir Jesus implica entrar num processo de permanente conversão e, por isso, sentimos ecoar no nosso coração as primeiras palavras de Jesus dirigidas à humanidade no Evangelho de S. Mateus: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».

A proximidade de Deus revelada em Jesus Cristo impele-nos a uma permanente revisão de vida, onde o reconhecimento da nossa condição frágil e pecadora em nada nos inferioriza, mas se torna precisamente a oportunidade de crescimento e amadurecimento rumo à santidade, ao cumprimento das promessas do Reino que já está no meio de nós, mas que ainda não se realizou em plenitude.

Sem qualquer complexo de inferioridade reconhecemos que não somos perfeitos e tomamos consciência que esta fragilidade e debilidade são um caminho e um lugar constante de mudança e de aperfeiçoamento. Por isso, a conversão e o arrependimento dão lugar à salvação. A conversão é a arte de afinar o coração com a vontade de Deus e, neste permanente afinar do coração, encontramos o caminho da verdadeira felicidade.

Contudo, a tarefa da conversão e do seguimento de Jesus não é uma aventura isolada. Jesus convoca estes primeiros discípulos dois a dois, recordando que não partimos sozinhos, mas partilhando a aventura da fé com tantos outros homens e mulheres que partilhando a mesma condição frágil e pecadora, partilham também a certeza de terem encontrado em Jesus Cristo Aquele que dando um sentido novo à sua vida, os impele a deixar tudo, para abrirem o coração à novidade do Seu Evangelho. Por isso, Paulo escrevendo à comunidade de Corinto recorda que a comunhão e unidade devem ser a marca distintiva daqueles que querem seguir Jesus. Convocados pelo Seu amor, partimos unidos para que a nossa fraternidade seja o mais belo anúncio de que a Luz que despontou nas trevas nos aponta o horizonte luminoso da salvação que nos é oferecido em Jesus Cristo. In Voz Portucalense

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Com a Carta apostólica sob forma de Motu Próprio Aperuit Illis, – 30-09-2019 – o Papa Francisco instituiu o Domingo da Palavra de Deus que deve celebrar-se no III Domingo do Tempo Comum como uma jornada de «celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus». O Santo Padre afirma que cada comunidade com criatividade pastoral e atenta às diversas exigências e realidades de cada comunidade encontrará a forma de viver este Domingo como um dia solene. Deste modo, cada comunidade poderá valorizar este dia na celebração litúrgica de diversos modos, contudo, poderá ser importante encontrar momentos de preparação e celebração deste dia fora da celebração eucarística com um momento de formação sobre a Palavra de Deus ou a Lectio Divina comunitária. No início do Tempo Comum poderia ser também oportuna uma reflexão bíblica acerca do evangelista deste ano litúrgico.

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Percorremos liturgicamente a 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Is 8,23b – 9, 3 (9, 1-4)

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou».

 

Ambiente

O Livro do profeta Isaías propõe-nos um conjunto de oráculos ditos “messiânicos”, que alimentam a esperança do Povo nesse mundo de justiça e de paz que Deus, num futuro sem data marcada, vai oferecer aos seus. Há quem defenda, no entanto, que esses textos messiânicos não provêm de Isaías, mas são oráculos posteriores, enxertados no texto original do profeta pelo editor final da obra isaiana.

O nosso texto pertence, provavelmente, à fase final da vida do profeta. Estamos no final do séc. VIII a.C. Os assírios (que em 721 a.C. conquistaram Samaria, a antiga capital do reino de Israel) oprimem e humilham as tribos do Povo de Deus instaladas na região norte do país (Zabulão e Neftali); as trevas da desolação e da morte cobrem toda a região setentrional da Palestina.

No Sul, em Jerusalém, reina Ezequias. O rei, desdenhando as indicações do profeta (para quem as alianças políticas com os povos estrangeiros são sintoma de grave infidelidade para com Jahwéh, pois significam colocar a confiança e a esperança nos homens), envia embaixadas ao Egipto, à Fenícia e à Babilónia, procurando consolidar uma frente contra a maior e mais ameaçadora potência da época – a Assíria. A resposta de Senaquerib, rei da Assíria, não se faz esperar: tendo vencido sucessivamente os membros da coligação, volta-se contra Judá, devasta o país e põe cerco a Jerusalém (701 a.C.). Ezequias tem de submeter-se e fica a pagar um pesado tributo aos assírios.

Por essa época, desiludido com os reis e com a política, o profeta teria começado a sonhar com uma intervenção de Deus para oferecer ao seu Povo um mundo novo, de liberdade e de paz sem fim. Este texto pode ser dessa época. in Dehonianos.

A reflexão e a partilha da Palavra podem fazer-se a partir dos seguintes elementos:

É Jesus, a luz que ilumina o mundo com uma aurora de esperança, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “Aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz, da felicidade. No entanto, a luz de Jesus é, hoje, uma realidade instituída, viva, atuante na história humana? Porquê?

Acolher Jesus é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio propor aos homens. Esforçamo-nos por tornar realidade o “Reino de Deus”? Como lidamos com as situações de injustiça, de opressão, de conflito, de violência: com a indiferença de quem sente que não tem nada a ver com isso enquanto essas realidades não nos atingem diretamente, ou com a inquietação de quem se sente responsável pela instauração do “Reino de Deus” entre os homens?

Em que, ou em quem, coloco eu a minha esperança e a minha segurança: nos políticos que me prometem tudo e se servem da minha ingenuidade para fins próprios? No dinheiro que se desvaloriza e que não
serve para comprar a paz do meu coração? Na situação sólida da minha empresa, que pode desfazer-se diante das próximas convulsões sociais ou durante a próxima crise energética? Isaías sugere que só podemos confiar em Deus e na sua decisão de vir ao nosso encontro para nos apresentar uma proposta de vida e de paz. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 26 (27)

Refrão: O Senhor é minha luz e salvação.

 

LEITURA II – 1 Cor 1,10-13.17

«Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós».

 

Ambiente

Após ter abandonado a cidade de Corinto, Paulo continuou em contacto com a comunidade cristã. Mesmo distante, continuava a acompanhar a vida da comunidade e inteirava-se regularmente das dificuldades e problemas que os seus queridos filhos de Corinto tinham de enfrentar.

Quando escreveu a primeira carta aos Coríntios, Paulo estava em Éfeso. De Corinto haviam chegado, entretanto, notícias alarmantes. Após a partida de Paulo, tinha aparecido na cidade um pregador cristão – um tal Apolo, judeu de Antioquia, convertido ao cristianismo. Era eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade na polémica com os judeus. Era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua falta de eloquência (cf. 2 Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade (embora Apolo não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns admiravam Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Cor 1,12). Formaram-se “partidos”, à imagem do que acontecia nas escolas filosóficas da cidade, que tinham os seus mestres, à volta dos quais circulavam os adeptos ou simpatizantes: o cristianismo tornava-se, dessa forma, mais uma escola de sabedoria, na qual era possível optar por mestres distintos.

A situação preocupou enormemente Paulo: além dos conflitos e rivalidades que a divisão provocava, estava em causa a essência da fé. O cristianismo corria, dessa forma, o perigo de se tornar mais uma escola de sabedoria, cuja validade dependia do brilho dos mestres que apresentavam a ideologia e do seu poder de convicção. in Dehonianos.

Para refletir, considerar os seguintes dados:

O texto recorda que a experiência cristã é, fundamentalmente, um encontro com Cristo; é d’Ele e só d’Ele que brota a salvação. A vivência da nossa fé não pode, portanto, depender do carisma da pessoa tal, ou estar ligada à personalidade brilhante deste ou daquele indivíduo que preside à comunidade. Para além da forma mais ou menos brilhante, mais ou menos coerente como tal pessoa anuncia ou testemunha o Evangelho, tem de estar a nossa aposta em Cristo; é n’Ele e só n’Ele que bebemos a salvação; é a Ele e só a Ele que o nosso compromisso batismal nos liga. Cristo é, de facto, a minha referência fundamental? É à volta d’Ele e da sua proposta de vida que a minha experiência de fé se constrói? Em concreto: que sentido é que faz, neste contexto, dizer que só se vai à missa se for tal padre a presidir? Que sentido é que faz afastar-se da comunidade porque não gostamos da atitude ou do jeito de ser deste ou daquele animador?

Neste contexto, ainda, que sentido fazem os ciúmes, os conflitos, os partidos, que existem, com frequência, nas nossas comunidades cristãs? Cristo pode estar dividido? Os conflitos e as divisões não serão um sinal claro de que, algures durante a caminhada, os membros da comunidade perderam Cristo? As guerras e rivalidades dentro de uma comunidade não serão um sinal evidente de que o que nos move não é Cristo, mas os nossos interesses, o nosso orgulho, o nosso egoísmo?

Há casos em que as pessoas com responsabilidade de animação nas comunidades cristãs favorecem, consciente ou inconscientemente, o culto da personalidade. Não se preocupam em levar as pessoas a descobrir Cristo, mas em conduzir o olhar e o coração dos fiéis para a sua própria e brilhante personalidade. Tornam-se imprescindíveis e inamovíveis, são incensadas e endeusadas e potenciam grupos de pressão que as admiram, que as apoiam e que as seguem de olhos fechados. Que sentido é que isto faz, à luz daquilo que Paulo nos diz, neste texto? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 4,12-23

«Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».

«Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens».

«Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo».

 

Ambiente

O texto que nos é proposto como Evangelho funciona um pouco como texto-charneira, que encerra a etapa da preparação de Jesus para a missão (cf. Mt 3,1-4,16) e que lança a etapa do anúncio do Reino.
O texto situa-nos na Galileia, a região setentrional da Palestina, zona de população mesclada e ponto de encontro de muitos povos. Refere, ainda, a cidade de Cafarnaum: situada no limite do território de Zabulão e de Neftali, na margem noroeste do lago de Genezaré, no enfiamento do “caminho do mar” (que ligava o Egipto e a Mesopotâmia), era considerada a capital judaica da Galileia (Tiberíades, a capital política da região, por causa dos seus costumes gentílicos e por estar construída sobre um cemitério, era evitada pelos judeus). A sua situação geográfica abria-lhe, também, as portas dos territórios dos povos pagãos da margem oriental do lago. in Dehonianos.

A reflexão e a partilha da Palavra que nos é proposta podem partir dos seguintes dados:

Jesus é o Deus que vem ao nosso encontro para realizar os nossos sonhos de felicidade sem limites e de paz sem fim. N’Ele e através d’Ele (das suas palavras, dos seus gestos), o “Reino” aproximou-se dos homens e deixou de ser uma quimera, para se tornar numa realidade em construção no mundo. Contemplar o anúncio de Jesus é abismar-se na contemplação de uma incrível história de amor, protagonizada por um Deus que não cessa de nos oferecer oportunidades de realização e de vida plena. Sobretudo, o anúncio de Jesus toca e enche de júbilo o coração dos pobres e humilhados, daqueles cuja voz não chega ao trono dos poderosos, nem encontram lugar à mesa farta do consumismo, nem protagonizam as histórias balofas das colunas sociais. Para eles, ouvir dizer que “o Reino chegou” significa que Deus quer oferecer-lhes essa vida plena e feliz que os grandes e poderosos insistem em negar-lhes.

Para que o “Reino” seja possível, Jesus pede a “conversão”. Ela é, antes de mais, um refazer a existência, de forma que só Deus ocupe o primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que impede de estar atento às necessidades dos irmãos; implica a renúncia ao comodismo, que impede o compromisso com os valores do Evangelho; implica o sair do isolamento e da autossuficiência, para estabelecer relação e para fazer da vida um dom e um serviço aos outros… O que é que nas estruturas da sociedade ainda impede a efetivação do “Reino”? O que é que na minha vida, nas minhas opções, nos meus comportamentos constitui um obstáculo à chegada do “Reino”?

A história do compromisso de Pedro e André, Tiago e João com Jesus e com o “Reino” é uma história que define os traços essenciais da caminhada de qualquer discípulo… Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino; em segundo lugar, é preciso ter a coragem de aceitar o chamamento e fazer do “Reino” a prioridade essencial (o que pode implicar, até, deixar para segundo plano os afetos, as seguranças, os valores humanos); em terceiro lugar, é preciso acolher a missão que Jesus confia e comprometer-se corajosamente na construção do “Reino” no mundo. É este o caminho que eu tenho vindo a percorrer?

A missão dos que escutaram o apelo do “Reino” passa por testemunhar a salvação que Deus tem para oferecer a todos os homens, sem exceção. Nós, discípulos de Jesus, comprometidos com a construção do “Reino”, somos testemunhas da libertação e levamos a Boa Nova da salvação aos homens de toda a terra? Aqueles que vivem condenados à marginalização (por causa do fraco poder económico, por causa da doença, por causa da solidão, por causa do seu inexistente poder de reivindicação), já receberam, através do nosso testemunho, a Boa Nova do “Reino”?

Em certos momentos da história, procura vender-se a ideia de que o mundo novo da justiça e da paz se constrói a golpes de poder militar, de mísseis, de armas sofisticadas, de instrumentos de morte… Atenção: a lógica do “Reino” não é uma lógica de violência, de vingança, de destruição; mas é uma lógica de amor, de doação da vida, de comunhão fraterna, de tolerância, de respeito pelos outros. A tentação da violência é uma tentação diabólica, que só gera sofrimento e escravidão: aí, o “Reino” não está. in Dehonianos

 

Para os leitores:

 

Na primeira leitura, deve ter-se em atenção a pronunciação dos nomes das regiões «Zabulão», «Neftali» e «Madiã». Além disso, a proclamação desta leitura deve ser marcada pela alegria e esperança da luz que desponta nas trevas que submergem todos aqueles que estão prisioneiros da morte, da injustiça, do sofrimento, do desespero.

Na segunda leitura, deve ter-se em atenção as frases longas e com diversas orações que requerem um especial cuidado nas pausas e respirações para uma leitura mais articulada do texto. Devem ter presente o tom exortativo que marca todo o texto e uma correta pronunciação das frases interrogativas, evitando a acentuação interrogativa das frases apenas no final de cada oração.

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

DEUS ANDA POR AÍ À PROCURA DE TI

Domingo III do Tempo Comum. Cruzamento de textos num facho de intensa luz, vinda de fora, como a aurora. É o Evangelho de Mateus 4,15-16 que recolhe Isaías 8,23-9,1. No Evangelho de Mateus, esta luz que alumia a sombria Galileia é Jesus. Ventos de morte tinham varrido a Galileia no ano 732 a. C., quando o imperador assírio Tiglat-Pilezer III, na sua expansão para ocidente, invadiu e reduziu estes territórios a três províncias assírias: Galaad, Meguido e Dor, levando para o exílio os seus habitantes judeus e transferindo para ali povos pagãos de outros credos e culturas, para impedir a todo o custo que o judaísmo pudesse ainda prosperar.

O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) refere com precisão que, «quando Jesus soube que João Batista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia» (Mateus 4,12), e, «desde então, começou a pregar» (Mateus 4,17a). Uma prolepse e uma surpresa, podemos dizer mesmo um escândalo. A prolepse: ao anotar a prisão de João Batista, o narrador não está tanto a registar um facto histórico, mas mais a desvendar já aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. A surpresa e o escândalo: era do sentir comum que o anúncio messiânico fosse feito no coração do judaísmo, em Jerusalém, e não numa região periférica, desprezada e contaminada pelo paganismo, como era esta «Galileia dos pagãos» (Mateus 4,15). É para justificar e iluminar este estranho e inesperado começo, que Mateus se vê como que obrigado a citar por inteiro a passagem apropriada de Isaías 8,23-9,1.

Luz de Jesus a iluminar a noite da Galileia. Voz de Jesus a romper aquele espesso manto de silêncio: «Convertei-vos, porque está próximo de vós o Reino dos Céus!» (Mateus 4,17b). Esplêndida Luz, esplêndida Voz, esplêndido Amor de Deus, esplêndida surpresa divina! Ainda antes de nos convidar a que nos interessemos por Deus, a Bíblia mostra que é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas poeirentas para nos vir visitar a nossas casas! É esta a maravilha desconcertante do Evangelho!

E assim continua no velho texto de Mateus e nas nossas estradas de hoje. Verificação: Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nos trabalhos da pesca, e diz-lhes: «Vinde atrás de mim (deûte opísô mou)!» (Mateus 4,19). A resposta é imediata: «Deixaram logo (euthéôs) as redes, e seguiram-no!» (Mateus 4,20). E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam (katartízontas) as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo (euthéôs) a barca e o pai, e seguiram-no (Mt 4,21-22).

Note-se bem que Jesus desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama. Não espera por nós no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projeto de vida, um guião, uma regra, mas chama-nos a segui-lo («vinde atrás de mim»), e partilha connosco a sua vida, como o Mestre faz com os seus discípulos. Não nos põe a fazer uma espécie de estágio, para que um dia nos tornemos Mestres. Nós permanecemos sempre discípulos, e um só é o nosso Mestre (cf. Mateus 23,8). Não nos coloca num estágio, num estado, num estrado, numa estante, mas num caminho! E um dia mais tarde, ouvi-lo-emos ainda dizer: «Ide!». É sempre no caminho que nos deixa.

Mas voltemos a Isaías 8,23-9,3, hoje, como já vimos, entrançado com o sublime Evangelho de Mateus 4,12-23. Visita de Deus. Luz grande para os abandonados. Vida a borbotar das feridas das espadas. Alegria a desenhar a estação das ceifas. As nossas mãos em concha a recolher os dias dados. Deus primeiro e antes. Deus basta. O dia de Madiã é o dia em que Gedeão enfrenta e desbarata as tropas de Madiã com trezentos homens que sabem que a água é um dom de Deus (Juízes 7). E estiveram lá junto da fonte mais trinta e um mil e setecentos candidatos que apenas exibiam a própria força e que pensavam que estavam ali por acaso! Estavam a mais. Foram naturalmente mandados embora.

Carl Gustav Jung (1875-1961), um dos pais da psicanálise, mandou esculpir sobre a porta da sua casa, em Küsnacht, na Suíça, esta frase: «Chamado ou não chamado, Deus estará sempre presente». Nunca se vai embora. Fica sempre por perto, à espera de nos abraçar».

Continuamos a saborear (durante 6 Domingos iniciado no passado dia 15.01.2023) a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, servida hoje no extrato entrecortado de 1,10-13.17. Sem cedências de qualquer espécie, Paulo aponta à comunidade cristã de Corinto as divisões e rixas que nela se instalaram, e os grupinhos de pertença em que as pessoas se agrupam e reveem. E Paulo propõe aos Coríntios e a nós que, em vez de nos ocuparmos com divisões ou cismas (schísmata), nos tornemos «remendadores» (katêrtisménoi: part. perf. pass. de katartízô) (1,10), que é sintomaticamente o mesmo verbo em que se ocupavam os discípulos hoje chamados, que estavam a remendar (katartízontas: part. presente de katartízô) as redes (Mateus 4,21). Aí está um novo e belo ministério: «remendadores» da comunidade, isto é, fazedores de pontes, estradas, braços e abraços, para que as pessoas, em vez de se separarem e dividirem, se unam e reúnam. E porque circulava também em Corinto uma certa conceção de batismo que criava especiais laços de pertença do batizando em relação a quem o batiza, Paulo adianta bem que a sua missão não é batizar, mas evangelizar!

O Salmo 27 pode deixar-nos nos braços de Deus, cantando e decantando a luz e a confiança que de Deus recebemos. Mas também a suavidade, a bondade e a beleza nos encantam. Corolário normal, ainda que sempre de excecional elevação, para este dia e para esta liturgia, que nos deixa sempre tranquilos a brincar à porta da Casa de Deus, sob o olhar atento e carinhoso de Deus.

Este Domingo é também, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. Portanto, deixemo-nos invadir performativamente, e não apenas informativamente, pela torrente da Palavra de Deus. E deixemos que rasgue em nós novas avenidas férteis e floridas, onde despontem novos e adequados comportamentos. Veja-se a força da Palavra de Deus e a sua ação nos discípulos hoje chamados por Jesus.

Jesus é Deus que desce ao nosso mundo,
Caminha pelas nossas estradas,
Percorre as nossas praias,
Visita as nossas casas,
Vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho.

Jesus é Deus que passa, ama e chama.
Mas não nos chama a responder a um inquérito,
A preencher uma ficha,
Responder a uma entrevista,
Fazer uma inscrição,
Pagar a matrícula,
Aprender uma doutrina.

Não é como os escribas que Jesus ensina ou examina.
Nem sequer nos entrega um projeto de vida,
Uns apontamentos, um guião, caneta, tinta, mata-borrão.
Chama-nos apenas a segui-lo no caminho:
«Vinde atrás de Mim!», é o desafio,
E partilha logo ali connosco a sua vida toda,
Como uma dança de roda,
Como uma boda.
Não nos põe primeiro a fazer um teste,
Não nos ama nem chama à condição,
Não tem lista de espera,
Não nos põe num estágio,
Num estado,
Num estrado,
Numa estante,
Mas num caminho!

E um dia mais tarde,
Ouvi-lo-emos dizer ainda: «Ide!»,
Novo e imenso desafio.
É sempre no caminho que nos deixa,
Mas não nos deixa sós,
Vai sempre connosco,
Acompanha-nos,
Não apresenta queixa,
Não paga ao fim do mês,
Pede e dá tudo de uma vez.

Vem, Senhor Jesus!
Vem e ama!
Vem e chama por mim outra vez!

  António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 22.01.2023 (Is 8, 23b-9, 3(9,1-4))
  2. Leitura II – Domingo III do Tempo Comum – Ano A – 22.01.2023 (1 Cor 1,10-13.17)
  3. Domingo III do Tempo Comum – Domingo da Palavra – Ano A – 22.01.2023 – Lecionário
  4. Domingo III do Tempo Comum – Domingo da Palavra – Ano A – 22.01.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus
  6. Subsídio Litúrgico – Pastoral 2023 PT
  7. Domingo da Palavra do Senhor – Carta Apostólica do Papa Francisco

Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 15.01.2023

Viver a Palavra

A Liturgia da Palavra deste Domingo conduz-nos ao cerne da nossa vida cristã: sonhados e amados por Deus desde o seio materno, somos chamados a viver a experiência única e pessoal do encontro com Jesus Cristo que nos desafia a encontrar na Sua vontade um caminho de realização e felicidade que nos constitui como apóstolos da alegria do Evangelho, para que a Igreja seja um rasto de luz para todos os povos e nações. Deste modo, os diversos textos proclamados neste Domingo apresentam-nos a dinâmica da nossa vida cristã, num horizonte responsorial, isto é, chamados e convocados pela misericórdia de Deus que nos precede sempre, somos convidados a responder generosamente ao seu projeto de amor.

A disponibilidade para o acontecer de Deus nas nossas vidas nasce da certeza de que o Seu amor nos precede, acompanha e aponta um horizonte de realização e felicidade absolutamente novo. Por isso, podemos cantar com as palavras do salmista: «eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade». A vontade de Deus a nosso respeito é algo de bom e de belo como nos testemunha S. Paulo quando afirma que Deus «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2,4). Quantas vezes na procura de uma razão diante de uma desgraça, já ouvimos dizer: «foi a vontade de Deus». Na verdade, a vontade de Deus não pode ser a justificação para aquilo que não conseguimos responder. A vontade de Deus é um desígnio amoroso de salvação e, por isso, responder com generosidade e disponibilidade à Sua vontade é caminhar pela estrada da felicidade verdadeira que tem como nome a santidade.

O caminho de descoberta da vontade de Deus a nosso respeito brota da experiência que João Baptista nos testemunha no Evangelho: «eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus». João Baptista testemunha aquilo que viu e experimentou e não apenas uma noção teórica e abstrata. Seguir Jesus Cristo implica necessariamente fazer esta experiência do Seu amor, tal como afirma o Papa Bento XVI na Carta Encíclica Deus caristas est: «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (DCE 1).

Este encontro decisivo transforma a vida e o coração de tal modo que toda a nossa vida se molda a partir desta experiência. É assim que aparece João Baptista como figura de charneira, apontando o «Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo», testemunhando a presença Daquele que os profetas anunciaram e que a humanidade esperava. João Baptista está do outro lado do Jordão, no lugar onde o Povo de Israel se deteve para preparar a entrada na Terra Prometida. Ele é referência fundamental do nosso ser cristão porque nos ensina a arte de apontar para Jesus, de se saber retirar para que Ele tenha lugar, de proporcionar aos outros a experiência do encontro com Aquele que dá sentido à nossa vida.

Com toda a certeza, lendo a nossa história, encontramos pessoas que foram para nós lugares de encontro com Jesus, pessoas capazes de sair de si mesmas para apontar esse horizonte de realização e felicidade que só em Cristo se pode encontrar. Louvando o Senhor pela vida de tantos e tantas que nos mostraram o rosto de Jesus, comprometemo-nos em ser também nós testemunhas de Jesus com a humildade e a ousadia de João Baptista, anunciando ao mundo que não há aventura mais bela do que fazer das nossas vidas lugares de beleza que testemunham a presença Daquele que dá sentido às nossas vidas. In Voz Portucalense

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Entramos na 1ª parte do Tempo Comum que nos levará até à Quaresma. Estamos num novo ano litúrgico – 2022/2023, o Ano A – em que iremos ter a companhia do evangelista S. Mateus em grande parte das proclamações do Evangelho. Deste modo, como preparação poderá ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Is 49, 3.5-6

«Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra»

 

Ambiente

O Deutero-Isaías (o autor do texto que nos é hoje proposto e que mais uma vez nos aparece como veículo da Palavra de Deus) é um profeta da época do exílio, que desenvolveu o seu ministério na Babilónia, entre os exilados (como, aliás, já dissemos no passado domingo). A sua mensagem – de consolação e de esperança – aparece nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías.

Contudo, há nesses capítulos quatro textos (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-11; 52,13-53,12) que se distinguem – quer em termos literários, quer em termos temáticos – do resto da mensagem… São os quatro cânticos do Servo de Jahwéh. Apresentam um misterioso servo de Deus, a quem Jahwéh confiou uma missão. A missão do Servo cumpre-se no sofrimento e no meio das perseguições; mas do sofrimento do Servo resultará a redenção para o Povo. No fim, o Servo será recompensado por Jahwéh e será exaltado.

A primeira leitura de hoje propõe-nos parte do segundo cântico do Servo de Jahwéh. Aqui, esse Servo é explicitamente identificado com Israel (embora alguns autores suponham que a determinação “Israel” não é original no texto e que foi aqui acrescentada como uma interpretação): seria a figura do Povo de Deus, chamado a ser testemunha de Jahwéh no meio dos outros povos. in Dehonianos.

Para a reflexão e partilha, podem ser considerados os seguintes elementos:

A leitura propõe à nossa reflexão esse tema sempre pessoal, mas sempre enigmático que é a vocação. Somos convidados, na sequência, a tomar consciência da vocação a que somos chamados e das suas implicações. Não se trata de uma questão que apenas atinge e empenha algumas pessoas especiais, com um lugar à parte na comunidade eclesial (os padres, as freiras…); mas trata-se de um desafio que Deus faz a cada um dos seus filhos, que a todos implica e que a todos empenha.

A figura do Servo de Jahwéh convida-nos, em primeiro lugar, a tomar consciência de que na origem da vocação está Deus: é Ele que elege, que chama e que confia a cada um uma missão. A nossa vocação é sempre algo que tem origem em Deus e que só se entende à luz de Deus. Temos consciência de que somos escolhidos por Deus desde o seio materno, isto é, desde o primeiro instante da nossa existência? Temos consciência de que é Deus que alimenta a nossa vocação e o nosso compromisso no mundo? Temos consciência de que só a partir de Deus a nossa vocação faz sentido e o nosso empenhamento se entende? Temos consciência de que a vocação implica uma relação de comunhão, de intimidade, de proximidade com Deus?

A vocação não se esgota, contudo, na aproximação do homem a Deus, mas é sempre em ordem a um testemunho e a uma intervenção no mundo (mesmo que se trate de uma vocação contemplativa). O homem chamado por Deus é sempre um homem que testemunha e que é um sinal vivo de Deus, dos seus valores e das suas propostas diante dos outros homens. Sinto que a minha vocação se realiza no testemunho da salvação e da libertação de Deus aos meus irmãos? A vocação a que Deus me chama leva-me a ser uma luz de esperança no mundo? A salvação de Deus atinge o mundo e torna-se uma realidade concreta no meu testemunho e no meu ministério?

Ao refletirmos na lógica da vocação, é preciso estarmos cientes de que toda a vocação tem origem em Deus, é alimentada por Deus, e de que Deus se serve, muitas vezes, da nossa fragilidade, caducidade e indignidade para atuar no mundo. Aquilo que fazemos de bom e de bonito não resulta, portanto, das nossas forças ou das nossas qualidades, mas de Deus. O coração do profeta não tem, portanto, qualquer razão para se encher de orgulho, de vaidade e de autossuficiência: convém ter consciência de que por detrás de tudo está Deus, e que só Deus é capaz de transformar o mundo, a partir dos nossos pobres gestos e das nossas frágeis forças. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 39 (40)

Refrão: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.

 

LEITURA II – 1 Cor l,1-3

«A graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco».

 

Ambiente

Nos próximos seis domingos, a liturgia vai propor-nos a leitura da primeira carta de Paulo aos cristãos da comunidade de Corinto. Para entendermos cabalmente a mensagem, convém determo-nos um pouco sobre o ambiente em que o texto nos situa.

No decurso da sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com Act 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeo-cristãos. No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e Timóteo (2 Cor 1,19; Act 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do Evangelho.             Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da sinagoga. Corinto era uma cidade nova e muito próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.

Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia elementos de origem hebraica (cf. Act 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).

De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor 6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10).

Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas raízes em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da mensagem evangélica. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes dados:

Deus chama os homens e as mulheres à santidade. Tenho consciência do apelo que Deus, nesta linha, me faz também a mim? Estou disponível e bem-disposto para aceitar esse desafio?

Realizar a vocação à santidade não implica seguir caminhos impossíveis de ascese, de privação, de sacrifício; mas significa, sobretudo, acolher a proposta libertadora que Deus oferece em Jesus e viver d
e acordo com os valores do Reino. É dessa forma que concretizo a minha vocação à santidade? Tenho a coragem de viver e de testemunhar, com radicalidade, os valores do Evangelho, mesmo quando a moda, o orgulho, a preguiça, os interesses financeiros, o “politicamente correto”, as opiniões dominantes me impõem outras perspetivas?

Convém ter sempre presente que a Igreja, a comunidade dos “chamados à santidade”, é constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo”. É importante termos consciência de que, para além da cor da pele, das diferenças sociais, das distâncias sociais ou culturais, das perspetivas diferentes sobre as questões secundárias da vivência da religião, o essencial é aquilo que nos une e nos faz irmãos: Jesus Cristo e o reconhecimento de que Ele é o Senhor que nos conduz pela história e nos oferece a salvação. in Dehonianos

 

EVANGELHO – Jo 1,29-34

«Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo».

«Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim».

«Eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus»

 

Ambiente

A perícope que nos é proposta integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf. Jo 1,19-3,36). Aí o autor, com consumada mestria, procura responder à questão: “quem é Jesus?”

João dispõe as peças num enquadramento cénico. As diversas personagens que vão entrando no palco procuram apresentar Jesus. Um a um, os atores chamados ao palco por João vão fazendo afirmações carregadas de significado teológico sobre Jesus. O quadro final que resulta destas diversas intervenções apresenta Jesus como o Messias, Filho de Deus, que possui o Espírito e que veio ao encontro dos homens para fazer aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.

João Baptista, o profeta/precursor do Messias, desempenha aqui um papel especial na apresentação de Jesus (o seu testemunho aparece no início e no fim da secção – cf. Jo 1,19-37; 3,22-36). Ele vai definir aquele que chega e apresentá-lo aos homens. Ao não se assinalar o auditório, sugere-se que o testemunho de João é perene, dirigido aos homens de todos os tempos e com eco permanente na comunidade cristã. in Dehonianos.

A reflexão pessoal e comunitária pode tocar os seguintes pontos:

Em primeiro lugar, importa termos consciência de que Deus tem um projeto de salvação para o mundo e para os homens. A história humana não é, portanto, uma história de fracasso, de caminhada sem sentido para um beco sem saída; mas é uma história onde é preciso ver Deus a conduzir o homem pela mão e a apontar-lhe, em cada curva do caminho, a realidade feliz do novo céu e da nova terra. É verdade que, em certos momentos da história, parecem erguer-se muros intransponíveis que nos impedem de contemplar com esperança os horizontes finais da caminhada humana; mas a consciência da presença salvadora e amorosa de Deus na história deve animar-nos, dar-nos confiança e acender nos nossos olhos e no nosso coração a certeza da vida plena e da vitória final de Deus.

Jesus não foi mais um “homem bom”, que coloriu a história com o sonho ingénuo de um mundo melhor e desapareceu do nosso horizonte (como os líderes do Maio de 68 ou os fazedores de revoluções políticas que a história absorveu e digeriu); mas Jesus é o Deus que Se fez pessoa, que assumiu a nossa humanidade, que trouxe até nós uma proposta objetiva e válida de salvação e que hoje continua presente e ativo na nossa caminhada, concretizando o plano libertador do Pai e oferecendo-nos a vida plena e definitiva. Ele é, agora e sempre, a verdadeira fonte da vida e da liberdade. Onde é que eu mato a minha sede de liberdade e de vida plena: em Jesus e no projeto do Reino ou em pseudomnesias e miragens ilusórias de felicidade que só me afastam do essencial?

O Pai investiu Jesus de uma missão: eliminar o pecado do mundo. No entanto, o “pecado” continua a enegrecer o nosso horizonte diário, traduzido em guerras, vinganças, terrorismo, exploração, egoísmo, corrupção, injustiça… Jesus falhou? É o nosso testemunho que está a falhar? Deus propõe ao homem o seu projeto de salvação, mas não impõe nada e respeita absolutamente a liberdade das nossas opções. Ora, muitas vezes, os homens pretendem descobrir a felicidade em caminhos onde ela não está. De resto, é preciso termos consciência de que a nossa humanidade implica um quadro de fragilidade e de limitação e que, portanto, o pecado vai fazer sempre parte da nossa experiência histórica. A libertação plena e definitiva do “pecado” acontecerá só nesse novo céu e nova terra que nos espera para além da nossa caminhada terrena.

Isso não significa, no entanto, pactuar com o pecado, ou assumir uma atitude passiva diante do pecado. A nossa missão – na sequência da de Jesus – consiste em lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. in Dehonianos

 

Para os leitores:

A proclamação da primeira leitura deve ter em atenção o discurso direto presente no texto. A frase final – «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» – deve ser sublinhada como conclusão de todo o texto.

A segunda leitura é constituída por um único parágrafo com longas frases e orações. Deste modo, é necessária uma acurada preparação nas pausas e respirações para uma correta articulação do texto.

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

EIS O CORDEIRO DE DEUS

Aí está, já no Domingo II do Tempo Comum, outra vez João Batista, a figura do umbral ou do limiar, que está sempre ali, à porta, para acolher e fazer as apresentações. Ele está em Betânia [= «Casa do pobre»] ou Bethabara [= «Casa da passagem»] – consoante as versões –, sempre do outro lado do Jordão, como refere bem João 1,28. João coloca-se estrategicamente do outro lado do Jordão, onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3).

Este início do Evangelho de João (1,19-2,12) distribui as ações por dias, organizados em dois blocos de 4 + 3. No primeiro dia (João 1,19-28), João Batista, postado no umbral de Bethabara, é interrogado pelas autoridades acerca da sua identidade. No segundo dia (1,29-34), João Batista acolhe Jesus e apresenta-o a nós. No terceiro dia (1,35-42), alguns discípulos de João Batista seguem Jesus, e Simão recebe o nome de Cefas, única vez nos Evangelhos, que significa Pedra esburacada, acolhedora e protetora. No quarto dia (1,43-51), Jesus chama Filipe e revela-se a Natanael e aos outros discípulos. Estes quatro dias representam em crescendo a preparação remota para a manifestação da Glória de Jesus. Correspondem à primeira parte da preparação para a festa do Dom da Lei, que os judeus celebravam no Pentecostes. Depois destes quatro dias, passa-se logo para o «3.º Dia» (2,1-12), que é o 7.º [= 4+3], e que tem a ver com a manifestação da Glória de Jesus (2,11), que corresponde ao 3.º Dia da manifestação da Glória de Deus no Sinai (Êxodo 19,10-20), para o qual se requerem dois dias de intensa preparação (Êxodo 19,10-11). Se os quatro primeiros dias constituem a preparação remota, os dois seguintes são a preparação próxima para este 3.º Dia! Este era o esquema da preparação do povo para a Festa do Dom da Lei de Deus que se celebrava no Pentecostes.

O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (João 1,29-34) mostra-nos o 2.º dia dos primeiros quatro de preparação. João Batista permanece parado em Bethabara [= «Casa da passagem»], desde João 1,28, imóvel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João Batista ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. É desse lugar de passagem, mas em que está parado como um guarda ou sentinela vigilante, a observar, que João vê bem (emblépô) Jesus a passar (peripatoûnti) (João 1,36) e a VIR ao seu encontro (João 1,29). Como Deus que VEM sempre ao nosso encontro. E apresenta-o como o CORDEIRO DE DEUS, que tira o pecado do mundo. Apresenta-o a nós, pois não é dito que esteja lá mais alguém. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, talya’. Mas talya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Aí está traçada a identidade de Jesus.

O Espírito de Deus entra na nossa história, descendo e permanecendo na humanidade de Jesus. A humanidade de Jesus é a porta por onde entra em nossa casa o Espírito de Deus. É esta novidade que, do seu posto de sentinela, João Batista está a ver (verbo no perfeito grego), e dela dá testemunho (verbo no perfeito grego). Entenda-se bem: João Batista dá testemunho, não porque viu e já não vê, mas porque viu e continua a ver, exatamente como as testemunhas de Jesus Ressuscitado (João 20). O Filho de Deus feito Homem, sobre quem desce e permanece o Espírito de Deus, Vem ao nosso encontro em Bethabara, para nos fazer entrar em Casa, na Terra Prometida.

Cordeiro, Servo, Filho, Pão: eis Jesus, manso e dócil, nosso irmão e nosso alimento. O «Segundo Canto do Servo do Senhor» (Isaías 49,1-6), em que Hoje se espelha o Evangelho, já mostra este Servo de Deus, libertado do serviço entre os povos estrangeiros, para se colocar exclusivamente ao serviço do Senhor, que, por isso e para isso, o pode chamar «meu Servo» (Isaías 49,3 e 6). A sua missão será reconduzir Israel para Deus, de quem se tinha afastado física, moral e espiritualmente (Isaías 49,5). Fica, todavia, logo claro que não é suficiente proceder à reunião dos filhos de Abraão. É necessário ir mais longe e refazer o mundo dos filhos de Adam. É necessário ser a Luz das nações, como Jesus (Lucas 2,32) e todos os seus escolhidos e enviados.

  1. Veja-se Paulo, que faz sua a missão do Servo Israel de ser Luz das nações até aos confins da terra (Atos 13,47). É nesse rastro de Luz que chega um dia a Corinto para lá acender a Luz de Cristo, Senhor Nosso, e velar por essa Luz que arde nas entranhas. É por isso que hoje escutamos também o princípio da correspondência que Paulo estabelece com a comunidade de Corinto (1 Coríntios 1,1-3).

Cantamos hoje o primeiro andamento do Salmo 40, repetindo o refrão: «Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade!» (v. 7-8). É o cântico novo que ecoa hoje na nossa boca (v. 4), e que se vai ouvindo já por toda a terra. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, que põe em cena João Batista, o grande indicador de caminhos, e, sobretudo, do Caminho, que é Jesus, e em sintonia também com a lição do Servo de Deus de Isaías 49, que vem para levar Deus e a sua Luz às nações e aos corações. Como Paulo faz desde Damasco até Corinto, até Roma. Para tanto, todo o Servo de Deus tem de ter os ouvidos escavados (v. 7) e o coração incendiado.

Deus fiel,
Fiável,
Sim irrevogável.

Matriz fidedigna,
Maternal amor preveniente,
Permanente,
Paciente.

Palavra primeira e confidente,
Providente,
Eficiente,
A dizer-se sempre
E para sempre dita.

Rochedo firme,
Abrigo seguro,
Alcofa para o nascituro,
Luz no escuro,
Amor forte,
Sem medo da morte e do futuro.

Deus fiel e confidente,

Fala,

Que o teu servo escuta atentamente.

Nada do que dizes cairá por terra.

A tua palavra à minha mesa,
Minha habitação,
Minha alegria,
Minha exultação,
Energia do meu coração,
Luz que me guia e que me alumia.

A minha luz é reflexa,
A minha palavra é lalação,
De ti decorre,
Para ti corre a minha vida,
Dita,
Dada,
Recebida
E oferecida.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 15.01.2023 (Is 49, 3.5-6)
  2. Leitura II do Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 15.01.2023 (1Cor 1, 1-3)
  3. Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 15.01.2023 – Lecionário
  4. Domingo II do Tempo Comum – Ano A – 15.01.2023 – Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A – 08.01.2023

Viver a Palavra

A liturgia deste domingo celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… Ele é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Cumprindo o projecto libertador que o Pai nos queria oferecer, essa “luz” incarnou na nossa história, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação, da vida definitiva.in Dehonianos   

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           Estamos a concluir o tempo de Natal. Estamos num novo ano litúrgico – neste 2022/2023, o Ano A – em que seremos acompanhados pelo evangelista S. Mateus. Deste modo, como preparação para este ano litúrgico poderia ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

           E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Is 60,1-6

 

Ambiente

Aos capítulos 56-66 do Livro de Isaías, convencionou-se chamar “Trito-Isaías. Trata-se de um conjunto de textos cuja proveniência não é totalmente consensual… Para alguns, são textos de um profeta anónimo, pós-exílio, que exerceu o seu ministério em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; para a maioria, trata-se de textos que provêm de diversos autores pós-exílios e que foram redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os sécs. VI e V a.C.). De qualquer forma, estamos na época a seguir ao Exílio e numa Jerusalém em reconstrução… As marcas do passado ainda se notam nas pedras calcinadas da cidade; os judeus que se estabeleceram na cidade são ainda poucos; a pobreza dos exilados faz com que a reconstrução seja lenta e muito modesta; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada… Sonha-se, no entanto, com esse dia futuro em que vai chegar Deus para trazer a salvação definitiva ao seu Povo. Então, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.

O texto que nos é proposto é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, a cidade é iluminada desde o nascer do dia até ao pôr do sol). in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir das seguintes linhas:

Como pano de fundo deste texto (e da liturgia deste dia) está a afirmação da eterna preocupação de Deus com a vida e a felicidade desses homens e mulheres a quem Ele criou. Sejam quais forem as voltas que a história dá, Deus está lá, vivo e presente, acompanhando a caminhada do seu Povo e oferecendo-lhe a vida definitiva. Esta “fidelidade” de Deus aquece-nos o coração e renova-nos a esperança… Caminhamos pela vida de cabeça levantada, confiando no amor infinito de Deus e na sua vontade de salvar e libertar o homem.

É preciso, sem dúvida, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Será que, através de nós, essa “luz” atinge o mundo e o coração dos nossos irmãos e transforma tudo numa nova realidade?

Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25). Será que nas comunidades cristãs e nas comunidades religiosas brilha a luz libertadora de Jesus? Elas são, pelo seu brilho, uma luz que atrai os homens? As nossas desavenças e conflitos, a nossa falta de amor e de partilha, os nossos ciúmes e rivalidades, não contribuirão para embaciar o brilho dessa luz de Deus que devíamos refletir?

Será que na nossa Igreja há espaço para todos os que buscam a luz libertadora de Deus? Os irmãos que têm a vida destroçada, ou que não se comportam de acordo com as regras da Igreja, são acolhidos, respeitado
s e amados? As diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar, ou são rejeitadas porque ameaçam a uniformidade? in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 71 (72)

Refrão: Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra.

LEITURA II – Ef 3,2-3a.5-6

 

Ambiente

A Carta aos Efésios (cuja autoria paulina alguns discutem por questões de linguagem, de estilo e de teologia) apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão (os que aceitam a autoria paulina desta carta discutem qual o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61/63).

É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta (talvez uma “carta circular”, enviada a várias comunidades cristãs da parte ocidental da Ásia Menor) parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento Paulino

O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.

Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que põe em relevo a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel de cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe, ainda, como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. 2,11-22)… O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13).in Dehonianos.

 

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes elementos:

A perspetiva de que Deus tem um projeto de salvação para oferecer ao seu Povo – já enunciada na primeira leitura – tem aqui novos desenvolvimentos. A primeira novidade é que Cristo é a revelação e a realização plena desse projeto. A segunda novidade é que esse projeto não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para ser oferecido a todos os povos, sem exceção.

A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Nela, brancos e negros, pobres e ricos, ucranianos ou moldavos – beneficiários todos da ação salvadora e libertadora de Deus – têm lugar em igualdade de circunstâncias. Temos, verdadeiramente, consciência de que é nesta comunidade de crentes que se revela hoje no mundo o projeto salvador que Deus tem para oferecer a todos os homens? Na vida das nossas comunidades transparece, realmente, o amor de Deus? As nossas comunidades são verdadeiras comunidades fraternas, onde todos se amam sem distinção de raça, de cor ou de estatuto social?

Destinatários, todos, do mistério, somos “filhos de Deus” e irmãos uns dos outros. Essa fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade…. Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Mt 2,1-12

Ambiente

O episódio da visita dos magos ao menino de Belém é um episódio simpático e terno que, ao longo dos séculos, tem provocado um impacto considerável nos sonhos e nas fantasias dos cristãos… No entanto, convém recordar que estamos, ainda, no âmbito do “Evangelho da Infância”; e que os factos narrados nesta secção não são a descrição exata de acontecimentos históricos, mas uma catequese sobre Jesus e a sua missão… Por outras palavras: Mateus não está, aqui, interessado em apresentar uma reportagem jornalística que conte a visita oficial de três chefes de estado estrangeiros à gruta de Belém; mas está interessado, recorrendo a símbolos e imagens bem expressivos para os primeiros cristãos, em apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra. in Dehonianos.

Considerar as seguintes questões:

Em primeiro lugar, meditemos nas atitudes das várias personagens que Mateus nos apresenta em confronto com Jesus: os “magos”, Herodes, os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo… Diante de Jesus, o libertador enviado por Deus, estes distintos personagens assumem atitudes diversas, que vão desde a adoração (os “magos”), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença (os sacerdotes e os escribas: nenhum deles se preocupou em ir ao encontro desse Messias que eles conheciam bem dos textos sagrados). Identificamo-nos com algum destes grupos? Não é fácil “conhecer as Escrituras”, como profissionais da religião e, depois, deixar que as propostas e os valores de Jesus nos passem ao lado?

Os “magos” são apresentados como os “homens dos sinais”, que sabem ver na “estrela” o sinal da chegada da libertação… Somos pessoas atentas aos “sinais” – isto é, somos capazes de ler os acontecimentos da nossa história e da nossa vida à luz de Deus? Procuramos perceber nos “sinais” que aparecem no nosso ca-
minho a vontade de Deus?

47Impressiona também, no relato de Mateus, a “desinstalação” dos “magos”: viram a “estrela”, deixaram tudo, arriscaram tudo e vieram procurar Jesus. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, à nossa televisão, à nossa aparelhagem? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz através dos irmãos?

Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. in Dehonianos

 

Para os leitores:

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

GUIADOS POR UMA ESTRELA

«Eu o vejo, mas não agora, / eu o contemplo, mas não de perto:/ uma estrela desponta (anateleî) de Jacob, / um cetro se levanta de Israel» (Números 24,17). Assim fala, com uns olhos muito claros postos no futuro, um profeta de nome Balaão, que o Livro dos Números diz ser oriundo das margens do rio Eufrates (Números 22,5), uma vasta região conhecida pelo nome de «montes do Oriente» (Números 23,7).

Do Oriente são também os Magos, que enchem o Evangelho deste Dia (Mateus 2,1-12), e que representam a humanidade de coração puro e de olhar puro que, agora e de perto, sabe ler os sinais de Deus, sejam eles a estrela que desponta (anateleî) (2,2 e 9) ou o sonho (2,12), uma e outro indicador de caminhos novos, insuspeitados. Surpresa das surpresas: até para casa precisamos de aprender o caminho, pois é, na verdade, um caminho novo! (2,12). Excelente, inteligente, o grande texto bíblico: Balaão vem do Oriente, e os Magos também. O texto grego diz bem, no plural, «dos Orientes» (ap’anatolôn). Só a estrela que desponta (anatolê / anatoleî), no singular, pode orientar a nossa humanidade perdida no meio da confusão do plural.

De resto, já sabemos que, na Escritura Santa, a Luz nova que no céu desponta (Lucas 1,78; 2,2 e 9; cf. Números 24,17; Isaías 60,1-2; Malaquias 3,20) e o Rebento tenro que entre nós germina (Jeremias 23,5; 33,15; Zacarias 3,8; 6,12) apontam e são figura do Messias e dizem-se com o mesmo nome grego anatolê (tsemah TM) ou forma verbal anatéllô. Esta estrela (anatolê) que arde nos olhos e no coração dos Magos está, portanto, longe de ser uma história infantil. Orienta os passos dos Magos e, neles, os de toda humanidade para a verdadeira ESTRELA que desponta e para o REBENTO que germina, que é o MENINO. E os Magos e, com eles, a inteira humanidade orientam para aquele MENINO toda a sua vida, que é o que significa o verbo «ADORAR» (proskynéô). Esta «adoração» pessoal é o verdadeiro presente a oferecer ao MENINO.

Note-se a expressão recorrente «o Menino e sua Mãe» (Mateus 2,11.13.14.20.21) e o contraponto bem vincado com «o rei Herodes perturbado e toda a Jerusalém com ele» (Mateus 2,3), que abre já para a rejeição final de Jesus. Veja-se também a alegria que invade os magos à vista da sua estrela, ainda antes de verem o Menino (Mateus 2,10), que evoca já a alegria das mulheres, ainda antes de verem o Senhor Ressuscitado (Mateus 28,8). Veja-se ainda o inútil controlo das Escrituras por parte de «todos os sacerdotes e escribas do povo», que sabem a verdade acerca do Messias, mas não sabem reconhecer o Messias (Mateus 2,4-6).

Mas, para juntar aqui outra vez os fios de ouro da Escritura Santa, nomeadamente 1 Reis 10,1-10 (Rainha de Sabá), Isaías 60 e o Salmo 72, diz o belo texto de Mateus que os Magos ofereceram ao MENINO ouro, incenso e mirra. Já sabemos que, desde Ireneu de Lião (130-203), mas entenda-se bem que isto é secundário, o ouro simboliza a realeza, o incenso a divindade, e a mirra a morte e o sepultamento.

Pode acrescentar-se ainda, mas também isto é claramente secundário, que muitos astrónomos, historiadores e curiosos se têm esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando como hipóteses mais viáveis: a) o cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a. C.; b) a tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a. C.; c) uma nova ou supernova, visível em 5-4 a. C. Esta última está registada nos observatórios astronómicos chineses. A conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes está registada nos observatórios da Babilónia e do Egipto. Johannes Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em b) e c). Note-se, porém, que a estrela dos Magos é só vista por eles, estrangeiros como Balaão, que também vê de modo diferente dos outros. Rir-se-iam, certamente, se soubessem que nós indagamos os céus com instrumentos científicos à procura da estrela que alumiava o seu coração. É assim que «muitos virão do oriente e do ocidente, isto é, de fora, e sentar-se-ão à mesa no Reino dos Céus» (Mateus 8,11). E nós, que também indagamos as Escrituras sem lhes descobrirmos o verdadeiro fio de ouro (Mateus 2,4-6), poderemos ficar tragicamente fora da porta e do sentido (Mateus 8,12). Que os de fora passem à frente dos de dentro é a surpresa de Deus, e, portanto, uma constante no Evangelho (Mateus 21,33-43; 22,1-13; Lucas 13,22-29).

Está também a transbordar de sentido aquela última anotação: «Por outra estrada regressaram à sua terra» (Mateus 2,12). Sim, quem viu o que os Magos viram, quem encontrou o que eles encontraram, quem experimentou o que eles experimentaram, não pode mais limitar-se a continuar seja o que for. Tudo tem mesmo de ser novo. A estrada tem de ser outra.

Ilustra bem o grandioso texto do Evangelho de Mateus o soberbo texto de Isaías 60,1-6, que canta Jerusalém personificada como mãe extremosa que vê chegar dos quatro pontos cardeais os seus filhos e filhas perdidos nos exílios de todos os tempos e lugares. Também não falta a luz que desponta (anateleî) (Isaías 60,1) e os muitos presentes, os tais fios que se vão juntar no Evangelho de hoje, de Mateus.

4Também os versos sublimes do Salmo Real 72 cantam a mesma melodia de alegria que se insinua nas pregas do coração da inteira humanidade maravilhada com a presença de Rei tão carinhoso. Também aqui encontramos a hiperbólica «idade do ouro», o grão que cresce mesmo no cimo das colinas, e a felicidade dos pobres, que serão sempre os melhores «clientes» de Deus. Extraordinária condensação da esperança da nossa humanidade à deriva.

E o Apóstolo Paulo (Efésios 3,2-3 e 5-6) faz saber, para espanto, maravilha e alegria nossa, que os pagãos são co-herdeiros e comparticipantes da Promessa de Deus em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

Sim. Falta dizer que, no meio de tanta Luz, Presentes e Alegria para todos, vindos da Epifania, que significa manifestação de Deus entre nós e para nós, não podemos hoje esquecer as crianças e a missão. Hoje celebra-se o dia da «Infância Missionária», que gosto de ver sempre envolta no belo lema: «O Evangelho viaja sem passaporte». Para significar que o Evangelho nos faz verdadeiramente filhos e irmãos. E entre filhos e irmãos não há fronteiras nem barreiras nem muros ou qualquer separação.

Sonho um mundo assim. E parece-me que só as crianças nos podem ensinar esta lição maravilhosa.

Do Oriente veio em procissão de esperança

O melhor da nossa humanidade.

Os três magos caminharam à luz de uma estrela nova,

Recém-nascida,

Mansa,

Como uma criança.

A procissão faz-se em passos de dança,

E a estrela só pode ser olhada com olhos puros,

De cristal,

Com alma enternecida,

E coração de Natal.

Por isso,

Não a viu Herodes,

Não a viram os guardas,

Não a viram os sábios,

Que arrastavam os olhos por velhos alfarrábios.

Viram-na os magos,

Pegaram nela à mão,

Levaram-na aos lábios,

Deitaram-na no coração.

Vem, Senhor Jesus.

O mundo precisa tanto da tua Luz.

D. António Couto

 

ANEXOS:

  1. Leitura I – Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A – 08.01.2023 (Is 60, 1-6)
  2. Leitura II – Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A – 08.01.2023 (Ef 3, 2-3a.5-6)
  3. Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A – 08.01.2023-Lecionário
  4. Solenidade da Epifania do Senhor – Ano A – 08.01.2023-Oração Universal
  5. ANO A – O ano do evangelista Mateus

Santa Maria Mãe de Deus – Ano A – 01.01.2023

Viver a Palavra

«O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz». Com estas palavras era abençoado o Povo de Israel, antes de partir para suas casas, no final das celebrações litúrgicas no Templo de Jerusalém e com estas palavras invocamos a bênção de Deus no primeiro dia do ano civil. Cada Ano Novo é como uma página em branco que se coloca diante de nós para que a possamos pintar com a mais belas cores da bondade, da ternura e da misericórdia. Desejamos votos de um ano bom e próspero aos amigos e familiares e até aos desconhecidos, augurando os melhores êxitos neste ano que começa. Queremos que seja um ano melhor e, para isso, tomamos consciência que só será um ano melhor, se em cada dia, cada um de nós, procurar ser melhor. A bênção de Deus é um dom, mas também o compromisso de sermos bênção uns para os outros, no compromisso de uma fraternidade cada vez mais verdadeira e autêntica, que seja promotora de comunhão e unidade. No início deste novo ano, damos graças ao Senhor por tudo o que foi o ano de 2022, por todos os dons que o Senhor nos concedeu, por todas as oportunidades que nos foram dadas viver. Somos convidados a dar graças até pelos momentos mais difíceis e exigentes e que foram para nós oportunidade de crescimento.

Estamos no último dia da oitava do Natal do Senhor, por isso, como os pastores acorremos apressadamente ao Presépio de Belém. Ao verem o Menino deitado na manjedoura, os pastores «começaram a contar o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino», testemunhando a alegria de verem cumpridas as promessas que Deus fizera outrora, pela boca dos profetas. Como eles, também nós queremos aprender a arte de contemplar as maravilhas do amor e de as comunicar com alegria e entusiasmo. Somos filhos muito amados de Deus e na contemplação do recém-nascido de Belém contemplamos como a carne humana é lugar habitado pela divindade.

A nossa frágil natureza é lugar escolhido e amado por Deus para fazer sua morada e, montando a Sua tenda no meio da humanidade Deus revela-Se e revela que a nossa carne humana, não só pode, como deve ser lugar da manifestação do amor e da misericórdia de Deus.

Contemplamos o Menino que, para nós, nasceu e, evidentemente, que a contemplação da figura de um recém-nascido é inseparável da contemplação do regaço de Sua Mãe que o acalenta e sustenta. Por isso, neste primeiro dia do ano, invocamos a figura maternal de Maria e invocámo-la como Santa Maria, Mãe de Deus, Theotokos, pois assim a invoca a Igreja desde 431. Maria é Mãe de Deus, porque acolheu o Verbo Divino no Seu seio, gerando com admiração da natureza no seu ventre Aquele, por meio do qual, tudo foi criado. Mas a grandeza de Maria, como atesta o próprio Jesus, não foi transportar no seu ventre o Verbo Incarnado ou amamentar Aquele que governa os céus e a terra, mas confiar na Palavra de Deus e fazer da vontade de Deus a sua própria vontade.

Maria disponibiliza a sua vida para o acontecer de Deus, mesmo quando sente dificuldade em compreender e acolher quanto acontece nela e através dela, por isso, nos testemunha o evangelista: «Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração».

Maria ensina-nos o segredo para acolher tantas situações e circunstâncias da nossa vida que temos dificuldade em compreender e aceitar: guardar no coração e confiar na mão carinhosa de Deus que conduz a história e que guiará a nossa vida para o seu pleno cumprimento. No regaço terno e materno de Maria, saboreamos o dom da filiação divina e, na força do Espírito, podemos clamar com toda a verdade: «Abá! Pai!». in Voz Portucalense   

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O dia 1 de janeiro, Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, é também Dia Mundial da Paz. No dia Dezembro de 1967, o Papa Paulo VI escreveu uma mensagem a todos os homens e e mulheres de boa vontade, propondo a criação do Dia Mundial da Paz, a ser festejado no dia 1 de Janeiro de cada ano, desejando que este dia fosse celebrado para lá das fronteiras da Igreja e fosse fermento de paz e unidade. Este ano assinala-se o 56.º Dia Mundial da Paz e o Papa Francisco escolheu como tema para este ano «Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir de covid-19 para traçar sendas de paz». A distribuição desta mensagem pelos fiéis, bem como o convite a rezar de modo insistente pela paz tão necessária e urgente, são algumas das sugestões para assinalar esta data.

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Continuamos em tempo de Natal. Estamos num novo ano litúrgico – neste 2022/2023, o Ano A – em que seremos acompanhados pelo evangelista S. Mateus. Deste modo, como preparação para este ano litúrgico poderia ser oportuna uma proposta de formação para todos os fiéis acerca do Evangelho de S. Mateus.

E faremos isso (acompanhe-nos em: Abordagens VIII e seguintes – https://paroquiavilarandorinho.pt/fbiblica/). Será uma catequese bíblica que ajudará a entrar na estrutura e mensagem deste Evangelho, proporcionando a todos os fiéis um maior conhecimento deste precioso tesouro que é a Sagrada Escritura.

                                                                                             

                                                                                               

LEITURA I – Num 6,22-27

«Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e Eu os abençoarei».

 

Ambiente

O nosso texto situa-nos no Sinai, frente à montanha onde se celebrou a aliança entre Deus e o seu Povo… No contexto das últimas instruções de Jahwéh a Moisés, antes de Israel levantar o acampamento e iniciar a caminhada em direção à Terra Prometida, é apresentada uma fórmula de bênção, que os “filhos de Aarão” (sacerdotes) deviam pronunciar sobre a comunidade.

Provavelmente, trata-se de uma fórmula litúrgica utilizada no Templo de Jerusalém para abençoar a comunidade, no final das celebrações litúrgicas, antes de o Povo regressar a suas casas… Essa bênção é aqui apresentada como um dom de Deus, no Sinai.

A “bênção” (“beraka”) é concebida, no universo dos povos semitas, como uma comunicação de vida, real e eficaz, que atinge o “abençoado” e que lhe transmite vigor, força, êxito, felicidade. É um dom que, uma vez pronunciado, não pode ser retirado nem anulado. Aqui, essa comunicação de vida – fruto da generosidade e do amor de Deus – derrama-se sobre os membros da comunidade por intermédio dos sacerdotes (no Antigo Testamento, os intermediários entre o mundo de Jahwéh e a comunidade israelita). in Dehonianos.

A reflexão pode fazer-se a partir dos seguintes dados:

Em primeiro lugar, somos convidados a tomar consciência da generosidade do nosso Deus, que nunca nos abandona, mas que continua a sua tarefa criadora derramando sobre nós, continuamente, a vida em plenitude.

É de Deus que tudo recebemos: vida, saúde, força, amor e aquelas mil e uma pequeninas coisas que enchem a nossa vida e que nos dão instantes plenos. Tendo consciência dessa presença contínua de Deus ao nosso lado, do seu amor e do seu cuidado, somos gratos por isso? No nosso diálogo com Ele, sentimos a necessidade de O louvar e de Lhe agradecer por tudo o que Ele nos oferece? Agradecemos todos os dons que Ele derramou sobre nós no ano que acaba de terminar?

É preciso ter consciência de que a “bênção” de Deus não cai do céu como uma chuva mágica que nos molha, quer queiramos, quer não (magia e Deus não combinam); mas a vida de Deus, derramada sobre nós continuamente, tem de ser acolhida com amor e gratidão e, depois, transformada em gestos concretos de amor e de paz. É preciso que o nosso coração diga “sim”, para que a vida de Deus nos atinja e nos transforme. in Dehonianos

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Refrão: Deus Se compadeça de nós e nos dê a sua bênção.

LEITURA II – Gal 4,4-7

«Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher».

 

Ambiente

Entre as comunidades cristãs do norte da Galácia manifestou-se, pelos anos 55/56, uma grave crise… À região gálata chegaram pregadores cristãos de origem judaica, que punham em causa a validade e a legitimidade do Evangelho anunciado por Paulo. Este era acusado de pregar um Evangelho mutilado, distante do Evangelho pregado pelos apóstolos de Jerusalém… Para estes pregadores (“judaizantes”), a fé em Cristo devia ser complementada pelo cumprimento rigoroso da Lei de Moisés, nomeadamente pelo rito da circuncisão.
Paulo foi avisado da situação quando estava em Éfeso. Não o preocupava que a sua pessoa fosse posta em causa; preocupava-o o dano que este tipo de discurso podia trazer às comunidades cristãs… Paulo estava convencido que o movimento religioso iniciado por Jesus de Nazaré não era uma religião formalista e ritual, uma religião de práticas exteriores, como o judaísmo farisaico do seu tempo, que se preocupava com questões formais e secundárias; além disso, estava convencido de que a salvação não tinha a ver com conquistas humanas (como se a salvação fosse conseguida à custa dos atos heroicos do homem), mas era um dom de Deus.

Alarmado pela gravidade da situação, Paulo escreveu aos gálatas. Com alguma dureza (justificada pela gravidade do problema), Paulo diz aos gálatas que o cristianismo é liberdade e que a ação de Cristo libertou os homens da escravidão da Lei… Os gálatas devem, portanto, fazer a sua escolha: pela escravidão, ou pela liberdade; no entanto – não deixa de observar Paulo – é uma estupidez ter experimentado a liberdade e querer voltar à escravidão…

No texto que nos é proposto, Paulo recorda aos gálatas a incarnação de Cristo e o objetivo da sua vinda ao mundo: fazer dos que a Ele aderem “filhos de Deus” livres. in Dehonianos.

 

Considerar, na reflexão, as seguintes questões:

A experiência cristã é, fundamentalmente, uma experiência de encontro com um Deus que é “abbá” – isto é, que é um “papá” muito próximo, com quem nos identificamos, a quem amamos, a quem nos entregamos e em quem confiamos plenamente. É esta proximidade libertadora e confiante que temos com o nosso Deus?

A nossa experiência cristã leva-nos a sentirmo-nos “filhos” amados, ou ao cumprimento de regras e de obrigações? Na Igreja não se põe, às vezes, a ênfase em cumprir leis e ritos externos, esquecendo o essencial – a experiência de “filhos” livres e amados de Deus?

A importante constatação de que somos “filhos” de Deus leva-nos a uma descoberta fundamental: estamos unidos a todos os outros homens – “filhos” de Deus como nós – por laços fraternos. É a mesma vida de Deus que circula em todos nós… O que é que esta constatação implica, em termos concretos? A que é que ela nos obriga? Faz algum sentido marginalizar alguém por causa da sua raça ou estatuto social? Aquilo que acontece aos outros – de bom e de mau – não nos diz respeito? in Dehonianos

 

EVANGELHO – Lc 2,16-21

«Os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura».

«Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração».

 

Ambiente

O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal: após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores (destinatários desse anúncio) dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais. Mais uma vez, Lucas não está interessado em fazer a reportagem do nascimento de Jesus, ou a crónica social das “visitas” que, então, o menino de Belém recebeu; mas está, sobretudo, interessado em apresentar uma catequese que dê a entender (aos cristãos a quem o texto se destina) quem é esse menino e qual a missão de que ele foi investido por Deus. Nesta catequese fica bem claro que Jesus é o Messias libertador, enviado a trazer a paz; e há, também, uma reflexão sobre a resposta que Deus espera do homem. in Dehonianos.

A reflexão pode partir dos seguintes elementos:

No Evangelho que, hoje, nos é proposto fica claro o fio condutor da história da salvação: Deus ama-nos, quer a nossa plena felicidade e, por isso, tem um projeto de salvação para levar-nos a superar a nossa fragilidade e debilidade; e esse projeto foi-nos apresentado na pessoa, nas palavras e nos gestos de Jesus. Temos consciência de que a verdadeira libertação está na proposta que Deus nos apresentou em Jesus e não nas ideologias, ou no poder do dinheiro, ou na posição que ocupamos na escala social? Porque é que tantos dos nossos irmãos vivem afogados no desespero e na frustração? Porque é que tanta gente procura “salvar-se” em programas de televisão que lhes dê uns minutos de fama, ou num consumismo alienante? Não será porque não fomos capazes de lhes apresentar a proposta libertadora de Jesus?

Diante da “boa nova” da libertação, reagimos – como os pastores – com o louvor e a ação de graças? Sabemos ser gratos ao nosso Deus pelo seu amor e pelo seu empenho em nos libertar da escravidão?

Os pastores, após terem tomado contacto com o projeto libertador de Deus, fizeram-se “testemunhas” desse projeto. Sentimos, também, o imperativo do testemunho? Temos consciência de que a experiência da libertação é para ser passada aos nossos irmãos que ainda a desconhecem?

Maria “conservava todas estas palavras e meditava-as no seu coração”. Quer dizer: ela era capaz de perceber os sinais do Deus libertador no acontecer da vida. Temos, como ela, a sensibilidade de estar atentos à vida e de perceber a presença – discreta, mas significativa, atuante e transformadora – de Deus, nos acontecimentos mais ou menos banais do nosso dia a dia? in Dehonianos

 

Para os leitores:

A primeira leitura apresenta uma fórmula litúrgica utilizada no Templo de Jerusalém para abençoar a comunidade, no final das celebrações litúrgicas, antes do Povo regressar a suas casas, por isso, pede-se atenção ao tom a utilizar e ao discurso direto presente no texto.

Na segunda leitura, é necessário ter em atenção as diferentes pausas e respirações nas frases mais longos e com diversas orações, com um especial cuidado na expressão «Abá! Pai!», que deve ser bem integrada na frase. A palavra «Abá» deve pronunciar-se «Ábá».

 

I Leitura:

(ver anexo)

II Leitura:

(ver anexo)

Para acompanhar a Liturgia da Palavra / a Mesa da Palavra.

 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS, RAINHA DA PAZ

Oito dias depois da Solenidade do Natal do Senhor, que a liturgia oriental designa significativamente por «a Páscoa do Natal», eis-nos no Primeiro Dia do Ano Civil de 2023, tradicionalmente designado como Dia de «Ano Bom», a celebrar a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, em 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento.

É assim que a encontramos no Lecionário de hoje. Desde logo naquela menção sóbria, e ousamos mesmo dizer pobre, pobre, mas nobre, com que Paulo se refere à Mãe de Jesus, escrevendo aos Gálatas: «Deus mandou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei» (Gálatas 4,4). Nesta linha breve e densa aparece compendiado o mistério da Encarnação, enquanto se sente já pulsar o coração da Mariologia: Maria não é grande em si mesma; é, na verdade, uma «mulher», verdadeiramente nossa irmã na sua condição de humana criatura. Não é grande em si mesma, mas é grande por ser a Mãe do Filho de Deus, e é aqui que ela nos ultrapassa, imaculada por graça, bem-aventurada e bem-aventurança, nossa mãe na fé e na esperança. Maria não é grande em si mesma; vem-lhe de Deus essa grandeza.

O Evangelho deste Dia de Maria (Lucas 2,16-21) guarda também uma preciosidade, quando Lucas nos diz que «todos os que tinham escutado as coisas faladas pelos pastores ficaram maravilhados, mas Maria guardava (synetêrei) todas estas Palavras que aconteceram (tà rhêmata), compondo-as (symbállousa) no seu coração» (Lucas 2,18-19). Em contraponto com o espanto de todos os que ouviram as palavras dos pastores, Lucas pinta um quadro mariano de extraordinária beleza: «Maria, ao contrário, guardava todas estas Palavras que aconteceram, compondo-as no seu coração». Há o espanto e a maravilha que se exprimem no louvor e no canto, e há o espanto e a maravilha que se exprimem no silêncio e na escuta. Maria, a Senhora deste Dia, aparece a guardar com ternura todas estas Palavras que acontecem, todos estes acontecimentos que falam e não esquecem. O verbo guardar implica atenção cheia de ternura, como quem leva nas suas mãos uma coisa preciosa. Este guardar atencioso e carinhoso não é um ato de um momento, mas a atitude de uma vida, uma vez que o verbo grego está no imperfeito, que implica duração. Como quando o povo de Deus reza confiante: «Guardai-nos e defendei-nos com coisa própria vossa».

O outro verbo belo mostra-nos Maria como que a compor, isto é, a «pôr em conjunto» (symbállô), a organizar, para melhor entender. É como quem, com aquelas Palavras, compõe um Poema, uma Sinfonia, e se entretém a vida toda a trautear essa melodia e a conjugar novos acordes de alegria. E é dito ainda, num pleonasmo único na Escritura Santa, que Maria «concebeu no ventre (syllambánô en tê koilía)» (Lucas 2,21). Redundância. Música divina. O ventre de Maria em consonância com o «ventre de misericórdia do nosso Deus» (Lucas 1,78), causa da Luz que nas alturas se levanta e visita toda a gente, causa do Rebento que na nossa terra germina, que a nossa terra aquece e alumia, Jesus, filho de Deus e de Maria, a quem neste oitavo Dia é posto o Nome.

Esta solicitude maternal de Maria, habitada por esta imensa melodia que nos vem de Deus, levou o Papa Paulo VI, a associar, desde 1968, à Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a celebração do Dia Mundial da Paz. Hoje é já o 56.º Dia Mundial da Paz que se celebra, e o Papa Francisco apôs-lhe o tema «Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir de covid-19 para traçar sendas de paz».

De Deus vem sempre um mundo novo, belo, maravilhoso. Tão novo, belo e maravilhoso, que nos cega, a nós que vamos arrastando os olhos cansados pela lama. Que o nosso Deus faça chegar até nós tempo e modo para ouvir outra vez a extraordinária bênção sacerdotal, que o Livro dos Números guarda na sua forma tripartida: «O Senhor te abençoe e te guarde. / O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. / O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Números 6,24-26).

O Salmo 67 é uma oração de bênção em forma de petição. Em termos técnicos, equivale a uma epiclese: não «eu te bendigo», mas «Deus nos bendiga». O nosso Salmo recolhe os temas da bênção sacerdotal de Números 6,24-26, como a graça, a luz, a benevolência, a paz, pondo o plural onde estava o singular, por assim dizer, «democratizando» a bênção, agora dirigida a todos, onde, na bênção sacerdotal do Livro dos Números, se dirigia apenas a Israel.

Olhada por Deus com singular olhar de Graça foi Maria, também Pobre, também Feliz, Bem-aventurada, Santa Maria, Mãe de Deus, que hoje celebramos em uníssono com a Igreja inteira. Para ela elevamos hoje os nossos olhos de filhos enlevados.

Mãe de Deus, Senhora da Alegria, Mãe igual ao Dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.

Abençoa, Mãe, os nossos dias breves. Ensina-nos a vivê-los todos como tu viveste os teus, sempre sob o olhar de Deus, sempre a olhar por Deus. É verdade. A grande verdade da tua vida, o teu segredo de ouro. Tu soubeste sempre que Deus velava por ti, enchendo-te de graça. Mas tu soubeste sempre olhar por Deus, porque tu soubeste bem que Deus também é pequenino. Acariciada por Deus, viveste acariciando Deus. Por isso, todas as gerações te proclamam «Bem-aventurada»! Por isso, nós te proclamamos «Bem-aventurada»!

Senhora e Mãe de janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro. Acaricia-nos. Senta-nos em casa ao redor do amor, do coração. Somos tão modernos e tão cheios de coisas estes teus filhos de hoje! Tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade! Temos tudo. Mas falta-nos, se calhar, o essencial: a tua simplicidade e alegria. Faz-nos sentir, Mãe, o calor da tua mão no nosso rosto frio, insensível, enrugado, e faz-nos correr, com alegria, ao encontro dos pobres e necessitados.

Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, Pão e Amor, para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe nos abençoe também. Ámen!

Que Deus nos abençoe e nos guarde,

Que nos acompanhe, nos acorde e nos incomode,

Que os nossos pés calcorreiem as montanhas,

Cheios de amor, de paz e de alegria,

Que a tua Palavra nos arda nas entranhas,

E nos ponha no caminho de Maria.

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

fiat que disseste, Maria, é de quem se fia

Num amor maior do que um letreiro.

Vela por nós, Maria, em cada dia

Deste ano inteiro,

Para que levemos a cada enfermaria,

A cada periferia,

Um amor como o teu, primeiro e verdadeiro.

D. António Couto

ANEXOS:

  1. Leitura I – Santa Maria Mãe de Deus – 01 Janeiro 2023 – Ano A (Num 6, 22-27)
  2. Leitura II -Santa Maria Mãe de Deus – 01 Janeiro 2023 – Ano A (Gal 4, 4-7)
  3. Santa Maria Mãe de Deus – 01 Janeiro 2023 – Ano A – Lecionário
  4. Santa Maria Mãe de Deus – 01 Janeiro 2023 – Ano A – Oração Universal
  5. Mensagem do Papa Francisco – 56º Dia Mundial da Paz – 01 janeiro 2023
  6. ANO A – O ano do evangelista Mateus

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