1. MANUEL LINDA, BISPO DO PORTO – Entrevista Jornal Público – 24 dezembro 2019

“O Estado não é pessoa fiável”

  1. Manuel Linda, bispo do Porto, acusa o Governo de estar a tentar cercear a presença da Igreja Católica na sociedade, por via do desinvestimento nos serviços sociais detidos pela Igreja. Se o Estado não aumentar a comparticipação, avisa, muitos centros sociais e paroquiais vão fechar as portas.

Natália Faria

As instituições sociais detidas pela Igreja Católica estão, muitas delas, à beira de fechar portas, por causa da continuada diminuição da comparticipação estatal que foi sendo reduzida até aos actuais “pouco mais de 30% da despesa”. “Uma parte significativa destes serviços já está com a corda ao pescoço”, avisa o bispo do Porto, D. Manuel Linda, numa entrevista em que qualifica o fim dos contratos de associação com os colégios da Igreja como “das coisas mais dramáticas que aconteceram desde 1834”. Quanto à abertura das portas da Igreja à ordenação de homens casados e das mulheres, o bispo reconhece possibilidades de mudança na doutrina, mas, sustenta, a Igreja não tem “chaves para abrir o sacerdócio às mulheres”. E sim, a Igreja vem perdendo fiéis na Europa, mas está a crescer noutras partes do mundo. De resto, conclui, “a Igreja Católica não é mais uma igreja europeia”.

O Governo acaba de apresentar o seu Orçamento de Estado para 2020. Como encara a situação sócio-económica do país?

Os leigos têm a liberdade de organizar aquilo que é público. Não nos compete a nós estar a dar directivas. De qualquer maneira, gostava que houvesse verdade nas coisas. Dizem-me que no Orçamento de Estado do ano passado foram inscritos 130 milhões para os sem-abrigo. E os 130 milhões foram todos cativados. Se isto é verdade, que grave! Estamos a brincar com coisas sérias. Gostava que os leigos que têm a plena autonomia não tivessem subterfúgios particularmente a respeito dos pobres.

Como vê a retracção dos apoios estatais aos serviços cuja manutenção é assegurada pela Igreja Católica, nomeadamente na educação e na saúde?

A nível da educação, aquela decisão unilateral de pôr fim aos contratos de associação foi das coisas mais dramáticas que aconteceram desde 1834, desde o tempo do liberalismo. Nunca tinha havido uma agressão tão grande ao ensino livre como aconteceu daquela vez. O ensino estava a prestar uma função social, estava a formar cidadãos tão bem como as escolas públicas e, de um momento para o outro, retirando esse contrato de associação, não havendo mais alunos, logicamente também não eram precisos professores nem funcionários. E as entidades tiveram de indemnizar aquela gente toda, foram muitos milhões de euros, por causa de uma decisão que levou no imediato ao encerramento de 17 colégios. É muito grave. O Estado não é pessoa fiável. Se fosse, haveria negociação prévia e um período de adaptação. Agora, unilateralmente e de um momento para o outro, fazê-lo não se importando com as consequências, mostra que não podemos confiar no Estado. O mesmo parece estar a acontecer neste momento com certos âmbitos, directa ou indirectamente ligados à Segurança Social. No Porto, temos quatro sectores que estão presentes na assistência social: são 150 centros sociais e paroquiais, 28 misericórdias, uma obra diocesana com 12 centros e muitas valências e depois organismos como, por exemplo, obras terceiras, confrarias, a Obra vicentina… Numa dessas obras, fizeram um estudo sobre os velhinhos que estão lá institucionalizados e concluíram que, entre 2016 e 2018, o aumento efectivo da despesa de cada um deles foi de 242 euros por mês, atendendo ao aumento salarial dos funcionários, a alguma inflação nos produtos de alimentação, higiene e outros. No mesmo período, o Estado aumentou [a sua comparticipação] em 29 euros e 90 cêntimos. Faça a diferença entre os 30 euros que o Estado aumentou e os 242 euros de aumento efectivo da despesa. Como podem as instituições aguentar? Não vamos aguentar.

Daí que o tenha ouvido dizer há dias que uma parte considerável desses serviços poderá encerrar?

Uma parte significativa destes serviços já está com a corda ao pescoço. As misericórdias, que têm alguns bens que receberam em heranças do passado, aguentarão mais algum tempo. Os nossos centros sociais e paroquiais não vão aguentar mais tempo nenhum.

E há alguma perspectiva de reforço do financiamento estatal?

Quanto eu saiba, não. Quanto saiba, cada vez mais encontramos esta tentativa de cercear na prática esta presença da Igreja na sociedade por intermédio do social, pondo dificuldades continuadas.

Mas crê que há uma intenção deliberada de diminuir a presença da Igreja no sector social em Portugal?

Eu não sei. Limito-me a verificar os factos. O facto é que, quando a Igreja entrou no sector social para ajudar as pessoas, e sabendo sempre que ia ter prejuízo e, portanto, havia que fazer peditórios nas paróquias, de organizar festas para daí retirar algum apoio, a perspectiva era que o Estado contribuísse com entre 60% a 70% do valor da despesa. E, neste momento, pouco mais contribui do que 30%. Estamos no limite de nos conseguirmos aguentar. Não conseguimos aguentar mais.

E se os serviços fecharem…

…vai haver efeitos naturalmente. Pensemos nos velhinhos. Se já há uma longuíssima lista de espera, esta situação não só não nos capacita para abrirmos mais instituições para apoio aos velhinhos como, se não conseguirmos aguentar, teremos de os entregar às famílias.

Conseguirá o Estado substituir-se à Igreja na prestação destes serviços?

O Estado que o mostre. O Estado pode fazê-lo. Agora duvido que o faça com grande coração e não o fará garantidamente ao preço que nós estamos a fazer. Um estudo divulgado em Espanha em 2019 demonstra que o Estado, para fazer a mesma coisa que a Igreja faz, lhe custa cinco vezes mais. Em Portugal não conheço nenhum estudo. Mas a realidade deve ser muito semelhante.

Como responde a quem considera que a Igreja em Portugal está demasiado dependente das suas relações financeiras com o poder?

Que me digam em quê. Tirando a dimensão do social, da assistência que estamos a prestar às pessoas, que me digam em que é que a Igreja recebe mais dinheiro. Pode receber porventura, por exemplo, para fazer obras de remodelação em alguns monumentos, porque o Estado se apropriou deles, como sabe. Quer, na altura do liberalismo, dos bens que eram das ordens religiosas, das igrejas concretamente, quer depois, em 1910. A Sé do Porto, teoricamente falando, é do Estado.

O período em que vivemos é equiparável ao liberalismo?

Refiro esse período da nossa História porque estamos a ver que a Igreja está a ser afastada, talvez não seja com essa intenção, mas, ao cercear-lhe aquilo a que as entidades privadas teriam direito dessa ajuda do Estado, na prática acaba-se por a retirar desta presença na sociedade.

O país está a conseguir enfrentar o problema da natalidade?

Não, não está. Claro que não culpo só a dimensão política, embora pudesse haver outro género de apoios – é preciso rever as leis laborais, é preciso criar condições para que, efectivamente, a mulher tenha condições para ser mãe. É verdade. Mas não acuso o poder político. É mais uma dimensão cultural. O que se passa connosco para estarmos a recusar a maternidade? Não sei. Somos capazes de o pagar caro. Portugal já é dos países mais envelhecidos do mundo. É de deitar as mãos à cabeça.

Até conseguirá ir o Papa Francisco no desejo de mudança que vem nomeando? Crê que haverá mudanças doutrinais na criação de excepções ao celibato dos padres e na procura de novos ministérios para as mulheres?

A nossa carta fundacional, a nossa Constituição da República, chama-se Evangelho. E, nesta altura, o Papa Francisco está exactamente a refundar esta relação directa com o Evangelho. É provável que muitas coisas sejam postas em causa. Evidentemente que o centro, o dogma, aquilo que recebemos de Jesus Cristo como doutrina fundadora, a relação privilegiada com Deus e com o pobre, isso é inamovível, não se pode retirar. E o Papa Francisco está exactamente a dizer que há centros e há periferias. O centro não muda, estas periferias da doutrina podem e devem mudar.

Portanto, acredita que haverá mudanças doutrinais…

 

Não lhe chamaria doutrinais. Chamar-lhes ia mudanças pastorais ou existenciais. Não é da doutrina que o padre tenha de ser celibatário. Não é. Os primeiros discípulos eram casados. Portanto, uma coisa é o dogma – e o dogma é relativamente restrito a poucas verdades, por exemplo, que Jesus Cristo é filho de Deus e isso jamais mudará – outra coisa é aquilo que ao longo da História pareceu melhor e que num determinado momento dessa mesma Historia já pode não ser melhor. É o caso do celibato dos padres.

E acredita que no seu tempo de vida assistiremos ao fim do celibato obrigatório para os padres?

Não acredito muito.

Mas gostava?

Não. Acredito que este tema tem de ser pensado e reflectivo por todos os membros da Igreja, também o laicado.

Não foi isso que se pretendeu com o sínodo dedicado à Amazónia?

A Amazónia funciona como uma região muito própria do mundo e, portanto, pode comportar excepções. Neste momento, na Igreja como nós a conhecemos, pelo menos no primeiro mundo, talvez ainda tenha muita razão de existir o celibato. Dou-lhe um exemplo muito prosaico: as nossas estruturas estão pensadas à medida de um padre celibatário e a retribuição económica que os sacerdotes recebem na maioria das nossas dioceses, e que não chega a mil euros, não dava, na maior parte dos casos, para sustentar uma família. Uma mulher e filhos. Não dava. Teríamos de repensar novas formas de sustentação. É uma coisa muito prosaica, mas é uma realidade da vida do dia-a-dia. E é verdade que a maior parte das nossas paróquias não tem capacidade para aumentar o salário do sacerdote.

Relativamente às mulheres, faz sentido esta resistência da Igreja em reconhecer-lhes um lugar de igualdade na sua hierarquia numa altura em elas estão na liderança de governos?

Se considerássemos o exercício do ministério do sacerdote e do bispo como um cargo de autoridade e de importância, então diria que as mulheres seriam umas desfavorecidas. Que viveríamos numa sociedade patriarcal…

Olhe que sim…

…não é verdade. Nós chamamos àquilo que fazemos um ministério e a palavra ministério quer dizer servidão, escravatura – e, às vezes, é. Houve alturas em que, de facto, ser bispo dava uma preponderância social assinalável. Esse tempo passou. Mas, falando uma linguagem mais corrente, não podemos de um momento para o outro meter na gaveta dois mil anos de História. Nem o exemplo de Jesus Cristo que efectivamente teve no seu grupo 12 homens, mas não teve no seu grupo de apóstolos nenhuma senhora. E há uma decisão do Papa João Paulo II que dá esse assunto como encerrado. Será mesmo encerrado? Não sei. Aquilo que um Papa fez, outro porventura poderá repensar. De qualquer maneira, eu admito que neste momento não temos chaves para abrir o sacerdócio às mulheres. Nem de longe nem de perto.

Essa recusa não poderá agudizar a pouca afluência dos fiéis às igrejas? Na Alemanha houve recentemente uma greve das católicas – ausentaram-se das missas e deixaram lenços brancos nos bancos – por recusarem continuar a submeter-se a uma Igreja liderada exclusivamente por homens.

São sinais a que devemos prestar atenção. Nós aqui no Porto temos secretariados – que são organismos que velam por determinado âmbito da pastoral – e que, na sua maior parte, são presididos por mulheres. Portanto, a senhora está na Igreja a adquirir funções a que historicamente não acedia e esta valorização da figura da mulher na Igreja é algo que estamos a fazer, devagarinho. Agora, se pensa que a única forma de valorizar a mulher é pô-la atrás de um altar a celebrar a eucaristia… Não penso que seja essa a promoção que a mulher espera dentro da Igreja Católica. E, como disse, temos dois mil anos de História em que isto não aconteceu e temos fundamentalmente o exemplo fundacional de Jesus Cristo que não o admitiu.

Mas como encara a situação da Igreja Católica na Alemanha, cuja conferência episcopal está a preparar um sínodo, e em cima da mesa estão todas estas questões, para além da preocupação decorrente do abandono de 200 mil fiéis em 2018, o que coloca a Alemanha em risco, de, pela primeira vez em mil anos, ver tornarem-se maioritários no país os que não têm religião?

Os bispos, como todos os servidores da Igreja, preocupam-se com a realidade da Igreja. Os meus colegas alemães são inteligentes e saberão encontrar as respostas. Eu, porém, julgo que não devem ser os circunstancialismos a modificar a nossa maneira de pensar e até a grande tradição da Igreja. Não devemos reagir aos acontecimentos no sentido de, porque hoje não temos ninguém nas nossas igrejas, fazermos aquilo que as pessoas esperam que façamos, para nos tornarmos simpáticos. Isto pode ser um perigo. Não estou a pôr em causa as atitudes dos meus colegas na Alemanha, pedia-lhes, no entanto, que não resolvessem as questões da relação da Igreja com a sociedade apenas analisando o tempo presente.

Mas acredita que a Igreja Católica irá sobreviver a este progressivo – não sei se concorda com o diagnóstico – desligamento da Europa em relação ao Cristianismo?

Acredito plenamente. Não me espanta demasiado que haja um certo afastamento de algumas pessoas da Igreja. Por dois motivos: um é que compete à Igreja ser fermento e não ser massa. E nós às vezes esquecemo-nos disto. Jesus Cristo muitas vezes, naquelas parábolas que usava para dizer qual é a relação do cristão com o mundo, falava exactamente do fermento que, sendo pouco, fermenta toda a massa. É isso que nos compete ser, não a massa em geral. O segundo motivo percebe-se quando olhamos para o mundo judaico, como a bíblia do antigo Testamento no-lo descreve, e para aquilo que sabemos da história da Igreja depois da sua fundação por Jesus Cristo, e constatamos que as épocas de prosperidade e de paz quase sempre foram épocas de abrandamento da fé. Estamos numa dessas épocas. Graças a Deus temos prosperidade e temos paz e, portanto, as pessoas têm tendência a esquecer-se do sobrenatural, da espiritualidade, como que de alguma maneira hipnotizadas por tanto bem que a sociedade possa dar.

Não receia pelos efeitos de uma redução da Igreja na sua dimensão estrutural?

Pode até ser bom que a Igreja se reduza, porque pode até ser uma boa forma de ela se encontrar consigo própria e com o fundamental.

E não está preocupado com a descaracterização religiosa da Europa?

Estou preocupado, evidentemente. Eu gostaria que todos fossemos rigorosíssimos na fé a 100%. Mas essa preocupação não aniquila o meu optimismo, nem de longe nem de perto. De resto, a Igreja Católica não é mais uma Igreja europeia. Não obstante o facto de os nossos irmãos muçulmanos terem normalmente famílias muito numerosas, a perspectiva religiosa global que mais está a aumentar no mundo continua a ser o cristianismo. E até em zonas onde não era esperado. No sudeste Asiático – Coreia, China, Singapura… – o cristianismo está a aumentar a um ritmo espantoso. O mundo é maior do que a Europa. Aqui estamos arrefecidos, não vale a pena estar a deitar pó aos olhos dos outros, mas em outros lugares o calor é grande.

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