Sessão nº 10
A simbologia e os significados na Bíblia (4)

 

Recordando….

           Já vimos, em sessões anteriores, a importância de perceber o conteúdo figurativo de palavras e expressões que nos aparecem ao longo das muitas páginas da Bíblia. É preciso “traduzir” para o domínio duma experiência da fé o que pode parece um simples estilo literário. Os judeus eram exímios contadores de histórias e, muito da sua expressão literária e poética passava pela simbólica associada a imagens.

           Avancemos, hoje, para a tradução da palavra “deserto”.

O que significa deserto na Bíblia?

           Deserto na Bíblia não é um lugar geográfico, um espaço com areia ou outros materiais, com clima difícil, sem água, com uma ou outra árvore naquilo que a geografia chama “oásis”. Esta “tentação” interpretativa é muitas vezes cometida por cristãos quando, em tempo de quaresma, abordam o tema dizendo: “vou fazer um tempo de deserto – tempo de recolhimento, de paz, de meditação, de reflexão interior”. Sem o querer, queríamos apenas dizer – vou fazer um “dia de oásis” com calma e bebida fresca. Mas, deserto na Bíblia não é isso. Deserto na Bíblia é um lugar muito desconfortável. É um lugar de luta. Na Bíblia, não se vai para ao deserto para se estar em paz. Vai-se para o deserto para lutar, combater e sair ferido. Mas também salvo. Lutar corpo a corpo comigo mesmo. E muitas vezes com o próprio Deus.

           Visitemos o livro do Êxodo para perceber o lugar de luta e morte que simboliza o deserto. “Dos judeus escravos saídos do Egito, nem um só chegou à terra prometida”. Perceba-se o que se quer dizer/significar quando se lê que houve necessidade de morrer para a vida passada, para se viver uma nova vida na terra prometida. E foram 40 anos – agora estará claro o que significa o 40 (mudança) –, entre o antes (Egito) e o depois (terras de Canaã).

           Portanto, deserto significa na Bíblia uma mudança radical. É o lugar da tentação, o lugar e o tempo. da luta, do “lamber as feridas”, etc…

           Voltando ao Êxodo, é evidente que no deserto se lutou até com Deus. “Quem pensas Tu, Deus, que és, para Te vires meter comigo/connosco?”, diziam os judeus em caminhada. Sabemos bem que não estávamos bem no Egito – não eramos livres, não eramos perfeitos, não éramos felizes –, mas tínhamos comida a horas, dormíamos em relativo sossego …. e Tu foste lá meter-Te connosco.

           O deserto é, pois, lugar de luta corpo a corpo com as minhas escravidões e até com Deus. Vai-se ao deserto para ficar todo partido, para nos apercebermos que nem tudo está bem. E vamos ao deserto lutar com quem? A propósito de quê? Vamos meter a mão nos “rasgões” da nossa vida. Luta corpo a corpo com uma experiência diabólica. Uma experiência de rutura. Uma experiência entre o querer de Deus e o querer dos homens.

Nota: (Damos, aqui, por reproduzido um texto já trabalhado na sessão 7 – significado de dia+ bolos versus sym+ bolos).

           Uma experiência de vida com o diabolos não é uma luta com uma personagem espiritual como tantas vezes traduzimos diabo, demónio, satanás (a mesma palavra em línguas diferentes). Admiti-lo, seria uma heresia para quem é monoteísta. Não pode haver dois deuses – O Criador (Deus) e o diabo. Diabo significa movimento de separação de Deus nos meus comportamentos e vivências. O contrário de diabo (dia+bolos) não é Deus: Deus não tem contrários. Mas sim (sym + bolos). Lutar com o diabolos é, antes, lutar com uma figura teológica – um viver de separação entre o que agrada ao Criador e o que agrada ao homem em contradição com o desejo do Criador. Na Bíblia, é no deserto que esta luta tem lugar. Jesus confrontou-Se com este deserto durante toda a Sua vida passada entre montanhas, aldeias e cidades. E nunca transigiu, nunca foi vencido. Sempre saiu vitorioso.

          Algumas referências a deserto na Bíblia:  

           Como acabamos de ver, deserto na Bíblia, muito pouco ou quase nada tem a ver com a palavra deserto no sentido estritamente etimológico/geográfico. Porém, antes da interpretação num texto bíblico, localizemos passagens das Sagradas Escrituras onde esta palavra – deserto – aparece.
           Nota: Apenas uma amostra. Depois, onde encontrarem, já sabem como fazer/perceber.

 Números 14, 2-3 2Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Aarão e toda a assembleia lhes disse: “Porque não morremos no país do Egito ou não morremos neste deserto?” 3Porque nos conduz o Senhor a esta terra onde seremos mortos à espada e onde nos arrebatarão as nossas mulheres e os nossos filhos? Melhor seria que voltássemos para o Egito?”

Números 14, 26-30 26 O Senhor falou a Moisés e a Aarão dizendo: 27“Até quando tolerarei esta assembleia perversa e os seus murmúrios contra mim? Porque Eu ouvi os murmúrios que os filhos de Israel proferiram contra Mim. 28Diz-lhes: Tão certo como vivo, diz o Senhor, segundo as próprias palavras que ouvi de vós, assim vos farei.29 Os vossos cadáveres ficarão neste deserto. E todos vós, que fostes recenseados, de vinte anos para cima, e que murmurastes contra Mim, 30jamais entrareis no país que vos tinha solenemente prometido, a fim de nele habitardes!

Isaías 40, 3-4 3Uma voz clama: “Abri no deserto um caminho para o Senhor, aplanai na solidão as veredas para o nosso Deus. 4Todo o vale seja alteado, toda a colina e toda a montanha sejam abaixadas, todos os cumes aplanados, e todos os terrenos escarpados sejam nivelados!»

Isaías 43, 19-21 19 Eis que vou realizar uma obra nova, a qual já começa: Não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto e fazer correr rios na solidão. 20Glorificar-Me-ão os animais selvagens, os chacais e as avestruzes, porque fiz brotar águas no deserto e correr rios numa terra árida, para dessedentar o Meu povo, o Meu eleito; 21o povo que formei para Mim cantará os Meus louvores.

Jeremias 31, 2-3 2Assim fala o Senhor: Achou graça no deserto o povo que tinha escapado da espada. Dentro em pouco, Israel gozará de repouso. 3De longe se me deixou ver o Senhor: Amo-te com um amor eterno, e por isso te outorguei os Meus favores.
           Fonte: Bíblia dos Capuchinhos

Marcos 1, 35 35E de madrugada, ainda escuro, levantou-se e saiu para um lugar deserto e ali se pôs em oração.
Marcos 6, 31 31 Diz-lhes então: “Vinde, retirai-vos para um lugar deserto e descansai um pouco» ….
Mateus 3, 1-3 1Naqueles dias chega João, o Batista, anunciando no deserto da Judeia e 2dizendo: «Convertei-vos, pois ficou próximo o reino dos céus». 3Era João quem fora falado através do profeta Isaías, ao dizer: Uma voz clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, e fazei direitas as suas veredas“.
Mateus 4, 1 1Então Jesus foi levado pelo Espírito a subir até ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.
           Fonte: Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos – tradução de Frederico Lourenço.

 

Um comentário alargado sobre deserto no início da vida pública de Jesus de Nazaré.

Mc 1, 11-13
11E uma voz surgiu dos céus: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo». 12Imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto, 13e no deserto esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no.

Este é o trecho que iremos comentar. Porém é importante deixar aqui os paralelos (sinópticos) de Mateus e Lucas. O Evangelista João não nos dá mais detalhes sobre a tentação do diabo a Jesus. Marcos dá-nos o essencial. E isso é suficiente para percebermos que em Mateus e Lucas são preparadas catequeses para as suas comunidades: (Em Mateus as comunidades de ex-judeus aderentes a Jesus e em Lucas, as comunidades de pagãos especialmente da Grécia e Roma).

Mt 4, 1-11
1Então, Jesus foi levado pelo Espírito para o deserto, para ser tentado pelo Diabo. 2Tendo jejuado durante quarenta dias e quarenta noites[1], por fim sentiu fome. 3Aproximando-se o tentador, disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz que estas pedras se tornem pães». 4Ele, em resposta, disse-lhe: «Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus»[2]. 5Então o Diabo levou-o consigo à cidade santa e colocou-o no pináculo do templo. 6E disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito e nas mãos te levarão, não aconteça que tropece numa pedra o teu pé»[3]. 7Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus»[4]. 8De novo o Diabo o levou consigo a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória. 9E disse-lhe: «Tudo isto te darei se, caindo por terra[5], me adorares». 10Então disse-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: O Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto»[6]. 11Então o Diabo deixou-o; e eis que os anjos vieram ter com Ele e serviam-no.

  1. O número quarenta evoca os quarenta anos de Israel no deserto antes de chegar à terra prometida (Ex 16,35; Nm 14,33s; 32,13; Dt 1,3), mas também os dias e as noites que Moisés passou na montanha do Horeb antes de receber as tábuas da Lei (cf. Ex 19s; 24,18; 34,28; Nm 14,34; Dt 9,9), ou a caminhada de Elias até ao mesmo monte (cf. 1 Rs 19,8).
  2. Dt 8,3.
  3. Sl 91,11s.
  4. Dt 6,16.
  5. Por terra é acrescento da tradução.
  6. Dt 5,9; 6,13. As tentações de Jesus, de acordo com os textos citados do AT, condizem com as tentações do povo eleito do AT na sua caminhada de quarenta anos pelo deserto.

Lc 4,1-13
1Jesus, cheio do Espírito Santo[1], voltou do Jordão e era conduzido pelo Espírito no deserto, 2sendo tentado pelo Diabo durante quarenta dias[2]. Não comeu nada nesses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. 3Disse-lhe o Diabo[3]: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se torne pão». 4Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: nem só de pão viverá o homem»[4]. 5Então, elevando-o, o Diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do mundo habitado. 6Disse-lhe o Diabo: «Dar-te-ei todo este poderio e a glória deles, porque me foi entregue e o dou a quem eu quiser. 7Se tu me adorares[5], tudo será teu». 8Respondendo, Jesus disse-lhe: «Está escrito: o Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto»[6]. 9Conduziu-o, então, a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, 10pois está escrito: aos seus anjos dará ordens a teu respeito para que te guardem 11e ainda: nas mãos te levarão, não aconteça que tropece numa pedra o teu pé». 12Em resposta, Jesus disse-lhe: «Está dito: Não tentarás o Senhor teu Deus»[7]. 13Tendo terminado toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo[8].

  1. É evidente a dupla referência ao Espírito recebido no batismo. Com ele, Jesus vai vencer as tentações e dar início à sua missão (4,14.18).
  2. Lc une Mc 1,13 (tentação durante os quarenta dias) com Mt 4,2 (três tentações ao fim de quarenta dias). O número quarenta designa, na Escritura, uma geração (1Sm 13,1), o tempo que Moisés passou na montanha (Ex 24,18), a caminhada de Elias (1Rs 19,8) e o tempo que Israel vagueou pelo deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Js 5,6).
  3. O nome Diabo (do grego diábolos: aquele que divide) é o mais frequente para designar o inimigo de Deus e do seu reino. O tentador retoma a palavra divina, pronunciada aquando do batismo (3,22: Tu és o meu filho amado…), pondo em relação a tentação com a teofania batismal.
  4. Dt 8,3 e Mt 4,4.
  5. : se te ajoelhares diante de mim.
  6. A prostração e a adoração remetem para a submissão total. Contudo, segundo Dt 6,13, aqui citado, só a Deus se deve adorar e servir; adorar é o mesmo verbo ajoelhar do v. 7 (proskynéō), estando Satanás a tentá-lo e a tentar que Jesus o reconheça como Deus.
  7. Sl 91,11-12.
  8. Esta é a primeira vitória de Jesus sobre o Diabo. Outras vão acontecer em 4,41; 6,18; 7,21; 8,2; 10,17-18. A última será em 22,3.53, já no cenário da paixão. A primeira vitória é sinal da última.

Desdobremos o comentário do texto de Marcos. Sobre Mateus e Lucas, trataremos o tema oportunamente.

Cena 1. – Versículo 11-11E uma voz surgiu dos céus: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo».
A imagem do batismo e a confirmação de que Jesus é o Filho amado do Pai, do Abba, de Deus, na sua humanidade.

Cena 2. – Versículo 1212Imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto,
Confirmado Jesus, o Filho de Deus feito carne, de imediato, o Espírito impeliu Jesus para o deserto – Deserto lugar de luta consigo (humanidade) em tempo de discernimento;

Cena 3. – Versículo 1313e no deserto esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no.

– 40 dias e 40 noites – Tempo bíblico de discernimento para a plena mudança:
– a) dos critérios humanos de ver o Reino de Deus proclamado;
– b) para os critérios de Deus: ver o desejado Reino de Deus a acontecer;
– Animais selvagens – todo o ambiente que rodeava Jesus no seu tempo – Não esqueçamos que Marcos escrevia em Roma, em tempos de ocupação;
– E os anjos serviam-no – Aqui os anjos são “as mulheres” que sempre O serviram até à morte de Cruz.

           Proporemos, brevemente, uma leitura comentada dos textos de Mateus e Lucas – os Evangelhos paralelos/sinópticos-e de novo Marcos. O tema será: “As tentações ou a tentação de Jesus? Como interpretar a vida pública de Jesus?”

OBS:
Reflexão de nossa responsabilidade e baseada em textos de D. António Couto, Dehonianos e do P. Rui Santiago, CSSR
(Continua)