Sessão nº 11
A simbologia e os significados na Bíblia (5)

Recordando….

           A Bíblia, que chegou até nós – cristãos católicos – pode vir da tradução de livros escritos originariamente em hebraico e aramaico, depois traduzidos para grego e finalmente para português. Falamos do Antigo Testamento. Septuaginta é o nome da versão da Bíblia hebraica traduzida em etapas para o grego koiné (grego acessível), entre o século III a.C. e o século I a. C Já no que refere ao Novo Testamento todo ele foi escrito em grego.

           Pode acontecer, ainda, que a Bíblia que tem em sua casa, resulte da tradução do latim para o português depois de traduzida do hebraico diretamente para o latim e do grego para o latim. Trata-se da tradução da Vulgata No sentido corrente, Vulgata é a tradução para o latim da Bíblia, escrita entre fins do século IV início do século V, por São Jerónimo, a pedido do bispo Dâmaso I, que foi usada pela Igreja Cristã e ainda é muito respeitada

           Chegados aqui, facilmente percebemos que, “pelo caminho”, se perderam significações e significantes importantes. Hoje vamos tratar mais um. Vamos à procura, na Bíblia traduzida do grego, dos significantes e significados para o verbo amar e para o substantivo amor. Se, como já dissemos por diversas vezes em sessões anteriores, um dos nomes que chamamos ao Senhor Nosso Deus é Amor, percebemos a razão para a necessidade de boa tradução deste verbo e deste substantivo.

Amar e amor na Bíblia

No grego, há quatro palavras diferentes que são traduzidas por amor – Ágape, Philia, Stergo e Eros.

  1. Ágape (ἀγάπη agápē): significa “amor” no grego moderno. Amor na dimensão mais elevada, incondicional, doação. Agapao é o verbo amar. Veremos adiante o belíssimo diálogo entre Jesus e Pedro ( Jo 21, 15-17)
  2. Philia (φιλία philía/filia): “amizade” no grego moderno, indica um amor virtuoso e desapaixonado. É o tipo de amor relacionado à amizade e companheirismo, onde não há a presença do eros. É descrito como o amor entre amigos e irmãos. Phileo é o olhar para alguém com afetuosa consideração, ter afeição, amizade, gostar de; podendo até ser traduzido por acariciar, beijar. Pode ser usado para o amor entre o marido e esposa. No Novo Testamento phileo é usado para expressar o amor de pai e mãe e de filho e de filha (Mateus 10,37). É usado para o amor de Jesus por Lázaro (João 11, 3-36) e uma vez é usado com relação ao discípulo amado (João 20,2).
  3. Storge (στοργή storgē): “afeição” do grego moderno. É usada para indicar a afeição natural como aquela que os pais sentem pela prole. É considerado o mais benéfico dos afetos. Acontece especialmente na família, entre seus membros. Normalmente é a caracterizada como o amor dos pais aos filhos e outros membros do núcleo familiar. É o tipo de amor que nasce naturalmente, muitas vezes biologicamente e diferentemente de philia e eros, em que o amor aparece de formas circunstanciais. É um amor considerado “pronto”, do nascimento.
  4. Eros (ἔρως érōs): remete à palavra grega moderna “érotas”, com a sua significação de “amor romântico”. Entretanto, eros não necessariamente evoca uma natureza sexual, embora muitas vezes esteja associado ao desejo, à atração física, ao prazer e ao sexo propriamente dito. O eros pode ser interpretado como um amor a quem se ama mais do que o amor de philos, podendo também se aplicar a definição de relacionamentos afetivos propriamente ditos. Seria o amor entre os apaixonados. 

           Portanto, ou conhecemos o verbo e/ou o substantivo de onde se traduziu por amar ou amor e compreenderemos com elevada aproximação o sentido do texto, ou arriscamos uma interpretação incorreta. E fica-nos ainda uma limitação: a dificuldade de não bebermos da “expressividade poética e imaginária” da língua hebraica.

           Um comentário alargado sobre as diferenças entre Philia (φιλία philía/filia): “amizade” no grego moderno  e Ágape (ἀγάπη agápē):“amor” no grego moderno, no texto de Jo 21,15-19.
           Não ter esta diferença em atenção prejudica, em definitivo, a compreensão do texto.

Jo 21, 15-19
15Depois de terem comido, disse Jesus a Simão Pedro: «Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?». Disse-lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que sou teu amigo». Disse-lhe Ele: «Apascenta os meus cordeiros». 16Disse-lhe de novo, pela segunda vez: «Simão, filho de João, amas-me?». Disse-lhe: «Sim, Senhor, Tu sabes que sou teu amigo». Disse-lhe Jesus: «Pastoreia as minhas ovelhas». 17Disse-lhe pela terceira vez: «Simão, filho de João, és meu amigo?». Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter dito pela terceira vez: «És meu amigo?» e disse-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que sou teu amigo!». Disse-lhe Jesus: «Apascenta as minhas ovelhas. 18Amen, amen te digo: quando eras mais novo, a ti mesmo te vestias e andavas por onde querias; mas, quando envelheceres, estenderás as tuas mãos e outro te vestirá e levará para onde não queres». 19Disse isto assinalando com que género de morte Pedro glorificaria Deus. E, tendo dito isto, disse-lhe: «Segue-me». (Quatro Evangelhos e Salmos da Conferência Episcopal Portuguesa)

Acompanhemos Ermes Ronchi in “As inquietantes perguntas do Evangelho”,Paulos Editora, 2017 – Págs.122/130

            …. Aqui ressoa uma das perguntas mais importantes e exigentes de toda a Bíblia: «Simão, tu amas-Me?» Quando interroga Pedro, Jesus interroga-me a mim. E o argumento é o amor. «Na tarde da vida seremos julgados pelo amor.» (São João da Cruz).
           Deus é a pergunta que se acende dentro das nossas palavras religiosas, muitas vezes pronunciadas sem sem páthos, sem éros. O anzol da cana de pesca agarra-nos precisamente onde somos mais humanos. E indica percursos, inicia processos.
           É comovente a humanidade de Jesus: ainda que tenha ressuscitado, implora amor, amor humano. Pode ir-Se embora, se for seguro que é amado. Não pede: Simão filho de João, entendeste a minha mensagem, compreendeste o que vivi? Mas é como se dissesse: deixo todo o amor, e digo não a projetos de todo o tipo. Devo ir, e deixo-vos com uma pergunta: suscitei amor em vós? A vós que, como Pedro, não estais seguros de vós mesmos devido a tantas traições, mas ainda Me amais, a vós confio a minha mensagem.
           Os Apóstolos voltaram para as suas casas, para o lago onde tudo tinha começado. Lá ouvem novamente a grande palavra que tinha, três anos antes, mudado as suas vidas: «Segue-Me!» E partem. E já não importa mais o medo, as ilusões acabadas no sangue e na fuga, as negações.
           Há um novo início que floresce por graça, a dizer-nos que «a fé vai de início em início, através de inícios que não têm fim» (São Gregório de Nissa), que viver é a infinita paciência de recomeçar.
           E isto é possível porque o traidor volta, e volta como amigo; o abandonado volta, e põe-se nas mãos dos que o abandonaram; o renegado volta, e fia-se totalmente, cegamente.
           «Eu vou pescar» disse Pedro (Jo 21,3). Eu volto atrás, tudo acabou. Encerrado o parêntesis daqueles três anos de itinerância livre e feliz, exaltante e batalhadora, Pedro rende-se. Com ele rendem-se também os seus companheiros: «Nós também vamos.»
           Então, abandonados os sonhos, saíram, subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. É uma triste noite sem estrelas, noite amarga, na qual, em cada reflexo das ondas, lhes parece ver naufragar um sonho, um rosto, uma vida.
           Noite sem frutos, porque compreenderam que não se volta atrás, que esquecer Cristo é trabalho estéril, que sem Ele a vida é como uma corrida atrás do vento (cf. Ecl 1,14), um vento durante a noite, feito de nada, e que ninguém pode controlar.
           Depois, já de madrugada, aquela voz da margem, quase docemente irónica: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» (Jo 21,5) Depois de uma noite tão má, depois de uma noite falhada, respondem em coro: «Não.» Sem Ti não temos nada, não podemos estar bem, longe da tua luz não vemos nada. Um pedido de ajuda.
           Mas o verdadeiro milagre não são as redes cheias que quase rebentam. O verdadeiro milagre é Pedro que se deita às águas, é a impaciência de Pedro que se lança ao lago, a urgência do amor, que sempre tem pressa, que não tem avisos ou castigos, que nada a chorar na direção d’Aquele que tinha renegado (cf. Jo 21,6-7).
           A proa do coração que se dirige na direção daquele pequeno fogo que está na praia. O verdadeiro milagre é que a fragilidade dos discípulos, a fragilidade de Pedro, a quem Jesus chamara “rocha”, a minha fragilidade não é um obstáculo para seguir o Senhor, mas é um recurso.
           O Mestre não se deixa impressionar pelos defeitos de ninguém, mas pronuncia e cria futuro. Como na primeira vez: «Simão, não tenhas receio! De hoje em diante serás pescador de homens» (Lc 5,10): reuni-los-ás a partir daquele lodo em que creem viver, mas não vivem; mostrar-lhes-ás que foram feitos para outra respiração, para um outro céu, para uma outra vida. Reuni-los-ás para a vida.
           O milagre é que a fraqueza, incurável, toda a minha missão para nada, as noites sem fruto, as traições, não são uma objeção, mas uma ocasião para serem feitos novos, para estar bem com o Senhor, para renovar a nossa paixão por Ele. Para melhor entender o seu coração.
           Nesta passagem vejo florir a verdadeira santidade, que não consiste na ausência de pecados, num campo sem ervas daninhas, mas nasce de uma paixão renovada. Verdadeira santidade é renovar agora a minha paixão por Cristo e pelo Evangelho. Agora.
           «Simão, filho de João, amas-Me?» E não existe passado que conte, não existe pecado escondido, não mais existe aquela noite à volta do fogo, no pátio de Caifás, em que Pedro, Cefas, a rocha, se tinha confundido perante três serviçais, em que por três vezes tinha jurado: «Não O conheço!» (Mt 26,69-74).
           Acabada a noite, pelas lágrimas de então e pelo amor de agora, à volta de outra fogueira, acesa por Jesus à face do universo, perante o coração de Pedro.
           É em nome do futuro que a negação de ontem se supera. E vale para sempre, vale para todos: o Senhor não perdoa como alguém que perdeu a memória, mas como um criador.
           Isto interessa ao Mestre: reacender as fogueiras, um coração reacendido, uma paixão ressuscitada: «Pedro, amas-Me?» A santidade não é uma paixão apagada, mas uma paixão convertida.
           Se apagas as paixões, serás um eunuco, mas nunca um santo. O Senhor cria criadores, artífices do futuro bom: «Cuida dos meus cordeiros.»

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           Na margem do lago, Jesus formula três perguntas, sempre diferentes, como três etapas através das quais se aproxima passo a passo de Pedro, à sua medida, ao seu entusiasmo que se faz frágil.
E para entender este magnifico diálogo, o mais belo de toda a literatura mundial, voltemos a ouvir as palavras originárias do Evangelho, no seu tom original. E imaginemos Jesus a pronunciar a pergunta, com o seu olhar à altura dos olhos, à altura do coração.

           Primeira pergunta: «Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?» Jesus emprega o verbo do agápe (agapâs me), o verbo do grande amor, do máximo possível, do confronto mútuo sobre tudo e sobre todos. Do coração rico que parte à procura da pobreza dos outros para a preencher.
Pedro respondeu somente em parte, evita comparações com os outros, e, evitando também o verbo de Jesus, adota o termo humilde da amizade: philéo (philô se). Não ousa afirmar que ama, até menos do que os outros; um véu de sombra sobre as suas palavras, a lembrança da outra fogueira faz-lhe dizer: certo, Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que sou teu amigo!

           Segunda pergunta
: «Simão, filho de João, tu amas-Me (agapâs me)?» Não mais importam os confrontos, não medidos com os outros, cada um tem a sua medida.
Quando o amor existe, não podes errar: é evidente, luminoso, indiscutível. Mas, como antes, Pedro evita os termos precisos da pergunta, e em vez de amor fala de amizade (philô se).
É como se Jesus somente pudesse usar o grande verbo amar (agapáo), Ele que é o amor por excelência. Nós não, aquela palavra faz-nos tremer. E Pedro responde confiando-se ainda ao nosso verbo submetido, que mais o tranquiliza, que é mais humano, mais próximo, que conhecemos bem; agarra-se à amizade.

           Terceira pergunta: Jesus reduz ainda mais as suas exigências e aproxima-se de Pedro. O Criador faz-se imagem da criatura e começa a usar os nossos termos, a usar os nossos verbos e diz: «Simão, filho de João, tu amas-Me?» (No original grego, esta pergunta é feita com philô se, que remete para a amizade.)
           Pelo menos o afeto, se o amor for demasiado, pelo menos a amizade, se o amor te mete medo. «Pedro, posso, pelo menos, esperar um bocadinho de afeto de ti?»
Jesus demonstra o seu amor reajustando por três vezes as exigências do amor. Até que as exigências de Pedro, a sua dedicação e a sua tristeza se tornem mais importantes do que as exigências de Jesus.
           Não é a perfeição que Ele procura em mim, mas a autenticidade. Não me vou esgotar para ser perfeito, mas para ser verdadeiro e não hipócrita, isso sim. Não estamos no mundo para ser imaculados, mas para ser encaminhados.
           E Jesus esquece o apogeu do agápe e coloca-se ao nível da pobreza da sua criatura, pois no amor o tu é mais importante do que o eu; se o amor é verdadeiro, o eu não se põe num pedestal, mas aos pés do amado.
Jesus, mendigo de amor, mendigo sem pretensões, conhece a minha pobreza, conhece que nela, somente nela, na pobreza, sou eu mesmo, e pede-me a verdade de um pouco de amizade.
           Gostaria de estar no lugar de Pedro para responder ao Senhor e dizer-Lhe: sim, Tu bem sabes que Te quero bem, um pouco de amizade entre tanta indiferença, um pouco de calor entre tanta frieza. Sim, sou teu amigo, seguir-Te-ei, compreendi que não procuras homens perfeitos, mas simplesmente homens verdadeiros, apaixonados por Ti.
           Não confies em Pedro-Cefas, na “rocha” que não existe em mim, mas em Simão, filho de João, ou seja, na minha verdade, inteira e humilde, chamas-me pelo meu nome familiar, duplo nome porque tecido de sombra e de luz.
          E no último dia, quando a tarde da vida se abrir sobre dias sem ocaso, o Senhor de novo apenas nos perguntará: será que gostas de Mim a valer e me queres bem?
          E mesmo que mil vezes O tenha traído, Ele mil vezes me perguntará: gostas de Mim? E não posso fazer outra coisa senão repetir, mil vezes se for preciso: sim, gosto de Ti. E juntos choraremos de alegria.
           Se nos perguntarem: tu, como cristão, em que acreditas? Qual é o coração simples da tua fé? Que a nossa resposta seja segura: creio em Deus Pai, em Jesus Cristo morto e ressuscitado, e a seguir os vários artigos do símbolo apostólico.
           O Apóstolo São João, na obra-prima que é a sua primeira carta, oferece uma resposta diversa: os cristãos são os que acreditam no amor: «Nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor.» (1Jo 4,16) Não se crê noutra coisa, não à omnipotência, à eternidade, à omnisciência de Deus, à perfeição: crê-se no amor.

 Faz todo o sentido ler a Bíblia com ouvidos que veem para além dos sons e olhos que ouvem a poética da mensagem do nosso Deus tão próximo na brisa que nos perpassa.
(Continua)