Sessão nº 13
A simbologia e os significados na Bíblia (7)

Continuando ….

            Continuamos a percorrer caminhos novos para o entendimento de significações e significantes importantes. Hoje vamos tratar mais um. Vamos à procura, na Bíblia traduzida do grego, do significante e do significado associados a POÇO e a ÁGUA VIVA. Se tivermos percebido bem o significado da passagem dos evangelistas no relato do Batismo de Jesus, tudo ficará mais claro:

Jo 1, 25-34
25Perguntaram-lhe e disseram-lhe: «Então porque batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?». 26João respondeu-lhes, dizendo: «Eu batizo na água. No meio de vós está quem vós não conheceis: 27o que atrás de mim vem, a quem eu não sou digno de desatar a correia da sandália». 28Isto aconteceu em Betânia, na outra margem do Jordão, onde João estava a batizar. 29No dia seguinte, viu Jesus, que vinha ter com ele, e disse: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Este é aquele acerca de quem eu disse: “Atrás de mim vem um homem, que adiante de mim surgiu, porque antes de mim existia”. 31Também eu não o conhecia, mas foi para que se manifestasse a Israel que eu vim batizar na água». 32E João deu testemunho, dizendo: «Vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e permaneceu sobre Ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar na água disse-me: “Aquele sobre quem vires o Espírito descer e sobre Ele permanecer, é Ele o que batiza no Espírito Santo”. 34Ora, eu vi e dou testemunho: este é o Filho de Deus».

            Repetindo-nos mais uma vez, é importante voltar a lembrar que a Bíblia é uma mediação, uma ajuda no caminho da vivência e crescimento da fé e nada a biografia do nosso Pai, Deus, Abba, Amor e do seu Filho, Jesus de Nazaré, o Cristo (Ungido), o Messias (Salvador).

O “poço” e a “água”:

De H2O até Água Viva. Na Bíblia, são temas apontados à Esperança e à Salvação.

 Jo 4, 5-42
4Ora, era necessário que Ele atravessasse a Samaria. 5Chegou, assim, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, próxima do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. 6Ficava ali a fonte de Jacob. Então Jesus, fatigado da caminhada, sentou-se junto à fonte. Era por volta da hora sexta 7Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber». 8Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. 9Disse-lhe, então, a mulher samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu uma mulher samaritana?». Com efeito, os judeus não se dão com os samaritanos. 10Respondeu Jesus e disse-lhe: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: “Dá-me de beber”, tu é que lhe pedirias, e Ele dar-te-ia água viva». 11Disse-lhe a mulher: «Senhor, não tens nada com que a tirar e o poço é fundo! De onde obténs, então, a água viva? 12Serás Tu maior que o nosso Pai Jacob, que nos deu o poço, do qual ele bebeu, e também os seus filhos e os seus animais?». 13Respondeu Jesus e disse-lhe: «Todo aquele que bebe desta água terá sede novamente; 14mas quem beber da água que Eu lhe darei, jamais terá sede, para sempre. Pelo contrário: a água que lhe darei tornar-se-á, nele, uma fonte de água que jorra para a vida eterna».15Disse-lhe a mulher: «Senhor, dá-me essa água, para que eu não mais tenha sede e nem venha aqui tirá-la». 16Disse-lhe Ele: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». 17Respondeu-lhe a mulher e disse-lhe: «Não tenho marido». Disse-lhe Jesus: «Disseste bem: “Não tenho marido”; 18de facto, tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido. Nisto disseste a verdade». 19Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que Tu és um profeta. 20Os nossos pais adoraram neste monte; vós, porém, dizeis que é em Jerusalém o lugar onde é necessário adorar». 21Disse-lhe Jesus: «Acredita em mim, mulher: está a chegar a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai. 22Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23Mas está a chegar a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade. Pois o Pai procura os que assim o adoram. 24Deus é Espírito; e os que o adoram é necessário que o adorem em espírito e verdade». 25Disse-lhe a mulher: «Sei que está a chegar o Messias, o chamado Cristo. Quando Ele chegar, há de anunciar-nos todas as coisas». 26Disse-lhe Jesus: «Sou Eu, o que fala contigo». 27Nisto, chegaram os seus discípulos e admiravam-se que estivesse a falar com uma mulher. No entanto, nenhum disse: «Que procuras?», ou: «De que falas com ela?». 28Então, a mulher deixou o seu cântaro, partiu para a cidade e disse aos homens: 29«Vinde ver um homem que me disse tudo o que fiz. Não será Ele o Cristo?». 30Eles saíram da cidade e iam ter com Jesus. 31Entretanto, pediam-lhe os discípulos, dizendo: «Rabi, come». 32Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis». 33Diziam, então, os discípulos uns aos outros: «Ter-lhe-á alguém trazido de comer?». 34Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar à consumação a sua obra. 35Não dizeis vós: “Mais quatro meses e chega a ceifa”? Eis que vos digo: levantai os vossos olhos e observai os campos; já estão dourados para a ceifa. 36Quem ceifa recebe a recompensa e recolhe fruto para a vida eterna, para que se alegrem juntamente o que semeia e o que ceifa. 37Nisto, de facto, é verdadeiro o dito: “Um é o que semeia, e outro o que ceifa”. 38Eu enviei-vos a ceifar aquilo pelo qual não vos afadigastes; outros se afadigaram, e vós entrastes na sua fadiga». 39Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele, por causa da palavra da mulher, que dava testemunho: «Disse-me tudo o que fiz». 40Por isso, quando os samaritanos vieram ter com Ele, pediram-lhe que permanecesse junto deles. E permaneceu ali dois dias. 41E muitos mais acreditaram por causa da palavra dele 42e diziam à mulher: «Já não é por causa do que disseste que acreditamos, pois nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o salvador do mundo».

Comentemos….

  1. Samaritanos e Judeus – Dificuldade de relacionamento, mesmo que todos fossem habitantes do Israel – terra e povo eleito;
  2. Israel (do qual a Samaria fazia parte) sempre infiel; Deus o Esposo Fiel, a esposa (Israel) a esposa sempre infiel) …
  3. Jesus vai ao poço na hora sexta – hora da “sesta” – meio-dia; Vai só, porque qual Esposo quer encontrar a esposa em conversa só a dois. Envia os apóstolos (todos) à cidade buscar comida. Logo todos!!! A conversa é a dois…

Está escrito: a beira do poço. É um lugar esponsal.
E se houvesse dúvidas:
– Junto ao poço: Génesis – Cap. 24 – Isaac desposa Rebeca. Está escrito;
– Junto ao poço: Génesis – Cap. 29 – Jacob desposa Raquel. Está escrito;
– Junto ao poço – Êxodo – Cap. 2 -Moisés desposa Séfora em Madian. Está escrito.

  1. Vem a samaritana ao poço àquela hora-porque “indigna” de andar na rua a horas “decentes” – vem na hora da “sesta”, onde não há vida na cidade;
  2. Vem buscar água e encontra Jesus que lhe pede água, sabendo que a água de que fala não é a do poço. Intriga a samaritana: Como é que Tu, sendo judeu me pedes água, a mim que sou samaritana? Tu nem balde tens e o poço é fundo?
  3. Se soubesses quem fala contigo eras tu que pedias água. …. O teu marido? Não tenho. Eu sei: tiveste 5 e o que tens agora não é teu marido.
  4. Sim, os 6 maridos do Israel infiel. Ele, Jesus, sabe tudo, porque as traições foram feitas aos olhos do Esposo. Ela já percebeu que Ele sabe tudo. Agora: silêncio. Está a acontecer uma reconciliação. Contemos as infidelidades – 5- Egipto, Assíria, Babilónia, Pérsia, Selêucida a quem Israel se entregou e foi dominado. Agora mais 1, o 6º. Falamos de Roma.
  5. Mas, Eu não desisti de ti Ó Israel e dar-te-ei a Água que fará com que não mais te vejas obrigada a vir ao poço….
  6. Conversas de casal…. Chegamos ao 7º marido – o Esposo Fiel que nunca desistiu/desiste. E este 7 é um símbolo importante: a Plenitude. O nosso Deus é um Esposo que nunca desiste de “cortejar” a sua esposa amada (por muito infiel que tenha sido). Deus vem, sempre, procurar-nos junto ao poço, vem pra (curar-nos) junto ao poço. A esposa Israel está a ser resgatada. O Esposo Fiel está e reconquistar Israel (Israel em hebraico significa: o que luta com Deus).
  7. A samaritana – a missionária improvável: Vinde ver. Encontrei o Messias. Disse-me tudo o que se passou comigo. Ele é de facto o Messias…, a enorme Fé da improvável discípula missionária.
  1. Deus vem sempre procurar-nos junto ao poço… porque não desiste de nos amar…. Mesmo quetenha de nos ir buscar ao “fundo do poço”. E, se a samaritana for eu, fores tu?
  1. Jesus mete-se comigo com a desculpa de que precisa de mim;
  2. Diz-me que precisa de mim porque, se dissesse a verdade que preciso dele, não acreditaria. Faz-nos desejar o que tem para nos dar. É a pedagogia do desejo:
  3. Diz-nos Santo Agostinho:
    “Senhor, dá-me o que me pedes e então pede-me o que quiseres.”
  1. Jesus está sempre:
    A pedir-me tempo e eu não tenho tempo;
    A pedir-me disponibilidade e eu não tenho disponibilidade;
    A pedir-me entusiasmo e meu não é assim tão grande;
    A pedir-me que tenha Fé n’Ele e eu nem sei se o que tenho se pode chamar Fé.
    Mas, não há problema: Jesus pede-nos o que tem para nos dar e em abundância. Temos de lhe dar tempo.
  1. Mas, …. A partir da samaritana:
    Como é que Tu me pedes a mim que sou ignorante,
    a mim que sou ateu,
    a mim que sou cientista,
    a mim que sou homossexual,
    a mim que sou divorciado,
    a mim que sou critico, a mim
    que não sou da tua raça, etc…
    a mim …
    a mim ….Eu, a mim, que nem sei porque Tu me estás a envolver nisto, e Tu a investires em mim, procurando que eu “beba da Tua água”? Porque é que Tu te vieste meter comigo? ……
  1. E duma samaritana (mulher, desprezada de homens, a última dos últimos…), nasce a mais improvável das Apostolas ….

(Comentário baseado em Sermão proferido pelo Padre Rui Santiago, cssr)

Fica um belíssimo texto com muito mais qualidade e propriedade que as nossas palavras anteriores.

«Dá-me sempre desta água»: O encontro de Jesus com a samaritana.

De Enzo Bianchi in “Monastero di Bose”
Publicado em 16.03.2017 – Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

            “De Jerusalém Jesus deve regressar à Galileia, e poderia fazê-lo passando o vale do Jordão. A estrada era mais plana, mais segura, e permitia não ter de atravessar a Samaria, terra cujos habitantes eram há séculos inimigos dos judeus, de tal maneira que os tinham como impuros e heréticos, e por isso os molestavam quando a atravessavam.

            Todavia, diz o texto que Jesus «tinha de» passar pela Samaria, um “dever” que exprime uma necessidade divina: a obediência a Deus. Precisamente porque foi enviado não só aos judeus, Jesus atravessa aquela região para realizar a sua missão. Por causa disso receberá o insulto de quem não o compreende: «És um samaritano e tens demónio» (João 8, 48). Mesmo assim Jesus aceita encontrar aqueles que são considerados inimigos e ímpios. Por isso vai procurar esse povo desprezado e faz-se samaritano entre os samaritanos, parando junto a um poço, como o samaritano da parábola parou junto de quem tinha sido atingido por salteadores (cf. Lucas 10, 33-35).

«Como é que tu, judeu, pedes de beber a mim, uma mulher samaritana?». Que abaixamento! É isto que a toca e acende uma dinâmica relacional, num face a face cordial, sem mais barreiras. Entre Jesus e a mulher, com efeito, caiu um muro de separação

            Na hora mais quente do dia chega à Samaria, «cansado da caminhada», e vai sentar-se próximo do poço de Sicar, o poço de Jacob. Está fatigado e com sede mas não tem meios para chegar à água. Chega então uma mulher que, talvez por causa do seu comportamento imoral publicamente reconhecido, é obrigada a ir para a estrada àquela hora, para não se encontrar com quantos a desprezam.

            Jesus pede-lhe: «Dá-me de beber». Ao ouvir aquelas palavras na língua dos judeus, ela maravilha-se: alguém que está na sua mesma condição de assedentada lhe pede de beber, lhe pede hospitalidade, mas é um inimigo, alguém que deveria sentir-se superior a ela. Uma mulher samaritana poderia esperar apenas desprezo de um homem judeu; Ele, ao contrário, faz-se pedinte junto dela. Eis a verdadeira autoridade vivida por Jesus: a sua capacidade de aumentar o outro, de o fazer crescer.

            Espantada, a mulher pergunta a Jesus: «Como é que Tu, judeu, pedes de beber a mim, uma mulher samaritana?». Que abaixamento! É isto que a toca e acende uma dinâmica relacional, num face a face cordial, sem mais barreiras. Entre Jesus e a mulher, com efeito, caiu um muro de separação, melhor, dois: um devido à inimizade entre samaritanos e judeus, e outro cultural e religioso de injusta disparidade, que impedia um homem, em particular um rabi, de conversar com uma mulher. Mas se uma pessoa não pode ir a Deus, é Deus que a vai procurar, porque ninguém pode ser excluído do seu amor: é o que narra Jesus com o seu comportamento.

            Na resposta dada a Jesus, a mulher reconhece implicitamente os seus numerosos fracassos, a sua sede frustrada de comunhão e de amor; é uma mulher na miséria, que conhece donos mas não um esposo, uma mulher explorada e abandonada. Mas descobrindo-se a si mesma, descobre que Jesus é profeta, e logo lhe pergunta onde é possível encontrar Deus e começar uma vida de comunhão com Ele

            Ele, intuindo que o diálogo promete ser de qualidade, começa a intrigar a mulher: «Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz “dá-me de beber”, haverias de lho ter pedido e Ele ter-te-ia dado água viva». A mulher tem sede, Jesus tem sede, mas, na realidade, quem dá de beber ao outro? Há uma sede de água de Jesus e da mulher, tornada mais premente pelo calor, mas há também uma outra sede que lentamente emerge… Jesus sabe que há uma sede mais profunda e sabe que o poço simboliza a Torá, a parte das Escrituras que os samaritanos tinham como a única que continha a Palavra de Deus e à qual devem chegar para viver como crentes. Jesus sabe também que esta mulher, figura da Samaria adúltera (cf. Oseias 2, 7), tentou aplacar a sua sede através de caminhos desacertados: teve vários homens, bebeu toda a espécie de água, vítima e artífice de amores desacertados…

            E assim Ele revela a sua condição, mas sem a condenar, antes convidando-a a aderir à realidade e, em consequência, a regressar ao Deus vivo. A samaritana, curiosa, quer saber mais: «Quem és Tu que dás essa água viva? Serás talvez maior que o nosso pai Jacob? Tens realmente uma água que dessedenta para sempre? Onde vais buscar essa água viva?». O patriarca Jacob não só tinha escavado aquele poço profundo, como, segundo a tradição judaica, tinha o poder de fazer subir a água apenas com a sua presença. Jesus é talvez maior que Jacob, poderá talvez dar água que sobe do poço, água viva?

            A mulher aceita colocar-se em jogo e recebe, em troca, uma promessa extraordinária: «A água deste poço não mata a sede para sempre, a Lei de Moisés não mata a sede definitivamente, mas Eu dou uma água que se torna fonte inesgotável para a vida eterna». Jesus anuncia-lhe o inaudito, o humanamente impossível: há água por Ele dada que, em vez de ser extraída do poço, torna-se fonte que jorra, água que sobe da profundidade. Beber a água por Ele dada significa encontrar em si uma fonte interior: essa água é o Espírito derramado por Jesus nos nossos corações, Espírito que jorra para a vida eterna, que no coração do crente se torna “mestre interior”.

            A samaritana começa a intuir algo, e então pede: «Senhor, dá-me dessa água!». Aqui, Jesus dá uma reviravolta imprevista ao diálogo. «Vai chamar o teu marido e volta aqui». Que tem isto a ver com o marido? Na verdade Jesus conhece bem a situação da samaritana, porque «conhecia aquilo que há em cada homem» (João 2, 25). Ele lê na vida amorosa desgraçada daquela mulher a vida idolátrica dos samaritanos com os ídolos estrangeiros. Lê simbolicamente a história do Reino do Norte, Israel, chamado pelos profetas de «mulher adúltera e prostituta» devido à infidelidade ao Esposo único, o Senhor Deus, e ao adultério com os falsos ídolos (cf. Oseias 2,4 – 3,6).

            O encontro humaníssimo com Jesus transformou aquela mulher numa criatura nova, tornando-a testemunha e evangelizadora. É por isso que, «deixando a sua ânfora» – gesto que diz mais do que muitas palavras -, corre à cidade a testemunhar o que lhe aconteceu

            A mulher, respondendo que agora não tem marido, que anda à procura de amantes, confessa não ter encontrado o esposo único, sempre fiel no amor, mesmo em caso de traição. Jesus está diante do povo samaritano para lhes dizer que o Senhor nunca os abandonou, que o quer atrair a si e celebrar com ele bodas de aliança eterna. É por isso que a samaritana, para além da água, deve encontrar quem é a fonte, atrás do dom deve descobrir o doador.

            Na resposta dada a Jesus, reconhece implicitamente os seus numerosos fracassos, a sua sede frustrada de comunhão e de amor; é uma mulher na miséria, que conhece donos mas não um esposo, uma mulher explorada e abandonada. Mas descobrindo-se a si mesma, descobre que Jesus é profeta, e logo lhe pergunta onde é possível adorar, onde é possível encontrar Deus e começar uma vida de comunhão com Ele: em Jerusalém, como dizem os judeus, ou no monte Garizim, como defendem os samaritanos?

            Jesus anuncia-lhe então a hora: «Crê-me, mulher, chega a hora – e é esta – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e Verdade», isto é, no Espírito Santo e no próprio Jesus Cristo, que é a Verdade, a última e definitiva narração de Deus. Sim, o lugar da autêntica liturgia cristã já não é um lugar-santuário, monte, templo ou catedral, mas é a morada do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ou seja, é a nossa pessoa inteira, corpo de Cristo (cf. 2 Coríntios 13, 5) e «templo do Espírito» (1 Coríntios 6, 19).

            Diante desta palavra, a samaritana ousa confessar a própria expetativa: ela e a sua gente esperam o Messias profético, o novo Moisés, esperam aquele que revelará tudo. E é nesse momento que Jesus lhe diz: «Eu sou – o nome de Deus -, que te falo». A mulher revelou-se na sua miséria, Jesus revela-se na sua verdade de Messias, de Cristo, enviado de Deus.

Depois de ter recordado os factos, sugere uma interpretação: «Será Ele o Messias?». Não impõe a quantos a escutam um dogma, nem uma verdade expressa em termos rígidos, mas propõe uma leitura que lhes permitirá tomar uma opção em liberdade, movidos pelo amor. Sugere mais que conclui, e assim acende o desejo do encontro

            A partir de então o encontro humaníssimo com Jesus transformou aquela mulher numa criatura nova, tornando-a testemunha e evangelizadora. É por isso que, «deixando a sua ânfora» – gesto que diz mais do que muitas palavras -, corre à cidade a testemunhar o que lhe aconteceu. Para a samaritana, testemunhar é antes de mais recordar os acontecimentos, narrar a própria experiência: alguma coisa de decisivo ocorreu na sua vida, e isso provocou nela uma mutação, uma conversão. E assim, depois de ter recordado os factos, sugere uma interpretação: «Será Ele o Messias?». Não impõe a quantos a escutam um dogma, nem uma verdade expressa em termos rígidos, mas propõe uma leitura que lhes permitirá tomar uma opção em liberdade, movidos pelo amor. Sugere mais que conclui, e assim acende o desejo do encontro.

            «A fé nasce da escuta» (Romanos 10, 17), dirá o apóstolo Paulo: da escuta de Jesus nasceu a fé da samaritana, da escuta da samaritana nasceu a fé da sua gente. E da fé provém o conhecimento, do conhecimento o amor: este é o acontecimento cristão, admiravelmente sintetizado no encontro de duas pessoas sedentas!”

(Continua)