Sessão nº 16
Do Antigo ao Novo Testamento – “O Resto Fiel”.

          A passagem do Antigo Testamento, a Escritura da Antiga Aliança, para o Novo Testamento, a Escritura da Nova Aliança, é uma passagem de relação/tensão entre continuidade e rutura. Continuidade, pois o Deus do AT é o também o Pai de Jesus. Rutura, pois marca o fim de uma etapa e o início de outra. Jesus dá continuidade, mas não continuação. Com Jesus acontece uma Nova Aliança, mas diferente do que conhecemos por Antiga Aliança.
A passagem/o ponto de viragem é a Vida de Jesus. Depois, a vida com Jesus e com os seus apóstolos e discípulos.

          O AT ou AA nasce de uma epopeia e tem uma centralidade. A epopeia é a libertação do povo escravo às ordens do faraó do Egito. A centralidade é a Lei.

          O NT ou NA é a Vida de Jesus como saga de libertação e a centralidade é a ação do Espírito de Jesus a animar um Reino Novo. No NT o centro não é a Lei, mas o Jesus vivente através do Seu Espírito.

          Desde a libertação do povo escravizado no Egito dos faraós até hoje há duas realidades que convivem lado a lado: a fidelidade (parcela do Povo de Deus que procura dar condições a Deus para que Ele suscite uma Nova Aliança) e a infidelidade (parcela do povo de Deus que opta pela absolutização da Lei e da tradição que considera como intocável e definitiva). Esta parcela do povo de Deus põe dificuldades permanentes à suscitação de uma Nova Aliança. A Lei deixa de existir para proteção do povo, mas passa a ser o povo “escravo” da proteção da Lei. A Lei passa a ser um fim e não um meio.

          A parcela do Povo de Deus que sempre procurou dar condições a Deus para que ele suscitasse uma Nova aliança é conhecida pela teologia bíblica como “o resto fiel de Yahweh “. É este “resto fiel” que continuou com o seu SIM a Deus e a permitir a criação do verdadeiro Reino de Deus.

          Na NA, hoje, continuam a conviver, ainda, as duas realidades – os da fidelidade e os da infidelidade. Haja um “resto fiel” e o Pai de Jesus e Pai nosso continuará a abençoar o seu povo.

          Quais são as figuras deste “resto fiel” que são colocadas nesta passagem do AT/AA para o NT/NA e que simbolizam todos os fiéis anónimos?

          I – João Batista.

          João Batista é o último profeta, aquele que faz a transição do AT para o NT.

          Vamos refletir sobre esta figura acompanhados por um ícone oriental (é bom “mergulhar” nos entendimentos da bíblia a partir da iconografia).

Ícone oriental – “O Batismo de Jesus”

Reparemos no ícone:

  1. João Batista veste a túnica de Elias. Porquê?
  2. João Batista coloca a ponta do pé fora da terra rasgada de passagem para o outro lado. Porquê?

          Para resposta ao ponto 1.
          2º Livro dos Reis – 2, 1-
          1.Eis o que se passou no dia em que o Senhor arrebatou Elias ao céu num turbilhão: Elias e Eliseu partiram de Gálgala. 2.Elias disse a Eliseu: “Fica aqui, porque o Senhor me mandou a Betel”. “Por Deus e por tua vida – respondeu Eliseu –, não te deixarei.” E desceram a Betel. 3.Os filhos dos profetas, que estavam em Betel, saíram ao encontro de Eliseu e disseram-lhe: “Sabes que o Senhor vai tirar hoje o teu amo de sobre a tua cabeça?”. “Sim, eu o sei! Ficai calados!” 4. Elias disse-lhe: “Fica aqui, Eliseu, porque o Senhor manda-me a Jericó”. “Por Deus e por tua vida – respondeu ele –, não te deixarei.” E chegaram a Jericó. 5.Os filhos dos profetas que estavam em Jericó foram ter com Eliseu e disseram-lhe: “Sabes que o Senhor vai tirar hoje o teu amo de sobre a tua cabeça?”. “Sim, eu o sei. Calai-vos.” 6. Elias disse-lhe: “Fica aqui, porque o Senhor manda-me ao Jordão”. “Por Deus e pela tua vida – respondeu Eliseu –, não te deixarei.” E partiram juntos. 7.Seguiram-nos cinquenta filhos de profetas os quais pararam ao longe, diante deles, enquanto Elias e Eliseu se detinham à beira do Jordão. 8.Elias tomou o seu manto, dobrou-o e feriu com ele as águas, que se separaram para as duas bandas, de modo que atravessaram ambos a pé enxuto. 9.Tendo passado, Elias disse a Eliseu: “Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti: que posso eu fazer por ti?”. Eliseu respondeu: “Seja-me concedida uma porção dobrada do teu espírito”. 10.“Pedes uma coisa difícil – replicou Elias –. “Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado: mas se não me vires, não te será dado.” 11.Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro e Elias subiu ao céu num turbilhão. 12.Vendo isso, Eliseu exclamou: “Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!”. E não o viu mais. Tomando então as suas vestes, rasgou-as em duas partes. 13.Apanhou o manto que Elias deixara cair e, voltando até o Jordão, parou à beira do rio. 14.Tomou o manto que Elias deixara cair, bateu com ele nas águas, dizendo: “Onde está o Senhor, o Deus de Elias? Onde está ele?”. Tendo ferido as águas, estas separaram-se para um e outro lado e Eliseu o atravessou. 15.Os filhos dos profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera defronte deles, disseram: “O espírito de Elias repousa em Eliseu’’. Foram-lhe ao encontro, prostraram-se por terra diante dele,”

          O manto que passou de Elias para Eliseu, para…. para …  João Batista. João Batista transporta o manto de Elias. Recordemos que uma das perguntas que foi feita várias vezes a João Batista foi: És tu Elias? Os judeus conheciam bem as Escrituras.

        Um mito de Israel – referido nesta passagem do Livro dos Reis – dizia que Deus teria arrebatado Elias para junto de Si e estava a guardá-lo para o enviar quando suscitasse o Messias (o Cristo, o Ungido) para o Seu povo. Este quadro icónico mostra o anúncio, a chegada do Messias, a passagem para a NA por uma das figuras simbólicas do “resto fiel” – João Batista.

          Para resposta ao ponto 2.

          A nova Terra Prometida está já ali. João quase a toca. A ponta do pé já quase a toca. Deixa-a para Jesus de Nazaré…

Mt 3, 16-17
        16Tendo Jesus sido batizado, imediatamente saiu da água, e eis que os céus se abriram para Ele, e viu o Espírito de Deus a descer como uma pomba e vir sobre Ele. 17E eis que veio uma voz dos céus, dizendo: «Este é o meu Filho amado, no qual me comprazo».

II – Miriam – Maria (pois claro!)
          Maria, o rosto mais concreto do que é o “resto fiel” de toda a A.A.  É a visibilidade maior de um “resto fiel” de plena fidelidade a Deus. A Senhora do SIM. Israel foi rejeitando vez atras de vez o Esposo. Foi uma “esposa infiel” em tantos e tantos momentos. Mas houve: um faça-seum Sim… e Maria é isso. No momento de chamada disse presente, sem hesitar.
A plenitude do seu SIM está no Magnificat:

Lc 1
46Maria disse, então:
47«A minha alma engrandece o Senhor
e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador,
48porque pôs o olhar na humildade da sua serva.
Eis que, a partir de agora, me chamarão feliz todas as gerações,
49porque o Poderoso fez em mim grandes coisas.
Santo é o seu Nome
50e a sua misericórdia estende-se de
geração em geração para os que o temem.
51Mostrou a força do seu braço
e dispersou os soberbos no pensamento dos seus corações;
52derrubou os poderosos dos tronos,
e exaltou os humildes;
53aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu sem nada;
54socorreu Israel, seu servo,
recordando-se da misericórdia,
55como afirmou aos nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre». 

Mas este hino vai remeter-nos para Ana, mãe de Samuel, 1000 anos antes. Uma figura grandiosa e fiel ao Deus Yahweh. Será importante comparar os 2 hinos.

1 Samuel 2, 1-10
1Então Ana orou assim:
O Senhor Deus encheu o meu coração de alegria;
por causa do que ele fez, eu ando de cabeça erguida.
Estou rindo dos meus inimigos
e me sinto feliz, pois Deus me ajudou.
2Ninguém é santo como o Senhor;
não existe outro deus além dele,
e não há nenhum protetor como o nosso Deus.
3Não fiquem contando vantagens
e não digam mais palavras orgulhosas.
Pois o Senhor é Deus que conhece
e julga tudo o que as pessoas fazem.
4Os arcos dos soldados fortes estão quebrados,
mas os soldados fracos se tornam fortes.
5Os que antes estavam fartos agora se empregam para ganhar comida,
mas os que tinham fome agora estão satisfeitos.
A mulher que não podia ter filhos deu à luz sete filhos,
mas a que possuía muitos filhos ficou sem nenhum.
6O Senhor Deus é quem tira a vida e quem a dá.
É ele quem manda a pessoa para o mundo dos mortos
e a faz voltar de lá.
7Ele faz com que alguns fiquem pobres e outros, ricos;
rebaixa uns e eleva outros.
8Deus levanta os pobres do pó
e tira da miséria os necessitados.
Ele faz com que os pobres sejam companheiros dos príncipes
e os põe em lugares de honra.
Os alicerces da terra são de Deus, o Senhor;
ele construiu o mundo sobre eles.
9Ele protege a vida dos que são fiéis a ele,
mas deixa que os maus desapareçam na escuridão,
pois ninguém vence pela sua própria força.
10Os inimigos de Deus, o Senhor, serão destruídos;
ele trovejará do céu contra eles.
O Senhor julgará o mundo inteiro;
ele dará poder ao seu rei
e dará a vitória a esse rei que ele escolheu. 

III – Ana, a profetisa do Templo – Apresentação de Jesus

Lc 2, 36-38
          36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Era de idade muito avançada, tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade, 37e viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, prestando culto noite e dia com jejuns e orações. 38Tendo chegado naquela hora, agradecia a Deus e falava acerca dele a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.

          Quem é esta profetisa?

          Ana, viúva, casada durante 7 anos (perceber o simbólico do 7), idade avançada – oitenta e quatro anos (7 vezes 12 – perceber o simbólico do 7 e do 12). Obviamente que o evangelista se refere à Ana, mãe de Samuel. Estava no Templo há mais de 1000 anos à espera do Messias. É a primeira missionária, anunciadora de Jesus, no evangelho de Lucas. Mulher missionária. Outra aparecerá junto ao sepulcro na Páscoa. Fiel ao Deus de Yahweh até à chegada do Filho – Jesus de Nazaré.

IV – Simeão, o velho Simeão – Apresentação de Jesus

Lc 2, 25-32
25Ora, eis que havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão, um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele. 26Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. 27E veio ao templo movido pelo Espírito. Quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com Ele procederem segundo o costume da Lei, 28Simeão acolheu-o nos braços, bendisse a Deus e disse:

29«Agora, Senhor, podes deixar partir
em paz o teu servo segundo a tua palavra[20],
30porque os meus olhos viram a tua salvação
31que preparaste diante de todos os povos:
32luz para revelação aos pagãos
e glória do teu povo, Israel».

          Como mais tarde no quadro da transfiguração, Elias e Moisés desaparecem e fica Jesus, também neste quadro de Lucas no Templo, Simeão desaparece e fica Jesus. Estava cumprido o seu papel.

          Ainda a partir de Simeão encontremos a 5ª figura do “resto fiel”. Novamente um ícone como ajuda.

Icone conhecido por “THEOTOKOS” – “Mãe de Deus”

Theotokos (grego: Θεοτόκος, transliteração: Theotókos) é o título grego de Maria, usado especialmente na Igreja Ortodoxa e Igrejas Orientais Católicas. Sua tradução literal para o português inclui “portadora de Deus”.

Mas como titular o ícone – Mãe de Deus – se vemos um velho (Simeão) com um menino ao colo (Jesus)?!!

          V – Mãe de Jesus
          Se percorrermos o Evangelho de João nunca nos aparece o nome Maria como a Mãe de Jesus. Sempre Mãe de Jesus apenas. E em duas vezes: Nas Bodas de Caná e junto à Cruz.

          Quem é esta Mãe de Jesus? É aquela que no AT/AA gera a Vida do NT/NA, Jesus de Nazaré.

          Mãe de Jesus significa:
– Aliança com a História;
– Povo que gera Jesus na sua fidelidade.
– Entranhas humanas em que Deus foi gerando o seu Filho.

Portanto, na lógica de João:
– Maria é Mãe de Jesus;
– João Batista é Mãe de Jesus;
– Simeão é Mãe de Jesus;
– Ana é Mãe de Jesus;
– Isaías é Mãe de Jesus;
– Jeremias é Mãe de Jesus;
– Elias é Mãe de Jesus;
– David é Mãe de Jesus
…… Todo a AA é Mãe de Jesus se preenche a fidelidade ao Deus Yahweh.
Mãe de Jesus é o que está antes da HORA de Jesus. Percebemos, aqui, o diálogo de Jesus com a Mãe nas Bodas de Caná: “Mulher, ainda não é chegada a minha HORA!”

          Uma nota final.

          Está na altura de perceber o quadro do Evangelista João junto à Cruz.

Jo 19, 25-27
25Junto à cruz de Jesus, estavam de pé a sua Mãe, a irmã da sua Mãe, Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. 26Então Jesus, ao ver a Mãe e, próximo, o discípulo que amava, disse à Mãe: «Mulher, eis o teu filho». 27Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe». E, a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a entre os seus.

… a Mãe – o “resto fiel” da AA;
… o discípulo que amava – toda a NA que é gerada por Jesus e com todos à Sua volta;
… “Eis a Tua Mãe” – pois necessitas de ficar com Ela como matriz- do Deus da AA ao Deus da NA;
… “Mulher, eis o teu filho” – pois sem ele(s) ficarás estéril e a humanidade não pode continuar o projeto do nosso Deus.

Como cristãos (NA) somos já o povo de chamados, de discípulos amados.

NOTA:
Texto apoiado em palestras de P. Rui Santiago, cssr, no teólogo Ariel Álvarez Valdés e em D. António Couto.