Sessão nº 3
O que é a Bíblia?

Abordagens fundamentais.
Sobre a etimologia da palavra

A origem da palavra Bíblia é muito antiga. As primeiras Bíblias foram escritas em papiros e guardadas em rolos. Esta era a forma utilizada e a maneira mais pratica de se proceder. De origem egípcia, os papiros foram usados pelos Romanos e comercializados pelos fenícios.

A língua grega na formação da palavra Bíblia

A palavra grega para designar papiro é biblos. Este nome vem do nome do porto Fenício de Biblos (atual Jubayl / Líbano), porto este que recebia os papiros egípcios e os vendia em todo o Mediterrâneo.

Para designar vários livros no grego dizia-se “ta Bíblia”. Portanto, a melhor definição seria biblioteca. Com o decorrer do tempo e a comercialização do papiro no império Romano e a utilização do termo no latim eclesiástico, passou a ser usado para mostrar um conjunto de livros sagrados que formam a Bíblia. Hoje conhecemos a Bíblia dividida em duas partes: Antigo Testamento e Novo Testamento.

Porém, Bíblia não quer só (ou apenas) significar biblioteca, conjunto de livros no sentido de palavras em livros, palavras encadernadas. Longe, portanto, dum sentido literal. Teólogos, exegetas e cristãos esclarecidos, preferem chamar à Bíblia nos tempos de hoje: a mediação relacional entre Deus e o seu povo, primeiro por profetas e depois pelo Seu próprio Filho – Jesus de Nazaré.:

Abordagem do conteúdo

Chegados aqui – ao entendimento que a Bíblia não é Palavra de Deus encadernada, mas mediação – começamos a procura de respostas para um conjunto de dúvidas e inquietações que por vezes assaltam quem, não estando preparado para ler e entender a Bíblia, não as sabe resolver ou mesmo descredibiliza o quão importante é a Bíblia para os cristãos católicos.

Assim:

    1. A Bíblia tem contradições? Tem e muitas, pois foi escrita por homens. Não é um ditado de Deus, nem uma biografia de Jesus, isto no NT. É um conjunto de textos, muitos orantes, outros nem tanto, que foram escritos por homens de Fé e fiéis servidores do projeto do Deus Pai;
    2. Como poderia, a Bíblia, ser Palavra “ditada” por Deus – que é o máximo no amor (ágape no grego– doação plena, amor incondicional) – e depois vemos nela a acontecerem guerras, mortes, assassinatos, dilúvio, destruição, que seriam entendidos como ordens de Deus?
    3. Há erros na Bíblia? Certamente. Tudo o que se refere à ciência está sempre em questionamento. Mais uma vez o resultado da liberdade dada ao escriba e ao homem no seu tempo e modo. Como seria possível saber, mil/dois mil anos antes de Jesus e no tempo de Jesus, que a terra é redonda? Que gira em torno do Sol? Que o mar tem fundo? Etc. Etc. Muitas vezes somos pouco cuidadosos ao interpretar relatos bíblicos. Mais um exemplo: o dilúvio – chover dia e noite com elevada intensidade, durante quarenta dias, não permitia cobrir a terra até à altura de um homem. Mas então é mentira? Não. Trata.se de uma alegoria que vamos perceber mais adiante: o significado do dilúvio, dos 40 dias, etc. etc. E como foi possível falar-se numa barca/arca de tamanha dimensão que albergava um par de animais de todo o tipo (quando ainda se conhecia tão pouco da vida animal), numa altura em que nem o manuseamento das artes do mar eram conhecidas para além do pequeno barco da pesca, ou nem isso?
    4. A Bíblia é a Verdade. Sim, mas cuidado: a Verdade é diferente de verdades contadas em estórias. Contém a Verdade porque a integram textos de autores inspirados que pretendem ajudar o povo de Israel a seguir o projeto de Deus entregue no Monte Sinai (a Aliança), mas que foi tantas vezes violado. O Deus de Moisés e o Deus de Jesus é o nosso Deus e nunca nos abandona. Ele é infinitamente Verdade. Nós e os nossos antepassados judeus é que somos ainda e tantas vezes, o velho Adão;
    5. A Bíblia narra factos históricos? Sim, alguns. Outros, nem tanto. No AT temos narrativa histórica, textos de criação poética (exemplo: a Criação), cânticos de Amor, novelas, genealogias tão importantes na cultura hebraica, mensagens proféticas, etc. E no NT – ensinamentos de Jesus, parábolas e sinais/milagres (escritos 45 a 100 anos depois da Sua morte), cartas das/às comunidades cristãs, etc…
    6. Hoje para os cristãos o AT é importante? Sim, mas como forma de entendermos historicamente o projeto inicial de Deus subvertido pelo povo eleito. O resto fiel do povo eleito veio até Jesus de Nazaré. Na hora da morte, Jesus diria: “mulher eis aí o teu filho” (o novo Israel). E diria ao discípulo amado “eis aí a tua Mãe” (o resto fiel do povo eleito que não se deixou corromper pelo mandato do homem, abandonando o projeto de Deus). O nosso irmão Jesus veio trazer-nos uma nova Aliança, um projeto de Deus vivido e amado por Ele Jesus na unidade com o Pai. Uma atualização da Lei do Sinal – o discurso do Monte (Mt, 5,6 e 7)
    7. Jesus, filho verdadeiro de Deus e homem como nós, morre na Cruz por desejo de Deus? Impossível. Quem matou Jesus foram os políticos romanos e os sacerdotes e autoridades religiosas judaicas. A plena liberdade assumida por Jesus, liberdade que o nosso Deus também nos dá desde o nascimento, é o maior gesto de amor que podemos encontrar. Morreu pelos irmãos, como resultado de ter dado a Vida ao morto Lázaro.
    8. Etc… Etc….

Parece, portanto, evidente que se partirmos despreocupadamente para a leitura da Bíblia, sem estas advertências e cuidados, arriscamo-nos a ser cristãos ritualistas, com algumas virtudes, mas uma carga enorme de mal-entendidos que fazem a nossa Fé soçobrar à mais pequena ventania. Ficar assim, nunca nos levará a perceber o valor e a dádiva do nosso Deus ao fazer-se Carne (Deus humanizado) e ao enviar até nós o seu próprio Filho, homem como nós, mas capaz de cumprir em pleno o projeto do Pai.

Partamos em busca da Verdade, sem medo ou tibiezas, esteados unicamente na certeza de que o nosso Deus é AMOR e nunca nos abandona. É incondicionalmente fiel.

A SEGUIR: O AT (Antigo Testamento) – Primeira abordagem.