Sessão nº 4
O que é a Bíblia?

Introdução (1) – O Antigo Testamento: dos judeus e dos cristãos
  1. Preâmbulo
    O(s) Antigo (s) Testamento (s) é/são constituído(s) por um conjunto de livros que representam – em extensão de páginas e em número de escritos – uma grande desproporção para o NT (Novo Testamento). Esta desproporção faz sentido e logo veremos as razões.Certamente, também, não passou despercebido o termos escrito Antigo Testamento no plural. De facto, poderemos falar em 3 Antigos Testamentos.
    1. Antigo Testamento (também designado por Bíblia Hebraica) para os judeus. Escrito em hebraico e aramaico. Só os escritos/livros na língua dita sagrada: o hebraico e o aramaico;
    2. Antigo Testamento (versão grega, também conhecida por Bíblia dos 70 – Septuagésima – por ter sido traduzida da Bíblia Hebraica escrita em hebraico e aramaico, por 72 sábios de Alexandria e durante o tempo recorde de 70 dias). Destinava-se aos judeus da diáspora emigrados desde o século III a,C e que já não falavam hebraico/aramaico. Falamos de judeus espalhados pelo Egito, Pérsia, Roma, Turquia, etc. Este Antigo Testamento incluiu alguns escritos/livros que só apareceram na língua grego e, portanto, logo rejeitados, pelos judeus da ortodoxia;
    3. Antigo Testamento dos Cristãos – nascido do Antigo Testamento na versão grega dos 70 (Septuagésima) – mas, não em versão integral, pois não aproveitou a totalidade dos escritos/livros daquela.Poderíamos falar, ainda, num 4º Antigo Testamento, nascido após o Concilio de Trento no século XVI com a Reforma e Lutero. Similar ao AT judaico (em grande parte) mas também ao AT dos católicos (noutra parte).
    1. Concretizemos:
    1. O AT dos judeus (a sua Bíblia) contém 39 escritos/livros e cobre todo o período da história de Israel desde o século XI a.C até ao século I d. C. Todavia, os livros mais antigos, só foram escritos a partir dos séculos VIII ou VII a.C.)
      1. O Antigo Testamento dos judeus, também conhecida por Bíblia Hebraica não é, tradicionalmente, assim designado/a, antes a TaNaKa, pois contém 3 grupos de escritos:
      2. Torah – (o Pentateuco se usarmos a língua grega) -, do qual fazem parte os 5 primeiros livros do AT: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio;
      3. Nebiim (Profetas) – do qual fazem parte os escritos dos profetas: os grandes e os menores.Os 12 escritos dos profetas menores estão integrados em um único escrito/livro tendo em conta a pequena dimensão de cada um;
      4. Ketubim (todos os outros)
    2. O Antigo Testamento, escrito em grego, acrescenta a estes 39 escritos/livros, mais um conjunto de livros importantes para a religiosidade hebraica não ortodoxa. Inclui livros apócrifos, etc.
    3. O Antigo Testamento dos cristãos católicos contém 46 livros: todo o Antigo Testamento escrito em hebraico/aramaico, mais 7 livros que foi buscar à versão grega da Septuagésima. Qual o critério? O reconhecimento da importância destes livros para a Fé e piedade dos cristãos das comunidades primitivas. É o caso do 2º livro dos Macabeus, onde se relatam os primeiros martírios de judeus por afirmarem a sua Fé. Os outros são:
      • Livro de Tobias;
      • Livro de Judite
      • Livro da Sabedoria;
      • Livro do Eclesiástico (ou de Ben Sira);
      • Livro de Baruc
      • 1º Livro dos Macabeus
      • Portanto, 46 livros: 39 + 7
        •  
      • Nota:
        É este o AT que está a ser traduzido para português, diretamente do original grego, por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa.
    4. O Antigo Testamento dos cristãos evangélicos/luteranos, apenas com 39 escritos/livros.
      1. Não inclui nenhum dos 7 livros acrescentados pelo AT católico. Alinhamento total com a ortodoxia judaica. Porém, Lutero aconselha-os – e coloca-os no final do Antigo Testamento como apêndice – podendo ser importante visitá-los e conhecê-los. Mas não fazem parte do cânon (lista)
  1.  
  2. Quais os critérios para a escolha dos livros nos diversos Antigos Testamentos? Quem decidiu?
    • Para os judeus:
      • – É já conhecida a exigência de que apenas eram inspirados os escritos na língua sagrada (hebraico/aramaico);
      • – A rejeição de livros não inspirados (como seriam todos os apócrifos e muitos outros);
      • – Os livros/escritos do cânon judaico são aqueles que foram escritos desde a Fé e para a Fé do povo eleito, ultrapassando o sentido literal de Palavra de Deus:
        • – Livros religiosos, certamente (os que são expressão de toda a relação entre Deus e o povo judeu)
        • – Livros políticos (no sentido de escolhas para o cumprimento do Livro/Lei/Torah). Está aqui uma razão para a não inclusão dos livros dos Macabeus, sabida como era a divergência política entre judeus e macabeus. Tal decisão contou com o lugar de proeminência dos fariseus na definição de livros para o culto. Eram os fariseus quem decidiam o que ler ou não no Templo e nas orações;
        • – Livros de geografia (importante que as tribos tenham conhecimento seguro do seu território o que evitaria discussões contrárias ao desejo de Deus);
        • – Livros de matriz cultural (provérbios, canções, lendas, etc. que identificam a sociedade e o seu funcionamento no quadro do povo de Israel). Aqui, por exemplo, foram muitas as discussões sobre a inclusão do Cântico dos Cântico livro que, por ter poemas e cânticos de amor, pareciam como não adequados.  Também a mesma razão para a exclusão do Livro do Eclesiástico (ou de Ben Sira). Era um livro muito critico da vida do Templo e dos sacerdotes. Quem não se lembra desta passagem: “Vaidade das vaidades. Tudo são vaidades”.
      • – Etc…
      • Mas, afinal quem definiu estes critérios? Não há certezas. Há indicações que ocorreram no século V a.C. e terão mão de Esdras – sacerdote e escriba e Nehemias – líder politico e governador de Jerusalém pós-exílio.
        •  

    • Para os cristãos católicos:

      • Lembremos que estamos no século I e seguintes d.C.
      • – Os cristãos emergem do judaísmo ou são provenientes de pagãos que vivem e pertencem ao mundo grego e ao império romano, com uma enorme abertura à novidade e desejosos de um projeto de salvação.
      • – Regem-se por critérios de utilidade e importância prática para o reconhecimento de uma razão efetiva para a vida, de que Deus é Pai (judeus cristianizados), que Deus é Amor. Aqui, uma especial atenção às origens do Cristianismo. Jesus era judeu e frequentador assíduo da sinagoga. Lia os Profetas, os Salmos etc. O projeto continuado pelos discípulos teria de ser coerente com os ensinamentos Não haveria que rejeitar nada que pudesse ajudar à busca do Reino de Deus entre os homens. Só de rejeitar o sentido vazio do culto e do esquecimento do povo.Mas,
      • – A enorme heterogeneidade de culturas, o reconhecimento do plano de Jesus e as adesões em muitas e variadas geografias, criou muita discussão;
      • – Cada comunidade cristã nascente alterava, repunha, retirava livros e escritos. Havia muitos cânones;
      • – O critério final só foi esclarecido, definitivamente, após longa discussão pelo Concílio de Trento – seculo XVI. E ficaram consagrados os 2 cânones já referidos: o cânon católico com 46 livros e o cânon luterano com 39 livros
  3. Resumo
    1. (Bíblia hebraica) = Antigo Testamento     
      1. –  39 livros;
        –  Fechada em si mesma. Não entram/ não saem livros;
        –  Há livros mais importantes que outros A Torah (lei/ensinamento) é central. A Torah (Pentateuco) ocupa nas sinagogas o lugar do Sacrário nas Igrejas Católicas;
        –  Dentro da Torah o livro mais importante para os judeus é o Levítico (era centrado no culto do Templo enquanto existiu). Agora perdeu o sentido de livro central, mas a relevância história e memorativa ainda existe.
    2. Antigo Testamento Católico
      1. –  46 livros;
        –  Entram novos livros (estamos a comparar com a Bíblia Hebraica que se resume ao A.T);
        – Todos os livros do AT são de igual importância. A haver algum destaque iria para os livros Proféticos, por serem identificados como livros anunciadores do Messias (a seu tempo questionaremos esta ideia que hoje é já quase unânime) e também para os Salmos
        – Para os cristãos católicos, o Levítico, é um livro que não faz sentido ler, ou se foi e é lido, apenas o é para conhecimento histórico, pois para os cristãos o lugar de Deus (o Templo) é Jesus – caminho, verdade e vida.

A SEGUIR: O NT (Novo Testamento): primeira abordagem.