Sessão nº 5
O que é a Bíblia?

Introdução (2) – O Novo Testamento 
  1. Preâmbulo:
    1. Falar do Novo Testamento (NT) só faz sentido para os cristãos – católicos e outros.
    2. Juntando o NT ao AT, tratado na sessão anterior, teremos a Bíblia dos Cristãos. Sendo o NT igual para todos os cristãos, sempre traduzido a partir do grego (língua em que foi escrito), com o mesmo número de livros (27). Mas como o AT não é comum na totalidade (ver sessão anterior), não poderemos falar numa única Bíblia Cristã. Trabalharemos apenas sobre a Bíblia Católica. Portanto, daqui para diante, não mais apresentaremos esta diferenciação. Sempre que falarmos em Bíblia, estamos a referir-nos à Bíblia Católica.
    3. São muitas as traduções do NT, mas a economia de conteúdos é a mesma e única. Porém, as traduções muitas vezes não são felizes, quer por falta de conhecimentos, quer por falta de acesso a fontes, etc. O AT em grego (AT grego – traduzido do hebraico/aramaico e acrescentado de alguns livros) e todo o NT escrito só em grego vieram, mais tarde, a ser traduzidos para latim (conhecida Vulgata) – entre finais do século IV/inícios do século V da nossa era – e, daí para português. Traduzir de traduções fica difícil. Por isso faz todo o sentido traduzir do original, que já não o é para o AT quase todo, mas aqui não há solução. Fica, pois a advertência: a melhor tradução da Bíblia (AT e NT) é (será, porque ainda não está toda disponível) a tradução de Frederico Lourenço, Prémio Pessoa. E é ainda mais validada esta opinião, pois é uma tradução não confessional, já que o tradutor se declara ateu. E isto é importante, pois não há lixo na tradução que se assume como iminentemente técnica, por quem sabe muito e bem a língua grega. Outras traduções muito razoáveis – A Bíblia de Jerusalém e a Bíblia dos Capuchinhos. Não há Bíblias proscritas (pensa-se), mas pede-se o cuidado em alguns conteúdos porque, como sabemos, traduzir mal é muitas vezes pior que não traduzir.
  2. Quantos são os Livros do Novo Testamento (NT)?
    1. Dissemos já que o NT foi todo escrito em grego: Ocorre entre os anos 45 d.C e 100/110 d.C. Também a língua oficial do Império Romano, geografia por onde se estendem os acontecimentos e revelações transmitidas por Jesus, Deus feito homem, era o grego. O latim, só surge naquelas paragens por volta do século III da nossa era.
    2. O NT é igual para todos os cristãos, sejam de que Igreja (comunidade) sejam.
    3. São 27 os livros do NT. Como fizemos para o AT, talvez seja melhor falarmos em escritos, pois há livros muito pequenos e até textos tipo post-it (veja-se a carta de Paulo a Filémon
    4. Como se dividem estes 27 escritos?
      1. 5 Livros – 4 (Evangelhos – Atos de Jesus) + 1 (Atos dos Apóstolos);
      2. 21 Cartas (20 cartas epistolares + 1 bilhete (post-it) Paulo a Filémon
        1. – As cartas eram escritos ou epistolas que nasceram de correspondência entre comunidades, atividades apostólicas e vivência cristã e tinham a seguinte classificação:
          1. Apostólicas – de apóstolos para comunidades individuais;
          2. Católicas – universais: alguns escrevem para muitos;
          3. Doutrinais – escritos longos para desenvolver uma tese e fundamentar a mesma tese (exemplo: Carta aos Hebreus)
      3. 1 Escrito profético apocalíptico – Livro do Apocalipse.
        1. – Escrito profético que surge num contexto de perseguição e sofrimento.
        2. – É um escrito para ver além da vista. É um escrito de REVELAÇÃO….
        3. – Para superação (o que está à vista é dantesco…)
        4. – Não catastrófico, porque temos de ver para além da vista!!!!
    5. Quando foram e como foram escritos?
      1. O NT foi escrito entre os anos 45 d.C e 100/110 d. C.
      2. Todo o NT tem génese apostólica/comunitária. Não há autores/escritores no sentido tradicional. Antes redatores. Por exemplo: Evangelho de Marcos resulta das informações e vivências da comunidade de Marcos em Roma. Marcos foi apenas o redator. Por isso o estilo, conteúdo catequético e relatos históricos em cada evangelista têm de ser lidos com esse cuidado. E se assim não fizermos nunca entenderemos os Evangelho e o restante dos conteúdos da Bíblia. Pensemos no seguinte: Ao escrever para um o jornal diário, a forma como se escreve um texto sobre política é muito diferente de um texto sobre futebol ou meteorologia. Se se trata de um texto sobre um acontecimento passado há 100ou 500 anos a situação ainda é mais diversa. Pensemos, sempre, nisto ao ler qualquer livro da Bíblia.
      3. 1º Escrito – Carta de Paulo aos Tessalonicenses (por volta do ano 45/47 d.C.);
      4. Evangelhos aparecem por esta ordem: Marcos o primeiro por volta do ano 60/65 d.C. Depois Mateus por volta dos anos 70/75 d.C. Segue Lucas por volta dos anos 75/80 d.C. Finalmente João por volta dos anos 95/100 d.C, E, como nos acontece a nós, quanto mais longe estamos dos factos que queremos escrever/narrar, somos capazes de o fazer com menos “poeira”. Esta é uma preciosa ajuda para perceber as diferenças nos Evangelhos, o que não pretende significar que haja erros históricos ou menos Verdade. Já agora: quem escreve e para quem se escreve, é um pormenor importante. Vamos ter tudo isto presente quando passarmos pelos Evangelhos;
      5. Últimos escritos do NT: cartas joaninas e livro do Apocalipse, este por volta do ano 110 d.C.
      6. A divisão entre Evangelhos sinópticos e o Evangelho de João. Sinóptico significa semelhante/paralelo. De facto, os textos contidos nos evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas são textos com possibilidade de leitura em paralelo. Mas isso só acrescenta importância para melhor perceber os ensinamentos, as parábolas e os sinais/milagres de Jesus. Será uma ajuda adicional à necessidade de boa compreensão da Boa Notícia (Evangelion no grego). O Evangelho de João é um caso à parte. Dar-lhe-emos a devida atenção.
  3. Quais os critérios para integrarem o Cânon (lista) de Livros do NT – católicos, protestantes e ortodoxos?
    A decisão sobre o cânon do NT, ainda hoje em vigor, foi encontrada no Concílio de Niceia – Ano 325 d.C. São critérios:

    1. Antiguidade;
    2. Tradição apostólica – que vem da tradição dos Apóstolos e das suas comunidades – que vem da tradição de Jesus – o Cristo. Se não forem textos usados nas celebrações comunitárias de memória e louvor dos cristãos reunidos, não podem fazer parte da lista. Aqui está a razão para a rejeição dos evangelhos apócrifos no cânon. Porque eram construções gnósticas e não baseadas na tradição comunitária;
      NOTA: Não fazer parte do cânon não quer dizer proscritos. Faz todo o sentido, por exemplo, ler os evangelhos apócrifos para informação adicional de estilo cultural, mas não como base de louvor e celebração cristã;
    3. Circulação comunitária. Escritos que circulavam nas diversas comunidades e eram, portanto, aceites comunitariamente. Escritos anónimos e/ou pessoais não eram aceites;
    4. Uso litúrgico. Eram escritos utilizados nas celebrações da Fé, no primeiro dia da semana. Conduzem ao louvor, ação de graças e oração.
  4. Resumo:
    A Bíblia católica:

    1. É composta por 73 escritos/livros: o AT por 46 e o NT por 27;
    2. Não é a Palavra de Deus encadernada. É palavra de homem ainda que em substancial parte inspirada aos redatores e muitas vezes resultante da vivência presencial ou da tradição oral Aliás há textos, , sobretudo provenientes do AT e hoje selecionados para os lecionários das celebrações da Palavra, em que faria todo o sentido que o leitor não terminasse dizendo: Palavra do Senhor. A Bíblia é antes uma mediação para percebermos o projeto de Deus – anunciado ao longo de todo o AT e realizado/apresentado por Jesus – a Palavra feita carne no NT. Há tanto a trabalhar para viver como Deus quer. O grande desafio vem na Carta Magna do cristianismo. A apresentação desse desafio/programa de Jesus homem e Deus é claro – leiam-se os capítulos 5,6 e 7 de Mateus (O Sermão da Montanha que começa com as Bem-aventuranças).
    3. Para conhecer e compreender a Bíblia, precisamos de fazer um trabalho sério e paciente. A Bíblia é uma biblioteca intemporal. Um conjunto de livros únicos, que interpelam mesmo os não crentes.

A SEGUIR: Depois da introdução a (In)tradução