Sessão nº 6
Como se lê a Bíblia?

Preâmbulo:
Responder a um “como” implica uma via concreta/prática.
Fazer uma pergunta também implica fazer e bem uma resposta.
Muitas vezes a preocupação é procurar forma de fazer “coisas fáceis”, porque para as difíceis não há tempo nem disponibilidade. E para lermos a Bíblia como merece ser lida, não é um percurso fácil. Mas podemos descomplicar:

Duas dicas introdutórias:

  1. A Bíblia não é a Palavra de Deus encadernada (perdoem-nos as repetições, mas é uma vontade de clarividência). Poderiam perder-se todas as Bíblias do planeta que não tinha desaparecido a Palavra de Deus. A Bíblia é uma mediação. Não é feita de palavras. É um instrumento de mediação. A palavra de Deus não é uma coisa. É uma pessoa.
  2. Aprender a ler a Bíblia segue as mesmas regras de aprender uma língua estrangeira. Se quero aprender uma língua estrangeira (ex. o espanhol) o melhor é ir lá, passar um ou vários fins de semana. Não basta aprendizagem à distância. Com a Bíblia é a mesma coisa. Visita-a. Não percebo à primeira, vou continuando. E se arranjar com quem ir, ainda melhor. È preciso percorrer lugares, bairros, cidades. S´+o que no caso da Bíblia é Marcos, Lucas, Isaías, Salmos….

Algumas dicas metodológicas:

  1. Arranja a tua Bíblia. De preferência uma boa tradução (exemplo: Bíblia de Jerusalém, capuchinhos, tradução de Frederico Lourenço, etc.), com muitas notas, se possível com mapas e boas introduções a cada um dos 73 livros. Não serve a Bíblia lá de casa. Tem de ser a tua Bíblia. Creio que percebes;
  2. Cria ritmos de leitura. Não vais entrar no mundo bíblico de forma fácil. É preciso organização interior. É preciso ser perseverante. É preciso um calendário para cumprir – dia, hora e tempo;
  3. Quando pegares na tua Bíblia faz um minuto de silêncio interior. Coloca-te em ambiente de oração e escuta. Confia a tua leitura à inspiração trazida pelo Espírito Santo;
  4. Afasta de ti toda a pressão interior. Não é uma nova atividade. Nem sequer tens de aprender tudo à primeira. Não perceber à primeira é possível, mas “empancar é que não. Não entendes…. “encolhe os ombros” e segue. Se parares é que nunca vais entender. Se segues…, hás-de entender. Não tires conclusões sem estares seguro. Não te deixes dominar por “certezas antigas”. Há “certezas” que são outra coisa. Tantas vezes, na Bíblia como noutros textos, lemos o que não está lá;
  5. Lê em voz alta só para ti e de maneira que te ouças. Bíblia é Palavra de ouvir para além de ser Palavra de mastigar e comer. Lembra-te de quantas vezes já passaste por tantos lugares e não viste nada do que estava à frente dos olhos. Ler com voz alta desperta-te para a novidade;
  6. Apanha o todo da narrativa. Não apenas fragmentos. Apanha a história, os momentos, os temas em vez das palavras isoladas. Não te detenhas ainda nos detalhes. Haverá tempo para isso. À frente vai tudo ser mais fácil. Algumas achegas fundamentais:
    1. Atenção aos verbos (centralidade da ação)
    2. Atenção aos …. mas (há sempre um volte-face a seguir)
    3. Atenção aos…. então (tens de ler o que está antes, para perceber o que vem a seguir)
    4. Atenção aos antes, e … aos depois. Exemplo: O relato duma cura:
      Como estava cada personagem antes? Como ficou depois? O que está igual? O que está diferente? Quem fez diferente?
  7. Não leias muito de “enfiada”. A Palavra de Deus é de comer, mas precisa de ser mastigada. Cuidado com a leitura “a metro”.
  8. Também não “petisques” só uns versículos. Isso é para depois. Para entendimentos mais profundos, quando tiveres mais “cumplicidade” com a Palavra, afinal com a pessoa Jesus de Nazaré. Todavia, guarda as palavras/expressões que te parecem e percebes serem sementes para novas abordagens. Depois vais voltar aí e saborearás muito mais e melhor;
  9. Não tenhas pressa. Tem muita paciência. Mantém o ritmo. Dá a ti mesmo esse presente do ter tempo. Não faças perguntas sobre perguntas. Absorve o que vais lendo e as respostas que vais ouvindo. Não queiras saber tudo já. A clarividência é resultado da caminhada. Tu vais falhar. É certo. Não é uma hipótese, é uma certeza. Mas é melhor ser assim e estares disponível para recuperar de imediato. Falar direto é muito mais seguro do que deixar no condicional: se, se, se…. Lembra-te da passagem de Mateus 7, 24-27

24«Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. 25Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e abateram-se sobre aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. 26Mas todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as põe em prática, será semelhante a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. 27Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos e lançaram-se contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua queda».

Se falhas uma vez, não há problema. Se falhas duas tens de recuperar o tempo passado. Mas, se falhas 3, 4 etc…então acabou. Não vais recuperar.

  1. São 73 os livros da Bíblia católica. Mas não todos os livros de igual importância. Há livros fundamentais. A nossa perspetiva é Jesuânica, não judaica. Deixa-se a seguir uma de entre outras metodologias de boa leitura para entendimento da Bíblia católica.
    • – Começar pelo Evangelho de Marcos. É o mais curto, o primeiro a ser escrito. O mais incisivo sem grandes desenvolvimentos;
      • – Depois:
        • – Carta de Paulo aos Gálatas;
          – Carta de Paulo aos Filipenses;
      • – Um salto ao AT – Salmos de Louvor – Salmos 113 a 118;
        • – Evangelho de João;
          – 1ª Carta de Paulo aos Coríntios;
          – 2ª Carta de Paulo aos Coríntios;
      • – Novamente um salto ao AT – Livro da Consolação -II Isaías – Capítulos 40 a 55;
        • – Evangelho de Lucas;
          – Ainda de Lucas – Atos dos Apóstolos;
      • – De volta ao AT para o livro da universalidade – Profeta Jonas – 4 capítulos;
        • – Carta de Paulo aos Efésios;
          – Carta de Paulo aos Romanos;
          – 1ª Carta Paulo a Timóteo;
          – 2ª Carta de Paulo a Timóteo;
      • – Novamente o AT -Salmos das Subidas, tantas vezes rezados por Jesus – 120/134;
        • – Carta aos Hebreus – um dos mais deliciosos textos da Bíblia;
          – 1ª Carta de João;
      • – De novo o AT – Cântico dos Cânticos;
    • e, finalmente, o primeiro livro da Bíblia – Génesis.
  • Pés ao caminho…….

OBS: Reflexão baseada em propostas do P. Rui Santiago, cssr.

A SEGUIR – (In)tradução para bem perceber a Bíblia/Um dicionário de bolso