“DA ELEIÇÃO DOS DOZE À ORDENAÇÃO DE MULHERES”.

             12 agosto 2020 – www.pontosj.pt

 

Limitar o que foi a eleição dos doze à afirmação de que Jesus escolheu apenas homens é ficar por uma leitura superficial do acontecimento.

O tema não é novo, mas não é todos os dias que ouvimos o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa afirmar que “não veria mal a possibilidade de termos padres casados dentro da nossa Igreja.” Foi no contexto de uma entrevista concedida por D. José Ornelas ao jornal Público, dois dias após a sua eleição para aquele cargo. Revelando uma grande liberdade, o também bispo de Setúbal referiu-se ainda à ordenação de mulheres, admitindo que esse tema é mais complicado. Mas defendeu que “não se pode é pretender que o problema não existe. Há que confrontá-lo com a reflexão da própria Igreja e com a sua experiência para ir encontrando caminhos.” Não falou, por conseguinte, de caminhos fechados, mas que “a Igreja tem de discernir e de ver.”

Estas declarações ganham um interesse acrescido se nos recordarmos que, em 2011, D. José Policarpo, então recém-eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, foi chamado ao Vaticano para explicar as declarações feitas numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados, publicada em junho daquele ano, na qual afirmou que não via nenhum obstáculo fundamental à ordenação de mulheres, acrescentando: “É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja.”

Já em 2003, D. José Policarpo revelara esse entendimento numa conferência de imprensa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Respondendo a um jornalista, defendeu que “teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental [à ordenação de mulheres]; há esta tradição, digamos assim… Nunca foi de outra maneira.” E, antecipando o que a si próprio lhe iria acontecer oito anos depois, disse ainda: “No momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar… Suscita uma série de reações.”

Não surpreende, por isso, que, na presença de um Papa que aposta na sinodalidade, surja um maior número de vozes a falar sem receio sobre o fim da obrigatoriedade do celibato dos sacerdotes e a ordenação de mulheres.

Estes problemas continuam ainda hoje a suscitar muitas reações, mas o momento que a Igreja Católica vive é radicalmente diferente. Não surpreende, por isso, que, na presença de um Papa que aposta na sinodalidade, surja um maior número de vozes a falar sem receio sobre o fim da obrigatoriedade do celibato dos sacerdotes e a ordenação de mulheres. É também o caso de D. Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, que, em entrevista recente ao jornal La Repubblica, revelou a sua opinião sobre estas duas questões: “Não me parece que seria prejudicial para a Igreja [Católica] se também houvesse sacerdotes casados. Pelo contrário.” Quanto à ordenação de mulheres, considerou-a “uma necessidade” que “está aí, no meio da Igreja”, sendo que os argumentos apresentados contra a mesma “na maioria dos casos já não são aceitáveis.” Estas declarações têm ainda maior relevância por terem surgido num momento em que decorre um invejável Caminho Sinodal na Alemanha que chamou toda a comunidade católica a participar, sem preconceitos, numa reflexão que não foge dos temas sensíveis, entre os quais se encontram aqueles dois.

No que respeita à ordenação sacerdotal de homens casados, ninguém nega essa possibilidade. Não é um dogma da Igreja Católica, mas uma lei que pode ser alterada pelo Papa a qualquer momento, para além de que a Escritura o legitima. Afinal, não recomendou S. Paulo que bispos (1Tm 3, 2) e presbíteros (Tt 1, 6) fossem maridos de uma só mulher?

Os que estão contra esta mudança recorrem frequentemente ao argumento de que os apóstolos eram solteiros, apesar de ser certo que São Pedro tinha uma sogra (e, consequentemente, uma mulher). Evocam, então, uma tradição antiga que diz que ele já seria viúvo ao tempo de Jesus. Existe, no entanto, uma outra tradição que afirma o contrário, que a mulher de Pedro estava viva e que até o acompanhou na sua viagem a Roma, onde foi martirizada com ele. É importante notar que quem o afirmou não foram supostos inimigos da Igreja, mas dois dos seus mais destacados membros: São Clemente de Alexandria (c.150-c.215), contado entre os Padres da Igreja, e Santo Eusébio de Cesareia (c.265-339), considerado o pai da história da Igreja.

Perante isto, como ficamos? A única resposta honesta é aceitar que simplesmente não conseguimos saber com toda a segurança se a mulher de Pedro ainda era viva ao tempo de Jesus. E aceitar que é, de facto, possível que estivesse viva e que isso não foi um problema para Jesus nem para nenhum dos outros apóstolos. Apóstolos que, na verdade, também podiam ser casados (ou pelo menos alguns), se atendermos à pergunta de S. Paulo aos cristãos de Corinto: “Não temos o direito de levar connosco, nas viagens, uma esposa cristã, como os restantes Apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas?” (1Co 9, 5)

Há toda a legitimidade, por conseguinte, para que num futuro mais ou menos próximo a Igreja Católica altere a sua lei de forma a permitir a ordenação sacerdotal de homens casados que se sintam chamados a servir nessa condição. Espera-se que o faça, no entanto, não para combater a falta de padres, mas por reconhecer que o Espírito Santo também é capaz de suscitar padres santos entre os homens casados. É certo que esta mudança obrigará a uma reorganização da Igreja. Mas, como refere D. José Ornelas, “outras Igrejas que têm a tradição de padres casados resolveram esse problema e também nós haveríamos de resolvê-lo.”

Mais difícil tem sido o debate em torno da ordenação de mulheres. Quem se opõe, nem quer perder muito tempo com o assunto, pois considera que a questão foi encerrada definitivamente pelo Papa João Paulo II em 1994, com a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis. Quanto ao argumento, resume-se no seguinte: Jesus chamou apenas homens para apóstolos. O próprio Catecismo da Igreja Católica o repete e, como “a Igreja reconhece-se vinculada por essa escolha feita pelo Senhor em pessoa (…), a ordenação das mulheres não é possível.” (CIC 1577)

No entanto, limitar o que foi a eleição dos doze à afirmação de que Jesus escolheu apenas homens é ficar por uma leitura superficial do acontecimento. Dá-se origem, deste modo, a uma conclusão simplista e enviesada que reduz o critério da escolha dos doze unicamente ao facto de que estes eram do sexo masculino e não do feminino. E assim se faz parecer, desde logo, que uns e outras eram tidos como iguais e o contexto histórico e social ao tempo de Jesus semelhante ao nosso.

A pergunta impõe-se: terá sido mesmo assim? Terá Jesus feito a sua escolha tendo como critério fundamental o género dos seus discípulos, dizendo ou pensando: este pode ser apóstolo porque é homem, aquela não porque é mulher? Terá sido isso o mais importante para Jesus?

Terá Jesus feito a sua escolha tendo como critério fundamental o género dos seus discípulos, dizendo ou pensando: este pode ser apóstolo porque é homem, aquela não porque é mulher? Terá sido isso o mais importante para Jesus?

Vejamos bem quem foram os doze escolhidos: “primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que o traiu.” (Mt 10, 2-4) De facto, não há nenhuma mulher incluída nesta escolha. Mas como não reparar que também não há nenhum grego, nem nenhum romano, nem qualquer pessoa de outra nação? Nem sequer o centurião de quem Jesus disse (antes de eleger os doze, convém notar): “Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé!” (Mt 8,5) Não poderia Jesus ter escolhido pelo menos este romano cheio de fé?

Pelos vistos, não. Jesus escolheu apenas judeus. E, no entanto, não damos qualquer relevância a esse facto. Foi um mero acaso? Uma coincidência irrelevante? Ou terá sido intencional e, na verdade, o seu principal critério de eleição?

A Escritura diz-nos que o seu projeto começou por se destinar apenas ao povo judaico. Aos doze instruiu: “Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mt 10, 5-6) E à cananeia respondeu de forma dura: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mt 15, 24). Se dúvidas subsistirem, o facto de terem sido doze os escolhidos, devia ajudar a dissipá-las. Qualquer judeu percebia a relação: doze eram também as tribos de Israel. E por isso Jesus prometeu aos doze eleitos: “haveis de sentar-vos, em tronos, para julgar as doze tribos de Israel.” (Lc 22, 30)

Ou seja, mais do que o sexo dos discípulos, o que se revela de forma mais significativa na base da escolha de Jesus é a sua origem. Jesus escolheu propositadamente apenas doze judeus. Pelo que se a Igreja Católica se considera vinculada à escolha de Jesus, como afirma o Catecismo, não deveria então, em coerência, estar impedida de ordenar homens de todas as nacionalidades? Porque, de facto, Jesus não os quis nos doze.

A Igreja Católica não o faz, e bem, porque, quando a boa nova se alargou aos gentios, a comunidade cristã soube alargar também os parâmetros dessa eleição. No contexto histórico de Jesus e tendo ele um projeto destinado a Israel, a sua escolha de doze homens judeus era perfeitamente justificada. Mas no quadro universal para o qual evoluiu o cristianismo, essa exclusividade não fazia mais sentido. Que cristianismo se teria desenvolvido se, ao mesmo tempo em que se abriam comunidades por todos os povos e nações, se tivesse mantido que apenas judeus podiam ser bispos e presbíteros?

Se hoje são ordenados homens de todas as nacionalidades é porque num momento histórico, posterior à morte e ressurreição de Jesus, a comunidade que o seguiu foi capaz de escutar ativamente os sinais do Espírito e reinterpretar teologicamente a eleição feita pelo seu mestre.

Por isso se compreende o alargamento desta escolha a homens de outras nações. Abertura que não terá sido isenta de dificuldades e discussões, pois os Atos dos Apóstolos não as escondem. Basta lembrar como Pedro foi alvo de censura pelos circuncisos pelo simples facto de ter entrado em casa de pagãos e comido com eles, o que o obrigou a justificar o seu procedimento, dizendo: “Se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, por terem acreditado no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para me opor a Deus?” (At 11, 17)

Se hoje são ordenados homens de todas as nacionalidades é porque num momento histórico, posterior à morte e ressurreição de Jesus, a comunidade que o seguiu foi capaz de escutar ativamente os sinais do Espírito e reinterpretar teologicamente a eleição feita pelo seu mestre. Sem essa atualização pela comunidade, não teria sido possível que esta eleição passasse a incluir não judeus.

Porque não usar nos nossos dias da mesma sabedoria que permitiu a Igreja alargar a “escolha feita pelo Senhor em pessoa” a homens de todas as nações, para a estender agora a mulheres que também tenham recebido esse dom? Não se pode dizer que é algo que esteja fora do seu alcance. Basta-lhe repetir o que fez nos seus primeiros tempos: reler a eleição dos doze com os olhos no presente e os ouvidos atentos ao Espírito Santo.

João Alves da Cunha

Nasceu e vive em Lisboa. Arquiteto pela FAUL (1997) e Mestre em Reabilitação da Arquitetura e Núcleos Urbanos pela mesma faculdade (2003). É Doutor em História da Arquitetura na FAUL (2014) com a tese “MRAR – Movimento de Renovação da Arte Religiosa e os anos de ouro da Arquitetura Religiosa em Portugal no século XX”, sob a orientação dos arquitetos José Manuel Fernandes e Nuno Teotónio Pereira, trabalho distinguido pela FAUL com o Prémio Professor Manuel Tainha, correspondente à melhor tese de Doutoramento em Arquitetura nos anos 2013-2014. É conferencista e autor de diversos artigos na área da arquitetura religiosa. Tem organizado, desde 2010, encontros e exposições de arquitetura e de arquitectura religiosa. É investigador do Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica Portuguesa. É casado e pai de 5 filhos. Pertence à CVX – Comunidade de Vida Cristã.

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